XLVIII - A Velha Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 48 de 60
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XLVIII - A Velha

A Velha

A MINHA AMIGUINHA EVANGELINA DE MAGALHÃES

Era uma pobre velha repelente

por feia e desdentada; caminhava

toda num arco, arfando, e coxeava

arrastando os chinelos. De repente

faltou-lhe o chão, quis segurar-se ainda

ao pau que lhe era arrimo, este partiu-se,

e a velhinha caiu.

Elvira riu-se,

mas deitou a boneca, a sua Linda,

sobre a relva e correu; a pobrezinha

foi levantar da rua; inda risonha

e ajudando-a, pensou:

— Que carantonha!

como é feia esta velha! coitadinha!

A pobre deu-lhe a mão, ergueu-se a custo,

e encostada à criança encantadora,

a gemer com uma voz aterradora,

talvez menos de dor, do que do susto,

que a abalara de veras... talvez fome...

Sentou-se no jardim:

— Que formosura!

disse a velha sorrindo com brandura:

anjo do céu, na terra tens um nome...

— Elvira. — Não, filhinha, Caridade!

Elvira já não ria, incontinenti

trouxe à velhinha um caldo forte e quente,

vinho, frutas e pão; tinha vontade

de dar-lhe roupa nova, outros chinelos:

dinheiro... já não tinha; ontem ainda

estava rica, mas... comprara Linda,

ficando sem vintém.

Como eram belos

os seus olhos azuis, rasos de pranto!

A velha viu-lhe as lágrimas, e disse:

— Tu não deves chorar!

A minha Alice

é como tu formosa, e no entretanto

tem fome, não tem pão; tem oito anos

e não brincou ainda; é tão mimosa,

que um sopro a ofenderia, e andrajosa

treme de frio... e ri! Sábios arcanos

da Providência!

A filha idolatrada

quando subiu a Deus, legou-me o anjo,

que me anima; por ele me confranjo;

e consigo sorrir.

Desventurada!

Não darei nunca à minha doce Alice

um instante de bom contentamento?

Como compensarei o teu tormento,

anjo de paz, prodígio de meiguice!?

Do sol, que se escondia, um derradeiro

clarão aureolava a fronte pura

da graciosa Elvira!

Que doçura

no seu olhar! no riso feiticeiro!

Foi buscar a boneca e deu-a à pobre

pra que a levasse à meiga e boa Alice;

dizendo que se a neta lhe sorrisse,

bem paga ficaria.

— Santa e nobre

criança eu te bem-digo!

— Sobre a terra,

só dá ventura o pranto que se enxuga.

O desfazer a prematura ruga

da desdita cruel, mais gozo encerra,

que as lisonjas sem fim do falso amigo,

que as mil festas do luxo e da opulência.

Perdeste Linda?... A tua consciência

exulta.

Anjo de luz, eu te bem-digo!

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