Na estrada, ao sol
É larga a estrada e brilha ao sol. Vai por ella fóra, farnel cheio ás costas, olhos altos, no ceu, a cantar, parodiando os gaturamos, um rapazinho louro ; vem por ella, cajado em punho, a taleiga vasia, um velhinho, tardigrado e tremente, desesperançado, d'olhos no chão, acompanhando a sombra.
E o rapazinho, a cantar, dividindo o que leva com a terra, com as aguas, com a luz, com o passaredo, não vê que o seu farnel vai escasseando ; e o velhinho, a tremer, as mãos engelhadinhas, a olhar, a olhar a larga estrada, ao sol .
- Onde vais, louro infante ? -Alem ! E o velhinho, a sorrir, triste e tremente :
De lá venho eu assim como estás vendo. -De lá vens, dizes com tanta amargura, pobre velho. Não viste, então, as montanhas azúes e as aguas Livro das illusões de prata ? Não colheste, nas arvores, os fructos d'ouro ou a dama que possuiste foi perjura e perversa ? -De lá venho, insiste o velho, tão só e compassadamente . -E onde vais ? -Para o sitio d'onde vens : buscar descanço. Volta commigo, louro infante. Mais vale o fumo azul de uma cavana do que a nuvem dourada que além passa.
Volta commigo .
- Quê ! tornar atraz ? tornar ao mesmo sitio ? Deliras, pobre velho ! Vem tu commigo ; anima-te ! -Eu ?! E o velhinho, a rir, sem dentes : E que fazes ? attenta no que fazes ! Porque, a mancheias, desperdiças a fortuna que levas ? Sê mais avaro, louro infante. Guarda o teu bem para que não te succeda, á volta, o que a mim succede : soffrer fome, soffrer sede, soffrer frio e o desengano. -Pois não estás vendo, velhinho, que o que vou semeando rebenta em flor e trescala, surge do ninho e é canto alado, torna-se em arvore e dá fructo e sombra, enche a natureza toda de alegria ? -Tambem pareceu-me assim quando, como tu, eu tinha os cabellos louros. Tambem pareceu-me assim, já me não parece agora. Alonga o teu olhar noviço : que avistas alem ? -Espinhaes, espinhaes ... Mais nada avisto.
E que ouves ? louro infante. Escuta.
Pios d'aves tristes : nada mais.
Livro das illusões -Foi o que eu semeei. A principio, como te succede agora, pareceu-me ver flores e ouvir trillos; e fui semeando, semeando ... Ahi tens : mochos e espinhaes, mochos e espinhaes. Torna commigo, louro infante. Aquillo que alem avistas é perfidia. Naquellas serras azues móra um feiticeiro maligno que se chama Ideal. Vai-se attrahido pelos seus sortilegios e, quando, como me aconteceu, de lá se póde tornarporque o maior numero lá fica é assim como me vês : pobre, o coração vasio como esta taleiga, e triste .
Torna commigo, louro infante. É mais doce do que o gorgeio do gaturamo a cantilena de tua mãe. Tudo, por esta estrada longa, é illusão e perfidia. -Que importa ! as montanhas d'alem são tão azúes que parecem feitas de ceu. --Torna commigo ao teu casebre, infante. Tudo é illusão e perfidia. Eu de lá venho, das montanhas, e sei. Torna commigo. -Adeus, velhinho.
E lá vai, estrada fóra, farnel cheio ás costas, olhos altos, no ceu, a cantar, o rapazinho louro. E ovelhinho, vendo-o seguir, suspira : -Pobre creança ! desgraçado infante! como vai soffrer ... Elle a querer ser velho e ... (pobre de mim ! e pobre d'elle !) eu a querer tornar a ser creança !