XVI - As flores amam
As flores amam
À MINHA PRIMINHA BEATRIZ MOTTA
Sabes o que me disse o primo Augusto um dia?
Que tinha vida a planta e amava como nós.
Que absurdo, Rachel, não? Que graça não teria
uma rosa a cismar, ouvindo a meiga voz
do branco bogarim,
assim:
— Rosa tu que és rainha, atende por piedade
ao teu cantor fiel, amante sem igual...
E o roxo amor-perfeito, à espera que a saudade
lhe acene docemente e o chame?! Então, que tal?
ai, que carapetão!
Pois não?
— Não conversam assim, as flores, Angelina,
mas respiram e vivem, amam-se talvez;
se lhes falta alimento, ou água cristalina,
definham, vão murchando, e morrem de uma vez.
— E o que lhes muda a cor?
— O amor. —
Vou contar-te uma história. Um dia uma violeta
amou o sol ardente a mais não poder ser,
Quando se erguia o amado, ela modesta, inquieta
entre as folhas ficava, e ele sem a ver...
Orgulhoso, veloz! —
— Que atroz! —
Uma tarde calmosa, o velho jardineiro
notou que a pobrezinha ia perdendo o olor,
quis logo transplantá-la e sob um jasmineiro
a violeta abrigou, dizendo: — Era calor!
A flor não vendo o céu,
morreu!...
Já vês que sente a planta, e sofre sem queixume;
respira, mata a sede e pede afeto e luz;
penetrante ou suave, o célico perfume
imensa desventura ou grato amor traduz.
— Oh! quanto eu sou cruel!
Rachel!
Esqueço muita vez sem água e sem cuidado
a minha predileta, a flor do resedá;
talvez a pobre flor tenha por mim chorado
julgando-me sem alma, indiferente, e má.
Coitadinha da flor,
que dor!
Vou o seu vaso encher de terra fresca e nova,
expô-la ao ar da noite e ao rócio da manhã;
ela há de agradecer-me e perfumar-me a alcova.
— Aprendes a ser mãe, minha pequena irmã,
e abençoa-te Deus
dos céus!