O centenário
O centenario Era um jequitebá formidavel, o mais velho da selva, sem galhos, sem folhas ; o tronco apenas avultava entre as arvores frondosas, como um mastro colossal. Junto á raiz uma bróca profunda, debruada a musgos, em volta samambaias caprichosas e cipoaes retorcidos nos quaes os gaturamos penduravam os ninhos.
O machado dos lenhadores respeitava-o : era o patriarcha venerando da selva, encanecido e minado pelo tempo. Procuravam-no apenas os mariboudos que colavam os seus alveolos ao vetusto tronco ou os bemtevis que, empoleirados na grimpa, cantavam ao nascer do sol e ao cahir da tarde.
Todas as arvores contemporaneas haviam tombado, só elle resistia marcando, como um deus termo, a fronteira selvagem. Davam-lhe seculos e um matteiro disse, certo dia :
Visões e sonhos Esse é do tempo dos caboclos. Já nem casca tem mais, coitado ! E' poeira que está de pé, sabe Deus como.
Resistia, emtanto, ás soalheiras fortes e ás desabrídas borrascas, mas debalde a primavéra passava por elle, misero macrobio ! as folhas não brotavam mais.
Uma noiteo luar clareava limpidamente a montanha -- estavamos na varanda da casa quando ouvimos um baque fragoroso como se uma barreira houvesse aluído, cavada pelas enxurradas. As moças tremeram de susto, os cães arremetteram ladrando e todos os olhos voltaram-se na direcção do fremito. O matto farfalhava como se o agitasse a furia de um vendaval, estálos rispidos partiam da selva copada, fronteira á casa. O pasmo crescia quando um antigo escravo, resolúto e atrevído, offereceu-se para ir á collina. Subio alumiado pelo luar e já o haviamos perdido de vista, quando ouvimos a sua voz retumbando no silencio da noite : -Foi o jequitebá que morreu !
Na manhan seguinte fomos, em romaria, ver o cadaver do gigante. Lá estava, com as raizes arrancadas da terra, tombado sobre as outras arvores como Jesus ao collo das mulheres. O tronco fôra ferido pelo caruncho, que é a larva destruidora dos vegetaes, só a casca resistira formando um grande tubo negro através do qual via-se o ceu.
Visões e sonhos Vasio, inteiramente vasio, o centenario tombára abalado pela brisa, elle que luctara com os cyclones no tempo verde da sua viçosa mocidade, ou, quem sabe se não se deixou exhausto de illusões e de forças?
Encarquilhado -porque já não tinha a resistencia interiorconservava apenas a forma externa d'um tronco, a apparencia d'uma arvore : por dentro era a triste immensidade do vácuo.
Assin somos nós, disse um velho que o contemplava. Ás vezes um carinho mata-nos porque, vasios como estamos, nem força temos para resistir á alegria. Esse ... foi o luar que o matou, foi a caricia que o feriu de morte.
Assim somos nós, tristes corações vasios. Sem a força interior, minado pelos desenganos, quem ha que resista aos embates da vida ? Bem certo que é melhor morrer.