Mais-valor absoluto e relativo O Capital — Livro I · Capítulo 14 de 25
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Mais-valor absoluto e relativo

Quinta seção • A produção do mais-valor absoluto e relativo

O processo de trabalho foi considerado inicialmente (ver capítulo 5) de maneira abstrata, independentemente de suas formas históricas, como processo entre o ser humano e a natureza. Ali se dizia: “Se examinarmos o processo de trabalho inteiro do ponto de vista de seu resultado, tanto o meio quanto o objeto de trabalho aparecem como meios de produção, e o próprio trabalho aparece como trabalho produtivo.” E na nota 7 acrescentava-se: “Essa determinação de trabalho produtivo, tal como resulta do ponto de vista do processo simples de trabalho, está longe de ser suficiente para o processo capitalista de produção.” É isso que cabe desenvolver aqui.

Enquanto o processo de trabalho é puramente individual, o mesmo trabalhador reúne todas as funções que, mais tarde, se separam. Ao apropriar-se individualmente de objetos da natureza para atender às necessidades de sua vida, ele controla a si mesmo. Mais tarde, passa a ser controlado. O indivíduo não pode atuar sobre a natureza sem pôr em movimento seus próprios músculos sob o controle de seu próprio cérebro. Assim como, no organismo natural, cabeça e mão estão ligadas, o processo de trabalho reúne trabalho intelectual e trabalho manual. Mais tarde, os dois se separam, até se oporem de maneira hostil. Em geral, o produto deixa de ser produto imediato do produtor individual para converter-se em produto social, produto comum de um trabalhador coletivo, isto é, de um conjunto combinado de trabalhadores, cujos membros estão mais próximos ou mais distantes da manipulação do objeto de trabalho. Com o próprio caráter cooperativo do processo de trabalho, amplia-se necessariamente o conceito de trabalho produtivo e de seu portador, o trabalhador produtivo. Para trabalhar produtivamente, já não é necessário pôr pessoalmente as mãos na obra; basta ser um órgão do trabalhador coletivo, executar alguma de suas funções parciais. A determinação original do trabalho produtivo, derivada da própria natureza da produção material, continua válida para o trabalhador coletivo considerado em seu conjunto. Já não vale, porém, para cada um de seus membros tomado isoladamente.

Por outro lado, o conceito de trabalho produtivo se estreita. A produção capitalista não é apenas produção de mercadorias: é, essencialmente, produção de mais-valia. O trabalhador não produz para si, e sim para o capital. Portanto, já não basta que produza alguma coisa. É necessário que produza mais-valia. Só é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital. Se nos é permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, um mestre-escola é trabalhador produtivo quando não apenas trabalha a cabeça das crianças, mas também se desgasta no trabalho para enriquecer o empresário. O fato de este ter aplicado seu capital numa fábrica de ensino, em vez de numa fábrica de salsichas, em nada altera a relação. O conceito de trabalhador produtivo, portanto, não compreende apenas uma relação entre atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação social de produção específica, historicamente constituída, que imprime no trabalhador a marca de meio direto de valorização do capital. Ser trabalhador produtivo, por isso, está longe de ser uma felicidade: é um infortúnio. No Livro IV desta obra, que trata da história da teoria, veremos mais detidamente que a economia política clássica sempre fez da produção de mais-valia a característica decisiva do trabalhador produtivo. Conforme muda sua concepção da natureza da mais-valia, muda também sua definição do trabalhador produtivo. Assim, os fisiocratas declaram que apenas o trabalho agrícola é produtivo, porque só ele proporciona mais-valia. Para os fisiocratas, porém, a mais-valia existe exclusivamente na forma de renda fundiária.

O prolongamento da jornada de trabalho para além do ponto em que o trabalhador teria produzido apenas um equivalente do valor de sua força de trabalho e a apropriação desse mais-trabalho pelo capital constituem a produção de mais-valia absoluta. Ela constitui o fundamento geral do sistema capitalista e o ponto de partida da produção de mais-valia relativa. Nesta última, a jornada de trabalho já está dividida, desde o início, em duas partes: trabalho necessário e mais-trabalho. Para prolongar o mais-trabalho, encurta-se o trabalho necessário por métodos que permitem produzir em menos tempo o equivalente do salário. A produção de mais-valia absoluta gira exclusivamente em torno da duração da jornada de trabalho; a produção de mais-valia relativa revoluciona por completo os processos técnicos do trabalho e os agrupamentos sociais.

Esta última pressupõe, portanto, um modo de produção especificamente capitalista, que só surge e se desenvolve espontaneamente, com seus métodos, meios e condições, sobre a base da subsunção formal do trabalho ao capital. A subsunção formal dá lugar à subsunção real do trabalho ao capital.

Basta mencionar as formas híbridas em que nem o mais-trabalho é extraído do produtor por coerção direta, nem ocorreu a subordinação formal do produtor ao capital. Nesse caso, o capital ainda não se apoderou diretamente do processo de trabalho. Ao lado dos produtores independentes que exercem um ofício ou cultivam a terra segundo métodos tradicionais, herdados de seus antepassados, surge o usurário ou o comerciante, o capital usurário ou o capital comercial, que os suga parasitariamente. O predomínio dessa forma de exploração numa sociedade exclui o modo de produção capitalista, embora essa forma de exploração possa, por outro lado, constituir a passagem para ele, como ocorreu no fim da Idade Média. Por fim, como mostra o exemplo do trabalho domiciliar moderno, certas formas híbridas são reproduzidas em determinados lugares, tendo como pano de fundo a grande indústria, embora com uma fisionomia inteiramente transformada.

Se a subsunção meramente formal do trabalho ao capital é suficiente para a produção de mais-valia absoluta (por exemplo, quando artesãos que antes trabalhavam por conta própria, ou como oficiais de um mestre de corporação, passam a trabalhar como assalariados sob o controle direto do capitalista), vimos, por outro lado, que os métodos de produção de mais-valia relativa são, ao mesmo tempo, métodos de produção de mais-valia absoluta. O prolongamento desmedido da jornada de trabalho revelou-se, com efeito, o produto mais característico da grande indústria. Em geral, o modo de produção especificamente capitalista deixa de ser simples meio de produzir mais-valia relativa tão logo se apodera de todo um ramo da produção e, mais ainda, de todos os ramos decisivos. Torna-se, então, a forma geral e socialmente dominante do processo de produção. Como método particular para produzir mais-valia relativa, ele atua apenas, primeiro, na medida em que conquista indústrias até então subordinadas ao capital apenas formalmente, ou seja, no curso de sua expansão. Segundo, na medida em que as indústrias já sob seu domínio são continuamente revolucionadas pela mudança dos métodos de produção.

De certo ponto de vista, a distinção entre mais-valia absoluta e relativa parece inteiramente ilusória. A mais-valia relativa é absoluta, porque pressupõe o prolongamento absoluto da jornada de trabalho para além do tempo de trabalho necessário à existência do próprio trabalhador. A mais-valia absoluta é relativa, porque pressupõe um desenvolvimento da produtividade do trabalho que permita restringir o tempo de trabalho necessário a uma parte da jornada. Quando consideramos, porém, o movimento da mais-valia, desaparece essa aparência de identidade. Uma vez estabelecido e generalizado o modo de produção capitalista, a distinção entre mais-valia absoluta e relativa se torna perceptível sempre que se trata de aumentar a taxa de mais-valia em geral. Pressupondo que a força de trabalho seja paga por seu valor, deparamo-nos com esta alternativa: dadas a força produtiva do trabalho e sua intensidade normal, só é possível elevar a taxa de mais-valia pelo prolongamento absoluto da jornada; por outro lado, fixado o limite da jornada de trabalho, só é possível elevar essa taxa por uma mudança relativa na grandeza das partes que a compõem, o trabalho necessário e o mais-trabalho, o que, por sua vez, se o salário não deve cair abaixo do valor da força de trabalho, pressupõe alterações da produtividade ou da intensidade do trabalho.

Se o trabalhador precisa empregar todo o seu tempo para produzir os meios de subsistência necessários à manutenção de si mesmo e de sua descendência, não lhe resta tempo para trabalhar gratuitamente para terceiros. Sem determinado grau de produtividade do trabalho, não existe esse tempo disponível para o trabalhador; sem esse tempo excedente, não há mais-trabalho e, portanto, tampouco capitalistas, proprietários de escravos, barões feudais; numa palavra, uma classe de grandes proprietários.1

É nesse sentido que se pode falar de uma base natural da mais-valia, mas apenas no sentido muito geral de que nenhum obstáculo natural absoluto impede alguém de se desincumbir do trabalho necessário à própria existência e de impô-lo a outra pessoa, assim como, por exemplo, nenhum obstáculo natural absoluto impede uns de usar a carne de outros como alimento.1a Não se devem associar, de modo algum, como às vezes se faz, representações místicas a essa produtividade do trabalho que se desenvolve espontaneamente. Só quando os seres humanos se libertam, pelo trabalho, de seus primeiros estados animalescos, e seu próprio trabalho já está, portanto, socializado em certo grau, surgem relações em que o mais-trabalho de uns se converte em condição de existência de outros. Nos primórdios da civilização, são reduzidas as forças produtivas do trabalho já adquiridas, mas também o são as necessidades, que se desenvolvem com os meios de sua satisfação e a partir deles. Além disso, nesses primórdios, a proporção dos segmentos da sociedade que vivem do trabalho alheio é insignificante em comparação com a massa dos produtores diretos. À medida que progride a força produtiva social do trabalho, essa proporção cresce tanto absoluta quanto relativamente.2 De resto, a relação capitalista surge sobre uma base econômica que é produto de um longo processo de desenvolvimento. A produtividade do trabalho existente, da qual ela parte como fundamento, não é uma dádiva da natureza, mas de uma história que abrange milhares de séculos.

Deixando de lado a forma mais ou menos desenvolvida da produção social, a produtividade do trabalho permanece vinculada às condições naturais. Todas elas podem ser reconduzidas à própria natureza do ser humano, como raça etc., e à natureza que o rodeia. Do ponto de vista econômico, as condições naturais externas dividem-se em duas grandes classes: riqueza natural em meios de subsistência, como fertilidade do solo, águas abundantes em peixes etc.; e riqueza natural em meios de trabalho, como quedas-d'água, rios navegáveis, madeira, metais, carvão etc. Nos primórdios da civilização, o primeiro tipo de riqueza natural é decisivo; em estágios superiores de desenvolvimento, é o segundo. Comparem-se, por exemplo, Inglaterra e Índia ou, no mundo antigo, Atenas e Corinto com as terras das margens do mar Negro.

Quanto menor o número de necessidades naturais que têm necessariamente de ser satisfeitas e quanto maiores a fertilidade natural do solo e as vantagens do clima, menor o tempo de trabalho necessário à manutenção e reprodução dos produtores. Maior poderá ser, portanto, o excedente de seu trabalho para outras pessoas sobre seu trabalho para si mesmo. Já Diodoro observava, a propósito dos antigos egípcios:

“É realmente incrível o pouco esforço e o pequeno custo que lhes exige criar os filhos. Cozinham para eles o primeiro alimento simples que encontram; dão-lhes também para comer a parte inferior do papiro que se pode assar ao fogo, e as raízes e os caules das plantas dos pântanos, em parte crus, em parte cozidos e assados. A maioria das crianças anda descalça e sem roupas, pois o ar é muito ameno. Assim, uma criança não custa aos pais, até se tornar adulta, mais de vinte dracmas ao todo. É principalmente por isso que se explica a população tão numerosa do Egito e, consequentemente, que tantas obras grandiosas puderam ser construídas.”3

Entretanto, as grandes construções do Egito antigo devem-se menos ao tamanho da população do que à elevada proporção dela que se encontrava disponível. Assim como o trabalhador individual pode fornecer uma quantidade tanto maior de mais-trabalho quanto menor for seu tempo de trabalho necessário, também é maior a parcela da população trabalhadora disponível para outras obras quanto menor for a parcela exigida para produzir os meios de subsistência necessários.

Uma vez pressuposta a produção capitalista, permanecendo iguais as demais circunstâncias e dada a duração da jornada de trabalho, a grandeza do mais-trabalho variará conforme as condições naturais do trabalho, particularmente a fertilidade do solo. Daí não decorre, porém, o contrário: que o solo mais fértil seja o mais adequado ao desenvolvimento do modo de produção capitalista. Este pressupõe o domínio do ser humano sobre a natureza. Uma natureza excessivamente pródiga “segura-o pela mão como uma criança conduzida por uma tira de apoio”. Não transforma o próprio desenvolvimento humano numa necessidade natural.4 A pátria do capital não é o clima tropical, com sua vegetação exuberante, e sim a zona temperada. Não é a fertilidade absoluta do solo, mas sua diferenciação, a variedade de seus produtos naturais, que constitui a base natural da divisão social do trabalho e estimula o ser humano, pela mudança das condições naturais em que vive, a diversificar as próprias necessidades, capacidades, meios de trabalho e modos de trabalhar. A necessidade de controlar socialmente uma força natural, de utilizá-la com economia, de primeiro se apropriar dela ou domá-la mediante obras humanas em grande escala desempenha o papel mais decisivo na história da indústria. É o caso, por exemplo, da regulação das águas no Egito,5 na Lombardia, na Holanda etc. Ou na Índia, na Pérsia etc., onde a irrigação por canais artificiais fornece ao solo não só a água indispensável, mas, com os sedimentos por ela transportados, também os fertilizantes minerais procedentes das montanhas. O segredo do florescimento industrial da Espanha e da Sicília sob o domínio árabe foi a construção de canais.6

As condições naturais favoráveis fornecem sempre apenas a possibilidade, jamais a realidade, do mais-trabalho e, portanto, da mais-valia ou do mais-produto. As diferentes condições naturais do trabalho fazem com que a mesma quantidade de trabalho satisfaça diferentes conjuntos de necessidades em países diversos,7 de sorte que, em circunstâncias análogas quanto ao resto, o tempo de trabalho necessário seja diferente. Elas só atuam sobre o mais-trabalho enquanto barreira natural, isto é, determinando o ponto a partir do qual o trabalho para outros pode começar. Na mesma medida em que a indústria avança, essa barreira natural recua. No interior da sociedade da Europa ocidental, onde o trabalhador só adquire permissão para trabalhar pela própria existência mediante o fornecimento de mais-trabalho, imagina-se facilmente que produzir mais-produto seja uma qualidade inata ao trabalho humano.8

Consideremos, porém, por exemplo, o habitante das ilhas orientais do arquipélago asiático, onde o sagu cresce em estado silvestre na floresta.

“Quando os habitantes, depois de perfurarem a árvore, verificam que a medula está madura, derrubam o tronco e o dividem em vários pedaços; raspam a medula, misturam-na com água e a coam, obtendo assim farinha de sagu pronta para o uso. Uma árvore costuma fornecer trezentas libras e pode fornecer quinhentas a seiscentas. Lá, portanto, vai-se à floresta cortar o próprio pão, como entre nós se corta lenha.”9

Suponhamos que esse homem que corta o próprio pão no leste asiático necessite de doze horas de trabalho por semana para satisfazer todas as suas necessidades. O que as condições naturais favoráveis lhe oferecem diretamente é muito tempo livre. Para empregá-lo produtivamente em proveito próprio, é necessária toda uma série de circunstâncias históricas; para despendê-lo como mais-trabalho em favor de outras pessoas, é necessária coerção externa. Caso se introduzisse a produção capitalista, esse bom homem talvez precisasse trabalhar seis dias por semana para se apropriar do produto de um só dia de trabalho. As condições naturais favoráveis não explicam por que ele trabalha agora seis dias por semana, nem por que fornece cinco dias de mais-trabalho. Explicam apenas por que seu tempo de trabalho necessário se limita a um dia por semana. Seu mais-produto não surgiria, em hipótese alguma, de uma qualidade oculta, inata ao trabalho humano.

Assim como as forças produtivas sociais historicamente desenvolvidas, também as forças produtivas do trabalho condicionadas pela natureza aparecem como forças produtivas do capital, ao qual o trabalho é incorporado.

Ricardo jamais se ocupa da origem da mais-valia. Trata-a como algo inerente ao modo de produção capitalista, que a seus olhos constitui a forma natural da produção social. Quando fala da produtividade do trabalho, não procura nela a causa da existência da mais-valia, mas apenas a causa que determina sua grandeza. Sua escola, ao contrário, proclamou em alto e bom som a força produtiva do trabalho como causa da origem do lucro (leia-se: da mais-valia). De qualquer maneira, isso representa um progresso diante dos mercantilistas, que, por sua vez, derivavam da troca o excedente do preço dos produtos sobre seus custos de produção, isto é, de sua venda acima do valor. Ainda assim, a escola de Ricardo contornara o problema, em vez de resolvê-lo. Na realidade, esses economistas burgueses tinham a justa intuição de que era muito perigoso investigar demasiado a fundo a questão candente da origem da mais-valia. Mas que dizer quando, meio século depois de Ricardo, o senhor John Stuart Mill constata solenemente sua superioridade em relação aos mercantilistas, ao mesmo tempo que repete mal as desculpas esfarrapadas dos primeiros vulgarizadores de Ricardo?

Mill diz:

“A causa do lucro é o fato de o trabalho produzir mais do que o necessário à sua manutenção.”

Até aqui, nada além da velha cantilena; mas Mill quer acrescentar algo de próprio:

“Ou, para variar a forma da proposição: a razão pela qual o capital produz lucro é que os alimentos, as roupas, as matérias-primas e os meios de trabalho duram mais tempo do que aquele exigido para produzi-los.”

Mill confunde aqui a duração do tempo de trabalho com a duração de seus produtos. Segundo essa concepção, um padeiro, cujos produtos duram apenas um dia, jamais poderia extrair de seus assalariados o mesmo lucro que um fabricante de máquinas, cujos produtos duram vinte anos ou mais. Sem dúvida, se os ninhos dos pássaros não durassem mais tempo que o necessário para construí-los, os pássaros teriam de passar sem ninhos.

Depois de estabelecer essa verdade fundamental, Mill declara sua superioridade diante dos mercantilistas:

“Vemos, portanto, que o lucro surge não do incidente das trocas, mas da força produtiva do trabalho; o lucro total de um país é sempre determinado pela força produtiva do trabalho, quer haja trocas, quer não. Se não existisse divisão das ocupações, não haveria compra nem venda, mas ainda haveria lucro.”

Aqui, portanto, troca, compra e venda, as condições gerais da produção capitalista, são um mero incidente, e continua havendo lucro sem compra e venda da força de trabalho!

Mais adiante:

“Se o conjunto dos trabalhadores de um país produz 20% acima da soma de seus salários, os lucros serão de 20%, seja qual for o nível dos preços das mercadorias.”

Isso é, por um lado, uma tautologia extremamente bem-sucedida: se os trabalhadores produzem uma mais-valia de 20% para seus capitalistas, então a relação entre os lucros e o salário total dos trabalhadores será de 20:100. Por outro lado, é absolutamente falso que os lucros “serão de 20%”. Têm de ser sempre menores, porque os lucros são calculados sobre a soma total do capital adiantado. Suponhamos, por exemplo, que o capitalista tenha adiantado 500 libras esterlinas, das quais 400 em meios de produção e 100 em salários. Sendo a taxa de mais-valia, como se supôs, de 20%, a taxa de lucro será de 20:500, isto é, de 4%, e não de 20%.

Segue-se uma prova brilhante de como Mill trata as diferentes formas históricas da produção social:

“Pressuponho em toda parte o estado atual das coisas, que, salvo poucas exceções, predomina em toda parte, isto é, que o capitalista faz todos os adiantamentos, inclusive o pagamento do trabalhador.”

Que singular ilusão de ótica: enxergar por toda parte uma situação que, até agora, só existe excepcionalmente no globo terrestre! Mas prossigamos. Mill é suficientemente bondoso para admitir que “não é uma necessidade absoluta que assim seja”.E3 Pelo contrário:

“O trabalhador poderia, mesmo com a totalidade de seu salário, esperar o pagamento até a conclusão integral do trabalho, se dispusesse dos meios necessários para se manter nesse intervalo. Mas, nesse caso, seria em certo grau um capitalista, que aplicaria capital no empreendimento e forneceria parte dos fundos necessários à sua continuidade.”

Mill poderia igualmente dizer que o trabalhador que adianta a si mesmo não só os meios de subsistência, mas também os meios de trabalho, é na realidade seu próprio assalariado. Ou que o camponês norte-americano é seu próprio escravo, que trabalha por corveia apenas para si, em vez de para outro senhor.

Depois de nos demonstrar com toda a clareza que a produção capitalista, mesmo se não existisse, ainda assim existiria sempre, Mill é agora suficientemente coerente para provar que ela não existe nem mesmo quando existe:

“E até no caso anterior” (quando o capitalista adianta ao assalariado todos os seus meios de subsistência), “o trabalhador pode ser considerado do mesmo ponto de vista” (isto é, como capitalista). “Pois, ao entregar seu trabalho abaixo do preço de mercado (!), pode ser visto como se adiantasse a diferença (?) a seu empresário etc.”9a

Na realidade efetiva, é o trabalhador quem adianta gratuitamente seu trabalho ao capitalista durante uma semana etc., para receber ao fim da semana etc. seu preço de mercado; isso, segundo Mill, faz dele um capitalista! Num terreno plano, até montes de terra parecem colinas; meça-se a mediocridade de nossa burguesia atual pelo calibre de seus “grandes espíritos”.

Notas

Nota 1“A simples existência dos mestres convertidos em capitalistas, como classe particular, depende da produtividade do trabalho.” (Ramsay, obra citada, p. 206.) “Se o trabalho de cada homem bastasse apenas para produzir seu próprio alimento, não poderia haver propriedade.” (Ravenstone, obra citada, p. 14.)

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Nota 1aSegundo um cálculo realizado recentemente, ainda vivem pelo menos quatro milhões de canibais somente nas regiões da Terra já exploradas.

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Nota 2“Entre os indígenas selvagens da América, quase tudo pertence ao trabalhador. Noventa e nove partes de cem devem ser atribuídas à conta do trabalho. Na Inglaterra, o trabalhador talvez não tenha sequer dois terços.” (The Advantages of the East India Trade etc., pp. 72–73.)

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Nota 3Diodoro, obra citada, livro I, cap. 80.

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Nota 4“Como a primeira” (a riqueza natural) “é extremamente nobre e vantajosa, torna o povo despreocupado, orgulhoso e entregue a todos os excessos; a segunda, ao contrário, impõe diligência, erudição, destreza e prudência de Estado.” (England's Treasury by Foreign Trade. Or the Balance of our Foreign Trade is the Rule of our Treasure. Written by Thomas Mun, of London, Merchant, and now published for the common good by his son John Mun, Londres, 1669, pp. 181–182.) “Também não consigo imaginar maldição pior para todo um povo do que ser colocado numa extensão de terra em que a produção de meios de subsistência e alimentos se realize em grande parte espontaneamente e o clima exija ou admita poucos cuidados com roupa e abrigo... É possível, sem dúvida, o extremo oposto. Um solo incapaz de produzir frutos apesar do trabalho é tão ruim quanto um solo que oferece produtos em abundância sem trabalho.” ([N. Forster,] An Inquiry into the Present High Price of Provisions, Londres, 1767, p. 10.)

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Nota 5A necessidade de calcular os períodos de movimento do Nilo criou a astronomia egípcia e, com ela, a dominação da casta sacerdotal enquanto dirigente da agricultura. “O solstício é o momento do ano em que começa a subida do Nilo e que, por isso, os egípcios precisavam observar com o maior cuidado... Era esse ano equinocial que precisavam determinar para regular por ele suas operações agrícolas. Por isso, tinham de procurar no céu um sinal visível de seu retorno.” (Cuvier, Discours sur les révolutions du globe, edição Hoefer, Paris, 1863, p. 141.)

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Nota 6Uma das bases materiais do poder estatal sobre os pequenos organismos produtivos sem conexão entre si da Índia era a regulação do abastecimento de água. Os governantes muçulmanos da Índia compreenderam isso melhor que seus sucessores ingleses. Recordamos apenas a fome de 1866, que custou a vida de mais de um milhão de hindus no distrito de Orissa, Presidência de Bengala.

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Nota 7“Não há dois países que forneçam igual quantidade de meios de subsistência necessários com a mesma abundância e com igual dispêndio de trabalho. As necessidades dos seres humanos crescem ou diminuem conforme a severidade ou a amenidade do clima em que vivem; consequentemente, a quantidade relativa de atividade econômica que os habitantes dos diferentes países precisam necessariamente realizar não pode ser igual, e o grau dessa diferença só pode ser determinado pelos graus de calor e de frio. Pode-se, portanto, concluir de modo geral que a quantidade de trabalho necessária para manter determinado número de pessoas é máxima nos climas frios e mínima nos quentes; nos primeiros, as pessoas não só precisam de mais roupas, como a terra deve ser mais bem cultivada do que nos últimos.” (An Essay on the Governing Causes of the Natural Rate of Interest, Londres, 1750, p. 59.) O autor desse escrito anônimo, que marcou época, é J. Massie. Hume dele retirou sua teoria dos juros.

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Nota 8“Todo trabalho deve” (parece fazer parte também dos droits e devoirs du citoyenE1) “deixar um excedente.” (Proudhon.)E2

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Nota editorial E1Direitos e deveres do cidadão. Glosa editorial da MEW, chamada 1* na p. 538; não é nota autoral nova.

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Nota editorial E2P.-J. Proudhon, Système des contradictions économiques, ou philosophie de la misère, vol. 1, Paris, 1846, p. 73. Remissão da redação da MEW, anotação 130, p. 857, referente à citação da p. 538.

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Nota 9F. Schouw, Die Erde, die Pflanze und der Mensch, 2ª ed., Leipzig, 1854, p. 148.

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Nota editorial E3Em sua carta a N. F. Danielson, de 28 de novembro de 1878, Marx propôs a seguinte redação desse parágrafo:

Segue-se uma prova brilhante de como Mill trata as diferentes formas históricas da produção social: “Pressuponho em toda parte”, diz ele, “o estado atual das coisas, que, salvo poucas exceções, predomina em toda parte onde trabalhadores e capitalistas se defrontam como classes, isto é, que o capitalista faz todos os adiantamentos, inclusive o pagamento do trabalhador.” O senhor Mill de bom grado acredita que isso não constitui uma necessidade absoluta, mesmo no sistema econômico em que trabalhadores e capitalistas se defrontam como classes.

Nota da redação da MEW, chamada 1* na p. 540; apresenta uma variante proposta por Marx e não substitui silenciosamente o texto principal.

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Nota 9aJ. St. Mill, Principles of Political Economy, Londres, 1868, pp. 252–253, passim. {As passagens acima foram traduzidas a partir da edição francesa de O Capital. F. E.}

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