XLII - As flores do pessegueiro Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 42 de 60
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XLII - As flores do pessegueiro

As flores do pessegueiro

Um pessegueiro todo ufano, vestido com as suas alegres florinhas cor-de-rosa, disse um dia a uma lagarta, que ia subindo arrastadamente pelo seu tronco acima:

— Não me toques nas flores, vê lá, cuidado!

Lembra-te que não tens direito a tais aspirações, tu que és abjeta, imunda, indigna de beijares a maciez cândida e perfumada de suas pétalas. Para elas só o orvalho do céu e os mimos da viração; para elas tudo o que há de mais doce, e de melhor. A borboleta dourada e azul, vá lá, pode tocá-las, mas tu, que és feia e repugnante, não, não e não!

E a lagarta a subir, e a subir muito filósofa e pacatamente!

— Olha, continuava o pessegueiro, não manches o delicado carmim das minhas flores... afasta-te, afasta-te!

Era tarde. A lagarta mergulhara a cabeça penugenta no cálice rubro de uma flor, e já nada escutava, toda absorta na sua ventura. O pessegueiro então indignado sacudiu-se raivoso, rangeram-lhe os galhos desprendendo as flores, que bailaram no espaço e foram tapetar o chão.

Caíram as flores mas não caiu a lagarta, que na extremidade de um galho fez o seu casulo.

Vendo-se nu, lamentava-se o triste pessegueiro dizendo:

— Fiz mal... fiz mal! não devia ser colérico, nem tão violento... Por que não fui eu prudente, santo Deus? Que maldito bicho! sai! sai!! dizia ainda o pessegueiro sacudindo-se; mas a lagarta prevenida, nem se abalava!

Passaram-se dias. Sobre os galhos secos do pessegueiro caía inutilmente o orvalho: as flores tinham-lhe morrido ao pé, silenciosas, tristes.

O casulo continuava fechado até que um dia abriu-se de repente dando saída a uma borboleta dourada e azul. O pessegueiro atônito estremeceu e então a borboleta disse por sua vez:

— Foste castigado! ficas agora só! Adeus, pessegueiro, e para nunca mais! Não querias que as tuas filhas fossem nem de leve tocadas pela larva e não desdenhavas os beijos da borboleta! Vê como estou bonita, adeus!

E alegre, doidejante partiu o delicado inseto para viver além entre outras flores.

Quanto ao pessegueiro arrependeu-se da sua ira, mas consolou-se pensando:

— Fiz o meu dever zelando por minhas filhas; antes mortas e inocentes, que vivas e maculadas pela baba nojenta de um ente tão asqueroso!

O que é certo é que o pessegueiro em parte tinha razão, e que está de novo todo ufano, coberto, com as suas alegres florinhas cor-de-rosa!

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