XVII - Biografia de uma aranha Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 17 de 60
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XVII - Biografia de uma aranha

Biografia de uma aranha

Nasceu no campo entre umas folhas de piteira, agudas como espadas.

Não foi inscrita em registro algum. Nenhuma formalidade lhe foi exigida. O caso é que nasceu e que vivia. Cresceu mostrando-se sempre digna da sua espécie. Era diligente e ativa. Lembrou-se um dia de ir para o casarão de um velho cura, onde, num recanto da despensa sombria e úmida, teceu o fio numa lida tão árdua, que faria dó a qualquer que a visse!

Estendeu de parede a parede as linhas prateadas, finas, tênues como o mais tênue fio da mais fina seda; depois cuidadosa, célere foi de círculo em círculo sobre aquelas, tecendo novas linhas no mais perfeito cálculo geométrico.

Estabeleceu-se então feliz, ali, entre os raios da roda que fizera.

Fora insano o trabalho; mas, quanto mais custosa é de obter-se mais se goza a tranquilidade.

Depois de tantos esforços, vivia ali sossegada, quando a irmã do padre, um dia, zelosa pelo asseio, deitou-lhe a casa abaixo. A aranha estremecendo fugiu. Quebrou-se a tela. Tudo desapareceu.

No outro dia, lá volta a aranha pertinaz, e no mesmo canto, donde desabara na véspera a sua felicidade, recomeça cheia de paciência nova teia.

Desenrola uns fios longos; finos, corta-os em círculos sucessivos tais e quais como os da casa destruída.

Mas ai! as mesmas mãos voltam a derrubar-lhe a nova habitação!

Não se desalentou a pobre aranha; na luta pela vida continuou sempre a trabalhar, até que uma ocasião viu morrer esmagado pela irmã do cura, o seu único filho!

Ficou-se então no alto esmorecida, quieta; e ou fosse desgosto, ou idade, é certo que de lá só desceu morta, torcida, encarquilhada, toda envolta nos fios por ela mesma tecidos!

Não teve pompas, não teve funerais, mas também ela, o inseto repugnante e venenoso, caiu, como as pétalas da rosa, que ninguém teve ânimo de cortar da haste!

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