XX - O Ninho da Toutinegra Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 20 de 60
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XX - O Ninho da Toutinegra

O ninho da toutinegra

A MINHA PRIMINHA ANGELINA VIEIRA

Laurinha andava cansada

de correr pelo pomar,

atrás de azul e dourada

borboleta;

ficou afinal sentada

tão quieta

a travessa feiticeira!

embaixo de uma romeira

a cismar...

Nem podia respirar.

Talvez Laurinha quisesse

apanhar uma romã

e meditando escolhesse

caladinha

a que mais lhe apetecesse.

Ó Laurinha!

Não hesites, colhe aquela,

a mais vermelha e mais bela,

que amanhã

colhe-a talvez a mamã.

Laurinha nem se movia,

olhava com fixidez

para o mais alto raminho

e pensava:

Como é lindo aquele ninho!

Gorjeava

bem perto uma toutinegra,

ave que os bosques alegra

tanta vez!

Mãe da ninhada, talvez.

Nisto a mamã da janela:

— Laura, vem cá, minha flor,

chegou a prima Arabella,

quer beijar-te.

Laura diz, com voz singela:

— Vou deixar-te,

mas não penses que te esqueço,

passarinho; se adormeço,

sonho, amor,

com teu ninho encantador.

No mesmo ramo pousado

espera, que eu hei de vir

trazer-te o melhor bocado

do almoço.

Em teu ninho perfumado,

que alvoroço!

Que imenso contentamento!

Nunca mais um só lamento

se há de ouvir

não vás agora... fugir.

Laura subiu. Noite adiante

um medonho furacão

com seu açoite cortante

pôs em terra,

o ninho. À mãe cruciante

dor aterra;

voa tresloucada, a esmo,

até que teve o vento mesmo

compaixão

arremessando-a ao chão.

E foi ao pé dos filhinhos

que a toutinegra morreu.

Entreabriram os biquinhos

num desejo

de expirarem unidinhos

num só beijo,

talvez! As asas de uma ave

nos mostram quanto é suave

lá no céu

o amor dos anjos. Correu,

Laurinha, toda contente

depois do almoço ao pomar;

levava um bolo excelente

entre flores!

Imaginai, vendo em frente

seus amores

inertes, inanimados,

a dor, a mágoa, os cuidados,

o chorar

dessa formosa, sem par!

Guardou o ninho, lembrança

da alegria fugitiva

da sua afeição primeira,

aquela loira criança!

e à sombra da alta romeira

às aves deu sepultura.

Sobre essa campa cultiva

a flor da tristeza, a escura

saudade roxa. Saudosa,

esquece as mágoas, que és rosa,

encantada jardineira!

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