Natal dos tristes I - O cego Romanceiro · Capítulo 44 de 62
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Natal dos tristes I - O cego

Illuminuras

Natal dos tristes CEGO (Palavras textuaes)

Temos certeza de que as formas que creamos intimamente não são as verdadeiras, mas satisfazem-nos.

Nascemos no presidio, ouvimos falar do que ha lá fóra e desejamos ver. Temos a curiosidade que é, para o cego, o que é para o grilheta o instincto da liberdade.

Uma estrella, o sol, a flor, os olhos de uma mulher que, em torno de nós, todos acclamam, serão mais bellos na realidade do que os imaginamos ? Mas que é a belleza ? perguntareis. Que é a belleza senão a viIlluminuras são perfeita ? A belleza é imaginaria. Nós outros temos as nossas bellezas tenebrosas.

Sentimos e tanto basta. Para o gozo temos o tacto, temos o olfacto, temos o ouvido.

Que nos importa a forma da flor se lhe sentimos o perfume e a maciez da petala ? Que nos importa não ver o oceano se ouvimos a sua grande voz ? Que nos importa não ver a paisagem se sentimos o arôma sylvestre das hervas, se ouvimos o mugir do gado, a canção do camponio, o murmurio das aguas que regam as terras.

E as estações ? julgais que não as conhecemos ? melhor do que vós as distinguimos. Dizemos, sem errar, quando vem do oriente a primavera, quando do zenith desce o estío, quando da terra sobe o outono maduro, quando nos chega o inverno do occidente triste. E, mais do que vós, amamos a Natureza : ella, para nós, tem os mesmos mysterios que tem Deus para vós outros.

Sois cegos diante da Providencia e viveis imaginando o Eterno sem nunca o sentirdes senão em ma- 1 nifestações que lhe attribuís ... Sois menos felizes que nós que amamos a Natureza e que a sentimos sempre em dupla existenciareal e imaginaria.

Podeis ver o Deus cujo nascimento festejais ? onde o vêdes senão nalma ? nós tambem nalma o podemos ver.

Cantais em torno do imaginario, a vossa festa é Illuminuras um sonho. Quem sabe se não é mais bello o que sonhamos ?

A musica que ouvís, ouço-a eu tambem. Que importa o feitio do instrumento se a sua voz é que me delicía, e assim, sem vel-o, chego a pensar que vem de longe a sonata, que são anjos que dedilham harpas mysteriosas e goso ouvindo e sonhando.

O amor, direis ... o amor reside no coração. Que importa ao cego o rosto da sua amada se o rumor do seu passo, a melodía da sua voz, o perfume do seu halito bastam para delicial-o ? Ver é sentir com os olhos, os cegos vêm com o coração. O vosso mundo é, talvez, inferior ao que sonhamos : sem chagas, sem podridões. Só sei de uma cega que chorou por não ver : foi no dia em que lhe nasceu o primeiro filho » .

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