As uyáras Romanceiro · Capítulo 26 de 62
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As uyáras

As uyaras Ao livido luar funereo, d'entre os flexiveis cálamos dos lyrios, as uyaras surgiam tremulas de frio.

Era em junho, o mez brumal, ao livido luar funereo.

O nevoeiro pulverisava a noite e um vento gélido soprava. A paisagem era triste á beira d'agua lacustre, perto da selva múrmura e mais triste a tornava o livido luar funereo escorrendo das arvores como mortalhas d'espectros penduradas dos ramos.

Abeirei-me do pálude. Protegia-me um grosso tronco primévo e vi e ouvi as virgens amphibias que nenhum mortal conseguio jamais, com seducção ou violencia, arredar das aguas ou das terras ribeirinhas para gozar o beijo dos seus labios.

As estrellas são como pupillas de mortos, opacas no fundo ceu. Não ha conforto nas aguas, não ha conforto na terra. Que rispida noite corre e que desolação !" Visões e sonhos.

Uma, mais bella e núa, levantou-se d'entre os flexiveis cálamos dos lyrios e falou tremulamente, apertando entre as mãos os seios pequeninos :

- Ha bem perto d'aqui alguem que nos póde aquecer. Para nós outras só o calor do ceu ou o calor das almas porque de nada nos servem colmos de cabanas nem folhagens de arvoredo nem chammas de brazídos. Ha, bem perto d'aqui quem nos póde alliviar do frio que nos regela. E' Jandyra, moça virgem.

Ella deve ter o coração ardente. Vamos até junto do seu leito casto e aqueçamo-nos ao calor do seu coração amoroso.

E todas, transídas, tremulamente disseram : -Vamos ! E partiram.

Jandyra ! Jandyra ! ... pobres uyaras, princezas das aguas múrmuras.

Amanhecia. Como choravam as aguas orphans !

Murcharam de tristeza os lyrios transparentes e as garças alvadías chegando, de longe, a margem d'agua lacustre procuravam, com ancia, as princezas do pálude.

Vozes bradavam por mim, vozes afflictas e o primeiro que me avistou logo me disse : -Anda d'ahi, a correr. Vem vêr, junto ao leito de Jandyra, núas e como são formosas !

Corri e, mesmo correndo, ia ouvindo meu coração compadecido que lamentava a sorte das desgraçadas : -Pobres uyaras d'agua ! Pobres princezas mysterioVisões e sonhos sas ! Chegando eis o que vi com magua inexprimivel :

Em torno do leito de minha amada, mortas, jaziam as uyaras brancas. Uma apenas arquejava aindaroxa, as mãos crispadas, os olhos amortecidos como as estrellas da noite. Curvei-me sobre a pobresinha e pude ouvir os seus ultimos lamentos e vi quando se extinguio o raio derradeiro da sua verde e humida pupilla :

Pobre de mim que te amo, formosa creatura indifferente .

Agora sei porque ando sempre triste e derivando lagrimas como uma geleira que se funde. Agora sei porque não me basta o sol, porque não me bastam os carinhos dos que me cercam e porque minh'alma não se arreda de tie tu ... Pobres uyaras, princezas das aguas múrmuras ! Pobre de mim, Jandyra ... !

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