O dinheiro ou a circulação das mercadorias
1. Medida dos valores
Em toda esta obra, para simplificar, pressuponho o ouro como mercadoria-dinheiro.
A primeira função do ouro consiste em fornecer ao mundo das mercadorias o material para a expressão de seu valor, ou em representar os valores das mercadorias como grandezas de mesma denominação, qualitativamente iguais e quantitativamente comparáveis. Desse modo, o ouro funciona como medida geral dos valores, e é somente por essa função que ele, a mercadoria equivalente específica, se torna, inicialmente, dinheiro.
Não é o dinheiro que torna as mercadorias comensuráveis. Ocorre o inverso. Como todas as mercadorias são, enquanto valores, trabalho humano objetivado e, por isso, comensuráveis em si mesmas, elas podem medir conjuntamente seus valores numa mesma mercadoria específica e transformá-la, assim, em sua medida comum de valor, ou dinheiro. O dinheiro, como medida do valor, é a forma necessária de manifestação da medida imanente do valor das mercadorias: o tempo de trabalho.50
A expressão do valor de uma mercadoria em ouro, x mercadoria A = y mercadoria-dinheiro, é sua forma-dinheiro, ou seu preço. Basta agora uma equação isolada, como 1 tonelada de ferro = 2 onças de ouro, para representar o valor do ferro de maneira socialmente válida. Essa equação já não precisa marchar em fileiras com as equações de valor das outras mercadorias, porque a mercadoria equivalente, o ouro, já possui o caráter de dinheiro. A forma relativa geral do valor das mercadorias retoma, portanto, a figura de sua forma relativa do valor original, simples ou individual. Por outro lado, a expressão relativa desenvolvida do valor, ou a série interminável de expressões relativas do valor, torna-se a forma relativa do valor específica da mercadoria-dinheiro. Essa série, porém, já está socialmente dada nos preços das mercadorias. Basta ler ao contrário as cotações de uma lista de preços para encontrar a grandeza do valor do dinheiro expressa em todas as espécies possíveis de mercadorias. O dinheiro, em contrapartida, não tem preço. Para participar dessa forma relativa do valor, comum às outras mercadorias, ele teria de relacionar-se consigo mesmo como seu próprio equivalente.
O preço, ou a forma-dinheiro das mercadorias, é, como sua forma de valor em geral, uma forma distinta de sua existência corpórea real e palpável; trata-se, portanto, de uma forma apenas ideal ou representada. O valor do ferro, do tecido de linho, do trigo etc. existe, embora invisível, nessas próprias coisas; é representado por sua igualdade com o ouro, uma relação com o ouro que, por assim dizer, só assombra a cabeça das mercadorias. Por isso, seu guardião precisa meter a língua na cabeça delas ou pendurar-lhes etiquetas de papel para comunicar seus preços ao mundo exterior.51 Como a expressão dos valores das mercadorias em ouro é ideal, também se pode utilizar nessa operação apenas ouro representado, ou ideal. Todo guardião de mercadorias sabe que está longe de dourá-las quando atribui a seu valor a forma do preço, ou a forma ideal do ouro, e que não precisa de uma ínfima quantidade de ouro real para avaliar em ouro milhões de valores de mercadorias. Em sua função de medida do valor, portanto, o dinheiro serve como dinheiro apenas representado, ou ideal. Essa circunstância deu origem às teorias mais extravagantes.52 Embora o dinheiro apenas representado desempenhe a função de medida do valor, o preço depende inteiramente do material monetário real. O valor, isto é, a quantidade de trabalho humano contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, exprime-se numa quantidade representada da mercadoria-dinheiro que contém a mesma quantidade de trabalho. Conforme ouro, prata ou cobre sirvam de medida do valor, o valor de uma tonelada de ferro recebe expressões de preço inteiramente diferentes, ou é representado por quantidades muito diferentes de ouro, prata ou cobre.
Se duas mercadorias diferentes, como ouro e prata, servem simultaneamente de medida do valor, todas as mercadorias possuem duas expressões distintas de preço, preços em ouro e preços em prata, que coexistem tranquilamente enquanto a relação de valor entre prata e ouro permanece inalterada, por exemplo, em 1:15. Qualquer alteração nessa relação de valor, contudo, perturba a relação entre os preços em ouro e em prata das mercadorias e demonstra, de fato, que a duplicação da medida do valor contradiz sua própria função.53
Todas as mercadorias com preço determinado se apresentam, portanto, sob a forma: a mercadoria A = x ouro; b mercadoria B = z ouro; c mercadoria C = y ouro etc., em que a, b e c representam massas determinadas das espécies de mercadorias A, B e C, e x, z e y, massas determinadas de ouro. Os valores das mercadorias transformam-se, assim, em quantidades representadas de ouro de diferentes grandezas. Apesar da variedade confusa dos corpos das mercadorias, tornam-se grandezas de mesma denominação: grandezas de ouro. Como diferentes quantidades de ouro, elas se comparam e se medem umas às outras, e desenvolve-se tecnicamente a necessidade de referi-las a uma quantidade fixa de ouro como unidade de medida. Essa unidade de medida se desenvolve como padrão por meio de sua divisão em partes alíquotas. Antes de se tornarem dinheiro, ouro, prata e cobre já possuem esses padrões em suas medidas de peso, de modo que, por exemplo, uma libra serve de unidade de medida, subdividida, de um lado, em onças etc. e, do outro, somada em Zentner etc.54 Em toda circulação metálica, os nomes já existentes das medidas de peso constituem, portanto, também os nomes originais do padrão monetário, ou padrão dos preços.
Como medida dos valores e como padrão dos preços, o dinheiro exerce duas funções completamente diferentes. É medida dos valores enquanto encarnação social do trabalho humano e padrão dos preços enquanto determinado peso de metal. Como medida do valor, serve para transformar os valores das mais diversas mercadorias em preços, em quantidades representadas de ouro; como padrão dos preços, mede essas quantidades de ouro. Pela medida dos valores, medem-se as mercadorias como valores; o padrão dos preços, em contrapartida, mede quantidades de ouro por meio de uma quantidade de ouro, e não o valor de uma quantidade de ouro pelo peso de outra. Para o padrão dos preços, é preciso fixar determinado peso de ouro como unidade de medida. Aqui, como em todas as outras determinações de medidas de grandezas de mesma denominação, a estabilidade das relações de medida é decisiva. Por isso, o padrão dos preços cumpre tanto melhor sua função quanto mais invariável permanecer a quantidade de ouro adotada como unidade de medida. O ouro só pode servir de medida dos valores porque é, ele próprio, produto do trabalho e, portanto, potencialmente um valor variável.55
Está claro, antes de tudo, que uma mudança no valor do ouro não prejudica em nada sua função como padrão dos preços. Por mais que o valor do ouro varie, diferentes quantidades de ouro conservam sempre a mesma relação de valor entre si. Ainda que o valor do ouro caísse 1.000%,E7 doze onças de ouro continuariam a possuir doze vezes o valor de uma onça, e, nos preços, trata-se apenas da relação entre diferentes quantidades de ouro. Como, por outro lado, uma onça de ouro não altera de modo algum seu peso quando seu valor cai ou sobe, tampouco se altera o peso de suas partes alíquotas. Assim, o ouro, enquanto padrão fixo dos preços, presta sempre o mesmo serviço, qualquer que seja a variação de seu valor.
Uma mudança no valor do ouro também não o impede de funcionar como medida do valor. Ela atinge simultaneamente todas as mercadorias e deixa, caeteris paribusE8, inalterados seus valores relativos recíprocos, embora todas passem a se expressar em preços em ouro mais altos ou mais baixos do que antes.
Assim como na representação do valor de uma mercadoria pelo valor de uso de outra mercadoria qualquer, a avaliação das mercadorias em ouro pressupõe apenas que, num momento dado, a produção de determinada quantidade de ouro custa determinada quantidade de trabalho. Quanto ao movimento dos preços das mercadorias em geral, valem as leis da expressão relativa simples do valor já desenvolvidas anteriormente.
Os preços das mercadorias só podem subir de maneira geral, mantido constante o valor do dinheiro, se os valores das mercadorias subirem; mantidos constantes os valores das mercadorias, se o valor do dinheiro cair. Inversamente, os preços das mercadorias só podem cair de maneira geral, mantido constante o valor do dinheiro, se os valores das mercadorias caírem; mantidos constantes os valores das mercadorias, se o valor do dinheiro subir. Daí não decorre, de maneira alguma, que um valor crescente do dinheiro provoque queda proporcional dos preços das mercadorias, ou que um valor decrescente do dinheiro provoque elevação proporcional desses preços. Isso vale somente para mercadorias cujo valor permanece inalterado. Mercadorias cujo valor, por exemplo, cresce na mesma proporção e ao mesmo tempo que o valor do dinheiro conservam os mesmos preços. Se seu valor cresce mais devagar ou mais depressa que o valor do dinheiro, a queda ou a elevação de seus preços é determinada pela diferença entre o movimento de seu valor e o do dinheiro, e assim por diante.
Voltemos agora à consideração da forma-preço.
Os nomes monetários dos pesos metálicos se separam pouco a pouco de seus nomes originais de peso por diferentes razões, entre as quais são historicamente decisivas: 1. A introdução de dinheiro estrangeiro entre povos menos desenvolvidos, como ocorreu na Roma antiga, onde moedas de prata e ouro circularam primeiro como mercadorias estrangeiras. Os nomes desse dinheiro estrangeiro diferem dos nomes locais das medidas de peso. 2. Com o desenvolvimento da riqueza, o metal menos nobre é afastado pelo mais nobre da função de medida do valor: o cobre pela prata, a prata pelo ouro, por mais que essa sequência contrarie toda a cronologia poética.56E9 A palavra libra, por exemplo, era o nome monetário de uma verdadeira libra de prata. Tão logo o ouro substituiu a prata como medida do valor, o mesmo nome passou talvez a designar 1/15 de libra de ouro, ou outra fração, conforme a relação de valor entre ouro e prata. Libra, como nome monetário, e libra, como nome comum do peso do ouro, passaram então a designar coisas distintas.57 3. A falsificação de moedas praticada pelos príncipes ao longo dos séculos, que, de fato, conservou apenas o nome do peso original das moedas.58
Esses processos históricos transformam em hábito popular a separação entre o nome monetário dos pesos metálicos e seu nome comum de peso. Como o padrão monetário é, de um lado, puramente convencional e, de outro, precisa ter validade geral, acaba sendo regulado por lei. Uma determinada porção de peso do metal precioso, por exemplo, uma onça de ouro, é oficialmente dividida em partes alíquotas que recebem nomes legais de batismo, como libra, táler etc. Essa parte alíquota, que então vale como a verdadeira unidade de medida do dinheiro, é subdividida em outras partes alíquotas, também com nomes estabelecidos por lei, como xelim, penny etc.59 Determinados pesos metálicos continuam, como antes, a ser o padrão do dinheiro metálico. O que mudou foi a divisão e a denominação.
Os preços, ou quantidades de ouro nas quais os valores das mercadorias se transformaram idealmente, passam, portanto, a ser expressos por nomes monetários, ou nomes de conta legalmente válidos, do padrão do ouro. Em vez de dizer que um quarter de trigo equivale a uma onça de ouro, dir-se-ia, na Inglaterra, que equivale a 3 libras esterlinas, 17 xelins e 10½ pence. Assim, as mercadorias dizem, por seus nomes monetários, quanto valem, e o dinheiro serve como dinheiro de conta sempre que se trata de fixar uma coisa como valor e, portanto, na forma-dinheiro.60
O nome de uma coisa é inteiramente exterior à sua natureza. Nada sei a respeito de uma pessoa só por saber que ela se chama Jacobus. Do mesmo modo, nos nomes monetários libra, táler, franco, ducado etc., desaparece todo vestígio da relação de valor. A confusão acerca do sentido secreto desses signos cabalísticos é tanto maior porque os nomes monetários exprimem ao mesmo tempo o valor das mercadorias e partes alíquotas de um peso de metal, o padrão monetário.61 Por outro lado, é necessário que o valor, distinto dos corpos variados do mundo das mercadorias, se desenvolva até essa forma sem conceito, objetivada em coisas, mas também simplesmente social.62
O preço é o nome monetário do trabalho objetivado na mercadoria. A equivalência entre a mercadoria e a quantidade de dinheiro cujo nome é seu preço constitui, portanto, uma tautologia,63 assim como a expressão relativa do valor de uma mercadoria é sempre expressão da equivalência de duas mercadorias. Mas, se o preço, como indicador da grandeza do valor da mercadoria, é indicador de sua relação de troca com o dinheiro, daí não decorre, inversamente, que o indicador de sua relação de troca com o dinheiro seja necessariamente indicador da grandeza de seu valor. Suponhamos que uma mesma quantidade de trabalho socialmente necessário se represente em 1 quarter de trigo e em 2 libras esterlinas (aproximadamente meia onça de ouro). As 2 libras esterlinas são a expressão monetária da grandeza do valor do quarter de trigo, ou seu preço. Se as circunstâncias permitem fixá-lo em 3 libras esterlinas, ou obrigam a fixá-lo em 1 libra esterlina, essas quantias são, como expressões da grandeza do valor do trigo, demasiado grandes ou demasiado pequenas. Ainda assim, continuam sendo preços do trigo, pois, em primeiro lugar, são sua forma de valor, dinheiro, e, em segundo lugar, são indicadores de sua relação de troca com o dinheiro.
Mantidas as condições de produção, ou a força produtiva do trabalho, a reprodução de um quarter de trigo exige, como antes, o dispêndio da mesma quantidade de tempo de trabalho social. Essa circunstância independe da vontade do produtor de trigo e da vontade dos demais proprietários de mercadorias. A grandeza do valor da mercadoria exprime, portanto, uma relação necessária, imanente a seu processo de formação, com o tempo de trabalho social.
Com a transformação da grandeza do valor em preço, essa relação necessária aparece como relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria-dinheiro que existe fora dela. Nessa relação, porém, pode expressar-se tanto a grandeza do valor da mercadoria quanto a quantia maior ou menor pela qual ela é alienável nas circunstâncias dadas. A possibilidade de uma incongruência quantitativa entre preço e grandeza do valor, ou de um desvio do preço em relação à grandeza do valor, reside, portanto, na própria forma-preço. Isso não é um defeito dessa forma; ao contrário, torna-a a forma adequada a um modo de produção no qual a regra só pode impor-se como lei média, atuando cegamente em meio à irregularidade.
A forma-preço, entretanto, admite mais do que a possibilidade de uma incongruência quantitativa entre grandeza do valor e preço, isto é, entre a grandeza do valor e sua própria expressão monetária. Ela pode abrigar uma contradição qualitativa, de modo que o preço deixe inteiramente de ser expressão de valor, embora o dinheiro seja apenas a forma do valor das mercadorias. Coisas que, por si mesmas, não são mercadorias, como a consciência, a honra etc., podem ser oferecidas à venda por dinheiro por seus possuidores e, assim, adquirir a forma de mercadoria por meio de seu preço. Uma coisa pode, portanto, ter formalmente um preço sem ter valor. Nesse caso, a expressão do preço é imaginária, como certas grandezas da matemática. Por outro lado, a forma-preço imaginária, como, por exemplo, o preço do solo não cultivado, que não possui valor porque nele nenhum trabalho humano foi objetivado, pode ocultar uma verdadeira relação de valor, ou uma relação dela derivada.
Como a forma relativa do valor em geral, o preço expressa o valor de uma mercadoria, por exemplo, de uma tonelada de ferro, mediante o fato de uma quantidade determinada do equivalente, por exemplo, uma onça de ouro, ser diretamente trocável por ferro. Daí não decorre, contudo, o inverso: que o próprio ferro seja diretamente trocável por ouro. Para produzir, na prática, o efeito de um valor de troca, a mercadoria precisa despojar-se de seu corpo natural, transformar-se de ouro apenas representado em ouro real, ainda que essa transubstanciação possa lhe custar mais do que ao “conceito” hegeliano a passagem da necessidade à liberdade, a uma lagosta romper sua carapaça ou ao padre da Igreja Jerônimo despir-se do velho Adão.64 Ao lado de sua figura real, por exemplo, o ferro, a mercadoria pode possuir, no preço, uma figura de valor ideal, ou uma figura representada em ouro, mas não pode ser, ao mesmo tempo, ferro real e ouro real.
Para indicar seu preço, basta equiparar a mercadoria ao ouro representado. Para servir a seu proprietário como equivalente geral, porém, ela precisa ser substituída por ouro. Se o proprietário do ferro, por exemplo, se apresentasse ao proprietário de uma mercadoria destinada aos prazeres mundanos e lhe apontasse o preço do ferro, que é sua forma-dinheiro, esse amante dos prazeres responderia como respondeu, no céu, São Pedro a Dante, que lhe havia recitado a profissão de fé:E15
Assai bene è trascorsa
D'esta moneta già la lega e'l peso,
Ma dimmi se tu l'hai nella tua borsa.E16
“Muito bem examinados
já estão a liga e o peso dessa moeda,
mas dize se a tens em tua bolsa.”E17
A forma-preço implica que as mercadorias podem ser alienadas por dinheiro e que essa alienação é necessária. Por outro lado, o ouro só funciona como medida ideal do valor porque já circula, no processo de troca, como mercadoria-dinheiro. Na medida ideal dos valores está à espreita o dinheiro sonante.
2. Meio de circulação
a) A metamorfose das mercadorias
Vimos que o processo de troca das mercadorias encerra relações contraditórias, que se excluem mutuamente. O desenvolvimento da mercadoria não suprime essas contradições; cria, porém, a forma na qual elas podem mover-se. É este, em geral, o modo pelo qual se resolvem as contradições reais. Há contradição, por exemplo, em um corpo cair constantemente em direção a outro e, ao mesmo tempo, afastar-se dele sem cessar. A elipse é uma das formas de movimento em que essa contradição tanto se realiza quanto se resolve.
Na medida em que transfere mercadorias das mãos em que elas não são valores de uso para as mãos em que passam a sê-lo, o processo de troca constitui um metabolismo social. O produto de uma modalidade útil de trabalho substitui o produto de outra. Uma vez chegada ao lugar em que serve como valor de uso, a mercadoria deixa a esfera da troca de mercadorias e ingressa na esfera do consumo. Aqui nos interessa apenas a primeira. Devemos, portanto, examinar todo o processo sob o aspecto da forma, isto é, apenas a mudança de forma, ou metamorfose, das mercadorias, que medeia o metabolismo social.
A compreensão inteiramente insuficiente dessa mudança de forma deve-se, além da falta de clareza quanto ao próprio conceito de valor, ao fato de que cada mudança de forma de uma mercadoria se realiza na troca de duas mercadorias: uma mercadoria comum e a mercadoria-dinheiro. Se nos prendermos exclusivamente a esse momento material, à troca de mercadoria por ouro, deixaremos de perceber precisamente o que importa observar: o que acontece com a forma. Esquecemos que o ouro, como simples mercadoria, ainda não é dinheiro e que as outras mercadorias, por meio de seus preços, já se relacionam com o ouro como sua própria figura monetária.
As mercadorias entram inicialmente no processo de troca sem douramento nem açúcar, com a crista tal como lhes cresceu. Esse processo produz uma duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro: uma oposição exterior na qual se apresenta sua oposição imanente entre valor de uso e valor. Nessa oposição, as mercadorias, enquanto valores de uso, defrontam-se com o dinheiro enquanto valor de troca. Por outro lado, ambos os polos da oposição são mercadorias e, portanto, unidades de valor de uso e valor. Contudo, essa unidade dos diferentes se apresenta de maneira inversa em cada polo e, com isso, exprime igualmente a relação recíproca entre eles. A mercadoria é realmente valor de uso; sua existência como valor aparece apenas idealmente no preço, que a relaciona com o ouro situado diante dela como sua figura real de valor. Inversamente, o material-ouro vale apenas como materialização do valor, como dinheiro. Ele é, portanto, realmente valor de troca. Seu valor de uso aparece apenas idealmente na série de expressões relativas do valor em que o ouro se relaciona com as mercadorias que lhe são contrapostas, como conjunto de suas figuras reais de uso. Essas formas opostas das mercadorias são as formas efetivas de movimento de seu processo de troca.
Acompanhemos agora um proprietário de mercadorias, por exemplo nosso já conhecido tecelão, até a cena do processo de troca, o mercado. Sua mercadoria, 20 varas de tecido de linho, tem preço determinado: 2 libras esterlinas. Ele a troca por 2 libras esterlinas e, homem de hábitos antigos, volta a trocar essas 2 libras esterlinas por uma Bíblia de família de igual preço. O tecido de linho, que para ele era apenas mercadoria, portador de valor, é alienado em troca do ouro, sua figura de valor; dessa forma, torna a ser alienado em troca de outra mercadoria, a Bíblia, que deve entrar na casa do tecelão como objeto de uso e satisfazer ali necessidades de edificação religiosa.
O processo de troca da mercadoria realiza-se, portanto, em duas metamorfoses opostas e complementares: transformação da mercadoria em dinheiro e sua reconversão de dinheiro em mercadoria.65 Os momentos da metamorfose da mercadoria são, ao mesmo tempo, os atos comerciais de seu proprietário: venda, troca de mercadoria por dinheiro; compra, troca de dinheiro por mercadoria; e unidade de ambos os atos, vender para comprar.
Se o tecelão considera o resultado final de seu negócio, possui agora uma Bíblia em lugar do tecido de linho; no lugar de sua mercadoria original, outra de mesmo valor, mas de utilidade distinta. Do mesmo modo, ele se apropria dos demais meios de subsistência e produção de que necessita. De seu ponto de vista, todo o processo apenas medeia a troca de seu produto de trabalho por produtos do trabalho alheio, a troca de produtos.
O processo de troca da mercadoria realiza, assim, a seguinte mudança de forma:
Mercadoria – Dinheiro – Mercadoria (M – D – M).
Quanto ao seu conteúdo material, esse movimento é M – M, troca de mercadoria por mercadoria, metabolismo do trabalho social, cujo resultado põe fim ao próprio processo.
M – D. Primeira metamorfose da mercadoria, ou venda. O salto do valor da mercadoria de seu corpo material para o corpo do ouro é, como já o denominei em outro lugar,E18 o salto mortal da mercadoria. Se ele fracassa, quem sofre as consequências não é a mercadoria, mas seu proprietário. A divisão social do trabalho torna o trabalho desse proprietário tão unilateral quanto são múltiplas as suas necessidades. É precisamente por isso que seu produto lhe serve apenas como valor de troca. Contudo, ele só adquire a forma de equivalente geral socialmente válida em dinheiro, e o dinheiro se encontra no bolso de outra pessoa. Para tirá-lo de lá, a mercadoria precisa, antes de tudo, ser valor de uso para o proprietário do dinheiro; é necessário, portanto, que o trabalho nela despendido tenha sido empregado sob uma forma socialmente útil ou se tenha confirmado como parte da divisão social do trabalho.
Mas a divisão do trabalho é um organismo produtivo que se desenvolveu espontaneamente, e cujos fios se entrelaçaram, e continuam a entrelaçar-se, pelas costas dos produtores de mercadorias. Talvez a mercadoria seja produto de uma nova modalidade de trabalho, que pretenda satisfazer uma necessidade recentemente surgida ou provocar, por conta própria, o surgimento de uma necessidade. Uma atividade particular que ainda ontem era apenas uma entre muitas funções do mesmo produtor pode hoje desprender-se dessa conexão, autonomizar-se e, justamente por isso, enviar ao mercado seu produto parcial como mercadoria independente. As circunstâncias podem estar maduras ou imaturas para esse processo de separação. Hoje o produto satisfaz uma necessidade social; amanhã, talvez seja substituído, total ou parcialmente, por outro produto semelhante. Ainda que o trabalho de nosso tecelão seja um ramo reconhecido da divisão social do trabalho, isso de modo algum garante o valor de uso precisamente das suas 20 varas de tecido de linho.
Se a necessidade social de tecido de linho (que, como qualquer outra, tem sua medida) já foi satisfeita por tecelões concorrentes, o produto de nosso amigo se torna excedente, supérfluo e, portanto, inútil. Não se olha os dentes de cavalo dado; nosso tecelão, porém, não vai ao mercado para distribuir presentes. Suponhamos, ainda assim, que o valor de uso de seu produto se confirme e, por conseguinte, a mercadoria atraia dinheiro. Surge então a pergunta: quanto dinheiro? A resposta já está antecipada no preço da mercadoria, expressão de sua grandeza de valor. Abstraímos de eventuais erros de cálculo puramente subjetivos do proprietário, que o mercado logo corrige objetivamente. Suponhamos que tenha gasto na produção apenas a média de tempo de trabalho socialmente necessária. O preço da mercadoria é, assim, apenas o nome monetário da quantidade de trabalho social objetivada nela.
Mas, sem pedir licença ao nosso tecelão e pelas suas costas, as condições tradicionais da tecelagem entraram em fermentação. Aquilo que ontem era, sem dúvida, o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir uma vara de tecido de linho deixa de sê-lo hoje, como o proprietário de dinheiro demonstra com empenho, apontando os preços oferecidos por diversos concorrentes de nosso amigo. Para seu infortúnio, há muitos tecelões no mundo.
Suponhamos, por fim, que cada peça de tecido de linho existente no mercado contenha apenas tempo de trabalho socialmente necessário. Mesmo assim, a soma total dessas peças pode incorporar tempo de trabalho despendido em excesso. Se o estômago do mercado não consegue absorver toda a quantidade de tecido de linho pelo preço normal de 2 xelins por vara, isso prova que uma parcela excessiva do tempo total de trabalho social foi despendida na forma de tecelagem de linho. O efeito é o mesmo que ocorreria se cada tecelão tivesse gasto, individualmente, mais tempo de trabalho do que o socialmente necessário em seu produto. Aqui vale o dito: presos juntos, enforcados juntos. Todo o tecido de linho que chega ao mercado é considerado um único artigo comercial; cada peça, apenas uma parte alíquota do conjunto. E, de fato, o valor de cada vara individual é somente a materialização da mesma quantidade socialmente determinada de trabalho humano homogêneo.E19
Vê-se que a mercadoria ama o dinheiro, mas “the course of true love never does run smooth”.E20E21 A articulação quantitativa do organismo social de produção é tão espontaneamente casual quanto sua articulação qualitativa: esse organismo apresenta, no sistema da divisão do trabalho, seus membra disjecta, seus membros dispersos. Nossos proprietários de mercadorias descobrem, assim, que a mesma divisão do trabalho que faz deles produtores privados independentes também torna independentes deles o processo social de produção e suas relações dentro desse processo; a independência recíproca das pessoas se completa em um sistema de dependência mediada por coisas em todas as direções.
A divisão do trabalho transforma o produto do trabalho em mercadoria e torna necessária sua transformação em dinheiro. Ao mesmo tempo, deixa ao acaso o êxito dessa transubstanciação. Aqui, entretanto, devemos considerar o fenômeno em sua forma pura e pressupor, portanto, seu curso normal. Se a transformação chega a ocorrer, isto é, se a mercadoria não permanece invendável, sua mudança de forma sempre se efetua, ainda que, de modo anormal, nela se possa perder ou acrescentar substância (grandeza de valor).
Para um proprietário de mercadorias, o ouro substitui sua mercadoria; para outro, uma mercadoria substitui seu ouro. O fenômeno perceptível é a mudança de mãos, ou de lugar, entre mercadoria e ouro, entre 20 varas de tecido de linho e 2 libras esterlinas, isto é, sua troca. Mas por que a mercadoria é trocada? Por sua própria figura geral de valor. E o ouro? Por uma figura particular de seu valor de uso. Por que o ouro se apresenta ao tecido de linho como dinheiro? Porque o preço do tecido, 2 libras esterlinas, seu nome monetário, já o relaciona com o ouro como dinheiro. A mercadoria abandona sua forma original por meio da alienação, isto é, no momento em que seu valor de uso atrai realmente o ouro que até então estava representado apenas em seu preço. A realização do preço, ou da forma de valor apenas ideal da mercadoria, é, inversamente, a realização do valor de uso apenas ideal do dinheiro; a transformação de mercadoria em dinheiro é ao mesmo tempo transformação de dinheiro em mercadoria. O mesmo processo possui, portanto, dois lados: do polo do proprietário da mercadoria, venda; do polo do proprietário de dinheiro, compra. Em outras palavras, vender é comprar: M – D é simultaneamente D – M.66
Até aqui não conhecemos outra relação econômica entre as pessoas além da relação entre proprietários de mercadorias, na qual só se apropriam do produto do trabalho alheio alienando o próprio. Assim, um proprietário de mercadorias só pode defrontar-se com outro enquanto proprietário de dinheiro, seja porque seu produto de trabalho possui, por natureza, a forma de dinheiro, por consistir no material monetário, ouro etc., seja porque sua mercadoria já mudou de pele e se despojou de sua forma de uso original. Para funcionar como dinheiro, o ouro precisa, naturalmente, ingressar em algum ponto no mercado das mercadorias. Esse ponto está em seu local de produção, onde, como produto imediato do trabalho, é trocado por outros produtos do trabalho de igual valor. A partir desse momento, porém, representa continuamente preços realizados de mercadorias.67
À parte a troca de ouro por mercadorias em seu local de produção, o ouro nas mãos de qualquer proprietário é a figura alienada de sua mercadoria vendida, produto da venda, ou da primeira metamorfose da mercadoria, M – D.68 O ouro tornou-se dinheiro ideal, ou medida do valor, porque todas as mercadorias mediram nele seus valores e, desse modo, fizeram dele o oposto imaginado de sua figura de uso, sua figura de valor. Torna-se dinheiro real porque as mercadorias, por sua alienação geral, o transformam em sua figura de uso efetivamente alienada ou transformada e, portanto, em sua figura real de valor. Nessa figura de valor, a mercadoria abandona qualquer vestígio de seu valor de uso natural e do trabalho útil particular ao qual deve sua origem, para se encasular na materialização social uniforme do trabalho humano indiferenciado.
Por isso, não se percebe no dinheiro a espécie de mercadoria que foi nele transformada. Uma mercadoria tem, sob a forma-dinheiro, exatamente a mesma aparência que qualquer outra. Assim, o dinheiro pode ser sujeira, embora a sujeira não seja dinheiro. Suponhamos que as duas moedas de ouro pelas quais nosso tecelão alienou sua mercadoria sejam a forma transformada de um quarter de trigo. A venda do tecido de linho, M – D, é, ao mesmo tempo, sua compra, D – M. Como venda do tecido, esse processo inicia um movimento que termina em seu contrário, na compra da Bíblia; como compra do tecido, encerra um movimento que começou em seu contrário, na venda do trigo. M – D (tecido de linho – dinheiro), a primeira fase de M – D – M (tecido de linho – dinheiro – Bíblia), é simultaneamente D – M (dinheiro – tecido de linho), a última fase de outro movimento M – D – M (trigo – dinheiro – tecido de linho). A primeira metamorfose de uma mercadoria, sua transformação da forma-mercadoria em dinheiro, é sempre, ao mesmo tempo, a segunda metamorfose, de sentido contrário, de outra mercadoria, sua reconversão da forma-dinheiro em mercadoria.69
D – M. Segunda ou última metamorfose da mercadoria: compra. Por ser a forma alienada de todas as outras mercadorias, ou produto de sua alienação geral, o dinheiro é a mercadoria absolutamente alienável. Ele lê todos os preços ao contrário e se reflete, assim, em todos os corpos das mercadorias, que constituem a matéria disponível para sua própria transformação em mercadoria. Ao mesmo tempo, os preços, esses olhos amorosos com que as mercadorias lhe acenam, mostram o limite de sua capacidade de transformação: sua própria quantidade. Como a mercadoria desaparece ao se converter em dinheiro, não é possível perceber no dinheiro como ele chegou às mãos de seu proprietário, nem o que nele se transformou. Non olet,E23 qualquer que seja sua origem. Se, por um lado, representa mercadorias vendidas, por outro, representa mercadorias que se podem comprar.70
D – M, a compra, é simultaneamente venda, M – D; a última metamorfose de uma mercadoria é, portanto, ao mesmo tempo, a primeira metamorfose de outra. Para nosso tecelão, o curso de vida de sua mercadoria termina com a Bíblia, na qual ele reconverteu as 2 libras esterlinas. Mas o vendedor de Bíblias transforma as 2 libras esterlinas recebidas do tecelão em aguardente de cereais. D – M, fase final de M – D – M (tecido de linho – dinheiro – Bíblia), é ao mesmo tempo M – D, primeira fase de M – D – M (Bíblia – dinheiro – aguardente). Como o produtor de mercadorias fornece apenas um produto de determinada espécie, muitas vezes o vende em grandes quantidades, enquanto suas necessidades variadas o obrigam a fracionar constantemente em numerosas compras o preço realizado ou a soma de dinheiro obtida. Uma venda desemboca, portanto, em muitas compras de mercadorias diferentes. A metamorfose final de uma mercadoria constitui, desse modo, a soma das primeiras metamorfoses de outras mercadorias.
Se considerarmos agora a metamorfose total de uma mercadoria, por exemplo do tecido de linho, veremos, em primeiro lugar, que ela é composta de dois movimentos contrários e complementares, M – D e D – M. Essas duas transformações opostas da mercadoria se realizam em dois processos sociais contrários de seu proprietário e se refletem em dois caracteres econômicos opostos da mesma pessoa. Como agente da venda, ele é vendedor; como agente da compra, comprador. Assim como, em cada transformação da mercadoria, suas duas formas, forma-mercadoria e forma-dinheiro, existem simultaneamente, mas em polos opostos, também ao mesmo proprietário, enquanto vendedor, corresponde outro proprietário como comprador e, enquanto comprador, outro como vendedor. E, assim como a mesma mercadoria percorre sucessivamente as duas transformações inversas, passando de mercadoria a dinheiro e de dinheiro a mercadoria, o mesmo proprietário alterna os papéis de vendedor e comprador. Esses papéis, portanto, não são fixos: mudam continuamente de pessoa no interior da circulação das mercadorias.
A metamorfose completa de uma mercadoria pressupõe, em sua forma mais simples, quatro extremos e três personae dramatis.E24 Em primeiro lugar, o dinheiro se contrapõe à mercadoria como sua figura de valor, que possui uma realidade objetiva e palpável do outro lado, no bolso alheio. Assim, um proprietário de dinheiro se contrapõe ao proprietário da mercadoria. Logo que esta se transforma em dinheiro, o dinheiro se torna sua forma equivalente transitória, cujo valor de uso, ou conteúdo, existe do lado de cá, nos corpos de outras mercadorias. Como ponto final da primeira transformação da mercadoria, o dinheiro é, ao mesmo tempo, o ponto de partida da segunda. O vendedor do primeiro ato se converte, assim, em comprador no segundo, no qual um terceiro proprietário de mercadorias lhe aparece como vendedor.71
As duas fases opostas de movimento da metamorfose da mercadoria formam um circuito: forma-mercadoria, abandono da forma-mercadoria, retorno à forma-mercadoria. A própria mercadoria, entretanto, está aqui determinada contraditoriamente. No ponto de partida, ela não é valor de uso para seu proprietário; no ponto de chegada, é valor de uso para ele. Assim, o dinheiro aparece primeiro como o cristal sólido de valor no qual a mercadoria se transforma, para depois se dissolver como sua mera forma de equivalente.
As duas metamorfoses que constituem o circuito de uma mercadoria são, ao mesmo tempo, metamorfoses parciais de sentido inverso de outras duas mercadorias. A mesma mercadoria (tecido de linho) inicia a série de suas próprias metamorfoses e conclui a metamorfose total de outra mercadoria, o trigo. Durante sua primeira transformação, a venda, ela desempenha esses dois papéis em pessoa. Como crisálida de ouro, ao contrário, sob a qual ela própria segue o destino de tudo o que é mortal, conclui também a primeira metamorfose de uma terceira mercadoria. O circuito descrito pela série de metamorfoses de cada mercadoria se entrelaça, portanto, de maneira inextricável com os circuitos de outras mercadorias. O processo total apresenta-se como circulação de mercadorias.
A circulação das mercadorias difere da troca direta de produtos não apenas formalmente, mas em sua essência. Basta reconsiderar o processo. Sem dúvida, o tecelão trocou tecido de linho por uma Bíblia, sua mercadoria por outra. Isso, porém, só é verdade para ele. O vendedor de Bíblias, que prefere o quente ao frio, não pensava em trocar Bíblias por tecido de linho, assim como o tecelão ignora que trigo foi trocado por seu tecido, e assim por diante. A mercadoria de B substitui a de A, mas A e B não trocam reciprocamente suas mercadorias. Pode acontecer que A e B comprem alternadamente um do outro; essa relação particular, entretanto, não decorre de maneira alguma das condições gerais da circulação das mercadorias. De um lado, vê-se como a troca de mercadorias rompe as barreiras individuais e locais da troca direta de produtos e desenvolve o metabolismo do trabalho humano. De outro, forma-se todo um conjunto de conexões sociais naturais que escapam ao controle dos agentes. O tecelão só pode vender tecido de linho porque o camponês vendeu trigo; o vendedor mais afoito só pode vender sua Bíblia porque o tecelão vendeu tecido de linho; o destilador só pode vender sua aguardente porque o outro já vendeu a água da vida eterna, e assim por diante.
Por isso, o processo de circulação também não se extingue, como a troca direta de produtos, na mudança de lugar ou de mãos dos valores de uso. O dinheiro não desaparece ao sair da série de metamorfoses de uma mercadoria. Ele sempre se deposita num lugar da circulação que uma mercadoria deixou vago. Por exemplo, na metamorfose total do tecido de linho (tecido de linho – dinheiro – Bíblia), primeiro sai o tecido de linho da circulação, e o dinheiro ocupa seu lugar; depois sai a Bíblia da circulação, e o dinheiro toma também o lugar dela. A substituição de mercadoria por mercadoria faz com que, ao mesmo tempo, a mercadoria-dinheiro permaneça em mãos de uma terceira pessoa.72 A circulação transpira dinheiro continuamente.
Nada pode ser mais absurdo do que o dogma de que a circulação de mercadorias exige um equilíbrio necessário entre vendas e compras, pelo fato de cada venda ser uma compra e vice-versa.E25 Se isso significa que o número de vendas efetivamente realizadas é igual ao número de compras realizadas, trata-se de uma tautologia banal. O que se pretende provar, porém, é que o vendedor leva consigo ao mercado seu próprio comprador. Venda e compra são um ato idêntico enquanto relação recíproca entre duas pessoas situadas em polos opostos, o proprietário da mercadoria e o proprietário do dinheiro. Mas constituem dois atos opostos quando considerados como ações de uma só pessoa. A identidade entre venda e compra implica, portanto, que a mercadoria se torna inútil quando, lançada à retorta alquímica da circulação, não sai dela sob a forma de dinheiro, isto é, quando não é vendida por seu proprietário nem comprada pelo proprietário do dinheiro.
Essa identidade significa ainda que o processo, quando bem-sucedido, constitui um ponto de repouso, uma fase da vida da mercadoria que pode durar mais ou menos tempo. Como a primeira metamorfose da mercadoria é, ao mesmo tempo, venda e compra, esse processo parcial é também um processo independente. O comprador possui a mercadoria; o vendedor possui o dinheiro, isto é, uma mercadoria que conserva uma forma apta à circulação, quer reapareça no mercado mais cedo, quer mais tarde. Ninguém pode vender sem que outro compre; mas ninguém precisa comprar imediatamente só porque vendeu. A circulação rompe as limitações temporais, espaciais e individuais da troca de produtos justamente porque separa, na oposição entre venda e compra, a identidade imediata que nela existe entre alienar o próprio produto do trabalho e receber o produto alheio. Que os processos que se tornaram independentes uns dos outros constituam uma unidade interna significa, ao mesmo tempo, que essa unidade se move por meio de oposições externas. Se a autonomização exterior desses processos, que são interiormente dependentes porque se complementam, avança até certo ponto, a unidade se impõe violentamente por meio de uma crise.
A oposição imanente à mercadoria entre valor de uso e valor, entre trabalho privado que deve representar-se ao mesmo tempo como trabalho imediatamente social, entre trabalho concreto particular que deve valer, ao mesmo tempo, apenas como trabalho abstrato geral, entre personificação da coisa e coisificação das pessoas: essa contradição imanente recebe, nas oposições das metamorfoses das mercadorias, suas formas desenvolvidas de movimento. Tais formas encerram, portanto, a possibilidade das crises, mas somente a possibilidade. Sua transformação em realidade exige todo um conjunto de relações que ainda não existem do ponto de vista da simples circulação de mercadorias.73
Como mediador da circulação das mercadorias, o dinheiro adquire a função de meio de circulação.
b) A circulação do dinheiro
A mudança de forma pela qual se realiza o metabolismo dos produtos do trabalho, M – D – M, pressupõe que o mesmo valor constitua, como mercadoria, o ponto de partida do processo e retorne a esse mesmo ponto como mercadoria. Esse movimento das mercadorias é, portanto, um ciclo. Por outro lado, a mesma forma exclui o movimento cíclico do dinheiro. Seu resultado é o afastamento constante do dinheiro de seu ponto de partida, e não seu retorno a ele.
Enquanto o vendedor conserva a figura transformada de sua mercadoria, o dinheiro, a mercadoria ainda se encontra no estágio da primeira metamorfose, ou percorreu apenas a primeira metade de sua circulação. Quando se completa o processo de vender para comprar, o dinheiro já se afastou também das mãos de seu proprietário original. É verdade que, se o tecelão, depois de comprar a Bíblia, voltar a vender tecido de linho, o dinheiro também retornará às suas mãos. Esse retorno, contudo, não resulta da circulação das primeiras 20 varas de tecido de linho, que, ao contrário, transferiu o dinheiro das mãos do tecelão para as do vendedor de Bíblias. O dinheiro só retorna pela renovação ou repetição do mesmo processo de circulação com uma nova mercadoria, e o resultado dessa repetição é o mesmo que o do processo anterior.
A forma de movimento que a circulação de mercadorias imprime imediatamente ao dinheiro é, portanto, seu afastamento constante do ponto de partida, sua passagem das mãos de um proprietário de mercadorias às de outro, ou sua circulação (currency, cours de la monnaie).
A circulação do dinheiro apresenta a repetição constante e monótona do mesmo processo. A mercadoria está sempre do lado do vendedor, e o dinheiro, do lado do comprador, como meio de compra. Ele funciona como meio de compra ao realizar o preço da mercadoria. Ao realizar esse preço, transfere a mercadoria das mãos do vendedor para as do comprador, enquanto passa das mãos do comprador para as do vendedor, a fim de repetir o mesmo processo com outra mercadoria.
Fica encoberto o fato de que essa forma unilateral do movimento do dinheiro nasce do movimento de duas faces que caracteriza a mudança de forma da mercadoria. A própria natureza da circulação das mercadorias produz a aparência inversa. A primeira metamorfose da mercadoria é visível tanto como movimento do dinheiro quanto como movimento da própria mercadoria; a segunda metamorfose, porém, só é visível como movimento do dinheiro. Na primeira metade de sua circulação, a mercadoria troca de lugar com o dinheiro. Ao mesmo tempo, sua figura de uso deixa a circulação e ingressa no consumo.74 Em seu lugar surge sua figura de valor, sua máscara monetária. A mercadoria percorre a segunda metade da circulação já sem sua própria pele natural, agora em sua pele de ouro.
Desse modo, a continuidade do movimento fica inteiramente do lado do dinheiro. Para a mercadoria, esse movimento abrange dois processos opostos; como movimento próprio do dinheiro, ele encerra sempre o mesmo processo: a troca de lugar do dinheiro com uma mercadoria a cada vez diferente.
O resultado da circulação de mercadorias, a substituição de uma mercadoria por outra, parece, portanto, ser mediado pela função do dinheiro como meio de circulação, em vez de pela mudança de forma das próprias mercadorias. O dinheiro põe em circulação mercadorias que, por si mesmas, não se movem, transferindo-as das mãos em que não constituem valores de uso para aquelas em que o são, sempre em direção oposta à de seu próprio percurso. Ele afasta continuamente as mercadorias da esfera da circulação, tomando continuamente o lugar delas e, com isso, afastando-se de seu próprio ponto de partida. Embora o movimento do dinheiro seja apenas a expressão da circulação das mercadorias, esta aparece, inversamente, apenas como resultado do movimento do dinheiro.75
Por outro lado, o dinheiro só assume a função de meio de circulação porque é o valor autonomizado das mercadorias. Seu movimento, enquanto meio de circulação, é, portanto, na realidade, apenas o movimento da forma das próprias mercadorias. Este precisa, por isso, refletir-se de modo perceptível na circulação do dinheiro. Assim, por exemplo, o tecido de linho transforma primeiro sua forma-mercadoria em forma-dinheiro. O extremo final de sua primeira metamorfose, M – D, a forma-dinheiro, torna-se então o extremo inicial de sua última metamorfose, D – M, sua reconversão em Bíblia. Cada uma dessas mudanças de forma, entretanto, ocorre por uma troca entre mercadoria e dinheiro, por uma mudança recíproca de lugar. As mesmas moedas chegam às mãos do vendedor como figura alienada da mercadoria e deixam essas mãos como figura absolutamente alienável da mercadoria. Elas mudam de lugar duas vezes. A primeira metamorfose do tecido de linho leva essas moedas ao bolso do tecelão; a segunda as retira de lá. As duas mudanças de forma opostas da mesma mercadoria refletem-se, portanto, em duas mudanças de lugar do dinheiro, em sentidos contrários.
Se, ao contrário, ocorrerem apenas metamorfoses unilaterais de mercadorias, simples vendas ou simples compras, conforme o ponto de vista, o mesmo dinheiro mudará de lugar uma só vez. Sua segunda mudança de lugar exprime sempre a segunda metamorfose da mercadoria, sua reconversão do dinheiro em mercadoria. A repetição frequente das mudanças de lugar das mesmas moedas reflete tanto a série de metamorfoses de uma única mercadoria quanto o encadeamento das inúmeras metamorfoses do mundo das mercadorias. É evidente, aliás, que tudo isso vale somente para a forma de circulação simples das mercadorias aqui examinada.
Toda mercadoria, ao dar seu primeiro passo na circulação, ao efetuar sua primeira mudança de forma, sai da circulação, na qual outras mercadorias continuam entrando. O dinheiro, ao contrário, como meio de circulação, permanece continuamente na esfera da circulação e nela se movimenta sem cessar. Surge, então, a pergunta: quanto dinheiro essa esfera absorve continuamente?
Em um país, ocorrem todos os dias numerosas metamorfoses unilaterais de mercadorias, simultâneas e, por isso, espacialmente paralelas; em outras palavras, simples vendas de um lado e simples compras do outro. Em seus preços, as mercadorias já estão equiparadas a determinadas quantidades representadas de dinheiro. Como a forma imediata de circulação que examinamos confronta fisicamente mercadoria e dinheiro, a primeira no polo da venda e o segundo no polo oposto da compra, a massa de meios de circulação necessária ao processo de circulação do mundo das mercadorias já está determinada pela soma dos preços das mercadorias. De fato, o dinheiro apenas representa realmente a soma de ouro já expressa idealmente na soma dos preços das mercadorias. A igualdade dessas somas é, portanto, evidente.
Sabemos, contudo, que, permanecendo constantes os valores das mercadorias, seus preços variam com o valor do próprio ouro, o material monetário: sobem proporcionalmente quando o valor do ouro cai e caem quando ele sobe. Quer a soma dos preços das mercadorias aumente, quer diminua, a massa do dinheiro em circulação deverá aumentar ou diminuir na mesma proporção. A mudança na massa dos meios de circulação provém, nesse caso, do próprio dinheiro, porém de sua função como medida dos valores, e não de sua função como meio de circulação. Primeiro, o preço das mercadorias varia em sentido contrário ao valor do dinheiro; em seguida, a massa dos meios de circulação varia diretamente com o preço das mercadorias.
Exatamente o mesmo fenômeno ocorreria se, por exemplo, em vez de cair o valor do ouro, a prata o substituísse como medida dos valores, ou se, em vez de subir o valor da prata, o ouro a afastasse dessa função. No primeiro caso, teria de circular mais prata do que antes circulava ouro; no segundo, menos ouro do que antes circulava prata. Nos dois casos, teria mudado o valor do material monetário, isto é, da mercadoria que funciona como medida dos valores; mudaria, por isso, a expressão monetária dos valores das mercadorias e, em consequência, a massa de dinheiro em circulação necessária para realizar esses preços.
Vimos que a esfera de circulação das mercadorias possui uma abertura pela qual o ouro, ou a prata, em suma o material monetário, entra nela como mercadoria de valor determinado. Esse valor já está pressuposto na função do dinheiro como medida dos valores e, portanto, na determinação dos preços. Se, por exemplo, cai o valor da própria medida dos valores, isso se manifesta inicialmente na mudança dos preços das mercadorias que são trocadas diretamente por metais preciosos, como mercadorias, nos locais de produção desses metais. Sobretudo nos estágios menos desenvolvidos da sociedade burguesa, grande parte das demais mercadorias continuará sendo avaliada, ainda por um período prolongado, segundo o valor agora ilusório e ultrapassado da medida dos valores.
Entretanto, uma mercadoria contagia a outra por meio da relação de valor que mantém com ela. Os preços em ouro ou prata das mercadorias ajustam-se gradualmente às proporções determinadas pelos próprios valores, até que todos os valores das mercadorias acabem sendo estimados segundo o novo valor do metal monetário. Esse processo de ajustamento é acompanhado pelo crescimento contínuo da quantidade de metais preciosos que entra na circulação em substituição às mercadorias trocadas diretamente por eles.
Assim, à medida que se generaliza a correção dos preços das mercadorias, ou que seus valores passam a ser estimados segundo o novo valor, mais baixo e ainda decrescente até certo ponto, do metal, já se encontra disponível a massa adicional desse metal necessária para realizar tais preços. A observação unilateral dos fatos que sucederam à descoberta de novas fontes de ouro e prata levou, no século XVII e principalmente no XVIII, à conclusão equivocada de que os preços das mercadorias haviam subido porque mais ouro e prata funcionavam como meios de circulação. No que se segue, consideraremos dado o valor do ouro, como efetivamente ele está dado no momento em que os preços são estimados.
Sob esse pressuposto, a massa dos meios de circulação é determinada, portanto, pela soma dos preços das mercadorias a realizar. Suponhamos ainda que o preço de cada espécie de mercadoria esteja dado. Evidentemente, a soma dos preços das mercadorias depende então da massa de mercadorias que se encontra em circulação. Não é preciso quebrar muito a cabeça para compreender que, se um quarter de trigo custa 2 libras esterlinas, 100 quarters custam 200 libras, 200 quarters custam 400 libras e assim por diante, a massa de dinheiro que troca de lugar com o trigo no momento da venda deve crescer com a massa desse trigo.
Supondo dada a massa de mercadorias, a massa de dinheiro circulante sobe e desce com as oscilações dos preços. Aumenta ou diminui porque a soma dos preços das mercadorias cresce ou se reduz em consequência dessas oscilações. Para isso, é inteiramente desnecessário que os preços de todas as mercadorias subam ou caiam ao mesmo tempo. Basta que o preço de certo número de artigos decisivos aumente em um caso ou diminua no outro para elevar ou reduzir a soma dos preços de todas as mercadorias em circulação que precisa ser realizada e, consequentemente, pôr em circulação mais ou menos dinheiro. O efeito sobre a massa dos meios de circulação é o mesmo, quer a mudança de preços reflita uma mudança real de valor das mercadorias, quer represente apenas uma oscilação de seus preços de mercado.
Suponhamos um número de vendas simultâneas, independentes umas das outras e, por isso, espacialmente paralelas, ou de metamorfoses parciais: por exemplo, um quarter de trigo, 20 varas de tecido de linho, uma Bíblia e quatro galões de aguardente de cereais. Se o preço de cada artigo é de 2 libras esterlinas e, portanto, a soma dos preços a realizar é de 8 libras, uma massa de dinheiro de 8 libras esterlinas deve entrar em circulação. Mas, se essas mesmas mercadorias forem elos de uma série de metamorfoses que já conhecemos,
1 quarter de trigo – 2 libras esterlinas – 20 varas de tecido de linho – 2 libras esterlinas – 1 Bíblia – 2 libras esterlinas – 4 galões de aguardente de cereais – 2 libras esterlinas,
as mesmas 2 libras esterlinas fazem circular sucessivamente as diferentes mercadorias, realizando seus preços um após o outro e, portanto, também a soma total de 8 libras esterlinas, até repousarem, por fim, nas mãos do destilador. Elas completam quatro circulações.
Essa mudança repetida de lugar das mesmas moedas representa a dupla mudança de forma da mercadoria, seu movimento por dois estágios opostos da circulação e o encadeamento das metamorfoses de diferentes mercadorias.76 As fases opostas e complementares pelas quais esse processo transcorre não podem ocorrer simultaneamente, lado a lado no espaço, pois precisam suceder-se no tempo. Os intervalos de tempo constituem, portanto, a medida de sua duração; ou seja, o número de circulações das mesmas moedas em determinado tempo mede a velocidade da circulação do dinheiro. Suponhamos que o processo de circulação daquelas quatro mercadorias dure um dia. Nesse caso, a soma dos preços a realizar será de 8 libras esterlinas; o número de circulações das mesmas moedas durante o dia, quatro; e a massa de dinheiro circulante, 2 libras esterlinas. Assim, para um intervalo de tempo determinado do processo de circulação:
Soma dos preços das mercadorias ÷ número de circulações das moedas de mesma denominação = massa de dinheiro que funciona como meio de circulação.
Essa lei tem validade geral. O processo de circulação de um país durante determinado período compreende, de um lado, numerosas vendas ou compras dispersas, simultâneas e espacialmente paralelas, metamorfoses parciais em que as mesmas moedas mudam de lugar apenas uma vez ou completam uma única circulação. De outro lado, compreende também numerosas séries de metamorfoses, algumas paralelas, outras entrecruzadas, com mais ou menos elos, nas quais as mesmas moedas completam um número maior ou menor de circulações. O número total de circulações de todas as moedas de mesma denominação presentes na circulação permite obter o número médio de circulações de cada moeda, ou a velocidade média da circulação do dinheiro.
A massa de dinheiro lançada na circulação no início, por exemplo, de um dia é naturalmente determinada pela soma dos preços das mercadorias que circulam simultaneamente e lado a lado no espaço. Mas, dentro do processo, uma moeda, por assim dizer, passa a responder pela outra. Se uma acelera sua velocidade de circulação, a velocidade da outra diminui, ou ela é inteiramente expulsa da esfera de circulação, pois essa esfera só consegue absorver uma massa de ouro que, multiplicada pelo número médio de circulações de seus elementos individuais, iguale a soma dos preços a realizar. Portanto, se cresce o número de circulações das moedas, diminui sua massa circulante; se diminui o número de circulações, aumenta essa massa. Como, para uma velocidade média dada, está determinada a massa de dinheiro capaz de funcionar como meio de circulação, basta, por exemplo, lançar na circulação certa quantidade de notas de uma libra esterlina para expulsar dela igual quantidade de sovereigns, expediente conhecido por todos os bancos.
Assim como a circulação do dinheiro manifesta, em geral, o processo de circulação das mercadorias, isto é, seu ciclo por metamorfoses opostas, a velocidade da circulação do dinheiro manifesta a velocidade de sua mudança de forma: a conexão contínua entre as séries de metamorfoses, a rapidez do metabolismo, o rápido desaparecimento das mercadorias da esfera de circulação e sua substituição igualmente rápida por novas mercadorias. Na velocidade da circulação do dinheiro, aparece, portanto, a unidade fluida das fases opostas e complementares: transformação da figura de uso em figura de valor e reconversão da figura de valor em figura de uso, ou dos dois processos de venda e compra.
Inversamente, o retardamento da circulação do dinheiro manifesta a separação e a autonomização antagônica desses processos, a interrupção da mudança de forma e, por conseguinte, do metabolismo. Naturalmente, a própria circulação não revela de onde procede essa interrupção: mostra apenas o fenômeno. Para a concepção popular, que vê o dinheiro aparecer e desaparecer com menor frequência em todos os pontos da periferia da circulação quando esta se retarda, é fácil explicar o fenômeno por uma quantidade insuficiente de meios de circulação.77
A quantidade total de dinheiro que funciona como meio de circulação em cada período é, portanto, determinada, de um lado, pela soma dos preços do conjunto das mercadorias circulantes e, de outro, pelo fluxo mais lento ou mais rápido de seus processos opostos de circulação, do qual depende a fração daquela soma dos preços que pode ser realizada pelas mesmas moedas. A soma dos preços das mercadorias, por sua vez, depende tanto da massa quanto dos preços de cada espécie de mercadoria.
Os três fatores, movimento dos preços, massa de mercadorias em circulação e velocidade de circulação do dinheiro, podem, porém, variar em diferentes sentidos e proporções. Por isso, a soma dos preços a realizar e a massa de meios de circulação que dela depende podem assumir combinações muito numerosas. Enumeraremos aqui apenas as mais importantes na história dos preços das mercadorias.
Se os preços das mercadorias permanecem constantes, a massa dos meios de circulação pode aumentar porque cresce a massa das mercadorias circulantes, porque diminui a velocidade de circulação do dinheiro ou porque ambos os fatores atuam simultaneamente. Pode, inversamente, diminuir se a massa de mercadorias diminuir ou se a velocidade de circulação aumentar.
Se os preços das mercadorias sobem de maneira geral, a massa dos meios de circulação pode permanecer constante quando a massa de mercadorias circulantes diminui na mesma proporção em que os preços aumentam, ou quando a velocidade de circulação do dinheiro aumenta tão rapidamente quanto os preços, permanecendo constante a massa de mercadorias. Essa massa de meios de circulação pode diminuir se a massa de mercadorias diminuir mais depressa do que aumentam os preços, ou se a velocidade de circulação aumentar mais depressa do que eles.
Se os preços das mercadorias caem de maneira geral, a massa dos meios de circulação pode permanecer constante quando a massa de mercadorias cresce na mesma proporção em que os preços caem, ou quando a velocidade de circulação do dinheiro diminui na mesma proporção. Ela pode crescer se a massa de mercadorias crescer mais depressa, ou se a velocidade de circulação diminuir mais depressa, do que caem os preços das mercadorias.
As variações dos diferentes fatores podem compensar-se mutuamente, de tal modo que, apesar de sua instabilidade constante, a soma total dos preços das mercadorias a realizar permaneça constante e, com ela, a massa de dinheiro circulante. Assim, sobretudo quando se consideram períodos um pouco mais longos, encontra-se em cada país um nível médio da massa de dinheiro em circulação muito mais constante e, salvo perturbações intensas e periódicas provocadas por crises de produção e de comércio, ou, mais raramente, por uma mudança do próprio valor do dinheiro, desvios desse nível médio muito menores do que se poderia esperar à primeira vista.
A lei segundo a qual a quantidade de meios de circulação é determinada pela soma dos preços das mercadorias circulantes e pela velocidade média de circulação do dinheiro78 também pode ser formulada assim: dadas a soma dos valores das mercadorias e a velocidade média de suas metamorfoses, a quantidade de dinheiro circulante, ou de material monetário, depende de seu próprio valor.
A ilusão inversa, segundo a qual os preços das mercadorias seriam determinados pela massa dos meios de circulação e esta, por sua vez, pela quantidade de material monetário existente em um país79, apoia-se, entre os primeiros representantes dessa doutrina, na hipótese absurda de que mercadorias sem preço e dinheiro sem valor entram no processo de circulação, onde então uma parte alíquota da papa de mercadoriasE31 seria trocada por uma parte alíquota da montanha de metal.80
c) A moeda. O signo de valor
Da função do dinheiro como meio de circulação nasce sua forma de moeda. A fração de peso de ouro representada no preço, ou nome monetário, das mercadorias deve confrontá-las na circulação como uma peça de ouro de mesma denominação, isto é, como moeda. Assim como a fixação do padrão dos preços, a cunhagem de moedas cabe ao Estado. Nos diferentes uniformes nacionais que ouro e prata vestem quando se apresentam como moedas, e dos quais se despem novamente no mercado mundial, manifesta-se a separação entre as esferas internas, ou nacionais, da circulação de mercadorias e sua esfera geral, a do mercado mundial.
De início, portanto, a moeda de ouro e o ouro em barras diferem apenas pela forma, e o ouro pode ser constantemente transformado de uma forma na outra.81 O caminho que conduz para fora da moeda também conduz ao cadinho. Com efeito, durante a circulação, as moedas de ouro sofrem desgaste, umas mais, outras menos. A denominação em ouro e a substância de ouro, o teor nominal e o teor real, começam a separar-se. Moedas de ouro de mesma denominação passam a ter valores diferentes, porque seus pesos são diferentes. O ouro, como meio de circulação, afasta-se do ouro como padrão dos preços e deixa, com isso, de ser o equivalente efetivo das mercadorias cujos preços realiza. A história dessas perturbações constitui a história da moeda na Idade Média e na época moderna, até o século XVIII. A tendência espontânea do processo de circulação a transformar o ser-ouro da moeda em aparência de ouro, ou a transformar a moeda em símbolo de seu teor metálico oficial, é reconhecida até pelas leis mais recentes que estabelecem o grau de perda de metal a partir do qual uma peça de ouro deixa de poder circular ou é desmonetizada.
Se a própria circulação do dinheiro separa o teor real do teor nominal da moeda, sua existência metálica de sua existência funcional, ela contém, em estado latente, a possibilidade de substituir o dinheiro metálico, em sua função de moeda, por peças de outro material ou por símbolos. As dificuldades técnicas de cunhar frações diminutas do peso do ouro ou da prata e a circunstância de que metais menos nobres tenham servido originalmente como medida dos valores no lugar dos mais nobres, a prata no lugar do ouro, o cobre no lugar da prata, e, portanto, tenham circulado como dinheiro no momento em que foram destronados pelo metal mais nobre, explicam historicamente o papel das peças de prata e de cobre como substitutos da moeda de ouro. Essas peças substituem o ouro nos setores da circulação de mercadorias em que a moeda circula mais depressa e, por isso, sofre desgaste mais rapidamente, isto é, onde compras e vendas se renovam sem cessar em escala mínima. Para impedir que esses satélites se instalem no lugar do próprio ouro, a lei limita a proporções muito pequenas a obrigação de aceitá-los em pagamento no lugar do ouro. Os setores particulares em que circulam as diferentes espécies de moeda naturalmente se interpenetram. A moeda divisionária aparece ao lado do ouro para pagar frações da menor moeda de ouro; o ouro entra continuamente na circulação de varejo, mas dela é também continuamente expulso por sua troca por moeda divisionária.82
O teor metálico das peças de prata ou de cobre é fixado arbitrariamente pela lei. Na circulação, elas se desgastam ainda mais depressa do que as moedas de ouro. Por isso, sua função como moeda torna-se, de fato, inteiramente independente de seu peso, isto é, de qualquer valor. A existência do ouro como moeda separa-se por completo de sua substância de valor. Coisas relativamente desprovidas de valor, como pedaços de papel, podem, portanto, funcionar como moeda em seu lugar. Nas peças metálicas que representam dinheiro, o caráter puramente simbólico ainda permanece, até certo ponto, oculto; no papel-moeda, torna-se evidente. Vê-se: Ce n'est que le premier pas qui coûte.E35E36
Tratamos aqui apenas do papel-moeda estatal de curso forçado. Ele nasce diretamente da circulação metálica. O dinheiro de crédito, ao contrário, pressupõe relações que, do ponto de vista da circulação simples de mercadorias, ainda nos são inteiramente desconhecidas. Observe-se, de passagem, que, assim como o papel-moeda propriamente dito nasce da função do dinheiro como meio de circulação, o dinheiro de crédito tem sua raiz espontânea na função do dinheiro como meio de pagamento.83
O Estado lança de fora no processo de circulação pedaços de papel nos quais estão impressos nomes monetários, como 1 libra esterlina, 5 libras esterlinas etc. Na medida em que efetivamente circulam no lugar das somas de ouro de mesma denominação, seu movimento apenas reflete as próprias leis da circulação do dinheiro. Uma lei específica da circulação do papel-moeda só pode decorrer de sua relação de representação com o ouro. Essa lei é simplesmente a seguinte: a emissão de papel-moeda deve limitar-se à quantidade de ouro, ou de prata, simbolicamente representada por ele, que teria de circular efetivamente. É verdade que a quantidade de ouro que a esfera de circulação pode absorver oscila continuamente acima e abaixo de certo nível médio. Entretanto, a massa do meio circulante em determinado país nunca cai abaixo de certo mínimo, estabelecido pela experiência. O fato de que essa massa mínima substitua continuamente seus componentes, isto é, seja formada sempre por outras peças de ouro, nada altera em sua magnitude nem em seu movimento constante na esfera de circulação. Ela pode, portanto, ser substituída por símbolos de papel. Se hoje, porém, todos os canais da circulação forem preenchidos com papel-moeda até o limite de sua capacidade de absorção de dinheiro, amanhã poderão estar superlotados em consequência das oscilações da circulação de mercadorias. Perde-se toda medida.
Se o papel ultrapassa sua medida, isto é, a quantidade de moedas de ouro de mesma denominação que poderia circular, ele continua, abstraída a ameaça de descrédito geral, a representar no mundo das mercadorias somente a quantidade de ouro determinada pelas leis imanentes desse mundo e que, por isso, é a única representável. Se a massa de notas de papel representar, por exemplo, duas onças de ouro em vez de uma onça, então, na prática, uma libra esterlina passará a ser o nome monetário, digamos, de um oitavo de onça, em vez de um quarto de onça. O efeito será o mesmo que ocorreria se o ouro tivesse sido alterado em sua função de padrão dos preços. Os mesmos valores que antes se exprimiam no preço de uma libra esterlina passam agora a se exprimir no preço de duas libras esterlinas.
O papel-moeda é signo de ouro, ou signo de dinheiro. Sua relação com os valores das mercadorias consiste unicamente no fato de que esses valores se exprimem idealmente nas mesmas quantidades de ouro que o papel representa simbolicamente de forma sensível. O papel-moeda só é signo de valor na medida em que representa quantidades de ouro que, como todas as demais quantidades de mercadorias, são também quantidades de valor.84
Pergunta-se, finalmente, por que o ouro pode ser substituído por meros signos de si mesmo, desprovidos de valor. Como vimos, porém, ele só pode ser substituído desse modo na medida em que se encontra isolado, ou autonomizado, em sua função de moeda ou meio de circulação. Essa autonomização da função não ocorre, é verdade, para cada moeda de ouro tomada isoladamente, embora se manifeste na circulação continuada de peças de ouro desgastadas. As peças de ouro só são simples moedas, ou meios de circulação, enquanto efetivamente se encontram em circulação. O que não vale para cada moeda de ouro vale, entretanto, para a massa mínima de ouro que pode ser substituída por papel-moeda. Essa massa permanece constantemente na esfera de circulação, funciona ininterruptamente como meio de circulação e, portanto, existe exclusivamente como portadora dessa função. Seu movimento representa apenas a transformação contínua de um no outro dos processos opostos da metamorfose das mercadorias, M – D – M, na qual a mercadoria se defronta com sua figura de valor apenas para que esta desapareça imediatamente em seguida. A representação autônoma do valor de troca da mercadoria é aqui apenas um momento fugaz. Ela é imediatamente substituída por outra mercadoria. Por isso, a existência meramente simbólica do dinheiro basta num processo que o transfere continuamente de uma mão para outra. Sua existência funcional absorve, por assim dizer, sua existência material. Reflexo objetivado, destinado a desaparecer, dos preços das mercadorias, o dinheiro funciona agora apenas como signo de si mesmo e pode, portanto, ser substituído por signos.85 O signo do dinheiro, contudo, necessita de uma validade social objetiva própria, e o símbolo de papel a obtém mediante o curso forçado. A imposição estatal só vigora dentro da esfera interna de circulação, delimitada pelas fronteiras de uma comunidade política; é também somente aí que o dinheiro se reduz inteiramente à função de meio de circulação, ou moeda, podendo assim adquirir, no papel-moeda, um modo de existência meramente funcional, exteriormente separado de sua substância metálica.
3. Dinheiro
A mercadoria que funciona como medida dos valores e, por isso, também como meio de circulação, quer em sua forma corpórea, quer por meio de representantes, é dinheiro. O ouro (ou a prata) é, portanto, dinheiro. Funciona como dinheiro, por um lado, quando tem de aparecer em sua corporeidade de ouro (ou de prata), isto é, como mercadoria-dinheiro, e não apenas de modo ideal, como na medida dos valores, nem podendo ser representado por substitutos, como no meio de circulação. Por outro lado, funciona como dinheiro quando sua função, exercida em pessoa ou por intermédio de representantes, o fixa diante de todas as outras mercadorias, consideradas simples valores de uso, como a única figura do valor ou a única existência adequada do valor de troca.
a) Formação de tesouros
O ciclo contínuo das duas metamorfoses opostas da mercadoria, ou a passagem fluida da venda à compra, aparece no movimento incessante do dinheiro, em sua função de perpetuum mobile da circulação. O dinheiro se imobiliza ou, como diz Boisguillebert, transforma-se de meuble em immeubleE39, de moeda em dinheiro, tão logo a série das metamorfoses seja interrompida e a venda deixe de ser complementada por uma compra subsequente.
Com o desenvolvimento inicial da circulação das mercadorias desenvolvem-se também a necessidade e a paixão de reter o produto da primeira metamorfose, a figura transformada da mercadoria, sua pupa de ouro.86 Vende-se a mercadoria para substituir sua forma de mercadoria pela forma-dinheiro, em vez de vender para comprar outra mercadoria. A mudança de forma, que era simples mediação do metabolismo, converte-se em finalidade própria. Impede-se que a figura alienada da mercadoria funcione como sua figura absolutamente alienável, como forma-dinheiro destinada a desaparecer. O dinheiro se petrifica, assim, em tesouro, e o vendedor de mercadorias se converte em formador de tesouros.
Precisamente nos primórdios da circulação das mercadorias, apenas o excedente dos valores de uso se transforma em dinheiro. Ouro e prata tornam-se, por isso, expressões sociais do excedente ou da riqueza. Essa forma ingênua de formação de tesouros perpetua-se entre povos cujo modo tradicional de produção, orientado para a satisfação das próprias necessidades, corresponde a um círculo de necessidades rigidamente delimitado. É o caso de povos asiáticos, especialmente dos indianos. Vanderlint, que supõe que os preços das mercadorias sejam determinados pela massa de ouro e prata existente num país, pergunta por que as mercadorias indianas são tão baratas. Resposta: porque os indianos enterram o dinheiro. Entre 1602 e 1734, observa ele, enterraram 150 milhões de libras esterlinas em prata, originalmente levada da América para a Europa.87 De 1856 a 1866, portanto em dez anos, a Inglaterra exportou para a Índia e a China 120 milhões de libras esterlinas em prata, anteriormente adquirida em troca de dinheiro australiano. Grande parte do metal exportado para a China voltou a fluir para a Índia.
Com uma produção de mercadorias mais desenvolvida, cada produtor precisa assegurar para si o nervus rerum, o “penhor social”.88 Suas necessidades renovam-se continuamente e exigem compras incessantes de mercadorias alheias, enquanto a produção e a venda de sua própria mercadoria requerem tempo e estão sujeitas ao acaso. Para comprar sem vender, ele precisa ter vendido anteriormente sem comprar. Essa operação, realizada em escala geral, parece contradizer a si mesma. Entretanto, nas fontes de sua produção, os metais preciosos são trocados diretamente por outras mercadorias. Ali ocorre uma venda, do lado dos proprietários de mercadorias, sem compra, do lado dos proprietários de ouro e prata.89 As vendas posteriores que não são seguidas por compras apenas medeiam a distribuição dos metais preciosos entre todos os proprietários de mercadorias. Desse modo, em todos os pontos das relações de troca surgem tesouros de ouro e prata das mais variadas dimensões.
Com a possibilidade de reter a mercadoria enquanto valor de troca, ou de reter o valor de troca enquanto mercadoria, desperta a avidez pelo ouro. À medida que se amplia a circulação das mercadorias, cresce o poder do dinheiro, essa forma absolutamente social da riqueza, sempre pronta para entrar em ação.
“O ouro é uma coisa maravilhosa! Quem o possui é senhor de tudo o que deseja. Com o ouro, pode-se até fazer chegar almas ao paraíso.” (Colombo, em carta escrita na Jamaica, 1503.)
Como não se pode reconhecer, no dinheiro, aquilo que foi transformado nele, tudo se transforma em dinheiro, seja mercadoria ou não. Tudo se torna vendável e comprável. A circulação converte-se na grande retorta social em que tudo é lançado para reaparecer sob a forma de cristal de dinheiro. Nem mesmo ossos de santos resistem a essa alquimia, muito menos as res sacrosanctae, extra commercium hominum menos grosseiras.E4090 Assim como no dinheiro se apagam todas as diferenças qualitativas entre mercadorias, ele próprio, como nivelador radical, apaga todas as diferenças.91 Entretanto, o próprio dinheiro é mercadoria, coisa exterior que pode tornar-se propriedade privada de qualquer pessoa. O poder social converte-se, desse modo, em poder privado de um indivíduo. A sociedade antiga o denuncia, por isso, como moeda divisionária de sua ordem econômica e moral.E4292 A sociedade moderna, que já em sua infância arranca Pluto pelos cabelos das entranhas da terra,93 saúda no Graal de ouro a encarnação resplandecente do princípio mais próprio de sua vida.
A mercadoria, como valor de uso, satisfaz uma necessidade particular e constitui um elemento particular da riqueza material. Seu valor, porém, mede o grau de atração que exerce sobre todos os elementos da riqueza material e, portanto, a riqueza social de seu proprietário. Para o proprietário de mercadorias de uma simplicidade bárbara, mesmo para um camponês da Europa ocidental, o valor é inseparável da forma do valor; o aumento do tesouro em ouro e prata é, assim, aumento de valor. É certo que o valor do dinheiro varia, seja por uma alteração de seu próprio valor, seja por uma alteração do valor das mercadorias. Isso, contudo, não impede que 200 onças de ouro continuem a conter mais valor que 100, e 300 mais que 200, e assim por diante, nem que a forma metálica natural dessa coisa permaneça a forma de equivalente geral de todas as mercadorias, a encarnação imediatamente social de todo trabalho humano. O impulso à formação de tesouros é, por sua natureza, desmedido.
Qualitativamente, ou quanto à sua forma, o dinheiro não conhece limites: é o representante universal da riqueza material, porque pode ser diretamente convertido em qualquer mercadoria. Ao mesmo tempo, toda soma efetiva de dinheiro é quantitativamente limitada e, portanto, meio de compra com eficácia limitada. Essa contradição entre o limite quantitativo e a ausência qualitativa de limites do dinheiro impele incessantemente o formador de tesouros de volta ao trabalho de Sísifo da acumulação. Acontece com ele o mesmo que com o conquistador do mundo, que, a cada novo território conquistado, conquista apenas uma nova fronteira.
Para conservar o ouro como dinheiro e, portanto, como elemento da formação de tesouros, é preciso impedi-lo de circular ou de se dissolver, como meio de compra, em meios de fruição. O formador de tesouros sacrifica ao fetiche do ouro seus prazeres carnais. Leva a sério o evangelho da renúncia. Por outro lado, só pode retirar dinheiro da circulação na medida em que nela introduz mercadorias. Quanto mais produz, mais pode vender. Trabalho diligente, parcimônia e avareza constituem, assim, suas virtudes cardeais; vender muito e comprar pouco é toda a sua economia política.94
Ao lado da forma imediata do tesouro desenvolve-se sua forma estética, a posse de objetos de ouro e prata. Ela cresce com a riqueza da sociedade burguesa. “Soyons riches ou paraissons riches”E43, diz Diderot. Forma-se assim, por um lado, um mercado cada vez mais amplo para o ouro e a prata, independentemente de suas funções monetárias; por outro, uma fonte latente de abastecimento de dinheiro, que flui especialmente nos períodos de convulsão social.
A formação de tesouros desempenha diferentes funções na economia da circulação metálica. A primeira resulta das condições de circulação das moedas de ouro ou de prata. Vimos que, com as oscilações contínuas da circulação das mercadorias quanto à extensão, aos preços e à velocidade, a massa de dinheiro em circulação passa incessantemente pela vazante e pela enchente. Ela precisa, portanto, poder contrair-se e expandir-se. Ora o dinheiro tem de ser atraído como moeda, ora a moeda tem de ser repelida como dinheiro. Para que a massa de dinheiro efetivamente circulante corresponda sempre ao grau de saturação da esfera da circulação, a quantidade de ouro ou de prata existente num país precisa ser maior do que aquela empregada na função de moeda. A forma de tesouro do dinheiro satisfaz essa condição. Os reservatórios de tesouros servem, ao mesmo tempo, como canais de escoamento e de abastecimento do dinheiro circulante, que, por isso, nunca transborda seus canais de circulação.95
b) Meio de pagamento
Na forma imediata da circulação das mercadorias examinada até aqui, a mesma grandeza de valor estava sempre presente duas vezes: como mercadoria num dos polos e como dinheiro no polo oposto. Por isso, os proprietários de mercadorias só entravam em contato como representantes de equivalentes reciprocamente presentes. Com o desenvolvimento da circulação das mercadorias, porém, desenvolvem-se relações que separam no tempo a alienação da mercadoria e a realização de seu preço. Basta indicar aqui as mais simples dessas relações.
Uma espécie de mercadoria exige mais tempo para ser produzida, outra exige menos. A produção de diferentes mercadorias está ligada a diferentes estações do ano. Uma mercadoria nasce no lugar onde se encontra seu mercado; outra precisa viajar até um mercado distante. Assim, um proprietário de mercadorias pode apresentar-se como vendedor antes que o outro se apresente como comprador. Quando as mesmas transações se repetem continuamente entre as mesmas pessoas, as condições de venda das mercadorias passam a regular-se pelas condições de sua produção.
Por outro lado, vende-se a utilização de certas espécies de mercadorias, por exemplo, uma casa, por um período determinado. Só ao término desse prazo o comprador terá realmente recebido o valor de uso da mercadoria. Portanto, ele a compra antes de pagá-la. Um proprietário de mercadorias vende uma mercadoria já existente; o outro compra como simples representante de dinheiro, ou como representante de dinheiro futuro. O vendedor torna-se credor; o comprador, devedor. Como aqui se altera a metamorfose da mercadoria, ou o desenvolvimento de sua forma de valor, o dinheiro também recebe outra função. Torna-se meio de pagamento.96
O caráter de credor ou devedor nasce aqui da circulação simples das mercadorias. A mudança de forma desta imprime no vendedor e no comprador essas novas marcas. Inicialmente, portanto, são papéis tão transitórios e alternadamente desempenhados pelos mesmos agentes da circulação quanto os de vendedor e comprador. Entretanto, a oposição apresenta-se desde o início sob aspecto menos amistoso e é capaz de uma cristalização mais intensa.97 Esses mesmos personagens também podem aparecer independentemente da circulação das mercadorias. A luta de classes no mundo antigo, por exemplo, desenvolve-se principalmente sob a forma de luta entre credores e devedores e termina, em Roma, com a ruína do devedor plebeu, substituído pelo escravo. Na Idade Média, a luta termina com a ruína do devedor feudal, que perde seu poder político juntamente com a base econômica desse poder. Aqui, entretanto, a forma monetária (e a relação entre credor e devedor tem a forma de uma relação monetária) reflete apenas o antagonismo de condições econômicas de vida mais profundas.
Voltemos à esfera da circulação das mercadorias. Cessou a apresentação simultânea dos equivalentes mercadoria e dinheiro nos dois polos do processo de venda. O dinheiro funciona agora, em primeiro lugar, como medida dos valores na determinação do preço da mercadoria vendida. Seu preço contratualmente fixado mede a obrigação do comprador, isto é, a soma de dinheiro que ele deve em determinada data. Em segundo lugar, funciona como meio ideal de compra. Embora exista apenas na promessa de pagamento feita pelo comprador, provoca a mudança de mãos da mercadoria. Só na data em que vence o pagamento o meio de pagamento entra efetivamente em circulação, isto é, passa das mãos do comprador às do vendedor. O meio de circulação transformava-se em tesouro porque o processo de circulação se interrompia depois da primeira fase, ou porque a figura transformada da mercadoria era retirada da circulação. O meio de pagamento entra na circulação depois que a mercadoria já saiu dela. O dinheiro deixa de mediar o processo e o encerra autonomamente, como existência absoluta do valor de troca ou mercadoria universal. O vendedor transformava a mercadoria em dinheiro para satisfazer, por meio deste, uma necessidade; o formador de tesouros, para conservar a mercadoria sob a forma-dinheiro; o comprador devedor, para poder pagar. Se não paga, seus bens são vendidos à força. A figura de valor da mercadoria, o dinheiro, torna-se, assim, a finalidade própria da venda, por uma necessidade social que nasce das próprias relações do processo de circulação.
O comprador reconverte dinheiro em mercadoria antes de ter convertido mercadoria em dinheiro, ou realiza a segunda metamorfose da mercadoria antes da primeira. A mercadoria do vendedor circula, mas só realiza seu preço num título jurídico privado que lhe assegura uma quantia em dinheiro. Converte-se em valor de uso antes de converter-se em dinheiro. Sua primeira metamorfose só se completa posteriormente.98
Em cada intervalo determinado do processo de circulação, as obrigações vencidas representam a soma dos preços das mercadorias cuja venda as originou. A massa de dinheiro necessária à realização dessa soma dos preços depende, antes de tudo, da velocidade de circulação dos meios de pagamento. Esta é condicionada por duas circunstâncias: o encadeamento das relações entre credores e devedores, de modo que A, recebendo dinheiro de seu devedor B, o entrega em pagamento a seu credor C, e assim por diante; e o intervalo entre as diferentes datas de pagamento. A cadeia de pagamentos em curso, ou de primeiras metamorfoses realizadas posteriormente, distingue-se essencialmente do entrelaçamento das séries de metamorfoses anteriormente examinado. Na circulação do meio de circulação, a conexão entre vendedores e compradores não se expressa: a própria conexão só surge na circulação do dinheiro e com ela. Em contrapartida, o movimento do meio de pagamento exprime uma conexão social já plenamente existente antes dele.
A simultaneidade e a ocorrência paralela das vendas limitam a substituição da massa de moedas pela maior velocidade de circulação. Inversamente, constituem uma nova alavanca na economia dos meios de pagamento. Com a concentração dos pagamentos no mesmo lugar, surgem espontaneamente instituições e métodos próprios para sua compensação. Assim acontecia, por exemplo, com os virements da Lyon medieval. Basta confrontar os créditos de A contra B, de B contra C, de C contra A, e assim por diante, para que se anulem mutuamente, até certo montante, como grandezas positivas e negativas. Resta, assim, somente um saldo de dívidas a liquidar. Quanto maior a concentração dos pagamentos, menor, relativamente, o saldo e, portanto, a massa dos meios de pagamento em circulação.
A função do dinheiro como meio de pagamento encerra uma contradição imediata. Na medida em que os pagamentos se compensam, o dinheiro funciona apenas idealmente, como dinheiro de conta ou medida dos valores. Na medida em que é preciso efetuar pagamentos reais, ele aparece como encarnação individual do trabalho social, existência autônoma do valor de troca, mercadoria absoluta, e já não como meio de circulação, forma apenas passageira e mediadora do metabolismo. Essa contradição explode no momento das crises de produção e de comércio chamado crise monetária.99 Ela só ocorre onde a cadeia de pagamentos em curso e um sistema artificial de sua compensação estão plenamente desenvolvidos. Quando esse mecanismo sofre perturbações gerais, qualquer que seja sua origem, o dinheiro passa súbita e imediatamente de sua figura apenas ideal de dinheiro de conta à de dinheiro vivo. Mercadorias profanas deixam de poder substituí-lo. O valor de uso da mercadoria perde todo valor, e seu valor desaparece diante de sua própria forma de valor. Há pouco, o burguês, embriagado pela prosperidade, em sua arrogância esclarecida, declarava o dinheiro uma ilusão vazia. Somente a mercadoria é dinheiro. Agora ressoa por todo o mercado mundial o grito: somente o dinheiro é mercadoria! Como o cervo brama por água fresca, assim sua alma clama por dinheiro, a única riqueza.100 Na crise, a oposição entre a mercadoria e sua figura de valor, o dinheiro, intensifica-se até tornar-se contradição absoluta. Aqui, portanto, também é indiferente a forma de manifestação do dinheiro. A fome de dinheiro permanece a mesma, quer o pagamento deva ser feito em ouro, quer em dinheiro de crédito, por exemplo, em notas bancárias.101
Se examinarmos agora a soma total do dinheiro que circula durante um período determinado, veremos que, dada a velocidade de circulação dos meios de circulação e dos meios de pagamento, ela é igual à soma dos preços das mercadorias que devem ser realizados, mais a soma dos pagamentos vencidos, menos os pagamentos que se compensam e, por fim, descontado o número de circulações em que a mesma peça de dinheiro funciona alternadamente, ora como meio de circulação, ora como meio de pagamento. Por exemplo, o camponês vende seus cereais por duas libras esterlinas, que assim funcionam como meio de circulação. No vencimento, utiliza essas mesmas duas libras para pagar o tecido de linho que o tecelão lhe forneceu. As mesmas duas libras funcionam agora como meio de pagamento. O tecelão compra então uma Bíblia à vista; elas voltam a funcionar como meio de circulação, e assim por diante.
Mesmo que os preços, a velocidade da circulação do dinheiro e a economia dos pagamentos sejam dados, a massa de dinheiro em circulação durante um período, um dia por exemplo, já não coincide com a massa de mercadorias em circulação. Circula dinheiro que representa mercadorias há muito retiradas da circulação. Circulam mercadorias cujo equivalente em dinheiro só aparecerá no futuro. Por outro lado, os pagamentos contratados a cada dia e os pagamentos vencidos nesse mesmo dia são grandezas inteiramente incomensuráveis.102
O dinheiro de crédito nasce diretamente da função do dinheiro como meio de pagamento, à medida que os próprios certificados de dívida relativos às mercadorias vendidas voltam a circular para transferir os créditos. Por outro lado, à medida que se expande o sistema de crédito, expande-se também a função do dinheiro como meio de pagamento. Nessa função, ele adquire formas próprias de existência, nas quais passa a habitar a esfera das grandes transações comerciais, enquanto as moedas de ouro ou prata ficam relegadas sobretudo à esfera do pequeno comércio.103
Em determinado grau e extensão da produção de mercadorias, a função do dinheiro como meio de pagamento ultrapassa a esfera da circulação das mercadorias. Ele se torna a mercadoria universal dos contratos.104 Rendas, impostos etc. deixam de ser prestações em espécie e se convertem em pagamentos em dinheiro. O quanto essa transformação depende da configuração geral do processo de produção é demonstrado, por exemplo, pelas duas tentativas frustradas do Império Romano de cobrar todos os tributos em dinheiro. A enorme miséria da população rural francesa sob Luís XIV, tão eloquentemente denunciada por Boisguillebert, pelo marechal Vauban e outros, não se devia apenas ao montante dos tributos, mas também à transformação dos tributos em espécie em tributos monetários.105 Se, por outro lado, na Ásia a forma em espécie da renda fundiária, que constitui também o principal elemento do imposto estatal, se baseia em relações de produção que se reproduzem com a constância das condições naturais, essa forma de pagamento atua retroativamente para conservar a antiga forma de produção. Ela constitui um dos segredos da autoconservação do Império Turco. Se o comércio exterior imposto ao Japão pela Europa acarretar a transformação da renda em espécie em renda em dinheiroE54, estará arruinada sua agricultura exemplar. Também se dissolverão suas estreitas condições econômicas de existência.
Em cada país fixam-se determinadas datas gerais de pagamento. Abstraindo de outros ciclos da reprodução, elas se baseiam em parte nas condições naturais da produção, ligadas à alternância das estações. Regulam igualmente pagamentos que não se originam diretamente da circulação das mercadorias, como impostos, rendas etc. A massa de dinheiro necessária para realizar, em certos dias do ano, esses pagamentos dispersos por toda a superfície da sociedade provoca perturbações periódicas, embora inteiramente superficiais, na economia dos meios de pagamento.106 Da lei da velocidade de circulação dos meios de pagamento resulta que, para todos os pagamentos periódicos, qualquer que seja sua origem, a massa necessária de meios de pagamento é diretamente proporcional à duração dos períodos de pagamento.E56107
O desenvolvimento do dinheiro como meio de pagamento torna necessárias acumulações de dinheiro para as datas de vencimento das quantias devidas. Enquanto a formação de tesouros, como forma autônoma de enriquecimento, desaparece com o progresso da sociedade burguesa, cresce, inversamente, com esse mesmo progresso, sob a forma de fundos de reserva dos meios de pagamento.
c) Dinheiro mundial
Ao sair da esfera da circulação interna, o dinheiro volta a despir-se das formas locais que ali assume, como padrão dos preços, moeda, moeda divisionária e signo de valor, e retorna à forma originária de barras dos metais preciosos. No comércio mundial, as mercadorias desenvolvem universalmente seu valor. Por isso, sua figura autônoma de valor também se lhes contrapõe aqui como dinheiro mundial. Só no mercado mundial o dinheiro funciona plenamente como a mercadoria cuja forma natural é, ao mesmo tempo, forma imediatamente social de realização do trabalho humano in abstracto. Seu modo de existência torna-se adequado a seu conceito.
Na esfera da circulação interna, apenas uma mercadoria pode servir como medida dos valores e, portanto, como dinheiro. No mercado mundial vigora uma dupla medida dos valores: ouro e prata.108
O dinheiro mundial funciona como meio universal de pagamento, meio universal de compra e materialização absolutamente social da riqueza em geral (universal wealth). Predomina sua função de meio de pagamento, destinada a liquidar os saldos internacionais. Daí a palavra de ordem do sistema mercantilista: balança comercial!109 Ouro e prata servem essencialmente como meios internacionais de compra sempre que o equilíbrio habitual do metabolismo entre diferentes nações é subitamente perturbado. Por fim, funcionam como materialização absolutamente social da riqueza quando se trata de transferi-la de um país a outro, sem que haja compra ou pagamento, e quando essa transferência sob a forma de mercadorias é excluída pelas condições conjunturais do mercado de mercadorias ou pela própria finalidade da transferência.110
Assim como ocorre com sua circulação interna, cada país necessita de um fundo de reserva para a circulação no mercado mundial. As funções dos tesouros resultam, portanto, em parte da função do dinheiro como meio interno de circulação e de pagamento e, em parte, de sua função como dinheiro mundial.110a Neste último papel, exige-se sempre a mercadoria-dinheiro efetiva, ouro e prata em sua forma corpórea, razão pela qual James Steuart caracteriza expressamente o ouro e a prata, em contraste com seus representantes de validade apenas local, como money of the worldE64.
O movimento do fluxo de ouro e prata é duplo. Por um lado, ele se derrama de suas fontes sobre todo o mercado mundial, onde é captado em proporções diferentes pelas diversas esferas nacionais de circulação, para ingressar em seus canais internos, substituir moedas de ouro e prata desgastadas, fornecer matéria-prima para artigos de luxo e solidificar-se em tesouros.111 Esse primeiro movimento é mediado pela troca direta dos trabalhos nacionais realizados em mercadorias pelo trabalho realizado nos metais preciosos dos países produtores de ouro e prata. Por outro lado, ouro e prata circulam continuamente de um lado para outro entre as diferentes esferas nacionais de circulação, num movimento que acompanha as oscilações incessantes da taxa de câmbio.112
Os países de produção burguesa desenvolvida restringem os tesouros concentrados em grande escala nas reservas bancárias ao mínimo necessário para suas funções específicas.113 Com certas exceções, um enchimento dos reservatórios de tesouros muito acima de seu nível médio indica uma estagnação da circulação das mercadorias ou a interrupção do fluxo das metamorfoses das mercadorias.114
Notas
Nota 50A pergunta sobre por que o dinheiro não representa imediatamente o próprio tempo de trabalho, de modo que, por exemplo, uma nota de papel represente x horas de trabalho, reduz-se simplesmente à pergunta sobre por que, com base na produção de mercadorias, os produtos do trabalho precisam apresentar-se como mercadorias, pois a apresentação da mercadoria inclui sua duplicação em mercadoria e mercadoria-dinheiro. Ou, ainda, por que o trabalho privado não pode ser tratado como trabalho imediatamente social, como seu contrário. Já tratei detalhadamente, em outro lugar, do utopismo superficial de um “dinheiro-trabalho” baseado na produção de mercadorias (obra citada, p. 61 e seguintes)E1. Cabe observar aqui que o “dinheiro-trabalho” de Owen, por exemplo, é tão pouco dinheiro quanto uma ficha de teatro. Owen pressupõe trabalho diretamente socializado, uma forma de produção diametralmente oposta à produção de mercadorias. O certificado de trabalho apenas constata a participação individual do produtor no trabalho comum e seu direito individual à parcela do produto comum destinada ao consumo. Owen, porém, jamais cogitaria pressupor a produção de mercadorias e, ainda assim, querer contornar suas condições necessárias por meio de artifícios monetários.
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Nota editorial E1Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 66 e seguintes.
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Nota 51O selvagem ou semisselvagem utiliza a língua de outra maneira.E2 O capitão ParryE3 observa, por exemplo, a respeito dos habitantes da costa ocidental da baía de Baffin: “Nesse caso” (na troca de produtos), “... lambiam” (o que lhes era oferecido) “duas vezes com a língua, depois do que pareciam considerar o negócio concluído satisfatoriamente”. Entre os esquimós orientais, a pessoa que recebia o artigo também o lambia todas as vezes. Se, no Norte, a língua é assim o órgão da apropriação, não admira que, no Sul, a barriga seja considerada o órgão da propriedade acumulada e que o KafferE2 avalie a riqueza de um homem pelo tamanho de seu ventre. Esses Kaffern são gente muito sensata, pois, enquanto o relatório sanitário britânico oficial de 1864 lamentava a falta de substâncias formadoras de gordura em grande parte da classe trabalhadora, um certo dr. Harvey, que, contudo, não inventou a circulação do sangue, fez fortuna naquele mesmo ano com receitas charlatanescas que prometiam livrar a burguesia e a aristocracia do excesso de gordura.
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Nota editorial E2“Selvagem”, “semisselvagem”, Kaffer e Kaffern pertencem à terminologia histórica do texto. Os dois últimos são termos coloniais depreciativos preservados em alemão. Os avisos que estavam entre colchetes na nota 51 foram reunidos aqui, para distinguir o comentário editorial da voz de Marx.
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Nota editorial E3[W. E. Parry,] Journal of a Voyage for the Discovery of a North-West Passage from the Atlantic to the Pacific; Performed in the Years 1819–20, in His Majesty's Ships Hecla and Griper, under the Orders of William Edward Parry, 2ª edição, Londres, 1821, pp. 277–278.
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Nota 52Ver Karl Marx, Zur Kritik etc., “Teorias sobre a unidade de medida do dinheiro”, p. 53 e seguintes.E4
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Nota editorial E4Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 59 e seguintes.
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Nota 53Nota à segunda edição. “Onde ouro e prata coexistem legalmente como dinheiro, isto é, como medida do valor, fez-se sempre a tentativa inútil de tratá-los como uma única e mesma matéria. Pressupor que o mesmo tempo de trabalho deva objetivar-se invariavelmente na mesma proporção de prata e ouro é, de fato, pressupor que prata e ouro são a mesma matéria e que determinada massa do metal menos valioso, a prata, constitui uma fração invariável de determinada massa de ouro. Do reinado de Eduardo III até a época de Jorge II, a história do sistema monetário inglês transcorre numa série contínua de perturbações resultantes do conflito entre a fixação legal da relação de valor do ouro e da prata e suas oscilações reais de valor. Ora o ouro era avaliado acima de seu valor, ora a prata. O metal avaliado abaixo de seu valor era retirado da circulação, fundido e exportado. A relação de valor entre os dois metais era novamente alterada por lei, mas o novo valor nominal logo entrava no mesmo conflito com a relação real de valor que o anterior. Em nosso próprio tempo, uma queda muito pequena e passageira do valor do ouro em relação à prata, em consequência da demanda indiana e chinesa por prata, produziu o mesmo fenômeno, na maior escala, na França: exportação de prata e sua expulsão da circulação pelo ouro. Nos anos de 1855, 1856 e 1857, o excedente da importação de ouro pela França sobre a exportação francesa de ouro foi de 41.580.000 libras esterlinas, enquanto o excedente da exportação de prata sobre a importação de prata foi de 34.704.000E5 libras esterlinas. De fato, nos países em que os dois metais são legalmente medidas do valor e, portanto, ambos têm de ser aceitos em pagamento, embora cada pessoa possa pagar à vontade em prata ou ouro, o metal cujo valor sobe recebe um ágio e, como qualquer outra mercadoria, mede seu preço no metal sobrevalorizado, enquanto somente este último funciona como medida do valor. Toda a experiência histórica nesse campo se reduz simplesmente ao fato de que, onde duas mercadorias desempenham legalmente a função de medida do valor, na realidade apenas uma delas conserva essa posição.” (Karl Marx, obra citada, pp. 52–53).E6
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Nota editorial E5Da segunda à quarta edição: 14.704.000. A MEW consultada traz 34.704.000 no texto e registra esta variante em nota editorial.
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Nota editorial E6Ver o volume 13 desta edição [MEW], pp. 58–59.
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Nota 54Nota à segunda edição. A peculiaridade de a onça de ouro não ser dividida na Inglaterra, como unidade do padrão monetário, em partes alíquotas explica-se assim: “Nosso sistema monetário foi originalmente adaptado somente ao uso da prata. Por isso, uma onça de prata pode sempre ser dividida em determinado número inteiro de moedas; como, porém, o ouro foi introduzido numa época posterior em um sistema monetário adaptado apenas à prata, uma onça de ouro não pode ser cunhada num número inteiro de moedas.” (Maclaren, History of the Currency, Londres, 1858, p. 16.)
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Nota 55Nota à segunda edição. Nos escritos ingleses, a confusão entre medida dos valores (measure of value) e padrão dos preços (standard of value) é indescritível. As funções e, por conseguinte, seus nomes são constantemente confundidos.
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Nota editorial E7A transcrição alemã e a reprodução impressa da MEW, p. 113, trazem “1000%”. A cifra foi mantida, sem emenda silenciosa. Uma queda de 1.000% não corresponde ao uso percentual usual para uma grandeza positiva; sua interpretação e eventual emenda exigem decisão filológica. A comparação do exemplo entre doze onças e uma onça foi preservada.
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Nota editorial E8Caeteris paribus: mantidas iguais as demais circunstâncias. Glosa desta revisão.
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Nota 56Aliás, essa sequência tampouco possui validade histórica universal.
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Nota editorial E9A nota da MEW explica “cronologia poética” pela sucessão mitológica das idades de ouro, prata, bronze, dos heróis e do ferro, associada à deterioração progressiva da condição humana. Menciona Hesíodo e Ovídio.
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Nota 57Nota à segunda edição. Assim, a libra inglesa representa menos de um terço de seu peso original; a libra escocesa, antes da União,E10 apenas 1/36; a livre francesa, 1/74; o maravedí espanhol, menos de 1/1.000; e o rei português, uma proporção ainda menor.
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Nota editorial E10A nota da MEW identifica a União entre Inglaterra e Escócia, de 1707, com a dissolução do Parlamento escocês e a eliminação das barreiras econômicas entre os dois países.
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Nota 58Nota à segunda edição. “As moedas cujos nomes hoje são apenas ideais são, em todas as nações, as mais antigas; todas foram reais em algum momento e justamente por terem sido reais serviram para os cálculos.” (Galiani, Della Moneta, obra citada, p. 153.)
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Nota 59Nota à segunda edição. O sr. David Urquhart observa, em seus Familiar Words, a respeito do fato monstruoso (!) de que hoje uma libra (£ esterlina), a unidade do padrão monetário inglês, equivale aproximadamente a 1/4 de onça de ouro: “Isso é falsificação de uma medida, e não fixação de um padrão.” (p. 105.) Ele encontra nessa “denominação falsa” do peso do ouro, como em toda parte, a mão falsificadora da civilização.
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Nota 60Nota à segunda edição. “Quando perguntaram a Anacársis para que os helenos utilizavam o dinheiro, ele respondeu: para fazer contas.” (Ateneu, Deipnosophistae, livro IV, 49, vol. 2, p. 120, ed. Schweighäuser, 1802.)
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Nota 61Nota à segunda edição. “Como o ouroE11, enquanto padrão dos preços, aparece com os mesmos nomes de conta que os preços das mercadorias, de modo que, por exemplo, tanto uma onça de ouro quanto o valor de uma tonelada de ferro se exprimem em 3 libras esterlinas, 17 xelins e 10½ pence, deu-se a esses nomes de conta o nome de seu preço de cunhagem. Daí surgiu a estranha concepção de que o ouro (ou a prata) seria avaliado em seu próprio material e, diferentemente de todas as mercadorias, receberia do Estado um preço fixo. Confundiu-se a fixação dos nomes de conta de determinados pesos de ouro com a fixação do valor desses pesos.” (Karl Marx, obra citada, p. 52).E12
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Nota editorial E11Da segunda à quarta edição: dinheiro. A MEW consultada traz “ouro” no texto e registra esta variante em nota editorial.
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Nota editorial E12Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 58.
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Nota 62Comparar as “Teorias sobre a unidade de medida do dinheiro”, em Zur Kritik der Pol. Oekon. etc., p. 53 e seguintes.E13 As fantasias sobre aumentar ou diminuir o “preço de cunhagem”, consistentes em transferir por decreto os nomes monetários legais de porções de peso de ouro ou prata fixadas por lei para porções de peso maiores ou menores e, assim, por exemplo, passar a cunhar 1/4 de onça de ouro em 40 xelins, em vez de 20, foram tratadas de maneira tão exaustiva por Petty, em Quantulumcunque concerning Money. To the Lord Marquis of Halifax, 1682, na medida em que essas fantasias visavam a “curas milagrosas” econômicas, e não a operações financeiras desajeitadas contra credores públicos e privados, que seus sucessores imediatos, Sir Dudley North e John Locke, para não falar dos posteriores, só conseguiram empobrecer seu tratamento. “Se a riqueza de uma nação”, diz ele, entre outras coisas, “pudesse ser decuplicada por um decreto, seria estranho que nossos governos não tivessem promulgado tais decretos há muito tempo.” (Obra citada, p. 36.)
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Nota editorial E13No mesmo volume, p. 59 e seguintes.
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Nota 63“Ou seria necessário admitir que um milhão em dinheiro vale mais do que um valor igual em mercadorias” (Le Trosne, obra citada, p. 919), ou seja, “que um valor vale mais do que outro valor igual”.
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Nota 64Se Jerônimo teve de lutar muito, em sua juventude, contra a carne material, como mostra sua luta no deserto com imagens de belas mulheres, na velhice teve de lutar com a carne espiritual. “Julgava-me”, diz ele, por exemplo, “em espírito diante do juiz do mundo.” “Quem és tu?”, perguntou uma voz. “Sou cristão.” “Mentes!”, trovejou o juiz do mundo. “És apenas um ciceroniano!”E14
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Nota editorial E14A MEW identifica a citação de Jerônimo como proveniente da “Carta a Eustochium: sobre a preservação da virgindade”.
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Nota editorial E15Dante, A divina comédia, “Paraíso”, canto XXIV. A referência da MEW menciona a tradução alemã de Philaletes, Leipzig, 1871.
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Nota editorial E16A redação da MEW oferece uma tradução alemã dos versos, aqui vertida em português: “Muito bem examinados estão agora o peso e o teor dessa moeda; mas dize se a tens em tua bolsa.” Esta glosa é distinta da tradução de leitura do italiano mantida no corpo.
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Nota editorial E17Tradução própria dos versos italianos tal como citados no texto alemão da MEW 23.
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Nota 65“Do [...] fogo, porém, tudo provém, dizia Heráclito, e de tudo provém fogo, assim como do ouro, bens, e dos bens, ouro.” (F. Lassalle, Die Philosophie Herakleitos des Dunkeln, Berlim, 1858, vol. I, p. 222.) A nota de Lassalle a essa passagem, p. 224, nota 3, apresenta incorretamente o dinheiro como simples signo de valor.
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Nota editorial E18Ver o volume 13 desta edição [MEW], p. 71.
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Nota editorial E19Segundo a redação da MEW, em carta de 28 de novembro de 1878 a N. F. Danielson, tradutor russo de O Capital, Marx altera a última frase para: “E, de fato, o valor de cada vara individual é apenas a materialização de uma parte da quantidade de trabalho social despendida na quantidade total de varas.” A mesma correção consta do exemplar pessoal de Marx da segunda edição alemã do Livro I, mas não está escrita por sua mão. A variante é apresentada separadamente; não foi incorporada ao corpo desta revisão.
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Nota editorial E20Shakespeare, Sonho de uma noite de verão, ato I, cena I. O apêndice da MEW registra a forma “ne'er”, enquanto o corpo reproduz “never”, aqui conservado.
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Nota editorial E21Tradução de leitura já presente no manuscrito: “o curso do amor verdadeiro jamais transcorre sem obstáculos”. A frase inglesa foi restituída no corpo conforme o alemão consultado; a tradução foi preservada aqui.
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Nota 66“Toda venda é compra” (dr. Quesnay, “Dialogues sur le Commerce et les Travaux des Artisans”, em Physiocrates, ed. Daire, primeira parte, Paris, 1846, p. 170); ou, como Quesnay afirma em suas “Maximes Générales”:E22 “Vender é comprar”.
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Nota editorial E22A MEW identifica a citação das máximas de Quesnay no trabalho de Dupont de Nemours, “Maximes du docteur Quesnay, ou résumé de ses principes d'économie sociale”, em Physiocrates, edição de Eugène Daire, primeira parte, Paris, 1846, p. 392.
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Nota 67“O preço de uma mercadoria só pode ser pago com o preço de outra mercadoria.” (Mercier de la Rivière, L'Ordre naturel et essentiel des sociétés politiques, em Physiocrates, ed. Daire, segunda parte, p. 554.)
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Nota 68“Para possuir esse dinheiro, é preciso ter vendido.” (Obra citada, p. 543.)
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Nota 69Constitui exceção, como já observado, o produtor de ouro ou de prata, que troca seu produto sem tê-lo vendido antes.
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Nota editorial E23Non olet: “não tem cheiro”. A nota da MEW atribui a frase ao imperador Vespasiano, em resposta à objeção de seu filho à tributação das instalações sanitárias. Síntese da nota editorial.
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Nota 70“Se o dinheiro em nossas mãos representa as coisas que podemos desejar comprar, ele também representa as coisas que vendemos para obter esse dinheiro.” (Mercier de la Rivière, obra citada, p. 586.)
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Nota editorial E24Personagens em ação.
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Nota 71“Há, portanto, quatro pontos extremos e três contratantes, um dos quais intervém duas vezes.” (Le Trosne, obra citada, p. 909.)
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Nota 72Nota à segunda edição. Embora esse fenômeno seja bastante evidente, a maioria dos economistas políticos não o percebe, especialmente o livre-cambista vulgaris.
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Nota editorial E25Inversamente.
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Nota 73Comparem-se minhas observações sobre James Mill, Zur Kritik etc., pp. 74–76.E26 Dois pontos caracterizam aqui o método da apologética economicista: primeiro, a identificação entre circulação de mercadorias e troca direta de produtos, obtida por simples abstração das diferenças entre elas; segundo, a tentativa de negar as contradições do processo capitalista de produção, dissolvendo as relações de seus agentes em relações simples decorrentes da circulação de mercadorias. Produção e circulação de mercadorias, entretanto, são fenômenos que pertencem aos mais diferentes modos de produção, embora com extensão e alcance diversos. Nada se sabe, portanto, da differentia specificaE27 desses modos de produção, e nada se pode julgar a seu respeito, quando se conhecem apenas as categorias abstratas da circulação de mercadorias que lhes são comuns. Em nenhuma ciência, além da economia política, reina tamanha presunção acompanhada de trivialidade elementar. J.-B. Say, por exemplo, atreve-se a emitir juízos sobre as crises porque sabe que a mercadoria é produto.
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Nota editorial E26Ver o volume 13 desta edição [MEW], pp. 77–79.
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Nota editorial E27Diferença característica.
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Nota 74Mesmo quando a mercadoria é revendida várias vezes, fenômeno que ainda não existe para a análise que estamos fazendo, sua última venda definitiva a retira da esfera da circulação e a leva à do consumo, onde serve como meio de subsistência ou meio de produção.
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Nota 75“Ele” (o dinheiro) “não possui outro movimento além daquele que os produtos lhe conferem.” (Le Trosne, obra citada, p. 885.)
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Nota 76“São os produtos que o põem (o dinheiro) em movimento e o fazem circular... Pela velocidade de seu movimento” (isto é, do movimento do dinheiro), “sua quantidade é suprida. Quando necessário, ele apenas desliza de uma mão a outra, sem se deter um instante.” (Le Trosne, obra citada, pp. 915–916.)
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Nota 77“Como o dinheiro ... é a medida geral da compra e da venda, todo aquele que tem algo a vender e não consegue encontrar comprador fica logo inclinado a pensar que a falta de dinheiro no reino ou no país é a causa de suas mercadorias não encontrarem saída; daí o clamor geral pela falta de dinheiro, o que é, porém, um grande erro ... De que precisam essas pessoas que clamam por dinheiro? ... O arrendatário se queixa ... imagina que, se houvesse mais dinheiro no país, conseguiria um preço por seus produtos ... Logo, aparentemente, não lhe falta dinheiro, e sim um preço para seu trigo e seu gado, que deseja vender e não consegue ... Por que não consegue obter um preço? ... 1. Ou há trigo e gado demais no país, de modo que a maior parte daqueles que chegam ao mercado, assim como ele, precisa vender, enquanto poucos precisam comprar; ou 2. a saída habitual por meio da exportação está paralisada ... ou 3. o consumo diminui, quando, por exemplo, as pessoas, por causa da pobreza, já não gastam tanto com a manutenção de suas casas quanto antes. Assim, o que beneficiaria os produtos do arrendatário não seria simplesmente aumentar o dinheiro, e sim remover uma dessas três causas, que de fato restaurariam o mercado ... Comerciantes e lojistas precisam igualmente de dinheiro, isto é, porque os mercados estão paralisados, faltam compradores para os produtos com que negociam ... Uma nação jamais prospera tanto quanto quando suas riquezas passam rapidamente de mão em mão.” (Sir Dudley North, Discourses upon Trade, Londres, 1691, pp. 11–15, passim.) As mistificações de Herrenschwand reduzem-se todas à ideia de que as contradições que nascem da natureza da mercadoria e por isso aparecem na circulação podem ser eliminadas por um aumento dos meios de circulação. Da ilusão popular que atribui as interrupções do processo de produção e circulação à escassez de meios de circulação não decorre, por outro lado, que uma escassez real desses meios, provocada, por exemplo, por intervenções oficiais desastradas na “regulation of currency”E28, seja incapaz de provocar interrupções por sua vez.
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Nota editorial E28A glosa alemã explica a expressão inglesa como “regulação da circulação do dinheiro”.
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Nota 78“Existe uma determinada medida e proporção de dinheiro necessária para manter em andamento o comércio de uma nação; uma quantidade maior ou menor lhe seria prejudicial. Exatamente como, num pequeno comércio varejista, é necessária certa quantidade de farthings para trocar moedas de prata e efetuar pagamentos que as menores moedas de prata não permitem ... Assim como a proporção numérica dos farthings necessários ao comércio depende do número de compradores, da frequência de suas compras e sobretudo do valor da menor moeda de prata, também a proporção do dinheiro necessário ao nosso comércio (moedas de ouro e prata) é determinada pela frequência das operações de troca e pelo montante dos pagamentos.” (William Petty, A Treatise on Taxes and Contributions, Londres, 1667, p. 17.) A teoria de Hume foi defendida contra James Steuart e outros por Arthur Young em sua Political Arithmetic, Londres, 1774, que contém um capítulo próprio intitulado “Prices depend on quantity of money”E29, pp. 112 e seguintes. Observo em Zur Kritik etc., p. 149E30: “A questão da quantidade de moeda circulante é eliminada tacitamente por ele” (A. Smith), “ao tratar o dinheiro de modo inteiramente equivocado como mera mercadoria”. Isso vale apenas na medida em que A. Smith examina o dinheiro ex officio. Ocasionalmente, porém, por exemplo, quando critica os sistemas anteriores de economia política, ele diz o que é correto: “A quantidade de dinheiro cunhado em cada país é regulada pelo valor das mercadorias cuja circulação ela deve mediar ... O valor dos bens comprados e vendidos anualmente num país exige certa quantidade de dinheiro para fazê-los circular e distribuí-los a seus consumidores efetivos, mas não pode criar emprego para uma quantidade maior. O canal da circulação atrai necessariamente uma soma suficiente para preenchê-lo, porém nunca absorve mais do que isso.” (Wealth of Nations, [vol. III,] livro IV, cap. I, [pp. 87 e 89.]) De modo semelhante, A. Smith inicia sua obra ex officio com uma apoteose da divisão do trabalho. Mais tarde, no último livro, dedicado às fontes de receita do Estado, reproduz ocasionalmente a denúncia da divisão do trabalho feita por A. Ferguson, seu mestre.
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Nota editorial E29O título do capítulo de Arthur Young significa “Os preços dependem da quantidade de dinheiro”.
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Nota editorial E30A edição MEW remete ao volume 13, pp. 142–143, para a passagem citada de Zur Kritik.
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Nota 79“Os preços das coisas certamente subirão em cada país à medida que crescer a quantidade de ouro e prata entre as pessoas; por conseguinte, se em determinado país o ouro e a prata diminuírem, os preços de todas as mercadorias também deverão cair proporcionalmente a essa diminuição do dinheiro.” (Jacob Vanderlint, Money answers all Things, Londres, 1734, p. 5.) Uma comparação mais detida entre Vanderlint e os Essays de Hume não me deixa a menor dúvida de que Hume conhecia e utilizava a obra, aliás importante, de Vanderlint. A opinião de que a massa dos meios de circulação determina os preços também se encontra em Barbon e em autores muito anteriores. “Nenhum inconveniente”, diz Vanderlint, “pode decorrer do comércio sem impedimentos; dele só pode resultar grande benefício, pois, se a quantidade de dinheiro em espécie da nação for diminuída por esse comércio, coisa que as medidas proibitivas pretendem impedir, as nações às quais o dinheiro afluir logo constatarão que os preços de todas as coisas aumentam à medida que aumenta sua quantidade de dinheiro em espécie. E ... nossos produtos manufaturados e todas as demais mercadorias logo ficarão tão baratos que a balança comercial voltará a favorecer-nos e, em consequência, o dinheiro retornará a nós.” (Obra citada, pp. 43–44.)
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Nota editorial E31O impresso da MEW 23, p. 138, traz Warenbreis, forma de Warenbrei, traduzido aqui por “papa de mercadorias”. A transcrição digital consultada traz Warenpreises, “preço das mercadorias”, leitura seguida pelo manuscrito. A imagem de uma massa indistinta de mercadorias pertence à hipótese criticada e prepara o exemplo da “mercadoria global” na nota 80. Adotou-se a leitura do impresso, mantendo registrada a divergência.
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Nota 80É evidente que cada espécie particular de mercadoria contribui, por seu preço, para a soma dos preços de todas as mercadorias em circulação. É totalmente incompreensível, porém, como valores de uso incomensuráveis entre si seriam trocados em massa pela quantidade de ouro ou prata existente num país. Se, por artifício, reduzirmos o mundo das mercadorias a uma única mercadoria global, da qual cada mercadoria particular seria apenas uma parte alíquota, chegaremos ao belo exemplo aritmético: mercadoria global = x quintais de ouro; mercadoria A = parte alíquota da mercadoria global = a mesma parte alíquota de x quintais de ouro. Montesquieu formula isso com toda a franqueza: “Se compararmos a massa de ouro e prata existente no mundo à soma das mercadorias existentes, certamente poderemos comparar cada produto ou mercadoria em particular a determinada quantidade de dinheiro. Suponhamos que haja no mundo apenas um único produto ou uma única mercadoria, ou que apenas um deles seja comprado, e que seja tão divisível quanto o dinheiro: determinada parte dessa mercadoria corresponderá a uma parte da massa de dinheiro; a metade do conjunto das mercadorias corresponderá à metade da massa total de dinheiro etc. ... a determinação dos preços das mercadorias depende, em última análise, sempre da proporção entre a quantidade total das mercadorias e a quantidade total dos signos monetários.” (Montesquieu, obra citada, vol. III, pp. 12–13.) Sobre o desenvolvimento posterior dessa teoria por Ricardo, seu discípulo James Mill, Lord Overstone e outros, ver Zur Kritik etc., pp. 140–146 e 150 e seguintes.E32 Com a lógica eclética que lhe é característica, o sr. J. St. Mill consegue defender a opinião de seu pai, J. Mill, e, simultaneamente, a opinião contrária. Quando se compara o texto de seu compêndio Principles of Political Economy com o prefácio da primeira edição, no qual ele próprio se anuncia como o Adam Smith de seu tempo, fica difícil saber o que mais admirar: a ingenuidade do homem ou a do público, que o aceitou de boa-fé como Adam Smith, embora a relação entre ambos seja aproximadamente a do general Williams Kars de KarsE33 com o duque de Wellington. As pesquisas originais de J. St. Mill em economia política, nem extensas nem substanciais, encontram-se todas enfileiradas em ordem de marcha em seu pequeno escrito de 1844, Some Unsettled Questions of Political Economy. Locke expõe diretamente a relação entre a ausência de valor de ouro e prata e a determinação de seu valor pela quantidade: “Como os homens concordaram em atribuir ao ouro e à prata um valor imaginário ... o valor intrínseco atribuído a esses metais nada mais é que sua quantidade.” (Some Considerations etc., 1691, [em] Works, ed. 1777, vol. II, p. 15.)
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Nota editorial E32A edição MEW remete ao volume 13, pp. 134–140 e 143 e seguintes.
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Nota editorial E33A forma “Williams Kars de Kars” conserva a repetição do alemão “Williams Kars von Kars”, na MEW 23, p. 138.
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Nota 81Evidentemente, está inteiramente fora do meu propósito tratar de detalhes como a senhoriagem e outros semelhantes. Contra o sicofanta romântico Adam Müller, que admira a “grandiosa liberalidade” com que o “governo inglês cunha gratuitamente”E34, apresento o seguinte juízo de Sir Dudley North: “A prata e o ouro, como as demais mercadorias, têm suas marés baixas e altas. Quando chega uma remessa da Espanha, ... ela é levada à Torre e transformada em moeda. Pouco depois, surge uma demanda de barras para exportação. E se não houver barras disponíveis, por acaso estando tudo cunhado? Que acontece então? Volta-se a fundir o metal; isso não acarreta perda, pois a cunhagem nada custa ao proprietário. A nação, porém, sofre o prejuízo, porque paga para que a palha usada na alimentação dos burros seja previamente trançada. Se o comerciante” (o próprio North foi um dos maiores comerciantes do tempo de Carlos II) “tivesse de pagar pela cunhagem, não enviaria sua prata à Torre sem pensar, e o dinheiro cunhado sempre teria valor maior do que a prata não cunhada.” (North, obra citada, p. 18.)
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Nota editorial E34A MEW identifica a referência a Adam Müller: Die Elemente der Staatskunst, parte 2, Berlim, 1809, p. 280.
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Nota 82“Se nunca houver mais dinheiro de prata do que o necessário para os pagamentos menores, ele não poderá acumular-se em quantidades suficientes para pagamentos maiores. ... O uso do ouro nos pagamentos grandes implica necessariamente seu uso também no comércio a varejo: quem possui moedas de ouro também as utiliza nas pequenas compras e recebe de volta, junto com a mercadoria comprada, o troco em prata; desse modo, o excedente de prata, que de outro modo oneraria o varejista, é retirado dele e devolvido à circulação geral. Mas, se houver prata suficiente para que os pagamentos pequenos sejam efetuados independentemente do ouro, o varejista receberá prata nas pequenas compras e ela necessariamente se acumulará em suas mãos.” (David Buchanan, Inquiry into the Taxation and Commercial Policy of Great Britain, Edimburgo, 1844, pp. 248–249.)
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Nota editorial E35A glosa alemã do provérbio francês diz, em sentido livre, que tudo depende do primeiro passo.
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Nota editorial E36“Só o primeiro passo custa.” Tradução de leitura já presente no manuscrito, deslocada dos colchetes no corpo para esta nota. O provérbio francês foi mantido. A glosa alemã da MEW, de sentido mais livre, é registrada separadamente.
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Nota 83O mandarim das finanças Wan-mao-in teve a ideia de apresentar ao Filho do Céu um projeto que, de forma dissimulada, pretendia transformar os assignados imperiais chineses em notas bancárias conversíveis. No relatório do Comitê de Assignados, de abril de 1854, ele recebeu uma severa reprimenda. Não se informa se recebeu também a obrigatória série de golpes de bambu. “O Comitê”, diz o final do relatório, “examinou atentamente seu projeto e concluiu que tudo nele beneficia os comerciantes e nada beneficia a Coroa.” (Arbeiten der Kaiserlich Russischen Gesandtschaft zu Peking über China, traduzido do russo por Dr. K. Abel e F. A. Mecklenburg, vol. I, Berlim, 1858, p. 54.) Sobre a perda contínua de metal das moedas de ouro durante sua circulação, um “governador” do Banco da Inglaterra, testemunhando perante o Comitê da Câmara dos Lordes (sobre as leis bancárias), diz: “A cada ano, uma nova classe de soberanos” (não no sentido político, mas no sentido da moeda sovereign, denominação da libra esterlina)E37 “torna-se leve demais. A classe que num ano passa pela pesagem como tendo todo o peso perde, pelo desgaste, o bastante para que no ano seguinte a balança penda contra ela.” (House of Lords' Committee, 1848, n. 429.)
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Nota editorial E37A MEW esclarece o jogo de palavras: sovereign pode designar um soberano ou monarca e também uma moeda inglesa de ouro de uma libra esterlina.
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Nota 84Nota à segunda edição. A falta de clareza com que até os melhores escritores sobre questões monetárias apreendem as diferentes funções do dinheiro aparece, por exemplo, na seguinte passagem de Fullarton: “Quanto às nossas trocas internas, todas as funções monetárias normalmente cumpridas pelas moedas de ouro ou prata podem ser realizadas com igual eficácia por uma circulação de notas inconversíveis, que não possuem outro valor além daquele artificial e convencional que a lei lhes atribui, fato que, penso, não pode ser negado. Um valor dessa espécie poderia ser empregado para todos os fins de um valor intrínseco e até dispensar a necessidade de uma medida dos valores, desde que a quantidade de sua emissão fosse mantida dentro dos limites adequados.” (Fullarton, Regulation of Currencies, 2ª ed., Londres, 1845, p. 21.) Portanto, pelo fato de a mercadoria-dinheiro poder ser substituída na circulação por simples signos de valor, ela se tornaria supérflua como medida dos valores e padrão dos preços!
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Nota 85Do fato de que ouro e prata, enquanto moedas ou na função exclusiva de meios de circulação, se transformam em signos de si mesmos, Nicholas Barbon deduz o direito dos governos de “to raise money”E38, isto é, por exemplo, dar a uma quantidade de prata chamada groschen o nome de uma quantidade maior de prata, como táler, e assim reembolsar os credores com groschen em vez de táleres. “O dinheiro se desgasta e perde peso ao ser contado repetidas vezes. ... É à denominação e ao curso do dinheiro que as pessoas atentam no comércio, e não à quantidade de prata. ... É a autoridade do Estado que transforma o metal em dinheiro.” (N. Barbon, obra citada, pp. 29, 30 e 25.)
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Nota editorial E38A glosa alemã explica to raise money como “elevar o valor do dinheiro”.
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Nota editorial E39De móvel a imóvel. A MEW identifica a passagem de Boisguillebert em Le détail de la France, na coletânea Économistes financiers du XVIIIe siècle, organizada por Eugène Daire, Paris, 1843, p. 213.
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Nota 86“Riqueza em dinheiro nada mais é do que ... riqueza em produtos que foram transformados em dinheiro.” (Mercier de la Rivière, obra citada, p. 573.) “Um valor sob a forma de produtos apenas mudou de forma.” (Obra citada, p. 486.)
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Nota 87“Por esse procedimento, mantêm todos os seus bens e produtos manufaturados a preços muito baixos.” (Vanderlint, obra citada, pp. 95–96.)
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Nota 88“O dinheiro é um penhor.” (John Bellers, Essays about the Poor, Manufactures, Trade, Plantations, and Immorality, Londres, 1699, p. 13.)
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Nota 89Compra, em sentido categórico, pressupõe ouro ou prata já como forma transformada da mercadoria ou como produto da venda.
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Nota editorial E40Coisas sagradas, excluídas do comércio entre os homens.
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Nota 90Henrique III, rei cristianíssimo da França, rouba de mosteiros e outras instituições suas relíquias para convertê-las em dinheiro. É conhecido o papel desempenhado na história grega pelo saque dos tesouros do templo de Delfos pelos fócios. Entre os antigos, como se sabe, os templos serviam de morada ao deus das mercadorias. Eram “bancos sagrados”. Para os fenícios, povo comerciante par excellence, o dinheiro era a forma alienada de todas as coisas. Era, portanto, inteiramente adequado que as jovens que, nas festas da deusa do amor, se entregavam a estrangeiros oferecessem à deusa a moeda recebida como pagamento.
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Nota 91“Ouro! Precioso, cintilante, ouro vermelho!
Bastante dele torna o negro branco, o feio belo;
O mau, bom; o velho, jovem; o covarde, valente; o vil, nobre.
... Ó deuses! Por que isso? Por que isso, ó deuses?
Ah, isso atrai vosso sacerdote para longe do altar;
Arranca dos semicurados o travesseiro de repouso;
Sim, esse escravo vermelho rompe e ata
Os laços consagrados; abençoa o amaldiçoado;
Torna agradável a lepra; honra o ladrão
E lhe confere posição, joelhos dobrados e influência
No conselho dos senadores; é ele quem leva
Pretendentes à viúva passada em anos;
... Metal maldito,
Tu, prostituta comum dos homens!”
(Shakespeare, Tímon de Atenas.)E41
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Nota editorial E41As passagens de Shakespeare e Sófocles são traduzidas das citações alemãs reproduzidas pela MEW, conservando seus 14 e sete versos, respectivamente.
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Nota editorial E42O impresso, p. 146, e a transcrição trazem Scheidemünze, literalmente “moeda divisionária”, termo empregado também em 2(c). A imagem monetária foi mantida. O contexto de denúncia e a citação de Antígona sugerem uma função desagregadora do dinheiro na ordem antiga; essa leitura é interpretativa, não uma frase adicional de Marx. O alcance do jogo de palavras permanece sujeito à validação filológica independente.
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Nota 92“Pois nenhum mal tão vergonhoso quanto o valor do dinheiro
Surgiu entre os homens: ele é capaz de destruir cidades,
Expulsar homens de seus lares,
Instruir e perverter o espírito nobre
De homens honrados para que pratiquem atos infames;
Ensina aos mortais os caminhos da astúcia perversa
E os prepara para toda ação odiosa aos deuses.”
(Sófocles, Antígona.)E41
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Nota 93“A avareza espera arrancar o próprio Plutão do interior da terra.” (Ateneu, Deipnosophistae.)
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Nota 94“Aumentar tanto quanto possível o número de vendedores de cada mercadoria e diminuir tanto quanto possível o número de compradores: esses são os eixos em torno dos quais giram todas as medidas da economia política.” (Verri, obra citada, pp. 52–53.)
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Nota editorial E43“Sejamos ricos ou pareçamos ricos.”
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Nota 95“Para fazer comércio, cada nação precisa de determinada soma de specifick moneyE44, que varia, ora maior, ora menor, conforme exigem as circunstâncias ... Essas marés de vazante e enchente do dinheiro regulam-se por si mesmas, sem qualquer auxílio dos políticos ... Os baldes trabalham alternadamente: quando falta dinheiro, cunham-se barras; quando faltam barras, fundem-se moedas.” (Sir D. North, obra citada, [Postscript,] p. 3.) John Stuart Mill, durante muitos anos funcionário da Companhia das Índias OrientaisE45, confirma que, na Índia, as joias de prata ainda funcionavam diretamente como tesouro. As “peças de adorno de prata são levadas para cunhagem quando a taxa de juros está alta; retornam quando a taxa de juros cai”. (Depoimento de J. St. Mill [em] Reports on Bank Acts, 1857, n. 2084, 2101.) Segundo documento parlamentar de 1864 sobre importações e exportações de ouro e prata na ÍndiaE46, em 1863 as importações desses metais excederam as exportações em 19.367.764 libras esterlinas. Nos oito anos anteriores a 1864, o excedente das importações sobre as exportações de metais preciosos atingiu 109.652.917 libras esterlinas. Durante esse século, muito mais de 200.000.000 de libras esterlinas foram cunhadas na Índia.
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Nota editorial E44Dinheiro metálico.
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Nota editorial E45A nota da MEW apresenta a Companhia das Índias Orientais como companhia comercial inglesa existente entre 1600 e 1858 e instrumento de dominação colonial, com monopólio comercial e funções administrativas na Índia. Relaciona sua dissolução e a passagem do território à Coroa à revolta de 1857–1859.
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Nota editorial E46A MEW identifica o documento: East India (Bullion). Return to an address of the Honourable the House of Commons, dated 8 February 1864.
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Nota 96Lutero distingue o dinheiro como meio de compra e como meio de pagamento. “Fazes para mim dois males de uma só vez, pois aqui não posso pagar e lá não posso comprar.” (Martinho Lutero, An die Pfarrherrn, wider den Wucher zu predigen, Wittenberg, 1540.)E47E48
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Nota editorial E47A MEW informa que reproduz a citação de Lutero segundo a quarta edição de O Capital.
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Nota editorial E48A tradução portuguesa de Lutero foi conservada como leitura de trabalho. A MEW reproduz: “Machest mir einen Zwilling aus dem Schadewacht, das ich hie nicht bezalen und dort nicht kauffen kann.” O controle editorial foi retirado do texto da nota 96 e deslocado para cá. Permanecem pendentes a revisão especializada do alemão arcaico e o cotejo direto com a obra de Lutero.
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Nota 97Sobre as relações de devedores e credores entre comerciantes ingleses no início do século XVIII: “Entre os comerciantes, aqui na Inglaterra, reina tal espírito de crueldade que não se encontra em nenhuma outra sociedade humana nem em nenhum outro país do mundo.” (An Essay on Credit and the Bankrupt Act, Londres, 1707, p. 2.)
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Nota 98Nota à segunda edição. Pela seguinte citação, extraída de meu escrito publicado em 1859, verá o leitor por que, no texto, não considero uma forma oposta: “Inversamente, no processo D – M, o dinheiro pode ser alienado como verdadeiro meio de compra, e o preço da mercadoria pode assim ser realizado antes que o valor de uso do dinheiro seja realizado ou que a mercadoria seja alienada. Isso ocorre, por exemplo, na forma cotidiana do pagamento antecipado de assinaturas. Ou na forma pela qual o governo inglês compra o ópio dos ryots na Índia... Assim, porém, o dinheiro atua apenas na forma já conhecida de meio de compra... Naturalmente, o capital também é adiantado sob a forma de dinheiro... Esse ponto de vista, porém, não cabe no horizonte da circulação simples.” (Zur Kritik etc., pp. 119–120.)E49
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Nota editorial E49A MEW remete ao volume 13, p. 117.
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Nota 99A crise monetária, tal como definida no texto como fase particular de toda crise geral de produção e comércio, deve ser bem distinguida do tipo especial de crise que também se chama crise monetária, mas que pode surgir autonomamente, de modo a repercutir apenas posteriormente sobre a indústria e o comércio. Trata-se de crises cujo centro de movimento é o capital monetário e cuja esfera imediata é, portanto, o banco, a bolsa e as finanças. (Nota de Marx à terceira edição.)
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Nota 100“Essa passagem súbita do sistema de crédito ao sistema monetário acrescenta o terror teórico ao pânico prático; e os agentes da circulação estremecem diante do mistério impenetrável de suas próprias relações.” (Karl Marx, obra citada, p. 126.)E50 “Os pobres estão sem trabalho porque os ricos não têm dinheiro para empregá-los, embora disponham das mesmas terras e das mesmas forças de trabalho que antes para produzir alimentos e roupas; estas, porém, constituem a verdadeira riqueza de uma nação, e não o dinheiro.” (John Bellers, Proposals for raising a Colledge of Industry, Londres, 1696, pp. 3–4.)
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Nota editorial E50A MEW remete ao volume 13, p. 123.
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Nota 101Sobre como tais momentos são explorados pelos amis du commerceE51: “Certa vez” (1839), “um velho banqueiro ganancioso” (da City) “ergueu, em seu gabinete, a tampa da escrivaninha diante da qual estava sentado e mostrou a um amigo maços de notas bancárias; com íntima satisfação, disse que eram 600.000 libras esterlinas retidas para provocar escassez de dinheiro e que todas seriam postas em circulação depois das três horas daquele mesmo dia”. ([H. Roy], The Theory of the Exchanges. The Bank Charter Act of 1844, Londres, 1864, p. 81.) O órgão semioficial The Observer observa, em 24 de abril de 1864: “Circulam rumores bastante singulares a respeito dos expedientes empregados com a intenção de provocar escassez de notas bancárias. [...] Por mais questionável que pareça supor que semelhantes artifícios possam ser usados, a notícia difundiu-se tanto que, de fato, é necessário mencioná-la”.
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Nota editorial E51Amigos do comércio.
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Nota 102“O volume das vendas ou contratos firmados durante determinado dia não influencia a quantidade de dinheiro que circula nesse dia; na imensa maioria dos casos, porém, desdobra-se em múltiplos saques de letras de câmbio sobre a quantidade de dinheiro que poderá circular em dias posteriores, mais ou menos distantes. [...] As letras emitidas ou os créditos abertos hoje não precisam guardar nenhuma semelhança, em número, valor ou prazo, com aqueles emitidos ou contraídos amanhã ou depois de amanhã; pelo contrário, muitas letras e créditos de hoje, quando vencem, coincidem com uma multidão de obrigações originadas numa série de datas anteriores inteiramente indeterminadas. Letras com vencimento em doze, seis, três ou um mês muitas vezes coincidem de modo a ampliar especialmente as obrigações vencidas em determinado dia. [...]” (The Currency Theory Reviewed; a Letter to the Scotch People. By a Banker in England, Edimburgo, 1845, pp. 29–30, passim.)
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Nota 103Como exemplo de quão pouco dinheiro efetivo entra nas operações comerciais propriamente ditas, apresenta-se aqui o quadro das receitas e despesas monetárias anuais de uma das maiores casas comerciais londrinas (Morrison, Dillon & Co.). Suas transações de 1856, que abrangiam muitos milhões de libras esterlinas, foram reduzidas à escala de um milhão.
Receitas Libras esterlinas Despesas Libras esterlinas Letras de banqueiros e comerciantes, pagáveis em data determinada 553.596 Letras pagáveis em data determinada 302.674 Cheques de banqueiros etc., pagáveis à vista 357.715 Cheques contra banqueiros londrinos 663.672 Notas de bancos provinciais 9.627 Notas do Banco da Inglaterra 22.743 Notas do Banco da Inglaterra 68.554 Ouro 9.427 Ouro 28.089 Prata e cobre 1.484 Prata e cobre 1.486 Post Office OrdersE52 933 Total 1.000.000 Total 1.000.000
(Report from the Select Committee on the Bank Acts, julho de 1858, p. LXXI.)E53
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Nota editorial E52Ordens de pagamento dos correios.
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Nota editorial E53A tabela foi conferida visualmente na p. 154 da MEW. As parcelas das receitas somam 1.020.000 libras, embora o total impresso seja 1.000.000. As despesas somam 1.000.000. O ouro recebido aparece como 28.089 tanto no impresso quanto na transcrição; não foi alterado para forçar a soma. Preservaram-se as parcelas e os totais da fonte. A localização do erro histórico exige confronto com o relatório de 1858 e outras edições.
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Nota 104“O caráter das transações comerciais alterou-se de tal maneira que, em lugar da troca de bens por bens, ou da entrega e recebimento, passaram a ocorrer a venda e o pagamento; todos os negócios [...] apresentam-se agora como simples transações monetárias.” ([D. Defoe], An Essay upon Publick Credit, 3ª ed., Londres, 1710, p. 8.)
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Nota 105“O dinheiro tornou-se o carrasco de todas as coisas.” A arte das finanças é “a retorta na qual uma quantidade aterradora de bens e mercadorias foi evaporada para extrair esse concentrado funesto”. “O dinheiro declara guerra a todo o gênero humano.” (Boisguillebert, Dissertation sur la nature des richesses, de l'argent et des tributs, ed. Daire, Économistes financiers, Paris, 1843, t. I, pp. 413, 419, 417, 418.)
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Nota editorial E54O corpo da MEW traz Geldrente, renda em dinheiro. Sua nota registra Goldrente, renda em ouro, nas edições alemãs terceira e quarta. O manuscrito v1.1 adotava a variante; esta revisão segue o corpo MEW e preserva aqui a diferença.
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Nota 106“Na segunda-feira de Pentecostes de 1824”, conta o sr. Craig à comissão parlamentar de investigação de 1826, “houve tamanha procura de notas bancárias em Edimburgo que, às onze horas, já não tínhamos uma só nota em nosso poder. Enviamos sucessivamente emissários aos diferentes bancos para tomar algumas emprestadas, porém nada conseguimos, e muitas transações só puderam ser regularizadas por meio de slips of paperE55. Entretanto, às três horas da tarde todas as notas já haviam retornado aos bancos de onde tinham saído. Apenas mudaram de mãos.” Embora a circulação média efetiva das notas bancárias na Escócia seja inferior a três milhões de libras esterlinas, em diferentes datas de pagamento do ano todas as notas em poder dos banqueiros, cerca de sete milhões de libras esterlinas ao todo, são postas em atividade. Nessas ocasiões, as notas têm uma função única e específica a cumprir e, assim que a cumprem, retornam aos respectivos bancos de onde saíram. (John Fullarton, Regulation of Currencies, 2ª ed., Londres, 1845, p. 86, nota.) Para compreender o exemplo, é preciso acrescentar que, na Escócia, quando Fullarton escreveu sua obra, emitiam-se para os depósitos apenas notas bancárias, e não cheques.
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Nota editorial E55Pedaços de papel.
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Nota editorial E56A MEW imprime in geradem Verhältnis, em relação direta. Sua nota registra umgekehrtem, inversa, nas edições primeira a quarta. O manuscrito v1.1 adotava a variante. Esta revisão acompanha o corpo MEW, sem apagar o registro histórico.
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Nota 107À pergunta “se, caso fosse necessário fazer circular quarenta milhões por ano, os mesmos seis milhões” (em ouro) “bastariam para os giros e circuitos requeridos pelo comércio”, Petty responde com sua habitual maestria: “Respondo que sim. Para uma soma de quarenta milhões, bastariam 40/52 de um milhão, se os giros fossem tão breves, isto é, semanais, como acontece entre artesãos e trabalhadores pobres que recebem e pagam todos os sábados. Se, porém, os prazos fossem trimestrais, como entre nós em geral se pagam os arrendamentos e se arrecadam os impostos, seriam necessários dez milhões. Se, portanto, supusermos que em geral os pagamentos se realizam em diferentes prazos, entre uma e treze semanas, deve-se somar dez milhões aos 40/52 de milhão, dos quais a metade corresponde a aproximadamente cinco milhões e meio; assim, bastariam cinco milhões e meio.” (William Petty, Political Anatomy of Ireland. 1672, ed. Londres, 1691, pp. 13–14.)E57E58
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Nota editorial E57A MEW identifica a passagem citada como pertencente a Verbum sapienti, publicado como apêndice de The Political Anatomy of Ireland.
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Nota editorial E58Preservou-se a aproximação de “cinco milhões e meio” da citação de Petty. O cálculo com os valores apresentados, (10 + 40/52) ÷ 2, resulta em aproximadamente 5,384615 milhões. O exemplo semanal e o trimestral também permitem distinguir duração do período e frequência dos pagamentos: conservado o total anual, o montante por pagamento aumenta quando o período se alonga. Essa observação de cálculo é desta revisão; não foi incorporada à citação.
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Nota 108Daí o absurdo de toda legislação que prescreve aos bancos nacionais acumular em reserva apenas o metal precioso que funciona como dinheiro no interior do país. São conhecidos, por exemplo, os “graciosos obstáculos” que o Banco da Inglaterra criou para si mesmo. Sobre as grandes épocas históricas das mudanças de valor relativo do ouro e da prata, ver Karl Marx, obra citada, p. 136 e seguintes.E59 Acréscimo à segunda edição: Sir Robert Peel procurou remediar o inconveniente por meio de sua lei bancária de 1844, permitindo ao Banco da Inglaterra emitir notas com base em barras de prata, desde que as reservas de prata jamais ultrapassassem um quarto das reservas de ouro. Nesse caso, o valor da prata é calculado de acordo com seu preço de mercado (em ouro) no mercado londrino.
Acréscimo à quarta edição, de Friedrich Engels: Encontramo-nos novamente numa época de forte alteração do valor relativo do ouro e da prata. Há cerca de 25 anos, a relação de valor do ouro com a prata era de 15½ para 1; agora é aproximadamente de 22 para 1, e a prata continua a perder valor em relação ao ouro. Isso decorre essencialmente de uma transformação no modo de produção de ambos os metais. Anteriormente, o ouro era extraído quase exclusivamente pela lavagem de depósitos aluviais auríferos, produtos da decomposição de rochas que contêm ouro. Agora, esse método já não basta e foi relegado a segundo plano pela exploração direta dos veios de quartzo aurífero, anteriormente praticada apenas de maneira secundária, embora já fosse bem conhecida dos antigos (Diodoro, III, 12–14).
Por outro lado, foram descobertas enormes novas jazidas de prata no oeste das Montanhas Rochosas americanas; estas e as minas mexicanas de prata foram abertas à exploração por ferrovias, o que possibilitou o fornecimento de máquinas modernas e combustível e, com isso, a extração da prata em escala muito maior e com custos menores. Há, contudo, grande diferença na maneira como os dois metais se apresentam nos filões. O ouro é encontrado geralmente em estado nativo, porém disperso em quantidades diminutas no quartzo; por isso, toda a ganga precisa ser triturada e o ouro lavado ou extraído com mercúrio. Em 1.000.000 de gramas de quartzo, muitas vezes mal se encontram entre 1 e 3 gramas de ouro e, muito raramente, de 30 a 60 gramas. A prata raramente se encontra em estado nativo, porém aparece em minérios próprios, relativamente fáceis de separar da ganga, que contêm em sua maioria de 40% a 90% de prata; ou então aparece em quantidades menores em minérios de cobre, chumbo etc., cuja exploração por si só já é rentável. Isso já mostra que, enquanto o trabalho necessário à produção de ouro tende a aumentar, o necessário à produção de prata diminuiu decididamente, o que explica de modo inteiramente natural a queda de valor desta última.
Essa queda de valor se expressaria numa queda ainda maior do preço se o preço da prata ainda não fosse artificialmente mantido em nível elevado. Entretanto, as jazidas de prata americanas foram abertas à exploração apenas em pequena parte, de modo que tudo indica que o valor da prata continuará a cair por bastante tempo. Para isso deverá contribuir ainda mais a redução relativa da procura por prata para artigos de uso e de luxo, substituída por objetos prateados, alumínio etc. Por aí se pode avaliar o utopismo da concepção bimetalista segundo a qual um curso forçado internacional faria a prata retornar à antiga relação de valor de 1 para 15½. É mais provável que a prata perca cada vez mais sua qualidade de dinheiro também no mercado mundial. (F. E.)
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Nota editorial E59Remissão ao volume 13 da MEW, pp. 131–132.
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Nota 109Os adversários do sistema mercantilista, que considerava objetivo do comércio mundial a liquidação, em ouro e prata, dos saldos comerciais excedentes, desconheciam por sua vez inteiramente a função do dinheiro mundial. Demonstrei detalhadamente a partir de Ricardo (obra citada, p. 150 e seguintesE60) como a compreensão equivocada das leis que regulam a massa dos meios de circulação apenas se reflete na compreensão equivocada do movimento internacional dos metais preciosos. Seu falso dogma, “Uma balança comercial desfavorável só pode surgir de um excesso de meios de circulação... A exportação de moedas deve-se à sua barateza e não é consequência, mas causa de uma balança desfavorável”E61, já se encontra em Barbon: “A balança comercial, caso exista, não é a causa da exportação de ouro de um país. A exportação decorre, ao contrário, da diferença de valor dos metais preciosos em cada país.” (N. Barbon, obra citada, p. 59.) Em The Literature of Political Economy: a Classified Catalogue, Londres, 1845, MacCulloch louva Barbon por essa antecipação, mas prudentemente evita sequer mencionar as formas ingênuas nas quais ainda aparecem, em Barbon, os pressupostos absurdos do currency principle [princípio monetário]E62. A ausência de crítica e mesmo a desonestidade desse catálogo atingem seu ponto culminante nas seções sobre a história da teoria monetária, pois MacCulloch ali abana a cauda como sicofanta de Lord Overstone (o ex-banqueiro Loyd), a quem chama de facile princeps argentariorum [o primeiro entre os banqueiros]E63.
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Nota editorial E60Remissão ao volume 13 da MEW, p. 143 e seguintes.
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Nota editorial E61A MEW identifica a obra de Ricardo: The High Price of Bullion a Proof of the Depreciation of Bank Notes, quarta edição, Londres, 1811.
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Nota editorial E62O apêndice relaciona o currency principle, difundido na Inglaterra na primeira metade do século XIX, à teoria quantitativa do dinheiro. Seus defensores propunham regular a emissão de notas conversíveis segundo o estoque e os fluxos de ouro, buscando reproduzir a circulação metálica. O aparato critica a aplicação dessa teoria na lei bancária de 1844 e remete à MEW 13, pp. 156–159.
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Nota editorial E63A glosa alemã apresenta Overstone como o reconhecido rei dos homens do dinheiro. A tradução literal da expressão latina, entre colchetes na nota 109, pertence a esta tradução.
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Nota 110Por exemplo, no caso de subsídios, empréstimos em dinheiro para fazer a guerra ou para a retomada dos pagamentos em espécie pelos bancos etc., o valor pode ser exigido precisamente sob a forma de dinheiro.
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Nota 110aNota à segunda edição. “Na verdade, eu não poderia desejar prova mais convincente de que o mecanismo da formação de tesouros, nos países de circulação metálica, é capaz de cumprir todas as funções necessárias à liquidação das obrigações internacionais, sem qualquer auxílio perceptível da circulação geral, do que a facilidade com que a França, ainda começando a recuperar-se do abalo causado por uma devastadora invasão inimiga, conseguiu, em 27 meses, pagar às potências aliadas a indenização de guerra que lhe foi imposta, de quase 20 milhões, parte considerável da soma em dinheiro metálico, sem qualquer contração ou perturbação perceptível de sua circulação monetária interna e sem oscilações alarmantes de sua taxa de câmbio.” (Fullarton, obra citada, p. 141.) Acréscimo à quarta edição, de Friedrich Engels: Exemplo ainda mais contundente é a facilidade com que a mesma França conseguiu pagar, entre 1871 e 1873, em trinta meses, uma indenização de guerra mais de dez vezes maior, também em parte considerável em dinheiro metálico. (F. E.)
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Nota editorial E64Dinheiro mundial. A expressão inglesa também admite a tradução literal “dinheiro do mundo”.
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Nota 111“O dinheiro se distribui entre as nações de acordo com suas necessidades [...], sendo sempre atraído pelos produtos.” (Le Trosne, obra citada, p. 916.) “As minas, que fornecem continuamente ouro e prata, são suficientemente produtivas para entregar a cada nação a quantidade de que necessita.” (J. Vanderlint, obra citada, p. 40.)
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Nota 112“As taxas de câmbio sobem e descem a cada semana; em certas épocas do ano sobem desfavoravelmente para uma nação e, em outras, alcançam a mesma altura em seu favor.” (N. Barbon, obra citada, p. 39.)
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Nota 113Essas diferentes funções podem entrar em conflito perigoso assim que a função de fundo de conversão de notas bancárias lhes é acrescentada.
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Nota 114“A quantidade de dinheiro existente além do que é estritamente necessário para o comércio interno representa capital morto e não traz ganho algum ao país que a possui, salvo quando é exportada ou importada.” (John Bellers, Essays etc., p. 13.) “E se tivermos dinheiro cunhado em excesso? Podemos então fundir as moedas que melhor conservam seu peso e transformá-las em esplêndidos utensílios de mesa, recipientes e objetos domésticos de ouro e prata; ou enviá-las, como mercadoria, para onde haja necessidade e procura; ou emprestá-las a juros onde se pague uma taxa elevada.” (W. Petty, Quantulumcunque, p. 39.) “O dinheiro é apenas a gordura do corpo do Estado; por isso, tanto o excesso de gordura dificulta seus movimentos quanto sua escassez o torna doente. [...] Assim como a gordura facilita o movimento dos músculos, substitui a falta de alimentos, preenche as irregularidades e embeleza o corpo, o dinheiro facilita os movimentos do Estado, faz chegar do exterior alimentos quando há carestia no país, salda contas de dívidas [...] e embeleza o todo; certamente”, conclui ironicamente, “em especial as pessoas que possuem muito dinheiro.” (W. Petty, Political Anatomy of Ireland, pp. 14–15.)E65
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Nota editorial E65A MEW identifica a passagem de Petty como pertencente a Verbum sapienti, apêndice de The Political Anatomy of Ireland.
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