O processo de troca
As mercadorias não podem ir sozinhas ao mercado nem trocar-se umas pelas outras. Precisamos, portanto, voltar nossa atenção para seus guardiões, os proprietários de mercadorias. As mercadorias são coisas e, por isso, não oferecem resistência ao ser humano. Se não se mostram dóceis, ele pode recorrer à força; em outras palavras, pode apoderar-se delas.37 Para que essas coisas se relacionem umas com as outras como mercadorias, seus guardiões precisam relacionar-se entre si como pessoas cuja vontade reside nessas coisas, de modo que um só possa apropriar-se da mercadoria alheia mediante a vontade do outro, isto é, que cada qual só se aproprie da mercadoria do outro ao alienar a sua própria, por meio de um ato de vontade comum a ambos. Precisam, portanto, reconhecer-se reciprocamente como proprietários privados. Essa relação jurídica, cuja forma é o contrato, esteja ou não juridicamente desenvolvida, é uma relação de vontades na qual se reflete a relação econômica. O conteúdo dessa relação jurídica, ou relação de vontades, é dado pela própria relação econômica.38 As pessoas só existem aqui umas para as outras como representantes de mercadorias e, portanto, como seus proprietários. Ao longo da investigação, veremos, de modo geral, que as máscaras econômicas assumidas pelas pessoas são apenas personificações das relações econômicas, das quais elas se apresentam como portadoras.
O que distingue, em particular, o proprietário de mercadorias da própria mercadoria é que, para esta, o corpo de qualquer outra mercadoria só conta como forma de manifestação de seu próprio valor. Niveladora e cínica por natureza, ela está sempre pronta a trocar com qualquer outra mercadoria, ainda que essa outra seja mais desagradável do que Maritorne, não só a alma, como também o corpo. A falta de sensibilidade da mercadoria para o caráter concreto do corpo de outra mercadoria é suprida pelo proprietário com seus próprios cinco sentidos, e até mais. Para ele, sua mercadoria não possui valor de uso imediato; caso contrário, ele não a levaria ao mercado. Ela tem valor de uso para outras pessoas. Para seu proprietário, seu valor de uso imediato consiste apenas em ser portadora de valor de troca e, assim, servir de meio de troca.39 Por isso ele quer aliená-la em troca de uma mercadoria cujo valor de uso satisfaça suas necessidades. Todas as mercadorias são não valores de uso para seus proprietários e valores de uso para quem não as possui. Elas precisam, portanto, mudar de mãos em todas as direções. Essa mudança de mãos constitui sua troca, e a troca as relaciona umas às outras como valores e as realiza como valores. As mercadorias precisam, assim, realizar-se como valores antes de poder realizar-se como valores de uso.
Por outro lado, precisam demonstrar que são valores de uso antes de poder realizar-se como valores. Pois o trabalho humano nelas despendido só conta na medida em que foi realizado sob uma forma útil para outras pessoas. Saber se esse trabalho é útil para os outros, e se seu produto satisfaz necessidades alheias, é algo que somente a troca pode demonstrar.
Todo proprietário de mercadorias deseja alienar a sua em troca de outras mercadorias cujo valor de uso satisfaça suas necessidades. Nessa medida, a troca é para ele um processo individual. Ao mesmo tempo, quer realizar sua mercadoria como valor, isto é, convertê-la em qualquer outra mercadoria de igual valor, quer sua própria mercadoria tenha valor de uso para o proprietário da outra, quer não. Nessa medida, a troca é para ele um processo social geral. O mesmo processo, entretanto, não pode ser, simultaneamente e para todos os proprietários, apenas individual e apenas social geral.
Se observarmos mais de perto, veremos que, para cada proprietário de mercadorias, qualquer mercadoria alheia aparece como equivalente particular da sua; sua própria mercadoria aparece, por isso, como equivalente geral de todas as outras. Como todos os proprietários fazem o mesmo, nenhuma mercadoria é equivalente geral; consequentemente, as mercadorias não possuem uma forma relativa geral do valor que lhes permita igualar-se como valores e comparar-se como grandezas de valor. Por isso, nessa situação, elas se defrontam, em rigor, como simples produtos ou valores de uso, e não como mercadorias.
Em seu embaraço, nossos proprietários de mercadorias pensam como Fausto: no princípio era a ação. Por isso, já agiram antes de pensar. As leis da natureza das mercadorias se impuseram por meio do instinto natural de seus proprietários. Eles só podem relacionar suas mercadorias umas com as outras como valores e, portanto, como mercadorias, ao relacioná-las, em oposição, com alguma outra mercadoria na condição de equivalente geral. Isso foi demonstrado pela análise da mercadoria. Mas somente um ato social pode fazer de uma mercadoria determinada o equivalente geral. A ação social de todas as demais mercadorias destaca, portanto, uma mercadoria específica, na qual todas exprimem seus valores. Desse modo, a forma natural dessa mercadoria torna-se a forma de equivalente socialmente válida. Ser equivalente geral passa a ser, por força do processo social, a função especificamente social da mercadoria assim destacada. É assim que ela se torna dinheiro.
“Illi unum consilium habent et virtutem et potestatem suam bestiae tradunt. Et ne quis possit emere aut vendere, nisi qui habet characterem aut nomen bestiae, aut numerum nominis ejus.” (Apocalipse.)E10E12
O cristal de dinheiro é um produto necessário do processo de troca, no qual produtos de trabalhos diferentes são efetivamente equiparados entre si e, desse modo, efetivamente transformados em mercadorias. A expansão e o aprofundamento históricos da troca desenvolvem a oposição entre valor de uso e valor, adormecida na natureza da mercadoria. A necessidade de apresentar exteriormente essa oposição nas relações de troca impulsiona a constituição de uma forma autônoma do valor das mercadorias e não descansa nem dá trégua até que essa forma seja definitivamente alcançada mediante a duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro. Assim, na mesma medida em que os produtos do trabalho se transformam em mercadorias, a mercadoria se transforma em dinheiro.40
A troca direta de produtos possui, por um lado, a forma da expressão simples do valor e, por outro, ainda não a possui. Aquela forma era: x mercadoria A = y mercadoria B. A forma da troca direta de produtos é: x objeto de uso A = y objeto de uso B.41 Nessa relação, as coisas A e B não são mercadorias antes da troca; tornam-se mercadorias por meio dela.
A primeira maneira pela qual um objeto de uso é, em potência, valor de troca consiste em sua existência como não valor de uso, isto é, como uma quantidade de valor de uso que excede as necessidades imediatas de seu proprietário. As coisas são, em si mesmas, exteriores ao ser humano e, portanto, alienáveis. Para que essa alienação seja recíproca, basta que as pessoas se reconheçam tacitamente como proprietárias privadas dessas coisas alienáveis e, por isso mesmo, como pessoas independentes umas das outras. Essa relação de estranhamento recíproco, porém, não existe entre os membros de uma comunidade surgida espontaneamente, quer ela assuma a forma de uma família patriarcal, de uma antiga comunidade indiana ou de um Estado inca,E14 entre outras. A troca de mercadorias começa onde terminam as comunidades, nos pontos em que entram em contato com comunidades estrangeiras ou com membros de outras comunidades. Uma vez que as coisas se tornam mercadorias nas relações exteriores, elas passam, por repercussão, a tornar-se mercadorias também na vida interna da comunidade.
A proporção quantitativa em que são trocadas é, a princípio, inteiramente casual. As coisas podem ser trocadas porque seus proprietários decidem aliená-las reciprocamente. Aos poucos, porém, a necessidade de objetos de uso vindos de fora se consolida. A repetição constante da troca transforma-a em processo social regular. Com o passar do tempo, ao menos uma parte dos produtos do trabalho precisa, portanto, ser produzida deliberadamente para a troca. A partir desse momento, firma-se, de um lado, a separação entre a utilidade das coisas para a necessidade imediata e sua utilidade para a troca: seu valor de uso se distingue de seu valor de troca. De outro lado, a relação quantitativa em que são trocadas torna-se dependente de sua própria produção. O costume fixa essas coisas como grandezas de valor.
Na troca direta de produtos, cada mercadoria é, imediatamente, meio de troca para seu proprietário e equivalente para quem não a possui, mas somente na medida em que seja valor de uso para essa outra pessoa. O artigo trocado ainda não adquire, portanto, uma forma de valor independente de seu próprio valor de uso ou da necessidade individual dos participantes da troca. A necessidade dessa forma se desenvolve com o aumento do número e da variedade das mercadorias que entram no processo de troca. O problema surge juntamente com os meios de sua solução. Um intercâmbio no qual proprietários trocam seus próprios artigos por artigos diferentes e os comparam nunca ocorre sem que diversas mercadorias, pertencentes a diferentes proprietários, sejam trocadas por uma mesma terceira espécie de mercadoria e comparadas, como valores, com ela.
Essa terceira mercadoria, ao tornar-se equivalente de diversas outras, recebe imediatamente, embora dentro de limites estreitos, uma forma de equivalente geral ou social. Essa forma de equivalente geral surge e desaparece com o contato social momentâneo que lhe deu origem. Alternada e transitoriamente, ela cabe a esta ou àquela mercadoria. Com o desenvolvimento da troca de mercadorias, porém, fixa-se de maneira exclusiva em espécies particulares de mercadorias, ou se cristaliza na forma-dinheiro. A espécie de mercadoria à qual essa forma se prende é, de início, casual. Em linhas gerais, contudo, duas circunstâncias são decisivas. A forma-dinheiro adere aos principais artigos recebidos de comunidades estrangeiras, que são, de fato, formas espontâneas de manifestação do valor de troca dos produtos locais; ou adere ao objeto de uso que constitui o principal elemento da propriedade local alienável, como o gado.
Os povos nômades desenvolvem primeiro a forma-dinheiro porque todos os seus bens se encontram em forma móvel e, portanto, imediatamente alienável, e porque seu modo de vida os põe constantemente em contato com comunidades estrangeiras, levando-os à troca de produtos. Os seres humanos fizeram muitas vezes do próprio ser humano, sob a figura do escravo, o material monetário primitivo, mas nunca do solo. Tal ideia só poderia surgir numa sociedade burguesa já desenvolvida. Ela data do último terço do século XVII, e somente um século depois se tentou realizá-la em escala nacional, durante a revolução burguesa francesa.
À medida que a troca de mercadorias rompe seus limites meramente locais e o valor das mercadorias se amplia até se tornar materialização do trabalho humano em geral, a forma-dinheiro passa a mercadorias que, por suas propriedades naturais, são adequadas à função social de equivalente geral: os metais preciosos. A correspondência entre as propriedades naturais desses metais e as funções do dinheiro demonstra que “embora o ouro e a prata não sejam dinheiro por natureza, o dinheiro é, por natureza, ouro e prata”.4243 Até aqui, porém, conhecemos apenas uma função do dinheiro: servir de forma de manifestação do valor das mercadorias ou de material no qual as grandezas de valor das mercadorias recebem expressão social.
Uma forma de manifestação adequada do valor, ou uma materialização de trabalho humano abstrato e, portanto, igual, só pode ser uma matéria cujos exemplares tenham todos a mesma qualidade uniforme. Por outro lado, como a diferença entre grandezas de valor é puramente quantitativa, a mercadoria-dinheiro precisa comportar diferenças puramente quantitativas; deve, portanto, poder ser dividida à vontade e novamente reunida a partir de suas partes. Ouro e prata possuem naturalmente essas propriedades.
O valor de uso da mercadoria-dinheiro se duplica. Ao lado de seu valor de uso particular como mercadoria, como o do ouro empregado para preencher cavidades dentárias ou servir de matéria-prima para artigos de luxo, ela adquire um valor de uso formal, que decorre de suas funções sociais específicas. Como todas as outras mercadorias são apenas equivalentes particulares do dinheiro, ao passo que o dinheiro é seu equivalente geral, elas se relacionam com ele como mercadorias particulares diante da mercadoria geral.44
Vimos que a forma-dinheiro é apenas o reflexo, fixado numa mercadoria, das relações de todas as outras mercadorias. O fato de o dinheiro ser mercadoria45 só é uma descoberta para quem parte de sua forma acabada a fim de analisá-la posteriormente. O processo de troca não confere valor à mercadoria que transforma em dinheiro; confere-lhe sua forma específica de valor. A confusão dessas duas determinações levou à ideia de que o valor do ouro e da prata seria imaginário.46 Como o dinheiro pode, em determinadas funções, ser substituído por meros sinais que o representam, surgiu outro equívoco: o de que ele próprio seria apenas um sinal. Por outro lado, havia nessa ideia a intuição de que a forma-dinheiro da coisa lhe é exterior e constitui apenas a forma de manifestação de relações humanas ocultas por trás dela.
Nesse sentido, toda mercadoria seria um sinal, pois, como valor, ela é apenas o invólucro material do trabalho humano nela despendido.47 Mas, quando os caracteres sociais adquiridos pelas coisas, ou os caracteres de coisas adquiridos pelas determinações sociais do trabalho com base num determinado modo de produção, são declarados meros sinais, eles também são declarados produtos arbitrários da reflexão humana. Era esse um procedimento predileto do Iluminismo do século XVIII, empregado para afastar, ao menos provisoriamente, a aparência de estranheza das formas enigmáticas das relações humanas, cujo processo de formação ainda não havia sido decifrado.
Já observamos que a forma de equivalente de uma mercadoria não compreende a determinação quantitativa de sua grandeza de valor. Saber que o ouro é dinheiro e, portanto, diretamente trocável por todas as outras mercadorias não permite saber quanto valem, por exemplo, dez libras de ouro. Como qualquer mercadoria, o dinheiro só pode exprimir sua própria grandeza de valor relativamente, em outras mercadorias. Seu próprio valor é determinado pelo tempo de trabalho exigido para produzi-lo e se exprime na quantidade de qualquer outra mercadoria em que esteja coagulado igual tempo de trabalho.48 Essa determinação de sua grandeza relativa de valor ocorre no lugar de sua produção, mediante a troca direta. Quando entra na circulação como dinheiro, seu valor já está dado. Se, nas últimas décadas do século XVII, saber que o dinheiro é mercadoria já representava um ponto de partida amplamente ultrapassado na análise do dinheiro, ainda assim se tratava apenas de um começo. A dificuldade não está em compreender que o dinheiro é mercadoria, e sim em explicar como, por que e por meio de que uma mercadoria se torna dinheiro.49
Vimos que, já na expressão mais simples do valor, x mercadoria A = y mercadoria B, a coisa na qual a grandeza de valor de outra coisa se apresenta parece possuir sua forma de equivalente como propriedade social pertencente à própria natureza dessa coisa, independentemente dessa relação. Acompanhamos a consolidação dessa aparência enganosa. Ela se completa assim que a forma de equivalente geral se funde com a forma natural de uma espécie particular de mercadoria, ou se cristaliza na forma-dinheiro. Uma mercadoria parece tornar-se dinheiro não porque todas as demais representem nela seus valores, mas, inversamente, parece que as demais mercadorias representam nela seus valores porque ela é dinheiro. O movimento mediador desaparece em seu próprio resultado, sem deixar vestígio. Sem que precisem fazer coisa alguma, as mercadorias encontram sua própria figura de valor pronta, sob a forma de um corpo de mercadoria existente fora delas e ao lado delas.
Essas coisas, o ouro e a prata, tal como saem das entranhas da terra, são ao mesmo tempo a encarnação imediata de todo trabalho humano. Daí a magia do dinheiro. O comportamento meramente atomístico das pessoas em seu processo social de produção e, por conseguinte, a forma objetiva de suas próprias relações de produção, independente de seu controle e de sua ação individual consciente, manifestam-se inicialmente no fato de os produtos do trabalho assumirem, em geral, a forma de mercadorias. O enigma do fetiche do dinheiro é, portanto, apenas o enigma do fetiche da mercadoria tornado visível, ofuscante aos olhos.
Notas
Nota 37No século XII, tão célebre por sua piedade, encontram-se entre essas mercadorias coisas bastante delicadas. Assim, um poeta francês daquela época enumera, entre as mercadorias que apareciam no mercado de Landit,E1 ao lado de tecidos de vestuário, sapatos, couro, instrumentos agrícolas, peles etc., também as “femmes folles de leur corps”.E2
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Nota editorial E1A nota da MEW identifica Landit como uma localidade perto de Paris, onde se realizava uma grande feira anual entre os séculos XII e XIX.
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Nota editorial E2“Mulheres de corpo ardente.” Tradução da glosa alemã da redação da MEW para a expressão francesa.
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Nota 38Proudhon começa por extrair seu ideal de justiça, da justice éternelleE3, das relações jurídicas correspondentes à produção de mercadorias. Assim, incidentalmente, fornece uma prova bastante reconfortante para todos os filisteus: a de que a forma da produção de mercadorias seria tão eterna quanto a justiça. Depois, inversamente, pretende remodelar a produção real de mercadorias e o direito real a ela correspondente segundo esse ideal. O que pensaríamos de um químico que, em vez de estudar as leis reais do metabolismo e resolver problemas determinados com base nelas, pretendesse remodelar o metabolismo segundo as “ideias eternas” da naturalitéE4 e da affinitéE5? Saberíamos mais sobre a “usura” se disséssemos que ela contraria a justice éternelle, a équité éternelleE6, a mutualité éternelleE7 e outras vérités éternellesE8 do que sabiam os padres da Igreja quando diziam que contrariava a grâce éternelle, a foi éternelle e a volonté éternelle de dieu?E9
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Nota editorial E3Justiça eterna.
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Nota editorial E4Naturalidade.
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Nota editorial E5Afinidade.
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Nota editorial E6Equidade eterna.
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Nota editorial E7Reciprocidade eterna.
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Nota editorial E8Verdades eternas.
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Nota editorial E9Graça eterna, fé eterna, vontade eterna de Deus.
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Nota 39“Pois o uso de cada bem é duplo. Um é próprio da coisa como tal, o outro não: uma sandália serve para calçar e também pode ser trocada. Ambos são valores de uso da sandália, pois até aquele que troca a sandália por aquilo de que necessita, por exemplo, alimento, utiliza a sandália como sandália, embora não segundo seu modo natural de uso. Pois ela não existe em função da troca.” (Aristóteles, De Rep., livro I, capítulo 9.)
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Nota editorial E10Nota editorial de tradução, não pertencente às notas numeradas de Marx. A citação latina alude ao Apocalipse 17:13 e 13:17: “Eles têm um só propósito e entregam à besta sua força e seu poder. E ninguém pode comprar ou vender, a não ser quem tenha o sinal, o nome da besta ou o número de seu nome.” A redação portuguesa é tradução de trabalho do latim citado, sem vinculação a uma edição bíblica contemporânea. Ver também a glosa da redação da MEW.E11
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Nota editorial E11A redação da MEW apresenta em alemão a citação bíblica, aqui traduzida: “Eles têm um só propósito e darão à besta sua força e seu poder, de modo que ninguém possa comprar ou vender sem ter a marca, a saber, o nome da besta ou o número de seu nome.” Esta glosa é distinta da tradução direta do latim oferecida na nota editorial de tradução.
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Nota editorial E12A MEW remete a Apocalipse 17:13 e 13:17. Esta remissão foi separada da tradução de trabalho do latim.
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Nota 40A partir disso, avalie-se a esperteza do socialismo pequeno-burguês que pretende eternizar a produção de mercadorias e, simultaneamente, abolir a “oposição entre dinheiro e mercadoria” e, portanto, o próprio dinheiro, pois ele só existe nessa oposição. Seria igualmente possível abolir o papa e conservar o catolicismo. Ver mais a esse respeito em meu escrito Zur Kritik der Politischen Oekonomie, p. 61 e seguintes.E13
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Nota editorial E13Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 66 e seguintes.
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Nota 41Enquanto ainda não são trocados dois objetos de uso diferentes e, como frequentemente encontramos entre povos selvagens, uma massa caótica de coisas é oferecida como equivalente de uma terceira, a própria troca direta de produtos ainda se encontra apenas em seu vestíbulo.
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Nota editorial E14A nota histórica da MEW relaciona o Estado inca à organização dos ayllu e à posse comum da terra; situa seu apogeu entre o século XV e a conquista espanhola no século XVI. Síntese da nota editorial, não acréscimo ao texto de Marx.
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Nota 42Karl Marx, obra citada, p. 135.E15 “Os metais [...] são dinheiro por natureza.” (Galiani, Della Moneta, na coleção de Custodi, Parte Moderna, vol. III, p. 137.)
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Nota editorial E15Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 131.
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Nota 43Para mais detalhes, ver minha obra já citada, seção “Os metais preciosos”.
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Nota 44“O dinheiro é a mercadoria geral.” (Verri, obra citada, p. 16.)
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Nota 45“A prata e o ouro em si mesmos, que podemos designar pelo nome geral de metal precioso, são mercadorias [...] cujo valor [...] sobe e desce [...]. Pode-se então atribuir um valor mais elevado ao metal precioso quando um menor peso dele compra maior quantidade do produto ou manufaturado de um país etc.” ([S. Clement,] A Discourse of the General Notions of Money, Trade, and Exchange, as they stand in relations to each other. By a Merchant, Londres, 1695, p. 7.) “A prata e o ouro, cunhados ou não, embora sejam usados como medida de todas as outras coisas, são tão mercadorias quanto o vinho, o óleo, o tabaco, os panos ou os tecidos.” ([J. Child,] A Discourse concerning Trade, and that in particular of the East-Indies etc., Londres, 1689, p. 2.) “A fortuna e a riqueza do reino não podem, a rigor, limitar-se ao dinheiro; tampouco se pode excluir o ouro e a prata das mercadorias.” ([Th. Papillon,] The East India Trade a most Profitable Trade, Londres, 1677, p. 4.)
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Nota 46“O ouro e a prata possuem valor como metais antes de serem dinheiro.” (Galiani, obra citada, p. 72.) Locke afirma: “O acordo geral dos homens atribuiu à prata, por suas qualidades que a tornavam apta a ser dinheiro, um valor imaginário.” [John Locke, Some Considerations etc., 1691, em Works, ed. 1777, vol. II, p. 15.] Em contrapartida, Law pergunta: “Como poderiam diferentes nações conferir a alguma coisa um valor imaginário [...] ou como poderia esse valor imaginário ter-se mantido?” Mas ele próprio compreendia tão pouco a questão: “A prata era trocada conforme o valor de uso que possuía, portanto, segundo seu valor real; por sua destinação como dinheiro, recebeu um valor adicional (une valeur additionnelle).” (Jean Law, Considérations sur le numéraire et le commerce, em E. Daire, ed., Économistes Financiers du XVIIIe siècle, pp. 469–470.)
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Nota 47“O dinheiro é o sinal delas” (das mercadorias). (V. de Forbonnais, Éléments du Commerce, nova edição, Leiden, 1766, vol. II, p. 143.) “Como sinal, ele é atraído pelas mercadorias.” (Obra citada, p. 155.) “O dinheiro é sinal de uma coisa e a representa.” (Montesquieu, Esprit des Lois, Oeuvres, Londres, 1767, vol. II, p. 3.) “O dinheiro não é um simples sinal, pois é ele próprio riqueza; não representa os valores, é seu equivalente.” (Le Trosne, obra citada, p. 910.) “Se considerarmos o conceito do valor, a própria coisa é tomada apenas como sinal, e vale não por si mesma, mas pelo que vale.” (Hegel, obra citada, p. 100.) Muito antes dos economistas, os juristas difundiram a ideia de que o dinheiro seria mero sinal e o valor dos metais preciosos, apenas imaginário. Prestando serviços de sicofantas ao poder real, apoiaram durante toda a Idade Média o direito dos reis de adulterar a moeda nas tradições do Império Romano e nas concepções monetárias das Pandectas.E16 “Ninguém pode nem deve duvidar”, afirma seu aluno diligente, Filipe de Valois, num decreto de 1346, “de que cabe somente a Nós e à Nossa majestade real [...] o negócio da moeda, sua fabricação, sua qualidade, suas reservas e todas as ordenações relativas às moedas, para lançá-las em circulação como e pelo preço que nos aprouver e parecer bem.” Era dogma do direito romano que o imperador decretava o valor do dinheiro. Era expressamente proibido tratar o dinheiro como mercadoria. “Entretanto, a ninguém seja permitido comprar dinheiro, pois, criado para uso comum, não deve ser mercadoria.” Uma boa discussão a esse respeito encontra-se em G. F. Pagnini, Saggio sopra il giusto pregio delle cose, 1751, na coleção de Custodi, Parte Moderna, vol. II. Especialmente na segunda parte do escrito, Pagnini polemiza contra os senhores juristas.
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Nota editorial E16Segundo a nota da MEW, Pandectas ou Digesto é a compilação de excertos de juristas romanos que integra o Corpus juris civilis, preparada por ordem de Justiniano e promulgada em 533.
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Nota 48“Se alguém puder trazer uma onça de prata das entranhas da terra no Peru a Londres no mesmo tempo que lhe seria necessário para produzir um bushel de trigo, então um desses produtos será o preço natural do outro; se, por meio da exploração de minas novas e mais produtivas, puder obter duas onças de prata, com o mesmo dispêndio, em vez de uma, o trigo custará tão pouco ao preço de dez xelins por bushel quanto antes custava a cinco xelins, caeteris paribusE17.” (William Petty, A Treatise of Taxes and Contributions, Londres, 1667, p. 31.)
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Nota editorial E17Mantidas iguais as demais circunstâncias.
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Nota 49Depois de o professor Roscher nos ensinar que “as falsas definições de dinheiro podem dividir-se em dois grandes grupos: aquelas que o consideram mais do que uma mercadoria e aquelas que o consideram menos do que uma mercadoria”, vem um catálogo confuso de escritos sobre assuntos monetários, sem que daí transpareça a mais remota compreensão da verdadeira história da teoria; em seguida, surge a lição moral: “Não se pode negar, aliás, que a maioria dos economistas nacionais mais recentes não levou suficientemente em conta as particularidades que distinguem o dinheiro das outras mercadorias [...]” (portanto, mais ou menos do que uma mercadoria?); “nessa medida, a reação semimercantilista de Ganilh etc. não é totalmente infundada.” (Wilhelm Roscher, Die Grundlagen der Nationalökonomie, 3ª ed., 1858, pp. 207–210.) Mais; menos; insuficientemente; nessa medida; não totalmente! Que determinações conceituais! E a esse palavrório professoral eclético Roscher dá modestamente o nome de “método anatômico-fisiológico” da economia política! Devemos-lhe, contudo, uma descoberta: a de que o dinheiro é “uma mercadoria agradável”.
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