I - A Leitura
Cegara o velho general e desde então nada havia que o fizesse sorrir; nada que lhe prendesse a atenção, nada que o distraísse! Mergulhado na pavorosa noite da cegueira entregava-se completamente a todo o horror das suas cerradas trevas, sem forças para reagir.
Tinha só uma filha, viúva, e uma neta, que a mãe puzera num colégio pensionista.
Um dia, vendo a boa senhora que o pai estava pior e mais triste ainda, mandou buscar a filha, a sua Valentina.
Veio a menina ameigar o avô; beijava-o, passava-lhe pelas longas barbas brancas as mãozinhas mimosas, contava-lhe coisas divertidas passadas entre as colegas e ela... e o velho silencioso!
Esgotados todos os recursos tomou a pequenita um livro e pôs-se a ler umas histórias de guerra, umas cenas de campo de batalha, e de hospital de ambulância...
O rosto do infeliz general transformou-se; uma alegria suave espalhou-se-lhe pela fisionomia. Quando a aveludada voz de Valentina esmorecia, animava-a ele dizendo-lhe:
— Tem paciência, meu amor, lê mais!
Desde esse dia reanimou-se o cego; passava horas felizes ouvindo a netinha ler.
E que então ele via clara, distintamente, tudo o que o livro dizia; voltava ao passado, à juventude, sonhava, saía do presente amargo e doloroso, e pela blandiciosa voz da neta ia a um tempo de alegria descuidada e de ardente entusiasmo! Por isso quando o velho adormecia tranquilo, esquecido da sua desventura, quase risonho, Valentina ia dizer contente à mãe:
— Agora é que eu compreendo bem, o quanto vale à gente o saber ler.