Processo de trabalho e processo de valorização O Capital — Livro I · Capítulo 5 de 25
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Processo de trabalho e processo de valorização

Terceira seção • A produção do mais-valor absoluto

1. O processo de trabalho

O uso da força de trabalho é o próprio trabalho. O comprador da força de trabalho a consome fazendo trabalhar aquele que a vendeu. Com isso, o vendedor se torna actuE1, força de trabalho em atividade, trabalhador, condição que antes possuía apenas potentiaE2. Para representar seu trabalho em mercadorias, ele precisa, antes de tudo, representá-lo em valores de uso, em coisas destinadas a satisfazer necessidades de alguma espécie. O capitalista, portanto, faz o trabalhador produzir um valor de uso particular, um artigo determinado. A produção de valores de uso ou de bens não altera sua natureza geral pelo fato de ocorrer para o capitalista e sob seu controle. Convém, assim, considerar inicialmente o processo de trabalho independentemente de qualquer forma social determinada.

O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o ser humano e a natureza, no qual o ser humano, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele se defronta com a matéria natural como uma força da própria natureza. Põe em movimento as forças naturais que pertencem a seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, para se apropriar da matéria natural sob uma forma útil à sua própria vida. Ao atuar, por esse movimento, sobre a natureza que lhe é exterior e modificá-la, modifica ao mesmo tempo sua própria natureza. Desenvolve as potências que nela permanecem adormecidas e submete o jogo de suas forças a seu próprio domínio. Aqui não tratamos das primeiras formas do trabalho, ainda instintivas e semelhantes à atividade animal. O estado em que o trabalhador se apresenta no mercado de mercadorias como vendedor de sua própria força de trabalho está separado por um passado imemorial do estado em que o trabalho humano ainda não havia se desprendido de sua primeira forma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha, com a construção de seus alvéolos de cera, envergonha mais de um arquiteto humano. O que, desde o início, distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o alvéolo em sua cabeça antes de construí-lo em cera. Ao fim do processo de trabalho surge um resultado que, já no começo, existia na representação do trabalhador, portanto idealmente. Ele não efetua somente uma mudança de forma na matéria natural: realiza nela, ao mesmo tempo, seu objetivo consciente, que determina, como uma lei, o modo de sua ação e ao qual precisa subordinar sua vontade. Essa subordinação não é um ato isolado. Além do esforço dos órgãos que trabalham, exige-se, durante todo o trabalho, uma vontade orientada para o fim, manifestada como atenção, tanto mais quanto menos o conteúdo e o modo de execução da atividade envolvem o trabalhador, quanto menos ele a desfruta como jogo de suas próprias forças físicas e intelectuais.

Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada para um fim, ou o próprio trabalho, seu objeto e seu meio.

A terra, termo que, em sentido econômico, inclui também a água, fornece originariamente ao ser humano provisões e meios de subsistência já prontos1 e se apresenta, sem intervenção humana, como objeto geral do trabalho humano. Todas as coisas que o trabalho apenas desprende de sua conexão imediata com o conjunto da terra são objetos de trabalho encontrados na natureza. Assim ocorre com o peixe capturado e retirado da água, seu elemento vital; com a madeira derrubada na floresta virgem; com o minério arrancado de seu veio. Se o objeto de trabalho já foi, por assim dizer, filtrado por um trabalho anterior, chamamo-lo matéria-prima. É o caso, por exemplo, do minério já extraído que agora será lavado. Toda matéria-prima é objeto de trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é matéria-prima. O objeto de trabalho só é matéria-prima depois de sofrer uma modificação mediada pelo trabalho.

O meio de trabalho é uma coisa ou um conjunto de coisas que o trabalhador interpõe entre si e o objeto de trabalho e que serve de condutor de sua atividade sobre esse objeto. Ele aproveita as propriedades mecânicas, físicas e químicas das coisas para fazê-las atuar como forças sobre outras coisas, de acordo com seu objetivo.2 O objeto de que o trabalhador se apodera imediatamente, excetuada a apropriação de meios de subsistência prontos, como frutos, caso em que apenas os órgãos de seu próprio corpo servem como meios de trabalho, é o meio de trabalho, e não o objeto de trabalho. A própria matéria natural torna-se, desse modo, órgão de sua atividade, um órgão que ele acrescenta aos de seu corpo, prolongando sua forma natural, apesar da Bíblia. Assim como a terra é sua despensa original, é também seu arsenal original de meios de trabalho. Fornece-lhe, por exemplo, a pedra com que atira, esfrega, pressiona, corta etc.

A própria terra é um meio de trabalho. Sua utilização como meio de trabalho na agricultura, porém, pressupõe toda uma série de outros meios de trabalho e um desenvolvimento relativamente elevado da força de trabalho.3 Assim que o processo de trabalho alcança algum desenvolvimento, já exige meios de trabalho previamente elaborados. Nas cavernas humanas mais antigas encontramos instrumentos e armas de pedra. Ao lado da pedra, da madeira, dos ossos e das conchas trabalhados, o animal domesticado, portanto já transformado e criado pelo trabalho, desempenha o papel principal como meio de trabalho no início da história humana.4 O uso e a fabricação de meios de trabalho, embora apareçam em germe em certas espécies animais, caracterizam o processo de trabalho especificamente humano. Franklin define, por isso, o ser humano como a toolmaking animal, um animal que fabrica ferramentas.

Os vestígios dos meios de trabalho têm, para a avaliação das formações econômicas de sociedades desaparecidas, a mesma importância que a estrutura dos restos ósseos tem para o conhecimento da organização de espécies animais extintas. O que distingue as épocas econômicas não é aquilo que se produz, e sim como se produz, com quais meios de trabalho.5 Os meios de trabalho são indicadores tanto do grau de desenvolvimento da força de trabalho humana quanto das relações sociais em que o trabalho se realiza. Entre eles, os meios de trabalho mecânicos, cujo conjunto se pode chamar de sistema ósseo e muscular da produção, oferecem características muito mais decisivas para distinguir uma época de produção social do que os meios de trabalho que servem apenas de recipientes do objeto de trabalho. Seu conjunto pode ser chamado, de modo bastante geral, de sistema vascular da produção, como os tubos, barris, cestos, jarros etc. Somente na fabricação química esses recipientes desempenham um papel importante.5a

Em sentido amplo, o processo de trabalho conta entre seus meios, além das coisas que medeiam a ação do trabalho sobre seu objeto e, por isso, servem de um modo ou de outro como condutores da atividade, todas as condições materiais necessárias para que o processo ocorra. Elas não entram diretamente no processo, mas sem elas ele não pode ocorrer, ou só pode ocorrer imperfeitamente. O meio geral de trabalho dessa espécie é, mais uma vez, a própria terra, pois oferece ao trabalhador o locus standiE3 e ao processo seu espaço de atuação (field of employment). Entre os meios de trabalho desse tipo já mediados pelo trabalho estão, por exemplo, os edifícios de trabalho, canais, estradas etc.

No processo de trabalho, portanto, a atividade humana realiza, com o meio de trabalho, uma modificação do objeto de trabalho previamente concebida como finalidade. O processo se extingue no produto. Seu produto é um valor de uso, uma matéria natural apropriada às necessidades humanas mediante uma mudança de forma. O trabalho se uniu a seu objeto. Está objetivado, e o objeto foi trabalhado. O que, do lado do trabalhador, aparecia sob a forma de movimento incessante aparece agora, do lado do produto, como propriedade em repouso, sob a forma do ser. Ele fiou, e o produto é o fio.

Se examinarmos o processo inteiro do ponto de vista de seu resultado, o produto, tanto o meio quanto o objeto de trabalho aparecem como meios de produção6, e o próprio trabalho aparece como trabalho produtivo.7

Quando um valor de uso sai do processo de trabalho como produto, outros valores de uso, produtos de processos de trabalho anteriores, entram nele como meios de produção. O mesmo valor de uso que é produto de um trabalho constitui meio de produção de outro. Os produtos, portanto, são ao mesmo tempo resultados e condições do processo de trabalho.

Com exceção da indústria extrativa, que encontra na natureza seu objeto de trabalho, como a mineração, a caça, a pesca etc. (e a agricultura, apenas na medida em que começa por abrir terras virgens), todos os ramos industriais trabalham sobre um objeto que é matéria-prima, isto é, um objeto de trabalho já filtrado pelo trabalho, portanto ele próprio um produto do trabalho. É o caso, por exemplo, da semente na agricultura. Animais e plantas, que costumamos considerar produtos naturais, são produtos não só, talvez, do trabalho do ano anterior, como também, em suas formas atuais, de uma transformação continuada por muitas gerações, sob controle humano e mediante trabalho humano. Quanto aos meios de trabalho em particular, sua imensa maioria traz, mesmo ao olhar mais superficial, as marcas do trabalho passado.

A matéria-prima pode constituir a substância principal de um produto ou entrar em sua formação apenas como material auxiliar. O material auxiliar é consumido pelo meio de trabalho, como o carvão pela máquina a vapor, o óleo pela roda, o feno pelo cavalo de tração; ou é acrescentado à matéria-prima para nela produzir uma transformação material, como o cloro ao tecido de linho não branqueado, o carvão ao ferro, a tinta à lã; ou ainda auxilia a própria execução do trabalho, como os materiais empregados na iluminação e no aquecimento do local de trabalho. A distinção entre matéria principal e material auxiliar se apaga na fabricação propriamente química, porque nenhuma das matérias-primas utilizadas reaparece como substância do produto.8

Como cada coisa possui múltiplas propriedades e, portanto, admite diversas aplicações úteis, o mesmo produto pode servir de matéria-prima a processos de trabalho muito diferentes. O cereal, por exemplo, é matéria-prima para o moleiro, o fabricante de amido, o destilador, o criador de gado etc. Torna-se matéria-prima de sua própria produção na forma de semente. Do mesmo modo, o carvão sai da indústria de mineração como produto e nela entra como meio de produção.

O mesmo produto pode servir, num mesmo processo de trabalho, como meio de trabalho e matéria-prima. Na engorda de gado, por exemplo, o próprio gado, matéria-prima trabalhada, é ao mesmo tempo meio de produção de adubo.

Um produto que já se encontra numa forma pronta para o consumo pode voltar a ser matéria-prima de outro produto, como a uva se torna matéria-prima do vinho. Ou o trabalho entrega seu produto em formas nas quais ele só pode voltar a ser usado como matéria-prima. A matéria-prima nesse estado chama-se produto semifabricado e seria melhor chamá-la produto de uma etapa de fabricação, como o algodão, a linha, o fio etc. Embora já seja produto, a matéria-prima inicial pode ter de atravessar toda uma série de processos diferentes nos quais, sob formas sempre mutáveis, volta continuamente a funcionar como matéria-prima, até o último processo de trabalho, do qual sai como meio de subsistência pronto ou meio de trabalho acabado.

Vemos, assim, que o fato de um valor de uso aparecer como matéria-prima, meio de trabalho ou produto depende inteiramente de sua função determinada no processo de trabalho, do lugar que nele ocupa; com a mudança desse lugar, mudam também essas determinações.

Ao ingressarem como meios de produção em novos processos de trabalho, os produtos perdem, portanto, seu caráter de produtos. Passam a funcionar apenas como fatores materiais do trabalho vivo. O fiandeiro trata o fuso somente como o meio com que fia e o linho somente como o objeto que fia. Naturalmente, não se pode fiar sem material para fiar e sem fuso. A existência desses produtosE6 é, portanto, pressuposta no início da fiação. Dentro do próprio processo, porém, é tão indiferente que o linho e o fuso sejam produtos de trabalho passado quanto, no ato da alimentação, é indiferente que o pão seja produto de trabalhos anteriores do agricultor, do moleiro, do padeiro etc. Inversamente, quando os meios de produção fazem valer, no processo de trabalho, seu caráter de produtos do trabalho passado, isso acontece por seus defeitos. Uma faca que não corta, um fio que se rompe a toda hora etc. fazem lembrar vivamente o cuteleiro A e o encerador de fios E.E7 No produto bem-sucedido desaparece a mediação de suas propriedades úteis pelo trabalho passado.

Uma máquina que não é usada no processo de trabalho é inútil. Além disso, fica entregue à força destrutiva do metabolismo natural. O ferro enferruja, a madeira apodrece. O fio que não é transformado em tecido ou malha é algodão estragado. O trabalho vivo precisa apoderar-se dessas coisas, despertá-las dentre os mortos, transformá-las de valores de uso meramente possíveis em valores de uso reais e atuantes. Lambidas pelo fogo do trabalho, apropriadas como corpos dele, animadas para cumprir no processo as funções que lhes cabem por seu conceito e sua destinação, elas são também consumidas, porém de maneira orientada para um fim, como elementos formadores de novos valores de uso, de novos produtos capazes de entrar no consumo individual como meios de subsistência ou em novos processos de trabalho como meios de produção.

Se os produtos existentes são resultados e também condições de existência do processo de trabalho, sua introdução nesse processo, portanto seu contato com o trabalho vivo, é, por outro lado, o único meio de conservar e realizar esses produtos do trabalho passado como valores de uso.

O trabalho consome seus elementos materiais, seu objeto e seu meio, devora-os e é, portanto, um processo de consumo. Esse consumo produtivo distingue-se do consumo individual porque este consome os produtos como meios de subsistência do indivíduo vivo, ao passo que aquele os consome como meios de subsistência do trabalho, da força de trabalho em atividade. O produto do consumo individual é, portanto, o próprio consumidor; o resultado do consumo produtivo é um produto diferente de quem o consome.

Na medida em que seus meios e seu objeto já são produtos, o trabalho consome produtos para criar produtos, ou utiliza produtos como meios de produção de outros produtos. Entretanto, assim como o processo de trabalho se realiza originalmente entre o ser humano e a terra existente independentemente de sua intervenção, ainda atuam nele meios de produção que existem por natureza e não constituem uma combinação de matéria natural e trabalho humano.

O processo de trabalho, tal como o apresentamos em seus elementos simples e abstratos, é atividade orientada para um fim, destinada à produção de valores de uso; apropriação da matéria natural para satisfazer necessidades humanas; condição universal do metabolismo entre ser humano e natureza; condição natural eterna da vida humana e, por isso, independente de qualquer forma particular dessa vida, sendo igualmente comum a todas as suas formas sociais. Não precisamos, portanto, apresentar o trabalhador em sua relação com outros trabalhadores. Bastavam, de um lado, o ser humano e seu trabalho; do outro, a natureza e suas matérias. Assim como o sabor do trigo não revela quem o cultivou, tampouco o processo de trabalho revela, por si só, em que condições ocorre: se sob o chicote brutal do feitor de escravos ou sob o olhar apreensivo do capitalista; se é realizado por Cincinato no cultivo de seus poucos jugeraE8 ou pelo selvagem que abate um animal com uma pedra.9

Voltemos ao nosso capitalista em perspectiva. Nós o deixamos depois que comprou, no mercado de mercadorias, todos os fatores necessários a um processo de trabalho: os fatores materiais, ou meios de produção, e o fator pessoal, ou força de trabalho. Com o olhar perspicaz do conhecedor, selecionou os meios de produção e as forças de trabalho adequados a seu negócio particular, como fiação, fabricação de botas etc. Nosso capitalista se dispõe, então, a consumir a mercadoria que comprou, a força de trabalho: faz o portador da força de trabalho, o trabalhador, consumir os meios de produção mediante seu trabalho. A natureza geral do processo de trabalho evidentemente não se altera porque o trabalhador o executa para o capitalista, em lugar de fazê-lo para si mesmo. De início, tampouco pode mudar o modo determinado de fabricar botas ou fiar por causa da intervenção do capitalista. Ele precisa começar tomando a força de trabalho tal como a encontra no mercado e, portanto, também seu trabalho tal como surgiu numa época em que ainda não havia capitalistas. A transformação do próprio modo de produção pela subordinação do trabalho ao capital só pode ocorrer mais tarde, devendo, por isso, ser examinada posteriormente.

O processo de trabalho, quando realizado como processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, apresenta agora dois fenômenos peculiares.

O trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem pertence seu trabalho. O capitalista vigia para que o trabalho transcorra adequadamente e os meios de produção sejam empregados segundo sua finalidade, de modo que nenhuma matéria-prima seja desperdiçada e o instrumento de trabalho seja preservado, isto é, destruído apenas na medida em que seu uso no trabalho o exige.

Em segundo lugar, o produto é propriedade do capitalista, e não do produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor diário da força de trabalho. Seu uso, como o de qualquer outra mercadoria, por exemplo o de um cavalo alugado por um dia, pertence-lhe, portanto, durante esse dia. Ao comprador da mercadoria pertence seu uso; o proprietário da força de trabalho, ao entregar seu trabalho, de fato entrega apenas o valor de uso que vendeu. Desde o momento em que entrou na oficina do capitalista, o valor de uso de sua força de trabalho, portanto seu uso, o trabalho, passou a pertencer ao capitalista. Pela compra da força de trabalho, o capitalista incorporou o próprio trabalho, como fermento vivo, aos elementos mortos que também lhe pertencem e com os quais se forma o produto. De seu ponto de vista, o processo de trabalho é apenas o consumo da mercadoria força de trabalho que comprou, mas que só pode consumir acrescentando-lhe meios de produção. O processo de trabalho é um processo entre coisas que o capitalista comprou, entre coisas que lhe pertencem. Por isso, o produto desse processo lhe pertence tanto quanto o produto da fermentação em sua adega.10

2. O processo de valorização

O produto, que é propriedade do capitalista, é um valor de uso, como fio, botas etc. Embora as botas, por exemplo, constituam em certo sentido a base do progresso social, e nosso capitalista seja um decidido defensor do progresso, ele não as fabrica por amor a elas. Na produção de mercadorias, o valor de uso em geral não é a coisa qu'on aime pour lui-mêmeE9. Aqui, os valores de uso só são produzidos porque, e na medida em que, constituem o substrato material, os portadores do valor de troca. Nosso capitalista tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um valor de uso que possua valor de troca, um artigo destinado à venda, uma mercadoria. Segundo, quer produzir uma mercadoria cujo valor supere a soma dos valores das mercadorias necessárias à sua produção, os meios de produção e a força de trabalho, pelos quais adiantou seu bom dinheiro no mercado. Quer produzir não só um valor de uso, como também uma mercadoria; não só valor de uso, como também valor; e não só valor, como também mais-valor.

De fato, como aqui se trata da produção de mercadorias, até agora examinamos evidentemente apenas um dos lados do processo. Assim como a própria mercadoria é unidade de valor de uso e valor, seu processo de produção precisa ser unidade de processo de trabalho e processo de formação de valor.

Examinemos agora o processo de produção também como processo de formação de valor.

Sabemos que o valor de cada mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho materializado em seu valor de uso, pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção. Isso vale também para o produto que nosso capitalista obteve como resultado do processo de trabalho. Antes de tudo, portanto, é preciso calcular o trabalho objetivado nesse produto.

Tomemos, por exemplo, o fio.

Para produzir o fio, foi necessária inicialmente sua matéria-prima, digamos 10 libras de algodão. Não precisamos investigar agora qual é o valor do algodão, pois o capitalista o comprou no mercado pelo seu valor, por exemplo 10 xelins. No preço do algodão, o trabalho necessário à sua produção já está representado como trabalho social geral. Suponhamos ainda que a parte dos fusos consumida na transformação do algodão, representando aqui todos os demais meios de trabalho empregados, tenha valor de 2 xelins. Se uma quantidade de ouro equivalente a 12 xelins é produto de 24 horas de trabalho, ou de duas jornadas de trabalho, disso se segue inicialmente que duas jornadas de trabalho estão objetivadas no fio.

Não devemos nos deixar confundir pelo fato de o algodão ter mudado de forma e de a parte consumida dos fusos ter desaparecido por completo. Segundo a lei geral do valor, por exemplo, 10 libras de fio são equivalentes a 10 libras de algodão e a um quarto de fuso se o valor de 40 libras de fio for igual ao valor de 40 libras de algodão mais o valor de um fuso inteiro, isto é, se for necessário o mesmo tempo de trabalho para produzir os dois lados dessa equação. Nesse caso, o mesmo tempo de trabalho se apresenta, de um lado, no valor de uso fio e, de outro, nos valores de uso algodão e fuso. Ao valor é indiferente aparecer no fio, no fuso ou no algodão. Que o fuso e o algodão, em vez de permanecerem tranquilamente lado a lado, entrem no processo de fiação numa combinação que modifica suas formas de uso e os transforma em fio não afeta seu valor mais do que se fossem convertidos, por simples troca, numa quantidade equivalente de fio.

O tempo de trabalho necessário à produção do algodão faz parte do tempo de trabalho necessário à produção do fio, do qual ele constitui a matéria-prima, e está, por isso, contido no fio. O mesmo ocorre com o tempo de trabalho necessário à produção da parte dos fusos sem cujo desgaste ou consumo o algodão não poderia ser fiado.11

Assim, na medida em que consideramos o valor do fio, isto é, o tempo de trabalho necessário à sua produção, os diversos processos de trabalho particulares, separados no tempo e no espaço, pelos quais é preciso passar para produzir o próprio algodão e a parte consumida dos fusos e, por fim, para transformar algodão e fuso em fio, podem ser tratados como diferentes fases sucessivas de um único e mesmo processo de trabalho. Todo o trabalho contido no fio é trabalho passado. Que o tempo de trabalho necessário à produção de seus elementos constitutivos tenha transcorrido antes, encontrando-se no pretérito mais-que-perfeito, enquanto o trabalho imediatamente empregado no processo final, a fiação, esteja mais próximo do presente, no pretérito perfeito, é uma circunstância inteiramente indiferente. Se certa quantidade de trabalho, por exemplo 30 jornadas, é necessária à construção de uma casa, nada muda na quantidade total de tempo de trabalho incorporado a ela pelo fato de a trigésima jornada ter entrado na produção 29 dias depois da primeira. Do mesmo modo, o tempo de trabalho contido no material e no meio de trabalho pode ser considerado como se tivesse sido despendido numa fase anterior do próprio processo de fiação, antes do trabalho acrescentado por último sob a forma de fiação.

Os valores dos meios de produção, do algodão e do fuso, expressos no preço de 12 xelins, constituem, portanto, componentes do valor do fio, ou do valor do produto.

Duas condições precisam, porém, ser satisfeitas. Em primeiro lugar, o algodão e o fuso devem ter efetivamente servido à produção de um valor de uso. Em nosso caso, devem ter sido transformados em fio. Para o valor, é indiferente qual valor de uso o porta; é preciso, porém, que algum valor de uso seja seu portador. Em segundo lugar, pressupõe-se que tenha sido empregado somente o tempo de trabalho necessário nas condições sociais de produção existentes. Se apenas uma libra de algodão é necessária para fiar uma libra de fio, só uma libra de algodão pode ser consumida na formação de uma libra de fio. O mesmo se aplica ao fuso. Se o capitalista tiver a fantasia de usar fusos de ouro em lugar de fusos de ferro, no valor do fio contará, ainda assim, somente o trabalho socialmente necessário, isto é, o tempo de trabalho necessário à produção de fusos de ferro.

Sabemos agora que parcela do valor do fio é constituída pelos meios de produção, algodão e fuso: 12 xelins, ou a materialização de duas jornadas de trabalho. Resta determinar a parcela de valor que o próprio trabalho do fiandeiro acrescenta ao algodão.

Devemos agora considerar esse trabalho de um ponto de vista inteiramente diferente daquele adotado ao examinar o processo de trabalho. Ali se tratava da atividade orientada para um fim, a transformação do algodão em fio. Quanto mais adequada ao objetivo fosse a atividade, melhor seria o fio, pressupostas constantes todas as demais circunstâncias. O trabalho do fiandeiro era especificamente diferente dos demais trabalhos produtivos, e essa diferença se manifestava subjetiva e objetivamente: no objetivo particular da fiação, no modo particular de sua execução, na natureza particular de seus meios de produção e no valor de uso particular de seu produto. Algodão e fuso servem como meios de subsistência do trabalho de fiar, porém com eles não se podem fabricar canhões de alma raiada. Por outro lado, na medida em que o trabalho do fiandeiro é formador de valor, isto é, fonte de valor, ele não se distingue do trabalho de quem perfura canhões, nem, para tomarmos um exemplo mais próximo, dos trabalhos realizados na cultura do algodão e na fabricação dos fusos e objetivados nos meios de produção do fio. É unicamente por essa identidade que o cultivo do algodão, a fabricação de fusos e a fiação podem constituir partes do mesmo valor total, o valor do fio, diferenciadas apenas quantitativamente. Aqui já não se trata da qualidade, da natureza e do conteúdo do trabalho, e sim de sua quantidade. Essa quantidade é fácil de contar. Admitimos que o trabalho de fiação seja trabalho simples, trabalho social médio. Veremos mais tarde que a hipótese contrária não modifica a questão.

Durante o processo de trabalho, o trabalho passa constantemente da forma da inquietude à forma do ser, da forma do movimento à forma da objetividade. Ao término de uma hora, o movimento de fiar está representado numa determinada quantidade de fio: certa quantidade de trabalho, uma hora de trabalho, está objetivada no algodão. Dizemos hora de trabalho, isto é, dispêndio da força vital do fiandeiro durante uma hora, pois aqui o trabalho de fiação só conta enquanto dispêndio de força de trabalho, e não enquanto trabalho específico de fiar.

É agora decisivo que, durante o processo, isto é, durante a transformação do algodão em fio, seja consumido somente o tempo de trabalho socialmente necessário. Se, nas condições normais, isto é, socialmente médias, de produção, a libras de algodão devem ser transformadas em b libras de fio durante uma hora de trabalho, somente conta como jornada de 12 horas aquela que transforma 12 × a libras de algodão em 12 × b libras de fio. Pois só o tempo de trabalho socialmente necessário conta como formador de valor.

Tal como o próprio trabalho, também a matéria-prima e o produto aparecem aqui sob uma luz inteiramente diferente daquela em que os víamos do ponto de vista do processo de trabalho propriamente dito. A matéria-prima conta agora apenas como absorvedora de determinada quantidade de trabalho. Por essa absorção, ela efetivamente se transforma em fio, pois a força de trabalho foi despendida sob a forma de fiação e acrescentada à matéria. O produto, o fio, porém, agora é apenas a medida da quantidade de trabalho absorvida pelo algodão. Se, em uma hora, 1⅔ libra de algodão é fiada, ou transformada em 1⅔ libra de fio, 10 libras de fio indicam seis horas de trabalho absorvidas. Quantidades determinadas de produto, verificadas pela experiência, representam agora somente quantidades determinadas de trabalho, massas determinadas de tempo de trabalho solidificado. São apenas a materialização de uma hora, duas horas, um dia de trabalho social.

Que o trabalho seja precisamente fiação, que seu material seja algodão e seu produto seja fio, torna-se tão indiferente quanto o fato de o próprio objeto de trabalho já ser produto, portanto matéria-prima. Se o trabalhador estivesse empregado numa mina de carvão, em vez de numa fiação, o objeto de trabalho, o carvão, estaria presente na natureza. Ainda assim, uma quantidade determinada de carvão arrancado de sua jazida, por exemplo um Zentner, representaria certa quantidade de trabalho absorvido.

Ao vender a força de trabalho, pressupusemos que seu valor diário fosse igual a 3 xelins, que nele estivessem incorporadas seis horas de trabalho e que essa quantidade de trabalho fosse, portanto, necessária à produção da soma média dos meios de subsistência diários do trabalhador. Se nosso fiandeiro transforma, em uma hora de trabalho, 1⅔ libra de algodão em 1⅔ libra de fio,12 em seis horas transforma 10 libras de algodão em 10 libras de fio. Durante o processo de fiação, o algodão absorve, portanto, seis horas de trabalho. O mesmo tempo de trabalho está representado numa quantidade de ouro equivalente a 3 xelins. Assim, pela própria fiação, acrescenta-se ao algodão um valor de 3 xelins.

Examinemos agora o valor total do produto, as 10 libras de fio. Nelas estão objetivadas duas jornadas e meia de trabalho: duas jornadas contidas no algodão e na parte consumida dos fusos, e meia jornada de trabalho absorvida durante a fiação. O mesmo tempo de trabalho está representado numa quantidade de ouro de 15 xelins. O preço correspondente ao valor das 10 libras de fio é, portanto, 15 xelins, e o preço de uma libra de fio é 1 xelim e 6 pence.

Nosso capitalista fica perplexo. O valor do produto é igual ao valor do capital adiantado. O valor adiantado não se valorizou, não produziu mais-valor, e o dinheiro, portanto, não se transformou em capital. O preço das 10 libras de fio é de 15 xelins, e 15 xelins foram gastos no mercado de mercadorias com os elementos constitutivos do produto, ou, o que dá no mesmo, com os fatores do processo de trabalho: 10 xelins com algodão, 2 xelins com a parte consumida dos fusos e 3 xelins com força de trabalho. O valor acrescido do fio em nada ajuda, pois seu valor é somente a soma de valores anteriormente distribuídos entre algodão, fuso e força de trabalho, e da simples adição de valores já existentes jamais pode surgir mais-valor.13 Esses valores estão agora concentrados numa só coisa, porém já estavam reunidos na soma de 15 xelins antes de ela se dividir em três compras de mercadorias.

Esse resultado, considerado por si só, nada tem de surpreendente. O valor de uma libra de fio é 1 xelim e 6 pence, de modo que nosso capitalista teria de pagar 15 xelins por 10 libras de fio no mercado. Quer compre sua casa pronta no mercado, quer mande construí-la, nenhuma dessas operações aumentará o dinheiro empregado na aquisição da casa.

O capitalista, familiarizado com a economia vulgar, talvez diga que adiantou dinheiro com a intenção de ganhar mais dinheiro. O caminho do inferno, porém, está pavimentado de boas intenções, e ele poderia muito bem ter a intenção de ganhar dinheiro sem produzir coisa alguma.14 Ameaça então: não voltarão a pegá-lo nessa situação. Da próxima vez, comprará a mercadoria pronta no mercado em vez de fabricá-la. Mas, se todos os seus irmãos capitalistas fizerem o mesmo, onde encontrará mercadorias no mercado? E dinheiro ele não pode comer. Passa a pregar: é preciso considerar sua abstinência. Poderia ter esbanjado seus 15 xelins. Em vez disso, consumiu-os produtivamente e fez fio com eles. Mas agora possui fio, em lugar de remorsos. De modo algum precisa voltar ao papel do formador de tesouros, que já nos mostrou aonde leva o ascetismo.

Além disso, onde nada existe, nem o imperador pode reivindicar seus direitos. Seja qual for o mérito de sua renúncia, nada existe para remunerá-la em separado, pois o valor do produto que sai do processo é apenas igual à soma dos valores das mercadorias introduzidas nele. Console-se, então, com a máxima de que a virtude é a própria recompensa da virtude. Em vez disso, torna-se importuno. O fio lhe é inútil. Produziu-o para vender. Pois que o venda ou, ainda mais simplesmente, produza de agora em diante somente coisas para seu próprio consumo, receita que seu médico particular MacCulloch já lhe prescrevera como remédio comprovado contra a epidemia da superprodução. Ele se ergue, desafiador, nas patas traseiras.

Deveria o trabalhador, com os próprios membros, criar produtos do trabalho no ar azul, produzir mercadorias? Não lhe forneceu o material com que e no qual seu trabalho pode tomar corpo? Como a maior parte da sociedade é composta por gente sem posses, não terá prestado, com seus meios de produção, seu algodão e seus fusos, um serviço imenso à sociedade, e ao próprio trabalhador, a quem ainda forneceu meios de subsistência? E não deve cobrar esse serviço? Mas o trabalhador também não lhe prestou um serviço em troca, ao transformar o algodão e os fusos em fio? Além disso, não estamos tratando aqui de serviços.15 Um serviço é apenas o efeito útil de um valor de uso, seja da mercadoria, seja do trabalho.16 Aqui, porém, o que importa é o valor de troca.

Pagou ao trabalhador o valor de 3 xelins. O trabalhador entregou-lhe um equivalente exato no valor de 3 xelins acrescentado ao algodão. Valor por valor. Nosso amigo, que há pouco ostentava tanta arrogância de capitalista, assume de repente a postura modesta de seu próprio trabalhador. Não terá ele mesmo trabalhado? Não realizou o trabalho de vigiar e supervisionar o fiandeiro? Esse seu trabalho também não forma valor? Seu próprio overlookerE13 e seu gerente dão de ombros. Enquanto isso, ele já recuperou, com um sorriso jovial, sua antiga fisionomia. Toda aquela ladainha era uma brincadeira conosco. Não dá a mínima importância a ela. Deixa esses e outros subterfúgios fracos, essas frases vazias, aos professores de economia política pagos especialmente para isso. Ele próprio é um homem prático que, embora nem sempre pense no que diz fora dos negócios, sabe sempre o que faz dentro deles.

Examinemos mais de perto. O valor diário da força de trabalho era de 3 xelins, porque nela própria está objetivada meia jornada de trabalho, isto é, porque os meios de subsistência diariamente necessários à produção da força de trabalho custam meia jornada de trabalho. Entretanto, o trabalho passado contido na força de trabalho e o trabalho vivo que ela pode realizar, seu custo diário de manutenção e seu dispêndio diário, são duas grandezas inteiramente diferentes. A primeira determina seu valor de troca; a segunda constitui seu valor de uso. O fato de ser necessária meia jornada de trabalho para manter o trabalhador vivo durante 24 horas em nada o impede de trabalhar uma jornada inteira. O valor da força de trabalho e sua valorização no processo de trabalho são, portanto, duas grandezas diferentes. Foi essa diferença de valor que o capitalista teve em vista quando comprou a força de trabalho.

Sua propriedade útil, a de produzir fio ou botas, era apenas uma conditio sine qua non, pois o trabalho precisa ser despendido numa forma útil para formar valor. O decisivo, porém, era o valor de uso específico dessa mercadoria: ser fonte de valor e de um valor maior que o seu próprio. Esse é o serviço particular que o capitalista espera dela. E, ao agir assim, ele procede de acordo com as leis eternas da troca de mercadorias. De fato, como o vendedor de qualquer outra mercadoria, o vendedor da força de trabalho realiza seu valor de troca e aliena seu valor de uso. Não pode receber o primeiro sem entregar o segundo. O valor de uso da força de trabalho, o próprio trabalho, pertence tão pouco a seu vendedor quanto o valor de uso do óleo vendido pertence ao comerciante de óleo. O proprietário de dinheiro pagou o valor diário da força de trabalho; por isso, seu uso durante o dia, o trabalho de um dia inteiro, lhe pertence.

O fato de a manutenção diária da força de trabalho custar apenas meia jornada, embora a força de trabalho possa atuar, trabalhar, durante uma jornada inteira, de modo que o valor criado por seu uso durante um dia seja o dobro de seu próprio valor diário, é uma sorte especial para o comprador, sem constituir, de modo algum, uma injustiça contra o vendedor.

Nosso capitalista previu o caso que o faz rir.E14 Por isso, o trabalhador encontra na oficina os meios de produção necessários a um processo de trabalho de doze horas, e não apenas de seis. Se 10 libras de algodão absorviam seis horas de trabalho e se transformavam em 10 libras de fio, 20 libras de algodão absorverão doze horas de trabalho e se transformarão em 20 libras de fio. Examinemos o produto desse processo de trabalho prolongado.

Nas 20 libras de fio estão agora objetivadas cinco jornadas de trabalho: quatro na massa consumida de algodão e de fusos e uma absorvida pelo algodão durante a fiação. A expressão em ouro de cinco jornadas de trabalho é 30 xelins, ou 1 libra esterlina e 10 xelins. Esse é, portanto, o preço das 20 libras de fio. Uma libra de fio continua a custar 1 xelim e 6 pence. A soma dos valores das mercadorias lançadas ao processo, porém, era de 27 xelins. O valor do fio é 30 xelins. O valor do produto cresceu em um nono em relação ao valor adiantado para produzi-lo.E15 Assim, 27 xelins se transformaram em 30 xelins. Geraram um mais-valor de 3 xelins. O feito finalmente deu certo. O dinheiro transformou-se em capital.

Todas as condições do problema foram resolvidas, sem que as leis da troca de mercadorias fossem violadas em qualquer aspecto. Equivalente foi trocado por equivalente. Como comprador, o capitalista pagou cada mercadoria por seu valor: algodão, parte consumida dos fusos e força de trabalho. Depois fez o que qualquer comprador de mercadorias faz: consumiu seu valor de uso. O processo de consumo da força de trabalho, que ao mesmo tempo é o processo de produção da mercadoria, resultou em 20 libras de fio com valor de 30 xelins. O capitalista volta agora ao mercado e vende mercadoria, depois de ter comprado mercadoria. Vende a libra de fio a 1 xelim e 6 pence, nem um pouco acima nem abaixo de seu valor. Apesar disso, retira da circulação 3 xelins a mais do que inicialmente lançou nela. Todo esse percurso, a transformação de seu dinheiro em capital, ocorre na esfera da circulação e, ao mesmo tempo, fora dela. Ocorre por intermédio da circulação, porque está condicionado à compra de força de trabalho no mercado de mercadorias. Ocorre fora da circulação, porque esta apenas dá início ao processo de valorização, que se realiza na esfera da produção. E assim, tout pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles.E16

Ao transformar dinheiro em mercadorias que servem de elementos materiais de um novo produto ou de fatores do processo de trabalho, ao incorporar força de trabalho viva à objetividade morta dessas mercadorias, o capitalista transforma valor, trabalho passado, objetivado, morto, em capital, em valor que se valoriza a si mesmo, um monstro animado que começa a “trabalhar” como se tivesse amor dentro do corpo.E17

Se compararmos agora o processo de formação de valor e o processo de valorização, veremos que este último nada mais é que um processo de formação de valor prolongado além de certo ponto. Se o processo dura apenas até o ponto em que o valor da força de trabalho pago pelo capital é substituído por um novo equivalente, ele é simples processo de formação de valor. Se ultrapassa esse ponto, torna-se processo de valorização.

Se compararmos, além disso, o processo de formação de valor com o processo de trabalho, veremos que este último consiste no trabalho útil que produz valores de uso. O movimento é considerado aqui qualitativamente, em seu modo particular de execução, segundo sua finalidade e seu conteúdo. O mesmo processo de trabalho apresenta-se, no processo de formação de valor, apenas por seu lado quantitativo. O que importa é somente o tempo necessário à execução do trabalho, ou a duração durante a qual a força de trabalho é despendida de maneira útil. Aqui, as mercadorias que entram no processo de trabalho já não contam como fatores materiais funcionalmente determinados da força de trabalho que atua com um fim. Contam apenas como quantidades determinadas de trabalho objetivado. Contido nos meios de produção ou acrescentado pela força de trabalho, o trabalho só conta segundo sua medida de tempo. Corresponde a tantas horas, tantos dias etc.

Esse tempo, porém, só conta na medida em que é socialmente necessário à produção do valor de uso. Isso compreende diversas condições. A força de trabalho precisa funcionar em condições normais. Se a máquina de fiar é o meio de trabalho socialmente predominante na fiação, não se pode entregar ao trabalhador uma roda de fiar. Em vez de algodão de qualidade normal, não se lhe deve fornecer material ruim que se rompe a todo instante. Nos dois casos, ele gastaria mais do que o tempo de trabalho socialmente necessário à produção de uma libra de fio; esse tempo excedente, porém, não formaria valor nem dinheiro. A normalidade dos fatores materiais do trabalho, entretanto, depende do capitalista, e não do trabalhador. Outra condição é a normalidade da própria força de trabalho. No ramo em que é empregada, ela precisa possuir o grau médio predominante de habilidade, destreza e rapidez. Nosso capitalista, porém, comprou no mercado de trabalho uma força de trabalho de qualidade normal. Essa força precisa ser despendida com o grau médio habitual de esforço, com a intensidade socialmente usual. O capitalista vigia isso tão zelosamente quanto vigia para que nenhum tempo seja desperdiçado sem trabalho. Comprou a força de trabalho por um prazo determinado. Faz questão de obter aquilo que lhe pertence. Não quer ser roubado.

Por fim, e para isso o mesmo senhor dispõe de seu próprio code pénalE18, não pode ocorrer nenhum consumo de matéria-prima e meios de trabalho contrário à finalidade da produção, pois o material ou o meio de trabalho desperdiçado representa quantidades de trabalho objetivado despendidas inutilmente, que, portanto, não contam nem entram no produto do processo de formação de valor.17

Vemos, assim, que a distinção anteriormente obtida pela análise da mercadoria entre o trabalho enquanto produz valor de uso e esse mesmo trabalho enquanto cria valor apresenta-se agora como a distinção entre diferentes aspectos do processo de produção.

Como unidade de processo de trabalho e processo de formação de valor, o processo de produção é processo de produção de mercadorias. Como unidade de processo de trabalho e processo de valorização, é processo de produção capitalista, forma capitalista da produção de mercadorias.

Observamos anteriormente que, para o processo de valorização, é inteiramente indiferente que o trabalho apropriado pelo capitalista seja trabalho simples, trabalho social médio, ou trabalho mais complexo, de maior peso específico. O trabalho considerado superior, mais complexo, em comparação com o trabalho social médio, é a manifestação de uma força de trabalho cuja formação envolve custos maiores, cuja produção exige mais tempo de trabalho e que, por isso, possui valor mais elevado do que a força de trabalho simples. Se o valor dessa força é mais elevado, ela também se manifesta em trabalho superior e, nos mesmos intervalos de tempo, objetiva-se em valores proporcionalmente maiores. Seja qual for, porém, a diferença de grau entre o trabalho de fiar e o trabalho de joalheria, a parcela de trabalho mediante a qual o joalheiro apenas repõe o valor de sua própria força de trabalho não se distingue qualitativamente da parcela adicional de trabalho mediante a qual cria mais-valor. Como antes, o mais-valor decorre exclusivamente de um excedente quantitativo de trabalho, do prolongamento da duração do mesmo processo de trabalho, seja ele processo de produção de fio, seja processo de produção de joias.18

Por outro lado, em todo processo de formação de valor, o trabalho superior precisa sempre ser reduzido a trabalho social médio; por exemplo, um dia de trabalho superior a x dias de trabalho simples.19 Evitamos, portanto, uma operação supérflua e simplificamos a análise quando supomos que o trabalhador empregado pelo capital realiza trabalho simples, socialmente médio.

Notas

Nota editorial E1Em ato, efetivamente. Glosa da MEW: tatsächlich.

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Nota editorial E2Em potência, segundo a capacidade. Glosa da MEW: dem Vermögen nach.

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Nota 1“Os produtos espontâneos da terra, que existem em pequenas quantidades e de maneira inteiramente independente do ser humano, parecem ser fornecidos pela natureza do mesmo modo que se dá a um jovem uma pequena soma para conduzi-lo pelo caminho da diligência e do enriquecimento.” (James Steuart, Principles of Polit. Econ., ed. Dublin, 1770, vol. I, p. 116.)

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Nota 2“A razão é tão astuta quanto poderosa. Sua astúcia consiste, em geral, na atividade mediadora que deixa os objetos atuarem uns sobre os outros segundo sua própria natureza e se desgastarem mutuamente, sem se imiscuir diretamente nesse processo, e, apesar disso, leva a termo somente seu próprio fim.” (Hegel, Enzyklopädie, primeira parte, “Die Logik”, Berlim, 1840, p. 382.)

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Nota 3Na obra, de resto, deplorável, Théorie de l'Écon. Polit., Paris, 1815, Ganilh enumera com acerto, contra os fisiocratas, a extensa série de processos de trabalho que constitui o pressuposto da agricultura propriamente dita.

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Nota 4Nas Réflexions sur la Formation et la Distribution des Richesses (1766), Turgot expõe bem a importância dos animais domesticados para os primórdios da civilização.

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Nota 5De todas as mercadorias, os artigos de luxo propriamente ditos são os menos importantes para a comparação tecnológica de diferentes épocas de produção.

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Nota 5aNota à segunda edição. Embora a historiografia anterior conheça tão pouco o desenvolvimento da produção material, fundamento de toda a vida social e, portanto, de toda a história real, ao menos a época pré-histórica foi dividida, com base em investigações das ciências naturais, e não nas chamadas investigações históricas, segundo o material dos instrumentos e das armas, em Idade da Pedra, Idade do Bronze e Idade do Ferro.

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Nota editorial E3Lugar em que se apoia. Glosa da MEW: Standort.

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Nota 6Parece paradoxal chamar, por exemplo, de meio de produção da pesca o peixe que ainda não foi capturado. Até hoje, porém, ainda não se inventou a arte de pescar em águas onde não existem peixes.

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Nota 7Essa determinação de trabalho produtivo, tal como resulta do ponto de vista do processo simples de trabalho, está longe de ser suficiente para o processo capitalista de produção.

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Nota 8Storch distingue a matéria-prima propriamente dita como matière dos materiais auxiliares como matériauxE4; Cherbuliez designa os materiais auxiliares como matières instrumentalesE5.

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Nota editorial E4Referência fornecida pelo apêndice da MEW, p. 850: Henri Storch, Cours d'économie politique, ou exposition des principes qui déterminent la prospérité des nations, t. 1, São Petersburgo, 1815, p. 228.

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Nota editorial E5Referência fornecida pelo apêndice da MEW, p. 850: A. Cherbuliez, Richesse ou pauvreté. Exposition des causes et des effets de la distribution actuelle des richesses sociales, Paris, 1841, p. 14.

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Nota editorial E6A MEW registra na quarta edição: “desse produto” (dieses Produkts). O corpo desta tradução segue o plural da MEW: “desses produtos” (dieser Produkte). Variante indicada no rodapé da p. 197.

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Nota editorial E7O impresso, p. 197, traz Garnwichser, enquanto a transcrição digital consultada traz Garnwicher. Adota-se “encerador de fios” para conservar a operação indicada pelo composto alemão. A acepção histórica de wichsen é aplicar cera; o verbete de Adelung, reproduzido pela Biblioteca Estatal da Baviera, inclui o exemplo de encerar um fio. Essa consulta sustenta a escolha lexical; não identifica uma pessoa histórica por trás da letra E.

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Nota editorial E8A MEW glosa jugera por Morgen, designação alemã de medida de superfície agrária. Mantém-se o termo latino, sem conversão de área.

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Nota 9É provavelmente por essa razão tão lógica que o coronel Torrens descobre na pedra do selvagem a origem do capital. “Na primeira pedra que o selvagem atira contra o animal que persegue, no primeiro bastão de que se apodera para derrubar o fruto que não pode alcançar com as mãos, vemos a apropriação de um artigo com a finalidade de adquirir outro e descobrimos assim a origem do capital.” (R. Torrens, An Essay on the Production of Wealth etc., pp. 70–71.) É provavelmente desse primeiro bastão que também se pode explicar por que stock, em inglês, é sinônimo de capital.

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Nota 10“Os produtos são apropriados antes de serem transformados em capital; essa transformação não os subtrai àquela apropriação.” (Cherbuliez, Richesse ou Pauvreté, ed. Paris, 1841, p. 54.) “Ao vender seu trabalho em troca de determinada quantidade de meios de subsistência (approvisionnement), o proletário renuncia inteiramente a qualquer participação no produto. A apropriação dos produtos permanece a mesma de antes; a convenção mencionada não a modifica de modo algum. O produto pertence exclusivamente ao capitalista, que forneceu as matérias-primas e os meios de subsistência. Essa é uma consequência rigorosa da lei de apropriação, cujo princípio fundamental era, inversamente, o direito exclusivo de propriedade de cada trabalhador sobre seu produto.” (Ibid., p. 58.) James Mill, Elements of Pol. Econ. etc., pp. 70–71: “Quando os trabalhadores trabalham por salário, o capitalista é proprietário não só do capital” (aqui se entende por capital os meios de produção), “como também do trabalho (of the labour also). Se se inclui, como é habitual, aquilo que se paga em salários no conceito de capital, é absurdo falar do trabalho separado do capital. A palavra capital, nesse sentido, inclui ambos, capital e trabalho.”

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Nota editorial E9Que se ama por si mesma. Glosa alemã: das man um seiner selbst willen liebt. Conserva-se no corpo a expressão francesa tal como aparece depois de das Ding no alemão.

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Nota 11“Não é só o trabalho diretamente aplicado às mercadorias que influencia seu valor, como também o trabalho empregado nos utensílios, instrumentos e edifícios que auxiliam o trabalho diretamente despendido.” (Ricardo, loc. cit., p. 16.)

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Nota 12Os números aqui são inteiramente arbitrários.

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Nota 13Essa é a proposição fundamental sobre a qual repousa a doutrina dos fisiocratas acerca da improdutividade de todo trabalho não agrícola, e ela é irrefutável para o economista de profissão. “Essa maneira de atribuir a um só objeto o valor de vários outros” (por exemplo, ao linho, os meios de subsistência do tecelão), “de acumular, por assim dizer, valores diferentes, uns sobre os outros, num único objeto, faz com que este aumente na mesma proporção... A expressão adição designa muito bem a maneira pela qual se forma o preço dos produtos artesanais; esse preço é apenas a soma total de vários valores consumidos e somados; somar, porém, não significa multiplicar.” (Mercier de la Rivière, loc. cit., p. 599.)

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Nota 14Assim, por exemplo, entre 1844 e 1847, ele retirou [uma] parte de seu capital do negócio produtivo para especular em ações ferroviárias. Também durante a Guerra Civil norte-americana fechou a fábrica e lançou os operários à rua para jogar na bolsa de algodão de Liverpool.

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Nota 15“Deixa que louvem, enfeitem e adornem... Aquele, porém, que toma mais ou coisa melhor” (do que dá), “pratica usura, e isso se chama causar dano ao próximo, e não prestar-lhe serviço, como acontece ao roubar e furtar. Nem tudo aquilo a que se dá o nome de serviço e benefício ao próximo é serviço e benefício. Pois uma adúltera e um adúltero prestam um ao outro grande serviço e satisfação. Um cavaleiro presta grande serviço de cavalaria a um incendiário e assassino ao ajudá-lo a roubar nas estradas e a devastar terras e gentes. Os papistas prestam aos nossos um grande serviço ao não afogá-los, queimá-los ou assassiná-los todos, nem deixá-los apodrecer na prisão, mas permitindo que alguns sobrevivam, expulsando-os ou tomando-lhes o que possuem. O próprio diabo presta a seus servidores grandes e imensos serviços... Em suma, o mundo está cheio de grandes, excelentes e cotidianos serviços e benefícios.” (Martinho Lutero, An die Pfarrherrn, wider den Wucher zu predigen etc., Wittenberg, 1540.)E10E11

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Nota editorial E10Segundo o apêndice da MEW, p. 850, a citação de Lutero é reproduzida conforme a quarta edição de O Capital. A indicação editorial foi recuperada; não equivale a consulta direta à obra de Lutero.

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Nota editorial E11As observações sobre a linguagem confessional da citação de Lutero e a linguagem racial histórica do testemunho citado por Marx pertencem à revisão, não às notas autorais. Os testemunhos e sua atribuição foram mantidos; os comentários do manuscrito foram deslocados para esta nota separada.

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Nota 16A esse respeito, observo em Zur Kritik der Politischen Ökonomie, p. 14, entre outras coisas: “Compreende-se o ‘serviço’ que a categoria ‘serviço’ (service) presta a certa espécie de economistas, como J.-B. Say e F. Bastiat.”E12

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Nota editorial E12A MEW remete ao volume 13 de sua edição, p. 24. Essa localização no volume 13 não foi conferida diretamente nesta rodada.

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Nota editorial E13Supervisor. Glosa alemã: Aufseher.

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Nota editorial E14O apêndice da MEW, p. 851, identifica “o caso que o faz rir” como citação modificada do Fausto de Goethe, primeira parte, cena “Quarto de estudo”.

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Nota editorial E15O impresso, p. 208, traz 1/9. A transcrição digital consultada traz 1/3, que o manuscrito havia traduzido como “um terço”. Corrige-se para “um nono”: (30 − 27) / 27 = 3/27 = 1/9. Os valores monetários do exemplo foram preservados.

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Nota editorial E16“Tudo está pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.” O apêndice da MEW, p. 851, identifica a expressão como aforismo de Cândido, ou o otimismo, romance satírico de Voltaire.

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Nota editorial E17Segundo o apêndice da MEW, p. 851, “como se tivesse amor dentro do corpo” modifica uma citação do Fausto de Goethe, primeira parte, cena “A adega de Auerbach em Leipzig”.

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Nota editorial E18Um código penal próprio. Glosa alemã: ein eignes Strafgesetzbuch.

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Nota 17Essa é uma das circunstâncias que encarecem a produção baseada na escravidão. O trabalhador, segundo a expressão acertada dos antigos, deveria distinguir-se aqui apenas como instrumentum vocaleE19 do animal, como instrumentum semivocaleE20, e do instrumento de trabalho inanimado, como instrumentum mutuumE21. Mas ele próprio faz o animal e o instrumento de trabalho sentirem que não é igual a eles, e sim um ser humano. Afirma para si essa diferença maltratando-os e devastando-os con amore. Nesse modo de produção, considera-se, portanto, um princípio econômico empregar somente os instrumentos de trabalho mais grosseiros e pesados, precisamente os mais difíceis de destruir devido à sua própria rusticidade desajeitada. Até a eclosão da Guerra Civil, encontravam-se, nos estados escravistas situados junto ao golfo do México, arados de construção chinesa antiga que revolviam o solo como um porco ou uma toupeira, sem cortá-lo e virá-lo. Cf. J. E. Cairnes, The Slave Power, Londres, 1862, p. 46 e seguintes. Em Seaboard Slave States, pp. 46–47, Olmsted relata, entre outras coisas: “Mostraram-me aqui instrumentos que nenhuma pessoa sensata, entre nós, imporia a um trabalhador assalariado. Seu peso extraordinário e sua falta de manejo devem, a meu ver, tornar o trabalho com eles pelo menos dez por cento mais difícil do que com os instrumentos que usamos habitualmente. No entanto, garantiram-me que, devido à maneira descuidada e desajeitada como os escravos aparentemente os utilizam, não seria possível confiar-lhes com proveito instrumentos mais leves ou menos robustos. Instrumentos como os que confiamos constantemente a nossos trabalhadores, com grande vantagem para nós, não durariam um dia num campo de cereais da Virgínia, embora ali o solo seja mais leve e menos pedregoso que o nosso. Da mesma forma, quando perguntei por que, nas fazendas, os cavalos eram tão geralmente substituídos por mulas, a primeira razão indicada, reconhecidamente decisiva, foi que os cavalos não suportavam o tratamento que recebiam constante e inevitavelmente dos negros. Em pouco tempo, eles os deixavam mancos e aleijados a pancadas, enquanto as mulas suportam golpes e a perda ocasional de uma ou duas rações sem sofrer dano físico. Tampouco se resfriam ou adoecem quando são negligenciadas e sobrecarregadas de trabalho. Mas não preciso ir além da janela do quarto em que escrevo para testemunhar, quase a qualquer momento, um tratamento dado aos animais que levaria qualquer fazendeiro do Norte a demitir imediatamente o condutor.” E11

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Nota editorial E19Instrumento dotado de fala. Glosa alemã: sprachbegabtes Werkzeug.

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Nota editorial E20Instrumento dotado de voz. Glosa alemã: stimmbegabtem Werkzeug. A glosa da MEW distingue voz de fala; não diz “meia voz”.

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Nota editorial E21Instrumento mudo. Glosa alemã: stummem Werkzeug. Conserva-se a grafia mutuum do impresso consultado, p. 210, sem emenda silenciosa do latim.

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Nota 18A distinção entre trabalho superior e simples, skilled e un-skilled labour, repousa em parte sobre meras ilusões ou, pelo menos, sobre diferenças que há muito deixaram de ser reais e só subsistem pela convenção tradicional; em parte, sobre a situação desamparada de certas camadas da classe trabalhadora, que lhes permite menos do que a outras impor o valor de sua força de trabalho. Circunstâncias fortuitas exercem aí um papel tão grande que os mesmos tipos de trabalho trocam de posição. Quando, por exemplo, a constituição física da classe trabalhadora está enfraquecida e relativamente esgotada, como em todos os países de produção capitalista desenvolvida, trabalhos brutos que exigem muita força muscular passam, em geral, a ocupar posição superior à de trabalhos muito mais delicados que descem à categoria de trabalho simples. Assim, o trabalho de um bricklayer (pedreiro) ocupa na Inglaterra posição muito mais elevada que o de um tecelão de damasco. Por outro lado, o trabalho de um fustian cutter (tosador de veludo de algodão), embora exija grande esforço físico e seja, além disso, muito prejudicial à saúde, figura como trabalho “simples”. Não se deve, aliás, imaginar que o chamado skilled labour represente uma parcela quantitativamente importante do trabalho nacional. Laing calcula que, na Inglaterra e no País de Gales, a subsistência de mais de 11 milhões de pessoas depende do trabalho simples. Descontados um milhão de aristocratas e um milhão e meio de indigentes, vagabundos, criminosos, prostitutas etc., dos 18 milhões de habitantes existentes à época de seu escrito, restam 4.650.000 pessoas da classe média, incluindo pequenos rentistas, funcionários, escritores, artistas, professores etc. Para chegar a esses quatro milhões e dois terçosE22, ele conta entre a parte trabalhadora da classe média, além dos banqueiros etc., todos os “operários de fábrica” mais bem pagos! Tampouco faltam os pedreiros entre os “trabalhadores potencializados”! Restam-lhe então os 11 milhões mencionados. (S. Laing, National Distress etc., Londres, 1844, pp. 49–52, passim.) “A grande classe que nada pode oferecer em troca de alimentos, salvo trabalho comum, constitui a grande massa do povo.” (James Mill, verbete “Colony”, Supplement to the Encyclopædia Britannica, 1831.)

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Nota editorial E22A p. 212 da MEW traz tanto 4.650.000 quanto 4⅔ milhões, que não são numericamente idênticos. Além disso, 18 milhões menos 1 milhão, 1,5 milhão e 4,65 milhões deixa 10,85 milhões, enquanto o texto refere mais de 11 milhões e depois os 11 milhões mencionados. Preservam-se os números da fonte e sua aproximação ou inconsistência, sem emenda para fechar a conta. A obra de Laing não foi consultada diretamente.

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Nota 19“Quando se fala do trabalho como medida do valor, entende-se necessariamente trabalho de certa espécie... A proporção em que as outras espécies de trabalho se relacionam com ele é fácil de determinar.” ([J. Cazenove,] Outlines of Political Economy, Londres, 1832, pp. 22–23.)

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