A taxa de mais-valor
1. O grau de exploração da força de trabalho
O mais-valor produzido no processo de produção pelo capital adiantado C, ou a valorização do valor de capital C adiantado, apresenta-se, de início, como excedente do valor do produto sobre a soma dos valores de seus elementos de produção.
O capital C divide-se em duas partes: uma soma de dinheiro c, despendida em meios de produção, e outra soma v, despendida em força de trabalho. c representa a parte de valor transformada em capital constante; v, a parte transformada em capital variável. Originalmente, portanto, C = c + v, por exemplo, um capital adiantado de 500 libras esterlinas = 410 libras esterlinas (c) + 90 libras esterlinas (v). Ao final do processo de produção, resulta uma mercadoria cujo valor é c + v + m, sendo m o mais-valor; por exemplo, 410 libras esterlinas (c) + 90 libras esterlinas (v) + 90 libras esterlinas (m). O capital original C transformou-se em C', passando de 500 para 590 libras esterlinas. A diferença entre ambos é m, um mais-valor de 90 libras esterlinas.
Como o valor dos elementos de produção é igual ao valor do capital adiantado, é, de fato, uma tautologia dizer que o excedente do valor do produto sobre o valor de seus elementos de produção equivale à valorização do capital adiantado ou ao mais-valor produzido.
Essa tautologia, entretanto, precisa de uma determinação mais precisa. O que se compara ao valor do produto é o valor dos elementos de produção consumidos em sua formação. Ora, já vimos que a parcela do capital constante empregado que consiste em meios de trabalho transfere ao produto apenas parte de seu valor, enquanto outra parte continua a existir sob sua antiga forma. Como esta última não desempenha nenhum papel na formação de valor, devemos abstrair dela aqui. Sua inclusão no cálculo não alteraria nada.
Suponhamos que c = 410 libras esterlinas seja composto de matéria-prima no valor de 312 libras esterlinas, materiais auxiliares de 44 libras esterlinas e desgaste de maquinaria de 54 libras esterlinas durante o processo, enquanto o valor da maquinaria efetivamente empregada seja de 1.054 libras esterlinas. Como valor adiantado para gerar o valor do produto, computamos apenas as 54 libras esterlinas que a maquinaria perde por sua função e, por isso, transfere ao produto. Se incluíssemos as mil libras esterlinas que continuam existindo em sua antiga forma, como máquina a vapor etc., teríamos de incluí-las nos dois lados da conta, tanto no lado do valor adiantado quanto no do valor do produto,26a e obteríamos respectivamente 1.500 e 1.590 libras esterlinas. A diferença, ou mais-valor, continuaria sendo de 90 libras esterlinas. Por capital constante adiantado à produção de valor, portanto, entenderemos sempre, salvo quando o contexto indicar o contrário, apenas o valor dos meios de produção consumidos na produção.
Feita essa ressalva, voltemos à fórmula C = c + v, que se transforma em C' = c + v + m e, desse modo, converte C em C'. Sabemos que o valor do capital constante apenas reaparece no produto. O produto de valor efetivamente criado no processo é, portanto, distinto do valor do produto que resulta desse processo. Assim, não é, como poderia parecer à primeira vista, c + v + m, nem, em nosso exemplo, 410 + 90 + 90, e sim v + m, isto é, 90 + 90: não 590, mas 180 libras esterlinas.
Se c, o capital constante, fosse igual a zero, em outras palavras, se houvesse ramos da indústria em que o capitalista não precisasse empregar meios de produção já produzidos, nem matéria-prima, nem materiais auxiliares, nem instrumentos de trabalho, e utilizasse apenas materiais existentes na natureza e força de trabalho, não haveria nenhuma parte constante do valor a transferir ao produto. Esse elemento do valor do produto, que em nosso exemplo é de 410 libras esterlinas, desapareceria. Entretanto, o produto de valor de 180 libras esterlinas, que contém 90 libras de mais-valor, permaneceria tão grande quanto se c representasse a maior soma de valor possível. Teríamos C = 0 + v = v e C', o capital valorizado, igual a v + m; C' − C continuaria sendo igual a m. Inversamente, se m = 0, em outras palavras, se a força de trabalho cujo valor é adiantado no capital variável produzisse apenas um equivalente, então C = c + v e C', o valor do produto, seria c + v + 0; portanto, C = C'. O capital adiantado não teria se valorizado.
Já sabemos que o mais-valor decorre exclusivamente da mudança de valor experimentada por v, a parte do capital convertida em força de trabalho, de modo que v + m = v + Δv (v acrescido de seu incremento). Entretanto, a mudança efetiva de valor e a proporção em que o valor se modifica ficam encobertas pelo fato de que, em consequência do crescimento de seu componente variável, cresce também o capital total adiantado. Ele era 500 e passa a ser 590. A análise pura do processo exige, portanto, que se abstraia inteiramente daquela parte do valor do produto na qual só reaparece valor de capital constante, isto é, que se estabeleça c = 0. Com isso aplicamos uma regra da matemática para operações com grandezas variáveis e constantes quando a grandeza constante se liga à variável apenas por adição ou subtração.
Outra dificuldade nasce da forma original do capital variável. No exemplo acima, C' = 410 libras esterlinas de capital constante + 90 libras esterlinas de capital variável + 90 libras esterlinas de mais-valor. Noventa libras esterlinas, porém, são uma grandeza dada, logo constante, de modo que parece absurdo tratá-las como grandeza variável. Mas noventa libras esterlinas, ou noventa libras esterlinas de capital variável, são aqui, de fato, apenas um símbolo do processo percorrido por esse valor. A parte do capital adiantada na compra da força de trabalho é uma quantidade determinada de trabalho objetivado, portanto uma grandeza de valor constante, assim como o valor da força de trabalho comprada. No próprio processo de produção, entretanto, a força de trabalho em atividade toma o lugar das noventa libras adiantadas; o trabalho vivo substitui o trabalho morto, uma grandeza em movimento substitui uma grandeza em repouso, uma grandeza variável substitui uma constante. O resultado é a reprodução de v acrescida de seu incremento. Do ponto de vista da produção capitalista, todo esse percurso aparece como automovimento do valor originalmente constante que foi convertido em força de trabalho. Atribuem-se a esse valor tanto o processo quanto seu resultado. Se a expressão “noventa libras esterlinas de capital variável”, ou “valor que se valoriza”, parece contraditória, ela exprime apenas uma contradição imanente à produção capitalista.
À primeira vista, causa estranheza igualar o capital constante a zero. Fazemos isso, porém, continuamente na vida cotidiana. Se alguém deseja calcular, por exemplo, o ganho da Inglaterra com a indústria algodoeira, desconta antes de tudo o preço pago pelo algodão aos Estados Unidos, à Índia, ao Egito etc. Em outras palavras, iguala a zero o valor de capital que apenas reaparece no valor do produto.
É claro que a relação do mais-valor com o capital total adiantado, e não somente com a parte do capital da qual ele nasce diretamente e cuja mudança de valor representa, tem também grande importância econômica. Por isso trataremos dessa relação minuciosamente no Livro III. Para valorizar uma parte do capital convertendo-a em força de trabalho, outra parte do capital precisa ser transformada em meios de produção. Para que o capital variável funcione, é preciso adiantar capital constante nas proporções correspondentes ao caráter técnico específico do processo de trabalho. A circunstância de um processo químico exigir retortas e outros recipientes não impede que se abstraia da própria retorta ao analisar esse processo. Consideradas em si mesmas, isto é, de maneira pura, a criação e a transformação de valor encontram nos meios de produção, nas formas materiais do capital constante, apenas a matéria na qual se fixará a força em movimento que forma valor. A natureza dessa matéria é, portanto, indiferente: tanto pode ser algodão quanto ferro. Também seu valor é indiferente. É necessário apenas que exista em quantidade suficiente para absorver a quantidade de trabalho a ser despendida durante o processo de produção. Dada essa massa, seu valor pode subir ou cair; ela pode até ser destituída de valor, como a terra e o mar. O processo de criação e transformação de valor não é afetado por isso.27
Igualamos, assim, inicialmente a zero a parte constante do capital. O capital adiantado fica reduzido de c + v a v, e o valor do produto, de c + v + m, ao produto de valor v + m. Dado um produto de valor de 180 libras esterlinas, no qual se representa o trabalho despendido durante todo o processo de produção, temos de subtrair o valor do capital variável, igual a 90 libras esterlinas, para obter o mais-valor de 90 libras esterlinas. A cifra 90 = m exprime aqui a grandeza absoluta do mais-valor produzido. Sua grandeza proporcional, isto é, a proporção em que o capital variável se valorizou, é determinada evidentemente pela relação entre o mais-valor e o capital variável, expressa por m/v. Em nosso exemplo, portanto, 90/90 = 100%. Chamo essa valorização proporcional do capital variável, ou grandeza proporcional do mais-valor, de taxa de mais-valor.28
Vimos que, durante uma parte do processo de trabalho, o trabalhador produz apenas o valor de sua força de trabalho, isto é, o valor dos meios de subsistência de que necessita. Como produz sob condições fundadas na divisão social do trabalho, não produz diretamente os próprios meios de subsistência. Produz, sob a forma de uma mercadoria particular, por exemplo o fio, um valor igual ao valor desses meios de subsistência ou ao dinheiro com o qual os compra. A parte da jornada de trabalho empregada para isso será maior ou menor conforme o valor de seus meios de subsistência diários médios e, portanto, conforme o tempo de trabalho diário médio necessário à produção deles. Se o valor de seus meios de subsistência diários representa, em média, seis horas de trabalho objetivado, o trabalhador precisa trabalhar diariamente, em média, seis horas para produzi-lo. Se trabalhasse para si mesmo, de maneira independente, em vez de trabalhar para o capitalista, precisaria, mantidas as demais condições, trabalhar ainda a mesma fração média da jornada para produzir o valor de sua força de trabalho e, com isso, obter os meios de subsistência necessários à própria conservação ou reprodução contínua.
Contudo, na parte da jornada em que produz o valor diário de sua força de trabalho, digamos, três xelins, ele produz somente um equivalente ao valor já pago pelo capitalista,28a de modo que, pelo valor recém-criado, apenas substitui o valor do capital variável adiantado. Essa produção de valor aparece, assim, como mera reprodução. Chamo, portanto, a parte da jornada na qual ocorre essa reprodução de tempo de trabalho necessário, e o trabalho despendido durante ela de trabalho necessário.29 Necessário para o trabalhador, porque independe da forma social de seu trabalho. Necessário para o capital e para o mundo do capital, porque a existência contínua do trabalhador constitui sua base.
O segundo período do processo de trabalho, durante o qual o trabalhador labuta além dos limites do trabalho necessário, custa-lhe trabalho, dispêndio de força de trabalho, mas não cria nenhum valor para ele. Cria mais-valor, que sorri ao capitalista com todo o encanto de uma criação a partir do nada. Chamo essa parte da jornada de tempo de mais-trabalho, e o trabalho nela despendido de mais-trabalho (surplus labour). Assim como é decisivo para compreender o valor em geral concebê-lo como simples condensação de tempo de trabalho, simples trabalho objetivado, é decisivo para compreender o mais-valor concebê-lo como simples condensação de tempo de mais-trabalho, simples mais-trabalho objetivado. Apenas a forma pela qual esse mais-trabalho é arrancado do produtor direto, do trabalhador, distingue as formações econômico-sociais, por exemplo a sociedade escravista da sociedade fundada no trabalho assalariado.30
Como o valor do capital variável é igual ao valor da força de trabalho que compra, como o valor dessa força de trabalho determina a parte necessária da jornada e como o mais-valor, por sua vez, é determinado pela parte excedente da jornada, resulta que o mais-valor está para o capital variável assim como o mais-trabalho está para o trabalho necessário. Ou seja, a taxa de mais-valor:
mv=mais-trabalhotrabalho necessário.
Ambas as proporções exprimem a mesma relação sob formas diferentes: uma, na forma de trabalho objetivado; outra, na forma de trabalho em movimento.
A taxa de mais-valor é, portanto, a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital, ou do trabalhador pelo capitalista.30a
Segundo nossa hipótese, o valor do produto era de 410 libras esterlinas de capital constante + 90 libras esterlinas de capital variável + 90 libras esterlinas de mais-valor, e o capital adiantado era de 500 libras esterlinas. Como o mais-valor é de 90 e o capital adiantado é de 500, o método habitual de cálculo levaria a dizer que a taxa de mais-valor, confundida com a taxa de lucro, é de 18%, porcentagem cuja pequenez poderia comover o sr. Carey e outros adeptos da harmonia econômica. Na realidade, porém, a taxa de mais-valor não é m/C nem m/(c + v), e sim m/v: portanto, não 90/500, mas 90/90 = 100%, mais de cinco vezes o aparente grau de exploração. Embora, no caso dado, não conheçamos a duração absoluta da jornada de trabalho, nem o período considerado do processo de trabalho (dia, semana etc.), nem, por fim, o número de trabalhadores que o capital variável de 90 libras esterlinas põe simultaneamente em movimento, a taxa de mais-valor m/v, por poder ser convertida na relação mais-trabalho/trabalho necessário, revela-nos com exatidão a proporção entre as duas partes da jornada. Ela é de 100%. O trabalhador, portanto, trabalhou metade da jornada para si e a outra metade para o capitalista.
Em resumo, eis o método de calcular a taxa de mais-valor: tomamos o valor total do produto e igualamos a zero o valor de capital constante que apenas reaparece nele. A soma de valor restante é o único produto de valor efetivamente criado no processo de formação da mercadoria. Se o mais-valor é conhecido, subtraímo-lo desse produto de valor para encontrar o capital variável. Inversamente, procedemos da forma correspondente quando conhecemos o capital variável e procuramos o mais-valor. Se ambos são conhecidos, resta somente realizar a operação final: calcular a relação do mais-valor com o capital variável, m/v.
Por mais simples que seja o método, parece conveniente exercitar o leitor, por meio de alguns exemplos, na maneira de considerar o problema que lhe serve de base e à qual ele não está habituado.
Primeiro, o exemplo de uma fiação com dez mil fusos de máquina mule, que produz fio número 32 a partir de algodão norte-americano, com produção semanal de uma libra de fio por fuso. A perda é de 6%.E6 Portanto, dez mil e seiscentas libras de algodão são processadas semanalmente em dez mil libras de fio e seiscentas libras de resíduo. Em abril de 1871, esse algodão custava 7¾ pence por libra, ou cerca de 342 libras esterlinas pelas dez mil e seiscentas libras. Os dez mil fusos, incluídos a maquinaria de preparação e a máquina a vapor, custavam uma libra esterlina por fuso, portanto dez mil libras esterlinas. Seu desgaste era de 10% ao ano, equivalente a mil libras esterlinas por ano ou vinte libras esterlinas por semana. O aluguel do edifício fabril era de trezentas libras esterlinas por ano, ou seis libras esterlinas por semana. O carvão (quatro libras por hora e por cavalo-vapor, com potência de cem cavalos indicada pelo aparelho de medição e sessenta horas por semana, incluído o aquecimento do edifício) correspondia a onze toneladas por semana, a oito xelins e seis pence a tonelada, custando cerca de 4½ libras esterlinas semanais. O gás custava uma libra esterlina semanal e o óleo, 4½ libras esterlinas por semana; os materiais auxiliares, portanto, somavam dez libras esterlinas semanais. Desse modo, a parte constante do valor era de 378 libras esterlinas por semana. O salário era de 52 libras esterlinas por semana. O preço do fio era de 12¼ pence por libra, de modo que dez mil libras de fio equivaliam a 510 libras esterlinas. O mais-valor era, portanto, 510 − 430 = 80 libras esterlinas. Igualamos a zero a parte constante do valor, de 378 libras esterlinas, porque ela não participa da formação semanal de valor. Resta um produto semanal de valor de 132 libras esterlinas, composto de 52 libras esterlinas de capital variável + 80 libras esterlinas de mais-valor.E7
A taxa de mais-valor é, portanto, 80/52 = 153 11/13%. Com uma jornada média de dez horas, isso corresponde a 3 31/33 horas de trabalho necessário e 6 2/33 horas de mais-trabalho.31
Jacob apresenta para 1815, admitindo um preço do trigo de oitenta xelins por quarter e um rendimento médio de 22 bushels por acre, de modo que o acre renda onze libras esterlinas, o seguinte cálculo. É bastante deficiente, pois diversos itens foram previamente compensados entre si, mas é suficiente para nosso propósito.E9
Produção de valor por acre
Rubrica Valor Rubrica Valor Sementes (trigo) £1 9s. Dízimos, tributos e impostos £1 1s. Adubo £2 10s. Renda fundiária £1 8s. Salários £3 10s. Lucro e juros do arrendatário £1 2s. Total £7 9s. Total £3 11s.
O mais-valor, sempre supondo que o preço do produto seja igual ao seu valor, aparece aqui distribuído entre várias rubricas: lucro, juros, dízimos etc. Essas rubricas são indiferentes para nós. Somamo-las e obtemos um mais-valor de três libras esterlinas e onze xelins. Igualamos a zero, como parte constante do capital, as três libras esterlinas e dezenove xelins correspondentes a sementes e adubo. Resta um capital variável adiantado de três libras esterlinas e dez xelins, em cujo lugar se produziu novo valor de £3 10s. + £3 11s.. Portanto, m/v = (£3 11s.)/(£3 10s.), mais de 100%. O trabalhador emprega mais da metade de sua jornada na produção de um mais-valor que diferentes pessoas repartem entre si, sob diferentes pretextos.31a
2. Representação do valor do produto em partes proporcionais do produto
Voltemos ao exemplo que nos mostrou como o capitalista transforma dinheiro em capital. O trabalho necessário de seu fiandeiro durava seis horas, e seu mais-trabalho também seis horas. O grau de exploração da força de trabalho era, portanto, de 100%.
O produto da jornada de doze horas são vinte libras de fio, no valor de trinta xelins. Nada menos que oito décimos desse valor do fio, ou 24 xelins, são constituídos pelo valor dos meios de produção consumidos que apenas reaparece (vinte libras de algodão, no valor de vinte xelins, e fuso etc., no valor de quatro xelins), ou seja, constituem capital constante. Os dois décimos restantes constituem o novo valor de seis xelins surgido durante o processo de fiação. Metade desse novo valor repõe o valor diário adiantado da força de trabalho, isto é, o capital variável; a outra metade constitui o mais-valor de três xelins. O valor total das vinte libras de fio compõe-se, assim, da seguinte maneira:
30 xelins⏟valor do fio=24 xelins⏟c+3 xelins⏟v+3 xelins⏟m.
Como esse valor total se apresenta no produto total de vinte libras de fio, os diferentes elementos de valor também devem poder ser representados em partes proporcionais do produto.
Se um valor de fio de trinta xelins existe em vinte libras de fio, então os oito décimos desse valor, isto é, sua parte constante de 24 xelins, correspondem a oito décimos do produto, ou dezesseis libras de fio. Dessas dezesseis libras, 13⅓ representam o valor da matéria-prima, o algodão fiado, no montante de vinte xelins, enquanto 2⅔ libras representam o valor dos materiais auxiliares e meios de trabalho consumidos, o fuso etc., no montante de quatro xelins.
Portanto, 13⅓ libras de fio representam todo o algodão fiado no produto total de vinte libras, a matéria-prima do produto total, e nada além disso. É verdade que nessas 13⅓ libras de fio só estão contidas 13⅓ libras de algodão, no valor de 13⅓ xelins. Entretanto, seu valor adicional de 6⅔ xelins constitui um equivalente ao algodão fiado nas outras 6⅔ libras de fio. É como se dessas últimas se tivesse arrancado todo o algodão e se tivesse comprimido todo o algodão do produto total nas primeiras 13⅓ libras de fio. Estas, por outro lado, já não contêm, nessa representação, um único átomo do valor dos materiais auxiliares e dos meios de trabalho consumidos, nem do novo valor criado durante o processo de fiação.
De modo semelhante, outras 2⅔ libras de fio, nas quais está contido o restante do capital constante, igual a quatro xelins, representam exclusivamente o valor dos materiais auxiliares e dos meios de trabalho consumidos no produto total de vinte libras de fio.
Oito décimos do produto, ou dezesseis libras de fio, embora considerados fisicamente como valores de uso, como fio, sejam tanto resultado do trabalho de fiação quanto as partes restantes do produto, não contêm, nessa relação, trabalho de fiação algum, nenhum trabalho absorvido durante o próprio processo de fiação. É como se tivessem se transformado em fio sem passar pela fiação e como se sua forma de fio fosse pura mentira e engano. De fato, quando o capitalista vende essas dezesseis libras por 24 xelins e, com o dinheiro, volta a comprar seus meios de produção, revela-se que as dezesseis libras de fio são apenas algodão, fusos, carvão etc. disfarçados.
Inversamente, os dois décimos restantes do produto, ou quatro libras de fio, representam agora exclusivamente o novo valor de seis xelins produzido durante as doze horas de fiação. Aquilo que nelas estava contido do valor da matéria-prima e dos meios de trabalho consumidos já foi extraído e incorporado às primeiras dezesseis libras de fio. O trabalho de fiação corporificado nas vinte libras de fio está concentrado em dois décimos do produto. É como se o fiandeiro tivesse produzido quatro libras de fio no ar, ou com algodão e fusos que, existentes por natureza e sem a adição de trabalho humano, não acrescentassem valor algum ao produto.
Das quatro libras de fio nas quais se apresenta, assim, todo o produto de valor do processo diário de fiação, uma metade representa apenas o valor de reposição da força de trabalho consumida, portanto o capital variável de três xelins. As outras duas libras de fio representam exclusivamente o mais-valor de três xelins.
Como doze horas de trabalho do fiandeiro se objetivam em seis xelins, no valor do fio de trinta xelins estão objetivadas sessenta horas de trabalho. Elas existem em vinte libras de fio: oito décimos, ou dezesseis libras, são a materialização de 48 horas de trabalho transcorridas antes do processo de fiação, a saber, o trabalho objetivado nos meios de produção do fio. Os dois décimos restantes, ou quatro libras, são a materialização das doze horas de trabalho despendidas no próprio processo de fiação.
Vimos anteriormente que o valor do fio é igual à soma do novo valor gerado em sua produção com os valores já existentes em seus meios de produção. Agora ficou demonstrado como as partes do valor do produto, distintas por sua função ou por seu conceito, podem ser representadas por partes proporcionais do próprio produto.
Essa decomposição do produto, resultado do processo de produção, em uma quantidade que representa apenas o trabalho contido nos meios de produção, ou a parte constante do capital; outra quantidade que representa apenas o trabalho necessário acrescentado durante o processo de produção, ou a parte variável do capital; e uma última quantidade que representa apenas o mais-trabalho acrescentado no mesmo processo, ou o mais-valor, é tão simples quanto importante, como demonstrará sua aplicação posterior a problemas complexos e ainda não resolvidos.
Até aqui, consideramos o produto total como resultado acabado da jornada de doze horas. Podemos, porém, acompanhá-lo também durante seu processo de formação e, ainda assim, representar os produtos parciais como partes do produto funcionalmente distintas.
O fiandeiro produz vinte libras de fio em doze horas, portanto 1⅔ libras numa hora e 13⅓ libras em oito horas. Produz, assim, um produto parcial equivalente ao valor total do algodão fiado durante toda a jornada. Da mesma maneira, o produto parcial da hora e 36 minutos seguintes é de 2⅔ libras de fio e representa o valor dos meios de trabalho consumidos durante as doze horas de trabalho. Na hora e doze minutos seguintes, o fiandeiro produz mais duas libras de fio, no valor de três xelins, valor do produto igual a todo o produto de valor que ele cria em seis horas de trabalho necessário. Finalmente, na última hora e doze minutos, produz também duas libras de fio, cujo valor corresponde ao mais-valor gerado por seu mais-trabalho de meia jornada. Esse modo de calcular serve ao fabricante inglês em seus negócios cotidianos: ele dirá, por exemplo, que nas primeiras oito horas, ou dois terços da jornada, recupera o algodão empregado, e assim por diante.
Vê-se que a fórmula é correta. Ela é, de fato, apenas a primeira fórmula traduzida do espaço, onde as partes acabadas do produto se encontram umas ao lado das outras, para o tempo, onde elas se sucedem. Mas a fórmula também pode vir acompanhada de concepções bastante bárbaras, particularmente nas cabeças daqueles que, tão interessados na prática do processo de valorização, têm também interesse em compreendê-lo mal na teoria.
Pode-se imaginar, por exemplo, que nosso fiandeiro, nas primeiras oito horas de sua jornada, produz ou repõe o valor do algodão; na hora e 36 minutos seguintes, produz ou repõe o valor dos meios de trabalho consumidos; na hora e doze minutos seguintes, produz ou repõe o valor dos salários; e dedica somente a famosíssima “última hora” ao dono da fábrica, à produção de mais-valor. Desse modo, impõe-se ao fiandeiro um duplo milagre: produzir algodão, fuso, máquina a vapor, carvão, óleo etc. precisamente no momento em que fia com a ajuda desses meios e transformar uma jornada de determinada intensidade em cinco jornadas da mesma espécie. Em nosso exemplo, a produção da matéria-prima e dos meios de trabalho requer 24/6 = 4 jornadas de doze horas, e sua transformação em fio exige ainda outra jornada de doze horas. O fato de a ganância acreditar em tais milagres e de nunca lhe faltar um adulador doutrinário para demonstrá-los ficará claro com um exemplo historicamente célebre.
3. A “última hora” de Senior
Numa bela manhã do ano de 1836, Nassau W. Senior, célebre por sua ciência econômica e por seu belo estilo, uma espécie de Clauren entre os economistas ingleses, foi convocado de Oxford a Manchester para aprender economia política ali, em lugar de ensiná-la em Oxford. Os fabricantes o escolheram como seu campeão contra o Factory ActE10 recentemente promulgado e contra a agitação pela jornada de dez horas, que pretendia ir ainda mais longe. Com a habitual sagacidade prática, haviam percebido que o senhor professor “wanted a good deal of finishing”E11. Prescreveram-lhe, por isso, uma temporada em Manchester. O professor, por sua vez, deu forma literária à lição recebida dos fabricantes de Manchester no panfleto Letters on the Factory Act, as it affects the cotton manufacture, Londres, 1837. Nele se pode ler, entre outras coisas, a seguinte passagem edificante:
“Pela lei atual, nenhuma fábrica que empregue pessoas menores de 18 anos pode funcionar mais de 11½ horas por dia, isto é, 12 horas durante os cinco primeiros dias da semana e 9 horas no sábado. A análise seguinte (!) demonstra agora que, numa fábrica dessas, todo o lucro líquido provém da última hora. Um fabricante adianta 100.000 libras esterlinas: 80.000 em edifícios fabris e maquinaria, 20.000 em matéria-prima e salários. O movimento anual da fábrica, supondo que o capital complete uma rotação por ano e que o lucro bruto seja de 15%, deve corresponder a mercadorias no valor de 115.000 libras esterlinas. Dessas 115.000 libras, cada uma das 23 meias horas diárias de trabalho produz 5/115, ou 1/23. Desses 23/23, que perfazem as 115.000 libras esterlinas (constituting the whole 115000 l.), 20/23, isto é, 100.000 das 115.000, apenas repõem o capital; 1/23, ou 5.000 libras esterlinas dos 15.000 de lucro bruto (!), repõe o desgaste da fábrica e da maquinaria. Os 2/23 restantes, isto é, as duas últimas meias horas de cada dia, produzem o lucro líquido de 10%. Se, portanto, mantendo-se os preços, a fábrica pudesse trabalhar 13 horas em vez de 11½, o lucro líquido mais que duplicaria, com um acréscimo de cerca de 2.600 libras esterlinas ao capital circulante. Por outro lado, se as horas diárias de trabalho fossem reduzidas em uma hora, o lucro líquido desapareceria; se a redução fosse de 1½ hora, desapareceria também o lucro bruto.”32
E o senhor professor chama isso de “análise”! Se acreditava na lamentação dos fabricantes de que os operários desperdiçam a melhor parte do dia produzindo e, portanto, reproduzindo ou repondo o valor dos edifícios, das máquinas, do algodão, do carvão etc., qualquer análise era supérflua. Bastaria responder: meus senhores! Se mandarem trabalhar 10 horas em vez de 11½, em igualdade de todas as demais condições, o consumo diário de algodão, maquinaria etc. diminuirá em uma hora e meia. Ganharão, portanto, exatamente o que perderem. Seus operários desperdiçarão, daqui por diante, uma hora e meia a menos na reprodução ou reposição do valor do capital adiantado.
Se, em vez de aceitar a palavra dos fabricantes, o professor julgava necessária uma análise como especialista, deveria antes de tudo, numa questão que gira exclusivamente em torno da relação entre o lucro líquido e a duração da jornada de trabalho, pedir àqueles senhores que parassem de misturar indiscriminadamente maquinaria e edifícios fabris, matéria-prima e trabalho. Deveria solicitar, por gentileza, que colocassem de um lado o capital constante contido nos edifícios, na maquinaria, na matéria-prima etc. e, de outro, o capital adiantado em salários. Se, segundo as contas dos fabricantes, o operário reproduzisse ou repusesse seu salário em duas meias horas de trabalho, ou seja, numa hora, o analista deveria prosseguir assim:
Segundo vocês, o trabalhador produz na penúltima hora seu salário e, na última, o mais-valor de vocês ou o lucro líquido. Como produz valores iguais em períodos iguais, o produto da penúltima hora tem o mesmo valor que o da última. Além disso, ele só produz valor na medida em que despende trabalho, e a quantidade de seu trabalho se mede por seu tempo de trabalho. Esse tempo é, segundo vocês, de 11½ horas por dia. Ele emprega parte dessas 11½ horas na produção ou reposição de seu salário, e a outra parte na produção do lucro líquido de vocês. É só isso o que faz durante a jornada de trabalho. Como, segundo os dados de vocês, seu salário e o mais-valor por ele fornecido são valores de igual magnitude, é evidente que ele produz seu salário em 5¾ horas e o lucro líquido de vocês em outras 5¾ horas. Como, além disso, o valor do fio produzido em duas horas é igual à soma do valor do salário e do lucro líquido, esse valor do fio deve ser medido por 11½ horas de trabalho, o produto da penúltima hora por 5¾ horas, e o da última, igualmente. Chegamos agora a um ponto delicado. Portanto, atenção! A penúltima hora de trabalho é uma hora comum de trabalho, como a primeira. Ni plus, ni moins.E13 Como pode o fiandeiro, então, produzir em uma hora um valor em fio que representa 5¾ horas de trabalho? Na realidade, ele não realiza milagre algum. O que produz, em valor de uso, durante uma hora é determinada quantidade de fio. O valor desse fio mede-se por 5¾ horas de trabalho, das quais 4¾ já estão contidas, sem participação sua, nos meios de produção consumidos nessa hora, no algodão, na maquinaria etc.; a hora restante foi acrescentada por ele mesmo. Como, portanto, seu salário é produzido em 5¾ horas, e o fio produzido numa hora de fiação também contém 5¾ horas de trabalho, não há nenhuma feitiçaria no fato de o produto de valor de suas 5¾ horas de fiação ser igual ao valor do produto de uma hora de fiação. Vocês, porém, estão completamente enganados ao imaginar que ele gasta um único átomo do tempo de sua jornada reproduzindo ou “repondo” os valores do algodão, da maquinaria etc. Pelo simples fato de seu trabalho transformar algodão e fuso em fio, pelo fato de fiar, o valor do algodão e do fuso transfere-se por si mesmo ao fio. Isso se deve à qualidade de seu trabalho, e não à quantidade. Certamente, numa hora ele transfere ao fio mais valor de algodão etc. do que em meia hora, simplesmente porque em uma hora fia mais algodão do que em meia hora.
Compreendam, então: a afirmação de vocês de que o operário produz, na penúltima hora, o valor de seu salário e, na última, o lucro líquido significa apenas que no fio produzido em duas horas de sua jornada, quer essas horas estejam no começo ou no fim, estão incorporadas 11½ horas de trabalho, tantas quantas compõem a jornada inteira. E a afirmação de que produz seu salário nas primeiras 5¾ horas e o lucro líquido de vocês nas últimas 5¾ quer dizer apenas que vocês pagam as primeiras 5¾ horas e deixam sem pagamento as últimas 5¾. Falo em pagamento do trabalho, em vez de pagamento da força de trabalho, para me expressar na gíria de vocês. Se compararem, meus senhores, o tempo de trabalho que pagam com aquele pelo qual nada pagam, verão que a proporção é de meio dia para meio dia, portanto 100%, uma porcentagem certamente respeitável.
Tampouco resta a menor dúvida de que, se fizerem suas “mãos” trabalhar 13 horas em vez de 11½ e, num gesto que se parece com vocês como um ovo com outro, destinarem as 1½ horas adicionais exclusivamente ao mais-trabalho, este crescerá de 5¾ para 7¼ horas, e a taxa de mais-valor passará de 100% para 126 2/23%. Vocês são, porém, otimistas exagerados se esperam que, pelo acréscimo de 1½ hora, ela passe de 100% para 200%, ou até mais de 200%, isto é, que “mais que duplique”. Por outro lado, o coração humano é uma coisa estranha, sobretudo quando o homem leva o coração na bolsa. Vocês também são pessimistas completamente desatinados ao temer que, com a redução da jornada de 11½ para 10½ horas, todo o lucro líquido vá por água abaixo. De forma alguma! Permanecendo iguais todas as outras circunstâncias, o mais-trabalho cairá de 5¾ para 4¾ horas, o que ainda proporciona uma taxa de mais-valor bem considerável, a saber, 82 14/23%. A fatídica “última hora”, sobre a qual vocês contaram mais fábulas do que os milenaristasE14 sobre o fim do mundo, é “all bosh”E15. Sua perda não lhes custará o “lucro líquido”, nem custará a “pureza da alma” das crianças de ambos os sexos que vocês processam.32a
Quando finalmente soar a “última horinha” de vocês, lembrem-se do professor de Oxford. E agora: num mundo melhor, desejo desfrutar mais de sua estimada companhia. Addio!33... O sinal da “última hora”, descoberta por Senior em 1836, voltou a ser soado em 15 de abril de 1848 por James Wilson, um dos principais mandarins da economia, no London Economist, em polêmica contra a lei das dez horas.
4. O mais-produto
A parte do produto (1/10 das 20 libras de fio, ou 2 libras de fio, no exemplo da seção 2) na qual se representa o mais-valor é denominada mais-produto (surplus produce, produit net). Assim como a taxa de mais-valor é determinada pela relação do mais-valor com a parte variável do capital, e não com o capital total, a magnitude do mais-produto é determinada por sua relação com a parte do produto que representa o trabalho necessário, e não com o restante do produto total. Sendo a produção de mais-valor a finalidade determinante da produção capitalista, o grau de riqueza é medido pela magnitude relativa do mais-produto, e não pela magnitude absoluta do produto.34
A soma do trabalho necessário e do mais-trabalho, isto é, dos períodos durante os quais o trabalhador produz o valor de reposição de sua força de trabalho e o mais-valor, constitui a magnitude absoluta de seu tempo de trabalho: a jornada de trabalho (working day).
Notas
Nota 26a“Se computamos o valor do capital fixo empregado como parte do capital adiantado, devemos computar, ao final do ano, o valor remanescente desse capital como parte da receita anual.” (Malthus, Principles of Political Economy, 2ª ed., Londres, 1836, p. 269.)
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Nota 27Nota à segunda edição. É evidente, como disse Lucrécio, que nil posse creari de nihilo.E1 Do nada, nada surge. “Criação de valor” é conversão de força de trabalho em trabalho. Por sua vez, a força de trabalho é, antes de tudo, matéria natural transformada em organismo humano.
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Nota editorial E1Lucrécio, Da natureza, livro I, versos 156–157. Referência indicada pela MEW para a nota 27.
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Nota 28Assim como os ingleses empregam as expressões rate of profits, rate of interest etc. Veremos no Livro III que é fácil compreender a taxa de lucro depois de conhecer as leis do mais-valor. Pelo caminho inverso, não se compreende ni l'un, ni l'autre.E2
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Nota editorial E2“Nem uma coisa nem outra.” Glosa de ni l'un, ni l'autre.
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Nota 28aNota à terceira edição. O autor emprega aqui a linguagem econômica corrente. Recorde-se que se demonstrou na p. 137E3 que, na realidade, não é o capitalista quem “adianta” ao trabalhador, e sim o trabalhador quem “adianta” ao capitalista. F. E.
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Nota editorial E3Na paginação da MEW 23, ver p. 188. Conserva-se a p. 137 da remissão de Engels no texto da nota 28a.
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Nota 29Até aqui, nesta obra, empregamos a expressão “tempo de trabalho necessário” para designar o tempo de trabalho socialmente necessário à produção de uma mercadoria em geral. De agora em diante, também a empregaremos para designar o tempo de trabalho necessário à produção da mercadoria específica força de trabalho. É inconveniente utilizar os mesmos termos técnicos em sentidos diferentes, mas isso não pode ser inteiramente evitado em ciência alguma. Comparem-se, por exemplo, as partes superiores e inferiores da matemática.
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Nota 30Com uma genialidade verdadeiramente digna de Gottsched,E4 o sr. Wilhelm Tucídides RoscherE5 descobre que, enquanto a formação do mais-valor ou do mais-produto e a acumulação correspondente se devem, hoje em dia, à “parcimônia” do capitalista, que por isso “exige, por exemplo, juros”, nos “estágios culturais mais baixos [...] os mais fracos são obrigados pelos mais fortes a ser parcimoniosos” (obra citada, pp. 82, 78). A economizar trabalho? Ou produtos excedentes que não existem? Ao lado da verdadeira ignorância, é o receio apologético de uma análise conscienciosa do valor e do mais-valor, e de seus resultados talvez comprometedores diante da polícia, que obriga Roscher e seus semelhantes a transformar justificativas mais ou menos plausíveis pelas quais o capitalista se apropria de um mais-valor já existente em causas da própria origem do mais-valor.
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Nota editorial E4Alusão irônica a Johann Christoph Gottsched. A MEW relaciona a expressão à sua reputação de intolerância diante de novas correntes literárias, apesar de reconhecer seu papel histórico.
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Nota editorial E5Segundo a MEW, Marx chama Roscher de “Wilhelm Tucídides” porque ele se apresentou como o Tucídides da economia política no prefácio da primeira edição de Die Grundlagen der Nationalökonomie. O aparato remete a Teorias da mais-valia, parte III, Berlim, 1962, p. 499.
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Nota 30aNota à segunda edição. Embora seja a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho, a taxa de mais-valor não exprime a grandeza absoluta da exploração. Se, por exemplo, o trabalho necessário é de cinco horas e o mais-trabalho também é de cinco horas, o grau de exploração é de 100%; a grandeza da exploração mede-se, nesse caso, por cinco horas. Se, em contrapartida, o trabalho necessário é de seis horas e o mais-trabalho também é de seis horas, o grau de exploração permanece inalterado em 100%, enquanto a grandeza da exploração aumenta em 20%, de cinco para seis horas.
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Nota editorial E6Mantêm-se os 6% e as quantidades do impresso. As seiscentas libras de resíduo equivalem a 6% das dez mil libras de fio obtidas; sobre as dez mil e seiscentas libras de algodão de entrada, a proporção seria aproximadamente 5,66%. Não se alterou a base numérica do exemplo.
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Nota editorial E7As contas empregam os valores arredondados do impresso. A 7¾ pence por libra, 10.600 libras de algodão custariam £342 5s. 10d.; a 12¼ pence por libra, dez mil libras de fio renderiam £510 8s. 4d. O texto usa £342 e £510. Onze toneladas a 8s. 6d. resultariam em £4 13s. 6d., enquanto o original registra cerca de £4½. As equivalências anuais e semanais de desgaste (£1.000/£20) e aluguel (£300/£6) implicam cinquenta semanas. Preservaram-se essas aproximações, sem recalcular o mais-valor a partir de uma combinação de bases diferentes. As frações 153 11/13%, 3 31/33 horas e 6 2/33 horas são exatas para os valores £52 e £80 usados no exemplo.
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Nota 31Nota à segunda edição. O exemplo de uma fiação em 1860 apresentado na primeira edição continha alguns erros factuais. Os dados inteiramente exatos fornecidos no texto foram-me transmitidos por um fabricante de Manchester. Convém observar que, na Inglaterra, a antiga medida de cavalo-vapor era calculada a partir da diâmetro do cilindroE8, enquanto a nova se baseia na potência efetiva indicada pelo instrumento de medição.
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Nota editorial E8O impresso e a transcrição alemã trazem Durchschnitt des Zylinders. Neste contexto técnico, adotou-se “diâmetro do cilindro”, em lugar de “média do cilindro”. A distinção é entre a antiga potência nominal, calculada a partir das dimensões da máquina, e a potência indicada. Um testemunho técnico contemporâneo descreve o cálculo nominal com o quadrado do diâmetro: Adam von Burg, 1869, Polytechnisches Journal, vol. 191, p. 425 e seguintes. Essa fonte auxilia a interpretação; não substitui o texto alemão cotejado.
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Nota editorial E9William Jacob, A letter to Samuel Whitbread, being a sequel to considerations on the protection required by British agriculture, Londres, 1815, p. 33.
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Nota 31aOs cálculos fornecidos servem apenas como ilustração. Pressupõe-se que os preços sejam iguais aos valores. Veremos no Livro III que essa igualdade não se estabelece de maneira tão simples, nem mesmo para os preços médios.
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Nota editorial E10Aqui, o Factory Act é a lei fabril inglesa de 1833. A MEW remete às pp. 289 e 295–298 do mesmo volume.
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Nota editorial E11“Ainda precisava de muito polimento.” Glosa de wanted a good deal of finishing.
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Nota 32Senior, obra citada, pp. 12–13. Não examinaremos curiosidades irrelevantes para nosso propósito, como a afirmação de que os fabricantes contabilizam a reposição da maquinaria etc., portanto de uma parte integrante do capital, como lucro, bruto ou líquido, sujo ou limpo. Tampouco examinaremos a veracidade ou falsidade dos dados numéricos. Que eles não valem mais do que a chamada “análise” foi demonstrado por Leonard Horner em A Letter to Mr. Senior etc., Londres, 1837. Leonard Horner, um dos Factory Inquiry CommissionersE12 de 1833 e inspetor de fábricas, na verdade censor de fábricas, até 1859, prestou serviços imorredouros à classe operária inglesa. Além de enfrentar os fabricantes enfurecidos, travou uma luta que durou toda a vida contra os ministros, para os quais era incomparavelmente mais importante contar os “votos” dos donos de fábricas na Câmara dos Comuns do que as horas de trabalho das “mãos” na fábrica.
Acréscimo à nota 32. A exposição de Senior é confusa, à parte a falsidade de seu conteúdo. O que ele propriamente queria dizer era o seguinte: o fabricante emprega os operários durante 11½ horas, ou 23/2 horas, por dia. Assim como a jornada individual, o trabalho anual compõe-se de 11½, ou 23/2, horas (multiplicadas pelo número de dias de trabalho durante o ano). Dada essa premissa, as 23/2 horas de trabalho produzem o produto anual de 115.000 libras esterlinas; ½ hora de trabalho produz (1/23) × 115.000 libras esterlinas; 20/2 horas de trabalho produzem (20/23) × 115.000 libras esterlinas = 100.000 libras esterlinas, isto é, apenas repõem o capital adiantado. Restam 3/2 horas de trabalho, que produzem (3/23) × 115.000 libras esterlinas = 15.000 libras esterlinas, ou seja, o lucro bruto. Dessas 3/2 horas, ½ hora produz (1/23) × 115.000 libras esterlinas = 5.000 libras esterlinas, isto é, apenas repõe o desgaste da fábrica e da maquinaria. As últimas duas meias horas de trabalho, isto é, a última hora, produzem (2/23) × 115.000 libras esterlinas = 10.000 libras esterlinas, isto é, o lucro líquido. No texto, Senior transforma os últimos 2/23 do produto em partes da própria jornada de trabalho.
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Nota editorial E12Comissários encarregados de investigar as condições fabris. Glosa de Factory Inquiry Commissioners.
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Nota editorial E13“Nem mais, nem menos.” Glosa de Ni plus, ni moins.
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Nota editorial E14A MEW explica que os milenaristas anunciavam a segunda vinda de Cristo e um reino milenar de justiça, igualdade e bem-estar na Terra. Relaciona essa crença à esperança de camponeses e trabalhadores oprimidos, em busca de saída para a servidão e a miséria, e à presença dessas ideias em seitas medievais e posteriores.
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Nota editorial E15“Pura bobagem.” Glosa de all bosh.
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Nota 32aSe Senior demonstrava que da “última hora de trabalho” dependiam o lucro líquido dos fabricantes, a existência da indústria algodoeira inglesa e a grandeza da Inglaterra no mercado mundial, o doutor Andrew UreE16 demonstrava, por sua vez, que crianças de fábrica e jovens menores de 18 anos que não fossem mantidos durante 12 horas inteiras na atmosfera moral cálida e pura da sala de fábrica, e fossem lançados “uma hora” antes no mundo exterior de sentimentos frios e frivolidades, teriam a salvação de suas almas arrebatada pela ociosidade e pelo vício. Desde 1848, os inspetores de fábrica não se cansam de provocar os fabricantes, em seus Reports semestrais, com “a última hora”, “a hora fatal”. Assim, o senhor Howell diz em seu relatório fabril de 31 de maio de 1855: “Se o engenhoso cálculo seguinte” (ele cita Senior) “fosse correto, todas as fábricas algodoeiras do Reino Unido teriam trabalhado com prejuízo desde 1850” (Reports of the Insp. of Fact. for the half year ending 30th April 1855, pp. 19–20). Quando, em 1848, o projeto de lei das dez horas tramitava no Parlamento, os fabricantes impuseram a alguns operários tidos como exemplares, nas fiações de linho espalhadas pelos distritos rurais entre os condados de Dorset e Somerset, uma contrapetição na qual se dizia, entre outras coisas: “Seus peticionários, que são pais, creem que uma hora adicional de lazer só poderia ter como consequência a desmoralização de seus filhos, pois a ociosidade é a mãe de todos os vícios”. A esse respeito, o relatório fabril de 31 de outubro de 1848 observa: “A atmosfera das fiações de linho em que trabalham os filhos desses pais tão virtuosos e ternos está impregnada de tão incontáveis partículas de pó e fibras da matéria-prima que é extremamente desagradável permanecer nas salas de fiação por apenas dez minutos, pois não se pode fazê-lo sem a mais penosa sensação: olhos, ouvidos, narinas e boca imediatamente se enchem de nuvens de pó de linho, das quais não há escapatória. O próprio trabalho, em razão do ritmo febril da maquinaria, exige dispêndio incessante de destreza e movimento, sob o controle de uma atenção que jamais descansa, e parece um tanto cruel permitir que os pais apliquem a expressão ‘vadiagem’ a seus próprios filhos, que, descontado o tempo das refeições, permanecem presos durante dez horas completas a essa ocupação, nessa atmosfera... Essas crianças trabalham mais tempo do que os trabalhadores rurais dos povoados vizinhos... Uma conversa tão desumana sobre ‘ociosidade e vício’ deve ser denunciada como o mais puro fingimento e a mais desavergonhada hipocrisia... A parcela do público que, cerca de doze anos atrás, se indignou com a segurança com que se proclamava publicamente e com toda a seriedade, sob a chancela de elevada autoridade, que todo o ‘lucro líquido’ do fabricante provinha da ‘última hora’ de trabalho e que, portanto, a redução da jornada em uma hora aniquilaria o lucro líquido, essa parcela do público, dizemos, mal acreditará nos próprios olhos ao descobrir agora que a descoberta original sobre as virtudes da ‘última hora’ foi desde então tão aperfeiçoada que abrange igualmente a ‘moral’ e o ‘lucro’; de modo que, se a duração do trabalho infantil fosse reduzida a dez horas completas, a moralidade das crianças desapareceria junto com o lucro líquido de seus empregadores, pois ambos dependem dessa última hora, dessa hora fatal” (Reports of Insp. of Fact. for 31st Oct. 1848, p. 101). O mesmo relatório fabril fornece, em seguida, exemplos da “moralidade” e da “virtude” desses senhores fabricantes: os ardis, manobras, seduções, ameaças, falsificações etc. de que se valeram para obter assinaturas de alguns poucos operários completamente embrutecidos em petições desse tipo e depois apresentá-las ao Parlamento como petições de um ramo industrial inteiro, de condados inteiros. Continua sendo extremamente característico do estado atual da chamada “ciência” econômica que nem o próprio Senior, que mais tarde, para seu crédito, defendeu vigorosamente a legislação fabril, nem seus adversários originais e posteriores soubessem desfazer os sofismas da “descoberta original”. Apelavam à experiência efetiva. O why e o whereforeE17 continuaram um mistério.
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Nota editorial E16Andrew Ure, The philosophy of manufactures, Londres, 1835, p. 406. Referência fornecida pelo aparato MEW.
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Nota editorial E17O porquê e a razão. Glosa de why e wherefore.
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Nota 33Apesar de tudo, o senhor professor tirou algum proveito de sua excursão a Manchester! Nas Letters on the Factory Act, todo o lucro líquido, o “lucro”, os “juros” e até “something more”E18 dependem de uma hora não paga do trabalho do operário! Um ano antes, em seus Outlines of Political Economy, escritos para o bem público dos estudantes de Oxford e dos filisteus instruídos, ele ainda havia “descoberto”, contra a determinação ricardiana do valor pelo tempo de trabalho, que o lucro provinha do trabalho do capitalista e os juros de seu ascetismo, de sua “abstinência”. A lorota em si era antiga, porém a palavra “abstinência” era nova. O senhor Roscher a traduz corretamente para o alemão por Enthaltung. Seus compatriotas menos versados em latim, estalajadeiros, chefes de aldeia e outros simplórios alemães, deram-lhe uma feição monástica, transformando-a em Entsagung.E19
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Nota editorial E18“Algo mais.” Glosa de something more.
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Nota editorial E19Enthaltung: abstenção; Entsagung: renúncia. Os termos alemães foram conservados para tornar visível o contraste criticado por Marx. “Feição monástica” traduz a ironia de vermöncht. Esta explicação é editorial, não uma glosa da MEW.
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Nota 34“Para um indivíduo com um capital de 20.000 libras esterlinas, cujos lucros anuais sejam de 2.000 libras esterlinas, seria inteiramente indiferente que seu capital empregasse 100 ou 1.000 trabalhadores, que as mercadorias produzidas fossem vendidas por 10.000 ou 20.000 libras esterlinas, sempre pressupondo que seus lucros, em qualquer dos casos, não caíssem abaixo de 2.000 libras esterlinas. Não é o mesmo o interesse real de uma nação? Admitindo que sua renda líquida real, isto é, suas rendas fundiárias e seus lucros, permaneça a mesma, não tem a menor importância que a nação seja composta por 10 ou 12 milhões de habitantes.” (Ricardo, obra citada, p. 416.) Muito antes de Ricardo, Arthur Young, fanático pelo mais-produto e, de resto, escritor prolixo e desprovido de espírito crítico, cuja fama está em proporção inversa ao seu mérito, dizia, entre outras coisas: “De que utilidade seria, num reino moderno, toda uma província cujo solo fosse cultivado, à antiga maneira romana, por pequenos camponeses independentes, por melhor que fosse esse cultivo? Para que serviria, além da única finalidade de produzir seres humanos (the mere purpose of breeding men), o que em si mesmo não tem finalidade alguma (is a most useless purpose)?” (Arthur Young, Political Arithmetic etc., Londres, 1774, p. 47.)
Acréscimo à nota 34. É estranha “a forte inclinação a apresentar a renda líquida como vantajosa para a classe trabalhadora... mas é evidente que não é por ser líquida que ela é vantajosa”. (Th. Hopkins, On Rent of Land etc., Londres, 1828, p. 126.)
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