Capítulo V Outra Noite com os Sofredores Vida Nativa na África do Sul · Capítulo 5 de 24
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Capítulo V Outra Noite com os Sofredores

Capítulo V Outra Noite com os Sofredores

Heureux ceux qui sont morts dans le calme des soirs,

Avant ces jours affreux de carnage et de haine!

Ils se sont endormis, le coeur rempli d'espoirs,

Dans un reve d'amour et de concorde humaine!

Ils n'ont pas entendu la sinistre remeur

Qui monte des hameaux consumes par la flamme,

Ni les cris des enfants et des vierges en pleurs,

Ni le gemissement des vieillards et des femmes!

Heureux les morts!

Maurice Kufferath.

Despedimo-nos tristemente desses infelizes nômades de um país ingrato

e inóspito, depois de aconselhá-los a partir da União

para os desertos áridos de Bechuanalândia. Em nosso conselho demos especial ênfase

ao custo de uma expedição como a deles e às

muitas e variadas regulamentações a serem cumpridas, em tal marcha,

através do Transvaal Ocidental. Mas, custasse o que custasse,

eles, como nós, compreendiam que, tal como estava a lei,

estariam melhor e mais seguros além das fronteiras da União.

Daqui seguimos caminho para o distrito de Hoopstad. Ali vimos

alguns nativos que estavam, por assim dizer, em brasas, pois seus senhorios

lhes haviam dado alguns dias para considerar a conveniência

de aceitar as novas condições ou deixar suas casas.

Nosso conselho a esses arrendatários foi aceitar, por ora,

quaisquer termos oferecidos por seus senhorios, enquanto se aguardava um apelo a Sua Majestade

o Rei; também passamos por algumas fazendas onde os fazendeiros brancos eram

visivelmente solidários com os nativos perseguidos. Alguns fazendeiros brancos

aceitavam nativos como arrendatários em suas fazendas em desafio à lei.

Naturalmente agradecemos a eles por sua humanidade e seguimos nosso caminho,

prometendo nunca revelar sua magnanimidade aos funcionários do Governo.

"O que aconteceu de repente?", perguntou um desses senhorios.

"Vivíamos tão bem com o seu povo, e por que a lei

deveria desalojá-los dessa maneira?"

Podemos mencionar aqui que, quinze dias depois, estivemos no eleitorado do General Botha

no Transvaal. Poucos dias antes de chegarmos ali,

realizou-se uma reunião de fazendeiros brancos em uma das casas de fazenda holandesas,

na qual se resolveu tirar o mais amplo proveito da nova lei,

que havia colocado toda a população nativa nas mãos dos fazendeiros.

Resolveu-se ainda que um cafre que se recusasse a tornar-se servo

deveria ser imediatamente lançado à estrada.

Uma resolução semelhante foi aprovada em outra reunião de senhorios

em outro lugar. Parte dos procedimentos dessa reunião

foi noticiada em alguns, embora não em todos, os jornais holandeses.

Sem quebrar nossa promessa de não revelar nenhum nome de senhorios

que sentiram ser seu dever resistir à injustiça, ainda que ela use a veste da lei,

mencionaremos o Sr. X., um fazendeiro bôer, da fazenda ----, perto de Thingamejig,

entre a cidade de ---- e o rio ----. Ele protestou na reunião,

afirmando que os transvaalenses não eram compelidos a expulsar os nativos,

e que apenas estavam impedidos de aceitar novos arrendatários nativos;

que era perverso expulsar um cafre da fazenda sem razão alguma,

e assim deixá-lo sem lar, já que, despejado, ele não poderia ir nem

para outra fazenda nem de volta ao antigo lugar. Por expressar suas opiniões com tanta franqueza,

o Sr. X. foi ameaçado por seus compatriotas com violência física!

Seus opositores também disseram que, se continuasse a abrigar cafres em sua fazenda

como arrendatários, eles o responsabilizariam por qualquer gado

que viessem a perder. Os incidentes da reunião foram relatados

aos nativos pelo próprio Sr. X. Ele disse ainda aos nativos

que arcaria com a despesa de cercar sua fazenda com os nativos dentro,

para que ficassem fora do alcance de seus vizinhos enfurecidos.

Passamos a noite seguinte em algumas cabanas nativas em uma fazenda

no distrito de Hoopstad. Nessa ocasião encontramos um homem

que recebera um aviso de um mês para deixar sua fazenda, e ia

de fazenda em fazenda em busca de um novo lugar. Ele ouvira

histórias alarmantes sobre despejos aonde quer que fosse. Durante aquela noite

fomos tratados com mais algumas histórias piedosas a respeito

das atrocidades da miserável Lei de Terras. Muitos errantes nativos

haviam efetivamente passado por aquela fazenda nos poucos dias anteriores,

arrastando-se sem rumo de um lugar a outro em busca de algum fazendeiro

que pudesse lhes dar abrigo. A princípio pensaram

que as histórias sobre uma nova lei eram invenções ou exageros,

mas suas próprias dificuldades desesperadas e o deslocamento nativo predominante

logo lhes ensinaram o contrário.

A semelhança nas experiências dos sofredores tornaria

monótona a leitura se fossem dadas individualmente, mas há exemplos

aqui e ali que dão variedade ao registro doloroso,

e estes devem render a máxima satisfação aos promotores da Lei,

ao lhes provar a medida funesta de sua realização.

Um exemplo dessas experiências foi o de um fazendeiro branco

que induzira um nativo econômico em outro distrito a vir cultivar

em sua propriedade. O contrato foi devidamente celebrado por volta do fim de maio de 1913.

Ficou acertado que o nativo se mudaria para o novo lugar

depois de colher sua safra e dividi-la com seu antigo senhorio,

o que fez na terceira semana de junho. Ao chegar, entretanto,

a atitude do novo senhorio em relação a ele despertou suas suspeitas;

suas suspeitas se confirmaram quando, depois de alguma hesitação,

o senhorio lhe disse que o contrato deles era ilegal. Como já havia

deixado seu antigo lugar, o embargo legal também impedia seu retorno para lá,

e assim seu único caminho era deixar aquele lugar e vagar

com seu gado e sua família. Seguiram na direção de Kroonstad,

e desde então não se ouviu mais falar deles.

O exemplo seguinte é o do homem mais velho do Estado "Livre".

Ele fora despejado (assim nos contaram naquela noite na fazenda)

junto com sua esposa idosa, seus filhos de cabelos brancos,

os filhos dos filhos e netos. Podemos acrescentar aqui que lemos

uma confirmação desse caso no jornal semanal inglês de Harrismith.

A referência do jornal a esse caso também ilustrará a maneira fácil

com que esses despejos ultrajantes são noticiados nos jornais brancos.

Não há referência à corrente sinistra por baixo nem às dificuldades

que acompanham esses despejos. O jornal em questão, o "Harrismith Chronicle",

simplesmente diz: --

==

UM CASAL ANCIÃO

Um venerável nativo cuja idade não é inferior a 119 anos,

acompanhado por sua esposa, de 98 anos, e um filho que se aproxima dos 80,

deixou Harrismith na terça-feira de trem para Volksrust. O velho

adquiriu alguma propriedade no Transvaal, e está deixando este distrito

para começar um novo lar com tanto interesse no empreendimento

como se fosse um rapaz de vinte anos. A velha senhora teve de ser carregada

até o trem, mas o velho caminhou com bastante firmeza. O casal idoso

foi o centro de muita atenção bondosa, e foi deixado

tão confortável quanto possível para sua viagem pelos funcionários da ferrovia.

É difícil perceber, nestes dias de mudança rápida,

que, com a partida deste venerável grupo do Estado "Livre",

estamos perdendo de nosso meio um homem que nasceu em 1794,

e viveu em nada menos que três séculos do tempo.

Boa sorte a ambos; que ainda vivam muito e prosperem!

==

Ora, na verdade, esse "casal ancião" não deixara o Estado "Livre"

por sua própria vontade. Seu gado fora expulso de

suas áreas de pastagem, e disseram-lhes que só poderiam continuar a pastar

se o arrendatário centenário concordasse em fornecer certo número de trabalhadores

para trabalhar na fazenda do proprietário e, com seus filhos, deixasse de fazer qualquer aração

como arrendatário. Esse sistema de dividir as colheitas vinha sendo seguido

desde que os bôeres se plantaram no Estado "Livre", e a família

não tinha outro meio de sustento. Felizmente, o auxílio da Providência

no caso desse "casal ancião" foi rápido, pois os velhos

logo encontraram asilo na fazenda do Sr. P. ka I. Seme, um advogado nativo

no Transvaal.

No mesmo lugar, naquela mesma noite, contaram-nos uma conversa

entre um conhecido holandês e um nativo. "O objetivo desta lei",

disse o burguês, "é incitar os nativos à rebelião,

para que o Governo possa legalmente confiscar o pouco de terra

que lhes restou, e entregar os cafres desapossados e suas famílias

para trabalhar para os fazendeiros, apenas pela comida." A política de

incitar os nativos à rebelião não é inteiramente estranha à política colonial;

mas a crueldade horrível à qual o gado é exposto sob a nova Lei

é uma inovação completa. O rei Salomão diz: "O justo atenta

para a vida do seu animal, mas as ternas misericórdias dos ímpios

são cruéis"; mas há um Governo de professos leitores da Bíblia que,

em desafio a todos os preceitos das Escrituras, aprova uma lei que penaliza

uma seção da comunidade juntamente com seus bois, ovelhas, cabras,

cavalos e jumentos por causa da cor de seus donos.

A cláusula penal (Seção 5) impõe uma multa de 100 libras a um proprietário

que acomode um nativo em sua fazenda; e se, depois de paga a multa,

o nativo deixar seu gado na fazenda para ir procurar um novo lugar,

haverá uma multa adicional de 5 libras por cada dia

em que o gado do nativo permanecer naquela fazenda. Eles devem

tomar a estrada imediatamente e ser mantidos em movimento dia e noite

até morrerem de fome, ou até que o proprietário (impedido,

pela Seção 1, de comprar pastagem para seu gado) se desfaça deles

para um homem branco.

Tal crueldade contra animais mudos é tão injustificada quanto sem precedentes.

Lida no papel, ela já soa cruel o suficiente, mas desejaríamos que o leitor nos tivesse acompanhado

em uma viagem, digamos, durante a onda de frio na primeira semana de agosto,

quando viajamos de Potchefstroom a Vereeniging,

e visto os rebanhos daqueles nativos despejados que encontramos.

Encontrávamos com frequência esses párias errantes, com seu gado faminto,

e nos perguntávamos se os animais não mereciam ainda mais piedade que seus donos.

Pode ser má sorte do gado ter um dono negro,

mas certamente não é culpa sua, pois ovelhas não têm escolha

na seleção da cor de seus proprietários, e vacas ou cabras

jamais são chamadas a decidir se o menino negro que as ordenha será seu dono,

ou apenas um pastor a serviço de um homem branco; então por que deveriam morrer de fome

por causa da cor de seus donos? Conhecíamos uma lei para impedir crueldade

contra animais, mas nunca pensamos que viveríamos para encontrar, em um só dia,

tantas criaturas mudas fazendo apelos silenciosos ao Céu por proteção

contra a lei. "O que o homem tem coragem de fazer, o homem não tem coragem de ver",

e oh! se esses parlamentares talentosos pudessem ter sido reunidos aqui

para testemunhar os resultados miseráveis de um de seus belos dias de trabalho

por um belo dia de pagamento! Mas "atam fardos pesados e difíceis de suportar",

depois sacam seus emolumentos parlamentares e se retiram para a tranquilidade

de seus lares confortáveis, para desfrutar de mais descanso do que é devido a trabalhadores

que serviram tanto a Deus quanto à humanidade.

Durante essa mesma noite no distrito de Hoopstad, também nos falaram da visita

de um fazendeiro holandês, em meados de junho de 1913, a seus arrendatários nativos.

Um dos nativos -- chamado Kgabale -- era bastante idoso. Seus dois filhos

trabalham nas minas de ouro de Joanesburgo, e voltam para casa a cada primavera

para ajudar o velho homem e suas duas jovens filhas na aração.

As filhas cuidam dos campos e Kgabale cuida do gado.

Por esse meio, conseguiram levar uma vida respeitável

e pagar ao proprietário da terra cinquenta por cento da produção a cada ano,

além dos impostos cobrados pelo Governo sobre os nativos.

Três semanas antes de nossa visita, o fazendeiro veio cancelar

seu contrato verbal com Kgabale e transformar a família

em servos não pagos, em troca do privilégio de ocupar sua fazenda.

Como o próprio Kgabale era velho demais para trabalhar, o fazendeiro exigiu dele

que seus dois filhos retornassem imediatamente de Joanesburgo

para prestar serviço manual em sua fazenda, sob pena de o velho

retirar-se imediatamente do lugar. Deu a Kgabale sete dias

para entregar seus dois filhos.

Naturalmente, essa decisão caiu sobre Kgabale e suas filhas

como um raio em céu azul. O pobre velho vagou de lugar em lugar,

tentando encontrar alguém -- e levou dois dias para consegui-lo --

que soubesse escrever, a fim de ditar uma carta a seus filhos em Joanesburgo,

informando-os do que acontecera. A semana expirou antes que pudesse receber

uma resposta de Joanesburgo. O senhorio, em humor muito abusivo,

exigiu novamente a chegada imediata de seus dois filhos de Joanesburgo,

para começarem o trabalho na casa da fazenda logo na manhã seguinte.

Kgabale passou a noite inteira rezando para que ao menos um de seus filhos

viesse. Ao amanhecer da manhã seguinte, nenhuma resposta havia chegado,

e o holandês veio e ateou fogo às casas do velho,

ordenando-lhe ali mesmo que deixasse a fazenda. Foi uma visão triste

ver o frágil velho, sua esposa idosa e suas filhas

expulsos dessa maneira de um lugar que haviam considerado seu lar.

No curso ordinário, tal calamidade poderia ter sido tornada mais tolerável

mudando-se para a fazenda seguinte e ali aguardando a chegada e o conselho de seus filhos;

mas agora, sob a Lei de Terras dos Nativos, nenhum proprietário solidário

teria permissão para abrigá-los por um único dia. Assim se dizia

que Kgabale seguira na direção de Klerksdorp.

Um dos filhos chegou uma semana depois da catástrofe. Encontrou

seu antigo lar em ruínas, e seus pais idosos e seus filhos

transformados em vítimas da torpeza de uma Lei do Parlamento.

O filho saiu em busca de seus parentes através do Vaal,

mas não se sabia se conseguiram encontrar o refúgio

que a lei tornara ilícito.

Entre os posseiros na mesma fazenda que Kgabale havia uma viúva chamada Maria.

Seu marido, em vida, vivera como arrendatário na fazenda,

arando em parceria até sua morte. Depois da morte dele,

Maria manteve o contrato e tirou um sustento razoável. Seu filho e sua filha,

de quatorze e dezesseis anos respectivamente, revezavam-se no pastoreio de seu gado

e ajudavam a mãe de outras maneiras. Durante a estação da aração,

contratavam ajuda para cultivar os campos, mas eles próprios

cuidavam da plantação, colhiam a safra e entregavam 50 por cento da produção

ao proprietário. Eram essas as condições em que lhe era permitido

viver na fazenda. Sendo Maria viúva, e seu filho apenas um jovem,

esperava-se que o senhorio propusesse termos razoáveis para ela;

mas, em vez disso, sua proposta foi que ela se desfizesse de seu gado

e vinculasse seus filhos a ele por contrato de servidão. Essa proposta sinistra torna evidente

que os fazendeiros não apenas esperam que os nativos lhes prestem trabalho gratuito,

mas desejam de fato que os nativos gerem escravos para eles.

Maria achou difícil cumprir a exigência de seu senhorio,

e, como não tinha marido de quem se pudesse exigir trabalho,

o holandês ordenou-lhe que "fosse embora, e", acrescentou com uma praga,

"você deve arranjar outro homem antes de chegar ao seu próximo lugar de moradia,

pois a lei não permitirá que você fique lá até ter um homem

para trabalhar para o Baas." Tendo dado esse conselho, diz-se que o senhorio

ateou fogo à cabana de palha de Maria, e, enquanto o frio vento sudeste

levava a fumaça de seu lar em chamas para o noroeste, Maria,

com suas roupas de cama sobre a cabeça e sobre as cabeças de seu filho e filha,

e carregando seu menino de três anos amarrado às costas,

afastou-se da fazenda, conduzindo suas vacas diante de si.

Ao se separarem das associações queridas de seu antigo lar,

rumo a um vazio desconhecido, as crianças choravam amargamente.

E nenhuma notícia sobre o destino dessa família foi recebida

desde que foram forçados a sair nessa perigosa aventura.

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