Diferença nacional dos salários
No capítulo quinze, ocupamo-nos das múltiplas combinações capazes de produzir uma mudança na grandeza de valor absoluta ou relativa (isto é, comparada ao mais-valor) da força de trabalho, enquanto, por outro lado, a quantidade de meios de subsistência em que se realiza o preço da força de trabalho podia apresentar movimentos independentes64 da mudança desse preço, ou movimentos diferentes dela. Como já observamos, a simples transposição do valor, ou do preço, da força de trabalho para a forma exterior do salário transforma todas aquelas leis em leis do movimento dos salários. O que, no interior desse movimento, aparece como combinação variável pode apresentar-se, em países diferentes, como diversidade simultânea dos salários nacionais. Ao comparar os salários nacionais, portanto, é preciso considerar todos os fatores que determinam as mudanças na grandeza de valor da força de trabalho: o preço e a extensão das necessidades vitais primárias, naturais e historicamente desenvolvidas; os custos de formação do trabalhador; o papel do trabalho de mulheres e crianças; a produtividade do trabalho; as grandezas extensiva e intensiva do trabalho. Mesmo a comparação mais superficial exige que, antes de tudo, se convertam os salários diários médios dos mesmos ofícios em diferentes países à base de jornadas de igual duração. Após essa equiparação dos salários diários, é preciso converter novamente o salário por tempo em salário por peça, pois só este último constitui uma medida tanto da produtividade quanto da grandeza intensiva do trabalho.
Em cada país vigora certa intensidade média do trabalho, abaixo da qual o trabalho, na produção de uma mercadoria, consome mais tempo do que o socialmente necessário e, por isso, não conta como trabalho de qualidade normal. Em determinado país, apenas um grau de intensidade superior à média nacional altera a medida do valor baseada na simples duração do tempo de trabalho. É diferente no mercado mundial, do qual cada país constitui uma parte integrante. A intensidade média do trabalho varia de país para país: aqui é maior, ali é menor. Essas médias nacionais formam, portanto, uma escala cuja unidade de medida é a unidade média do trabalho universal. Comparado ao trabalho nacional menos intenso, o mais intenso produz, assim, no mesmo tempo, mais valor, expresso em mais dinheiro.
A lei do valor sofre, porém, uma modificação ainda maior em sua aplicação internacional, porque, no mercado mundial, o trabalho nacional mais produtivo também conta como mais intenso sempre que a concorrência não obriga a nação mais produtiva a reduzir o preço de venda de sua mercadoria ao seu valor.
Na medida em que a produção capitalista está desenvolvida num país, na mesma medida a intensidade e a produtividade nacionais do trabalho também se elevam acima do nível internacional.64a Quantidades diferentes de mercadorias da mesma espécie, produzidas em países diferentes durante o mesmo tempo de trabalho, possuem, portanto, valores internacionais desiguais, que se expressam em preços diferentes, isto é, em somas de dinheiro que diferem conforme os valores internacionais. O valor relativo do dinheiro será, pois, menor na nação cujo modo de produção capitalista é mais desenvolvido do que naquela em que é pouco desenvolvido. Segue-se daí que o salário nominal, o equivalente da força de trabalho expresso em dinheiro, também será mais alto na primeira nação do que na segunda; o que de modo algum significa que isso também valha para o salário real, isto é, para os meios de subsistência postos à disposição do trabalhador.
Mas, mesmo deixando de lado essa diferença relativa do valor do dinheiro entre os diversos países, constata-se frequentemente que o salário diário, semanal etc. é mais alto na primeira nação do que na segunda, ao passo que o preço relativo do trabalho, isto é, seu preço em relação tanto ao mais-valor quanto ao valor do produto, é mais alto na segunda do que na primeira.65
J. W. Cowell, membro da comissão fabril de 1833, chegou, depois de um exame cuidadoso da indústria de fiação, à conclusão de que
“na Inglaterra, os salários são, na realidade, mais baixos para o fabricante do que no continente, embora possam ser mais altos para o trabalhador” (Ure, p. 314).
O inspetor fabril inglês Alexander Redgrave demonstra, no relatório sobre as fábricas de 31 de outubro de 1866, mediante estatísticas comparativas com os países continentais, que, apesar dos salários mais baixos e de jornadas muito mais longas, o trabalho no continente é mais caro do que o inglês em relação ao produto. Um diretor inglês (manager) de uma fábrica de algodão em Oldemburgo declara que ali a jornada vai das 5h30 da manhã às 8 horas da noite, inclusive aos sábados, e que os trabalhadores locais, quando sob a supervisão de contramestres ingleses, não chegam a fornecer durante esse período tanto produto quanto os trabalhadores ingleses em dez horas; sob a supervisão de contramestres alemães, fornecem ainda muito menos. O salário seria muito inferior ao da Inglaterra, em muitos casos 50% inferior, mas o número de trabalhadores em relação à maquinaria seria muito maior, chegando em diferentes departamentos à proporção de 5 para 3. O sr. Redgrave fornece informações muito precisas sobre as fábricas de algodão russas. Os dados lhe foram transmitidos por um diretor inglês que havia trabalhado ali até pouco tempo antes. Nesse solo russo, tão fértil em toda espécie de infâmias, também florescem plenamente os velhos horrores da infância das factoriesE1 inglesas. Naturalmente, os dirigentes são ingleses, pois o capitalista russo nativo não serve para o negócio fabril. Apesar de todo o excesso de trabalho, do trabalho contínuo de dia e de noite e da remuneração vergonhosamente ínfima dos trabalhadores, o produto industrial russo só vegeta graças à proibição dos produtos estrangeiros. Apresento, por fim, um quadro comparativo elaborado pelo sr. Redgrave sobre o número médio de fusos por fábrica e por fiandeiro em diversos países europeus. O próprio sr. Redgrave observa que havia recolhido esses números alguns anos antes e que, desde então, tanto o tamanho das fábricas quanto o número de fusos por trabalhador tinham aumentado na Inglaterra. Supõe, porém, um progresso proporcionalmente igual nos países continentais enumerados, de modo que os números teriam conservado seu valor comparativo.
Número médio de fusos por fábrica
País Fusos por fábrica, em média Inglaterra 12.600 Suíça 8.000 Áustria 7.000 Saxônia 4.500 Bélgica 4.000 França 1.500 Prússia 1.500
Número médio de fusos por pessoa
País ou região Fusos por pessoa França 14 Rússia 28 Prússia 37 Baviera 46 Áustria 49 Bélgica 50 Saxônia 50 Pequenos Estados alemães 55 Suíça 55 Grã-Bretanha 74
“Essa comparação”, diz o sr. Redgrave, “é desfavorável à Grã-Bretanha, entre outras razões, sobretudo porque ali existe um número muito grande de fábricas nas quais a tecelagem mecânica está associada à fiação, enquanto o cálculo não desconta ninguém que trabalhe nos teares. As fábricas estrangeiras, ao contrário, são em sua maioria simples fiações. Se pudéssemos comparar exatamente coisas iguais, eu poderia enumerar muitas fábricas de fiação de algodão em meu distrito nas quais máquinas mule com 2.200 fusos são vigiadas por um único homem (minder) e duas ajudantes, produzindo-se diariamente 220 libras de fio, num comprimento de 400 milhas (inglesas).” (Reports of Insp. of Fact., 31st Oct. 1866, pp. 31–37, passim.)
Sabe-se que companhias inglesas assumiram a construção de ferrovias tanto no leste da Europa como na Ásia e que, além de trabalhadores nativos, empregam nelas certo número de trabalhadores ingleses. Obrigadas pela necessidade prática a levar assim em conta as diferenças nacionais de intensidade do trabalho, não sofreram prejuízo algum com isso. Sua experiência ensina que, embora o nível dos salários corresponda mais ou menos à intensidade média do trabalho, o preço relativo do trabalho (em relação ao produto) se move, em geral, em sentido contrário.
No “Ensaio sobre a taxa dos salários”66, um de seus primeiros escritos econômicos, H. Carey procura demonstrar que os salários dos diferentes países variam em proporção direta com os graus de produtividade das respectivas jornadas nacionais de trabalho, para concluir dessa relação internacional que o salário, em geral, sobe e desce com a produtividade do trabalho. Toda a nossa análise da produção de mais-valor demonstra o absurdo dessa conclusão, mesmo que Carey tivesse provado sua premissa, em vez de misturar desordenadamente materiais estatísticos reunidos, como é seu costume, sem crítica e superficialmente. O melhor é que ele não afirma que as coisas realmente se passem como deveriam passar de acordo com a teoria. A intervenção do Estado teria, com efeito, falseado a relação econômica natural. Por isso, seria necessário calcular os salários nacionais como se a parcela deles que cabe ao Estado sob a forma de impostos coubesse ao próprio trabalhador. Não deveria o sr. Carey refletir um pouco mais sobre a possibilidade de que esses “custos do Estado” sejam também “frutos naturais” do desenvolvimento capitalista? O raciocínio é inteiramente digno do homem que primeiro declarou as relações capitalistas de produção leis eternas da natureza e da razão, cujo livre jogo harmonioso seria perturbado apenas pela intervenção estatal, para depois descobrir que a influência diabólica da Inglaterra sobre o mercado mundial (influência que, ao que parece, não brota das leis naturais da produção capitalista) torna necessária a intervenção do Estado, ou seja, a proteção, pelo Estado, daquelas leis da natureza e da razão, também conhecida como sistema protecionista. Descobriu ainda que os teoremas de Ricardo e de outros economistas, nos quais se formulam antagonismos e contradições sociais existentes, não são o produto ideal do movimento econômico real, mas que, inversamente, os antagonismos reais da produção capitalista na Inglaterra e em outros lugares são o resultado das teorias de Ricardo e de outros! Descobriu, finalmente, que é o comércio, em última instância, que destrói as belezas e harmonias nativas do modo de produção capitalista. Mais um passo, e talvez descubra que o único mal da produção capitalista é o próprio capital. Só um homem de tão espantosa falta de espírito crítico e de tal erudição de faux aloiE2 merecia tornar-se, apesar de sua heresia protecionista, a fonte secreta da sabedoria harmoniosa de Bastiat e de todos os demais otimistas livre-cambistas da atualidade.
Notas
Nota 64“Não é correto dizer que os salários” (trata-se aqui de seu preço) “aumentaram porque com eles se pode comprar uma quantidade maior de um artigo mais barato.” (David Buchanan, em sua edição de A. Smith, Wealth etc., 1814, v. I, p. 417, nota.)
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Nota 64aExaminaremos em outro lugar quais circunstâncias, relacionadas à produtividade, podem modificar essa lei para ramos particulares da produção.
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Nota 65James Anderson observa, em polêmica contra A. Smith: “É igualmente digno de nota que, embora o preço do trabalho nos países pobres, onde os produtos agrícolas e especialmente os cereais são baratos, pareça em geral mais baixo, na realidade ele é, na maior parte dos casos, efetivamente mais alto do que em outros países. Pois o salário que um trabalhador recebe por dia não representa o preço real do trabalho, embora seja seu preço aparente. O preço real é aquilo que determinada quantidade de trabalho executado efetivamente custa ao empresário; e, desse ponto de vista, o trabalho é, em quase todos os casos, mais barato nos países ricos do que nos mais pobres, embora o preço dos cereais e de outros meios de subsistência costume ser muito mais baixo nestes últimos do que nos primeiros... O trabalho pago por dia é muito mais barato na Escócia do que na Inglaterra... O trabalho pago por peça é, em geral, mais barato na Inglaterra.” (James Anderson, Observations on the means of exciting a spirit of National Industry etc., Edimburgo, 1777, pp. 350 e 351.) Inversamente, o baixo nível dos salários, por sua vez, encarece o trabalho. “O trabalho é mais caro na Irlanda do que na Inglaterra... porque os salários são muito mais baixos.” (Nº 2074, Royal Commission on Railways, Minutes, 1867.)
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Nota editorial E1Glosa editorial da MEW, p. 585, chamada 1*: factories: “fábricas”.
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Nota 66Essay on the Rate of Wages: with an Examination of the Causes of the Differences in the Conditions of the Labouring Population throughout the World, Filadélfia, 1835.
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Nota editorial E2Glosa editorial da MEW, p. 588, chamada 1*: de faux aloi: “de falso teor” (von falschem Gehalt). A expressão francesa permanece no corpo do texto.
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