A escolha Romanceiro · Capítulo 51 de 62
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A escolha

Livro das illusões

A PAULO BARRETO Todas as tardes, de uma d'aquellas cabanas, com um alto lamento que chegava ao ceu, sempre azul e doirado, sahia um corpo para o eterno repouso, entre altos sycomoros de basta folhagem e finos cyprestes altos que, ao livido clarão do luar, tomavam o aspecto lugubre de enormes pegureiros, com os agudos capuzes sobre a cabeça, immoveis, guardando os sepulchros brancos, que alvejavam como um quieto rebanho espalhado entre flores.

Debalde os altares rusticos cobriam-se de offerendas que o fogo lento dos sacrificios consumia ; debalde os homens santos, que viviam nas cavernas, clamavam prostrados, com a rude face na terra morna , os deuses barbaros e o Deus meigo dos eremitas pareciam desattentos ás vozes que subiam da terra em grita lamentosa, aos canticos, ás murmuradas preces.

Livro das illusões A morte continuava a ferir sem pena a pobre gente.

Dizia-se que um anjo negro, armado de gladio, tendo escolhido a sua victima, arremessava-se d'alto sobre ella, como um abutre sobre a presa, feria-a e remontava ás nuvens, desapparecendo até á tarde seguinte quando, de novo, pairava, adejava e precipitava-se violento.

Ora, em uma d'aquellas cabanas, vivia Ayiché, pobre mulher, cujo esposo partira, com um carregamento de balsamo, para os lados do mar deixando-a a cuidar do campo, que era farto e de dois filhinhos, que eram lindos.

Ayiché, na sua pobreza, quando, á sombra de uma das grandes figueiras, em torno das quaes enxameavam abelhas, dava o peito ao pequenito, vendo correr, a rir, o mais velho, considerava-se tão venturosa que não trocaria a sua vida de porfiado trabalho pela da princeza mais rica.

Ayiché fôra bella. Ainda os seus grandes olhos negros conservavam o esplendor do tempo em que, entre as donzellas da aldeia, uma amphora ao hombro, a tunica fluctuando, descia á fonte ou, graciosamente coroada de flores, com os braços enrodilhados em braceletes de prata, um veu airoso desfraldado ao vento, leve, languida, sorrindo, volteava nas danças como Livro das illusões uma fina libellula esvoaçando á flor das aguas limpidas.

Virtuosa, desde que o seu esposo partira, nunca mais homem algum crusara o solar da sua porta, nem mesmo os marabutos santos que abençoam os lares ; e, todas as tardes, á hora em que o sol morre, com o pequenito nos braços e o mais velho agarrado aos seus vestidos, ficava, um momento , a olhar saudosamente o horisonte, para as bandas do occaso, á espera de ver surgir a caravana em que devia chegar alegre, com o ginete a reluzir de suor e a bolsa pesada de ouro, o seu esposo esbelto, senhor da sua alma e do seu corpo.

Uma tarde, justamente ella alongava os olhos pelo vasto deserto, sempre com os dois filhos -um ao collo, outro pela mão -quando uma sombra fria escureceu gelidamente a cabana e uma voz sinistra falou: «Ayiché, mulher de Abdul, filha de Ahmed, caçador de leões, amanhã, á hora em que a lua subir no ceu e as aves escuras da noite soltarem-se no espaço, a Morte passará pela tua cabana em busca do seu tributo . Tens dois filhos - escolhe um d'elles e deixa-o ficar sob a figueira da tua porta. >> E clareou de novo, e de novo aqueceu.

Ayiché ficou como petrificada e, tanto apertou ao collo o pequenito, que a creança abriu num pranto Livro das illusões e o outro, de medo, poz-se tambem a chorar. Ayiché recolheu-se, sempre a ouvir as roucas palavras da sentença cruel, accendeu a candeia, adormeceu os filhos e, ajoelhada entre os dois berços, d'olhos muito abertos, ficou-se immovel, fazendo a escolha.

Olhava o mais velho. Como era lindo a dormir !

Os cachos dos seus cabellos negros rolavam-lhe pelo rosto moreno como as ramas floridas pelo frontão de um templo.

O pequenito rechonchudo sonhava e sorria, com duas covinhas nas faces.

A misera sentia a noite correr .. Nunca as horas The pareceram tão ligeiras.

Já os passaros cantavam nas arvores e os rebanhos saudavam a alvorada nos campos ... e Ayiché ouvia sempre as palavras fataes .

Não teve animo de ir á lavoura, não se desprendeu dos filhos, olhando-os : ora um, ora outro.

Livro das illusões

O coração de Ayiché esbarrou contra o peito, as lagrimas saltaram-lhe dos olhos e, estranguladamente, desesperadamente a coitada bradou entre os dois amores :

Porque não fizestes em silencio o vosso mister, anjo da Morte ? Eu choraria sobre o cadaver, cobril-o-ia de flores, abriria o seu tumulo entre rosaes, mas não soffreria tanto como soffro. Que vos fiz eu, Senhor Deus ! ? >>> Os pequenitos brincavam á sombra cheirosa das arvores e o dia escoava-se .

A' tarde Ayiché sahiu a olhar o horisonte : deserto, nem sombra de caravana. Se elle, ao menos, chegasse ... !

Mas as cigarras cantavam, o sol transpunha o ceu, rente das areias longinquas, abrazando as dunas e os palmares.

Silvavam rispidos os trissos dos morcegos, os chacaes uivavam e a primeira estrella luziu.

Livro das illusões Era a hora em que as creanças costumavam dormir.

O mais velho abraçou-a, beijou-a e subiu para o seu berço de palha, o mais novo estendeu-lhe os bracinhos e, tanto que ella o tomou, logo, avidamente, collou a boquinha ao peito e adormeceu. Deitou-o e, ajoelhada entre os berços, quedou-se contemplando os filhos .

Um raio de lua entrou pela cabana escura e quieta -era a hora.

Ergueu-se allucinada - curvou-se, estendeu os braços a um berço, a outro. As estryges chirriavam.

Vacillou ; mas, rapida, cobrindo-se com o manto, ainda beijou os filhos, ainda os molhou de lagrimas e, lenta, em passos arrastados, voltando-se de quando em quando, sahiu, desceu o degrau de pedra e, tremendo, batendo os dentes, arrepiada de medo, os olhos voltados para a cabana, sentou-se sob a figueira.

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