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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 14 · Fortunata e Jacinta

Parte 2 — Capítulo III: Dona Lupe dos Perus

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Parte 2 — Capítulo III: Dona Lupe dos Perus

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Maximiliano não se sentou; dona Lupe, sim, no centro do sofá, sob o retrato, como para dar maior austeridade ao julgamento. Repetiu o «muito bem, senhor D. Maximiliano» com ironia sarcástica. Em geral, sempre que a tia lhe dava tratamento, chamando-o de senhor D., o pobre rapaz via a nuvem de granizo sobre a cabeça.

«Uma pessoa se matar a vida inteira», prosseguiu ela, «para fazer o bendito sobrinho seguir adiante, livrá-lo das doenças à força de mimos e cuidados, dar-lhe uma carreira tirando eu mesma o pão da boca, fazer por ele o que nem todas as mães fazem pelos filhos, para que no fim!... Belo pagamento, belo!... Não, não me explique nada, estou perfeitamente informada. Sei quem é essa... dama ilustre com quem pretende se casar. Ora, uma bela donzela lhe canta... E pensa que consentiremos em semelhante desonra na família? Diga-me que tudo é brincadeira de criança e não se fale mais no assunto.»

Maximiliano não podia dizer aquilo; mas tampouco podia dizer outra coisa, porque, se no fundo de seu ânimo começavam a se levantar ondas de firmeza, elas rebentavam e se desfaziam antes de chegar à praia, isto é, aos lábios. Estava tão acanhado que, sentindo dentro de si a energia, não conseguia mostrá-la por causa daquela maldita emoção nervosa que o dominava. Deixou o olhar espalhar-se pela parede da frente, como se procurasse apoio ali. Em certas situações difíceis e nos grandes estupores da alma, os olhos costumam fixar-se em alguma coisa insignificante e sem relação com a situação. Maximiliano contemplou por algum tempo o grupo fotográfico das moças de Samaniego, Aurora e Olimpia, com mantilhas brancas, braços entrelaçados, uma muito austera, a outra sentimental. Por que olhava aquilo? Sua perturbação levava-o a pendurar o olhar aqui e ali, prendendo o espírito em qualquer objeto, ainda que fossem as cabeças dos pregos que sustentavam os retratos.

«Explique-se, homem», acrescentou dona Lupe, que tinha gênio vivo. «É uma criancice?»

— Não, senhora — respondeu o acusado; e aquela negação, que era afirmação, começou a dar-lhe ânimo, aliviando um pouco a angústia da boca do estômago.

— Tem certeza de que não é brincadeira? Bela ideia você tem do mundo e das mulheres, inocente!... Não posso consentir que uma vadia dessas o agarre e engane para roubar-lhe o nome honrado, como outros roubam o relógio. É preciso tratá-lo sempre como aquelas crianças atrasadinhas, ainda em meio desenvolvimento. É preciso lembrar que, há cinco anos, eu ainda ia pela manhã abotoar-lhe as calças e que você tinha medo de dormir sozinho no quarto.

Ideia tão desfavorável de sua pessoa exasperava o jovem. Sentia a bravura crescer por dentro; mas faltavam-lhe palavras. Onde diabos estavam aquelas malditas palavras que não lhe ocorriam em situação semelhante? O maldito hábito da timidez era a causa daquele silêncio estúpido. Porque o olhar de dona Lupe exercia sobre ele fascinação singularíssima e, tendo muito a dizer, não conseguia dizê-lo. «Mas o que eu diria?... Como começaria?», pensava, fixando os olhos no retrato de Torquemada e sua esposa, de braços dados.

— Tudo se arranjará — observou dona Lupe em tom conciliador —, se eu conseguir tirar de sua cabeça essa fumaça. Porque você tem sentimentos honrados, tem bom juízo... Mas sente-se. Cansa-me vê-lo de pé.

— É preciso que a senhora se informe bem — disse Maximiliano ao sentar-se na poltrona, julgando ter encontrado uma boa ponta de discurso para começar. — Informe-se bem das coisas... Eu... pensava falar com a senhora...

— E por que não falou? Imagine só como devia ser!... Ora, um rapaz delicadinho como você, meter-se com essas viciosas...! E não tenha dúvida... Assim, logo entregará a pele. Se cair doente, não venha pedir à tia que cuide de você, porque para isso eu sirvo, não é?, para isso sim eu sirvo, ingrato, tratante... E lhe parece bem que, quando me revejo em você, quando o faço seguir adiante com tanto trabalho e sou para você mais que uma mãe, lhe parece bem pagar-me assim, infame, e casar-se com uma mulher de má vida?

Rubín ficou verde e uma amargura intensíssima subiu-lhe do coração aos lábios.

«Não é isso, tia, não é isso», sustentou, tomando posse de si mesmo. «Ela não é mulher de má vida. Enganaram a senhora.»

— Quem me enganou foi você, com seus acanhamentos e timidezes... Mas agora veremos. Não pense que vai brincar comigo; não pense que o deixarei fazer sua vontade. Por quem me toma, simplório?... Ah, se eu não tivesse confiado tanto...! Mas fui uma tola; pensei que você não era capaz de olhar para uma mulher! Bela peça me pregou, bela. Você é um esboço de tratante... em toda a extensão da palavra.

Ao ouvir aquilo, Maximiliano estava profundamente absorto, olhando o retrato de Rufinita Torquemada. Via-a e não a via, e só confusamente, com imprecisões de pesadelo, percebia a atitude daquela senhorita, retratada sobre um fundo marinho, fingindo estar num barco. Voltando a si, pensou em defender-se; mas não conseguia encontrar as armas, isto é, as palavras. Apesar disso, nem por um instante lhe ocorreu ceder. Sua máquina nervosa fraquejava; mas a vontade permanecia firme.

«Informaram mal a senhora», insinuou com dificuldade, «a respeito da pessoa... que... Não há vida dissoluta alguma, nem esse é o caminho... Eu pensava dizer-lhe: “Tia, pois eu... amo esta pessoa e... minha consciência...”»

— Cale-se, cale-se e não me desperte a cólera, porque, ao ouvi-lo dizer que ama uma mulherona devassa, dá-me vontade de afogá-lo, mais por tolo que por mau... e, ao ouvi-lo falar de consciência neste assunto, dá-me vontade de... Deus me perdoe... Sabe o que lhe digo? — acrescentou, elevando a voz. — Sabe o que lhe digo? Que, a partir deste momento, volto a tratá-lo como quando tinha doze anos. Hoje você não sai de casa. Pronto, já reassumi minhas funções disciplinares... E amanhã volta a tomar óleo de fígado de bacalhau. Vá para o quarto e tire as botas. Hoje você não pisa na rua.

Deus sabe o que o acusado responderia. A primeira palavra ficou solta no ar porque chegou uma visita. Era o senhor Torquemada, pessoa de confiança da casa, que, ao entrar, ia direto ao gabinete, à cozinha, à sala de jantar ou onde quer que a senhora estivesse. A fisionomia daquele homem era difícil de compreender. Só dona Lupe, graças a longa prática, sabia encontrar alguns hieróglifos naquele rosto ordinário e magro, que tinha certos traços de tipo militar com ares clericais. Torquemada fora alabardeiro na juventude e, conservando o bigode e o cavanhaque, já grisalhos, tinha um não sei quê de eclesiástico, devido sem dúvida à mansidão afetada e melosa e a certo subir e descer das pálpebras com que adulterava sua grosseria inata. A cabeça inclinava-se sempre para o lado direito. Sua estatura era alta, mas não altiva; sua cabeça calva, sebosa e escamosa, com uma grade de cabelos mal estendidos para cobri-la. Por ser domingo, naquele dia o colarinho da camisa estava quase limpo, mas a capa era de segunda categoria, com as dobras engorduradas e os debruns desfiados. As calças, encurtadas pelo crescimento das joelheiras, subiam-lhe tanto que parecia ter montado a cavalo sem presilhas. Suas botas, por ser domingo, estavam engraxadas e eram tão rangentes que se ouviam a uma légua.

«E como vai a família?», perguntou ao sentar-se, depois de dar a mão, sempre suada, a dona Lupe e ao sobrinho.

— Perfeitamente bem — disse a senhora, observando com ansiedade o semblante de Torquemada. — E em sua casa?

— Nenhuma novidade, graças a Deus.

Dona Lupe esperava naquele dia notícia de um assunto que muito lhe interessava. Como sempre se punha no pior para que as desgraças não a apanhassem desprevenida, pensou, ao ver entrar o agente, que ele lhe trazia más novas. Temeu perguntar. O rosto de militar adulterado não exprimia mais que decidido interesse pela família. Por fim, Torquemada, que não gostava de perder tempo, disse à amiga:

«Ora, dona Lupe, hoje estamos de sorte. Aposto que não adivinha a peripécia que lhe trago.»

A fisionomia da senhora se iluminou, pois sabia que o amigo chamava de peripécia toda cobrança inesperada. Ele começou a rir e meteu a mão no bolso interno do paletó.

«Ai! Não me diga, D. Francisco», exclamou dona Lupe com incredulidade, cruzando as mãos. «Ele pagou...?»

— A senhora vai ver... Eu... tampouco esperava. Fui ontem à noite dizer-lhe que na segunda-feira haveria penhora. Hoje de manhã, quando me vestia para ir à missa, vejo-o entrar. Pensei que vinha pedir mais prorrogações. Como está sempre nos enganando, hoje, amanhã... Eu não acredito nele nem sob juramento da Bíblia. É muito fabulista. Mas, enfim, que recebamos pedradas dessas todos os dias. «Senhor Torquemada», disse-me muito sério, «venho pagar-lhe...» Fiquei aquilo que chamam de atônito. É que eu não esperava a peripécia. Finalmente, entregou-me o guano, isto é, oito mil reales, pegou sua promissória e foi viver.

— É o que eu lhe dizia — observou dona Lupe, quase sem conseguir falar, com a alegria atravessada na garganta. — O tal Joaquinito Pez é pessoa decente. Ele passa seus apertos, como todos esses filhos de família que levam vida boa e um dia têm, no outro não. Com certeza é jogador...

Torquemada separou as notas, entregando a maior parte a dona Lupe.

«Seus seis mil reales... dois mil meus. Foi uma bela sorte. Eu os considerava, por assim dizer, perdidos, porque o tal Joaquinito está, segundo ouvi, com a água pelo pescoço. Quem será o desgraçado a quem deu o golpe? Ainda bem que isso não nos importa.»

— Como não lhe emprestaremos mais...

— Veja, dona Lupe — disse Torquemada, fazendo um o perfeito com o polegar e o indicador e mostrando-o à interlocutora.

ii

Dona Lupe contemplou o o com veneração e ouviu:

«Veja, senhora, esses senhoritos dissolutos são bons fregueses, porque não reparam no materialismo do prêmio e do prazo; mas no fim pregam a peça, e pregam das grandes. É preciso ter muito olho com eles. No princípio, a penhora os assusta; mas, depois que perdem o escrúpulo uma vez, tanto lhes faz fu como fa. Ainda que a senhora os ponha na publicidade da Gaceta, ficam muito tranquilos. Veja o marquesinho de Casa-Bojío; penhorei-o no mês passado, vendi até a gravura em que tinha a árvore genealógica. Pois, finalmente, três dias depois eu o vi num faetonte, como se nada houvesse, e ele passou junto de mim, e as rodas salpicaram-me com a lama da rua... Não é que me importe o materialismo da lama; digo para que se veja como são... Pois acredita que depois encontrou quem lhe emprestasse? Foi a quatro por cento ao mês; mas até a cinco seria, por assim dizer, tudo ou nada. É verdade que não incomodam e, se calha, quando pedem prorrogação, para manter a gente satisfeita, dão um carguinho a um sobrinho, como fez comigo o rapaz de Pez... mas o materialismo do cargo não importa; quando menos se espera, pregam uma peça, e das finas, acredite. Por isso, ele pode vir agora bater a esta porta, que eu o mandarei plantar cebolinhas.»

Ao chegar aí, Torquemada tirou sua sebosa cigarreira. Como tinha tanta confiança, ia enrolar um cigarro; ofereceu a Maximiliano, e dona Lupe respondeu bruscamente por ele, dizendo com desdém: «Este não fuma».

As operações preliminares da fumada duravam bom tempo, porque Torquemada trocava o papel do cigarro. Depois acendeu o fósforo, riscando-o na coxa. «Como garantia», prosseguiu, «embora dê muito trabalho, há o rapaz da loja de roupas feitas, José María Vallejo. Ele me tem lá todos os primeiros dias do mês, como cão de presa... Tenho mil duros aplicados ali, e só lhe cobro vinte e seis todos os meses. Atrasou? “Meu filho, tenho um grande compromisso e não posso esperar.” Pego meia dúzia de capas, levo comigo e fico muito tranquilo... E não faço isso pelo materialismo das capas, mas para que ele respeite bem o prazo. Não há outro remédio, senhora. É preciso tratá-los assim, porque não têm consideração. Imaginam que a gente tem dinheiro para que eles se divirtam. Lembra-se daqueles estudantes que nos deram tanto trabalho? Foi o primeiro dinheiro seu que apliquei. Aquele Cienfuegos, aquele Arias Ortiz! Que belos tratantes. Se não fosse por mim, não teríamos recebido...

E eram tão patifes que, depois de irem a minha casa chorar por causa da prorrogação, eu os encontrava no café devorando bifes... e tome taças de rum e marasquino... Exatamente como aquele comerciante da calle Mayor, aquele Rubio que tinha uma peleteria, lembra-se? Um dia, finalmente, trouxe-me seu relógio, os brincos da mulher e doze caixas de peles e regalos, e naquela mesma tarde, naquela mesmíssima tarde, senhora, eu o vejo na Puerta del Sol, subindo numa carruagem para ir aos Touros... Eles são assim... querem o dinheiro, por assim dizer, para o materialismo de jogá-lo fora. Por isso passo o santo dia inteiro vigiando José María Vallejo, que é homem bom, sem desprezar ninguém. Vou à loja e vejo se há gente, se há movimento; lanço um olhar ao caixa; informo-me se o rapaz que vai cobrar as contas traz guano; faço um sermão ao dono, dou-lhe conselhos, recomendo que não crucifique quem paga. É a verdade, não existe outro caminho...! Finalmente, quem se faz de manteiga logo é comido. E não agradecem, não, senhora, não agradecem o interesse que tenho por eles. Quando me veem entrar, a senhora precisava ver a cara que fazem! Não reparam que estão trabalhando com meu dinheiro. E afinal, o que eram eles? Uns pobres pelagatos. Parece-lhes que, porque me dão vinte e seis duros por mês, já cumpriram... Dizem que é muito, e eu digo que precisam me agradecer, porque os tempos estão ruins, mas muito ruins.»

Durante toda a parte do século XIX que durou a longuíssima existência usurária de D. Francisco Torquemada, jamais se ouviu dele uma só vez que os tempos fossem bons. Eram sempre ruins, mas muito ruins. Mesmo assim, em 68 Torquemada já possuía duas casas em Madri e começara os negócios com doze mil reales que a mulher herdara em 51. Os capitais antes modestos de dona Lupe, ele os centuplicara em dois lustros, sendo ela a única pessoa que associava a seus negócios obscuros. Cobrava-lhe comissão insignificante e tinha pelos assuntos dela tanto interesse quanto pelos próprios, devido à grande amizade que tivera com o falecido Jáuregui.

«E com esta data e com esta cara, vou-me embora», disse, levantando-se e pendurando a capa que lhe caía do ombro esquerdo.

— Tão cedo?

— Senhora, ainda não ouvi missa. Como eu lhe dizia, estava me vestindo para sair e ouvi-la quando Joaquinito entrou para me dar a grande peripécia.

— Foi boa, foi boa! — exclamou dona Lupe, comprimindo contra o seio a mão em que tinha as notas, tão bem agarradas que o papel não aparecia entre os dedos.

— Fique com Deus — disse Torquemada a Maximiliano, que só respondeu à saudação com um ju, ju...

E saiu para a antessala, acompanhado por dona Lupe. Maximiliano ouviu-os cochichando junto à porta. Por fim, ouviram-se as botas rangentes do ex-alabardeiro descendo a escada, e dona Lupe reapareceu no gabinete. O júbilo que lhe causava a cobrança daquele dinheiro que julgava perdido era tão grande que seus olhos castanhos brilhavam como dois carvões acesos e sua boca trazia esboçado um sorriso. Assim que a viu entrar, Maximiliano percebeu que sua cólera se acalmara. O guano, como dizia Torquemada, não podia deixar de adoçá-la; e, aproximando-se do delinquente, que não se movera da poltrona, ela pôs uma das mãos sobre seu ombro, segurando fortemente as notas na outra, e disse:

«Não, não se aflija... não é para levar assim. Digo essas coisas para seu bem...»

— Eu, na verdade — replicou Maximiliano com uma serenidade que espantou mais a ele próprio do que a dona Lupe —, não me afligi... estou tranquilo, porque minha consciência...

Ali tornou a se embaralhar. Dona Lupe não lhe deu tempo de se desembaraçar, porque entrou no aposento, fechando as portas de vidro. Do gabinete, Maximiliano ouviu-a mexer nas coisas.

Guardava o dinheiro. Abrindo depois a porta, mas sem sair do aposento, a senhora continuou falando com o sobrinho:

«Você já sabe o que eu disse. Hoje não sai à rua... E amanhã começará a tomar o óleo de fígado de bacalhau, porque tudo isso que lhe dá não passa de fraqueza do cérebro... Depois continuaremos com o fosfato, outra vez com o fosfato. Você não devia ter parado de tomá-lo...»

Como não tinha a tia diante de si, Maximiliano permitiu-se um sorriso zombeteiro. Naquele momento olhava para seu tio, o senhor Jáuregui, que também olhava para ele, como é natural. Não pôde deixar de observar que o digno esposo da tia era horrendo; nem compreendia como dona Lupe não morria de medo quando ficava sozinha, à noite, na companhia de semelhante espantalho.

«Então já sabe», disse ela, aparecendo à porta enquanto abotoava o corpete de merino negro, pois se preparava para sair. «Já pode ir tirar as botas. Está preso.»

O jovem foi para o quarto sem dizer nada, e dona Lupe ficou pensando em como era dócil. O rigor de sua autoridade, que o rapaz sempre acatava com veneração, seria remédio eficaz e rápido para a desordem daquela cabeça. Bem dizia ela: «Assim que lhe dou quatro gritos, deixo-o como uma lebre. Quero ver aquelas lobas conseguirem transtorná-lo».

«Papitos!», gritou a senhora, e logo se ouviram as pisadas da menina no corredor como as de um cavalo no Hipódromo. Apareceu com uma batata numa das mãos e a faca na outra.

«Veja», disse-lhe a patroa em voz baixa. «Tome cuidado para observar o que o senhorito Maxi faz enquanto eu estiver fora. Veja se escreve alguma carta ou o que faz.»

A macaquinha deu-se por informada e voltou à cozinha aos pulos.

«Vejamos», disse a senhora falando consigo mesma, «será que estou esquecendo alguma coisa?... Ah, o porta-moedas. O que é preciso trazer?... Aletria, açúcar... e nada mais. Ah, o óleo de fígado de bacalhau; esse eu não perdoo. É a colheradas que isso se cura. E agora não haverá o realzinho de vellón por cada dose. Já é homem, quero dizer, já não é criança.»

Imagine o leitor qual foi o espanto de dona Lupe dos Perus quando viu entrar na sala o sobrinho, não de chinelos nem vestido para ficar em casa, mas empacotado para sair, com sua capa de forros vermelhos, o fraque azul e o chapéu-coco cor de café. Tão estupefata e colérica ficou diante da desobediência do rapaz que mal conseguiu balbuciar um protesto: «Ma... mas...»

«Tia», disse Maximiliano com voz alterada e trêmula, «não po... não posso obedecer à senhora... Sou maior de idade. Completei vinte e cinco anos... Eu a respeito; respeite-me também.»

E, sem esperar resposta, deu meia-volta e saiu de casa a toda pressa, temendo sem dúvida que a tia o agarrasse pelas abas.

Ele explicava muito claramente a própria conduta, tagarelando consigo: «Não sei me defender com palavras; não consigo falar, atrapalho-me e fico perturbado só porque minha tia olha para mim; mas vou me defender com atos. Meus nervos me traem; mas minha vontade poderá mais que os nervos, e agora tenho a vontade muito firme. Que se metam comigo; que venha todo o gênero humano impedir esta decisão; não discutirei, não direi uma palavra; mas vou aonde vou e, quem se puser diante de mim, seja quem for, eu piso e continuo meu caminho».

iii

Dona Lupe ficou sem saber o que lhe acontecia.

«Papitos, Papitos!... Não, não estou chamando... vá embora... Mas você viu que insolente? Não é ele, não é ele... Viraram-no do avesso, enfeitiçaram-no. Que tratante! Estou quase indo atrás dele e avisando uma dupla da Ordem Pública para que o agarrem... Mas à noite nos veremos frente a frente. Porque você há de voltar, tem de voltar, seu sietemesino hipócrita... Papitos, tome, tome; desça para comprar a aletria e o açúcar. Eu não saio, não posso sair. Acho que vou ter alguma coisa... Veja, passe pela botica e peça um frasco de óleo de fígado de bacalhau, daquele que eu trazia. Eles já sabem. Diga que eu irei pagar... Escute, escute, não traga isso. Ele não vai querer tomar... Traga uma vara. Não, não traga a vara também... Passe pela drogaria e peça dez cêntimos de sanguinária. Acho que vou ter alguma coisa...»

Estava de fato ameaçada por um afluxo de sangue, e não era para menos. Nunca vira no sobrinho um gesto de independência como aquele. Ele sempre fora tão pouca coisa que ficava onde o punham. Vontade própria, jamais tivera. Em tempo algum fora preciso pôr-lhe a mão em cima, porque um franzir de sobrancelhas bastava para trazê-lo à obediência. O que acontecera àquele cordeiro para transformá-lo em algo parecido com um pequeno leão? A mente de dona Lupe não conseguia decifrar mistério tão grande. Depois da cólera e da confusão veio o abatimento, e ela se sentia tão rendida fisicamente como se houvesse passado toda a manhã ocupada em tarefa penosa.

Tirou lentamente as roupinhas de domingo que começara a vestir e tornou a chamar a macaquinha para dizer-lhe: «Faça apenas umas sopas de alho. O senhorito não virá almoçar, e, se vier, vou dizer-lhe poucas e boas».

Pegando a cadeirinha baixa que usava quando costurava, colocou-a junto à varanda. Doía-lhe a cintura e, ao sentar-se, soltou um ai! Para costurar usava sempre óculos. Colocou-os e, tirando uma peça de seu cesto de costura, começou a cerzir uns lençóis. Dona Lupe não tinha repugnância por trabalhar aos domingos, porque Jáuregui lhe tirara os escrúpulos religiosos durante tantos anos de propaganda matrimonial progressista. Pôs-se, portanto, a cerzir em seu lugar costumeiro, junto à vidraça. Na varanda tinha dois ou três vasos e, entre os galhos secos, via a rua. Como o apartamento ficava no primeiro andar, daquele lugar se veria muito bem a gente passar, caso a gente quisesse passar por ali. A calle de Raimundo Lulio e a de Don Juan de Austria, que forma ângulo com ela, têm pouquíssimo movimento. Aquilo parece uma aldeia. A única distração de dona Lupe em suas horas solitárias era ver quem entrava na oficina de carruagens vizinha ou na tipografia da frente e se dona Guillermina Pacheco passava ou não rumo ao asilo da calle de Alburquerque. Aquele era lugar e ocasião admiráveis para refletir, com os panos sobre a saia, a agulha na mão, os óculos encaixados, o cesto de roupa ao lado e o gato feito uma bola de sono aos pés da dona. Naquele dia, dona Lupe tinha, mais do que nunca, longa matéria para meditações.

«Uma pessoa se sacrificar a vida inteira para isso!... Ele não sabe, como haveria de saber, se é um tolinho? Põem o prato diante dele, e o que sabe das agonias que custou pô-lo ali?... Pois, se eu lhe dissesse que cada grão-de-bico, em alguns dias, há tempos, valia uma pérola... de tanto que custava trazê-lo para casa!... Não sei o que teria sido de mim sem o senhor Torquemada, nem o que teria sido de Maxi sem mim. Bela existência seria a dele se não tivesse outro amparo além dos irmãos! Diga, simplório de Coria, se eu não houvesse trabalhado como negra para defender o pãozinho e pôr esta casa no estado em que está; se eu não pensasse tanto quanto penso, esquentando os miolos a todas as horas e empregando em mil ninharias este entendimento que Deus me deu, o que teria sido de você, ingrato?... Ah! Se meu Jáuregui vivesse!»

A lembrança do falecido, que sempre se avivava na mente de dona Lupe quando ela se via em algum conflito, enterneceu-a. Em todas as aflições, consolava-se com a doce memória de sua felicidade matrimonial, pois Jáuregui fora o melhor dos homens e o número um dos maridos. «Ai, meu Jáuregui!», exclamava, pondo toda a alma num suspiro.

D. Pedro Manuel de Jáuregui servira no Real Corpo de Alabardeiros. Depois se dedicou aos negócios e era tão honrado, mas tão insossamente honrado, que ao morrer não deixou mais que cinco mil reales. Natural da província de León, recebia remessas de ovos e outros artigos de recova. Todos os vendedores de perus leoneses, zamoranos e segovianos depositavam em suas mãos o dinheiro que ganhavam, para que o remetesse às povoações produtoras do artigo, e daí veio o apelido que lhe deram em Puerta Cerrada e que dona Lupe herdou. Também recebia Jáuregui, no Natal, remessas de mantecadas de Astorga, e todos os carregadores da região de Maragatería iam à sua casa cobrar e deixar fundos. Na política, D. Pedro desempenhou grande papel por ser um dos corifeus da Milícia Nacional, e era tão sensato que, na única vez em que se sublevou, o fez ao grito mágico de «Viva Isabel II!». Morreu aquele bendito, e dona Lupe teria morrido também se a dor matasse. E não se pense que faltaram pretendentes à viuvinha, pois havia, entre outros, um D. Evaristo Feijoo, coronel do Exército, que rondava sua rua e não a deixava viver. Mas a fidelidade à memória do feio e honrado Jáuregui sobrepunha-se em dona Lupe a todos os interesses da terra. Depois vieram a criação e os cuidados do pequeno sobrinho, que lhe deram distração tão saudável para os desgostos da alma. Torquemada e os negócios também a ajudaram a entreter a existência e suportar a dor... Passou o tempo, ganhou dinheiro e, lentamente, chegou à situação em que a descrevi. Dona Lupe já roçava os cinquenta anos, mas estava tão bem conservada que não parecia ter mais de quarenta. Na juventude, fora robusta de corpo e magra de rosto, e tinha certa semelhança remota com Juan Pablo. Seus olhos castanhos conservavam a vivacidade da juventude; mas havia no rosto certa austeridade jurídica, acentuada por linhas e seca de cor. Sobre o lábio superior, fino e violáceo como as bordas de ferida recente, corria-lhe uma penugem tênue, muito tênue, como a dos meninos precoces, pelos finíssimos que certamente não a enfeavam; ao contrário, talvez fossem a única pincelada feliz daquele rosto semelhante às pinturas da Idade Média, e a graça da tal penugem era terminar sobre o canto direito da boca com uma verruguinha muito graciosa, da qual saíam dois ou três pelos ruivos que, sob a luz, brilhavam retorcidos como fiozinhos de cobre. O busto era belo, embora, como se verá mais adiante, houvesse nele alguma coisa e até algumas coisas de falseamento da verdade.

Dona Lupe se destacava pela inteligência e pelo prurido de mostrá-la a todo instante.

Assim como a outras o amor-próprio inspira vaidade, à viúva de Jáuregui infundia convicções de superioridade intelectual e o desejo de dirigir a conduta alheia, brilhando no conselho e em tudo quanto é prático e governativo. Era uma daquelas pessoas que, sem ter recebido educação, parecem tê-la recebido completíssima, pela maneira correta de se exprimir, pela firmeza com que se impõem um caráter e o sustentam e pelo modo habilidoso como disfarçam, com as retóricas sociais, as brutalidades do egoísmo humano.

Da memória de seu Jáuregui, levou o pensamento ao sobrinho. Eram seus dois amores. Empurrando para cima os óculos que haviam deslizado até a ponta do nariz, prosseguiu assim: «Pois comigo ele não brinca. Ponho-o na rua como três e dois são cinco. Terei de fazer um esforço, porque o amo como se devem amar os filhos... Eu, que tinha a ilusão de casá-lo com Rufina ou ao menos com Olimpia!... Não, gosto muito mais de Rufina Torquemada. Veja como sou tola. Ao vê-lo tão arredio, escondendo-se quando dona Silvia entrava com a filha, eu pensava que falar com esse rapaz de mulheres era como mencionar a cruz ao diabo. Confie nas aparências. E agora acontece que há meses sustenta uma mulher, passa o dia inteiro com ela e... Ora, tenho de ver isso para acreditar... E outra coisa: como ele se arranjará para sustentá-la?... O cofrinho está ali, com o mesmo peso de sempre...»

Ao chegar aí, dona Lupe mergulhou em cismas tão abstrusas que não é possível segui-la. Sua mente submergia e voltava à tona como madeira lançada no meio de ondas bravias. A boa senhora passou assim toda a tarde. Quando chegou a noite, desejava ardentemente que o sobrinho entrasse da rua para descarregar sobre ele todo o material de lava que o vulcão de seu peito não conseguia conter. O sietemesino entrou muito tarde, quando a tia já comia e se servira do cozido. Maximiliano sentou-se à mesa sem dizer nada, muito sério e um tanto assustado. Começou a comer com apetite a sopa fria, lançando olhares investigadores e inquietos à senhora sua tia, que evitava olhar para ele... para não explodir... «Preciso me conter», pensava ela, «até que ele coma... E parece que está com vontade...» Às vezes, o jovem soltava suspiros profundos, olhando para a tia, como se desejasse explicar-se com ela. Mais de uma vez dona Lupe quis romper em insultos; mas o silêncio e a compostura do sobrinho a continham, fazendo-a temer que se repetisse o gesto viril daquela manhã. Por fim, mal o jovem provou umas passas que havia de sobremesa, levantou-se para ir ao quarto; e, assim que dona Lupe o viu de costas, seu ânimo se incendiou bruscamente, e ela correu atrás dele, contendo as palavras que lhe saíam da boca. O pobre rapaz acendia o lampião do quarto quando a senhora apareceu à porta, gritando com toda a força dos pulmões: «Vagabundo!»

Maximiliano não se alterou nem mesmo quando dona Lupe, repetindo o apóstrofo, chegou ao quarto ou quinto vagabundo. E, como se aquela palavra fosse a rolha de sua ira, depois dela correram em veia abundante as queixas pelo que o rapaz fizera naquela manhã. «E não quero falar agora do motivo», acrescentou ela, «daquela moça que você arranjou... e que sem dúvida já começa a lhe transmitir a má educação. Refiro-me à estupidez desta manhã. Pensa que sua tia é algum trapo velho?»

O rapaz sentou-se na cadeira junto à cama e, apoiando o cotovelo nela, aguentou a tempestade sem olhar para a juíza. Tinha um palito entre os dentes e o levava de um lado para o outro da boca com nervosa rapidez. Já perdera o grande temor que a irmã do pai lhe inspirava. Assim como certos covardes se tornam valentes depois de disparar o primeiro tiro, Maximiliano, uma vez que abrira fogo com o gesto de homem daquela manhã, sentia a vontade livre do freio que a timidez lhe impusera. A tal timidez era fenômeno puramente nervoso, e nela também tinham parte considerável seus hábitos rotineiros de subordinação e acanhamento. Enquanto não houve em sua alma uma força poderosa, aqueles hábitos e a diátese nervosa formaram a crosta ou aparência de seu caráter; mas surgiu por dentro a energia, que durante algum tempo lutou para se mostrar, rompendo a casca. A timidez ou falsa humildade endurecia-a, e, como a energia interior não encontrava auxílio na palavra, porque a submissão habitual e o acanhamento não lhe haviam permitido educá-la para discutir, passava o tempo sem que a crosta se rompesse. Por fim, o que as palavras não puderam fazer, um ato fez. Rompida a casca, Maximiliano viu-se mais valente e disposto a medir forças com a fera. O que antes era como levantar uma montanha parecia-lhe agora como erguer do chão um lenço.

Ouviu com calma os desabafos da tia. Quantos argumentos podiam ser opostos aos que a boa senhora disparava com mais ardor do que lógica! Mas, quanto a argumentar com palavras, que diabo!, ainda não era forte. Argumentava com fatos. Nisso, sim, não precisava de ajuda. Quando a tia tomou fôlego, deixando-se cair sufocada na cadeira próxima à mesa, Maximiliano começou a falar por sua vez; mas aquilo não era raciocinar, era como se pegasse o coração e o despejasse sobre a cama, assim como despejara o cofrinho depois de quebrá-lo.

«Eu a amo tanto», disse sem olhar para a tia e encontrando palavras relativamente fáceis para exprimir os sentimentos, «eu a amo tanto que toda a minha vida está nela, e nem lei, nem família, nem o mundo inteiro podem me afastar dela... Se puserem nesta mão a morte e nesta outra deixar de amá-la e me obrigarem a escolher, prefiro mil vezes morrer, matar-me ou que me matem... Amei-a desde o momento em que a vi, e não posso deixar de amá-la senão deixando de viver... Portanto, é tolice opor-se ao que tenho decidido, porque salto por cima de tudo e, se puserem uma parede diante de mim, eu a atravesso... A senhora vê como os cavaleiros do Circo de Price rompem os papéis que lhes põem diante quando saltam sobre os cavalos? Pois assim rompo uma parede se a puserem entre ela e mim.»

iv

A comparação deve ter impressionado vivamente a grande dona Lupe, que contemplou o sobrinho por algum tempo com mais pena do que ira.

«Já sofri decepções na vida», disse, balançando a cabeça como os bonecos que têm um arame no pescoço, «mas nunca sofri uma decepção como esta. Você me pregou a peça inteira, completa, com mestria... É verdade que não tenho poder sobre você... Se se perder, estará muito bem perdido. Não venha depois para mim com dengos. Criei você, eduquei-o, fui para você uma mãe. Não acha que devia ter me dito: “Pois, tia, é isto”?»

— Claro que sim — replicou Maximiliano vivamente —, mas eu tinha receio, tia. Agora que me soltei, a coisa me parece a mais fácil do mundo. Por essa falta, peço perdão à senhora, porque reconheço que me comportei mal. Mas minha língua se prendia quando eu queria dizer alguma coisa, e começava a suar... Acostumei-me a falar com a senhora apenas sobre se minha cabeça doía ou não, se um botão caíra, se chovia ou o tempo estava seco e outras tolices assim... Agora me escute, porque, depois de tanto calar, parece que vou explodir se não lhe contar tudo. Conheci-a há três meses. Estava pobre, fora muito desgraçada...

— Sim, sim, disseram-me que é muito rodada. Você engole qualquer coisa — afirmou dona Lupe com crueldade.

— Não dê atenção... os homens são muito maus. A senhora não concorda comigo que os homens são muito maus? E me diga agora: não é ação nobre trazer para o bom caminho uma alma boa que se desviou?

— E você, você — gritou a de Jáuregui com espanto, benzendo-se —, resolveu virar pastor!

— Mas espere, tia. Não julgue as coisas tão depressa — insistiu Maximiliano, aflito por não saber exprimir-se bem. — Ela está arrependida! Nem foi tão má quanto disseram à senhora. Se é um anjo...

— De cornija! Bom proveito.

— Acredite em mim, e quando a conhecer...

— Eu... eu conhecê-la! Disso ela está livre... Repito que bom proveito lhe faça sua ovelha, ou melhor, sua cabra desgarrada.

— Mas não é isso... é que não me exprimo bem. Diga-me uma coisa: querer ser honrada não é o mesmo que sê-lo? A senhora diz que não? Pois eu não vejo assim, não vejo assim.

— Como haveria de ser a mesma coisa querer ser algo e sê-lo?

— No terreno moral, sim... Se comigo ela é honrada e sem mim poderia não ser, como quer que eu lhe diga: vá embora e vá para os diabos? Não é mais natural e humano que eu a acolha e salve? Ora, as obras grandes e... como direi?... cristãs, devem ser consideradas pelo lado do egoísmo?

O pobre rapaz julgou ter cravado uma lança em Flandres com aquele argumento e observou o efeito produzido na tia. A verdade é que dona Lupe ficou um instante um pouco confusa, sem saber o que responder. Por fim, replicou com desdém:

«Você está louco. Essas coisas não ocorrem a ninguém que tenha juízo. Vou embora, deixo-o, porque, se ficar aqui, bato em você, não tenho outro remédio senão quebrar-lhe nas costas o cabo de uma vassoura e, na verdade, se é pouco homem para esse amor tão sublime, é ainda menos para receber uma surra.»

Maximiliano segurou-a pelo vestido e obrigou-a a sentar-se outra vez.

«Escute-me... tia. Eu a amo muito; devo-lhe a vida e, ainda que insista em brigar comigo, não conseguirá... Vejamos. O que estou fazendo agora, o que deixou a senhora tão zangada, pelo que começo a perceber, é ação nobre, e minha consciência a aprova, e estou satisfeito com ela como se tivesse Deus dentro de mim dizendo: muito bem, muito bem... Porque a senhora não pode me fazer acreditar que estamos no mundo apenas para comer, dormir, digerir a comida e passear. Não; estamos para outra coisa. E, se sinto dentro de mim uma força muito grande, mas muito grande, que me impele a salvar outra alma, hei de realizá-lo, ainda que o mundo afunde.»

— O que você tem — afirmou dona Lupe, querendo sustentar seu papel — é a tolice transbordando por todo o corpo... e nada mais. Não vai me enganar com palavrinhas. Ora, da noite para o dia aprendeu uns termos e floreios de frase que me deixam pasma... Virou poeta... em toda a extensão da palavra; eu sempre considerei os poetas grandes mentirosos... tolos de amarrar... Você já não é o sobrinho que criei. Como me enganou!... Uma mulher, uma concubina, uma confusão...!, e agora vem com essa de me caso, e a Roma por tudo. Vá, já não amo você; já não sou sua tiazinha Lupe... Não o expulso de casa por pena, porque ainda espero que se arrependa e me peça perdão.

Maximiliano, já completamente sereno, moveu a cabeça exprimindo dúvida.

«O perdão eu já pedi por ter me calado, e não tenho mais perdões a pedir. Ainda há uma coisa que a senhora não sabe e que quero contar. Como a sustentei durante três meses? Ai, tia! Quebrei o cofrinho; tinha três mil e tantos reales, suficientes para ela viver modestamente, porque é econômica, extremamente econômica, tia, e não gasta mais do que o necessário.»

Aquela revelação fez vacilar por um instante a ira de dona Lupe. Era econômica!... O jovem tirou o cofrinho e, mostrando-o à tia, revelou o acontecimento como a coisa mais natural do mundo, reproduzindo-o ao vivo. «Veja, peguei o cofrinho velho, depois de trazer este, que é exatamente igual. Esmaguei o cheio; peguei o ouro e a prata e passei para este o cobre, acrescentando duas pesetas em cuartos para ter o mesmo peso... Quer ver?»

Antes que dona Lupe respondesse, Maximiliano espatifou o cofrinho contra o chão, e as moedas de cobre inundaram o quarto.

«Já vejo, já vejo que não se perde nada de você», observou dona Lupe, recolhendo o dinheiro miúdo. «E, quando o dinheiro acabar? Virá pedir que eu lhe dê? Ai, como está enganado!»

— Quando acabar, Deus me socorrerá por algum lado — disse Maximiliano com fé.

Estava excitadíssimo e tinha o rosto aceso. Dona Lupe nunca vira tanto brilho naqueles olhos nem animação semelhante naquele rosto. Depois de recolherem juntos as moedas, a tia embrulhou-as num número de La Correspondencia e, atirando o pacote sobre a cômoda, disse com soberano desprezo:

«Aqui está seu presente de casamento.»

Maximiliano guardou na cômoda o pacote pesado e depois pôs a capa. Dona Lupe não se atreveu a retê-lo, pois, embora seu coração se enchesse de sentimentos de orgulho e autoridade, nada disso conseguiu se traduzir exteriormente porque, no momento da tentativa, um freio inexplicável a conteve. Sentia desvanecida sua autoridade sobre o jovem enamorado; via diante de sua força histórica uma força efetiva e revolucionária e, se não tinha medo, era inegável que aquela súbita obstinação lhe inspirava algum respeito.

Aquela mulher que dormia a sono solto depois de haver estrangulado, em conivência com Torquemada, algum infeliz devedor, estava inquieta diante dos problemas de consciência que o sobrinho lhe propusera com tanta candura. Se amava tanto aquela mulher, com que direito opor-se a que se casasse com ela? E, se a tal tinha inclinações honradas, sendo o fato de ser tão econômica bom sintoma de honradez, quem assumiria a responsabilidade de detê-la no caminho da reforma? Dona Lupe começou a encher-se de escrúpulos. Seu coração não era depravado senão no tocante a empréstimos; era como aqueles que têm um vício e, fora dele, quando não estão atacados pela febre, são razoáveis, prudentes e discretos.

No dia seguinte, depois de outra altercação com o sobrinho, começaram a surgir vagamente em sua alma ideias de acordo. Já não havia dúvida de que a paixão de Maximiliano era tenaz e profunda e lhe emprestava energias irresistíveis. Colocar-se diante dela era como pôr-se diante de uma onda muito avolumada no momento de rebentar. Dona Lupe refletiu muito durante todo aquele dia e, como tinha grande senso da realidade, começou a reconhecer o poder que os fatos consumados exercem sobre nossas ações e o pouco valor das ideias contra eles. A história de Maxi seria um disparate, ela continuava acreditando que era uma estupidez atroz; mas era fato, e não havia outro remédio senão admiti-lo como tal. Pensou então, com admirável tino, que, quando na ordem privada, assim como na pública, se inicia forte impulso revolucionário, lógico, motivado, que nasce da própria natureza das coisas e se fortalece nas circunstâncias, é loucura plantar-se diante dele; o prático é contorná-lo e deixar-se levar por ele, aspirando a dirigi-lo e canalizá-lo. Pois trataria de contornar e dirigir aquela revolução doméstica; detê-la era impossível, e quem se pusesse diante dela seria arrastado sem remédio... Dessa ideia veio a relativa tolerância com que falou ao sobrinho na segunda noite de confidências, a habilidade com que foi tirando dele notícias e pormenores sobre a namorada, sem aparentar curiosidade, aventurando-se a dar-lhe alguns conselhos. É verdade que, entre uma coisa e outra, soltava certas impertinências; mas aquilo era muito estudado para que Maxi não percebesse o jogo. «Não conte comigo para nada; arranje-se... Já lhe disse que não quero saber se sua namorada tem olhos negros ou amarelos. Não venha para mim com adulações. Escuto por consideração, mas não me importa. Que eu vá vê-la? Você está muito enganado...!»

A metamorfose dera a Maximiliano uma perspicácia intermitente. Em certas ocasiões, possuía a visão rápida e segura da inteligência superior; em outras, era tão cego que não enxergava três num burro. As paixões exaltadas produzem diferenças espantosas na eficácia de uma faculdade e tornam os homens obtusos ou agudos como se o espírito estivesse submetido a influência lunática. Naquele dia, o jovem leu no coração de dona Lupe e percebeu suas disposições pacificadoras, apesar das frases estudadas com que ela queria dissimulá-las. Fez ainda um raciocínio que demonstra a agudeza genial adquirida em certos momentos de verdadeira inspiração, adivinhando por arte de intuição os arcanos da alma dos semelhantes. O raciocínio foi este: «Minha tia está amolecendo; minha tia aceita negociar. E, como Fortunata não lhe deve dinheiro nem jamais deverá, porque estou aqui para impedir, há de chegar o dia em que serão amigas».

v

Porque dona Lupe era exatamente como o sobrinho a pintava naquela breve consideração; era ajuizada, razoável, compreendia tudo, olhava com olhos um tanto céticos para as fraquezas humanas e sabia perdoar ofensas e até injúrias; mas uma dívida, essa não perdoava nunca. Havia nela duas pessoas distintas, a mulher e a prestamista. Quem quisesse estar bem com ela e desfrutar sua amizade precisava tomar muito cuidado para que as duas naturezas jamais se confundissem. Uma simples promissória, redigida e assinada da maneira mais cordial do mundo, bastava para transformar a amiga em basilisco e a mulher cristã em inquisidora.

A dupla personalidade daquela senhora tinha um sinal externo no corpo, uma representação fatal, obra da cirurgia, que nesse ponto foi ciência justiceira e acusadora. Faltava a dona Lupe um seio, amputado em consequência do tumor cirroso que sofrera durante a vida do marido. Como se orgulhava do bom corpo e usava espartilho dentro de casa, substituíra a parte faltante por uma bola bem construída de algodão em rama. À vista, depois de vestida, oferecia conjunto elegante; mas, sob a roupa, apenas metade de seu peito era de carne; a outra metade era insensível, e bem se podia cravar nela um punhal sem que doesse. Assim era também seu coração, metade carne, metade algodão. A índole das relações que mantivesse com as pessoas determinava o predomínio desta ou daquela metade. Não havendo promissória alguma de permeio, dava gosto lidar com aquela senhora; mas, se as circunstâncias a tornassem inglesa, estava perdido quem se metesse com ela.

E não fora assim em vida do marido. É verdade que, naquele tempo venturoso, ela não manejava mais dinheiro que o dado por Jáuregui para as despesas da casa. Depois de viúva, vendo-se com quatro cacarecos e cinco mil reales, imaginou abrir uma pensão, mas Torquemada tirou-lhe a ideia da cabeça, oferecendo-se para aplicar o dinheiro a bons juros e com toda a segurança possível. O êxito e os ganhos adoçaram dona Lupe, que adquiriu gradual e rapidamente todas as qualidades do perfeito usurário e desenvolveu o meio seio de algodão, tornando-se insensível, implacável e dura quando se tratava da cobrança pontual dos créditos. Nos primeiros anos daquela vida, a senhora passou grandes apertos, porque os rendimentos, ainda que tão elevados, não bastavam para sustentar sua casa. Mas, à força de ordem e economia, foi seguindo adiante e até fez verdadeiros milagres, atendendo aos medicamentos de que Maximiliano precisava e aos consideráveis gastos de sua carreira. Amava muito o sobrinho e se esforçava para que nada lhe faltasse. Esse grande mérito não se podia negar. O que dissera sobre o grão-de-bico valer uma pérola era muito verdadeiro. Mas não era verdade que praticasse a usura apenas no interesse de dar carreira ao sietemesino. Ela dizia isso a si mesma nos solilóquios; mas era um daqueles sofismas com que o egoísmo humano tenta justificar-se e enobrecer-se. Dona Lupe trabalhava com empréstimos por pura inclinação, infundida por Torquemada, e, sem sobrinho e sem necessidades, teria feito o mesmo.

Quando vieram os anos prósperos e o pequeno capital da viúva subiu a dois mil duros, iniciou-se um período de boa sorte que logo se transformaria em prosperidade incrível. Caiu nas redes combinadas dos dois prestamistas um pobre senhor, mais desgraçado que perverso, que fora diretor-geral e vivia com grande luxo apesar de não ter onde cair morto, e não quero dizer como o deixaram. Os dois mil duros de dona Lupe cresceram como espuma no prazo de três anos, renovando obrigações, acumulando juros e aumentando estes a cada ano, dos dois por cento mensais, que era a taxa primitiva, para quatro. Torquemada tirou muito mais da pobre vítima, porque adjudicou a si os riquíssimos móveis por um pedaço de pão; mas o tal bem merecia. Depois se refez com um cargo na administração de Cuba; tornou a se perder, voltou a se recompor nas Filipinas e agora está pela quarta vez em poder dos vampiros. Como já não há dinheiro nas colônias, parece difícil que esse desventurado consiga fazer o quinto desfalque. Dizem que América para os americanos. Que tolice! América para os usurários de Madri.

Na data em que nossa narração apanha dona Lupe, ela já tinha um capitalzinho de dez mil duros, parte garantida em ações do Banco e parte em empréstimos com promissória legalizada, figurando quantidade muito maior que a recebida pelo devedor. O ex-alabardeiro era inimigo do materialismo das hipotecas com garantia legal e juros prudentes. Os empréstimos arriscados com prêmio muito elevado eram sua delícia e sua arte predileta, porque, ainda que algum não fosse cobrado antes da véspera do Juízo Final, a maior parte das vítimas caía atordoada pelo medo do escândalo, e o dinheiro dobrava em pouco tempo. Tinha faro seguro para rastrear pessoas zelosas da honra, dessas que entregam a pele antes de permitir que sua reputação ande nas bocas, e com elas se metia até o fundo, empanturrava-se de devedor.

Pouco a pouco, foi transmitindo seu modo de ser, agir e sentir à comparsa, como se passa a imagem de um papel para outro por meio do decalque ou do estêncil. Toda vez que D. Francisco lhe levava dinheiro cobrado, um problema de usura resolvido e liquidado, a viuvinha se alegrava tanto que os poros se abriam e, por aquelas vias, o caráter de Torquemada entrava para tomar posse do seu e remodelá-lo.

A esposa de Torquemada era feita tão à semelhança dele que dona Lupe a ouvia e tratava como ao próprio D. Francisco. E, com o convívio frequente entre as duas senhoras, dona Silvia também passou a exercer grande influência sobre a amiga, imprimindo-lhe alguns traços de sua fisionomia moral. Era masculinizada, atrevida e, quando punha as mãos na cintura, fazia metade do mundo tremer. Mais de uma vez esperou na rua algum devedor, em tocaia de assassino, para insultá-lo sem piedade diante das pessoas que passavam. A de Jáuregui não chegou nem podia chegar a tanto, porque tinha certas delicadezas de índole e educação que se sobrepunham a seus rancores de usurária. Mas certa vez foram juntas à casa de uma infeliz viúva que lhes devia dinheiro e, depois de pressioná-la inutilmente para que pagasse, lançaram olhares cobiçosos aos móveis. As duas harpias trocaram breves palavras diante da vítima, que por pouco não morreu de susto. «Esta braseira de pedestal convém à senhora», disse dona Silvia, «e aquela cômoda convém a mim». Mandaram subir os carregadores e levaram os objetos mencionados, depois de retirar da cômoda as roupas e da braseira o fogo. A devedora aceitou tudo para não tornar a ver as duas mulheres infernais que lhe causavam tanto pavor.

Aquela braseira estava na sala de dona Lupe, mas nunca era acesa. Maximiliano conhecia sua procedência, assim como a de um bargueño e de um armário soberbo que ficavam no aposento. A mesa em que o estudante escrevia entrara em casa da mesma maneira, e a boa louça usada em certos dias fora adquirida por um quinto de seu valor, em pagamento de um saldo devido por uma amiga íntima. Dona Silvia fizera o negócio; dona Lupe não se atreveria a tanto. Um centro de mesa de prata, duas bandejas do mesmo metal e um bule que a senhora mostrava com orgulho também haviam ido para a casa empenhados por uma amiga íntima e ali ficaram por insolvência. Maximiliano tomara conhecimento de muitos pormenores relativos às manobras da tia. As joias, vestidos de senhora, rendas e xales de Manila que se tornavam seus depois de longo cativeiro, ela vendia por intermédio de uma corretora chamada Mauricia la Dura. Esta frequentava a casa em outros tempos; mas já quase não corretava, e dona Lupe sentia muita falta dela, porque, embora fosse muito barulhenta e dissoluta, sempre cumpria bem. Maximiliano também pudera observar em sua própria casa como a tia era implacável com os devedores, e desse conhecimento veio o juízo inspirado que formulou desta maneira: «Se eu me casar com Fortunata e a sorte nos trouxer escassez, antes pediremos esmola pelas ruas que pedir à minha tia um empréstimo de duas pesetas... Quanto mais amigos, mais claras as contas».

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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