A cerejeira
Muito aconchegados, rosto contra rosto, as mãos nas mãos, encolhidos tiritam no fundo da cabana emquanto o vento raivoso contorce os galhos desnudos.
Uivam de frio e pavor os cães das herdades. Ha lamentos na treva. Longe as arvores parecem esqueletos embrulhados em compridas alvas. E os dois, encolhidos, tiritam no fundo da cabana, sem lume, sem cobertura.
Entanto podiam fazer um fogo confortavel eohomem, se quizesse, teria lenha para todo o inverno.
Perto da cabana ha uma grande cerejeira, a maior do lugarejo. Dois ou tres galhos bastavam para aquecel-os -e que bom que é o cheiro do páo da cereja quando é resinoso !
Apezar das falas da mulher, o homem não se move -prefere passar a noite inteira ao canto, tiritando, transido, quasi a morrer gelado, a ir cortar um ramo Visões e sonhos d'arvore. E, a todas as instancias da companheira, responde com taes palavras : -A cerejeira não. Já te não lembras ? Foi á sua sombra, debaixo dos seus ramos que, uma tarde, trocamos o primeiro beijo. E depois quem nos dará flores quando se fôr o inverno e a primavera sorrir ? Quem recordará o nosso noivado ? A cerejeira não ...
E recomeça na sombra o estrallejar precípite dos dentes .