Para o sempre! Romanceiro · Capítulo 40 de 62
Obra Menu

Para o sempre!

- Empresta-me o teu coração, implorou a misera, já fria, minutos antes de expirar. Sei que vou morrer e não quero levar commigo o que me não pertence. Guarda em teu coração o que lhe vou confiar e nunca o abras nem o mostres a outrem para que se não venha a conhecer o segredo de uma pobresinha.

Lá mesmo na Altura eu choraria de vergonha se chegasse a saber que o haviam descoberto. Empresta-me o teu coração ...

Como havia eu de recusar cousa tão simples a uma infeliz que agonisava ? Dizem que aos que vão morrer nada se nega e eu, não querendo que me ficasse um eterno remorso, cedi ao pedido da moribunda entregando-lhe o meu coração para que nelle guardasse o que, já com voz flébil, affirmou que não lhe pertencia. Quando m'o devolveu não senti mudança alguma.

Que teria nelle guardado a pallida moritura ? Não sei.

Visões e sonhos No dia seguinte, com o frio do inverno, esfriou para o sempre e, d'olhos fechados, as mãos brancas cruzadas no peito magro, fui encontral-a em seu leito virginal cercada de flores. Pobresinha ! tinha apenas dezoito annos ...

Levamol-a ao cemiterio.

Os coveiros tomaram-na e o caixão baixou á sepultura e cobrio-se de cal e cobrio-se de terra. Tornei á casa e, a tarde, logo depois que ella desappareceu , desanuviou-se ; cigarras cantaram e o azul reappareceu bordado de estrellas .

Seria tão grande a tristeza da. infeliz que désse para entristecer a natureza inteira ? Não sei, tanto, porem, que se fecharam aquelles olhos lindos voltou a alegria ao mundo e os passaros, que não cantavam, entraram a galreiar jocundos, como na primavera.

E os dias correram e eu comecei a sentir que o coração pesava-me no peito.

Durante o dia sentia-o pesadissimo, triste o sentia ao cahir da noite até que, impressionado e lembrandome da morta, resolvi recorrer aos homens sabios para que tentassem descobrir o que havia no meu coração.

Foi tudo baldado ! nenhum dos sabios atinou com a causa do meu soffrimento. Foi um velho poeta quem me disse a triste verdade : -Tendes o vosso coração cheio do amor da morta -foi isso que ella deixou e é tão grande esse amor Visões e sonhos que ella não o quiz levar para que lhe não pesasse quando fosse a subir ao ceu. --E agora ? que hei-de fazer d'esse amor da finada ? Que hei de fazer para alliviar um coração que tanto soffre ? O poeta encolheu os hombros e murmurou :

- Não sei ...

E aqui ando com o coração tomado por esse amor sombrio que me pesa tanto e que não deixa entrar nelle outro amor porque o enche e domina. Ai ! de mim - trago commigo um esquife. Ai ! de mim ... ai! de mim ...

1/1
Menu

Fazer anotação