Universo da obra
Universo da obra
Às quatro horas da tarde seguinte, o alemão atravessava a planície a cavalo, voltando da busca pelas ovelhas perdidas. Cavalgava devagar, pois estivera na sela desde o nascer do sol e estava um tanto cansado; e o calor da tarde tornava sonolento o cavalo enquanto este escolhia lentamente o caminho pela estrada arenosa. De quando em quando uma grande aranha vermelha saltava do karoo de um lado da trilha e corria para o outro; mas nada mais quebrava a monotonia imóvel.
Pouco depois, atrás de um dos mais altos arbustos-leiteiros que pontilhavam a beira da estrada, o alemão avistou uma mulher cafre sentada ali, evidentemente em busca da sombra que o arbusto pudesse oferecer contra os raios inclinados do sol.
O alemão desviou o cavalo para fora da estrada. Não era seu costume passar por criatura viva sem uma palavra de saudação. Chegando mais perto, descobriu que não era outra senão a esposa do pastor cafre fugido. Trazia um bebê amarrado às costas por uma tira suja de manta vermelha; outra tira, mal maior, torcia-se em torno da cintura; quanto ao resto, seu corpo negro estava nu. Era uma mulher soturna, de aparência feia, com lábios horrivelmente salientes.
O alemão perguntou como ela chegara ali. Ela resmungou em holandês quebrado que fora expulsa. Fizera algum mal? Sacudiu a cabeça, taciturna. Haviam-lhe dado comida? Grunhiu uma negativa e espantou as moscas do bebê. Dizendo à mulher que ficasse onde estava, ele virou a cabeça do cavalo para a estrada e partiu a galope furioso.
— Coração duro! Cruel! Oh, meu Deus! É este o caminho? É isto a caridade?
— Sim, sim, sim — ejaculou o velho enquanto cavalgava; mas logo sua ira começou a evaporar, o passo do cavalo se abrandou e, quando chegou à própria porta, ele já assentia e sorria.
Desmontando depressa, foi até o grande baú onde guardava suas provisões. Ali tirou um pouco de farinha, um pouco de mealies, alguns bolinhos de brasa. Amarrou-os em três lenços azuis e, pondo-os numa bolsa de lona, passou-a sobre os ombros. Então olhou circunspecto para fora da porta. Era muito ruim ser descoberto no ato de dar; isso o fazia corar até a raiz dos velhos cabelos grisalhos. Não havia ninguém por perto, contudo; e assim tornou a cavalgar.
Ao lado do arbusto-leiteiro ainda estava sentada a mulher cafre — como Hagar, pensou ele, lançada pela senhora ao deserto para morrer. Dizendo-lhe que soltasse o lenço da cabeça, despejou nele o conteúdo da bolsa. A mulher amarrou-o em silêncio sombrio.
— Deve tentar chegar à próxima fazenda — disse o alemão.
A mulher sacudiu a cabeça; dormiria no campo.
O alemão refletiu. Mulheres cafres estavam acostumadas a dormir ao ar livre; mas a criança era pequena, e depois de um dia tão quente a noite podia ser fria. Que ela voltaria rastejando às cabanas da propriedade quando a escuridão a favorecesse, a sagacidade do alemão não lhe tornou evidente. Tirou o velho casaco marrom sal-e-pimenta e estendeu-o a ela. A mulher o recebeu em silêncio e colocou-o sobre o joelho.
— Com isso eles dormirão quentes; nada mau. Ha, ha! — disse o alemão.
E cavalgou de volta, meneando a cabeça de um modo que deixaria tonto qualquer outro homem.
— Eu queria que ele não voltasse esta noite — disse Em, o rosto molhado de lágrimas.
— Será a mesma coisa se ele voltar amanhã — disse Lyndall.
As duas meninas estavam sentadas no degrau da cabana, chorando pela volta do alemão. Lyndall protegeu os olhos com a mão contra a luz do pôr do sol.
— Lá vem ele — disse —, assoviando “Ach Jerusalem du schone” tão alto que posso ouvi-lo daqui.
— Talvez tenha encontrado as ovelhas.
— Encontrado! — disse Lyndall. — Ele assoviaria exatamente assim se soubesse que teria de morrer esta noite.
— Vocês olham o pôr do sol, hein, pintinhos? — disse o alemão, chegando em passo vivo. — Ah, sim, isso é belo! — acrescentou, desmontando, e parou um momento com a mão na sela para olhar o céu da tarde, onde o sol lançava longos riscos flamejantes, entre os quais e o olho flutuavam nuvens amarelas e finas. — Ei! vocês choram? — disse o alemão, quando as meninas correram até ele.
Antes que tivessem tempo de responder, ouviu-se a voz de Tant Sannie.
— Você, filho do filho do filho de um cão cafre, venha aqui!
O alemão ergueu os olhos. Pensou que a holandesa, saída para se refrescar no terreiro, chamasse algum criado malcomportado. O velho olhou em volta para ver quem poderia ser.
— Velho vagabundo alemão rezador, está surdo?
Tant Sannie estava diante dos degraus da cozinha; neles sentava-se a hotentote magra; no degrau mais alto estava Bonaparte Blenkins, as duas mãos dobradas sob as abas do casaco, e os olhos fixos no céu do poente.
O alemão deixou a sela cair no chão.
— Bish, bish, bish! O que pode ser isto? — disse, e caminhou para a casa. — Muito estranho!
As meninas o seguiram: Em ainda chorando; Lyndall com o rosto bastante branco e os olhos muito abertos.
— E eu tenho coração de demônio, foi o que disse? Você poderia me atravessar com uma faca, poderia? — gritou a holandesa. — Eu não podia expulsar a moça cafre porque tinha medo de você, era? Oh, trapo miserável! Eu amava você, amava? Eu teria querido casar com você, teria? teria? TERIA? — gritou a mulher bôer; — rabo de gato, pata de cachorro! Esteja perto da minha casa amanhã de manhã quando o sol nascer — arquejou —, meus cafres o arrastarão pela areia. Eles o fariam com prazer, qualquer um deles, por um pedaço de tabaco, por todas as suas rezas com eles.
— Estou aturdido, estou aturdido — disse o alemão, de pé diante dela, levando a mão à testa; — eu... eu não compreendo.
— Pergunte a ele, pergunte a ele! — gritou Tant Sannie, apontando para Bonaparte; — ele sabe. Você pensou que ele não pudesse me fazer compreender, mas pôde, pôde, seu velho tolo! Sei inglês o bastante para isso.
— Esteja aqui — berrou a holandesa —, quando a estrela da manhã nascer, e deixarei meus cafres levarem você para fora e arrastá-lo até não restar um osso em seu velho corpo que não esteja quebrado tão miúdo quanto carne de bobotie, velho mendigo! Todos os seus trapos não valem isto — deveriam ser jogados no monte de cinzas — gritou a mulher bôer; — mas eu ficarei com eles pelas minhas ovelhas. Nem um casco podre de sua velha égua o senhor leva; ficarei com ela — tudo, tudo por minhas ovelhas que perdeu, coisa sem Deus!
A mulher bôer enxugou com a palma da mão a umidade da boca.
O alemão voltou-se para Bonaparte, que ainda estava no degrau, absorto na beleza do poente.
— Não me dirija a palavra; não se aproxime de mim, homem perdido — disse Bonaparte, sem mover o olho nem baixar o queixo. — Há um crime do qual toda a natureza se revolta; há um crime cujo nome é repugnante ao ouvido humano — esse crime é o seu; esse crime é a ingratidão. Esta mulher foi sua benfeitora; na fazenda dela o senhor viveu; das ovelhas dela cuidou; na casa dela lhe foi permitido entrar e conduzir o culto divino — honra da qual nunca foi digno; e como a recompensou? — vilmente, vilmente, vilmente!
— Mas é tudo falso, mentiras e falsidades. Preciso, quero falar — disse o alemão, de repente olhando em volta, desorientado. — Estou sonhando? Estão loucos? O que pode ser isto?
— Vá, cão — gritou a holandesa; — eu teria sido uma mulher rica hoje se não fosse por sua preguiça. Rezando com os cafres atrás dos muros do kraal. Vá, cão de cafre!
— Mas então o que há? O que pode ter acontecido desde que saí? — disse o alemão, voltando-se para a mulher hotentote que estava sentada no degrau.
Ela era sua amiga; dir-lhe-ia bondosamente a verdade. A mulher respondeu com uma risada alta, ressoante.
— Dê nele, velha patroa! Dê nele!
Era tão agradável ver o homem branco que fora senhor ser caçado. A mulher de cor ria e jogou na boca uma dúzia de grãos de mealie para mastigar.
Toda ira e excitação desapareceram do rosto do velho. Virou-se devagar e caminhou pelo pequeno caminho até a cabana, com os ombros curvados; tudo era escuro diante dele. Tropeçou no limiar da porta tão conhecida.
Em, soluçando amargamente, teria ido atrás dele; mas a mulher bôer a impediu com uma torrente de palavras que convulsionou a hotentote, tão baixas eram as imagens.
— Venha, Em — disse Lyndall, erguendo a cabecinha orgulhosa —, vamos entrar. Não ficaremos aqui para ouvir essa linguagem.
Olhou nos olhos da mulher bôer. Tant Sannie compreendeu o sentido do olhar, se não as palavras. Bamboleou atrás delas e agarrou Em pelo braço. Havia batido em Lyndall uma vez, anos antes, e nunca o fizera de novo; por isso tomou Em.
— Então você também vai me desafiar, sua feiura de inglês! — gritou; e com uma das mãos forçou a criança para baixo e lhe manteve a cabeça apertada contra o joelho; com a outra bateu-lhe primeiro numa face, depois na outra.
Por um instante Lyndall olhou; então pousou seus dedos pequenos no braço da mulher bôer. Com o esforço de metade de sua força, Tant Sannie poderia ter arremessado a menina de volta sobre as pedras. Não era o poder dos dedos frágeis, embora apertassem firmemente seu pulso largo — tão firmemente que, à hora de dormir, as marcas ainda estavam ali —; mas a mulher bôer olhou para os olhos claros e os lábios brancos e trêmulos, e, com uma maldição meio surpresa, relaxou a mão. A menina passou o braço de Em pelo seu.
— Afaste-se! — disse a Bonaparte, que estava à porta; e ele, Bonaparte, o invencível, na hora de seu triunfo, afastou-se para lhe dar passagem.
A hotentote parou de rir, e um silêncio incômodo caiu sobre os três no vão da porta.
Uma vez no quarto delas, Em sentou-se no chão e chorou alto, amargamente. Lyndall deitou-se na cama com o braço atravessado sobre os olhos, muito branca e quieta.
— Uh, uh! — chorava Em. — E não vão deixá-lo levar a égua cinzenta; e Waldo foi ao moinho. Uh, uh, e talvez não nos deixem ir dizer adeus a ele. Uh, uh, uh!
— Queria que ficasse quieta — disse Lyndall, sem se mover. — Dá-lhe tamanha felicidade deixar Bonaparte saber que está ferindo você? Não pediremos nada a ninguém. Logo será a hora do jantar. Escute — e quando ouvir o tilintar das facas e dos garfos, sairemos para vê-lo.
Em reprimiu os soluços e escutou atentamente, ajoelhada junto à porta. De repente alguém veio à janela e fechou o postigo.
— Quem foi? — disse Lyndall, sobressaltando-se.
— A moça, suponho — disse Em. — Como está cedo esta noite!
Mas Lyndall saltou da cama, agarrou a maçaneta da porta e sacudiu-a com fúria. A porta estava trancada por fora. Rangeu os dentes.
— O que há? — perguntou Em.
O quarto agora estava em perfeita escuridão.
— Nada — disse Lyndall, tranquila; — apenas nos trancaram aqui.
Virou-se e voltou para a cama. Mas não demorou até que Em ouvisse um som de movimento. Lyndall subira à janela e, com os dedos, apalpava a madeira que cercava as vidraças. Deslizando para baixo, a menina soltou o botão de ferro do pé da cama e, subindo outra vez, quebrou com ele todos os vidros da janela, começando por cima e terminando embaixo.
— O que está fazendo? — perguntou Em, que ouviu os fragmentos caírem.
A companheira não respondeu; mas apoiou-se em cada pequena travessa, que estalou e cedeu sob ela. Depois empurrou o postigo com toda a força. Pensara que os trincos de madeira cederiam; mas, pelo tinido, soube que a barra de ferro havia sido posta atravessada. Ficou completamente quieta por algum tempo. Descendo, pegou da mesa um canivete pequeno, de uma só lâmina, com o qual começou a picar a madeira dura do postigo.
— O que está fazendo agora? — perguntou Em, que parara de chorar em seu espanto e se aproximara.
— Tentando fazer um buraco — foi a resposta curta.
— Acha que vai conseguir?
— Não; mas estou tentando.
Em esperou em agonia de suspense. Por dez minutos Lyndall picou. O buraco tinha três oitavos de polegada de profundidade — então a lâmina saltou em dez pedaços.
— O que aconteceu agora? — perguntou Em, recomeçando a choramingar.
— Nada — disse Lyndall. — Traga-me minha camisola, um pedaço de papel e os fósforos.
Admirada, Em tateou até encontrá-los.
— O que vai fazer com eles? — sussurrou.
— Incendiar a janela.
— Mas a casa inteira não vai pegar fogo e queimar também?
— Vai.
— Mas não será muito perverso?
— Será, muito. E não me importo.
Arranjou cuidadosamente a camisola no canto da janela, com as lascas da moldura em torno. Havia apenas um fósforo na caixa. Riscou-o com cuidado na parede. Por um momento ardeu azul e mostrou o rostinho miúdo com os olhos brilhantes. Ela o segurou cuidadosamente junto ao papel. Por um instante o papel ardeu vivo, depois tremeluziu e se apagou. Ela soprou a centelha, mas também morreu. Então jogou o papel no chão, pisou nele, foi para a cama e começou a se despir.
Em correu para a porta, batendo nela desesperadamente.
— Oh, Tant Sannie! Tant Sannie! Oh, deixe-nos sair! — gritou. — Oh, Lyndall, o que faremos?
Lyndall enxugou uma gota de sangue do lábio que mordera.
— Vou dormir — disse. — Se quiser ficar sentada aí uivando até de manhã, fique. Talvez descubra que ajuda; nunca ouvi dizer que uivar ajudasse alguém.
Muito depois, quando Em mesma fora para a cama e quase dormia, Lyndall veio e parou ao lado dela.
— Tome — disse, pondo-lhe na mão um potinho de pó; — esfregue um pouco no rosto. Não arde onde ela bateu?
Depois voltou rastejando para a própria cama. Muito, muito depois, quando Em realmente dormia, ela ainda jazia desperta, e cruzou as mãos sobre o peitinho, murmurando:
— Quando esse dia vier, e eu for forte, odiarei tudo o que tem poder e ajudarei tudo o que é fraco.
E mordeu o lábio outra vez.
O alemão olhou pela porta da cabana pela última vez naquela noite. Depois caminhou lentamente pelo quarto e suspirou. Então tirou pena e papel, e sentou-se para escrever, esfregando os velhos olhos cinzentos com os nós dos dedos antes de começar.
“Meus pintinhos: vocês não vieram dizer adeus ao velho. Poderiam? Ah, bem, há uma terra onde já não se separam, onde santos imortais reinam.
“Estou sentado aqui sozinho e penso em vocês. Esquecerão o velho? Quando acordarem amanhã, ele estará longe. O velho cavalo é preguiçoso, mas tem seu bordão para ajudá-lo; isso são três pernas. Ele volta um dia com ouro e diamantes. Vocês o receberão? Bem, veremos. Vou encontrar Waldo. Ele volta com a carroça; então me seguirá. Pobre menino? Deus sabe. Há uma terra onde todas as coisas são endireitadas, mas essa terra não é aqui.
“Meus filhinhos, sirvam ao Salvador; deem seus corações a Ele enquanto ainda são jovens. A vida é curta.
“Nada é meu; do contrário eu diria: Lyndall, pegue meus livros; Em, minhas pedras. Agora não digo nada. As coisas são minhas: isso não é justo, Deus sabe? Mas fico calado. Que seja. Mas sinto, preciso dizer que sinto.
“Não chorem demais pelo velho. Ele sai em busca da fortuna e volta com ela numa bolsa, talvez.
“Amo meus filhos. Pensam em mim? Sou o Velho Otto, que sai em busca da fortuna.
“O.F.”
Tendo concluído essa produção curiosa, colocou-a onde as crianças a encontrariam na manhã seguinte e pôs-se a preparar sua trouxa. Jamais pensou em apresentar protesto contra a perda de seus bens; como uma criança, submeteu-se e chorou. Estivera ali onze anos, e era duro partir.
Abriu sobre a cama um lenço azul, e nele pôs, uma a uma, as coisas que julgava mais necessárias e importantes — uma pequena bolsa de sementes curiosas, que pretendia plantar algum dia; um velho hinário alemão; três pedras disformes que muito prezava; uma Bíblia; uma camisa e dois lenços; depois disso não havia lugar para mais nada. Amarrou a trouxa bem firme e a colocou numa cadeira junto à cama.
— Não é muito; não podem dizer que levo muito — disse, olhando-a.
Pôs ao lado dela seu bordão nodoso, a bolsa azul de tabaco e o cachimbo curto, e então inspecionou seus casacos. Restavam-lhe dois — um sobretudo roído de traças e uma alpaca preta, rasgada nos cotovelos. Decidiu-se pelo sobretudo; era quente, certamente, mas ele poderia carregá-lo no braço e só o vestir quando encontrasse alguém pela estrada. Era mais respeitável que a alpaca preta.
Pendurou o sobretudo no espaldar da cadeira, enfiou um pedaço duro de bolinho de brasa sob o nó da trouxa, e então seus preparativos estavam completos. O alemão ficou a contemplá-los com muita satisfação. Quase esquecera sua tristeza pela partida no prazer de preparar-se. De repente estremeceu; uma expressão de intensa dor passou-lhe pelo rosto. Recuou rapidamente o braço esquerdo e apertou a mão direita contra o peito.
— Ah, a pontada súbita outra vez — disse.
Seu rosto estava branco, mas logo recuperou a cor. Então o velho ocupou-se de pôr tudo em ordem.
— Vou deixar tudo arrumado. Não dirão que não deixei tudo arrumado — disse.
Até as pequenas bolsas de sementes na lareira ele dispôs em fileiras e espanou. Depois se despiu e meteu-se na cama. Sob o travesseiro havia um pequeno livro de histórias. Puxou-o para fora. Para o velho alemão, uma história não era história. Seus acontecimentos eram tão reais e tão importantes para ele quanto os assuntos de sua própria vida.
Não podia ir embora sem saber se aquele conde perverso se arrependia e se o barão se casava com Emilina. Assim ajustou os óculos e começou a ler. De vez em quando, quando seus sentimentos ficavam fortes demais, ejaculava: “Ah, eu sabia! Esse era um canalha! Vi isso antes! Eu soube desde o começo!” Mais de meia hora se passara quando olhou para o relógio de prata no alto da cama.
— A marcha amanhã é longa; isto não serve — disse, tirando os óculos e colocando-os com cuidado dentro do livro para marcar a página. — Isto será boa leitura enquanto eu caminhar amanhã — acrescentou, enfiando o livro no bolso do sobretudo; — muito boa leitura.
Meneou a cabeça e deitou-se.
Pensou um pouco em seus próprios sofrimentos; muito nas duas meninas pequenas que deixava; no conde, em Emilina, no barão; mas logo adormeceu — dormindo tão pacificamente como uma criancinha, sobre cuja alma inocente a tristeza e o cuidado não conseguem repousar.
Havia grande silêncio no quarto. As brasas na lareira lançavam uma luz vermelha e baça pelo chão, sobre os leões vermelhos da colcha. Onze horas chegaram, e o quarto estava muito quieto.
Uma hora chegou. O fulgor se apagara, embora as cinzas ainda estivessem quentes, e o quarto estava muito escuro. O camundongo cinzento, que tinha sua toca sob a caixa de ferramentas, saiu e sentou-se nos sacos do canto; depois, ficando mais ousado, pois o quarto estava tão escuro, subiu na cadeira ao lado da cama, roeu o bolinho de brasa, deu uma mordida rápida na vela e então sentou-se sobre as patas traseiras, escutando.
Ouviu a respiração regular do velho, e os passos do cão cafre faminto dando sua última ronda em busca de um osso ou de uma pele esquecida; e ouviu a galinha branca gritar quando o gato-do-mato fugiu levando uma de suas crias, e ouviu o pintinho piar. Então o camundongo cinzento voltou para a toca sob a caixa de ferramentas, e o quarto ficou quieto. E duas horas chegaram. A essa altura a noite se tornara opaca e nublada.
O gato-do-mato havia ido para sua morada no kopje; o cão cafre encontrara um osso e jazia roendo-o.
Um silêncio intenso reinava por toda parte. Só em seu quarto a mulher bôer agitava os grandes braços durante o sono; pois sonhava que uma sombra escura, de asas estendidas, fugia lentamente por sobre sua casa, e ela gemia e estremecia. E a noite estava muito quieta.
Mas, por quietos que estivessem todos os lugares, havia um silêncio muito peculiar no quarto do alemão. Ainda que se aguçasse o ouvido com todo cuidado, não se captava nenhum som de respiração.
Ele não partira, pois o velho casaco ainda pendia na cadeira — o casaco que seria vestido quando encontrasse alguém; e a trouxa e o bordão estavam prontos para a longa marcha de amanhã. O próprio velho alemão jazia ali, os cabelos ondulados e negros apenas tocados de grisalho, jogados para trás sobre o travesseiro. O velho rosto estava ali sozinho no escuro, sorrindo como o de uma criança — oh, tão pacificamente.
Há um estranho cuja chegada, dizem, é pior do que todos os males da vida, de cuja presença fugimos tremendo; mas às vezes ele vem com muita ternura. E parecia quase que a Morte conhecera e amara o velho, tão suavemente o tocou. E como poderia ela tratar com dureza aquele velho amoroso, simples, infantil?
Assim, alisou as rugas da velha testa, fixou o sorriso que passava, selou os olhos para que não chorassem outra vez; e então o curto sono do tempo se dissolveu no longo, longo sono da eternidade.
— Como ele ficou tão jovem em uma só noite? — disseram quando o encontraram pela manhã.
Sim, querido velho; a seres como você o tempo não traz idade. Morre-se com a pureza e a inocência da infância sobre si, embora se morra de cabelos grisalhos.
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