III - O Passarinho Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 3 de 60
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III - O Passarinho

O passarinho

Ao ver o traiçoeiro disfarce com que o pequeno Paulo preparara uma armadilha e caçara no quintal uma avezinha, chegou-se a ele a irmã mais velha e disse-lhe numa admoestação branda:

— O que fizeste Paulo?

— Apanhei este passarinho. Canta muito bem; todos os dias o ouvia.

— Mas se o ouvias todos os dias, para que o prendeste?

— Para tê-lo na gaiola ao pé da minha cama.

— E achas isso bonito?

— Acho.

— Olha, vem cá; eu vou contar-te uma história; senta-te mesmo ali na grama, eu fico nesta pedra.

— Conta depressa, Eugenia.

— Não sejas impaciente, escuta:

— Era um dia um passarinho muito bonito, muito alegre, muito gorgeador. Ia todas as manhãs cantar perto da janela de um menino, que se chamava José, mas que era muito mais lindo do que o nome. Um dia quando o pobre passarinho cantava, o pequenito o agarrou, assim como tu, traiçoeiramente. Meteu-o numa gaiola pequena com bebedouro de cristal e chão dourado, mas desde então o passarinho emudeceu e ficou triste, triste a mais não ser! Uma noite sonhou o menino que a avezinha lhe segredava estas palavras ao ouvido:

— Como tu foste cruel! Eu vinha contar-te todos os dias as minhas alegrias, deleitar-te com meu canto, e para agradeceres-me, prendeste-me! Onde está a minha liberdade? onde está o meu ninho? onde estará minha mãe?! Tiraste-me tudo! roubaste ao teu artista a ventura, des-te-lhe um cárcere, a ele, que te vinha contar todas as manhãs seus sonhos!... Como foste ingrato!... Eu morro!... eu morro!... Um bater de asas angustioso acompanhou as últimas palavras. José acordou espantadinho e correu para a gaiola. A avezinha tinha acabado de morrer, estava ainda morna e com o biquinho entre-aberto.

José desfez em prantos suas mágoas. Jurou não fazer mal aos animais, e muito tempo em sonhos, ouvia a débil voz do passarinho dizer-lhe:

Como tu foste ingrato!... eu morro!... eu morro!

— Choras, querido Paulo? não vês que isto é uma história? então!... mas, onde está a tua linda avezinha?

— Deixei-a partir; ouvi-la-ei cantar de manhã cedo nos galhos da laranjeira!

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