Natal dos tristes III - O louco
O LOUCO Junto ás grades da cellula, agarrado aos rijos varões, o louco espía. Bem perto passam, cantando, festivos grupos ; elle ouve, escuta e fica extasiado. Um clarão illumina-lhe a alma tempestuosa : Natal.
Como á fulguração de um relampago vê-se toda a extensão d'uma larga paisagem, á lucida reminiscencia illuminada por essa palavra quanto vê o infeliz !
A infancia, a alegria domestica, as festas ruidosas, toda a sua gente em torno da mesa patriarchal, fartamente servida ; as creanças, com os cabellinhos louros, recebendo balas e brinquedos, os velhos satisfeitos, revendo-se nos filhos e nos netos, todos os cantos da casa enfeitados de flores.
Depois a adolescencia ; já lugares vagos á mesa e novos tumulos nos cemiterios ... Depois a idade adulta : a esposa, um berço. Mas estava extincta a claridade e, como depois do flammejar do relampago, Illuminuras mais se adensa a treva tormentosa, eil-o a bramir abalando as grades da prisão, eil-o a uivar como a féra que, no fundo da jaula, sentio na bafagem crepuscular um brando perfume de florestas.
Porque fostes illuminar a sombra d'aquelle espirito ? Felizes, porque não levastes para mais longe a vossa felicidade ? Porque não passastes em surdos passos para que o louco não vos sentisse ? E agora ahi tendes os vossos cantares interrompidos pelos ululos da insania.
Elle dormia - porque o fostes acordar ? E agora vêde como o acalentam, vêde como lhe domam a saudadecom a camisola de força.