O vagalume Romanceiro · Capítulo 24 de 62
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O vagalume

Foi ao principio, disse o velho Azael aos zagalejos que, todas as noites, no pouso da montanha, á volta do fogo, emquanto as ovelhas sonhavam com as hervas tenras e com as aguas limpidas, cercavam-no pedindo historias. E ninguem as sabia tão curiosas como o solitario Azael que se recolhera á montanha depois que levara a noiva ao tumulo.

Foi no principio, disse o velho Azael-tudo era sombra e silencio e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do ceu, lapidavaos e a poeira luminosa que d'elles sé esparzía ficava espalhada formando a Via Lactea e as outras nebulosas.

Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a brunil-a e assim conseguio fazer todas as estrellas que brilham, o sol que é um topazio enorme e a lúa que é uma grande opala triste.

Visões e sonhos Mas, lapidando os astros, não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse parar á terra, mas tendo de crear os animaes e o Homem desceu ao mundo deserto e, caminhando, de vagar, pela sombra, vio, de repente, fulgir entre as arvores virgens uma chamma fugaz. Deteve o andar e pensativo, ficou acompanhando a viagem aerea e volteante da fagúlha de origem desconhecida.

Vendo-as ir e vir e vendo que outras surgiam o bom Deus, não querendo que o demonio astúto puzesse maleficio em sua obra e julgando as chammas erradías creações do Máo Anjo-porque não se lembrava de as haver creado -tomou, no espaço, uma das que passavam e, com o seu alto poder, fez com que a centelha falasse e, entre os seus dedos, a centelha falou :

- Senhor, deixai-me ir livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chamma, não fui gerada nos braseiros infernaes, venho das claras estrellas que fulguram no ceu. Quando as lapidaveis d'ellas sahia uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas, succedeu, porém, que alguns grãos pequeninos d'essa poeira rutilante vieram cahir na terra e porque nelles havia tocado a vossa mão logo se animaram e, á noite, á hora em que as estrellas brilham no ceu, a poeira das estrellas vive e brilha na terra.

Bem vêdes que de Vós venho. Deixai-me ir, SeVisões e sonhos nhor ! Deixai-me ir por entre as arvores que cheiram e por cima das aguas brancas que murmuram.

E o Senhor, enternecido, abrio os dedos deixando partir o vagalume. E ahi tendes porque não é fixa, como a das estrellas, a luz do vagalume - é que ella esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e, até hoje, o insecto guarda essa instantanea impressão.

No pouso o fogo triste morria e Azael levantou-se para alimental-o .

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