V - O Remendo Contos Infantis em Verso e Prosa · Capítulo 5 de 60
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V - O Remendo

O remendo

Num dia sem sol, frio e úmido, lá foi para o campo a pobre Joanninha tomar sentido nos carneiros e nos porcos do padrinho.

O vento entrava-lhe pelos rasgões do vestidinho de chita já muito desbotado, as pernas finas, nuas, trigueiras, batiam-se trêmulas; os dedos hirtos mal seguravam a agulha, que levara para remendar a saia.

Cosia. Os pontos eram de meter medo, enormes! mas eram pontos, eram trabalho, eram boa vontade.

Ninguém a ajudava. Fora engeitada, recolhera-a o velho Anselmo, que, como tinha muitos filhos, não podia dar-lhe o pão; vendia-o, pois, fazendo-a zelar meia dúzia de animais, que possuía.

A pequena não se queixava nunca. Logo de madrugada despertavam-na brutalmente dos sonhos, em que só lhe era dado gozar um pouco; erguia-se a custo e lá ia para o campo, onde ficava sozinha horas e horas!

Quando havia sol, bom era, mas quando fazia frio, punha-se a triste Joanninha agachada a um canto, encolhendo as pernas e esticando o vestido para agasalhar-se.

Nessa manhã então havia tanta umidade, um ar tão gélido e penetrante que Joanninha mal sustinha a agulha; contudo era preciso coser; o vestido assim roto era uma vergonha e pouco lhe serviria se o não concertasse! Com sacrifício principiou a deitar um remendo de chita cor-de-rosa sobre a sua saia azul. A linha embaraçava-se, dava nós; espetou os dedos, fez sangue, mas não desanimou. Atenta, cuidadosa, curvava-se para a costura com verdadeira tenacidade.

Quando acabou sentiu-se moída, doíam-lhe muito as costas, mas ficou satisfeita, orgulhosa com o seu trabalho! Aquela nesga cor-de-rosa no fundo azul brilhava aos seus olhos, trazendo-lhe à lembrança a nuvenzinha, que vira pela manhã na lisa placidez anilada do céu.

Quando à tarde voltou à vila, riram-se dela uns pequenos sem coração, que lhe perguntaram cheios de ironia:

— Ó Joanna, quem é a tua modista?

A pequena cabisbaixa não respondeu e foi andando. Chegou por fim a casa. A filha do padrinho ao vê-la, riu-se também dizendo à irmã mais nova:

— Como é feio um remendo!

Joanna curvou silenciosa a cabeça.

Então o velho cura, que aí se achava de visita. perguntou:

— Quem te concertou o vestido, Joanninha?

Ela, tímida, vermelha como um bago de romã, balbuciou a medo: fui eu...

— Vem cá meu amor e dá-me um beijo. A menina envergonhada aproximou-se e o velho continuou:

— A filha do teu padrinho enganou-se. O remendo não é feio, ao contrário. Eu por mim confesso que nunca te vi tão bonita como te vejo hoje! Porque? porque trazes o vestido remendado por ti! É que leio a tua boa alma neste quadradinho de chita. O remendo, minha filha, prova-me que és cuidadosa, econômica e trabalhadeira... Vamos lá, não chores! então?!

E o velho afetuoso acariciava a pobre pequenita, que, se chorava, era de comovida. Se ninguém nunca a amimara assim!

Compreendendo-a o cura tomou-a à sua conta; deu-lhe vestidos novos, pô-la num colégio, fê-la feliz, e conserva ainda num cofre, como uma relíquia, o vestido que a sua Joanninha remendou, e que lhe há de ser entregue com o dote na cesta do enxoval!

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