XXI - A Ingratidão Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 21 de 60
Obra Menu

XXI - A Ingratidão

A ingratidão

A MARTIM

— Olha, meu queridinho, meu gentil pequeno, tiveram a barbaridade de dar o teu nome... aos ursos!

Sei que isso te desgosta, mas vou contar-te um fato, que se deu com um desses animais, fato que faz honra ao teu homônimo.

Ele é feio e bruto como a coisa mais feia e mais bruta, que imaginar-se possa; mas não faz mal, porque é bom, e bem sabes que a verdadeira beleza não é a da forma, é a dos sentimentos.

Não há nada no mundo que valha a bondade. Vês? Nada!

Quando fores homem, tu, que terás um belo caráter, pois vais guiado pela bondosa mão do nosso santo amigo, quando fores homem, repito, compreenderás quanta razão tem a tua amiguinha em te dizer isto:

Ser bom é ser feliz!

Às vezes a bondade parece esmagar-nos o coração numa agonia longa e incompreendida; mas depois que de consolos! que de suavidade para a nossa consciência!

Ouve-me agora o conto, em que a bondade não tem recompensa imediata, mas que te não cansará, porque é ainda mais pequeno do que tu.

Entendeu um cigano indolente ganhar a vida à custa dos trabalhos de um pobre urso, grande e imundo.

Arrastava-o nas ruas, fazia-o dançar, mover-se servilmente à sua voz, deleitar a turba dos garotos, que se ria muito, mas que acabava quase sempre por apedrejá-lo.

Uma noite deixou-se o boêmio cair na estrada. Com a cabeça deitada nos braços entrançados, a barriga para o ar, a boca aberta e as pernas estiradas, dormia a sono solto.

O urso contemplava-o silencioso. Na própria sombra destacava-se o seu grande vulto escuro.

Ele estava ali como uma sentinela conscienciosa e firme.

Ouvindo o rumor surdo da vegetação, respirando o acre aroma das plantas, sentia saudades infinitas do seu tempo de outrora, e lembrava-se talvez o bruto, do dia em que esse, que aí dormia a seus pés, o arrancara do seu país, rasgando-lhe as carnes nos mais rudes tratos!

E continuava a velar o sono do seu algoz, de quem podia livrar-se, readquirindo de um instante para o outro a felicidade perdida... Sim, ele voltaria às grutas sombrias, sem penas nem cuidados, dormiria as sestas sob as árvores nodosas, cheias de ninhos e de flores, rolaria pelos gramados das suas belas planícies, constituiria uma família sua, zelando ao redor do rochedo os filhos, que lá dentro sorvessem sequiosos o leite materno...

Pensava em tudo isso, e quedou-se imóvel, absorto ao pé do dono, que, ao acordar, já ao romper da aurora, bateu-lhe, porque ele, o maldito, arrebentara a corda, que o prendia!

Às dores da pancada, o pobre urso, fixando no boêmio um olhar vazio de expressão, disse consigo:

O mais ingrato dos animais é com certeza o homem.

1/1
Menu

Fazer anotação