Divisão do trabalho e manufatura
1. A dupla origem da manufatura
A cooperação fundada na divisão do trabalho assume sua forma clássica na manufatura. Como forma característica do processo de produção capitalista, ela predomina durante o período manufatureiro propriamente dito, que, em termos aproximados, vai de meados do século XVI ao último terço do século XVIII.
A manufatura surge de duas maneiras.
Ou trabalhadores de diferentes ofícios autônomos, por cujas mãos um produto precisa passar até alcançar sua forma acabada, são reunidos numa oficina sob o comando de um mesmo capitalista. Uma carruagem, por exemplo, era o produto conjunto do trabalho de grande número de artesãos independentes, como construtores de carroças, seleiros, alfaiates, serralheiros, fabricantes de guarnições metálicasE1, torneiros, passamanários, vidraceiros, pintores, envernizadores, douradores etc. A manufatura de carruagens reúne todos esses diferentes artesãos num mesmo estabelecimento, onde trabalham simultaneamente uns para os outros. É claro que uma carruagem não pode ser dourada antes de estar pronta. Mas, quando muitas carruagens são produzidas ao mesmo tempo, uma parte delas pode estar continuamente sendo dourada, enquanto outra parte percorre uma fase anterior do processo de produção. Até aqui, ainda estamos no terreno da cooperação simples, que encontra já disponíveis seus elementos humanos e materiais. Logo, porém, ocorre uma transformação essencial. O alfaiate, o serralheiro, o fabricante de guarnições metálicas etc., empregados exclusivamente na fabricação de carruagens, perdem pouco a pouco, juntamente com o hábito, a capacidade de exercer o antigo ofício em toda a sua extensão. Por outro lado, sua atividade unilateral adquire agora a forma mais adequada à esfera de ação reduzida. Originalmente, a manufatura de carruagens aparecia como uma combinação de ofícios autônomos. Gradualmente, ela se transforma na divisão da produção da carruagem em diferentes operações particulares, cada uma das quais se cristaliza como função exclusiva de um trabalhador, enquanto o conjunto dessas operações é executado pela associação dos trabalhadores parciais. Do mesmo modo, a manufatura de tecidos e toda uma série de outras manufaturas surgiram da combinação de diferentes ofícios sob o comando de um mesmo capital.26
Mas a manufatura também surge pelo caminho inverso. Muitos artesãos que fazem a mesma coisa ou coisas semelhantes, por exemplo papel, tipos de impressão ou agulhas, são empregados simultaneamente pelo mesmo capital numa mesma oficina. Trata-se de cooperação em sua forma mais simples. Cada um desses artesãos, talvez com um ou dois oficiais, produz a mercadoria inteira e executa sucessivamente as diferentes operações necessárias à sua fabricação. Ele continua trabalhando à maneira tradicional de seu ofício. Logo, porém, circunstâncias externas levam a utilizar de outro modo a concentração dos trabalhadores no mesmo espaço e a simultaneidade de seus trabalhos. Suponhamos, por exemplo, que seja preciso entregar uma quantidade maior de mercadorias acabadas num prazo determinado. O trabalho é então distribuído. Em vez de deixar que o mesmo artesão realize as diferentes operações numa sequência temporal, elas são destacadas umas das outras, isoladas, dispostas lado a lado no espaço, atribuídas cada qual a um artesão distinto e executadas simultaneamente pelo conjunto dos trabalhadores em cooperação. Essa distribuição inicialmente casual se repete, revela suas vantagens particulares e pouco a pouco se enrijece numa divisão sistemática do trabalho. De produto individual de um artesão autônomo que realiza tarefas variadas, a mercadoria se converte no produto social de uma associação de artesãos, cada um dos quais executa continuamente apenas uma mesma operação parcial. As mesmas operações que se encadeavam como atividades sucessivas do fabricante de papel alemão pertencente a uma corporação de ofício se autonomizaram, na manufatura de papel holandesa, como operações parciais realizadas lado a lado por muitos trabalhadores cooperantes. O fabricante de agulhas de Nuremberg, integrante de uma corporação de ofício, constitui o elemento básico da manufatura inglesa de agulhas. Enquanto aquele fabricante executava sucessivamente uma série de talvez vinte operaçõesE2, aqui logo vinte fabricantes passaram a trabalhar lado a lado, cada um executando somente uma das vinte operações, que, com a experiência, foram ainda mais subdivididas, isoladas e autonomizadas como funções exclusivas de trabalhadores individuais.
A maneira como a manufatura se origina e se desenvolve a partir do artesanato tem, portanto, um caráter duplo. Por um lado, ela parte da combinação de ofícios diferentes e autônomos, que vão perdendo sua autonomia e se tornando unilaterais até constituírem apenas operações parciais que se complementam mutuamente no processo de produção de uma mesma mercadoria. Por outro, ela parte da cooperação de artesãos da mesma espécie, decompõe um mesmo ofício individual em suas diferentes operações particulares e as isola e autonomiza até que cada uma delas se torne função exclusiva de um trabalhador particular. Assim, de um lado, a manufatura introduz a divisão do trabalho num processo de produção ou a desenvolve ainda mais; de outro, combina ofícios anteriormente separados. Mas, qualquer que seja seu ponto de partida particular, sua forma final é a mesma: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos.
Para compreender corretamente a divisão do trabalho na manufatura, é essencial ter presentes os seguintes pontos. Primeiro, a análise do processo de produção em suas fases particulares coincide aqui inteiramente com a decomposição de uma atividade artesanal em suas diferentes operações parciais. Composta ou simples, a operação continua artesanal e, portanto, dependente da força, da habilidade, da rapidez e da segurança do trabalhador individual no manejo de seu instrumento. O artesanato continua sendo a base. Essa estreita base técnica exclui uma análise verdadeiramente científica do processo de produção, pois cada processo parcial pelo qual passa o produto precisa poder ser executado como trabalho parcial de caráter artesanal. Precisamente porque a habilidade artesanal continua sendo o fundamento do processo de produção, cada trabalhador é apropriado exclusivamente por uma função parcial, e sua força de trabalho é transformada no órgão vitalício dessa função. Por fim, essa divisão do trabalho é uma espécie particular de cooperação, e algumas de suas vantagens decorrem da natureza geral da cooperação, não dessa forma particular de cooperação.
2. O trabalhador parcial e sua ferramenta
Se examinarmos agora os elementos isolados mais de perto, é claro, antes de tudo, que um trabalhador que executa durante toda a vida uma única operação simples transforma todo o seu corpo no órgão unilateral e automático dessa operação e, por isso, gasta nela menos tempo do que o artesão que executa alternadamente toda uma série de operações. O trabalhador coletivo combinado, que constitui o mecanismo vivo da manufatura, é formado, porém, exclusivamente por trabalhadores parciais unilaterais. Em comparação com o artesanato independente, produz-se, portanto, mais em menos tempo, ou seja, eleva-se a força produtiva do trabalho.27 O método do trabalho parcial também se aperfeiçoa depois de se autonomizar como função exclusiva de uma pessoa. A repetição constante da mesma atividade limitada e a concentração da atenção nessa atividade ensinam, pela experiência, a alcançar o efeito útil pretendido com o menor dispêndio de força. Como, entretanto, diferentes gerações de trabalhadores convivem e colaboram simultaneamente nas mesmas manufaturas, os artifícios técnicos assim adquiridos logo se consolidam, acumulam e transmitem.28
Na verdade, a manufatura produz a virtuosidade do trabalhador de detalhe ao reproduzir, no interior da oficina, a separação espontânea dos ofícios que encontrou na sociedade e levá-la sistematicamente ao extremo. Por outro lado, sua transformação do trabalho parcial em profissão vitalícia de uma pessoa corresponde à tendência de sociedades anteriores de tornar hereditários os ofícios, petrificando-os em castas ou, quando certas condições históricas produzem uma variabilidade dos indivíduos incompatível com o sistema de castas, enrijecendo-os em corporações de ofício. Castas e corporações de ofício se originam da mesma lei natural que regula a diferenciação das plantas e dos animais em espécies e subespécies; apenas, num determinado grau de desenvolvimento, a hereditariedade das castas ou a exclusividade das corporações é decretada como lei social.29
“As musselinas de Daca, por sua finura, e os tecidos de algodão e outros de Coromandel, pelo esplendor e pela durabilidade de suas cores, jamais foram superados. E, no entanto, são produzidos sem capital, máquinas, divisão do trabalho ou qualquer outro dos meios que proporcionam tantas vantagens à fabricação na Europa. O tecelão é um indivíduo isolado, que fabrica o tecido por encomenda de um cliente e com um tear da construção mais simples, às vezes composto apenas de varas de madeira toscamente unidas. Nem sequer possui um aparelho para estender a urdidura; por isso o tear precisa permanecer estendido em todo o seu comprimento e se torna tão desajeitado e amplo que não cabe na cabana do produtor. Este precisa, portanto, trabalhar ao ar livre, onde seu trabalho é interrompido a cada mudança do tempo.”30
É somente a habilidade particular acumulada de geração em geração e transmitida de pai para filho que confere ao hindu essa virtuosidade, como à aranha. E, apesar disso, um tecelão indiano desse tipo executa um trabalho muito complexo em comparação com a maioria dos trabalhadores da manufatura.
Um artesão que executa sucessivamente os diversos processos parciais de produção de um artigo precisa mudar ora de lugar, ora de instrumento. A passagem de uma operação para outra interrompe o fluxo de seu trabalho e forma, por assim dizer, poros em sua jornada. Esses poros se contraem quando ele realiza continuamente a mesma operação durante o dia inteiro, ou desaparecem à medida que diminui a alternância de suas operações.E3 Aqui, o aumento da produtividade se deve ou ao dispêndio crescente de força de trabalho em determinado período, isto é, à maior intensidade do trabalho, ou à diminuição do consumo improdutivo de força de trabalho. Com efeito, o dispêndio adicional de força exigido por cada passagem do repouso ao movimento é compensado pela manutenção mais prolongada da velocidade normal já alcançada. Por outro lado, a continuidade de um trabalho uniforme destrói a capacidade de tensão e o impulso das energias vitais, que encontram recuperação e estímulo justamente na mudança de atividade.
A produtividade do trabalho depende não só da virtuosidade do trabalhador, mas também da perfeição de suas ferramentas. Ferramentas da mesma espécie, como instrumentos de cortar, furar, puncionar, golpear etc.E4, são usadas em diferentes processos de trabalho, e, num mesmo processo, o mesmo instrumento serve a operações distintas. Contudo, assim que as diferentes operações de um processo de trabalho são separadas umas das outras e cada operação parcial adquire, nas mãos do trabalhador parcial, a forma mais adequada possível e, portanto, exclusiva, tornam-se necessárias modificações das ferramentas que antes serviam a diferentes fins. O sentido dessa transformação de sua forma resulta da experiência das dificuldades particulares que a forma inalterada impõe. A diferenciação dos instrumentos de trabalho, pela qual instrumentos da mesma espécie recebem formas fixas particulares para cada aplicação útil específica, e sua especialização, pela qual cada instrumento particular só atua com toda a sua eficácia nas mãos de trabalhadores parciais específicos, caracterizam a manufatura. Só em Birmingham se produzem cerca de quinhentas variedades de martelos: cada martelo serve a um processo de produção particular, e muitas vezes várias variedades servem apenas a operações diferentes dentro de um mesmo processo. O período manufatureiro simplifica, aperfeiçoa e multiplica as ferramentas de trabalho por meio de sua adaptação às funções particulares exclusivas dos trabalhadores parciais.31 Com isso, cria também uma das condições materiais da maquinaria, que consiste numa combinação de instrumentos simples.
O trabalhador de detalhe e seu instrumento constituem os elementos simples da manufatura. Passemos agora à sua configuração de conjunto.
3. As duas formas fundamentais da manufatura — manufatura heterogênea e manufatura orgânica
A organização da manufatura apresenta duas formas fundamentais que, embora ocasionalmente se entrelacem, constituem duas espécies essencialmente diferentes e desempenham papéis bastante distintos, sobretudo na transformação posterior da manufatura em grande indústria operada por máquinas. Esse duplo caráter decorre da natureza do próprio artigo produzido. O artigo resulta ou da simples reunião mecânica de produtos parciais independentes, ou adquire sua forma acabada mediante uma sequência de processos e operações interligados.
Uma locomotiva, por exemplo, consiste em mais de cinco mil peças independentes. Não pode, porém, servir de exemplo da primeira espécie de manufatura propriamente dita, por ser uma criação da grande indústria. O relógio, ao contrário, é um exemplo apropriado, utilizado também por William Petty para ilustrar a divisão manufatureira do trabalho. De produto individual de um artesão de Nuremberg, o relógio se transformou no produto social de uma multidão de trabalhadores parciais, como fabricantes de movimentos em bruto, de molas de relógio, de mostradores, de molas espirais, perfuradores de pedras e fabricantes de alavancas de rubi, de ponteiros, de caixas, de parafusos e douradores, com muitas subdivisões, como, por exemplo: fabricantes de rodas (com divisão adicional entre rodas de latão e de aço), fabricantes de pinhões, de mecanismos de ponteiros, acheveurs de pignon (que fixam as rodas nos pinhões, polem as facetas etc.), fabricantes de pivôs, planteurs de finissage (que montam diversas rodas e pinhões no mecanismo), finisseurs de barillet (que fazem entalhar os dentes, ajustam a largura dos furos e temperam o limitador de corda e o mecanismo de travamento), fabricantes de escapamentos; no caso do escapamento de cilindro, ainda fabricantes de cilindros, de rodas de escape, de balanços e de mecanismos reguladores (requettemacher, que fazem o conjunto pelo qual o relógio é regulado), planteurs d'échappement (fabricantes do escapamento propriamente dito); depois, os repasseurs de barillet (que acabam inteiramente o tambor da mola e o limitador de corda), polidores de aço, polidores de rodas, polidores de parafusos, pintores de algarismos, fabricantes de mostradores (que fundem o esmalte sobre o cobre), fabricants de pendants (que fazem somente as argolas da caixa), finisseurs de charnière (que colocam o pino de latão no centro da caixa etc.), faiseurs de secret (que fazem as molas da caixa que provocam a abertura da tampa), gravadores, cinzeladores, polisseurs de boîteE5 etc., etc.; finalmente, o repasseur, que monta o relógio inteiro e o entrega funcionando.E6 Apenas algumas peças do relógio passam por diferentes mãos, e todos esses membra disjecta só se reúnem na mão que afinal os une num todo mecânico. Essa relação exterior entre o produto acabado e seus elementos heterogêneos torna casual, aqui como em outros produtos semelhantes, a combinação dos trabalhadores parciais numa mesma oficina. Os próprios trabalhos parciais podem, por sua vez, ser exercidos como ofícios independentes uns dos outros, como nos cantões de Vaud e Neuchâtel, ao passo que em Genebra, por exemplo, existem grandes manufaturas de relógios, isto é, uma cooperação imediata entre trabalhadores parciais sob o comando de um capital. Mesmo neste último caso, mostradores, molas e caixas raramente são feitos na própria manufatura. A produção manufatureira combinada só é lucrativa aqui em condições excepcionais, porque é máxima a concorrência entre trabalhadores dispostos a trabalhar em casa, porque a fragmentação da produção numa massa de processos heterogêneos permite pouco emprego de meios de trabalho comuns e porque, na fabricação dispersa, o capitalista economiza os gastos com edifícios de trabalho etc.32 Entretanto, a posição desses trabalhadores de detalhe que trabalham em casa, mas para um capitalista (fabricante, établisseur), é inteiramente distinta da do artesão autônomo que trabalha para sua própria clientela.33
A segunda espécie de manufatura, sua forma aperfeiçoada, produz artigos que atravessam fases de desenvolvimento interligadas, uma série de processos sucessivos, como acontece, por exemplo, com o arame na manufatura de agulhas de costura, que passa pelas mãos de 72 e até de 92 trabalhadores parciais especializados.
Na medida em que essa manufatura combina ofícios originalmente dispersos, ela reduz a separação espacial entre as fases particulares de produção do artigo. Encurta-se o tempo de passagem de um estágio ao seguinte, bem como o trabalho que medeia essas passagens.34 Em comparação com o artesanato, ganha-se assim força produtiva, ganho que provém do caráter cooperativo geral da manufatura. Por outro lado, seu princípio específico de divisão do trabalho pressupõe o isolamento das diferentes fases da produção, autonomizadas umas em relação às outras como outros tantos trabalhos parciais de caráter artesanal. O estabelecimento e a manutenção da conexão entre as funções isoladas exigem o transporte constante do artigo de uma mão para outra e de um processo para o seguinte. Do ponto de vista da grande indústria, isso aparece como uma limitação característica, dispendiosa e inerente ao princípio da manufatura.35
Se considerarmos determinada quantidade de matéria-prima, por exemplo, trapos numa manufatura de papel ou arame numa manufatura de agulhas, ela percorre nas mãos dos diversos trabalhadores parciais uma sucessão temporal de fases de produção até atingir sua forma final. Se, ao contrário, considerarmos a oficina como um mecanismo de conjunto, veremos que a matéria-prima se encontra simultaneamente em todas as fases de sua produção. Com uma parte de suas muitas mãos armadas de instrumentos, o trabalhador coletivo, formado pela combinação dos trabalhadores de detalhe, puxa o arame; ao mesmo tempo, com outras mãos e ferramentas, estica-o, corta-o, afia-o etc. Os diferentes processos sucessivos, antes dispostos no tempo, transformam-se em processos simultâneos, dispostos lado a lado no espaço. Daí resulta o fornecimento de mais mercadorias acabadas no mesmo período.36 Essa simultaneidade decorre, sem dúvida, da forma cooperativa geral do processo de conjunto, mas a manufatura não apenas encontra disponíveis as condições da cooperação; em parte, ela própria as cria, decompondo a atividade artesanal. Por outro lado, só alcança essa organização social do processo de trabalho prendendo o mesmo trabalhador permanentemente à mesma operação parcial.
Como o produto parcial de cada trabalhador parcial é, ao mesmo tempo, apenas uma fase particular do desenvolvimento do mesmo artigo, um trabalhador fornece ao outro, ou um grupo de trabalhadores a outro grupo, sua matéria-prima. O resultado do trabalho de um constitui o ponto de partida do trabalho do outro. Portanto, aqui um trabalhador dá ocupação diretamente ao outro. O tempo de trabalho necessário para alcançar o efeito útil pretendido em cada processo parcial é estabelecido pela experiência, e o mecanismo de conjunto da manufatura repousa no pressuposto de que, em determinado tempo de trabalho, se obtenha determinado resultado. Somente sob esse pressuposto os diferentes processos de trabalho complementares podem prosseguir sem interrupção, simultaneamente e lado a lado no espaço. É claro que essa dependência imediata dos trabalhos e, portanto, dos trabalhadores uns em relação aos outros obriga cada indivíduo a empregar em sua função apenas o tempo necessário. Daí surgem uma continuidade, uma uniformidade, uma regularidade e uma ordem37 e, sobretudo, uma intensidade do trabalho completamente diferentes das que encontramos no artesanato independente ou mesmo na cooperação simples. Na produção de mercadorias em geral, o fato de que uma mercadoria só deva absorver o tempo de trabalho socialmente necessário à sua fabricação aparece como coerção externa da concorrência, porque, para dizê-lo superficialmente, cada produtor individual precisa vender a mercadoria pelo preço de mercado. Já na manufatura, o fornecimento de determinada quantidade de produtos em determinado tempo de trabalho torna-se uma lei técnica do próprio processo de produção.38
Entretanto, diferentes operações exigem tempos desiguais e fornecem, portanto, quantidades desiguais de produtos parciais em períodos iguais. Assim, se o mesmo trabalhador deve executar todos os dias somente a mesma operação, é preciso empregar, nas diferentes operações, proporções diferentes de trabalhadores. Por exemplo, numa manufatura de tipos de impressão, quatro fundidores e dois trabalhadores que destacam os tipos correspondem a um polidor: cada fundidor funde 2.000 tipos por hora, cada trabalhador que os destaca separa 4.000 e o polidor dá polimento a 8.000.E7 Aqui reaparece o princípio da cooperação em sua forma mais simples, o emprego simultâneo de muitos trabalhadores que fazem coisas semelhantes; agora, porém, como expressão de uma relação orgânica. A divisão manufatureira do trabalho, portanto, não apenas simplifica e multiplica os órgãos qualitativamente diferentes do trabalhador coletivo social, mas também cria uma proporção matematicamente fixa para a extensão quantitativa desses órgãos, isto é, para o número relativo de trabalhadores ou a grandeza relativa dos grupos de trabalhadores empregados em cada função particular. Com a articulação qualitativa, ela desenvolve a regra e a proporcionalidade quantitativas do processo social de trabalho.
Quando a proporção mais adequada entre os diferentes grupos de trabalhadores parciais foi estabelecida empiricamente para determinada escala de produção, só se pode ampliar essa escala empregando um mesmo múltiplo de cada grupo particular.39 Acrescente-se que o mesmo indivíduo executa certos trabalhos tão bem em grande como em pequena escala, por exemplo, a supervisão, o transporte dos produtos parciais de uma fase de produção para outra etc. A autonomização dessas funções, ou sua atribuição a trabalhadores específicos, só se torna vantajosa com o aumento do número de trabalhadores empregados; mas tal aumento precisa atingir imediatamente todos os grupos de modo proporcional.
O grupo individual, composto por certo número de trabalhadores que executam a mesma função parcial, consiste em elementos homogêneos e constitui um órgão particular do mecanismo de conjunto. Em diferentes manufaturas, porém, o próprio grupo é um corpo de trabalho articulado, ao passo que o mecanismo global é formado pela repetição ou multiplicação desses organismos produtivos elementares. Tomemos, por exemplo, a manufatura de garrafas de vidro. Ela se divide em três fases essencialmente distintas. Primeiro, a fase preparatória, como a elaboração da composição do vidro, a mistura de areia, cal etc. e a fusão dessa composição numa massa de vidro líquida.40 Na primeira fase trabalham diversos trabalhadores parciais, e o mesmo ocorre na fase final, na retirada das garrafas dos fornos de recozimento,E8 sua classificação, embalagem etc. Entre essas duas fases situa-se a fabricação do vidro propriamente dita, ou transformação da massa líquida. Numa mesma abertura do forno de vidro trabalha um grupo chamado na Inglaterra de hole (“buraco”), composto por um bottle maker or finisher, um blower, um gatherer, um putter up or whetter off e um taker in.E9 Esses cinco trabalhadores parciais formam outros tantos órgãos particulares de um único corpo de trabalho, que só pode atuar como unidade, isto é, por meio da cooperação imediata dos cinco. Se falta um membro desse corpo de cinco partes, ele fica paralisado. O mesmo forno de vidro dispõe, porém, de diferentes aberturas, na Inglaterra, por exemplo, de quatro a seis, cada uma das quais contém um cadinho de barro com vidro líquido e emprega seu próprio grupo de trabalhadores com a mesma composição de cinco membros. A articulação de cada grupo isolado baseia-se diretamente na divisão do trabalho, enquanto o vínculo entre os diferentes grupos semelhantes consiste na cooperação simples, que permite consumir de modo mais econômico um dos meios de produção, aqui o forno de vidro, pelo uso comum. Um forno desse tipo, com seus quatro a seis grupos, constitui uma unidade de fabricação do vidro; e uma manufatura de vidro abrange várias dessas unidades, juntamente com as instalações e os trabalhadores das fases preparatórias e finais.
Por fim, a manufatura, que em parte surge da combinação de diferentes ofícios, pode desenvolver-se até constituir uma combinação de diferentes manufaturas. As vidrarias inglesas de maior porte, por exemplo, fabricam seus próprios cadinhos de barro, porque a qualidade deles determina, em grande medida, o êxito ou o fracasso do produto. Aqui, a manufatura de um meio de produção é associada à manufatura do produto. Inversamente, a manufatura do produto pode associar-se a manufaturas nas quais esse produto serve, por sua vez, de matéria-prima, ou a outras com cujos produtos ele será posteriormente combinado. Assim, encontra-se, por exemplo, a manufatura de vidro flint combinada com a lapidação de vidro e a fundição de latão, esta última destinada à armação metálica de diversos artigos de vidro. As diferentes manufaturas combinadas constituem então departamentos de uma manufatura de conjunto, mais ou menos separados no espaço e, simultaneamente, processos de produção independentes uns dos outros, cada qual com sua própria divisão do trabalho. Apesar de certas vantagens da manufatura combinada, ela não adquire, sobre sua própria base, uma verdadeira unidade técnica. Esta só surge com sua transformação em produção mecanizada.
O período manufatureiro, que logo proclama a redução do tempo de trabalho necessário à produção de mercadorias como princípio consciente,41 desenvolve também, esporadicamente, o emprego de máquinas, sobretudo em certos processos iniciais simples que precisam ser executados em massa e com grande dispêndio de força. Assim, por exemplo, na manufatura de papel, a trituração dos trapos logo passa a ser executada por moinhos de papel e, na metalurgia, o esmagamento dos minérios pelos chamados moinhos de pilões.42 O Império Romano legou a forma elementar de toda maquinaria no moinho de água.43 O período artesanal legou as grandes invenções da bússola, da pólvora, da imprensa e do relógio automático. De modo geral, porém, a maquinaria desempenha o papel secundário que Adam Smith lhe atribui ao lado da divisão do trabalho.44 O emprego esporádico da maquinaria no século XVII tornou-se muito importante porque ofereceu aos grandes matemáticos da época pontos de apoio práticos e estímulos para a criação da mecânica moderna.
A maquinaria específica do período manufatureiro continua sendo o próprio trabalhador coletivo, combinado a partir de muitos trabalhadores parciais. As diferentes operações que o produtor de uma mercadoria executa alternadamente e que se entrelaçam no conjunto de seu processo de trabalho exigem dele capacidades distintas. Numa operação, precisa desenvolver mais força; noutra, mais destreza; numa terceira, mais atenção intelectual etc., e o mesmo indivíduo não possui essas qualidades em igual grau. Após a separação, a autonomização e o isolamento das diferentes operações, os trabalhadores são divididos, classificados e agrupados conforme suas qualidades predominantes. Se suas particularidades naturais constituem o fundamento sobre o qual se enxerta a divisão do trabalho, a manufatura, uma vez implantada, desenvolve forças de trabalho que, por natureza, só servem a uma função particular unilateral. O trabalhador coletivo possui agora todas as qualidades produtivas em grau igualmente elevado de virtuosidade e as emprega, ao mesmo tempo, da maneira mais econômica, utilizando todos os seus órgãos, individualizados em trabalhadores ou grupos de trabalhadores particulares, exclusivamente em suas funções específicas.45 A unilateralidade e até a imperfeição do trabalhador parcial tornam-se sua perfeição como membro do trabalhador coletivo.46 O hábito de uma função unilateral transforma-o no órgão que a executa com a segurança de uma aptidão natural, enquanto a conexão do mecanismo de conjunto o obriga a funcionar com a regularidade de uma peça de máquina.47
Como as diferentes funções do trabalhador coletivo são mais simples ou mais complexas, inferiores ou superiores, seus órgãos, as forças de trabalho individuais, exigem graus muito diferentes de formação e possuem, por isso, valores muito diferentes. A manufatura desenvolve, portanto, uma hierarquia das forças de trabalho, à qual corresponde uma escala de salários. Se, por um lado, o trabalhador individual é destinado a uma função unilateral e a ela anexado durante toda a vida, por outro, as diversas atividades de trabalho são adaptadas, da mesma maneira, àquela hierarquia das habilidades naturais e adquiridas.48 Todo processo de produção pressupõe, contudo, certos manejos simples de que qualquer ser humano é capaz tal como se encontra. Esses manejos também são destacados de sua conexão fluida com os momentos mais ricos da atividade e se enrijecem como funções exclusivas.
Por isso, a manufatura cria, em todo ofício de que se apodera, uma classe dos chamados trabalhadores não qualificados,E12 que a produção artesanal excluía rigorosamente. Se, por um lado, ela desenvolve até a virtuosidade a especialidade inteiramente unilateral à custa da capacidade total de trabalho, começa, por outro, a transformar também a falta de qualquer desenvolvimento numa especialidade. Ao lado da gradação hierárquica surge a divisão simples dos trabalhadores entre qualificados e não qualificados. Para estes últimos, desaparecem por completo os custos de aprendizagem; para os primeiros, eles diminuem em comparação com os dos artesãos, em razão da simplificação das funções. Nos dois casos, cai o valor da força de trabalho.49 Há exceção quando a decomposição do processo de trabalho cria novas funções de coordenação que não existiam, ou não existiam na mesma extensão, na produção artesanal. A desvalorização relativa da força de trabalho, resultante da eliminação ou diminuição dos custos de aprendizagem, implica diretamente maior valorização do capital, pois tudo o que encurta o tempo necessário à reprodução da força de trabalho amplia o domínio do mais-trabalho.
4. Divisão do trabalho no interior da manufatura e divisão do trabalho no interior da sociedade
Examinamos primeiro a origem da manufatura, depois seus elementos simples, o trabalhador parcial e sua ferramenta, e, por fim, seu mecanismo de conjunto. Agora trataremos brevemente da relação entre a divisão manufatureira do trabalho e a divisão social do trabalho, que constitui o fundamento geral de toda produção de mercadorias.
Se considerarmos apenas o próprio trabalho, podemos designar a separação da produção social em seus grandes gêneros, como agricultura, indústria etc., de divisão do trabalho em geral; a diferenciação desses gêneros de produção em espécies e subespécies, de divisão do trabalho em particular; e a divisão do trabalho dentro de uma oficina, de divisão do trabalho em detalhe.50
A divisão do trabalho no interior da sociedade, com a correspondente limitação dos indivíduos a esferas profissionais particulares, desenvolve-se, assim como a divisão do trabalho dentro da manufatura, a partir de pontos de partida opostos. No interior de uma família50a e, num grau mais desenvolvido, de uma tribo, surge espontaneamente uma divisão do trabalho a partir das diferenças de sexo e idade, portanto sobre uma base puramente fisiológica. Essa divisão amplia seu material com a expansão da comunidade, o aumento da população e, sobretudo, o conflito entre diferentes tribos e a subjugação de uma tribo por outra. Por outro lado, como observei anteriormente,E13 a troca de produtos surge nos pontos em que diferentes famílias, tribos e comunidades entram em contato, pois, nos primórdios da civilização, não são pessoas privadas que se defrontam como unidades independentes, mas famílias, tribos etc. Comunidades diferentes encontram em seu ambiente natural meios de produção e meios de subsistência diferentes. Por isso, seus modos de produção, seus modos de vida e seus produtos são distintos. É essa diversidade espontânea que, no contato entre comunidades, provoca a troca recíproca de produtos e, portanto, a transformação gradual desses produtos em mercadorias. A troca não cria a diferença entre as esferas de produção; põe as esferas distintas em relação umas com as outras e, desse modo, transforma-as em ramos mais ou menos interdependentes de uma produção social de conjunto. Aqui, a divisão social do trabalho nasce da troca entre esferas de produção originalmente diferentes, mas independentes umas das outras. Ali, onde o ponto de partida é a divisão fisiológica do trabalho, os órgãos particulares de um todo imediatamente integrado se desprendem uns dos outros, se decompõem (processo de decomposição cujo impulso principal vem da troca de mercadorias com comunidades estrangeiras) e se autonomizam até o ponto em que a conexão entre os diferentes trabalhos é mediada pela troca de seus produtos como mercadorias. Num caso, os que antes eram independentes perdem sua autonomia; no outro, os que antes eram dependentes tornam-se independentes.
O fundamento de toda divisão do trabalho desenvolvida e mediada pela troca de mercadorias é a separação entre cidade e campo.51 Pode-se dizer que toda a história econômica da sociedade se resume no movimento dessa oposição, da qual, contudo, não trataremos aqui em maior detalhe.
Assim como uma quantidade determinada de trabalhadores empregados simultaneamente constitui a condição material da divisão do trabalho na manufatura, a grandeza e a densidade da população constituem a condição material da divisão do trabalho na sociedade, assumindo aqui o lugar da aglomeração dentro da mesma oficina.52 Essa densidade, no entanto, é relativa.E15 Um país relativamente pouco povoado, mas dotado de meios de comunicação desenvolvidos, possui uma população mais densa do que um país mais povoado cujos meios de comunicação são pouco desenvolvidos; nesse sentido, por exemplo, os estados do norte da União americana são mais densamente povoados do que a Índia.53
Como a produção e a circulação de mercadorias constituem o pressuposto geral do modo de produção capitalista, a divisão manufatureira do trabalho requer uma divisão do trabalho no interior da sociedade já amadurecida até certo grau de desenvolvimento. Em contrapartida, a divisão manufatureira do trabalho desenvolve e multiplica, por sua vez, essa divisão social. Com a diferenciação dos instrumentos de trabalho, diferenciam-se cada vez mais os ofícios que produzem esses instrumentos.54 Se a produção manufatureira se apodera de um ofício que até então estava ligado a outros como atividade principal ou acessória, exercida pelo mesmo produtor, ocorre imediatamente a separação e a autonomização recíproca. Se ela se apodera de uma fase particular da produção de uma mercadoria, as diferentes fases dessa produção tornam-se diferentes ofícios independentes. Já indicamos que, quando um artigo consiste apenas num conjunto de produtos parciais mecanicamente reunidos, os próprios trabalhos parciais podem novamente se autonomizar como ofícios próprios. Para desenvolver de maneira mais completa a divisão do trabalho no interior de uma manufatura, o mesmo ramo de produção se divide, de acordo com a diversidade de suas matérias-primas ou das diferentes formas que a mesma matéria-prima pode adquirir, em manufaturas distintas, algumas inteiramente novas. Assim, já na primeira metade do século XVIII, só na França eram tecidos mais de cem tipos diferentes de tecidos de seda, e em Avignon, por exemplo, era lei que “cada aprendiz sempre se dedicasse a apenas um gênero de fabricação e não pudesse aprender a produzir simultaneamente vários tipos de tecido”. A divisão territorial do trabalho, que fixa determinados ramos de produção em determinados distritos de um país, recebe novo impulso da produção manufatureira, que explora todas as particularidades.55 A expansão do mercado mundial e o sistema colonial, que pertencem às condições gerais de existência do período manufatureiro, fornecem-lhe rico material para a divisão do trabalho dentro da sociedade. Não é este o lugar de demonstrar mais detalhadamente como a divisão do trabalho, além da esfera econômica, se apodera de todas as outras esferas da sociedade, lançando em toda parte as bases daquela formação de ofícios especializados, das especialidades e de uma fragmentação do ser humano que já levou A. Ferguson, mestre de A. Smith, a exclamar: “Estamos fazendo uma nação de hilotas, e não há homens livres entre nós.”56
Apesar das numerosas analogias e das conexões entre a divisão do trabalho no interior da sociedade e a divisão do trabalho dentro de uma oficina, ambas diferem não apenas em grau, mas essencialmente. A analogia parece, sem dúvida, mais evidente onde um vínculo interno entrelaça diferentes ramos de atividade. O criador de gado, por exemplo, produz peles, o curtidor transforma as peles em couro e o sapateiro transforma o couro em botas. Cada um produz aqui um produto de uma etapa, e a forma acabada final é o produto combinado de seus trabalhos específicos. A eles se acrescentam os múltiplos ramos de trabalho que fornecem meios de produção ao criador de gado, ao curtidor e ao sapateiro. Pode-se então imaginar, com A. Smith, que essa divisão social do trabalho difere da divisão manufatureira apenas subjetivamente, isto é, para o observador, que, no caso da manufatura, vê de um só golpe os múltiplos trabalhos parciais reunidos no mesmo espaço, enquanto, no caso da sociedade, sua dispersão por grandes extensões e o grande número dos ocupados em cada ramo específico obscurecem a conexão.57 Mas o que estabelece a conexão entre os trabalhos independentes do criador de gado, do curtidor e do sapateiro? A existência de seus respectivos produtos como mercadorias. O que caracteriza, ao contrário, a divisão manufatureira do trabalho? O fato de o trabalhador parcial não produzir mercadoria alguma.58 Somente o produto comum dos trabalhadores parciais se transforma em mercadoria.58a A divisão do trabalho no interior da sociedade é mediada pela compra e venda dos produtos de diferentes ramos de trabalho; a conexão dos trabalhos parciais na manufatura, pela venda de diferentes forças de trabalho ao mesmo capitalista, que as emprega como força de trabalho combinada. A divisão manufatureira do trabalho pressupõe a concentração dos meios de produção nas mãos de um capitalista; a divisão social do trabalho, a dispersão dos meios de produção entre muitos produtores de mercadorias independentes uns dos outros. Enquanto, na manufatura, a lei férrea da proporção numérica ou proporcionalidade subordina determinadas massas de trabalhadores a determinadas funções, o acaso e o arbítrio exercem seu jogo variado na distribuição dos produtores de mercadorias e de seus meios de produção entre os diferentes ramos sociais de trabalho. É verdade que as diferentes esferas de produção procuram constantemente equilibrar-se: de um lado, cada produtor de mercadorias tem de produzir um valor de uso, portanto satisfazer uma necessidade social particular, mas a extensão dessas necessidades difere quantitativamente e um vínculo interno encadeia as diferentes massas de necessidades num sistema que se forma espontaneamente; de outro, a lei do valor das mercadorias determina quanto de seu tempo de trabalho total disponível a sociedade pode despender na produção de cada espécie particular de mercadoria. Mas essa tendência constante das diferentes esferas de produção a equilibrar-se só atua como reação à constante ruptura desse equilíbrio. A regra seguida de antemão e segundo um plano na divisão do trabalho dentro da oficina atua, na divisão do trabalho no interior da sociedade, apenas a posteriori, como necessidade natural interna e muda, perceptível nas oscilações barométricas dos preços de mercado, que se impõe ao arbítrio sem regra dos produtores de mercadorias. A divisão manufatureira do trabalho pressupõe a autoridade incondicional do capitalista sobre seres humanos que formam simples membros de um mecanismo de conjunto que lhe pertence; a divisão social do trabalho confronta produtores de mercadorias independentes uns com os outros, que não reconhecem outra autoridade além da concorrência, da coerção que a pressão de seus interesses recíprocos exerce sobre eles, assim como, no reino animal, a bellum omnium contra omnesE17 conserva, em maior ou menor medida, as condições de existência de todas as espécies. A mesma consciência burguesa que celebra a divisão manufatureira do trabalho, a anexação vitalícia do trabalhador a uma operação de detalhe e a subordinação incondicional dos trabalhadores parciais ao capital como uma organização do trabalho que eleva sua força produtiva denuncia, por isso, com igual veemência, todo controle e toda regulação sociais conscientes do processo social de produção como uma intervenção nos direitos invioláveis de propriedade, na liberdade e na “genialidade” autodeterminada do capitalista individual. É muito característico que os entusiásticos apologistas do sistema fabril não saibam dizer nada pior contra qualquer organização geral do trabalho social do que afirmar que ela transformaria toda a sociedade numa fábrica.
Se, na sociedade do modo de produção capitalista, a anarquia da divisão social do trabalho e o despotismo da divisão manufatureira do trabalho se condicionam reciprocamente, as formas anteriores de sociedade, nas quais a diferenciação dos ofícios se desenvolveu espontaneamente, depois se cristalizou e, por fim, se fixou em lei, apresentam, de um lado, o quadro de uma organização do trabalho social conforme um plano e uma autoridade, enquanto, de outro, excluem inteiramente a divisão do trabalho dentro da oficina ou só a desenvolvem numa escala ínfima, ou apenas de modo esporádico e casual.59
Aquelas pequenas comunidades indianas de origem antiquíssima, por exemplo, que em parte ainda subsistem, baseiam-se na posse comum da terra, na ligação direta entre agricultura e artesanato e numa divisão fixa do trabalho, que serve de plano e traçado previamente dados para a fundação de novas comunidades. Elas formam unidades de produção autossuficientes, cuja área produtiva varia de 100 a alguns milhares de acres. A maior parte dos produtos é produzida para o consumo direto da própria comunidade, e não como mercadoria; por isso, a própria produção é independente da divisão do trabalho mediada pela troca de mercadorias no conjunto da sociedade indiana. Somente o excedente dos produtos se transforma em mercadoria, e uma parte dele só o faz nas mãos do Estado, ao qual uma quantidade determinada aflui, desde tempos imemoriais, como renda em produtos. Diferentes regiões da Índia possuem diferentes formas de comunidade. Na forma mais simples, a comunidade cultiva a terra em comum e distribui seus produtos entre seus membros, enquanto cada família pratica a fiação, a tecelagem etc. como atividade doméstica acessória. Ao lado dessa massa ocupada de maneira uniforme, encontramos o “habitante principal”, que reúne numa só pessoa as funções de juiz, polícia e arrecadador de impostos; o contador, que mantém as contas da agricultura e cadastra e registra tudo o que se refere a ela; um terceiro funcionário, que persegue criminosos, protege viajantes estrangeiros e os conduz de uma aldeia a outra; o guarda dos limites, que vigia as fronteiras da comunidade com as comunidades vizinhas; o supervisor das águas, que distribui a água dos reservatórios comuns para fins agrícolas; o brâmane, que exerce as funções do culto religioso; o mestre-escola, que ensina as crianças da comunidade a escrever e ler na areia; o brâmane do calendário, que, como astrólogo, indica as épocas da semeadura e da colheita e as horas favoráveis e desfavoráveis para todos os trabalhos agrícolas particulares; um ferreiro e um carpinteiro, que fabricam e consertam todas as ferramentas agrícolas; o oleiro, que faz todos os recipientes da aldeia; o barbeiro; o lavadeiro, encarregado da limpeza das roupas; o ourives de prata; aqui e ali, o poeta, que em algumas comunidades substitui o ourives de prata e, em outras, o mestre-escola. Essa dúzia de pessoas é mantida às custas de toda a comunidade. Se a população aumenta, funda-se uma nova comunidade, segundo o modelo da antiga, em terra não cultivada. O mecanismo da comunidade apresenta uma divisão planejada do trabalho, mas sua divisão manufatureira é impossível, pois o mercado do ferreiro, do carpinteiro etc. permanece inalterado e, no máximo, conforme as diferenças de tamanho entre as aldeias, encontram-se dois ou três ferreiros, oleiros etc. em lugar de um.60 A lei que regula a divisão do trabalho comunitário atua aqui com a autoridade inviolável de uma lei natural, enquanto cada artesão particular, como o ferreiro etc., executa à maneira tradicional, mas de forma independente e sem reconhecer qualquer autoridade em sua oficina, todas as operações pertencentes ao seu ofício. O organismo produtivo simples dessas comunidades autossuficientes, que se reproduzem continuamente sob a mesma forma e, quando por acaso destruídas, se reconstituem no mesmo lugar e com o mesmo nome,61 fornece a chave do segredo da imutabilidade das sociedades asiáticas, que contrasta de maneira tão marcante com a dissolução e a reconstituição constantes dos Estados asiáticos e com a incessante mudança de dinastias. A estrutura dos elementos econômicos fundamentais da sociedade permanece intocada pelas tempestades da região nebulosa da política.
As leis das corporações de ofício, como já se observou anteriormente, impediam de modo planejado a transformação de um mestre de corporação em capitalista, ao restringirem ao extremo o número de oficiais que ele podia empregar. Do mesmo modo, ele só podia empregar oficiais no ofício específico do qual era mestre. A corporação rechaçava zelosamente toda ingerência do capital mercantil, a única forma livre de capital com a qual se defrontava. O comerciante podia comprar todas as mercadorias, exceto o trabalho como mercadoria. Só era tolerado como intermediário na comercialização dos produtos artesanais. Se circunstâncias externas provocavam uma divisão progressiva do trabalho, as corporações existentes se dividiam em subespécies ou novas corporações se estabeleciam ao lado das antigas, mas sem reunir diferentes ofícios numa mesma oficina. A organização corporativa, por mais que sua diferenciação, isolamento e desenvolvimento dos ofícios integrem as condições materiais de existência do período manufatureiro, excluía, portanto, a divisão manufatureira do trabalho. Em geral, o trabalhador e seus meios de produção permaneciam unidos como o caracol à sua concha, e assim faltava a primeira base da manufatura: a autonomização dos meios de produção como capital diante do trabalhador.
Enquanto a divisão do trabalho no conjunto de uma sociedade, mediada ou não pela troca de mercadorias, pertence às mais diversas formações econômicas da sociedade, a divisão manufatureira do trabalho é uma criação inteiramente específica do modo de produção capitalista.
5. O caráter capitalista da manufatura
Um número maior de trabalhadores sob o comando do mesmo capital constitui o ponto de partida espontâneo tanto da manufatura quanto da cooperação em geral. Inversamente, a divisão manufatureira do trabalho transforma o crescimento do número de trabalhadores empregados numa necessidade técnica. O número mínimo de trabalhadores que um capitalista individual tem de empregar passa a ser prescrito pela divisão do trabalho existente. Por outro lado, as vantagens de uma divisão mais ampla dependem de novo aumento do número de trabalhadores, que só pode ocorrer em múltiplos. Mas, junto com o componente variável do capital, também tem de crescer seu componente constante: além da extensão das condições comuns de produção, como edifícios, fornos etc., tem de crescer sobretudo a matéria-prima, e muito mais rapidamente do que o número de trabalhadores. Sua massa, consumida num tempo determinado por uma quantidade determinada de trabalho, aumenta na mesma proporção em que cresce a força produtiva do trabalho em decorrência de sua divisão. O crescimento do volume mínimo de capital nas mãos dos capitalistas individuais, ou a transformação crescente dos meios sociais de subsistência e de produção em capital, é, portanto, uma lei que decorre do caráter técnico da manufatura.62
Como na cooperação simples, também na manufatura o corpo de trabalho em funcionamento é uma forma de existência do capital. O mecanismo social de produção, composto de muitos trabalhadores parciais individuais, pertence ao capitalista. A força produtiva que nasce da combinação dos trabalhos aparece, por isso, como força produtiva do capital. A manufatura propriamente dita não apenas submete o trabalhador antes independente ao comando e à disciplina do capital, mas também cria uma estrutura hierárquica entre os próprios trabalhadores. Enquanto a cooperação simples deixa, em geral, inalterado o modo de trabalhar dos indivíduos, a manufatura o revoluciona desde os fundamentos e atinge a força de trabalho individual em sua raiz. Ela mutila o trabalhador, convertendo-o numa anomalia, ao cultivar, como numa estufa, sua habilidade de detalhe mediante a repressão de um mundo de impulsos e aptidões produtivos, assim como nos Estados do Prata se abate um animal inteiro para obter sua pele ou seu sebo. Os trabalhos parciais específicos não são apenas distribuídos entre diferentes indivíduos; o próprio indivíduo é dividido, transformado no mecanismo motor automático de um trabalho parcial,63 e realiza-se a insípida fábula de Menênio Agripa,E20 que representa um ser humano como simples fragmento de seu próprio corpo.64 Se, originalmente, o trabalhador vende sua força de trabalho ao capital porque lhe faltam os meios materiais para produzir uma mercadoria, agora sua própria força de trabalho individual deixa de funcionar assim que não é vendida ao capital. Ela só funciona numa conexão que passa a existir depois de sua venda, na oficina do capitalista. Incapacitado, em sua constituição natural, para produzir algo de forma independente, o trabalhador manufatureiro só desenvolve atividade produtiva como acessório da oficina do capitalista.65 Assim como o povo eleito trazia escrito na testa que era propriedade de Jeová, a divisão do trabalho imprime no trabalhador manufatureiro uma marca que o assinala a ferro como propriedade do capital.
Os conhecimentos, a compreensão e a vontade que o camponês ou o artesão independente desenvolve, ainda que em pequena escala, assim como o selvagem exerce toda a arte da guerra como astúcia pessoal, agora só são necessários para o conjunto da oficina. As potências intelectuais da produção ampliam sua escala de um lado porque desaparecem de muitos outros. O que os trabalhadores parciais perdem concentra-se diante deles no capital.66 É um produto da divisão manufatureira do trabalho contrapor-lhes as potências intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia e como poder que os domina. Esse processo de separação começa na cooperação simples, na qual o capitalista representa, diante dos trabalhadores individuais, a unidade e a vontade do corpo social de trabalho. Desenvolve-se na manufatura, que mutila o trabalhador, reduzindo-o a trabalhador parcial. Completa-se na grande indústria, que separa a ciência do trabalho como potência produtiva independente e a força a servir ao capital.67
Na manufatura, o enriquecimento do trabalhador coletivo e, portanto, do capital em força produtiva social é condicionado pelo empobrecimento do trabalhador em forças produtivas individuais.
“A ignorância é a mãe da indústria, assim como da superstição. A reflexão e a imaginação estão sujeitas ao erro; mas o hábito de mover o pé ou a mão não depende nem de uma nem de outra. As manufaturas, portanto, prosperam mais onde mais se dispensa o espírito, de modo que a oficina pode ser considerada uma máquina cujas partes são seres humanos.”68
De fato, em meados do século XVIII, algumas manufaturas empregavam de preferência semi-idiotas em certas operações simples que, no entanto, constituíam segredos de fabricação.69
“O espírito da grande maioria dos seres humanos”, diz A. Smith, “desenvolve-se necessariamente a partir de suas ocupações cotidianas e por meio delas. Um homem que consome toda a sua vida na execução de poucas operações simples ... não tem oportunidade de exercitar seu entendimento ... Torna-se, em geral, tão estúpido e ignorante quanto é possível a uma criatura humana.”
Depois de descrever o embrutecimento do trabalhador parcial, Smith prossegue:
“A uniformidade de sua vida estacionária corrompe naturalmente também a coragem de seu espírito ... Destrói até a energia de seu corpo e o incapacita para empregar sua força com vigor e perseverança, exceto na ocupação de detalhe para a qual foi preparado. Sua habilidade em seu ofício particular parece, assim, adquirida à custa de suas virtudes intelectuais, sociais e guerreiras. Mas, em toda sociedade industrial e civilizada, esse é o estado em que necessariamente tem de cair o pobre que trabalha (the labouring poor), isto é, a grande massa do povo.”70
Para impedir a atrofia completa da massa do povo decorrente da divisão do trabalho, A. Smith recomenda a instrução popular a cargo do Estado, ainda que em doses prudentemente homeopáticas. Coerentemente, seu tradutor e comentador francês, G. Garnier, que sob o Primeiro Império francês se revelou, como era de esperar, senador, polemiza contra essa proposta. A instrução popular violaria as leis fundamentais da divisão do trabalho e, com ela, “se proscreveria todo o nosso sistema social”.
“Como todas as outras divisões do trabalho”, dizia ele, “a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual71 torna-se mais pronunciada e mais nítida à medida que a sociedade” (ele emprega corretamente essa expressão para designar o capital, a propriedade fundiária e seu Estado) “se torna mais rica. Como qualquer outra, essa divisão do trabalho é um efeito dos progressos passados e uma causa dos futuros ... Pode o governo, então, contrariar essa divisão do trabalho e detê-la em seu curso natural? Pode empregar uma parte da receita do Estado na tentativa de confundir e misturar duas classes de trabalho que tendem à sua divisão e separação?”72
Certa mutilação intelectual e corporal é inseparável até mesmo da divisão do trabalho no conjunto da sociedade. Mas, como o período manufatureiro leva muito mais longe essa fragmentação social dos ramos de trabalho e, por outro lado, só com a divisão que lhe é própria atinge o indivíduo na raiz de sua vida, ele também é o primeiro a fornecer o material e o impulso para a patologia industrial.73
“Subdividir um ser humano é executá-lo, se merece a sentença de morte, e assassiná-lo, se não a merece. A subdivisão do trabalho é o assassinato de um povo.”74
A cooperação fundada na divisão do trabalho, ou manufatura, é, em seus primórdios, uma formação espontânea. Assim que adquire certa consistência e amplitude de existência, torna-se uma forma consciente, planejada e sistemática do modo de produção capitalista. A história da manufatura propriamente dita mostra como a divisão do trabalho que lhe é própria adquire primeiro, pela experiência, como que pelas costas das pessoas que agem, as formas adequadas; depois, porém, tal como o artesanato corporativo, procura conservar pela tradição a forma uma vez encontrada e, em casos particulares, conserva-a durante séculos. Quando essa forma se modifica, isso só ocorre, salvo em aspectos secundários, em consequência de uma revolução dos instrumentos de trabalho. A manufatura moderna (não me refiro aqui à grande indústria fundada na maquinaria) ou encontra já prontos, nas grandes cidades onde surge, os disjecta membra poetae,E24 como acontece, por exemplo, com a manufatura de roupas, tendo apenas de reuni-los de sua dispersão, ou tem diante de si, de maneira evidente, o princípio da divisão, quando as diferentes operações da produção artesanal, como na encadernação, são simplesmente atribuídas com exclusividade a trabalhadores específicos. Nesses casos, não é necessária sequer uma semana de experiência para encontrar a proporção numérica entre as mãos necessárias a cada função.75
A divisão manufatureira do trabalho cria, mediante a análise da atividade artesanal, a especificação dos instrumentos de trabalho, a formação dos trabalhadores parciais, seu agrupamento e sua combinação num mecanismo de conjunto, a articulação qualitativa e a proporcionalidade quantitativa dos processos sociais de produção, portanto uma determinada organização do trabalho social, e desenvolve, ao mesmo tempo, uma nova força produtiva social do trabalho. Como forma especificamente capitalista do processo social de produção (e, sobre as bases encontradas, ela não podia desenvolver-se senão sob a forma capitalista), é apenas um método particular de produzir mais-valor relativo ou de aumentar a autovalorização do capital, aquilo que se chama riqueza social, “Wealth of Nations” etc., à custa dos trabalhadores. Ela desenvolve a força produtiva social do trabalho não apenas para o capitalista, em vez de para o trabalhador, mas mediante a mutilação do trabalhador individual. Produz novas condições da dominação do capital sobre o trabalho. Se, portanto, aparece de um lado como progresso histórico e momento necessário de desenvolvimento no processo de formação econômica da sociedade, de outro aparece como um meio de exploração civilizada e refinada.
A economia política, que só surge como ciência própria no período manufatureiro, considera a divisão social do trabalho em geral apenas do ponto de vista da divisão manufatureira do trabalho,76 como meio de produzir mais mercadorias com a mesma quantidade de trabalho, portanto de baratear as mercadorias e acelerar a acumulação do capital. Em oposição rigorosa a essa ênfase na quantidade e no valor de troca, os escritores da Antiguidade clássica se atêm exclusivamente à qualidade e ao valor de uso.77 Em consequência da separação dos ramos sociais de produção, as mercadorias são mais bem feitas, os diferentes impulsos e talentos humanos escolhem esferas de ação correspondentes,78 e, sem limitação, em parte alguma se pode realizar algo importante.79 Assim, tanto o produto quanto o produtor são aperfeiçoados pela divisão do trabalho. Se ocasionalmente também se menciona o aumento da massa de produtos, isso se faz apenas em relação à maior abundância de valor de uso. Não se diz uma só palavra sobre o valor de troca, sobre o barateamento das mercadorias. Esse ponto de vista do valor de uso predomina tanto em Platão,80 que trata a divisão do trabalho como fundamento da separação social dos estamentos, quanto em Xenofonte,81 que, com seu instinto caracteristicamente burguês, já se aproxima da divisão do trabalho dentro de uma oficina. A República de Platão,E32 na medida em que nela a divisão do trabalho é desenvolvida como princípio formador do Estado, é apenas uma idealização ateniense do sistema egípcio de castas, assim como o Egito também era considerado um país industrial exemplar por outros contemporâneos seus, como Isócrates,82 e conservou essa importância até mesmo para os gregos da época imperial romana.83
Durante o período manufatureiro propriamente dito, isto é, o período em que a manufatura é a forma dominante do modo de produção capitalista, a realização plena de suas próprias tendências encontra obstáculos de muitas espécies. Embora, como vimos, ela crie, ao lado da estrutura hierárquica dos trabalhadores, uma simples separação entre trabalhadores qualificados e não qualificados, o número destes últimos permanece muito limitado pela influência preponderante dos primeiros. Embora adapte as operações específicas aos diferentes graus de maturidade, força e desenvolvimento de seus órgãos vivos de trabalho e, por isso, pressione no sentido da exploração produtiva de mulheres e crianças, essa tendência fracassa, em geral, diante dos hábitos e da resistência dos trabalhadores homens. Embora a decomposição da atividade artesanal reduza os custos de formação e, portanto, o valor dos trabalhadores,E33 continua a ser necessário um período mais longo de aprendizagem para os trabalhos de detalhe mais difíceis; e, mesmo onde esse período é supérfluo, os trabalhadores o conservam zelosamente. Encontramos, por exemplo, na Inglaterra, as laws of apprenticeship,E34 com seus sete anos de aprendizagem, em pleno vigor até o fim do período manufatureiro, sendo derrubadas apenas pela grande indústria. Como a habilidade artesanal permanece a base da manufatura e o mecanismo de conjunto que nela funciona não possui um esqueleto objetivo independente dos próprios trabalhadores, o capital luta constantemente contra a insubordinação dos trabalhadores.
“A fraqueza da natureza humana”, exclama o amigo Ure, “é tão grande que o trabalhador, quanto mais hábil, tanto mais obstinado e difícil de tratar se torna, causando, por conseguinte, graves danos ao mecanismo de conjunto com seus caprichos extravagantes.”84
Por isso, a queixa sobre a falta de disciplina dos trabalhadores atravessa todo o período manufatureiro.85 E, mesmo que não tivéssemos os testemunhos dos escritores da época, os simples fatos de que, do século XVI até a época da grande indústria, o capital não consegue apoderar-se de todo o tempo de trabalho disponível dos trabalhadores manufatureiros, de que as manufaturas têm vida curta e, com a imigração ou a emigração dos trabalhadores, abandonam sua sede num país e a instalam em outro, falariam por bibliotecas inteiras. “A ordem tem de ser estabelecida de uma maneira ou de outra”, exclama, em 1770, o autor já citado várias vezes do Essay on Trade and Commerce. Ordem, ecoa 66 anos depois da boca do dr. Andrew Ure: faltava “ordem” à manufatura fundada no “dogma escolástico da divisão do trabalho”, e “Arkwright criou a ordem”.
Ao mesmo tempo, a manufatura não podia apoderar-se da produção social em toda a sua extensão nem revolucioná-la em profundidade. Como obra de arte econômica, ela se erguia sobre a ampla base do artesanato urbano e da indústria doméstica rural. Sua própria base técnica estreita entrou, em certo grau de desenvolvimento, em contradição com as necessidades de produção que ela mesma havia criado.
Uma de suas criações mais acabadas foi a oficina destinada à produção dos próprios instrumentos de trabalho e, em particular, também dos aparelhos mecânicos mais complexos que já eram utilizados.
“Uma oficina desse tipo”, diz Ure, “oferecia ao olhar a divisão do trabalho em suas múltiplas gradações. A broca, o cinzel e o torno tinham, cada um, seus próprios trabalhadores, organizados hierarquicamente segundo o grau de sua habilidade.”E35
Esse produto da divisão manufatureira do trabalho produziu, por sua vez, máquinas. Elas suprimem a atividade artesanal como princípio regulador da produção social. Assim, por um lado, elimina-se a base técnica da anexação vitalícia do trabalhador a uma função parcial. Por outro, caem as barreiras que esse mesmo princípio ainda impunha à dominação do capital.
Notas
Nota editorial E1Gürtler designa o artesão de guarnições e outras peças, em especial metálicas. No contexto da carruagem, adotou-se “fabricante de guarnições metálicas”, em lugar de “fabricante de correias”. A profissão permanece distinta da do seleiro (Sattler) e da do serralheiro (Schlosser) na enumeração. Apoio lexical: Duden, Gürtler.
Voltar à chamada
Nota 26Para citar um exemplo mais moderno dessa maneira de formação da manufatura, reproduzimos a seguinte passagem. A fiação e a tecelagem da seda de Lyon e Nîmes “são inteiramente patriarcais; empregam muitas mulheres e crianças, porém sem fatigá-las excessivamente nem arruiná-las; deixam-nas em seus belos vales do Drôme, do Var, do Isère e de Vaucluse, onde criam bichos-da-seda e desenrolam seus casulos; jamais chegam a constituir uma verdadeira atividade fabril. Para ser aplicado, apesar disso, em escala tão ampla... o princípio da divisão do trabalho assume aqui uma feição particular. Há, com efeito, mulheres que desenrolam os casulos, retorcedores de seda, tintureiros, engomadores dos fios da urdidura e, ainda, tecelões; mas não estão reunidos numa mesma oficina nem dependem de um mesmo patrão; todos são independentes.” (A. Blanqui, Cours d'Écon. Industrielle, recolhido por A. Blaise, Paris, 1838–1839, p. 79.) Desde que Blanqui escreveu essas palavras, os diversos trabalhadores independentes foram em parte reunidos em fábricas. {Nota à quarta edição: E, desde que Marx escreveu o trecho acima, o tear mecânico se estabeleceu nessas fábricas e vem substituindo rapidamente o tear manual. A indústria da seda de Krefeld também tem muito a contar a esse respeito. F. E.}
Voltar à chamada
Nota editorial E2O exemplo contrapõe um artesão que realiza sucessivamente talvez vinte operações a vinte trabalhadores que as realizam lado a lado, cada qual dedicado a uma delas. São vinte funções distribuídas entre vinte pessoas nesse estágio ilustrativo, não vinte operações diferentes para cada trabalhador. O texto admite subdivisões posteriores e não fornece tempos por operação nem uma taxa numérica de aumento da produção.
Voltar à chamada
Nota 27“Quanto mais um trabalho muito variado é dividido e atribuído a diferentes trabalhadores parciais, tanto melhor e mais rapidamente deve necessariamente ser executado, com menor perda de tempo e trabalho.” (The Advantages of the East India Trade, Londres, 1720, p. 71.)
Voltar à chamada
Nota 28“O trabalho executado com facilidade é habilidade transmitida.” (Th. Hodgskin, Popular Political Economy, p. 48.)
Voltar à chamada
Nota 29“Também as artes ... alcançaram no Egito o devido grau de perfeição. Pois somente nesse país não se permite aos artesãos interferir de modo algum nos assuntos de outra classe de cidadãos, mas apenas exercer a profissão que, segundo a lei, pertence hereditariamente à sua linhagem .... Em outros povos, verifica-se que os profissionais distribuem sua atenção entre demasiados objetos .... Ora se dedicam à agricultura, ora entram em negócios comerciais, ora se ocupam de duas ou três artes ao mesmo tempo. Nos Estados livres, em geral frequentam as assembleias populares .... No Egito, ao contrário, cada artesão sofre punições severas se interfere nos negócios do Estado ou exerce várias artes simultaneamente. Assim, nada pode perturbar a diligência em sua profissão .... Além disso, como receberam muitas regras de seus antepassados, procuram com zelo descobrir novas vantagens.” (Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, livro I, cap. 74.)
Voltar à chamada
Nota 30Historical and Descriptive Account of British India etc., por Hugh Murray, James Wilson e outros, Edimburgo, 1832, vol. II, pp. 449–450. O tear indiano tem a urdidura montada verticalmente, isto é, os fios da urdidura são estendidos na vertical.
Voltar à chamada
Nota editorial E3Os “poros” designam os intervalos decorrentes da mudança de lugar, instrumento ou operação. O texto distingue sua contração de seu desaparecimento. Na sequência, apresenta duas possibilidades para o aumento da produtividade: maior dispêndio de força de trabalho no mesmo período, isto é, maior intensidade, ou menor consumo improdutivo dessa força. Não se acrescenta uma redução da duração da jornada. A observação posterior sobre o desgaste causado pela uniformidade do trabalho também foi preservada.
Voltar à chamada
Nota editorial E4A enumeração alemã é Schneide-, Bohr-, Stoß-, Schlaginstrumente. “Puncionar” foi adotado para distinguir a ação de Stoßinstrumente, por impulso de penetração, da furação mencionada imediatamente antes. Trata-se de uma escolha de tradução da ação instrumental, sem identificar uma máquina específica. Ver Duden, stoßen, acepção de introduzir algo por um movimento curto e vigoroso.
Voltar à chamada
Nota 31Darwin observa em sua obra que marcou época, Sobre a origem das espécies, com referência aos órgãos naturais de plantas e animais: “Enquanto um mesmo órgão tiver de executar trabalhos diferentes, talvez se encontre uma razão de sua variabilidade no fato de que a seleção natural preserva ou suprime cada pequeno desvio de forma com menos rigor do que se o mesmo órgão fosse destinado exclusivamente a uma finalidade particular. Assim, facas destinadas a cortar todo tipo de coisa podem, em geral, ter aproximadamente a mesma forma, enquanto uma ferramenta destinada a um único uso precisa ter uma forma diferente para cada outro uso.”
Voltar à chamada
Nota editorial E5“Polidor da caixa”. O impresso MEW 23, p. 363, traz a glosa alemã Polier des Gehäuses, assinalada com 1*, para polisseur de boîte. A glosa pertence à edição-fonte e não à série das notas numeradas de Marx.
Voltar à chamada
Nota editorial E6A enumeração conserva os ofícios e as explicações do texto alemão. Rohwerkmacher designa fabricantes de movimentos em bruto, ainda por acabar; Steinlochmacher foi vertido como perfuradores de pedras, corrigindo “furos para pedras”. Stellung, junto ao tambor da mola, foi interpretado tecnicamente como limitador de corda, e não como posicionamento; Gesperr permanece mecanismo de travamento. Não se acrescenta um modelo específico de mecanismo ao texto. A terminologia francesa foi preservada. Trata-se de uma revisão preliminar, sujeita à uniformização terminológica final.
Voltar à chamada
Nota 32Em 1854, Genebra produziu 80.000 relógios, menos de um quinto da produção relojoeira do cantão de Neuchâtel. La Chaux-de-Fonds, que se pode considerar uma única manufatura de relógios, fornece sozinha anualmente o dobro de Genebra. De 1850 a 1861, Genebra forneceu 720.000 relógios. Ver “Report from Geneva on the Watch Trade”, em Reports by H. M.'s Secretaries of Embassy and Legation on the Manufactures, Commerce etc., n. 6, 1863. Se a falta de conexão dos processos nos quais se decompõe a produção de artigos apenas montados já dificulta muito sua transformação em produção mecanizada da grande indústria, no caso do relógio acrescentam-se dois outros obstáculos: a pequenez e delicadeza de seus elementos e seu caráter de luxo, do qual deriva a variedade de modelos. Assim, mesmo nas melhores casas de Londres, durante um ano inteiro, mal se fabricam uma dúzia de relógios semelhantes entre si. A fábrica de relógios Vacheron & Constantin, que emprega máquinas com êxito, também fornece, no máximo, três ou quatro variedades diferentes de tamanho e forma.
Voltar à chamada
Nota 33Na relojoaria, exemplo clássico de manufatura heterogênea, pode-se estudar com grande precisão a diferenciação e a especialização dos instrumentos de trabalho mencionadas anteriormente, que decorrem da decomposição da atividade artesanal.
Voltar à chamada
Nota 34“Quando os homens trabalham tão próximos uns dos outros, o transporte necessariamente deve ser menor.” (The Advantages of the East India Trade, p. 106.)
Voltar à chamada
Nota 35“O isolamento das diferentes etapas de produção na manufatura, decorrente do emprego do trabalho manual, aumenta enormemente os custos de produção, e a perda provém, principalmente, do simples transporte de um processo de trabalho para outro.” (The Industry of Nations, Londres, 1855, parte II, p. 200.)
Voltar à chamada
Nota 36“Ela” (a divisão do trabalho) “também produz uma economia de tempo ao decompor o trabalho em seus diferentes ramos, que podem ser todos executados no mesmo instante... Pela execução simultânea de todos os diferentes processos de trabalho que um único indivíduo teria de executar separadamente, torna-se possível, por exemplo, terminar certa quantidade de agulhas no mesmo tempo em que, de outro modo, uma só agulha teria sido apenas cortada ou afiada.” (Dugald Stewart, op. cit., p. 319.)
Voltar à chamada
Nota 37“Quanto maior a variedade dos trabalhadores especializados em cada manufatura, ... tanto mais ordenado e regular é cada trabalho; ele necessariamente deve ser realizado em menos tempo, e o trabalho deve diminuir.” (The Advantages etc., p. 68.)
Voltar à chamada
Nota 38Contudo, em muitos ramos, a produção manufatureira só alcança esse resultado de modo imperfeito, porque não sabe controlar com segurança as condições gerais químicas e físicas do processo de produção.
Voltar à chamada
Nota editorial E7As quantidades por hora referem-se a cada trabalhador da respectiva função. Assim, 4 × 2.000 = 2 × 4.000 = 1 × 8.000 = 8.000 tipos por hora em cada etapa. São etapas sucessivas do mesmo fluxo; seus resultados não se somam. Ampliar proporcionalmente o conjunto requer o mesmo fator para os três grupos. Este esclarecimento aritmético é da revisão.
Voltar à chamada
Nota 39“Quando a experiência ensinou, conforme a natureza particular dos produtos de cada manufatura, tanto a maneira mais vantajosa de dividir a fabricação em operações parciais quanto o número de trabalhadores necessário a elas, todos os estabelecimentos que não empregarem um múltiplo exato desse número produzirão a custos mais elevados... Essa é uma das causas da expansão colossal dos estabelecimentos industriais.” (Ch. Babbage, On the Economy of Machinery, Londres, 1832, cap. XXI, pp. 172–173.)
Voltar à chamada
Nota 40Na Inglaterra, o forno de fusão é separado do forno de vidro no qual este é trabalhado; na Bélgica, por exemplo, o mesmo forno serve a ambos os processos.
Voltar à chamada
Nota editorial E8O alemão usa Trockenöfen, literalmente fornos de secagem. Conserva-se a interpretação técnica “fornos de recozimento” do manuscrito: na fabricação de vidro, o resfriamento controlado das peças é uma etapa anterior à classificação e à embalagem. O termo inglês annealing é descrito nesse sentido pelo Corning Museum of Glass. No final da unidade, Flintglas foi vertido como “vidro flint”, preservando a denominação histórica específica, anteriormente generalizada como “vidro de cristal”. Não se introduz uma composição química determinada no corpo.
Voltar à chamada
Nota editorial E9A glosa alemã traduz as cinco funções, na mesma ordem, como fabricante de garrafas ou acabador, soprador, iniciador, empilhador ou quebrador e transportador. Ela está assinalada com 1* na página impressa 367; na transcrição eletrônica, recebe o número editorial 2. As designações inglesas permanecem no corpo. O impresso traz whetter off, enquanto a transcrição eletrônica e o manuscrito omitiam off. Esta nota pertence à edição-fonte, não à série numerada de Marx.
Voltar à chamada
Nota 41Pode-se constatar isso, entre outros, em W. Petty, John Bellers, Andrew Yarranton, The Advantages of the East-India Trade e J. Vanderlint.
Voltar à chamada
Nota 42Ainda no final do século XVI, a França empregava almofarizes e peneiras para esmagar e lavar os minérios.
Voltar à chamada
Nota 43Toda a história do desenvolvimento da maquinaria pode ser acompanhada na história dos moinhos de cereais. Em inglês, a fábrica ainda se chama millE10. Nos escritos tecnológicos alemães das primeiras décadas do século XIX, ainda se encontra a expressão “moinho” não apenas para toda maquinaria movida por forças naturais, mas até para todas as manufaturas que empregam aparelhos semelhantes a máquinas.E11
Voltar à chamada
Nota editorial E10“Moinho”, tradução da glosa alemã Mühle para mill. A chamada é 1* na página impressa 368 e 3 na numeração editorial da transcrição eletrônica. A glosa pertence à edição-fonte, não à sequência das notas numeradas de Marx.
Voltar à chamada
Nota editorial E11A última frase da nota 43 foi restituída a partir da continuação no rodapé da p. 369 do impresso MEW 23. Ela faltava tanto no manuscrito quanto na transcrição eletrônica consultada, que encerravam a nota após mill. O trecho reposto é texto de Marx; esta indicação de restituição é da revisão.
Voltar à chamada
Nota 44Como se verá mais de perto no Livro IV desta obra, A. Smith não formulou uma única proposição nova sobre a divisão do trabalho. O que, porém, o caracteriza como o economista político que sintetiza o período manufatureiro é a ênfase que confere à divisão do trabalho. O papel subordinado que atribui à maquinaria provocou, no início da grande indústria, a polêmica de Lauderdale e, numa época mais desenvolvida, a de Ure. A. Smith também confunde a diferenciação dos instrumentos, na qual os próprios trabalhadores parciais da manufatura desempenhavam papel muito ativo, com a invenção de máquinas. Não são os trabalhadores da manufatura, mas estudiosos, artesãos e até camponeses (Brindley), entre outros, que desempenham um papel nessa invenção.
Voltar à chamada
Nota 45“Ao dividir o artigo a fabricar em várias operações diferentes, cada uma das quais exige graus distintos de destreza e força, o proprietário da manufatura pode obter exatamente a quantidade de força e destreza adequada a cada operação. Se, ao contrário, todo o trabalho tivesse de ser executado por um único trabalhador, o mesmo indivíduo precisaria ter destreza suficiente para as operações mais delicadas e força suficiente para as mais penosas.” (Ch. Babbage, op. cit., cap. XIX.)
Voltar à chamada
Nota 46Por exemplo, desenvolvimento muscular unilateral, deformações ósseas etc.
Voltar à chamada
Nota 47O sr. Wm. Marshall, gerente-geral de uma manufatura de vidro, responde com muita propriedade à pergunta do comissário de investigação sobre como se mantém a diligência dos meninos empregados: “Eles simplesmente não podem negligenciar o trabalho; depois que começam a trabalhar, têm de continuar; são exatamente como partes de uma máquina.” (Child. Empl. Comm., Fourth Report, 1865, p. 247.)
Voltar à chamada
Nota 48O dr. Ure, em sua apoteose da grande indústria, percebe os caracteres particulares da manufatura com mais precisão do que economistas anteriores que não partilhavam de seu interesse polêmico e até do que seus contemporâneos, por exemplo Babbage, que lhe é superior como matemático e mecânico, mas que, apesar disso, compreende a grande indústria propriamente apenas do ponto de vista da manufatura. Ure observa: “A destinação dos trabalhadores a cada operação particular constitui a essência da distribuição dos trabalhos.” Por outro lado, designa essa distribuição como “adaptação dos trabalhos às diferentes capacidades individuais” e caracteriza, finalmente, todo o sistema manufatureiro como “um sistema de gradações segundo o grau de habilidade”, como “uma divisão do trabalho de acordo com os diferentes graus de destreza” etc. (Ure, Philos. of Manuf., pp. 19–23, passim.)
Voltar à chamada
Nota editorial E12Ungeschickte Arbeiter e geschickte Arbeiter foram uniformizados como trabalhadores não qualificados e qualificados. A distinção se refere à aprendizagem e à especialização no argumento histórico, e não à ausência de toda capacidade dos trabalhadores. A hierarquia de valores mencionada no parágrafo anterior é a das forças de trabalho, vinculada a diferentes graus de formação. No corpo e na nota 48, “destinação” conserva o sentido de atribuir o trabalhador a uma operação particular; a adaptação das operações às capacidades dos trabalhadores aparece como movimento correspondente.
Voltar à chamada
Nota 49“Todo artesão que ... foi colocado em condições de aperfeiçoar-se, pela prática, numa atividade individual ... tornou-se um trabalhador mais barato.” (Ure, op. cit., p. 19.)
Voltar à chamada
Nota 50“A divisão do trabalho avança da separação das mais diversas profissões até aquela divisão na qual vários trabalhadores repartem entre si a fabricação de um mesmo produto, como na manufatura.” (Storch, Cours d'Écon. Pol., edição de Paris, tomo I, p. 173.) “Encontramos entre os povos que alcançaram certo grau de civilização três espécies de divisão do trabalho: a primeira, que chamamos geral, ocasiona a separação dos produtores em agricultores, produtores industriais e comerciantes, correspondendo aos três ramos principais do trabalho nacional; a segunda, que poderíamos chamar particular, é a divisão de cada ramo do trabalho em espécies ...; finalmente, a terceira divisão do trabalho, que deveríamos designar divisão da atividade de trabalho ou divisão do trabalho em sentido próprio, é aquela que se desenvolve dentro dos diferentes ofícios e profissões ... e se estabelece na maioria das manufaturas e oficinas.” (Skarbek, op. cit., pp. 84–85.)
Voltar à chamada
Nota 50a{Nota à terceira edição. Estudos posteriores, muito aprofundados, sobre os estados primitivos da humanidade levaram o autor à conclusão de que originalmente não foi a família que se desenvolveu até formar a tribo, mas, inversamente, foi a tribo a forma espontânea original de associação humana fundada no parentesco de sangue; assim, as numerosas e diferentes formas da família só se desenvolveram posteriormente, a partir do início da dissolução dos vínculos tribais. F. E.}
Voltar à chamada
Nota editorial E13Ver p. 102 deste volume. Remissão editorial da MEW 23, chamada 1* na p. 372 impressa e número 4 na transcrição eletrônica. O destino foi conferido: passagem do capítulo 2 sobre o começo da troca de mercadorias nos pontos de contato entre comunidades. A numeração se refere à MEW 23, não à paginação desta tradução.
Voltar à chamada
Nota 51Sir James Steuart tratou melhor do que ninguém esse ponto. O quanto sua obra, publicada dez anos antes de A riqueza das nações, é pouco conhecida hoje se vê, entre outras coisas, no fato de que os admiradores de Malthus nem sequer sabem que este, na primeira edição de seu escrito sobre a População, descontada a parte meramente declamatória, quase só copia Steuart, além dos padrecos Wallace e Townsend.E14
Voltar à chamada
Nota editorial E14“Padrecos” conserva o tom depreciativo de Pfaffen, que a solução anterior “pastores” neutralizava. A escolha reproduz o registro polêmico do autor, não uma classificação confessional dos nomes mencionados. Na nota 50, Gewerbetreibende foi traduzido por “produtores industriais” no sentido amplo da produção não agrícola, incluindo os ofícios artesanais.
Voltar à chamada
Nota 52“Existe certa densidade populacional que é conveniente tanto ao intercâmbio social como àquela ação conjunta das forças que eleva o rendimento do trabalho.” (James Mill, op. cit., p. 50.) “Quando aumenta o número de trabalhadores, a força produtiva da sociedade cresce na mesma proporção desse aumento, multiplicada pelo efeito da divisão do trabalho.” (Th. Hodgskin, op. cit., p. 120.)
Voltar à chamada
Nota editorial E15A densidade é aqui relativa à comunicação e à conexão econômica entre os produtores; a comparação com a Índia não fornece uma medida de habitantes por unidade de área. A nota 52 apresenta uma relação geral entre crescimento do número de trabalhadores e efeito da divisão do trabalho, sem atribuir um coeficiente numérico a esse efeito.
Voltar à chamada
Nota 53Devido à grande procura de algodão desde 1861, em alguns distritos normalmente populosos da Índia Oriental ampliou-se a produção algodoeira à custa da produção de arroz. Surgiu assim uma fome localizada porque, na ausência de meios de comunicação e, portanto, de ligação material, a falta de arroz num distrito não podia ser compensada pelo abastecimento de outros distritos.
Voltar à chamada
Nota 54Assim, a fabricação de lançadeiras de tecelão já constituía, no decorrer do século XVII, um ramo industrial particular na Holanda.
Voltar à chamada
Nota 55“Não está a manufatura de lã da Inglaterra dividida em diferentes partes ou ramos que se fixaram em lugares particulares, nos quais se produzem exclusivamente, ou principalmente: tecidos finos em Somersetshire, grosseiros em Yorkshire, tecidos de largura dupla em Exeter, seda em Sudbury, crepes em Norwich, tecidos mistos de lã em Kendal, cobertores em Whitney etc.!” (Berkeley, The Querist, 1750, § 520.)
Voltar à chamada
Nota 56A. Ferguson, History of Civil Society, Edimburgo, 1767, parte IV, seção II, p. 285.
Voltar à chamada
Nota 57Nas manufaturas propriamente ditas, diz ele, a divisão do trabalho parece maior porque “os ocupados em cada ramo particular de trabalho podem muitas vezes estar reunidos num mesmo local de trabalho e ser abarcados de um só olhar pelo observador. Naquelas grandes manufaturas (!), ao contrário, destinadas a satisfazer as principais necessidades da grande massa da população, empregam-se tantos trabalhadores em cada ramo particular de trabalho que é impossível reuni-los num mesmo local de trabalho ... a divisão está longe de ser tão evidente”. (A. Smith, Wealth of Nations, livro I, cap. I.) A célebre passagem do mesmo capítulo que começa com as palavras “Considerem-se os bens do mais comum dos artesãos ou diaristas num país civilizado e próspero etc.” e prossegue descrevendo como inúmeros e variados ofícios cooperam para satisfazer as necessidades de um trabalhador comum foi copiada quase literalmente das Remarks de B. de Mandeville à sua Fable of the Bees, or, Private Vices, Publick Benefits. (Primeira edição sem as Remarks, 1705; com as Remarks, 1714.)
Voltar à chamada
Nota 58“Já não existe, porém, nada que se possa designar como o salário natural do trabalho de um indivíduo. Cada trabalhador produz apenas uma parte de um todo e, como cada parte por si só não tem valor nem utilidade, não há nada que o trabalhador possa tomar e do qual possa dizer: Este é meu produto, quero conservá-lo para mim.” (Labour defended against the claims of Capital, Londres, 1825, p. 25.) O autor desse excelente escrito é Th. Hodgskin, citado anteriormente.
Voltar à chamada
Nota 58aNota à segunda edição. Essa diferença entre a divisão social e a divisão manufatureira do trabalho foi ilustrada na prática aos ianques. Um dos impostos recém-maquinados em Washington durante a Guerra Civil foi a taxa de 6% sobre “todos os produtos industriais”. Pergunta: o que é um produto industrial? Resposta do legislador: uma coisa está produzida “quando está feita” (when it is made), e está feita quando está pronta para a venda. Eis um exemplo entre muitos. As manufaturas de Nova York e Filadélfia antes haviam “feito” guarda-chuvas com todos os seus acessórios. Mas, como um guarda-chuva é um mixtum compositum de componentes inteiramente heterogêneos, estes se tornaram, pouco a pouco, produtos de ramos de atividade exercidos independentemente uns dos outros e em lugares diferentes. Seus produtos parciais passaram então a entrar como mercadorias independentes na manufatura de guarda-chuvas, que apenas os reúne num todo. Os ianques batizaram esses artigos de “assembled articles” (artigos reunidos), nome que mereciam particularmente como pontos de reunião de impostos. Assim, o guarda-chuva “reunia”, primeiro, uma taxa de 6% sobre o preço de cada um de seus elementos e, novamente, 6% sobre seu próprio preço total.E16
Voltar à chamada
Nota editorial E16Mixtum compositum significa aqui um composto de elementos diversos. “Artigos reunidos” conserva o jogo verbal entre a montagem dos componentes e a reunião de impostos. As duas incidências de 6% recaem em bases diferentes, o preço de cada elemento e o preço total do guarda-chuva; o texto não fornece um cálculo de alíquota efetiva global.
Voltar à chamada
Nota editorial E17Bellum omnium contra omnes: “A guerra de todos contra todos”. Thomas Hobbes, Leviathan. Nota editorial 104 da MEW 23, p. 855, referente à chamada da p. 377; numeração distinta das notas autorais.
Voltar à chamada
Nota 59“Pode-se estabelecer como regra geral: quanto menos a autoridade preside à divisão do trabalho no interior da sociedade, tanto mais se desenvolve a divisão do trabalho dentro da oficina e tanto mais ela se submete à autoridade de um indivíduo. Assim, no que se refere à divisão do trabalho, a autoridade na oficina e a autoridade na sociedade estão em relação inversa entre si.” (Karl Marx, op. cit., pp. 130, 131.E18)
Voltar à chamada
Nota editorial E18Ver o volume 4 desta edição, p. 151. Remissão editorial da MEW 23, chamada 1* na p. 378; refere-se à edição alemã MEW, não à paginação desta tradução.
Voltar à chamada
Nota 60Tenente-coronel Mark Wilks, Historical Sketches of the South of India, Londres, 1810 a 1817, vol. I, pp. 118–120. Uma boa compilação das diferentes formas da comunidade indiana encontra-se em Modern India, de George Campbell, Londres, 1852.
Voltar à chamada
Nota 61“Sob essa forma simples ... os habitantes do país vivem desde tempos imemoriais. Os limites dos territórios das aldeias só raramente foram alterados; e, embora as aldeias tenham sido repetidamente atingidas e até devastadas pela guerra, pela fome e por epidemias, o mesmo nome, os mesmos limites, os mesmos interesses e até as mesmas famílias se conservaram por gerações. Os habitantes não se deixavam perturbar pelo colapso e pela divisão dos reinos; enquanto a aldeia permanece indivisa, é-lhes indiferente a que potência seja cedida ou a que soberano passe a pertencer. Sua economia interna permanece inalterada.” (Th. Stamfort Raffles, ex-vice-governador de Java, The History of Java, Londres, 1817, vol. I, p. 285.)
Voltar à chamada
Nota 62“Não basta que o capital necessário à subdivisão dos ofícios” (deveria dizer: os meios de subsistência e de produção necessários para isso) “se encontre disponível na sociedade; é necessário, além disso, que esteja acumulado nas mãos dos empresários em massas suficientemente consideráveis para capacitá-los a trabalhar em grande escala ... Quanto mais aumenta a divisão, tanto mais a ocupação constante de um mesmo número de trabalhadores exige um capital cada vez mais considerável em ferramentas, matérias-primas etc.” (Storch, Cours d'Écon. Polit., edição de Paris, tomo I, pp. 250, 251.) “A concentração dos instrumentos de produção e a divisão do trabalho são tão inseparáveis uma da outra quanto, no domínio da política, a centralização dos poderes públicos e a divisão dos interesses privados.” (Karl Marx, op. cit., p. 134.E19)
Voltar à chamada
Nota editorial E19Ver o volume 4 desta edição, p. 153. Remissão editorial da MEW 23, chamada 1* na p. 381, vinculada à nota 62. A paginação é da edição alemã MEW.
Voltar à chamada
Nota 63Dugald Stewart chama os trabalhadores manufatureiros de “autômatos vivos ..., empregados em trabalhos parciais”. (Op. cit., p. 318.)
Voltar à chamada
Nota editorial E20Fábula de Menênio Agripa: em 494 a.C. ocorreu um primeiro grande confronto entre patrícios e plebeus. Segundo a lenda, o patrício Menênio Agripa conseguiu persuadir os plebeus à reconciliação por meio de uma parábola. A revolta dos plebeus seria semelhante à recusa dos membros do corpo humano em fornecer alimento ao estômago, o que faria os próprios membros emagrecerem intensamente. A recusa dos plebeus em cumprir seus deveres levaria à ruína do Estado romano. Tradução da nota editorial 105 da MEW 23, p. 855, relativa à chamada da p. 381.
Voltar à chamada
Nota 64Nos corais, cada indivíduo constitui, de fato, o estômago de todo o grupo. Mas fornece-lhe alimento, em vez de retirá-lo, como o patrício romano.
Voltar à chamada
Nota 65“O trabalhador que domina um ofício inteiro pode trabalhar e encontrar seu sustento em qualquer lugar; o outro” (o trabalhador manufatureiro) “é apenas um acessório e, separado de seus companheiros de trabalho, não possui nem capacidade nem independência, sendo por isso obrigado a aceitar a lei que se julgue conveniente impor-lhe.” (Storch, op. cit., edição de Petersburgo, 1815, tomo I, p. 204.)
Voltar à chamada
Nota 66A. Ferguson, op. cit., p. 281: “Um pode ter ganhado o que o outro perdeu.”
Voltar à chamada
Nota 67“O homem do saber e o trabalhador produtivo estão muito separados um do outro, e a ciência, em vez de, nas mãos do trabalhador, aumentar para ele próprio suas forças produtivas, quase por toda parte se colocou em oposição a ele ... O conhecimento torna-se um instrumento capaz de ser separado do trabalho e contraposto a ele.” (W. Thompson, An Inquiry into the Principles of the Distribution of Wealth, Londres, 1824, p. 274.)
Voltar à chamada
Nota 68A. Ferguson, op. cit., p. 280.
Voltar à chamada
Nota 69J. D. Tuckett, A History of the Past and Present State of the Labouring Population, Londres, 1846, vol. I, p. 148.
Voltar à chamada
Nota 70A. Smith, Wealth of Nations, livro V, cap. I, art. II. Como discípulo de A. Ferguson, que havia desenvolvido as consequências prejudiciais da divisão do trabalho, A. Smith tinha plena clareza sobre esse ponto. No início de sua obra, onde a divisão do trabalho é celebrada ex professo, ele apenas a indica de passagem como fonte das desigualdades sociais. Só no quinto livro, sobre a receita do Estado, reproduz Ferguson. Em Misère de la Philosophie, expus o necessário sobre a relação histórica entre Ferguson, A. Smith, Lemontey e Say em sua crítica da divisão do trabalho e ali também apresentei pela primeira vez a divisão manufatureira do trabalho como forma específica do modo de produção capitalista. (Op. cit., p. 122 e seguintes.E21)
Voltar à chamada
Nota editorial E21Ver o volume 4 desta edição, pp. 145–147. Remissão editorial da MEW 23, chamada 1* na p. 384, vinculada à continuação da nota 70. A paginação é da edição alemã MEW.
Voltar à chamada
Nota 71Ferguson já diz, op. cit., p. 281: “E o próprio pensamento pode tornar-se, nesta época de divisões do trabalho, um ofício particular.”
Voltar à chamada
Nota 72G. Garnier, tomo V de sua tradução, pp. 4–5.
Voltar à chamada
Nota 73Ramazzini, professor de medicina prática em Pádua, publicou em 1713 sua obra De morbis artificum, traduzida para o francês em 1777 e reimpressa em 1841 na Encyclopédie des Sciences Médicales. 7me Div. Auteurs Classiques. O período da grande indústria ampliou, naturalmente, seu catálogo das doenças dos trabalhadores. Ver, entre outros, Hygiène physique et morale de l'ouvrier dans les grandes villes en général, et dans la ville de Lyon en particulier, pelo dr. A. L. Fonteret, Paris, 1858, e [R. H. Rohatzsch,] Die Krankheiten, welche verschiednen Ständen, Altern und Geschlechtern eigentümlich sind, 6 volumes, Ulm, 1840. Em 1854, a Society of ArtsE22 nomeou uma comissão de investigação sobre patologia industrial. A lista dos documentos reunidos por essa comissão encontra-se no catálogo do Twickenham Economic Museum. São muito importantes os relatórios oficiais Reports on Public Health. Ver também Eduard Reich, M.D., Ueber die Entartung des Menschen, Erlangen, 1868.
Voltar à chamada
Nota editorial E22Sociedade filantrópica criada em 1754; procurou mediar conflitos trabalhistas.
Voltar à chamada
Nota 74“Subdividir um ser humano é executá-lo, se merece a sentença, e assassiná-lo, se não a merece ... a subdivisão do trabalho é o assassinato de um povo.” (D. Urquhart, Familiar Words, Londres, 1855, p. 119.) Hegel tinha opiniões muito heréticas sobre a divisão do trabalho. “Por pessoas cultas podem-se entender, em primeiro lugar, aquelas que são capazes de fazer tudo o que outras fazem”, diz ele em sua Filosofia do direito.E23
Voltar à chamada
Nota editorial E23Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechts, Berlim, 1840, § 187, adendo.
Voltar à chamada
Nota editorial E24“Membros dispersos do poeta”; Horácio, Sátiras, I, 4.
Voltar à chamada
Nota 75A cômoda crença no gênio inventivo que o capitalista individual exerceria de antemão na divisão do trabalho só se encontra ainda entre professores alemães, como o sr. Roscher, por exemplo, que dedica, em agradecimento, “diversos salários” ao capitalista, de cuja cabeça de Júpiter a divisão do trabalho surgiria pronta. A maior ou menor aplicação da divisão do trabalho depende do tamanho da bolsa, não da grandeza do gênio.
Voltar à chamada
Nota 76Escritores mais antigos, como Petty, o autor anônimo de Advantages of the East-India Trade etc., ressaltam, mais do que A. Smith, o caráter capitalista da divisão manufatureira do trabalho.
Voltar à chamada
Nota 77Entre os modernos, constituem exceção alguns escritores do século XVIII que, no que se refere à divisão do trabalho, quase só repetem os antigos, como Beccaria e James Harris. Assim, Beccaria: “A experiência de cada um lhe prova que, quando se aplicam a mão e o espírito sempre à mesma espécie de trabalhos e produtos, estes são produzidos mais facilmente, em maior abundância e melhor do que se cada indivíduo produzisse sozinho, para si, aquilo de que necessita ... Desse modo, os seres humanos se dividem, em benefício da coletividade e em proveito próprio, em diferentes classes e estamentos.” (Cesare Beccaria, Elementi di Econ. Publica, ed. Custodi, Parte Moderna, tomo XI, p. 28.) James Harris, mais tarde conde de Malmesbury, célebre pelos Diaries sobre sua missão diplomática em Petersburgo, diz, ele próprio, numa nota ao seu Dialogue concerning Happiness, Londres, 1741,E25 posteriormente reimpresso em Three Treatises etc., 3ª ed., Londres, 1772: “Toda a prova de que a sociedade é algo natural” (a saber, pela “divisão das ocupações”) “foi extraída do segundo livro da República de Platão”.
Voltar à chamada
Nota editorial E25O autor era James Harris, pai do diplomata homônimo. Citação: Three Treatises, 1772, p. 292.
Voltar à chamada
Nota 78Assim, na Odisseia, XIV, 228: “Pois um homem se compraz em certos trabalhos, outro em outros”; e Arquíloco, em Sexto Empírico: “Cada um se recreia com um trabalho diferente.”E26
Voltar à chamada
Nota editorial E26Sexto Empírico, Adversus mathematicos, XI, 44.
Voltar à chamada
Nota 79“Πολλ’ ἠπίστατο ἔργα, κακῶς δ’ ἠπίστατο πάντα.”E27 O ateniense sentia-se superior ao espartano como produtor de mercadorias, porque este, na guerra, podia dispor de homens, mas não de dinheiro, como Tucídides faz Péricles dizer no discurso em que incita os atenienses à Guerra do Peloponeso: “Os que produzem para seu próprio sustento estão mais dispostos a fazer a guerra com seus corpos do que com dinheiro.” (Tucídides, livro I, cap. 141.) Ainda assim, seu ideal, também na produção material, continuava a ser a αὐτάρκεια,E28 que se contrapõe à divisão do trabalho, “pois entre estes há prosperidade, mas entre aqueles há também independência”. Deve-se considerar que, ainda na época da queda dos Trinta Tiranos,E29 não havia sequer 5.000 atenienses sem propriedade fundiária.
Voltar à chamada
Nota editorial E27“Sabia muitos trabalhos, mas fazia todos mal.” P. 387, 1*.
Voltar à chamada
Nota editorial E28Autarquia, aqui autossuficiência. P. 387, 2*.
Voltar à chamada
Nota editorial E29Governo ateniense instituído em 404 a.C., derrubado após oito meses.
Voltar à chamada
Nota 80Platão deduz a divisão do trabalho no interior da comunidade da multiplicidade das necessidades e da unilateralidade das aptidões dos indivíduos. Seu ponto de vista principal é que o trabalhador deve ajustar-se ao trabalho a executar, e não o trabalho ao trabalhador, o que é inevitável quando este exerce várias artes ao mesmo tempo, portanto uma ou outra como atividade acessória. “Pois o trabalho não quer esperar pelo tempo livre de quem o executa, mas o trabalhador tem de se dedicar ao trabalho, sem tratá-lo levianamente. Isso é necessário. Daí decorre que se produz mais de tudo, e de maneira mais bela e mais fácil, quando cada um faz apenas uma coisa, de acordo com sua aptidão natural e no momento oportuno, livre de outras ocupações.” (De Republica, II, 2ª ed., Baiter, Orelli etc.) De modo semelhante, Tucídides, op. cit., cap. 142: “A navegação é uma arte tanto quanto qualquer outra e não pode ser praticada como atividade acessória em ocasiões eventuais; pelo contrário, nenhuma outra atividade pode ser exercida ao seu lado como acessória.” Se o trabalho tiver de esperar pelo trabalhador, diz Platão, muitas vezes se perde o momento crítico da produção e o produto se estraga, “ἔργου καιρὸν διόλλυται”.E30 A mesma ideia platônica reaparece no protesto dos proprietários ingleses de estabelecimentos de branqueamento contra a cláusula da lei fabril que fixa uma determinada hora de refeição para todos os trabalhadores. Seu negócio não poderia ajustar-se aos trabalhadores, pois “das diferentes operações de chamuscar, lavar, branquear, calandrar, prensar e tingir, nenhuma pode ser interrompida num momento determinado sem risco de dano ... A imposição da mesma hora de refeição a todos os trabalhadores pode, em certas ocasiões, pôr em risco mercadorias valiosas porque o processo de trabalho não foi concluído”. Le platonisme où va-t-il se nicher!E31
Voltar à chamada
Nota editorial E30“Perde-se o momento oportuno para o trabalho.” P. 388, 1*.
Voltar à chamada
Nota editorial E31“Onde mais irá o platonismo se aninhar!” P. 388, 2*.
Voltar à chamada
Nota 81Xenofonte conta que receber alimentos da mesa do rei persa não era apenas honroso, mas que esses alimentos eram também muito mais saborosos do que os outros. “E isso não é de admirar, pois, assim como as demais artes são especialmente aperfeiçoadas nas grandes cidades, também os alimentos reais são preparados de maneira muito especial. Nas pequenas cidades, o mesmo homem faz a armação da cama, a porta, o arado, a mesa; muitas vezes, além disso, ainda constrói casas e fica satisfeito se, mesmo assim, encontra clientela suficiente para seu sustento. É simplesmente impossível que um homem que faz tantas coisas faça tudo bem. Nas grandes cidades, porém, onde cada um encontra muitos compradores, até um só ofício basta para sustentar seu homem. Muitas vezes nem sequer é necessário um ofício inteiro: um faz calçados masculinos, outro, femininos. Aqui e ali, um vive apenas de costurar os calçados, outro, de cortá-los; um só corta roupas, outro apenas reúne as peças. Necessariamente, quem executa o trabalho mais simples é também quem o executa melhor. O mesmo ocorre na arte culinária.” (Xenofonte, Ciropédia, livro VIII, cap. 2.) Aqui se considera exclusivamente a qualidade do valor de uso a alcançar, embora Xenofonte já saiba que a escala da divisão do trabalho depende da extensão do mercado.
Voltar à chamada
Nota editorial E32Estado ideal platônico: governantes filósofos, guerreiros e produtores materiais.
Voltar à chamada
Nota 82“Ele” (Busíris) “dividiu todos em castas particulares ... ordenou que sempre as mesmas pessoas exercessem as mesmas atividades, porque sabia que aqueles que mudam de ocupação não se tornam proficientes em nenhuma; os que permanecem constantemente nas mesmas ocupações, porém, realizam cada coisa da maneira mais perfeita. Com efeito, verificaremos também que, nas artes e nos ofícios, superaram seus rivais mais do que, em geral, o mestre supera o inábil; e que são tão excelentes quanto à organização pela qual conservam a monarquia e o restante da constituição do Estado que os filósofos célebres que se dispuseram a falar sobre isso elogiaram a constituição do Egito acima das outras.” (Isócrates, Busíris, cap. 8.)
Voltar à chamada
Nota 83Cf. Diodoro Sículo.
Voltar à chamada
Nota editorial E33O impresso traz den Wert der Arbeiter, “o valor dos trabalhadores”; a transcrição digital consultada traz den Wert der Arbeit, “o valor do trabalho”. A tradução segue o impresso e registra a divergência, sem substituir silenciosamente a expressão por outra categoria.
Voltar à chamada
Nota editorial E34Leis de aprendizagem. P. 389, 1*.
Voltar à chamada
Nota 84Ure, op. cit., p. 20.
Voltar à chamada
Nota 85O que se diz no texto vale muito mais para a Inglaterra do que para a França e mais para a França do que para a Holanda.
Voltar à chamada
Nota editorial E35A. Ure, The Philosophy of Manufactures, Londres, 1835, p. 21.
Voltar à chamada