O velho ourives
-Pobre de mim ! Pobre de mim ! gemia o velho ourives vendo vasias todas as encarnas da corôa real em que, com tanto esmero, andava a trabalhar desde os dourados sóes do estio. Pobre de mim ! Quem m'os terá furtado, os clarissimos diamantes, os púrpuros rubís e as opalas mais alvas do que as espumas do mar?
Ai! de mim, vendidos todos os meus haveres não darão o preço do menor dos diamantes da coroa.
Foi, com certeza, hontem á noite, emquanto sahi a recolher um pouco de ramalho para avivar o lume -o vento impellio a porta e algum ladrão entrou levando as pedras.
Ai ! de mim, gemia o velho ourives debruçado sobre a banca de trabalho pensando no supplicio inevitavel quando ouvio uma voz que sahia do fundo lobrego da cella taciturna :
Visões e sonhos -Não te afflijas, lhe disse, se tens caridade nalma sahe um momento á porta e encontrarás, senão as gemmas que te ' furtaram, outras mais raras. Vai, para que não haja no dia do Senhor um homem triste no mundo.
Ouvio o velho e, reagindo contra o pavor que lhe causara a voz mysteriosa, tomou o bordão e sahio.
Mal chegara ao limiar da casa eis que lhe appareceu uma pobre mulher macilenta, andrajosa, aconchegando ao collo uma creança .
Chorava e tremia de frio, toda encharcada. Ao dar com o velho a miseranda prostrou-se de joelhos e, quatro a quatro, cahiam-lhe dos olhos fundos grossas gottas de lagrimas. -Vê se eram mais puros os teus diamantes, disse mysteriosamente a voz mysteriosa.
Em verdadeattentando nas lagrimas da misera vio o ourives que eram mais claras que as pedras que perdera e, com pressa de avaro, aconchegando as mãos, risonho, poz-se a aparar as lagrimas que, mal cahiam no concavo das mãos, logo se crystallisavam rutilas, fulgindo.
E a mulher, a chorar, sentou-se sob o telheiro e, desabotoando o casaco, expoz o seio flaccido que a creança avidamente procurava.
Poz-se o infante a mamar com tanta gula que o leite lhe escorria pelos cantos da bocca e, de novo, mysteriosamente, falou a voz mysteriosa :
Visões e sonhos -Vê se eram mais bellas as opalas que te furtaram.
Effectivamente as gottas de leite eram muito mais alvas e tinham um reflexo mais azulado .
Mamava a creança e a mulher ia, aos poucos, desfallecendo como se tivesse a sugal-a a bocca de um vampiro e o ourives, da propria bocca da creança, foi recolhendo o leite que, como as lagrimas, logo se crystallisava.
O pequenito, que não se saciava, ia sugando com mais ancia até que se lhe encardio a bocca como uma ferida aberta e o sangue entrou a escorrer-lhe dos labios. De novo, mysteriosamente, falou a voz mysteiosa : -Vê se tinham tão linda cor os rubís da corôa.
Não se conteve o ourives de alegria - avançou com as mãos ambas e, retirando a creança do seio, materno, poz-se a recolher o sangue que manava.
Nevava ; o vento, ululando, revolvia a poeira brumal do dia triste. Branqueavam os telhados das casas, o campo era uma immensa lápide que reluzia.
De quando em quando manchava a neve a sombra de um corvo errante.
Visões e sonhos * * * Tornou o ourives á velha banca e, cantando, tomou a coroa real e poz-se a engastar o pranto, o leite e o sangue, deslumbrado com a belleza das novas pedras, quando o vento começou a uivar trazendo mais densa neve e fóra, sob o telheiro, a creancinha chorava no collo gelado e murcho da mulher trańsida.
Disse então mysteriosamente a voz mysteriosa : -Porque não recolhes essa pobre mãe que soffre exposta ao frio, e desfallece de fome ? O velho, cravando as pedras, encolheu ligeiramente os hombros e foi fechar o postigo por onde o vento entrava aos silvos e foi ateiar o lume no fogão .
De novo, mysteriosamente, fallou a voz mysteriosa : -Porque não agazalhas a desgraçada que soffre no limiar da tua casa ? Não te deu ella os diamantes, as opalas, os rubis, a fortuna, a vida, emfim, porque serias levado á forca se não achasses as pedras que te furtaram ?
O velho poz-se a cantar indifferente continuando a trabalhar na corôa real. Que lhe importava a misera! La fóra o vento gemia, lá fóra crescia a neve mas, alli dentro, ardia um bom fogo e, com a esperança dos dias afortunados, o velho ourives sorria.
Visões e sonhos Quando entregasse a coroa e recebesse do rei a recompensa compraria uma granja fertil, teria arvorêdo e rebanhos, uma casa de muros novos, sem trinchas por onde o nordeste entrasse, coberta de telhas novas. O seu trigal dar-lhe-ia pão para todo o anno, o olivedo daria o azeite, o parreiral daria o vinho, a lan elle mesmo tosaria das ovelhas gordas, o mel as abelhas o fariam nos colmeaes dispostos em torno da casa e, como elle havia de gozar, á tarde, á hora do recolher, quando visse os rebanhos virem vindo devagarinho, ao canto dos zagáes, sob o olhar cláro das primeiras estrellas ...
Lá fóra gemia o vento, crescia a neve. * * * Subito, um dos mais claros diamantes, quando elle o ia encravando na corôa, diluio-se-lhe entre os dedos como um crystal de neve.
Pasmado, maravilhado o velho ourives ficou a olhar os dedos gottejantes e viu que todas as pedras se fundiam escorrendo em pranto, em leite, em sangue pelos florões da corôa.
Esgazeado e livido entrou o velho a tremer, mas uma idéa accorreu-lhe : Affastou impetuosamente o Visões e sonhos banco em que se sentava e, com ancia, soffregamente, correu á porta onde deixára a mulher. Achou-a estendida e gelada, morta e sem pranto e sem leite e sem sangue e, sobre ella, a neve crescia amortalhando-a e, em torno d'ella, o vento uivava tristonho.
O velho cahio de joelhos, desesperado : Ai ! de mim, ai ! de mim, poz-se a gemer arrancando as falripas. Que ha de ser de mim ?! Miseravel que sou !
Ao rumor do vento estremeceu levantando a cabeça e, d'olhos escancellados e ouvido attento, ficou esperando que fallasse a voz mysteriosa mas só havia no ar o ululo do nordeste sinistro.
De repente, como uma estropeada de muitos cavalleiros apressados, rompeu na rua calada um precipite barulho . O velho alongou afflictamente os olhos que chammejavam e distinguio ao longe, na estrada orlada d'arvores sem folhas, brancas, cobertas de neve, um bando de fidalgos que se encaminhava para o seu tugurio : era a gente do rei que chegava para buscar a corôa .
O ourives, numa derradeira esperança, inclinou-se sobre o cadaver : abrio-lhe os olhos sem pranto, espremeu-lhe os peitos exhaustos e então, vendo a morte visinha, exclamou rojando-se na fria neve : « Porque não a recolhi, Senhor !? Porque não a recolhi ao calor do meu lar ? ! >>> Os cavalleiros apearam sobe o telheiro em ruinas ...
Foi então que, no ar tristonho, passou mysteriosamente um riso mysterioso.