LIX - O Dia de Natal Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 59 de 60
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LIX - O Dia de Natal

O dia de Natal

À minha amiguinha Esther Lobo

Nascera nesse dia glorioso

a gentil heroína deste conto,

há seis anos apenas. Onde estava?

não se lhe ouvia o passo gracioso,

nem o rir argentino, sempre pronto

a fugir-lhe dos lábios; nem cantava.

'Stava entretido, o belo querubim,

num pavilhão ao fundo do jardim.

Vivia nele a boa Josefina,

santa velha, que outrora acalentara

a mãe da linda Estela. Quando a morte

roubou Clotilde, a velha a pequenina

ergueu do berço, e disse com voz clara,

iluminada de um febril transporte:

— Pomba! abre as asas brancas para a luz,

tua filha tem mãe! Vida! Jesus!

Desde então não parou: noites perdidas,

fantásticas histórias, mil folguedos,

vestidinhos catitas, lindos nadas,

bonecas logo vistas e esquecidas,

beijos, carícias, místicos segredos,

conselhos, risos, cantos, criançadas,

enchiam-lhe a existência de fulgor;

mas... um dia cegou! Que horrível dor!

O pai de Estela andava viajando,

desde que se apagara a nívea estrela

que tanto amara, tanto! Enfim, saudoso

voltou inesperado e, receando

que o não amasse ainda a sua Estela,

a ele, que voltava sequioso

dos beijos dessa flor angelical,

quis festejar a noite do Natal.

No meio do salão, secretamente,

tinham armado uma árvore gigante,

era verde e frondosa; embaixo dela,

poderiam caber, seguramente,

umas vinte crianças. Num instante

ficou cheia de mimos. Quando Estela

a visse, que faria? Deus do céu!

Talvez chorasse e risse, que sei eu!

Josefina chorara muitas vezes

por não poder mais ver o loiro anjinho,

que era toda a sua alma! O seu encanto

dizia-lhe com fé: — Quero que rezes

ao Pai do céu, pedindo um bocadinho

de luz para os teus olhos; mas sem pranto.

É dia de meus anos, sabes bem,

senão, Fifina, eu chorarei também.

À noite foi chamada. Na saleta

encontrou o papá, que a foi levando

para o grande salão. Subitamente

abriu-se a porta, e, como a borboleta,

vendo a luz enlouquece, e cega, arfando,

atira-se na luz, Estela, em frente

a tanto brilho, a maravilhas tais,

saltou, chorou e riu, até não mais.

As suas amiguinhas escondidas,

um bando de avezinhas curiosas,

entraram a cantar alegremente.

Começaram as danças, as corridas,

as gargalhadas claras e ruidosas;

era um conjunto harmônico, eloquente!

Estela, ria, ria... era feliz,

mas de repente para, chora e diz:

Fifina! Enquanto eu rio, ela padece!

O Pai do céu tirou-lhe a luz e o riso!

Não verá mais o campo e as flores belas!

Não, não quero brincar... até parece

que sou ingrata e má! O paraíso

é o amor que me tem. Não quero estrelas,

que brilhem mais que as lágrimas de dor

que chora quando a beijo. Santo amor!

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