Coração mareante Romanceiro · Capítulo 23 de 62
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Coração mareante

Enfermara o piloto e, como não houvesse a bordo outro homem que conhecesse aquelles mares arriscados, grande foi o terror na fusta.

Já o barco singrava sem governo, as velas frouxas trapeando e a maruja cercava a maca onde o moço enfermo jazia, quasi a extinguir-se. O gageiro alongava os olhos anciosos sem divisar um ponto no horisonte.

O ceu fechava o mar e nuvens acastellavam-se annunciando borrasca .

Alguns, mais timoratos, sentindo a morte proxima e querendo acabar em graça - porque não esperavam salvamento - andavam pelos cantos balbuciando rezas e promessas ; outros, ainda com animo, iam, de instante a instante, prescrutar a distancia e tornavam suspirando .

O mar encapellava-se e, tumido, espumoso, fazia andar a fusta sem governo. Já os vagalhões assaltaVisões e sonhos vam as bordas quando o moribundo, fazendo um derradeiro esforço, chamou para junto do leito os companheiros.

Acudiram todos precipitados julgando que a vida The voltára, mas o mancebo, ajuntando todo o alento, poude apenas dizer enfraquecidamente :

Não desespereis. Em verdade já vos não posso levar em rumo á patria, mas vós outros não deveis ignorar que, d'esta volta, dependia a minha ventura porque ha alguem que me espera em terra com o mais leal dos amores. Bem sabeis que sou noivo.

A companha, que ouvia, affirmou pesarosa sem aturar com a razão d'aquellas descabidas palavras em transe tão perigoso. E o moço continuou com ancia: -Bem sei que morro, mas não vos dê isso cuidado. Lançai ao mar meu corpo e mais alliviada ficará a fusta, mas tomai o meu coração e deixai-o á prôa porque elle vos levará, como uma bussola, á terra da patria que o attrahe. Disse e expirou.

A maruja, tomando por insanas as palavras do moço piloto, não quiz profanar o seu corpo e ia alijal-o intacto quando um velho marinheiro observou :

Porque não havemos de executar a sua vontade ?

Se o conselho houver sido um producto do delirio logo teremos prova. Tomemos o coração. E assim foi feito. Tanto que o expuzeram na habitacula logo o coração voltou-se para um ponto e em tal rumo velejaram .

Visões e sonhos Singraram com fortuna através da procella até que, ao alvor de uma manhan, avistaram torres que pareciam emergir d'agua e logo, alvoroçadamente, reconheceram a terra da patria. Foi grande o clamor de festa e os que se julgavam perdidos ajoelharam-se no convés alagado agradecendo a Deus o salvamento.

Só um homem foi grato subindo á prôa para beijar o coração do morto que os havia conduzido aquelle termo : foi o velho marinheiro.

Tanto, porém, que a fusta entrou no porto o que levava veneradamente o coração, sentio-o tremulo e, á medida que se approximava de terra, mais tremulo o sentia.

Já ouviam os repiques festivos dos sinos e, como a capella ficava num outeiro, um dos marujos, que ia a olhar agudamente, disse com alegria :

Olhem lá ! E' uma bôda que sahe da capellinha . -Felizes noivos ! disseram. E o coração desfez-se em sangue na mão callosa do velho marinheiro. Houve espanto a principio, mas o marinheiro disse : -E' natural que acabe porque cumprio a sua missão. Agora peçamos ao Senhor pela alma do que morreu.

Só mais tarde souberam a razão do caso estranho quando lhes disseram quem era a noiva que sahia da capellinha do outeiro quando a fusta, por milagre, ancorava no porto.

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