XXXVI - O Vestido de Bertha Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 36 de 60
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XXXVI - O Vestido de Bertha

O Vestido de Bertha

À MINHA PRIMINHA DINORAH PALHA

Tinha Bertha um vestido cor-de-rosa,

que ficava a matar

no seu corpo gentil. Toda garbosa

quando ia passear,

parecia dizer: — Não sou formosa?

Quem não me há de amar?

Uma manhã de abril a linda Bertha

a rir se levantou,

e a contemplar pela janela aberta

o campo e o céu ficou.

Se eu fosse colher flores?... estou certa

que gostaria... Vou.

Pôs um chapéu de palha desabado,

que o rosto encantador

resguardaria de algum raio ousado

do sol abrasador,

e ei-la a correr, risonha, pelo prado

de uma a outra flor.

Foi andando, andando, distraída

a rir, sempre a brincar,

até encontrar chorando, dolorida,

a filha do alveitar,

que fugira de casa. — Margarida,

por que estás a chorar?

No campo há tanta flor, há tantos ninhos;

é tão azul o céu!

Tão doce o gorjear dos passarinhos!

E choras, anjo meu!

Dize, o que tens? Não queres meus carinhos,

mázita, que fiz eu?

— Eu tenho uma tal dor, um tal desgosto!

— Conta-me tudo, sim?

— Vai batizar-se a Rosa hoje ao sol posto,

e eu, pobre de mim,

não posso ir. — Por quê? levanta o rosto

e fala, Guida... assim.

— No meu lindo vestido azul-marinho,

que era mesmo um primor!

deu a traça. Eu que o tinha guardadinho

com tanto, tanto amor!

Sonhei com ele e logo bem cedinho

fui desdobrá-lo... horror!!

Deixou de ser vestido, é uma renda!

Vê, que bicho fatal!

Fiquei absorta ante a desgraça horrenda,

num martírio infernal!

Vão todos para a festa: eu, dor tremenda!

fico só... por meu mal!

— Não ficas, Guida, não, sou tua amiga,

e tenho coração.

Espera aqui que eu volte, rapariga,

que não será em vão.

É tão boa a mamãe! talvez consiga

trazer-te... um fortunão!

Chegou a casa arfando pressurosa,

cansada de correr;

consultou a mamãe, que jubilosa

a beijou a valer,

e levou o vestido cor-de-rosa,

sem pena de o perder.

— Aqui tens um vestido, minha vida,

mais bonito e melhor.

É todo seda e rendas. Margarida,

vais ficar uma flor!

Mas choras mais? por quê? Dize querida,

não gostas desta cor?

— Ai, Bertha! Como és boa e caridosa,

como eu te devo amar!

À minha irmã, à pequenina Rosa,

que se vai batizar,

hei de ensinar teu nome, flor mimosa.

Oh! deixa-me chorar!

Este pranto consola!... — Mas, Guidinha,

exageras, bem vês;

não achas que é melhor ver-te alegrinha,

do que ter dois ou três

vestidos mais? Bem, quero-te a rainha

da festa... — Irás?... — Talvez.

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