VIII - Os sapatinhos azuis
Os sapatinhos azuis
A MINHA SOBRINHA LUIZINHA
Foi um dia uma menina, que se chamava Luiza. Era bonitinha, mas muito pobre. Toda a gente da vizinhança gostava dela; é que mesmo não podia haver criança mais meiga, nem mais submissa.
À tarde era certo vê-la sentadinha à porta a brincar descalça, a coitadinha, com o seu vestidinho de chita escura escorrido, os cabelos loiros em desalinho caídos sobre os ombros, os grandes olhos negros e inocentes fitos nos trapinhos, com que fazia roupa para a sua boneca, uma bruxa de pano com cabeleira de lã e olhos de retrós. Tinha um aspecto triste a boa Luizinha; não parecia uma criança; tanto juízo era o seu!
Pois bem. Um dia veio uma coisa má turbar a paz daquela boa alminha.
Imaginai o que... a inveja!
Luizinha viu nos mimosos pés da mimosa filhinhá de uma burguesa rica uns sapatinhos azuis.
Aqueles sapatinhos pisaram-lhe a alma, a sua boa alma, que não devera ter caído nunca...
Foi pena; mas a perfeição não é da terra e afinal Luizinha tinha nascido neste mundo.
À noite adormecia e sonhava que via uma grande escada de cristal, cheia de luz, de trepadeiras em flor, despenhadas do corrimão como uma cascata exaladora de perfumes fortes, onde esvoaçavam doidas borboletas. Olhando atônita para essa escada luminosa ela divisava lá em cima, no primeiro degrau, uns pés pequeninos calçados de setim azul. Eram eles, eram os pés da menina rica... bem os conhecia!
De degrau em degrau certificava-se que era mesmo a sua invejada, que descia.
Agora via-lhe já as meias de seda com lavores em aberto... depois a orla do vestido bordado... depois a larga faixa franjada... depois os braços roliços com covinhas nos cotovelos e pulseiras de ouro... depois o colo redondo, branco como o leite, em que brilhava a cruzinhá de pedras... depois o rosto alegre corado como uma maçã madura, e os cabelos escuros presos no alto com um lacinho de fita... Então sentia-a passar, roçar-lhe mesmo o vestido enxovalhado, e tentava apalpar-lhe o fato com as mãozinhas emagrecidas, mas a radiante visão desaparecia e Luizinhá desejava subir a escada, porque lá via em cima o lindo par de sapatinhos azuis; porém, ao aproximar-se as flores imurchavam, o cristal dos degraus estalava e todas as luzes se apagavam.
— Pobre Luizinha!
Uma manhã acordou ela toda chorosa. A mãe inquietou-se e indagou a causa das lágrimas.
A pequenita fez sem medo a sua confissão, e a boa mulher entristeceu-se.
— O que, meu amor! dizia ela, pois tu tens inveja!? um pecado tão feio, tão negro! Não, meu bemzinho, não! Vem daí; quero levar-te à igreja para mostrar-te que também estão descalços os anjos do Senhor!
E foram.
O dia estava claro, de uma transparência cristalina, límpida.
Entraram no templo. A mãe mostrou à filha as telas dos altares: descalços estavam os anjos, descalço estava Jesus.
Foi boa a resolução; porque ao sair levava Luizinha a convicção de que não devia ter inveja da mimosa menina dos sapatinhos azuis.