Natal dos tristes II - O surdo-mudo
O SURDO-MUDO E vê o filho da céga : o dia é claro e vem da tréva da noite. Vê o filho da céga ... antes não visse. De que The serve ter vista se não fala, se não ouve ?! Para elle a Natureza está morta porque nella só ha silencio.
Movese a palma do coqueiro, elle não ouve o farfalho; canta a cigarra do estío, elle não ouve o canto. Ainda assim é feliz, não o lastimeis.
Imaginai a sua dor se ouvisse - succumbiría como um animal que andasse sempre a receber carga sem nunca poder alliviar-se do peso.
E' um edificio fechado onde não entra ninguem, de onde ninguem sahe. Pelos olhos, como por duas claraboias, passam apenas os raios de sol que illuminam o deserto silente.
Elle ahi está parado diante de vós, vendo-vos em festa. Nem ouve nem fala-- olha : é um sepulchro com duas velas accesas. E sorri.
Illuminuras Sabe que festejais o Natal de Deus, sabe porque leu, conhece a lenda porque a vio nos livros : a palavra dos livros entra pelos olhos como os raios de sol, é como essa poeira que anda na luz.
Eil-o festejando comvosco o nascimento do Messías e contente, apezar de surdo, e contente, apezar de mudo.
Para gozar basta-lhe a vista - vê a flor e sentelhe o perfume . Não ouve, não fala ; mas quem sabe se a sua alma não tem as vozes mysteriosas, que, ás vezes, ouvimos no silencio ? Elle que sorri é porque é feliz.