Capital constante e capital variável O Capital — Livro I · Capítulo 6 de 25
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Capital constante e capital variável

Os diferentes fatores do processo de trabalho participam de maneiras diferentes da formação do valor do produto.

O trabalhador acrescenta novo valor ao objeto de trabalho mediante a adição de determinada quantidade de trabalho, independentemente do conteúdo, da finalidade e do caráter técnico específicos de sua atividade. Por outro lado, reencontramos os valores dos meios de produção consumidos como partes constitutivas do valor do produto, por exemplo, os valores do algodão e do fuso no valor do fio. O valor dos meios de produção é, portanto, conservado mediante sua transferência ao produto. Essa transferência ocorre durante a transformação dos meios de produção em produto, no processo de trabalho. É mediada pelo trabalho. Mas de que modo?

O trabalhador não trabalha duas vezes no mesmo intervalo de tempo, uma para acrescentar valor ao algodão por seu trabalho e outra para conservar seu antigo valor ou, o que dá no mesmo, para transferir ao produto, o fio, o valor do algodão que processa e do fuso com o qual trabalha. Ao simplesmente acrescentar novo valor, ele conserva o valor antigo. Entretanto, o acréscimo de novo valor ao objeto de trabalho e a conservação dos antigos valores no produto são dois resultados inteiramente diferentes, produzidos pelo trabalhador no mesmo intervalo de tempo, embora ele trabalhe apenas uma vez nesse intervalo. Essa duplicidade do resultado só pode, evidentemente, ser explicada pelo caráter duplo do próprio trabalho. Num mesmo momento, o trabalho deve criar valor sob um aspecto e conservar ou transferir valor sob outro.

Como cada trabalhador acrescenta tempo de trabalho e, portanto, valor? Sempre na forma de sua atividade produtiva particular. O fiandeiro só acrescenta tempo de trabalho fiando; o tecelão, tecendo; o ferreiro, trabalhando o ferro. Entretanto, é por meio da forma determinada pela finalidade com que acrescentam trabalho em geral e, portanto, novo valor, isto é, por meio da fiação, da tecelagem, do trabalho do ferreiro, que os meios de produção, algodão e fuso, fio e tear, ferro e bigorna, tornam-se elementos formadores de um produto, de um novo valor de uso.20 A antiga forma de seu valor de uso desaparece, porém somente para integrar-se a uma nova forma de valor de uso.

Ao examinarmos o processo de formação de valor, vimos, contudo, que, na medida em que um valor de uso é empregado adequadamente na produção de um novo valor de uso, o tempo de trabalho necessário à produção do valor de uso consumido constitui uma parte do tempo de trabalho necessário à produção do novo valor de uso. Trata-se, portanto, de tempo de trabalho transferido do meio de produção consumido para o novo produto. Assim, o trabalhador conserva os valores dos meios de produção consumidos ou os transfere ao produto como partes constitutivas de seu valor, não por acrescentar trabalho em geral, e sim pelo caráter útil particular, pela forma especificamente produtiva desse trabalho adicional. Como atividade produtiva orientada a um fim, seja fiar, tecer ou forjar, o trabalho, pelo simples contato, desperta os meios de produção dentre os mortos, anima-os como fatores do processo de trabalho e une-se a eles na formação de produtos.

Se o trabalho produtivo específico do trabalhador não fosse a fiação, ele não transformaria o algodão em fio e tampouco transferiria ao fio os valores do algodão e do fuso. Se, em contrapartida, esse mesmo trabalhador mudar de ofício e se tornar carpinteiro, continuará, como antes, a acrescentar valor ao seu material por meio de uma jornada de trabalho. Ele o acrescenta, portanto, por seu trabalho, considerado não enquanto fiação ou carpintaria, e sim enquanto trabalho abstrato, social, em geral. E acrescenta uma grandeza determinada de valor, não porque seu trabalho tenha um conteúdo útil particular, e sim porque dura um tempo determinado.

Em sua qualidade abstrata e geral, como dispêndio de força de trabalho humana, o trabalho do fiandeiro acrescenta novo valor aos valores do algodão e do fuso. Em sua qualidade concreta, particular e útil, como processo de fiação, transfere o valor desses meios de produção ao produto e assim conserva nele seu valor. Daí o duplo caráter de seu resultado num mesmo momento.

Pelo acréscimo meramente quantitativo de trabalho, acrescenta-se novo valor; pela qualidade do trabalho acrescentado, conservam-se no produto os antigos valores dos meios de produção. Esse duplo efeito do mesmo trabalho, decorrente de seu duplo caráter, manifesta-se concretamente em diferentes fenômenos.

Suponhamos que alguma invenção permita ao fiandeiro fiar em seis horas a mesma quantidade de algodão que antes fiava em 36 horas. Como atividade produtiva útil, orientada a uma finalidade, seu trabalho sextuplicou sua capacidade. Seu produto é o sêxtuplo: 36 libras de fio em vez de seis. Entretanto, as 36 libras de algodão absorvem agora apenas tanto tempo de trabalho quanto antes absorviam seis libras. Acrescenta-se a elas apenas um sexto do trabalho novo exigido pelo método antigo e, portanto, apenas um sexto do valor anteriormente acrescentado. Por outro lado, o valor do algodão presente agora no produto, nas 36 libras de fio, é o sêxtuplo do anterior. Nas seis horas de fiação, conserva-se e transfere-se ao produto o sêxtuplo do valor de matéria-prima, embora se acrescente a essa mesma matéria-prima apenas um sexto do novo valor anterior. Isso demonstra como a propriedade pela qual o trabalho conserva valores durante um mesmo processo indivisível difere essencialmente daquela pela qual cria valor. Quanto mais tempo de trabalho necessário se empregar na fiação da mesma quantidade de algodão, maior será o novo valor que lhe é acrescentado; quanto mais libras de algodão forem fiadas no mesmo tempo de trabalho, maior será o antigo valor conservado no produto.

Suponhamos, inversamente, que a produtividade do trabalho de fiação permaneça inalterada e que o fiandeiro continue precisando do mesmo tempo para transformar uma libra de algodão em fio. Mas que o próprio valor de troca do algodão se altere, e que o preço de uma libra se sextuplique ou se reduza a um sexto. Em ambos os casos, o fiandeiro continua a acrescentar a uma mesma quantidade de algodão o mesmo tempo de trabalho, portanto, o mesmo valor, e em ambos produz a mesma quantidade de fio no mesmo intervalo. Ainda assim, o valor que transfere do algodão ao fio, o produto, é, num caso, um sexto do anterior e, no outro, o sêxtuplo. O mesmo ocorre quando os meios de trabalho encarecem ou barateiam, embora continuem a prestar o mesmo serviço no processo de trabalho.

Se as condições técnicas da fiação permanecem inalteradas e tampouco ocorre qualquer mudança no valor de seus meios de produção, o fiandeiro continua consumindo, em tempos de trabalho iguais, quantidades iguais de matéria-prima e de maquinaria com valores constantes. O valor que conserva no produto guarda então proporção direta com o novo valor que acrescenta. Em duas semanas, acrescenta o dobro do trabalho acrescentado numa semana, portanto, o dobro do valor; ao mesmo tempo, utiliza o dobro do material, com o dobro do valor, e desgasta o dobro da maquinaria, com o dobro do valor. Conserva, assim, no produto de duas semanas o dobro do valor que conserva no produto de uma semana. Sob condições de produção dadas e constantes, quanto mais valor o trabalhador acrescenta, mais valor conserva; mas não conserva mais valor por acrescentar mais valor. Ele o conserva porque o acrescenta em condições que permanecem constantes e independem de seu próprio trabalho.

É verdade que, num sentido relativo, pode-se dizer que o trabalhador conserva sempre valores antigos na mesma proporção em que acrescenta novo valor. Quer o algodão suba de um xelim para dois xelins, quer caia para seis pence, no produto de uma hora ele sempre conservará apenas metade do valor de algodão, seja qual for esse valor, que conservaria no produto de duas horas. Além disso, se a produtividade de seu próprio trabalho mudar, aumentando ou diminuindo, numa hora de trabalho ele fiará, por exemplo, mais ou menos algodão do que antes e, em consequência, conservará maior ou menor valor de algodão no produto de uma hora. Em todo caso, em duas horas de trabalho ele conservará o dobro do valor conservado numa hora.

Abstraindo de sua representação meramente simbólica no signo de valor, o valor só existe num valor de uso, numa coisa. (O próprio ser humano, considerado como simples existência de força de trabalho, é um objeto natural, uma coisa, embora viva e dotada de consciência de si; e o próprio trabalho é a manifestação material dessa força.) Portanto, se o valor de uso se perde, perde-se também o valor. Os meios de produção não perdem seu valor ao mesmo tempo que seu valor de uso porque, no processo de trabalho, perdem efetivamente a forma original de seu valor de uso apenas para adquirir, no produto, a forma de outro valor de uso. Por mais importante que seja, para o valor, existir em algum valor de uso, é-lhe indiferente em qual deles exista, como demonstra a metamorfose das mercadorias. Daí decorre que, no processo de trabalho, só se transfere valor do meio de produção ao produto na medida em que esse meio de produção perde, juntamente com seu valor de uso independente, também seu valor de troca. Ele cede ao produto apenas o valor que perde como meio de produção. Nesse aspecto, porém, os fatores materiais do processo de trabalho comportam-se de maneiras diferentes.

O carvão com que se aquece a máquina desaparece sem deixar vestígios, assim como o óleo com que se lubrifica o eixo de uma roda, e assim por diante. A tinta e outros materiais auxiliares desaparecem, embora se manifestem nas propriedades do produto. A matéria-prima constitui a substância do produto, mas sua forma mudou. Matéria-prima e materiais auxiliares perdem, assim, a forma independente com que ingressaram no processo de trabalho como valores de uso. Com os meios de trabalho propriamente ditos ocorre algo diferente. Um instrumento, uma máquina, um edifício fabril, um recipiente etc. só servem ao processo de trabalho enquanto conservam sua forma original e podem voltar a ingressar nele amanhã sob a mesma forma com que ingressaram ontem. Assim como, durante sua vida, o processo de trabalho, conservam sua forma independente diante do produto, também a conservam depois da morte. Os cadáveres das máquinas, ferramentas, edifícios de trabalho etc. continuam a existir separados dos produtos cuja formação ajudaram.

Consideremos agora todo o período durante o qual serve determinado meio de trabalho, desde sua entrada na oficina até o dia em que é relegado ao depósito de sucata. Durante esse período, seu valor de uso foi inteiramente consumido pelo trabalho e, por isso, seu valor de troca passou integralmente ao produto. Se uma máquina de fiar, por exemplo, esgotou sua vida útil em dez anos, seu valor total foi transferido ao produto desses dez anos de trabalho. O período de vida de um meio de trabalho compreende, portanto, um número maior ou menor de processos de trabalho, sempre repetidos com sua participação. E o que acontece com esse meio de trabalho acontece também com o ser humano. Cada pessoa morre diariamente 24 horas de sua vida. Entretanto, ninguém pode dizer com exatidão, pela aparência de uma pessoa, quantos dias de vida ela já consumiu. Isso não impede que as companhias de seguros de vida extraiam da duração média da vida humana conclusões bastante seguras e, o que é ainda mais importante, bastante lucrativas.

O mesmo ocorre com os meios de trabalho. Sabe-se pela experiência quanto dura, em média, um determinado meio de trabalho, por exemplo, uma máquina de certa espécie. Suponhamos que seu valor de uso no processo de trabalho dure somente seis dias. Nesse caso, ela perde em média, a cada jornada, um sexto de seu valor de uso e transfere ao produto diário um sexto de seu valor. É assim que se calcula o desgaste de todos os meios de trabalho, por exemplo, sua perda diária de valor de uso e a correspondente transferência diária de valor ao produto.

Fica assim evidente que um meio de produção jamais transfere ao produto mais valor do que perde no processo de trabalho pela destruição de seu próprio valor de uso. Se não tivesse nenhum valor a perder, isto é, se ele próprio não fosse produto do trabalho humano, não transferiria valor algum ao produto. Serviria para formar valor de uso, sem contribuir para a formação de valor de troca. É o que ocorre, portanto, com todos os meios de produção que existem por natureza, sem intervenção humana: a terra, o vento, a água, o ferro no veio de minério, a madeira da floresta virgem etc.

Aqui se apresenta outro fenômeno interessante. Suponhamos que uma máquina valha mil libras esterlinas e se desgaste em mil dias. Nesse caso, um milésimo do valor da máquina passa diariamente dela ao produto de cada dia. Ao mesmo tempo, embora com força vital decrescente, a máquina inteira continua atuando no processo de trabalho. Vê-se, assim, que um fator do processo de trabalho, um meio de produção, ingressa inteiramente no processo de trabalho, porém só parcialmente no processo de valorização. A diferença entre processo de trabalho e processo de valorização reflete-se aqui em seus fatores materiais, pois o mesmo meio de produção conta inteiramente como elemento do processo de trabalho e apenas em partes como elemento da formação de valor, dentro do mesmo processo de produção.21

Inversamente, um meio de produção pode ingressar inteiramente no processo de valorização, embora só parcialmente no processo de trabalho. Suponhamos que, na fiação de algodão, de cada 115 libras empregadas diariamente, 15 libras se percam como resíduo, sem se converter em fio, formando apenas devil's dustE2. Ainda assim, se essa perda de 15 libras é normal, inseparável do processamento médio do algodão, o valor dessas 15 libras de algodão que não se incorporam ao fio entra no valor do fio tanto quanto o valor das cem libras que constituem sua substância. O valor de uso de 15 libras de algodão precisa reduzir-se a pó para que se produzam cem libras de fio. A destruição desse algodão é, portanto, uma condição da produção do fio. Por isso mesmo, ele transfere ao fio seu valor. Isso vale para todos os resíduos do processo de trabalho, pelo menos na medida em que esses resíduos não se tornem novos meios de produção e, com isso, novos valores de uso independentes. Nas grandes fábricas de máquinas de Manchester, por exemplo, veem-se montanhas de aparas de ferro, arrancadas por máquinas ciclópicas como se fossem aparas de madeira, saírem da fábrica ao entardecer em grandes carroças para a fundição e voltarem no dia seguinte da fundição à fábrica, novamente sob a forma de ferro maciço.

Os meios de produção só transferem valor à nova forma do produto na medida em que, durante o processo de trabalho, perdem valor na forma de seus antigos valores de uso. O máximo de valor que podem perder nesse processo está evidentemente limitado pela grandeza de valor original com a qual ingressam no processo de trabalho, ou pelo tempo de trabalho requerido para sua própria produção. Por isso, os meios de produção nunca podem acrescentar ao produto mais valor do que possuem independentemente do processo de trabalho a que servem. Por mais útil que seja um material de trabalho, uma máquina ou outro meio de produção, se ele custa 150 libras esterlinas, digamos, quinhentas jornadas de trabalho, jamais acrescentará mais que 150 libras esterlinas ao produto total cuja formação possibilita. Seu valor é determinado pelo processo de trabalho do qual sai como produto, e não pelo processo de trabalho no qual ingressa como meio de produção. Neste último ele serve apenas como valor de uso, como coisa dotada de propriedades úteis, e não transferiria valor algum ao produto se não possuísse valor antes de ingressar no processo.22

Quando o trabalho produtivo transforma meios de produção em elementos formadores de um novo produto, ocorre com o valor desses meios uma espécie de transmigração da alma: ele passa do corpo consumido ao corpo que adquire nova forma. Essa transmigração, porém, acontece, por assim dizer, pelas costas do trabalho efetivo. O trabalhador não pode acrescentar novo trabalho, e portanto criar novo valor, sem conservar valores antigos: precisa sempre acrescentar trabalho sob uma forma útil determinada e não pode fazê-lo sem transformar produtos em meios de produção de um novo produto e transferir, assim, seu valor ao novo produto. Conservar valor enquanto acrescenta valor é, portanto, um dom natural da força de trabalho em atividade, do trabalho vivo. Esse dom nada custa ao trabalhador, mas rende muito ao capitalista, pois conserva o valor do capital existente.22a Enquanto os negócios prosperam, o capitalista está demasiado absorvido na tarefa de fazer dinheiro para perceber essa dádiva gratuita do trabalho. Interrupções violentas do processo de trabalho, as crises, tornam-na dolorosamente perceptível para ele.23

O que se consome dos meios de produção, em geral, é seu valor de uso, e é pelo consumo deste que o trabalho forma produtos. Seu valor, na realidade, não é consumido24 e, por isso, tampouco pode ser reproduzido. Ele é conservado, porém não porque alguma operação recaia sobre o próprio valor no processo de trabalho, e sim porque o valor de uso no qual originalmente existia desaparece apenas para integrar-se a outro valor de uso. O valor dos meios de produção, portanto, reaparece no valor do produto; a rigor, porém, não é reproduzido. O que se produz é o novo valor de uso no qual o antigo valor de troca reaparece.25

Outra coisa acontece com o fator subjetivo do processo de trabalho, a força de trabalho em atividade. Enquanto o trabalho, por sua forma orientada a um fim, transfere ao produto o valor dos meios de produção e o conserva, cada momento de seu movimento forma valor adicional, novo valor. Suponhamos que o processo de produção seja interrompido no ponto em que o trabalhador produz um equivalente ao valor de sua própria força de trabalho, depois de acrescentar, por exemplo, três xelins de valor em seis horas de trabalho. Esse valor constitui o excedente do valor do produto sobre as partes que nele correspondem ao valor dos meios de produção. É o único valor original surgido no interior desse processo, a única parte do valor do produto efetivamente produzida pelo próprio processo. Sem dúvida, ele apenas repõe o dinheiro que o capitalista adiantou na compra da força de trabalho e que o próprio trabalhador gastou em meios de subsistência. Com referência aos três xelins despendidos, o novo valor de três xelins aparece apenas como reprodução. Entretanto, foi realmente reproduzido, e não apenas aparentemente, como ocorre com o valor dos meios de produção. Aqui, a substituição de um valor por outro é mediada pela criação de novo valor.

Sabemos, porém, que o processo de trabalho prossegue para além do ponto no qual se teria reproduzido e acrescentado ao objeto de trabalho um simples equivalente do valor da força de trabalho. Em vez das seis horas suficientes para isso, o processo dura, por exemplo, doze horas. Pela atividade da força de trabalho, portanto, reproduz-se seu próprio valor e produz-se também um valor excedente. Esse mais-valor constitui o excedente do valor do produto sobre o valor dos elementos consumidos em sua formação, isto é, dos meios de produção e da força de trabalho.

Ao expor os diferentes papéis desempenhados pelos fatores do processo de trabalho na formação do valor do produto, caracterizamos, de fato, as funções dos diferentes componentes do capital em seu próprio processo de valorização. O excedente do valor total do produto sobre a soma dos valores de seus elementos formadores é o excedente do capital valorizado sobre o valor do capital originalmente adiantado. Os meios de produção, de um lado, e a força de trabalho, de outro, são apenas as diferentes formas de existência assumidas pelo valor original do capital quando este abandona sua forma monetária e se transforma nos fatores do processo de trabalho.

A parte do capital que se converte em meios de produção, isto é, em matéria-prima, materiais auxiliares e meios de trabalho, não altera sua grandeza de valor no processo de produção. Por isso a denomino parte constante do capital, ou, abreviadamente, capital constante. A parte do capital convertida em força de trabalho, ao contrário, altera seu valor no processo de produção. Ela reproduz seu próprio equivalente e um excedente sobre ele, o mais-valor, que pode, por sua vez, variar, tornando-se maior ou menor. Essa parte do capital transforma-se continuamente de grandeza constante em grandeza variável. Por isso a denomino parte variável do capital, ou, abreviadamente, capital variável. Os mesmos componentes do capital que, do ponto de vista do processo de trabalho, se distinguem como fatores objetivos e subjetivos, meios de produção e força de trabalho, distinguem-se, do ponto de vista do processo de valorização, como capital constante e capital variável.

O conceito de capital constante de modo algum exclui uma transformação no valor de seus componentes. Suponhamos que uma libra de algodão custe hoje seis pence e, amanhã, em consequência de uma quebra da colheita, passe a custar um xelim. O algodão antigo, que continua a ser processado, foi comprado pelo valor de seis pence, mas agora acrescenta ao produto uma parcela de valor de um xelim. E o algodão já fiado, talvez até circulando no mercado sob a forma de fio, acrescenta igualmente ao produto o dobro de seu valor original. Vê-se, contudo, que essas mudanças de valor independem da valorização do próprio algodão no processo de fiação. Se o algodão antigo nem sequer tivesse ingressado no processo de trabalho, poderia agora ser revendido por um xelim em vez de seis pence. Inversamente, quanto menos processos de trabalho tiver atravessado, mais certo será esse resultado. É por isso que constitui uma regra da especulação, diante de semelhantes transformações de valor, especular sobre a matéria-prima em sua forma menos processada, preferindo, portanto, o fio ao tecido e o próprio algodão ao fio. A mudança de valor origina-se aqui no processo que produz o algodão, e não naquele em que ele funciona como meio de produção e, portanto, como capital constante.

O valor de uma mercadoria é, sem dúvida, determinado pela quantidade de trabalho nela contida, mas essa própria quantidade é socialmente determinada. Se o tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção se alterou, e uma mesma quantidade de algodão, por exemplo, representa maior quantidade de trabalho numa colheita desfavorável do que numa favorável, isso repercute sobre a mercadoria antiga. Ela conta sempre apenas como um exemplar individual de sua espécie,26 cujo valor é medido em todos os momentos pelo trabalho socialmente necessário, isto é, pelo trabalho necessário nas condições sociais presentes.

Assim como pode mudar o valor da matéria-prima, também pode mudar o valor dos meios de trabalho já empregados no processo de produção, das máquinas etc. e, consequentemente, a parcela de valor que transferem ao produto. Se, por exemplo, em virtude de uma nova invenção, máquinas da mesma espécie puderem ser reproduzidas com menor dispêndio de trabalho, as máquinas antigas se desvalorizam em maior ou menor grau e, portanto, transferem ao produto relativamente menos valor. Ainda aqui, porém, a mudança de valor se origina fora do processo de produção no qual a máquina funciona como meio de produção. Nesse processo, ela nunca transfere mais valor do que possui independentemente dele.

Assim como a alteração no valor dos meios de produção, mesmo quando repercute sobre eles depois de seu ingresso no processo, não modifica seu caráter de capital constante, também a alteração na proporção entre capital constante e capital variável não afeta sua distinção funcional. As condições técnicas do processo de trabalho podem, por exemplo, transformar-se de tal modo que, onde antes dez trabalhadores, usando dez ferramentas de pouco valor, processavam uma quantidade relativamente pequena de matéria-prima, agora um único trabalhador, com uma máquina cara, processe cem vezes a quantidade de matéria-prima. Nesse caso, o capital constante, isto é, a massa de valor dos meios de produção empregados, teria aumentado muito, enquanto a parte variável do capital, adiantada em força de trabalho, teria diminuído acentuadamente. Essa mudança, porém, altera apenas a relação de grandeza entre capital constante e capital variável, ou a proporção em que o capital total se divide em componentes constantes e variáveis. Ela não altera a distinção entre constante e variável.

Notas

Nota 20“O trabalho produz uma nova criação no lugar de uma que foi destruída.” (An Essay on the Polit. Econ. of Nations, Londres, 1821, p. 13.)

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Nota 21Não se trata aqui de reparos nos meios de trabalho, nas máquinas, construções etc. Uma máquina em reparo não funciona como meio de trabalho, e sim como material de trabalho. Não se trabalha com ela: trabalha-se sobre ela para restaurar seu valor de uso. Para nosso propósito, pode-se sempre considerar que tais trabalhos de reparo estão incluídos no trabalho exigido para produzir o meio de trabalho. No texto, trata-se do desgaste que nenhum médico pode curar e que conduz gradualmente à morte, “daquela espécie de desgaste que não pode ser reposta de tempos em tempos e que, por exemplo, acaba deixando uma faca num estado tal que o cuteleiro diz que já não vale a pena pôr-lhe uma lâmina nova”. Vimos no texto que uma máquina, por exemplo, ingressa inteiramente em cada processo de trabalho isolado, porém apenas em partes no processo de valorização simultâneo. Julgue-se, a partir daí, a seguinte confusão de conceitos: “Ricardo fala da quantidade de trabalho despendida por um construtor de máquinas na fabricação de uma máquina de fazer meias”, por exemplo, como contida no valor de um par de meias. “Entretanto, o trabalho total que produziu cada par de meias [...] inclui todo o trabalho do construtor da máquina, e não apenas uma parte dele, pois uma máquina faz muitos pares, mas nenhum desses pares poderia ter sido produzido se se prescindisse de qualquer parte da máquina.” (Observations on Certain Verbal Disputes in Political Economy, Particularly Relating to Value, and to Demand and Supply, Londres, 1821, p. 54.) O autor, um wiseacreE1 extraordinariamente satisfeito consigo mesmo, só tem razão em sua confusão e, consequentemente, em sua polêmica na medida em que nem Ricardo nem qualquer outro economista, antes ou depois dele, distinguiu com precisão os dois aspectos do trabalho e, muito menos, analisou os diferentes papéis deles na formação de valor.

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Nota editorial E1“Sabichão.” Glosa alemã: Neunmalkluger. O adjetivo que descreve a satisfação do autor consigo mesmo permanece no texto da nota 21.

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Nota editorial E2Pó de algodão. Glosa alemã: Baumwollstaub. Mantém-se no corpo a expressão inglesa devil's dust.

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Nota 22Compreende-se, portanto, o disparate do insípido J. B. Say, que pretende derivar o mais-valor (juros, lucro, renda) dos “services productifs”E3 que os meios de produção, como a terra, os instrumentos, o couro etc., prestam por meio de seus valores de uso no processo de trabalho. O sr. Wilhelm Roscher, que dificilmente deixa passar uma ideia apologética engenhosa sem registrá-la por escrito, exclama: “J. B. Say observa muito acertadamente, Traité, t. I, cap. 4, que o valor produzido por uma prensa de óleo, depois de descontados todos os custos, é, afinal, algo novo, essencialmente diferente do trabalho pelo qual a própria prensa foi construída” (obra citada, p. 82, nota). Muito acertadamente! O “óleo” produzido pela prensa é coisa muito diferente do trabalho exigido para construir a prensa. E por “valor” o sr. Roscher entende coisas como “óleo”, pois o “óleo” tem valor e, embora se encontre “na natureza” petróleo, sua quantidade relativamente “não é muito grande”; é provavelmente a isso que visa sua outra observação: “Valores de troca, ela [a natureza!] quase não produz” (obra citada, p. 79). A natureza do sr. Roscher, quando se trata do valor de troca, comporta-se como a donzela tola diante do filho, que era “bem pequenininho”. O mesmo “erudito” (savant sérieux) observa ainda, na ocasião acima mencionada: “A escola de Ricardo costuma também subsumir o capital no conceito de trabalho como ‘trabalho poupado’. Isso é inadequado (!), porque (!) de fato (!) o proprietário do capital (!) afinal (!) fez mais (!) do que a simples (?) produção (?) e (?) conservação deste (de qual mesmo?): precisamente (?) a abstenção de seu próprio desfrute, pela qual, por exemplo (!!!), exige juros” (obra citada, p. 82). Quão “adequado” é esse “método anatômico-fisiológico” da economia política, que desenvolve “valor” a partir de um simples “desejo”!

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Nota editorial E3“Serviços produtivos.” Glosa alemã: produktiven Diensten. A expressão francesa pertence ao texto citado na nota 22.

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Nota 22a“De todos os recursos auxiliares na agricultura, o trabalho humano [...] é aquele de que o agricultor mais depende para repor seu capital. Os outros dois, o estoque de animais de trabalho e as [...] carroças, arados, pás etc., nada são sem determinada quantidade do primeiro.” (Edmund Burke, Thoughts and Details on Scarcity, Originally Presented to the Rt. Hon. W. Pitt in the Month of November 1795, edição de Londres, 1800, p. 10.)

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Nota 23No Times de 26 de novembro de 1862, um fabricante cuja fiação empregava oitocentos trabalhadores e consumia semanalmente, em média, 150 fardos de algodão das Índias Orientais ou cerca de 130 fardos de algodão norte-americano lamentava perante o público os custos anuais da paralisação de sua fábrica. Calculava-os em seis mil libras esterlinas. Entre esses custos há vários itens que não nos dizem respeito aqui, como renda fundiária, impostos, prêmios de seguro, salários de trabalhadores contratados por ano, diretores, contadores, engenheiros etc. Ele, porém, calcula também 150 libras esterlinas de carvão para aquecer a fábrica de tempos em tempos e pôr ocasionalmente em funcionamento a máquina a vapor, além dos salários dos trabalhadores que mantêm a maquinaria “em condições de funcionar” por meio de trabalhos eventuais. Por fim, estima 1.200 libras esterlinas pela deterioração das máquinas, pois “as condições atmosféricas e as causas naturais de deterioração não interrompem sua ação simplesmente porque a máquina a vapor deixou de girar”. Ele observa expressamente que esse montante de 1.200 libras foi estimado tão baixo porque as máquinas já se encontravam muito desgastadas.

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Nota 24“Consumo produtivo: quando o consumo de uma mercadoria faz parte do processo de produção [...] Nesses casos, não há consumo de valor.” (S. P. Newman, obra citada, p. 296.)

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Nota 25Num compêndio norte-americano que talvez tenha chegado a vinte edições, lê-se: “Não importa sob que forma o capital reapareça”. Depois de uma prolixa enumeração de todos os possíveis requisitos da produção cujo valor reaparece no produto, afirma-se finalmente: “Os diversos tipos de alimento, vestuário e abrigo necessários à existência e ao conforto humano também se transformam. São consumidos de tempos em tempos, e seu valor reaparece na nova força que conferem ao corpo e ao espírito do ser humano, formando assim novo capital, novamente empregado no processo de produção.” (F. Wayland, obra citada, pp. 31–32.) Deixando de lado todas as demais estranhezas, não é, por exemplo, o preço do pão que reaparece na força renovada, e sim suas substâncias formadoras do sangue. O que reaparece como valor da força, por sua vez, não são os meios de subsistência, e sim seu valor. Os mesmos meios de subsistência, quando custam apenas a metade, produzem exatamente a mesma quantidade de músculos, ossos etc., em suma, a mesma força, embora não uma força de igual valor. Essa conversão de “valor” em “força” e toda a indefinição farisaica procuram ocultar a tentativa, aliás inútil, de extrair mais-valor do simples reaparecimento de valores adiantados.

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Nota 26“Todos os produtos da mesma espécie constituem, propriamente, uma única massa, cujo preço é determinado em termos gerais e sem levar em conta as circunstâncias particulares.” (Le Trosne, obra citada, p. 893.)

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