Leia agora
Fortunata e Jacinta

Universo da obra

Fortunata e Jacinta

Capítulo 2 · Fortunata e Jacinta

Parte 1 — Capítulo II: SANTA CRUZ E ARNAIZ. VISLUMBRE HISTÓRICO SOBRE O COMÉRCIO MADRILENO

2 de 32 ≈ 63 min de leitura

Parte 1 — Capítulo II: SANTA CRUZ E ARNAIZ. VISLUMBRE HISTÓRICO SOBRE O COMÉRCIO MADRILENO

i

Dom Baldomero Santa Cruz era filho de outro dom Baldomero Santa Cruz, que já no século passado possuía uma loja de tecidos do Reino na Calle de la Sal, no mesmo local que depois foi ocupado por dom Mauro Requejo. O pai começara pela mais humilde hierarquia comercial e, à força de trabalho, constância e ordem, o caixeiro de 1796 tinha, entre os anos de 10 e 15, um dos mais conceituados estabelecimentos da Corte em tecidos nacionais e estrangeiros. Dom Baldomero II, como é forçoso chamá-lo para distingui-lo do fundador da dinastia, herdou em 1848 o copioso armazém, o sólido crédito e a respeitabilíssima firma de dom Baldomero I e, dando continuidade às tradições da casa durante outros vinte anos, retirou-se dos negócios com um capital são e limpo de quinze milhões de reales, depois de transferir a firma a dois rapazes que nela trabalhavam, um parente seu e o outro de sua mulher. Desde então, a casa passou a chamar-se Sobrinhos de Santa Cruz, e dom Baldomero e Barbarita chamavam familiarmente esses sobrinhos de os Rapazes.

No reinado de dom Baldomero I, isto é, desde as origens até 1848, a casa trabalhou mais com artigos do país do que estrangeiros. Escaray e Pradoluengo forneciam-lhe tecidos, Brihuega, baetas, Antequera, lenços de lã. Foi nos últimos tempos daquele reinado que a casa começou a trabalhar com artigos de fora, e a reforma tarifária de 1849 lançou dom Baldomero II a empreendimentos maiores. Não apenas celebrou contratos com as fábricas de Béjar e Alcoy para dar melhor saída aos produtos nacionais, como introduziu os famosos sedãs para sobrecasacas e os tecidos que tanto se usaram de 45 a 55, aqueles patencures, anascotes, cúbicas e chinchilas que ilustram a gloriosa história da alfaiataria moderna. O ramo de que a casa tirou maior proveito, porém, foi o de capotes e uniformes para o Exército e a Milícia Nacional, sem ser tampouco desprezível o lucro obtido com o artigo para capas, o agasalho propriamente espanhol que resiste a todas as modas do vestir, como o grão-de-bico resiste a todas as modas do comer. Santa Cruz, Bringas e o gordo Arnaiz monopolizavam todo o comércio de tecidos de Madri e abasteciam os lojistas das calles de Atocha, de la Cruz e de Toledo.

Nos contratos de vestuário para o Exército e a Milícia Nacional, nem Santa Cruz, nem Arnaiz, nem tampouco Bringas davam as caras. Figurava como contratante certo Albert, de origem belga, que começara introduzindo tecidos estrangeiros sem boa fortuna. Esse Albert era homem talhado para o caso, ativo, esperto, seguro em seus acordos ainda que não estivessem escritos. Foi auxiliar eficacíssimo de Casarredonda em seus valiosos contratos de tecidos galegos para a tropa. As calças brancas dos soldados de quarenta anos atrás foram origem de fortunas imensas. Os fardos de Coruñas e Viveros deram a Casarredonda e ao tal Albert mais dinheiro que os capotes e sobrecasacas militares de Béjar deram aos Santa Cruz e aos Bringas, embora, a bem da verdade, esses comerciantes não tivessem motivo para queixar-se. Albert morreu em 55, deixando uma grande fortuna, herdada por sua filha, casada com o sucessor de Muñoz, o da imemorial loja de ferragens da Calle de Tintoreros.

No reinado de dom Baldomero II, as práticas e os procedimentos comerciais afastaram-se muito pouco da rotina herdada. Ali nunca se soube o que era um anúncio no Diario, nem se empregaram viajantes para estender o negócio pelas províncias limítrofes. O ditado «o bom pano vende-se na arca» era uma verdade como um templo naquele comércio sólido e de boa reputação. Os varejistas não precisavam ser chamados ao som de chocalhos nem embaucados com artes de charlatão. Todos conheciam muito bem o caminho da casa, bem como os hábitos metódicos e honrados dela, a firmeza dos preços, os descontos concedidos por pagamento à vista, os prazos oferecidos e tudo o mais que dizia respeito ao bom entendimento entre vendedor e freguês. O escritório jamais alterou certas tradições venerandas do laborioso reinado de dom Baldomero I. Ali nunca se usaram esses copiadores de cartas que são uma aplicação da imprensa à caligrafia. A correspondência era copiada à mão por um empregado que passou quarenta anos sentado na mesma cadeira, diante da mesma escrivaninha, e que, por efeito do hábito, quase copiava a carta original de seu patrão sem olhar para ela. Até dom Baldomero efetuar a transferência, naquela casa não se soube o que era um metro, nem se retiraram da vara de Burgos seus privilégios seculares. Até poucos anos antes da transferência, Santa Cruz não usou envelopes para cartas, e estas eram dobradas e fechadas sobre si mesmas.

Tais rotinas não significavam teimosia nem falta de esclarecimento. Ao contrário, a inteligência clara do segundo Santa Cruz e seu conhecimento dos negócios sugeriam-lhe a ideia de que cada homem pertence a sua época e a sua esfera próprias e de que, exclusivamente dentro delas, deve atuar. Compreendeu perfeitamente que o comércio sofreria profunda transformação e que não era ele o chamado a conduzi-lo pelos novos e mais largos caminhos que se abriam. Por isso, e porque ansiava retirar-se e descansar, transferiu seu estabelecimento aos Rapazes, que haviam sido parentes e empregados seus durante vinte anos. Ambos eram trabalhadores e muito inteligentes. Alternavam-se nas viagens ao exterior para procurar e trazer as novidades, alma do comércio de tecidos. A concorrência crescia a cada ano, e era forçoso recorrer à publicidade, receber e despachar viajantes, mimar o público, transigir e abrir contas longas aos fregueses, sobretudo às freguesas. Como os Rapazes também haviam abarcado o comércio de tecidos leves de lã, merinos, fazendas ligeiras para vestidos de senhora, lenços, roupas prontas e outros artigos de uso feminino, e além disso abriram uma loja de varejo e venda por vara, tiveram de suportar o inconveniente dos atrasos e das insolvências que tanto abalam o comércio. Felizmente para eles, a casa tinha um crédito imenso.

A casa do gordo Arnaiz era relativamente moderna. Ele se tornara comerciante de tecidos porque tivera de ficar com as existências de Albert para ressarcir-se de um empréstimo que lhe fizera em 1843. Trabalhava exclusivamente com artigos estrangeiros; mas, quando Santa Cruz transferiu a firma aos Rapazes, também Arnaiz se inclinava a fazer o mesmo, porque já estava muito rico, muito obeso, bastante velho e não queria trabalhar. Sacava e aceitava letras sobre Londres e representava duas companhias de seguros. Isso lhe bastava para não se entediar. Era um homem que, quando começava a tossir, fazia tremer o edifício onde estivesse; excelente pessoa, livre-cambista furibundo, anglómano e solteirão. Entre as casas de Santa Cruz e Arnaiz nunca houve rivalidade; ao contrário, ajudavam-se quanto podiam. O gordo e dom Baldomero sempre se trataram como irmãos na vida social e como companheiros queridíssimos na comercial, salvo alguma discussão excessivamente áspera sobre questões tarifárias, porque Arnaiz tivera a graça de ler Bastiat e frequentava os meetings da Bolsa, não precisamente para ouvir e calar, mas para proferir discursos que quase sempre terminavam numa tosse sufocante. Esbravejava contra toda tarifa que não constituísse um simples recurso fiscal, ao passo que dom Baldomero, moderado em tudo, pretendia conciliar os interesses do comércio com os da indústria espanhola.

— Se esses catalães só fabricam monstrengos — dizia Arnaiz entre uma tosse e outra — e distribuem dividendos de sessenta por cento aos acionistas...

— Lá vem você! Já apareceu isso — respondia dom Baldomero. — Pois eu lhe provarei...

Costumava não provar nada, nem o outro tampouco, ficando cada qual com sua opinião; mas passavam o tempo com essas saborosas discussões. Havia também entre aqueles dois respeitáveis sujeitos um parentesco por afinidade, pois dona Bárbara, esposa de Santa Cruz, era prima do gordo, filha de Bonifacio Arnaiz, comerciante de lenços da China. E, esquadrinhando os troncos dessas linhagens madrilenas, seria fácil descobrir que os Arnaiz e os Santa Cruz tinham, em seus diferentes ramos, uma seiva comum, a seiva dos Trujillos.

— Somos todos a mesma coisa — disse certa vez o gordo, nas expansões de seu humor festivo, inclinado às sinceridades democráticas. — Você por sua mãe e eu por minha avó somos Trujillos legítimos, com patente; descendemos daquele Matías Trujillo que teve uma selaria na Calle de Toledo lá pelos tempos do motim das capas e dos chapéus. Não sou eu quem inventa; canta-o uma escritura de juros que tenho em casa. Por isso disse ontem ao nosso parente Ramón Trujillo... vocês sabem que o fizeram conde... disse-lhe que adote por brasão uma testeira e um cabresto com um letreiro que diga: «Pertenci a Babieca»...

ii

Barbarita Arnaiz nasceu na Calle de Postas, esquina com o Callejón de San Cristóbal, num daqueles edifícios apertados que parecem estojos ou casas de bonecas. Os tetos podiam ser alcançados com a mão; era preciso subir as escadas com o credo na boca, e os aposentos pareciam destinados à premeditação de algum crime. Havia moradias em que se entrava pela cozinha. Outras tinham os pisos inclinados e, em todas elas, ouvia-se até a respiração dos vizinhos. Em algumas viam-se mesquinhos arcos de alvenaria sustentando a armação das escadas, e o gesso abundava na construção tanto quanto nela escasseavam o ferro e a madeira. Eram comuns as portas de painéis, os ladrilhos empoeirados, os ferrolhos impossíveis de manejar e as vidraças de chumbo. Muito disso desapareceu nas reformas dos últimos vinte anos; a estreiteza das moradias, porém, subsiste.

Bárbara cresceu numa atmosfera saturada de cheiro de sândalo, e as fragrâncias orientais, juntamente com as cores vivas dos lenços chineses, deram forte acento às impressões de sua infância. Assim como se recordam as pessoas mais queridas da família, viveram e vivem sempre, em doce memória na mente de Barbarita, os dois manequins em tamanho natural vestidos de mandarim que havia na loja e nos quais seus olhos aprenderam a ver. A primeira coisa a despertar a atenção nascente da menina, quando estava nos braços da ama, foram aqueles dois paspalhões de semblante tolo e desabrido e seus magníficos trajes roxos. Havia também ali uma pessoa para quem a menina olhava muito e que a olhava com olhos doces e repletos de cândida chinesice. Era o retrato de Ayún, de corpo inteiro e em tamanho natural, desenhado e pintado com dureza, mas com grande expressão. O nome desse singular artista é pouco conhecido na Espanha, embora suas obras tenham estado e ainda estejam à vista de todos, e nos sejam familiares como se fossem obra nossa. É o gênio bordador dos xales de Manila, o inventor do tipo mais vistoso e elegante de ramagem, o poeta fecundíssimo desses madrigais de crepe compostos de flores e rimados com pássaros. A esse ilustre chinês devem as espanholas o belíssimo e característico xale que tanto favorece sua beleza, o xale de Manila, ao mesmo tempo senhorial e popular, pois o levaram nos ombros tanto a grande dama quanto a cigana. Envolver-se nele é como vestir-se com um quadro. A indústria moderna não inventará nada que se iguale à poesia ingênua do xale, salpicado de flores, flexível, aderente e fosco, com aquela franja que tem algo dos enredos do sonho e aquele brilho de cor que iluminava as multidões nos tempos em que seu uso era geral. Essa bela peça vai sendo desterrada, e apenas o povo a conserva com admirável instinto. Tira-a das arcas nos grandes momentos da vida, nos batizados e nos casamentos, como se entrega ao vento um hino de alegria no qual há uma estrofe para a pátria. O xale seria uma peça vulgar se tivesse a ciência do desenho; não o é porque conserva o caráter das artes primitivas e populares; é como a lenda, como os contos da infância, cândido e rico em cor, facilmente compreensível e refratário às mudanças da moda.

Pois essa peça, essa obra de arte nacional, tão nossa como os pandeiros ou as touradas, na realidade só é nossa pelo uso; devemo-la a um artista nascido do outro lado do mundo, a certo Ayún, que nos consagrou toda a vida e suas oficinas. E o bom homem era tão agradecido ao comércio espanhol que enviava aos daqui seu retrato e os de suas catorze mulheres, umas senhoras rígidas e pálidas como as que se veem pintadas nas xícaras, com os pés inacreditavelmente pequenos e as unhas também inacreditavelmente compridas.

As faculdades de Barbarita desenvolveram-se associadas à contemplação dessas coisas e, entre as primeiras conquistas de seus sentidos, nenhuma foi tão segura como a impressão daquelas flores bordadas com luminosos fios retorcidos, tão frescas que parecia coagular-se nelas o orvalho. Nos dias de grandes vendas, quando havia muitas senhoras na loja e os caixeiros desdobravam sobre o balcão centenas de xales, a sombria loja parecia um jardim. Barbarita acreditava que se poderiam colher flores aos punhados, fazer ramalhetes ou grinaldas, encher cestinhas e enfeitar o cabelo. Acreditava que se poderiam desfolhá-las e também que tinham cheiro. Isso era verdade, pois exalavam aquele odor dos fardos asiáticos, mistura de sândalo e resinas exóticas que nos traz à mente os mistérios budistas.

Mais adiante, a menina pôde apreciar a beleza e a variedade dos leques que havia na casa e que eram uma de suas principais riquezas. Ficava pasmada ao ver os dedos da mamãe tirá-los das caixas perfumadas e abri-los como sabem fazê-lo os que negociam esse artigo, isto é, com um rápido gesto de desenvoltura que não os estraga e mostra ao público a leveza da peça e o suave roçar das varetas. Barbarita arregalava os olhos como os de um bezerro quando a mamãe, sentando-a sobre o balcão, lhe mostrava leques sem deixá-la tocá-los; e extasiava-se contemplando aquelas figurinhas tão graciosas, que não lhe pareciam pessoas, mas chineses, com os rostos redondos e lisos como pétalas de rosa, todos sorridentes e estúpidos, porém muito bonitos, tal como aquelas casas abertas por todos os lados e aquelas árvores que pareciam pés de manjericão... E pensar que as árvores eram nada menos que o chá, aquelas folhinhas retorcidas cujo sumo se toma para dor de barriga...!

Mais tarde, ocuparam o primeiro lugar no terno coração da filha de dom Bonifacio Arnaiz e em seus sonhos inocentes outras preciosidades que a mamãe costumava mostrar-lhe de vez em quando, depois de adverti-la a não tocar: objetos esculpidos em marfim que deviam ser os brinquedos com que os anjos se divertiam no Céu. Tinham a forma de torres de muitos andares ou de barquinhos com as velas desfraldadas e muitos remos de um lado e de outro; havia também estojinhos, caixas para luvas e joias, botões e belíssimos jogos de xadrez. Pelo respeito com que a mamãe os pegava e guardava, Barbarita acreditava que continham algo parecido com o Viático para os enfermos ou com aquilo que se dá às pessoas na igreja quando comungam. Muitas noites se deitava febril porque não lhe haviam permitido satisfazer o anseio de tomar para si aquelas maravilhinhas. Diante de proibição tão absoluta, ela se teria contentado em aproximar a ponta do indicador do pico de uma das torres; mas nem isso... O máximo que lhe permitiam era dispor, sobre o tabuleiro de xadrez que ficava na vitrine da janela gradeada, pois então não havia vitrines de loja, todas as peças de um jogo que não era dos mais finos, as brancas de um lado e as vermelhas do outro.

Barbarita e seu irmão Gumersindo, mais velho que ela, eram os únicos filhos de dom Bonifacio Arnaiz e dona Asunción Trujillo. Quando chegou à idade adequada, foi à escola de certa dona Calixta, situada na Calle Imperial, na mesma casa onde ficava o Fiel Contraste. As meninas com quem a filha dos Arnaiz mais se dava eram duas de sua idade e vizinhas daqueles bairros: uma da família Moreno, do dono da drogaria da Calle de Carretas, a outra dos Muñoz, do comerciante de ferragens da Calle de Tintoreros. Eulalia Muñoz era muito vaidosa e dizia que não havia casa como a dela, e que dava gosto vê-la toda cheia de pedaços de ferro muito grandes, do tamanho da vara de dona Calixta, e tão pesados, tão pesados que nem quatrocentos homens poderiam levantá-los. Depois havia uma infinidade de martelos, ganchos, panelões muito grandes, muito grandes... «mais largos que este quarto». E os pacotes de pregos? Que coisa havia mais bonita? E as chaves que pareciam de prata, e as chapas, e os fogareiros, e outras coisas belíssimas? Sustentava que não precisava que seus papais lhe comprassem bonecas, porque as fazia com um martelo, vestindo-o com uma toalha. E as agulhas que havia em sua casa? Não se conseguia contá-las. Pois toda Madri ia ali comprar agulhas, e seu papai correspondia-se com o fabricante... Seu papai recebia milhares de cartas por dia, e as cartas cheiravam a ferro... porque vinham da Inglaterra, onde tudo era de ferro, até os caminhos...

— Sim, menina, sim, meu papai me contou. Os caminhos são calçados de ferro, e por cima deles passam as carruagens soltando os demônios.

Trazia sempre os bolsos abarrotados de bugigangas, que mostrava para deixar as amigas de olhos tortos. Eram tachas de cabeça dourada, colchetes, argolinhas azuladas, fivelas, pedaços de lixa, restos de mostruários e de coisas quebradas ou sem par. Aquilo que mais estimava, e que por isso só tirava em certos dias, era sua coleção de etiquetas, pedacinhos de papel verde recortados dos pacotes imprestáveis e que traziam o famoso brasão inglês, com a jarreteira, o leopardo e o unicórnio. Em todas se lia: Birmingham.

— Estão vendo?... Esse senhor Bermingán é quem se corresponde com meu papai todos os dias, em inglês; e são tão amigos que vive dizendo a ele que vá para lá. Há pouco mandou-lhe, dentro de uma caixa de pregos, um presunto defumado que cheirava a queimado, e um pastelão assim, olhem, do tamanho do braseiro de dona Calixta, que tinha dentro muitas passinhas bem pequenininhas e ardia como pimenta; mas muito gostoso, meninas, muito gostoso.

A menina dos Moreno fundava sua vaidade em levar papeizinhos com figurinhas e letras coloridas, nos quais se falava de pílulas, vernizes ou ingredientes para tingir os cabelos. Mostrava-os um por um, deixando para o fim o grande efeito, que consistia em tirar de repente o lenço e pô-lo sob o nariz das amigas, dizendo-lhes:

— Chelem.

De fato, as outras ficavam meio desfalecidas com o forte cheiro de água-de-colônia ou de Água dos Sete Ladrões que havia no lenço. Por um momento, a admiração as emudecia; mas pouco a pouco iam-se recompondo, e Eulalia, cujo orgulho raramente se dava por vencido, tirava um parafuso dourado sem cabeça ou um pedaço de talco com o qual dizia que faria um espelho. Era difícil apagar a agradável impressão e o êxito do perfume. A menina da ferragem, um tanto vexada, tinha de guardar seus trastes depois de ouvir comentários verdadeiramente injustos. A da drogaria fazia muitas caretas, dizendo:

— Ui, como isso fede, menina! Guarde, guarde essas vulgaridades!

No dia seguinte, Barbarita, que não queria dar o braço a torcer, levava uns papeizinhos de massa muito raros, todos cobertos de garatujas chinesas. Depois de dar-se muita importância, fingindo que os mostrava e tornando a guardá-los, com o que a curiosidade das outras chegava ao ponto da inquietação nervosa, de repente punha o papel sob o nariz das amigas e dizia em tom triunfal:

— E isso?

Castita e Eulalia ficavam aturdidas com o aroma asiático, vacilando entre a admiração e a inveja; por fim, porém, não tinham outro remédio senão humilhar seu orgulho diante daquele cheirinho da menina dos Arnaiz e pedir-lhe por Deus que as deixasse prová-lo mais. Barbarita não gostava de prodigalizar seu tesouro e mal aproximava o papel dos narizes arrebitados das outras, tornava a retirá-lo com movimento cauteloso e avaro, temendo que a fragrância escapasse pelos respiradouros das amigas como a fumaça escapa pelo cano de uma chaminé. A tiragem daqueles aparelhos olfativos era tremenda. Por fim, as duas amiguinhas, outras que se aproximaram movidas pela curiosidade e até a própria dona Calixta, que costumava descer à familiaridade com as alunas ricas, reconheciam, acima de todo sentimento invejoso, que nenhuma menina tinha coisas tão bonitas quanto a da loja das Filipinas.

iii

Essa menina e outras do bairro, bem arrumadinhas pelas respectivas mamães, penteadas à moda das manolas, com pente e flores na cabeça e, sobre os ombros, um xale de Manila dos chamados de cintura, reuniam-se numa entrada da Calle de Postas para pedir o quartinho para a Cruz de Maio no dia 3 daquele mês, repicando numa bandeja de prata junto a uma mesinha forrada de damasco vermelho. Os donos da casa chamada del Portal de la Virgen celebravam naquele dia uma simpática festa e instalavam ali, junto à mesma oficina de colheres e moinhos que ainda existe, um altar com a cruz coberta de ramos, muitas velas e algumas figuras de presépio. A Virgem, que ali ainda é venerada, também era adornada com ervas aromáticas, e o fabricante de colheres, que era galego, punha o gorro e o colete vermelho. Se os adultos se descuidavam, as pequeninas rompiam a ordem e saíam à rua, em acirrada competição com outras meninas pedintes, correndo de uma calçada à outra, detendo os senhores que passavam e perseguindo-os até obter o ochavito. Ouvimos a própria Barbarita contar que, para ela, não havia felicidade maior que pedir para a Cruz de Maio, e que os cavalheiros de então eram nisso muito mais galantes que os de agora, pois não recusavam nenhuma menina bem-vestidinha que se lhes pendurasse nas abas do casaco.

A filha de Arnaiz já havia completado sua educação, que era bastante simples naqueles tempos e consistia em ler sem entonação, escrever sem ortografia, fazer contas soprando trompetinhas com a boca e bordar o mostruário em ponto de marca, quando perdeu o pai. Ocupações sérias vieram então fortalecer-lhe o espírito e arredondar-lhe o caráter. Sua mãe e seu irmão, ajudados pelo gordo Arnaiz, empreenderam o inventário da casa, na qual havia alguma desordem. Sobre as existências de xales não se encontraram dados seguros nos livros da loja e, ao contá-las, apareceu mais do que se imaginava. No porão estavam, rindo à toa, vários fardos de caixas que ainda nem haviam sido abertos. Além disso, as casas importadoras de Cádiz, Cuesta e Rubio, anunciavam duas remessas consideráveis que já vinham a caminho. Não havia outro remédio senão arcar com todo aquele excesso de mercadoria, o que era realmente um contratempo comercial numa época em que parecia iniciar-se a generalização dos agasalhos prontos, notando-se ainda, na classe popular, a tendência de vestir-se como a classe média. A decadência do xale de Manila começava, pois, embora os chamados xales de cintura, que eram os mais baratos, se vendessem bem em Madri, sobretudo no dia de San Lorenzo, para a paróquia do percevejo, e tivessem saída razoável para Valencia e Málaga, o grande xale, os ricos xales de três, quatro e cinco mil reales, vendiam-se muito pouco, e passavam-se meses sem que freguesa alguma se atrevesse a comprá-los.

Os herdeiros de Arnaiz, ao inventariarem a riqueza da casa, que somente naquele artigo não ficava abaixo de cinquenta mil duros, compreenderam que se aproximava uma crise. Empregaram três ou quatro meses em classificar, ordenar, pôr preços, confrontar os apontamentos de dom Bonifacio com a correspondência e com as faturas vindas diretamente de Cantón ou remetidas pelas casas de Cádiz. Sem dúvida, o falecido Arnaiz não enxergara com clareza ao fazer tantos pedidos; cegara-se, deslumbrado por certa alucinação mercantil; talvez tivesse sentido em excesso o amor ao artigo e sido mais artista que comerciante. Fora empregado e sócio da Companhia das Filipinas, liquidada em 1833, e, ao empreender por conta própria o negócio de xales de Cantón, acreditava conhecê-lo melhor que ninguém. Na verdade, conhecia-o; mas tinha uma fé imprudente na perpetuidade daquela peça e algumas ideias supersticiosas acerca da afinidade do povo espanhol com os esplêndidos crepes de ramagens multicores.

— Quanto mais berrantes — dizia —, mais vendem.

Foi então que apareceu no Extremo Oriente um novo artista, um gênio que acabou de perturbar dom Bonifacio. Esse inovador foi Senquá, do qual se pode dizer que representava, em relação a Ayún naquela arte budista, o que Beethoven representava na música em relação a Mozart. Senquá modificou o estilo de Ayún, dando-lhe maior amplitude, variando mais os tons, fazendo, enfim, daquelas sonatas graciosas, poéticas e elegantes, poderosas sinfonias com prodigalidade de vida, combinações novas e admiráveis ousadias. Dom Bonifacio ver as primeiras amostras do estilo de Senquá e perder inteiramente a cabeça foi uma coisa só.

— Barástolis! Isto é a glória divina — dizia. — Esse é chinês dos grandes...!

E de tal entusiasmo nasceram pedidos imprudentes e o grave erro mercantil cujas consequências aquele excelente homem não pôde avaliar, porque a morte o surpreendeu.

O inventário dos leques, do tecido de nipis, da seda crua, dos tecidos de Madrás e dos objetos de marfim também apresentava cifras muito altas e foi feito minuciosamente. Passaram então pelas mãos de Barbarita todas as preciosidades que, na infância, lhe pareciam brinquedos e lhe haviam causado febre. Apesar da idade e do juízo com ela adquirido, nunca viu tais bugigangas com indiferença, e ainda hoje declara que, quando lhe cai nas mãos algum daqueles delicados campanários de marfim, tem vontade de escondê-lo no seio e sair correndo.

Aos quinze anos completos, Barbarita era uma moça belíssima, bem torneada, fresca e rosada, de caráter jovial, inquieto e um tanto zombeteiro. Ainda não tivera namorado, nem a mãe o permitia. Diferentes moscardos esvoaçavam ao redor dela, sem resultado. A mamãe tinha seus projetos e começava a traçar linhas certeiras para realizá-los. As famílias Santa Cruz e Arnaiz mantinham uma amizade quase íntima e, além disso, tinham vínculos de parentesco com os Trujillos. A mulher de dom Baldomero I e a do falecido Arnaiz eram primas em segundo grau, ramos floridos daquele tronco nodoso, daquele seleiro da Calle de Toledo cuja história o gordo Arnaiz conhecia tão bem. As duas primas tiveram uma ideia feliz, comunicaram-na uma à outra, admiraram-se de que a ambas tivesse ocorrido a mesma coisa... «claro, era tão natural...» e, aplaudindo-se reciprocamente, resolveram convertê-la numa feliz realidade. Todos os descendentes daquele extremenho dos arreios de burro sempre se distinguiam pelo hábito de traçar uma linha muito curta e muito reta entre a ideia e o fato. A ideia era casar Baldomerito com Barbarita.

Muitas vezes a filha de Arnaiz vira o rapaz dos Santa Cruz; nunca, porém, lhe passara pela cabeça que ele seria seu marido, porque o tal não apenas jamais lhe dissera meia palavra de amor, como nem sequer a olhava do modo como olham os que pretendem ser olhados. Baldomero era ajuizado, muito bonito, robusto e corado, extremamente tímido, insosso como uma abóbora e de tão poucas palavras que se podiam contar sempre que falava. Sua timidez não combinava com sua corpulência. Tinha um olhar leal e carinhoso, como o de um grande cão-d’água.

Passava pela própria honestidade, ia à missa todos os dias prescritos pela Igreja, rezava o rosário com a família, trabalhava dez horas por dia ou mais no escritório sem levantar a cabeça e não gastava o dinheiro que seus papais lhe davam. Apesar dessas raras qualidades, Barbarita, quando por acaso o encontrava na rua, na loja de Arnaiz ou em casa, o que ocorria muito poucas vezes, olhava para ele com o mesmo interesse com que se pode olhar um saco de carvão ou um fardo de tecidos. Assim, ficou como quem vê aparições quando a mãe, certo dia santo, ao voltarem da igreja de Santa Cruz, onde ambas se haviam confessado e comungado, lhe propôs o casamento com Baldomerito. E não empregou para isso circunlóquios nem diplomacias verbais, mas foi direto ao assunto, com estilo franco e decidido. Ah, a linha reta dos Trujillos...!

Embora Barbarita fosse desembaraçada no pensar, rápida no responder e soubesse livrar-se de uma mosca que a incomodasse, em caso tão grave ficou um tanto apagada e teve vergonha de dizer à mamãe que não gostava absolutamente nada do rapaz dos Santa Cruz... Ia dizê-lo; mas o rosto da mãe pareceu-lhe feito de madeira. Viu naquele cenho a linha curta e sem curvas, a barra de aço dos Trujillos, e a pobre menina sentiu medo. Ah, que medo! Compreendeu muito bem que sua mãe se transformaria numa leoa se ela viesse com a infantilidade de gostar mais ou menos. Calou-se, pois, como durante a missa e, a tudo quanto a mamãe lhe disse naquele dia e nos seguintes sobre o mesmo tema do casamento, respondeu com sinais e palavras de humilde aquiescência. Não cessava de sondar o próprio coração, no qual encontrava, ao mesmo tempo, dor e consolo. Não sabia o que era amor; apenas o suspeitava. Era verdade que não amava o noivo, mas tampouco amava outro. Caso viesse a amar alguém, esse alguém podia ser ele.

O mais singular era que Baldomero, depois de acertado o casamento e quando já via regularmente a noiva, não lhe dizia nem uma migalha de palavra sobre coisas de amor, embora as breves ausências da mamãe, que costumava deixá-los sozinhos por um instante, lhe dessem ocasião de brilhar como galã. Mas nada... Aquele rapagão bonito e desabrido não sabia sair, em sua conversa, das rotinas mais triviais. Sua timidez era tão cerimoniosa quanto sua sobrecasaca de pano preto, do melhor de Sedán, que, usada por ele, parecia um anúncio da boa mercadoria da casa. Falava dos lampiões instalados pelo marquês de Pontejos, da cólera do ano anterior, da matança dos frades e das muitas casas magníficas que seriam construídas nos terrenos dos conventos demolidos. Tudo isso era muito bonito para ser dito na tertúlia de uma loja; soava, porém, como uma algazarra de chocalhos no coração de uma donzela que, sem estar apaixonada, tinha vontade de estar.

Barbarita também pensava, ao ouvir o noivo, que a procissão corria por dentro e que o pobre rapaz, apesar de tão grandalhão, não tinha ânimo para trazê-la para fora. «Será que ele me ama?», perguntava-se a noiva. Logo teve de suspeitar que, se Baldomerito não lhe falava explicitamente de amor, era por puro acanhamento e por não saber como começar, mas que estava apaixonado até a medula, limitando-se a declará-lo por meio de delicadezas, atenções e pontualidades muito expressivas. Sem dúvida, o amor mais sublime é o mais discreto, e as bocas mais eloquentes são aquelas em que não pode entrar nem uma mosca. A jovem, contudo, não se tranquilizava com tais raciocínios, e o sobressalto e a incerteza não a deixavam viver. «E se eu também o estiver amando sem saber?», pensava. Oh, não; interrogando-se e respondendo a si mesma com toda a lealdade, resultava que não o amava absolutamente nada. Era verdade que tampouco o detestava, e isso já era algum ganho.

Nesse insípido noivado passaram alguns meses, ao fim dos quais Baldomero se soltou e despertou um pouco. Sua boca foi-se desselando devagarinho até romper-se como o ouriço de uma castanha que amadurece e se abre, deixando ver o fruto sazonado. Palavra após palavra, foi soltando as castanhas, aquelas ideias elaboradas e guardadas com religiosa maternidade, como a Natureza esconde suas obras em gestação. Chegou, enfim, o dia marcado para o casamento, 3 de maio de 1835, e casaram-se em Santa Cruz, sem aparato, instalando-se na casa do esposo, uma das melhores do bairro, na Plazuela de la Leña.

iv

Dois meses depois do casamento, e após uma temporadazinha em que Barbarita andou um tanto distraída, melancólica e como que com vontade de chorar, alarmando muito a mãe, começaram a notar-se naquele matrimônio, realizado em condições tão ruins, sintomas de idílio. Baldomero parecia outro. No escritório cantarolava e procurava pretextos para sair, subir à casa e dizer uma palavrinha à mulher, agarrando-a nos corredores ou onde quer que a encontrasse. Também costumava enganar-se ao lançar uma partida e, quando assinava a correspondência, dava aos traços da rubrica tradicional da casa uma amplitude verdadeiramente grandiosa, terminando o risco final para cima, como uma invocação de gratidão dirigida ao Céu. Saía muito pouco e dizia aos amigos íntimos que não se trocaria por um rei, nem por seu homônimo Espartero, pois não havia felicidade semelhante à sua. Bárbara manifestava à mãe, com discreta alegria, que Baldomero não lhe causava o menor desgosto; que os dois caracteres iam-se harmonizando perfeitamente; que ele era bom como o melhor pão e tinha muito talento, um talento que se revelava onde e como devia revelar-se, nas ocasiões. Depois de ficar dez minutos na casa materna, já não se podia suportá-la, pois se inquietava e procurava pretextos para partir, dizendo:

— Vou embora, que meu marido está sozinho.

O idílio acentuava-se a cada dia, a ponto de a mãe de Barbarita, dissimulando sua satisfação, dizer-lhe:

— Mas, minha filha, vocês vão fazer os Amantes de Teruel parecerem pequenininhos.

Os esposos saíam juntos para passear todas as tardes. Jamais se viu dom Baldomero II num teatro sem ter a mulher ao lado. A cada dia, a cada mês e a cada ano, eram mais pombinhos e mais se amavam e estimavam. Muitos anos depois de casados, pareciam estar em lua de mel. O marido sempre considerou a mulher uma criatura sagrada, e Barbarita sempre viu no esposo o homem mais completo e mais digno de ser amado que existe no mundo. Seria muito longo contar como ambos os caracteres se compenetraram, como se formou a inaudita conjunção daquelas duas almas. O senhor e a senhora de Santa Cruz, que ainda vivem e oxalá vivessem mil anos, são o casal mais feliz e admirável do século presente. Esses nomes deveriam ser escritos com letras de ouro nos antipáticos salões da Vicaría, para exemplo eterno das gerações futuras, e deveria ser ordenado aos sacerdotes que, ao lerem a epístola de São Paulo, incluíssem algum parágrafo, em latim ou castelhano, referente a esses excelsos casados. Dona Asunción Trujillo, que faleceu em 1841 num triste dia de Madri, o dia em que fuzilaram o general León, saiu deste mundo com o ousado pensamento de que, para alcançar a bem-aventurança, não precisava alegar outro título senão o de autora daquele casamento cristão. E que Juana Trujillo, mãe de Baldomero, morta no ano anterior, não lhe disputasse essa glória, pois Asunción provaria diante de todas as chancelarias celestes que a sublime ideia lhe ocorrera antes que à prima.

Nem os anos nem as miudezas da vida jamais enfraqueceram o profundíssimo afeto desses benditos cônjuges. Os cabelos de ambos já estavam brancos, e dom Baldomero dizia a quem quisesse ouvi-lo que amava a mulher como no primeiro dia. Sempre juntos no passeio, juntos no teatro, pois nenhum dos dois gosta do espetáculo se o outro também não o vê. Em todas as datas que recordam algo feliz para a família, trocam seus presentinhos e, para cúmulo da felicidade, ambos desfrutam de saúde esplêndida. O desejo final do senhor Santa Cruz é que os dois morram juntos, no mesmo dia e à mesma hora, no mesmo leito nupcial em que dormiram por toda a vida.

Conheci-os em 1870. Dom Baldomero já tinha sessenta anos, Barbarita, cinquenta e dois. Ele era um senhor de ótima aparência, cabelos grisalhos, rosto inteiramente barbeado, corado, viçoso, mais jovem que muitos homens de quarenta anos, com todos os dentes completos e sãos, ágil e bem-disposto, sereno e jovial, o olhar doce, sempre aquele olhar de cachorrão da Terra-Nova. Sua esposa pareceu-me, para dizê-lo de uma vez, uma mulher lindíssima, quase me atrevo a dizer encantadora. Seu rosto tinha o frescor das rosas colhidas, mas ainda não murchas, e não usava outro cosmético além de água pura. Conservava dentes ideais e um corpo que, mesmo sem espartilho, deixava a perder de vista muitas espantalhas apertadas que andam por aí. Seus cabelos já se haviam tornado inteiramente brancos, o que a favorecia mais do que quando eram grisalhos. Pareciam cabelos empoados ao estilo Pompadour e, como os tinha tão crespos e tão bem repartidos sobre a testa, muitos sustentavam que ali não havia cabelos brancos nem coisa que o valesse. Se Barbarita fosse vaidosa, poderia muito bem podar os cinquenta e dois anos e plantar-se nos trinta e oito, sem que ninguém lhe acertasse a conta, pois a fisionomia e a expressão eram de juventude e graça, iluminadas por um sorriso que era puro mel... Pois, se ela houvesse querido exibir-se com malícia, digo eu...!, se não fosse o que era, uma matrona respeitabilíssima com toda a graça de Deus no coração, teria visto os homens acorrerem como moscas a uma dessas frutas que, de tão maduras, começam a enrugar-se e deixam escorrer todo o açúcar pela casca.

E Juanito? Pois Juanito foi esperado desde o primeiro ano daquele matrimônio sem par. Os felizes esposos contavam com ele neste mês, no próximo e no seguinte, e já o viam chegar e o desejavam como os judeus ao Messias. Às vezes entristeciam-se com a demora; mas a fé que nele depositavam os reanimava. Se cedo ou tarde havia de vir... era questão de paciência. E o grande tratante pôs à prova a de seus pais, pois se entreteve dez anos por lá, fazendo-os penar. Só se deixava ver por Barbarita em sonhos, sob diferentes aspectos infantis, ora comendo os punhos fechados, o rosto dentro de uma touca com muitas rendas, ora já crescidinho, com a espingardinha ao ombro e muita malícia nos olhos. Por fim, Deus o mandou em carne mortal, quando os esposos começavam a queixar-se da Providência e a dizer que ela os enganara. Foi um dia de júbilo aquele de setembro de 1845 em que Juanito Santa Cruz veio ocupar seu lugar no mais feliz dos lares. Foi padrinho da criança o gordo Arnaiz, que disse a Barbarita:

— A mim você não engana. Houve contrabando aqui. Você trouxe este bezerro da Inclusa para nos enganar... Ah, esses protecionistas não passam de contrabandistas disfarçados.

Criaram-no com conforto e cuidados primorosos, mas sem mimo. Dom Baldomero não tinha caráter para pôr freio em seu estrepitoso carinho paterno, nem para meter-se em severidades educativas e formar o rapaz como ele próprio fora formado. Se a mulher o permitisse, Santa Cruz teria levado sua indulgência até o ponto de consentir que o menino fizesse em tudo sua real vontade. Como se explicava que ele, educado com tanta rigidez por dom Baldomero I, fosse só brandura com o filho? Efeitos da evolução educativa, paralela à evolução política! Santa Cruz conservava muito vivas as ferocidades disciplinares do pai, os castigos que este lhe impunha e as privações que o fizera sofrer. Todas as noites do ano obrigava-o a rezar o rosário com os empregados da casa; até completar vinte e cinco anos, nunca saiu para passear sozinho, mas em corporação com os ditos empregados; só provava o teatro no dia de Páscoa, e faziam-lhe um terninho novo a cada ano, que ele só usava aos domingos. Mantinham-no trabalhando no escritório ou no armazém das nove da manhã às oito da noite, e tinha de servir para tudo, tanto para mover um fardo quanto para escrever cartas. Ao anoitecer, o pai costumava repreendê-lo longamente por acender a luminária de quatro bicos antes de as trevas tomarem por completo o local. Quanto a jogos, nunca conheceu outro além do mus, e seus bolsos não souberam o que era um cuarto senão muito depois da época em que começou a barbear-se. Tudo foi rigor, trabalho, mesquinhez. O mais singular, porém, era que dom Baldomero, embora julgasse tal sistema eficacíssimo para formá-lo, considerava-o deplorável quando se tratava do filho. Isso não era falta de lógica, mas a consagração prática da ideia-mãe daqueles tempos: o progresso. Que seria do mundo sem o progresso?, pensava Santa Cruz e, ao pensá-lo, sentia vontade de deixar o rapaz entregue aos próprios instintos. Ouvira muitas vezes dos economistas que frequentavam a tertúlia da casa de Cantero a célebre frase laissez aller, laissez passer... O gordo Arnaiz e seu amigo Pastor, o economista, sustentavam que todos os grandes problemas se resolvem por si mesmos, e dom Pedro Mata opinava da mesma maneira, aplicando à sociedade e à política o sistema da medicina expectante. A natureza cura-se sozinha; basta deixá-la. As forças reparadoras fazem tudo, ajudadas pelo ar. O homem educa-se sozinho, em virtude das constantes impressões que a consciência determina em seu espírito, auxiliada pelo ambiente social. Dom Baldomero não dizia isso dessa forma; mas suas vagas ideias sobre o assunto condensavam-se numa expressão da moda e muito útil:

— O mundo avança.

Felizmente para Juanito, ali estava sua mãe, em quem coração e inteligência se equilibravam maravilhosamente. Sabia tomar as rédeas quando era necessário e sabia ser indulgente no momento certo. Se nunca lhe passou pela cabeça obrigar a rezar o rosário um rapaz que frequentava a Universidade e entrava na cátedra de Salmerón, em compensação não o dispensou do cumprimento dos deveres religiosos mais elementares. O menino sabia muito bem que, se matasse a missa dominical, não iria ao teatro à tarde, e que, se não tirasse boas notas em junho, não haveria dinheiro para o bolso, nem touradas, nem excursões pelo campo com Estupiñá, de quem falarei mais adiante, para caçar pássaros com rede ou visgo, nem os demais divertimentos com que se recompensava sua aplicação.

Enquanto cursou o ensino secundário no colégio de Masarnau, onde ficava em regime de meia pensão, sua mamãe revia com ele as lições todas as noites, metendo-as em seu cérebro aos punhados e empurrões, como se mete lã numa almofada. Vejam por onde aquela senhora se converteu em sibila, intérprete de toda a ciência humana, pois decifrava para o menino os pontos obscuros dos livros e esclarecia todas as suas dúvidas, como Deus lhe dava a entender. Para mostrar até onde chegava a sabedoria enciclopédica de dona Bárbara, estimulada pelo amor materno, basta dizer que também lhe traduzia os temas de latim, embora em toda a vida não tivesse sabido uma palavra dessa língua. É verdade que era tradução livre, melhor dizendo, liberal, quase demagógica. Fedro e Cícero, porém, não se teriam incomodado se estivessem ouvindo por cima do ombro da mestra, que tirava imenso partido do pouco que o discípulo sabia. Também lhe cultivava a memória, descarregando-a de entulho inútil, e fazia-o enxergar com clareza os problemas de aritmética elementar, valendo-se de grãos-de-bico ou feijões, pois de outra maneira não se sentia muito à vontade por aqueles caminhos. Para a História Natural, a mestra costumava chamar em seu auxílio o leão do Retiro, e só na Química os dois ficavam parados, olhando um para o outro, até ela concluir por meter-lhe as fórmulas na memória, depois de observar que essas coisas só os farmacêuticos entendem e que tudo se reduz a pôr maior ou menor quantidade de água do poço. Em suma: quando Juan se tornou bacharel em Artes, Barbarita declarava, rindo, que com todas aquelas manobras se havia transformado, sem saber, numa dona Beatriz Galindo para os latins e numa catedrática universal.

v

Nesse interessante período da criação do herdeiro, de 45 em diante, a casa de Santa Cruz sofreu a transformação imposta pelos tempos, transformação puramente externa, pois permaneceu inalterada no essencial. No escritório e no armazém apareceram os primeiros bicos de gás por volta de 49, e a famosa luminária de quatro luzes recebeu tamanha bofetada da mão dura do progresso que nunca mais foi vista em parte alguma. Na caixa já haviam entrado as primeiras cédulas do Banco de San Fernando, usadas somente para o pagamento de letras, pois o público ainda as olhava com desconfiança. Ainda se falava em talegas, e a operação de contar qualquer quantia era trabalho digno de Pitágoras ou de outro grande aritmético, pois com os doblones e ochentines, as pesetas catalanas, os duros espanhóis, os de veintiuno y cuartillo, as onzas, as pesetas columnarias e as moedas macuquinas armava-se uma confusão pavorosa.

Ainda não se conheciam o selo postal, os envelopes nem outras conquistas do citado progresso. Os empregados, contudo, já haviam começado a sacudir as correntes; já não eram aqueles párias do tempo de dom Baldomero I, aos quais só se permitia sair aos domingos e em grupo e cujas roupas eram confeccionadas segundo um modelo único, para que parecessem uniformizados como colegiais ou presidiários. Deixava-se que frequentassem os bailes de Villahermosa ou os bailes à luz de candeeiro, conforme as inclinações de cada um. Uma coisa não mudou: o piedoso atavismo de fazê-los rezar o rosário todas as noites. Isso só passou à história na época recente da transferência aos Rapazes. Enquanto dom Baldomero foi chefe da casa, esta não se desviou, no essencial, dos eixos diamantinos sobre os quais a montara seu pai, a quem se poderia chamar dom Baldomero, o Grande. Para que o progresso pusesse a mão na obra daquele homem extraordinário, cujo retrato, devido ao pincel de dom Vicente López, contemplamos com satisfação na sala de seus ilustres descendentes, foi preciso que toda Madri se transformasse; que a desamortização edificasse uma cidade nova sobre os escombros dos conventos; que o marquês de Pontejos tornasse decente aquela cidadezinha; que as reformas tarifárias de 49 e de 68 virassem de pernas para o ar todo o comércio madrileno; que o grande engenho de Salamanca concebesse as primeiras ferrovias; que Madri fosse colocada, por obra do vapor, a quarenta horas de Paris; e, por fim, que houvesse muitas guerras e revoluções e grandes transtornos na riqueza individual.

Também a casa de Gumersindo Arnaiz, irmão de Barbarita, passou por grandes crises e mudanças desde a morte de dom Bonifacio. Dois anos depois do casamento da irmã com Santa Cruz, Gumersindo casou-se com Isabel Cordero, filha de dom Benigno Cordero, mulher de grande capacidade, que soube enxergar com clareza no negócio das lojas e foi a salvadora daquele conceituado estabelecimento. Comprometido entre 40 e 45 pelos últimos erros do falecido Arnaiz, o estabelecimento defendeu-se com os mahones, aqueles tecidos leves e frescos tão usados até 54. Os artigos da China declinavam visivelmente. As diligências rápidas traziam a Madri, a cada dia com maior presteza, as novidades parisienses, e começava a invasão lenta e tirânica dos meios-tons, que pretendem ser sinal de cultura. A maneira de vestir antecipava-se à de pensar e, quando os versos ainda não haviam sido desterrados pela prosa, a lã já fizera a seda em pedaços.

Como haviam desaparecido as capas vermelhas, desapareceram os xales de Manila. A aristocracia cedia-os com desdém à classe média, e esta, que também queria ser aristocrata, entregava-os ao povo, último e fiel adepto dos matizes vivos. Aquele encanto dos olhos, aquele prodígio de cor, imitação da natureza sorridente acesa pelo sol do Sul, começou a perder terreno, embora o povo, com instinto de colorista e poeta, defendesse a peça espanhola como defendera o parque de Monteleón e os redutos de Zaragoza. Pouco a pouco, o xale ia caindo dos ombros das mulheres bonitas, porque a sociedade se empenhava em parecer grave, e para parecer grave nada melhor que envolver-se em tonalidades de tristeza. Estamos sob a influência do Norte da Europa, e esse maldito Norte nos impõe os cinzentos que tira de seu céu enfumaçado. A cartola confere muita respeitabilidade à fisionomia, e raro é o homem que não se julga importante só por levar na cabeça um cano de chaminé. As senhoras não se consideram senhoras se não estiverem vestidas de cor de fuligem, cinza, rapé, verde-garrafa ou passa de Corinto. Os tons vivos as tornam vulgares, porque o povo ama o vermelho-vermílhão, o amarelo-tília, o cádmio e o verde-forragem; e o sentimento da cor está tão arraigado na plebe que a seriedade só conseguiu estabelecer seu império mediante concessões. O povo aceitou o escuro das capas, impondo o vermelho das lapelas; consentiu nas capotas, conservando as mantilhas e os lenços berrantes para a cabeça; transigiu com os sobretudos e até com o polisón, em troca das pequenas mantas de gama clara, em que dominam o azul-celeste, o rosa e o amarelo-de-Nápoles. O crepe é que foi declinando desde 1840, não apenas pela mencionada evolução da seriedade europeia, que nos atingiu em cheio, mas também por causas econômicas às quais não podíamos escapar.

As comunicações rápidas trouxeram-nos mensageiros da poderosa indústria belga, francesa e inglesa, que necessitavam de mercados. Ainda não estava na moda ir procurá-los na África, e vinham procurá-los aqui, trocando contas de vidro por pepitas de ouro, isto é, tecidos leves de lã, cretones e merinos por dinheiro vivo ou por obras de arte. Outros mensageiros saqueavam nossas igrejas e nossos palácios, levando os brocados históricos de casulas e frontais de altar, o tecido de ouro, os veludos com bordados e aplicações e outras amostras riquíssimas da indústria espanhola. Ao mesmo tempo, arrebanhavam os esplêndidos xales de Manila, que haviam descido até as ciganas.

Também se fez sentir aqui, como em toda parte, o efeito de outro fenômeno comercial, filho do progresso. Refiro-me aos grandes açambarcamentos do comércio inglês, devidos ao desenvolvimento de sua imensa marinha. Essa influência logo se manifestou naqueles humildes recantos da Calle de Postas pela súbita desvalorização dos artigos da China. Nada mais simples que essa desvalorização. Ao fundarem o grande entreposto comercial de Singapore, os ingleses monopolizaram o tráfico da Ásia e arruinaram o comércio que fazíamos, pela via de Cádiz e do cabo da Boa Esperança, com aquelas regiões distantes. Ayún e Senquá deixaram de ser nossos melhores amigos e tornaram-se amigos dos ingleses. O sucessor desses artistas, o fecundo e inspirado King-Cheong, corresponde-se em inglês com nossos comerciantes e dá seus preços em libras esterlinas. Desde que Singapore apareceu na geografia prática, os artigos de Cantón e Shangai deixaram de vir naquelas pesadas fragatas dos armadores de Cádiz, os Fernández de Castro, os Cuesta, os Rubio; e a longa travessia do Cabo passou à história como apêndice dos fabulosos trabalhos de Vasco da Gama e Albuquerque. A nova rota foi traçada pelos vapores ingleses combinados com a ferrovia de Suez.

Já em 1840, as casas que traziam diretamente os artigos de Cantón não podiam competir com as que os encomendavam em Liverpool. Qualquer mercachifle da Calle de Postas abastecia-se desse artigo sem precisar buscá-lo nos dois ou três depósitos existentes em Madri. Depois, as correntes mudaram outra vez e, ao cabo de muitos anos, a Espanha voltou a trazer diretamente as obras de King-Cheong; mas, para isso, foi preciso que viessem o grande fortalecimento do comércio posterior a 68 e a robustez dos capitais de nossos dias.

O estabelecimento de Gumersindo Arnaiz viu-se ameaçado de ruína, pois as três ou quatro casas cuja especialidade era como uma herança ou transferência da Companhia das Filipinas já não podiam continuar monopolizando os xales e as demais artes chinesas. Madri inundava-se de artigos a preço mais baixo que o das faturas de dom Bonifacio Arnaiz, e era preciso liquidar as existências de qualquer maneira. Para compensar as perdas da queima de estoque, urgia implantar outro negócio, procurar novos caminhos, e foi aí que brilharam as grandes qualidades de Isabel Cordero, esposa de Gumersindo, que tinha mais tino que ele. Sem saber uma palavra de Geografia, compreendia que existiam Singapore e um istmo de Suez.

Adivinhava o fenômeno comercial sem conseguir dar-lhe nome e, em vez de lançar maldições contra os ingleses, como fazia o marido, pôs-se a pensar no melhor remédio. Que correntes seguiriam? A mais marcada era a das novidades, a da influência da fabricação francesa e belga, em virtude daquela lei dos cinzentos do Norte, invadindo, conquistando e anulando nosso ser colorista e romanesco. O vestir antecipava-se ao pensar e, quando os versos ainda não haviam sido desterrados pela prosa, a lã já fizera a seda em pedaços.

— Pois abracemos as novidades — disse Isabel ao marido, observando aquele furor de modas que se apoderava da sociedade e o afã que todos os madrilenos sentiam de ser elegantes com seriedade.

Era, além disso, a época em que a classe média entrava de cheio no exercício de suas funções, apanhando todos os empregos criados pelo novo sistema político e administrativo, comprando a prestações todas as propriedades que haviam pertencido à Igreja, constituindo-se em proprietária do solo e usufrutuária do orçamento, absorvendo, enfim, os despojos do absolutismo e do clero e fundando o império da sobrecasaca. Claro está que a sobrecasaca é o símbolo; mas o mais interessante de tal império encontra-se no vestuário das senhoras, origem de energias poderosas que saem da vida privada para a pública e determinam grandes fatos. Os trapos, ah! Quem não vê neles uma das principais energias da época presente, talvez uma causa geradora de movimento e vida? Pensem um pouco no que representam, no que valem, na riqueza e no engenho que a cidade mais industriosa do mundo consagra a produzi-los e, sem querer, sua mente lhes apresentará, entre as pregas dos tecidos da moda, todo o nosso organismo mesocrático, imensa pirâmide em cujo cume há uma cartola; toda a máquina política e administrativa, a dívida pública e as ferrovias, o orçamento e as rendas, o Estado tutelar e o parlamentarismo socialista.

Gumersindo e Isabel, porém, haviam chegado um pouco tarde, porque as novidades estavam nas mãos de mercadores espertos que já conheciam o caminho de Paris. Arnaiz também foi até lá, mas não era homem de bom gosto e trouxe uns monstrengos que não tiveram aceitação. A Cordero, contudo, não desanimava. O marido começava a ficar aparvalhado; ela, a enxergar com clareza. Viu que os costumes de Madri se transformavam rapidamente, que aquela orgulhosa Corte passaria em pouco tempo da condição de aldeota indecente à de capital civilizada. Porque Madri só tinha de metrópole o nome e a vaidade ridícula. Era um camponês com casaca de gentil-homem e a camisa rasgada e suja. Por fim, o matuto preparava-se para ser senhor de verdade. Isabel Cordero, que se antecipava a sua época, pressentiu a chegada das águas do Lozoya naqueles verões abrasadores em que o Ayuntamiento refrescava e alimentava as fontes del Berro e de la Teja com cubas de água tirada dos poços; naqueles tempos em que as entradas dos prédios eram sentinas e os vizinhos iam de um quarto a outro com uma panelinha na mão, pedindo por favor um pouco de água para se barbear.

A perspicaz mulher viu o futuro, ouviu falar do grande projeto de Bravo Murillo como de algo que ela já sentira na alma. Por fim Madri, dentro de alguns anos, teria torrentes de água distribuídas pelas ruas e praças e adquiriria o hábito de lavar pelo menos o rosto e as mãos. Lavadas essas partes, lavaria depois outras. Essa Madri, que então era futura, apresentou-se-lhe em visões de camisas limpas em todas as classes, de mulheres já acostumadas a trocar de roupa todos os dias e de senhores que eram a própria assepsia. Daí nasceu a ideia de dedicar a casa aos artigos brancos e, uma vez fortemente arraigada, a ideia foi-se tornando realidade pouco a pouco. Ajudado por dom Baldomero e Arnaiz, Gumersindo começou a trazer batistas finíssimas da Inglaterra, holandas e escocias, irlandas e madapolanes, nansouk e cretones da Alsácia, e a casa foi-se erguendo, não sem trabalho, de sua prostração, até alcançar prosperidade relativa. Complemento desse negócio de brancos foram os damascos grossos, os coutis para colchões e a roupa de mesa de Courtray, que veio a ser especialidade da casa, como dizia uma placa acrescentada ao antigo letreiro da loja. Os bicos e as rendas mecânicas vieram mais tarde, sendo tão grandes as encomendas de Arnaiz que uma fábrica da Suíça trabalhava somente para ele. E, por fim, as crinolinas deram bons lucros ao estabelecimento. Isabel Cordero, que pressentira o Canal do Lozoya, pressentiu também o miriñaque, que os franceses chamavam Malakoff, invenção absurda que parecia saída de um cérebro adoecido de tanto pensar na direção dos balões.

Dos xales e artigos asiáticos, entre os anos de 50 e 60, só restavam na casa tradições religiosamente conservadas. Ainda havia alguma torrezinha de marfim e boa quantidade de xales ricos de alto preço em caixas primorosas. Gumersindo era talvez a pessoa de Madri que tinha mais arte para dobrá-los, pois é preciso saber que dobrar um crepe era tarefa tão difícil quanto inflar um cachorro. Só sabiam fazê-lo os que desde antigamente tinham o hábito de manejar aquele artigo, razão pela qual muitas damas que usavam o xale em algum baile de máscaras o mandavam no dia seguinte, com a caixa, à loja de Gumersindo Arnaiz, para que este o dobrasse segundo a arte tradicional, isto é, deixando oculta a trama de uma tercia e a franja de uma quarta e visível, no quadrante superior, o desenho central. Também se conservavam na loja os dois manequins vestidos de mandarins. Pensou-se em retirá-los, pois os pobres já estavam um tanto arruinados; Barbarita, porém, opôs-se, porque deixar de vê-los ali fazendo par com a fisionomia tola e honrada do senhor Ayún seria como enterrar alguém da família; e garantiu que, se o irmão insistisse em tirá-los, ela os levaria para casa e os colocaria na sala de jantar, fazendo par com os aparadores.

vi

Aquela grande mulher, Isabel Cordero de Arnaiz, dotada de todas as agudezas do negociante e de todas as artimanhas econômicas da dona de casa, foi ainda agraciada pelo Céu com prodigiosa fecundidade. Em 1845, quando Juanito nasceu, ela já tivera cinco filhos e continuou parindo com a pontualidade dos vegetais que dão fruto todos os anos. Àqueles cinco é preciso acrescentar outros doze à conta: total, dezessete partos, que ela recordava associando-os a datas célebres do reinado de Isabel II.

— Meu primeiro filho — dizia — nasceu quando a tropa carlista chegou até os muros de Madri. Minha Jacinta nasceu quando a Rainha se casou, com poucos dias de diferença. Minha Isabelita veio ao mundo no mesmo dia em que o padre Merino apunhalou Sua Majestade, e tive Rupertito no dia de São João de 58, o mesmo dia em que se inaugurou a chegada das águas.

Ao ver a casa estreita, ocorria pensar que a lei da impenetrabilidade dos corpos fora o pretexto escolhido pela morte para reduzir aquele rebanho bíblico. Se os dezessete pequenos houvessem vivido, teria sido preciso colocá-los nas sacadas como vasos de plantas ou pendurá-los em gaiolas de chamarizes de perdiz. A difteria e a escarlatina foram desbastando aquela seara apertada e, em 1870, já não restavam mais de nove. Os dois primeiros voaram pouco depois de nascer. De tempos em tempos morria um, já crescidinho, e as fileiras se rarefaziam. Não sei em que ano, morreram três no intervalo de quatro meses. Os que passavam dos dez anos iam sendo criados razoavelmente.

Disse que eram nove. Falta registrar que, dessas nove cifras, sete correspondiam ao sexo feminino. Ora, que praga caíra sobre o bom Gumersindo! O que fazer com sete meninas? Para guardá-las quando fossem mulheres seria necessário um corpo de exército. E como casar bem todas elas? De onde sairiam sete bons maridos? Sempre que lhe falavam nisso, Gumersindo levava o assunto na brincadeira, confiando na habilidade que a mulher tinha para tudo.

— Vocês verão — dizia — como ela tira de debaixo das pedras sete genros de primeira.

A fecunda esposa, contudo, não estava tão segura. Sempre que pensava no futuro das filhas, entristecia-se e sentia uma espécie de remorso por ter dado ao marido uma família que constituía um problema econômico. Quando falava disso com a cunhada Barbarita, lamentava-se de parir mulheres como se fosse uma responsabilidade. Durante sua campanha prolífica, de 38 a 60, acontecia que, quatro ou cinco meses depois de dar à luz, já estava novamente grávida. Barbarita nem se dava ao trabalho de perguntar e tomava a coisa por certa.

— Agora — dizia-lhe — você vai ter um menino.

E a outra, irritada, lançando pragas contra a própria fecundidade, respondia:

— Homem ou mulher, esses presentes deviam ser para você. Deus é que devia lhe dar um canário de alcova todos os anos.

Os lucros do estabelecimento não eram escassos; os esposos Arnaiz, porém, não podiam chamar-se ricos, porque, com tantos partos, tantas mortes de filhos e aquele familhão de mulheres, a casa não acabava de florescer como devia. Embora Isabel fizesse milagres de organização e economia, a considerável despesa cotidiana retirava muita seiva do estabelecimento. Gumersindo, contudo, nunca deixou de cumprir seus compromissos comerciais e, se seu capital não era grande, tampouco tinha dívidas. O quid estava em colocar bem as sete moças, pois, enquanto aquela tremenda campanha casamenteira não fosse coroada por êxito brilhante, não poderia haver grandes economias na casa.

Vinte anos atrás, Isabel Cordero era uma mulher abatida, pálida, de cintura disforme, como essas pessoas que parecem estar-se desmontando e não têm as partes do corpo em seu devido lugar. Mal se percebia que fora bonita. Os que conviviam com ela não conseguiam imaginá-la em estado diferente daquele que se chama interessante, pois o barrigão parecia nela coisa normal, como a cor da pele ou o formato do nariz. Tanto nessa situação quanto nos breves períodos em que ficava livre, sua atividade era sempre a mesma, pois até o dia de cair na cama estava de pé, atendendo incansavelmente ao complicado governo daquela casa. Funcionava tanto na cozinha quanto no escritório e, mal acabava de pôr no fogo a enorme frigideira de migas para o jantar ou o caldeirão de batatas, passava à loja para que o marido a inteirasse das faturas recém-recebidas ou dos avisos de letras. Cuidava principalmente para que as meninas não ficassem ociosas. As menores e os meninos iam à escola; as maiores trabalhavam no gabinete da casa, ajudando a mãe na revisão das roupas ou adaptando ao corpo dos rapazes as peças descartadas pelo pai. Alguma delas tinha jeito para passar roupa; também costumavam lavar na grande pia da cozinha, cerzir e pôr remendos. Mas aquilo em que todas mais se destacavam era a arte de arrumar os próprios enfeites. Aos domingos, quando a mamãe as levava para passear em longa procissão, iam tão bem-arrumadinhas que dava gosto vê-las. Ao irem à missa, desfilavam entre a admiração dos fiéis, pois convém registrar que eram muito graciosas. Desde as duas maiores, que já eram mulheres, até a última, uma miniaturazinha, formavam um rebanho interessantíssimo que chamava a atenção pelo número e pela escala gradual das alturas. Os conhecidos que as viam entrar diziam:

— Aí está dona Isabel com o mostruário.

A mãe, penteada com a maior simplicidade, sem enfeite algum, flácida, sardenta e já desprovida de qualquer atrativo pessoal que não fosse a respeitabilidade, pastoreava aquele rebanho, levando-o adiante como os condutores de perus no Natal.

E não eram poucos os apuros que a pobre passava para sair-se bem naquele papel imenso! Costumava fazer suas confidências a Barbarita.

— Veja, minha filha, em alguns meses fico tão aflita que não sei o que fazer. Deus me protege, porque, senão... Você não sabe o que é vestir sete filhas. Os meninos vão levando com os restos das roupas do pai que eu lhes adapto. Mas as meninas!... E com essas modas de agora e essa obrigação de aparentar!... Viu a peça de merino azul? Pois não bastou e tive de trazer mais dez varas. Não lhe digo nada do ramo dos sapatos! Ainda bem que, dentro de casa, quem calçar outra coisa que não sejam as alpargatinhas de cânhamo já me deixa feito uma leoa. Para lhes encher a barriga, defendo-me com batatas e migas. Este ano suprimi os ensopados. Sei que os empregados resmungam, mas não me importa. Que vão para outra parte onde os tratem melhor. Você acredita que um quintal de carvão desaparece como um sopro? Trago para casa duas arrobas de azeite e, poucos dias depois... puf... parece que as corujas o chuparam. Encomendo a Estupiñá dois ou três quintales de batatas, minha filha, e é como se não trouxesse nada.

Na casa havia duas mesas. Na primeira comiam o patrão e sua senhora, as meninas, o empregado mais antigo e algum parente, como Primitivo Cordero, quando vinha a Madri de sua propriedade em Toledo, onde residia. À segunda sentavam-se os empregados menores e os dois filhos, um dos quais fazia seu aprendizado na loja de rendas de Segundo Cordero. Era um total de dezessete ou dezoito bocas. O governo de tal casa, que teria vencido qualquer mulher, não fatigava Isabel de modo visível. À medida que as meninas cresciam, diminuía para a mãe parte do trabalho material; esse descanso, porém, era compensado pelo excesso de vigilância necessário para guardar o rebanho, cada vez mais perseguido por lobos e exposto a infinitas ciladas. As moças não eram más, mas eram jovens, e nem Cristo Pai poderia evitar as espiadelas pela única sacada da casa ou pela janelinha que dava para o Callejón de San Cristóbal. Começavam a entrar cartinhas na casa e a desenvolver-se aquelas intriguinhas inocentes que são jogos de amor, quando não o próprio amor. Dona Isabel mantinha os olhos sempre como dois lampiões e não as perdia de vista por um instante. Ao trabalho rude da espionagem materna somava-se o de exibir e arejar o mostruário, para ver se caía algum freguês, ou, por outro nome, marido. Era forçoso promover o artigo, e aquela grande mulher, negociante de filhas, não tinha outro remédio senão vestir-se e comparecer com sua mercadoria a esta ou àquela tertúlia de amigas, pois, se não o fizesse, as meninas ficavam de cara tão amarrada que ninguém as suportava. Era também de praxe o passeio de domingo em corporação, as meninas muito bem-arrumadinhas com quatro trapos que pareciam o que não eram, a mamãe muito esticada em luvas que lhe impossibilitavam o uso dos dedos, com um regalo que lhe dava calor excessivo nas mãos e sua boa caxemira. Sem ser velha, parecia sê-lo.

Por fim Deus, apreciando os méritos daquela heroína, que nem por um instante abandonava seu posto no combate social, lançou um olhar benevolente sobre o mostruário e depois o abençoou. A primeira moça a casar-se foi a segunda, chamada Candelaria, e, em honra da verdade, aquele casamento não foi muito vistoso. O noivo era um bom rapaz, empregado na camisaria da viúva de Aparisi. Chamava-se Pepe Samaniego e não possuía outra fortuna senão a vontade de trabalhar e sua honestidade comprovada. Seu sobrenome aparecia muito nas placas do pequeno comércio. Um tio seu era farmacêutico na Calle del Ave María. Tinha um primo peixeiro, outro vendedor de capas na Calle de la Cruz, outro agiota, e os demais, assim como seus irmãos, eram todos caixeiros. A princípio, os Arnaiz pensaram em opor-se àquela união; logo, porém, fizeram este cálculo:

— Os tempos não estão para grandes exigências em matéria de maridos. É preciso aceitar tudo o que aparecer, porque são sete para colocar. Basta que o rapaz seja sério e trabalhador.

Casou-se depois a mais velha, chamada Benigna em memória do avô, o herói de Boteros. Esse, sim, foi um bom casamento. O noivo era Ramón Villuendas, filho mais velho do célebre cambista da Calle de Toledo; grande casa, fortuna sólida. Já era viúvo, com dois pequenos, e sua parentela oferecia uma variedade surpreendente quanto à riqueza. Seu tio dom Cayetano Villuendas era casado com Eulalia, irmã do marquês de Casa-Muñoz, e possuía muitos milhões; em compensação, havia um Villuendas taberneiro e outro que tinha uma lojinha de chitas e baetas chamada El Buen Gusto. O parentesco dos Villuendas pobres com os ricos não se via com muita clareza; parentes, porém, eram, e muitos deles se tratavam e se chamavam por você.

A terceira das moças, chamada Jacinta, arranjou marido no ano seguinte. E que marido!... Mas, chegando aqui, vejo-me obrigado a cortar este fio e passo a contar certas coisas que devem preceder o casamento de Jacinta.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

Fortunata e Jacinta

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Fortunata e Jacinta

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Fortunata e Jacinta

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Fortunata e Jacinta Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 2 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Fortunata e Jacinta

Capa de Fortunata e Jacinta
Continue a leitura Parte 1 — Capítulo II: SANTA CRUZ E ARNAIZ. VISLUMBRE HISTÓRICO SOBRE O COMÉRCIO MADRILENO Capítulo 2 · 2 de 32 · ≈ 63 min
Todos os capítulos 32 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir