IX - D. Quixote Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 9 de 60
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IX - D. Quixote

D. Quixote

A MEUS PRIMINHOS OCTÁVIO E RUBEM LEITÃO

Paulo tinha seis anos incompletos;

tinha só quatro o louro e gentil Mário.

Foram à biblioteca, sorrateiros,

e ficaram instantes, mudos, quietos,

a espreitar se alguém vinha; então, ligeiros

como o vento, corriam para o armário,

que encerrava os volumes cobiçados:

eram dois grandes livros encarnados

cheios de formosíssimas gravuras,

mas pesados, meu Deus!

Os pequenitos

porfiavam cansados, vermelhitos,

por tirá-los da estante. Que torturas!

Estavam tão apertados, os malditos!

Enfim, venceram, não sem ter lutado...

Paulo entalou um dedo, o irmãozinho,

ao desprender os livros, coitadinho!

cambaleou, e foi cair... sentado.

Não choraram; beijaram-se contentes

e Paulo disse a Mário: — Que belote!

vamos ver à vontade o D. Quixote,

sem os ralhos ouvir, impertinentes,

da avó, que adormeceu. Oh que ventura!

Mário, tu não te mexas, fica atento;

eu vou mostrar-te estampas bem pintadas

com uma condição: cada figura

há de trazer ao nosso pensamento

uma dessas partidas engraçadas,

que eu sei fazer. Serve-te assim? —

— Está dito.

Oh que homenzinho magro! Que esquisito!

Quem é? —

— É D. Quixote,

— O barrigudo

é dona Sancha, que a mamã me disse. —

— Dona Sancha é mulher. Oh! que tolice!

O nome que ele tem, bobo, é Pançudo.

— Que está fazendo o padre na cadeira,

a entregar tanto livro à rapariga?

— São livros maus, que vão para a fogueira.

— Quais são os livros maus? —

— Não sei, mas penso

que devem ser os que não têm dourados

nem pinturas. Por mais que o papá diga

que o livro é sempre bom, não me convenço.

— Ouves? Chamam por ti, fomos pilhados!

— Meu Deus, como há de ser? Mário, depressa,

vamos arrumar isto; assim.

— Não cessa

de chamar-nos a avó!

— Pronto.

— Ainda faltam

três livros.

— Já não cabem.

Que canseira!

— Têm figuras?

— Não têm.

— Capas bonitas? —

— Também não têm. —

— Então são maus e saltam

pela janela: atira-os à fogueira.

Eram Sêneca, Eurico e os Jesuítas.

Escaparam do fogo os condenados,

ficando um tanto ou quanto amarrotados.

Salvou-os o papá, mas, impiedoso,

fechou a biblioteca, e rigoroso

condenou os dois réus, feroz juiz!

A soletrar... os Contos Infantis!

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