Universo da obra
Universo da obra
As pessoas muito rotineiras e ordeiras, que se acostumam às tranquilas doçuras do método na vida, acabam, abusando de certo modo da regularidade, por submeter aos escaninhos do tempo não apenas as ocupações, mas também os atos e funções do espírito e até do corpo que parecem mais rebeldes ao regime das horas. Assim, a grande Dona Lupe, cuja existência se assemelhava muito à de um relógio com alma, distribuíra tão bem o tempo que até para pensar em qualquer assunto de interesse que surgisse tinha marcada uma parte do dia e um lugar determinado. Quando era preciso meditar, por causa da picada de uma dessas ideias irmãs do besouro, que se instalam no cérebro e não há meio de sacudi-las, ou Dona Lupe não meditava, ou precisava fazê-lo sentada na cadeirinha junto à janela da sala, os óculos no cavalete do nariz, o cesto de roupa diante de si e o gato muito repimpado numa ponta do tapetinho. A meditação era muito mais profunda e eficaz se a senhora tivesse toda a mão esquerda metida, até acima do pulso, dentro de uma meia e se as claraboias desta fossem largas o bastante para poder estender sobre elas grades como as de uma prisão. Tal era a força do método que Dona Lupe só pensava com gosto naquele lugar, assim como, para fazer seus cálculos aritméticos, o melhor momento era quando debulhava ervilhas na cozinha, na época das ervilhas, ou quando punha o grão-de-bico de molho. O hábito operava esses prodígios, e bastava a senhora ver o grão-de-bico e meter nele a mão para o cérebro se encher de números e ela enxergar claramente os negócios, se lhe convinha ou não determinado empréstimo, se devia ou não ficar com esta ou aquela joia. Ao levantar-se cedo pela manhã, previa todos os acontecimentos e ações do dia que começava e preparava-se para eles com uma evocação mental de sua energia e com a distribuição metódica das horas para tudo o que fosse previsto e provável. Era como se desse corda em si mesma, acumulando a força inteligente de que necessitava.
Todas essas rotinas do pensamento e da ação foram perturbadas pela mudança de casa, efetuada em dezembro de 74, e nem é preciso dizer que grande sacrifício essa mudança representou para Dona Lupe. Ela era dessas pessoas que odeiam o desconhecido e se afeiçoam ao canto em que vivem. Mover os móveis era para ela coisa semelhante a incêndio ou demolição; mas não havia outro remédio senão dar o salto do norte para o sul de Madri, pois, tendo Maximiliano de passar a maior parte do tempo na botica de Samaniego, seria falta de caridade fazê-lo percorrer duas vezes por dia os três quartos de légua que separam o bairro de Chamberí do de Lavapiés. A senhora de Jáuregui carregou, portanto, seus penates e instalou-se num segundo andar da calle del Ave-María. Teria gostado de morar na mesma casa da botica, mas ali não havia apartamento disponível. Escolheu um segundo andar no prédio vizinho, e suas sacadas davam ao lado das de sua amiga Casta Moreno, viúva de Samaniego. Nos primeiros dias, estranhava a casa e a julgava pior que a outra; mas logo teve de reconhecer que era muito melhor, mais espaçosa e bonita e, quanto aos bairros, o que a senhora perdera em tranquilidade ganhara em animação. Pouco a pouco foi se adaptando ao novo domicílio e, quando nossa narrativa torna a surpreendê-la, sentada junto à janela e refletindo, com a mão dentro da meia, numa data que deve cair por volta de março de 75, já não se lembrava da moradia de Chamberí em que a conhecemos.
A meditação e o cerzido não a impediam de olhar de vez em quando para a rua, e a del Ave-María é muito mais movimentada que a de Raimundo Lulio. Num daqueles olhares quase maquinais que a viúva lançava para fora, como para abrir uma interrupção no temeroso problema que tinha entre as sobrancelhas, viu passar uma pessoa que lhe reteve a atenção por um instante. Era Guillermina Pacheco. «Parece que a santa agora frequenta estes bairros», murmurou Dona Lupe, esticando a cabeça para observá-la descendo a rua. «Já a vi passar quatro ou cinco vezes, em horas diferentes. É verdade que para ela não há distâncias... Agora que me lembro, Casta me disse que é sua parente, e hei de lhe perguntar...»
A fundadora inspirava grandes simpatias a Dona Lupe. De tanto vê-la passar pela calle de Raimundo Lulio, a caminho do asilo da de Alburquerque, chegou a imaginar que a conhecia pessoalmente. Sempre que havia função pública na capela do asilo, Dona Lupe ia, desejosa de introduzir-se e travar amizade com a santa. Admirava-a muito, não exclusivamente por suas santidades, mas antes por aquele desprezo do mundo, por sua atividade varonil e pela grandeza de seu caráter. Talvez a senhora de Jáuregui acreditasse sentir também na alma alguma coisa daquele fermento autocrático, daquela iniciativa ardente e daquele poder organizador, e essa espécie de parentesco espiritual era talvez o que lhe infundia maior vontade de tratá-la intimamente. Só lhe falara uma ou duas vezes nas funções do asilo, como que por intromissão e solicitude, e, quando nessas festas a via cercada de damas da grandeza e de senhoronas ricas, que tinham a carruagem à porta, Dona Lupe teria dado o único seio que possuía para meter o nariz no meio daquela gente, acotovelar-se com elas e mandar nas campanhas de arrecadação. Porque tinha a vaidade, muito bem fundada, por sinal, de não ficar atrás daquelas senhoras em matéria de boa educação e modos. Sabia de sobra, além disso, que nem todas haviam nascido em berços dourados e que a finura é o que constitui a verdadeira aristocracia nestes tempos liberais. Não havia razão para que ela, que sabia apresentar-se como a primeira, deixasse de alternar com as damas que seguiam Guillermina como as ovelhas seguem o pastor... E, para maior abundância, no tocante à roupa, a viúva de Jáuregui achava-se então em excelentes condições. Com seu talento e sua economia, conseguira um casaco de veludo com peles, que nem a mais elegante usaria melhor. E saíra por quase nada, considerando-se o que em geral custam essas peças... Estavam lhe ajeitando uma capota que... enfim; no dia em que a estreasse, havia de chamar a atenção... Essas reflexões foram como um inciso no que a senhora pensava naquela tarde, inciso que se abriu ao ver Guillermina passar e se fechou quando a virgem e fundadora desapareceu rua abaixo.
Voltando à meditação, retomando-lhe o fio no mesmo ponto em que o soltara... «E, embora o senhor Feijoo hoje negue, é tão verdade que rondava minha rua um ano depois de eu perder meu Jáuregui... tão verdade quanto todos havemos de morrer. Se não, o que fazia plantado naquela bendita esquina da calle de Tintoreros? Foi pouco antes da guerra da África, lembro-me bem; e, se o tal não tivesse ido matar mouros, sabe Deus se... Mas isso não vem ao caso, e passemos ao outro assunto. Que é um cavalheiro decentíssimo, não há a menor dúvida. Jáuregui o estimava muito e me dizia que seu único defeito era ser muito mulherengo... Fora disso, homem veraz, com palavra tão segura quanto os Evangelhos, e uma coisa que ele dissesse com seriedade era como se notários a tivessem escrito... Apesar disso, o que veio me contando estes dias parece-me tão estranho...! Que ela está arrependida, que ele a tomou sob sua proteção... Encontrou-a na casa de uns vizinhos, teve pena dela, e sei lá mais o quê... Por mais que diga esse santo varão, tais arrependimentos me parecem cantigas de Calaínos... E se por acaso... Fora, fora, pensamento, não me tente com uma suspeita que parece tão verossímil... O próprio Feijoo talvez... possa... tenha tido... e agora... Sobre isso quero jogar terra, porque ficaria louca. A verdade é que o pobre senhor sofreu uma queda tremenda e não deve ter estado em condições de fazer galanteios há alguns meses. Será verdade o que diz!... Caridade, compaixão, arrependimento... necessidade de transigir, decoro, reconciliação...!»
Outro inciso. Olhou para a rua e viu Guillermina pela segunda vez, agora subindo. «Mas o que traz na mão? Um pau e um gancho de ferro. Vejam só esta santa! Alguma coisa que lhe deram. Dizem que aceita tudo. Eis uma maneira de eu ajudar sua obra, dando-lhe meia dúzia de chaves velhas que tenho aqui. Aquela tábua que leva parece um molde... Ora, é claro que deve vir do depósito de madeiras da calle de Valencia. Que azáfama... Veja uma coisa de que eu gostaria: construir um estabelecimento, pedindo dinheiro até ao Verbo... Eu o faria tão grande quanto o Escorial...»
Fechado o inciso, voltou ao tema: «Veja só o que Nicolas me disse esta manhã: que Feijoo é o primeiro cavalheiro de Madri e lhe prometeu um canonicato! Se o derem a ele, não terei mais nada que ver com isso. Eu ficaria contente, para tirar esse fardo das costas; mas que tempos e que Governos! Ah, se eu governasse, se fosse ministra, como todos andariam direitinhos! Essa gente não sabe... salta aos olhos que não sabe. Dar um canonicato a um clérigo jovem, que entra em casa à uma da madrugada e passa o tempo conversando no café com esses padres de cavalaria que andam por aí soltos e sem licença! Mas, enfim, que Deus lhe dê o cargo e, se pescar a sinecura, filho, bom proveito; escreva quando chegar e não apareça mais por aqui, egoistão, glutão... E o outro, o Juanito Pablo, desde que tem emprego não põe os pés em casa. Comparado com os irmãos, Maximiliano é um anjo de Deus e um talento... Voltemos ao que Nicolas me dizia esta manhã... Que D. Evaristo é um cristão da velha guarda e que, quando lhe administraram os sacramentos, recebeu o Senhor com tamanha edificação e santidade que todos os presentes choravam a cântaros. Ora, não seria tanto... exagero. Nessas coisas de santidade, é preciso chamar o tio Paco para trazer o desconto. Mas, enfim, admitamos que seja assim, e daí? Agora falta saber se, com toda essa cristandade, ele não quererá nos dar gato por lebre... Compaixão, arrependimento!... Meu Deus, ou me dê uma luz clara sobre isso, ou tire esta gaiola de grilos da minha cabeça. Estou ficando louca... E não sei por que quebro a cabeça, porque, a rigor, o que tenho eu com isso? Se Maximiliano quiser se humilhar depois das atrocidades que aconteceram, não devo me meter... Mas sim, sim, vou me meter. Como consentir em tamanha afronta? A grande velhaca... imaginar que o marido pode perdoá-la depois da patifaria indecente que lhe fez, depois que o amante atropelou este infeliz, abusando de sua força...! Que infâmia! Se eu não tivesse passado um mês inteiro trabalhando este rapaz para lhe tirar da cabeça a ideia de vingança... não sei que catástrofes teriam acontecido. Queria dar um tiro no outro, e chegou a lhe ocorrer fazer um cartucho de dinamite para pôr à porta da casa dele. Delírios... o melhor é o desprezo... Esses paspalhões se desprezam... Meu sobrinho está mesmo em condições de se meter em lances, ele que se assusta de entrar num quarto sem luz. Pobre Maxi!, tem um coração de ouro e, agora que anda tão entregue aos estudos do outro mundo, ocorrem-lhe umas coisas...! Veja só o que me dizia ontem à noite: “Tia da minha alma, à força de pensar e sofrer, cheguei a me desprender de todas as paixões e a não sentir em mim nem ódio nem vingança.” Diz que a perdoa cristãmente, por isso e aquilo e sei lá mais o quê... mas, quanto a voltar a viver com ela, nem que o Papa mande. E, logo em seguida, atordoa-me para que eu vá vê-la. “Tia, visite-a, informe-se... sonde-a, veja como se apresenta. Pode ser verdade o que D. Evaristo diz...” Todas as noites a mesma cantiga. Por fim, se ele ficar muito insistente, não terei outro remédio senão ir. E não é pequeno o passeio que preciso dar daqui até Puerta de Moros...»
Numa segunda-feira à tarde, Dona Lupe entrou em casa por volta das cinco. Vinha muito enfeitada. «Papitos, quem veio?»
— Aquele senhor de barbas brancas.
— E ninguém mais? Mauricia não esteve aqui?
— Não, senhora... Esta manhã eu a vi à porta da taberna da Plazuela de Lavapiés. Ela mora aqui perto... «Senhora Mauricia, veja que a senhora está esperando...» Ela me respondeu, diz assim: diga àquela velhona que, se quiser passar os lenços adiante, que passe ela mesma, e, se não, que os deixe...
— Mas que indecente!... — exclamou a senhora, um tanto distraída.
Papitos, que naquela manhã fora castigada porque trouxera da praça uma pescada muito ruim, julgou que a irritação da ama ainda não passara e tremia, olhando-lhe as mãos. Mas, no ânimo de Dona Lupe, a ira corretiva se dissipara por causa de sentimentos de outra ordem e do grande estupor que nele reinava havia uma hora.
— Ouça, Papitos — disse-lhe. — Venha cá e preste muita atenção ao que vou lhe mandar. Preciso sair outra vez. Dê de comer ao senhorito Nicolas e ao senhorito Maxi; mas este virá muito mais tarde que o irmão. Preste bem atenção e não vá depois fazer o contrário do que estou mandando.
Para o primeiro prato do clérigo, ponha a pescada ruim que trouxe esta manhã, sabe?, e que está fedendo... Jogue bastante sal, depois cubra-a de farinha tanto quanto puder e frite. Ponha todas as postas, e ele as engolirá sem perceber se estão boas ou ruins. É como os tubarões, que devoram tudo o que lhes jogam. De sobremesa, as nozes e o arrope, ouviu? Ponha a talha na mesa e deixe-o se empanturrar; veja se ele acaba com aquilo. Está fermentando e ninguém consegue engolir... Se o senhorito Maxi chegar antes de eu voltar, sirva-lhe primeiro uma das duas costeletas de vitela, a maiorzinha, e de sobremesa leve os biscoitos que o pasteleiro trouxe esta manhã e a marmelada que eu como. Portanto, veja se faz tudo ao contrário.
Quando lhe davam tais provas de confiança, delegando-lhe autoridade, a macaquinha crescia e, com o entendimento aguçado pela vaidade, desempenhava as obrigações de modo impecável. Dona Lupe, que já a conhecia bem, tinha certeza de que suas ordens seriam cumpridas. Papitos fez sinais de inteligência com a cabeça e sorria, muito velhaca, pensando sem dúvida, desta vez não erro!, na quantidade de sal que poria na pescada do senhorito Nicolas.
Dona Lupe permaneceu algum tempo na sala, sem se mover da poltrona em que se sentara ao entrar, ainda com a manta posta e a mão na face, pensando na mesma coisa. Ainda não se refizera do espanto, nem se refaria por muito tempo. Fortunata, de cuja casa vinha, dera-lhe mil duros para que os aplicasse da maneira que julgasse mais conveniente... e sem querer aceitar recibo... A princípio, a senhora de Jáuregui suspeitou que as cédulas fossem falsas... mas qual!, eram mais legítimas que o sol! Tal prova de confiança tocava-lhe a alma, porque não era apenas confiança em sua honradez, mas em seu talento para fazer dinheiro produzir dinheiro... Além disso, Fortunata, no curso da conversa, dera a entender que possuía ações do Banco, sem dizer quantas. De onde saíra aquela riqueza? Talvez Juanito Santa Cruz... talvez Feijoo... O mais particular era que Dona Lupe, por impulsos de tolerância surgidos bruscamente em seu espírito, esforçava-se por supor uma origem decente para aquele capital. Fascinação que a moeda exerce sobre certos caracteres, porque para estes o que é bom precisa ter boa origem!... «E por que não há de ser verdade toda essa história de arrependimento?...», dizia consigo. «O que não consigo explicar é uma coisa... No primeiro dia, Feijoo me disse que ela estava miserável... mas miserável mesmo, consumindo as economias. Pois, se estas são as sobras...! Enfim, viremos a página; coloquemo-nos num ponto de vista imparcial e não façamos juízos temerários antes de ter dados seguros. Quem se atreve a condenar um semelhante sem ouvi-lo? Seria crueldade, injustiça. Essa coisa de sempre pensarmos mal me parece uma barbaridade... Mas fico aqui ensimesmada e, se demorar, talvez não encontre D. Francisco em casa... Ele dirá o que faremos com todo este cobres.»
Ao descer a escada, seus pensamentos tomavam outro rumo. «E como ela está bonita!... É assustador de tão bonita. E sempre tão modosinha... Parece que não quebra um prato. Quando entrei, por pouco não desmaiou. E aquilo não é fingimento... ela será tudo o que quiserem, mas não representa papéis, não tem talento para isso. Quanto aos modos, esqueceu tudo o que lhe ensinei... será preciso recomeçar... e na linguagem continuamos na mesma. Nem a mais leve alusão aos acontecimentos do ano passado. Ela dirá, e com razão, que é melhor não mexer nisso...»
Dona Lupe ficou umas boas três horas fora de casa. Quando voltou, Nicolas já havia comido e saído, e Maximiliano estava terminando. A primeira pergunta que a ama fez a Papitos referia-se às ordens que lhe dera.
— Não deixou nem rastro — respondeu a moça, mostrando à ama a travessa em que servira a pescada.
— E disse alguma coisa?
— Não podia dizer nada, porque não parava de engolir.
Dona Lupe sorria. Certificou-se de que Maximiliano fora servido conforme suas ordens e, depois de trocar de roupa, providenciou a própria refeição, que era das mais frugais. Quando entrou na sala de jantar, Maxi já não estava ali, e meia hora depois encontrou-o no quarto, sem luz, sentado junto à mesa e de bruços sobre ela, com a cabeça apoiada nas mãos e estas agarradas aos cabelos, como se quisesse arrancá-los. Vendo-o tão mergulhado na tristeza, sua senhora tia disse: «Vamos, homem, não fique assim. Não se devem levar as coisas tanto a sério... O que está nas mãos de Deus que aconteça, acontecerá. Quando as coisas vêm rolando bem encaminhadas, não há meio de evitá-las.»
— E então, a senhora a viu? — perguntou Maxi, abandonando por fim aquela posição violenta e olhando a tia com ansiedade.
— Sim... Você me atordoou tanto... que por fim... Pois nada... eu a vi, e ela não me comeu. É a mesma simplória inexperiente de sempre.
— Está abatida?
— Abatida? Saia dessa. O que ela está é lindíssima. De cada olho parece que lhe saem todas as estrelas do Céu. Para algumas pessoas, a miséria faz bem.
— Mas o quê, está na miséria? Passa necessidade? — perguntou o rapaz, movendo-se inquieto na cadeira. — Isso não se deve consentir...
— Não digo que passe fome... e talvez... Sua situação não deve ser muito folgada. Hoje, às quatro da tarde, segundo me disse, nada entrara em seu corpo além de um pouco de pão do dia anterior, um pedacinho de chocolate cru e, ao meio-dia, uma pequena porção de bofes.
— Por Deus! E a senhora consente nisso? Bofes...!
— Talvez seja penitência — replicou a viúva naquele tom de convicção ingênua que assumia quando queria brincar com a credulidade do sobrinho, como o gato com uma bola de papel.
— Francamente, tia, essa coisa de ela passar fome... Eu não a perdoo, não pode ser... garanto à senhora que isso... jamais, jamais, jamais.
— Já lhe disse que não é prudente soltar jamais com tanta boca cheia sobre nenhum ponto referente às coisas humanas. Veja como o bom D. Juan Prim ficou bonito com seus jamais.
— Pois a mim não acontecerá o que aconteceu a D. Juan Prim, porque sei o que digo... E, como a restauração depende de mim, e eu não hei de fazê-la... Mas não é disso que se trata agora. Embora não haja pazes, dói-me que ela passe fome. É preciso socorrê-la.
— Pois voltarei lá. Mas me ocorre uma coisa. Por que você não vai?
— Eu! — exclamou o exaltado rapaz, sentindo os cabelos se arrepiarem.
— Sim, você... porque está acostumado a receber tudo bem amassado e cozido... Isto é coisa delicada... Não quero responsabilidades. Você já não é criança e deve decidir essas coisas por si mesmo.
— Eu! Eu ir! — murmurou o jovem farmacêutico, sentindo um tremor, um frio... Ficava doente só de pensar.
— Você, sim, você... Deixe de medos e hesitações. Se quiser fazer, faça; se não, deixe.
— Não tenho tempo de ir — disse Rubin, tranquilizando-se ao encontrar pretexto tão leve.
Dona Lupe tornou a insistir, em linguagem dura, que ele próprio devia decidir aquele assunto da reconciliação, ver Fortunata e proceder em consciência segundo as impressões recebidas. Tanto, tanto lhe pregou, que por fim o pobre rapaz decidiu ir; e no dia seguinte, num intervalo deixado livre pela botica, tomou o caminho da calle de Tabernillas, mais morto que vivo, pensando no que diria e no que calaria, com a dorzinha muito acentuada na boca do estômago, igual à que sentia quando ia fazer exame. Ao chegar e reconhecer o número da casa, entrou-lhe tamanho pavor que recuou, fugindo da rua e do bairro...
No dia seguinte, fez um segundo esforço e conseguiu entrar no saguão; mas deteve-se diante da vidraça que dava acesso à escada. Aterrava-o a ideia de subir, e tudo o que pensara dizer-lhe se apagara da mente. Esperou um pouco, numa luta espantosa, até ser assaltado por ideias alarmantes como esta: «E se ela descer agora e me vir aqui...» E saiu fugindo rua adiante, sem se atrever sequer a olhar para trás. A tentativa do terceiro dia não teve melhor êxito e, por fim aborrecido e desconcertado, resolveu comunicar-se com a mulher por meio de uma carta. Caminhando para a calle del Ave-María, ia pensando que devia pôr na carta muita severidade e um leve matiz de indulgência, apenas um grão de sal de piedade para temperá-la. Dir-lhe-ia que não podia recebê-la em casa; mas que, com o tempo... se ela desse provas de arrependimento... Enfim, a epístola acabaria saindo muito bem. Excitado por essas ideias e propósitos, entrou em casa e, ao dirigir-se ao quarto e ouvir a voz da tia chamando-o da sala, sentiu no coração como se lhe tocassem com a ponta de um alfinete... Entrou na sala e... o que seus olhos viram, Deus onipotente!... Deus que tornas possível o impossível! Na sala estava Fortunata, de pé, lívida como os que vão ser executados...
Maximiliano não caiu estatelado por milagre de Deus... Disse ah!... e ficou como uma estátua. Ela tampouco dizia palavra, e seus olhares caíam ao chão como chumbos. Por fim, no grau extremo da perturbação e do desconcerto, o jovem aventurou-se a falar e disse alguma coisa como boa tarde... e depois: Eu pensei que... e em seguida: De modo que a senhora, tia... «Não, não me meto em nada», declarou Dona Lupe, sentada como quem presidia. «A única coisa que determinei foi trazê-la aqui para que, frente a frente, vocês decidam... Fortunata, sente-se.»
Ao recordar a ofensa sofrida, Maximiliano sentiu na alma uma reação brusca contra aquele misticismo recém-aprendido, mais filho da necessidade que da convicção. «Isto me parece prematuro», disse, e saiu da sala.
A tia logo se reuniu a ele no gabinete e lhe disse: «Parece-me bem sua severidade. Mas as circunstâncias... Você não me disse que era indispensável dar-lhe uma quantia diária para alimentação? E lhe parece que estamos em condições de sustentar duas casas?»
O rapaz tinha a cabeça tão alvoroçada que não conseguiu compreender tais argumentos. Para ele, dava no mesmo a tia falar de duas casas ou de quatro mil. «Deixe-me», disse-lhe, quase soluçando. «Deus me abandonou.»
— Pois, já que ela está aqui, não há de ir embora — prosseguiu Dona Lupe em voz baixa. — Vamos instalá-la no quartinho próximo ao meu. E basta. Ai, sempre sobram para mim esses arranjos e remendos!... Sabe o que lhe digo? Aqui vocês têm ocasião de dizer um ao outro todas as maldades que quiserem ou de dar todas as explicações que julgarem convenientes. Eu lavo as mãos. Não me metam em suas contradanças. Se quiserem chegar a um acordo, que assim seja; se não quiserem, também. Já lhes presto grande serviço emprestando minha casa para que tomem o pulso um do outro até ver se há pazes ou não. E, por Deus, não me dê mais enxaquecas. Se passarem os dias e não surgir o acordo, acabou. Mas não me deem mais enxaquecas, por Deus, não me deem mais enxaquecas.
Disse estas últimas palavras em voz alta, já saindo para o corredor, de modo que as ouviram muito bem Papitos, numa ponta da casa, e Fortunata, na outra. Desde aquela tarde, esta permaneceu na casa, e sua situação era das menos airosas, porque o marido quase não lhe falava. Nicolas sustentava sozinho a conversa à mesa. No segundo dia, Fortunata disse a Dona Lupe que iria embora, o que fez a senhora sair pelos corredores gritando: «Por Deus, não me deem mais enxaquecas... já não aguento. Cada um faça o que quiser.» Apesar disso, a esposa não partiu. No terceiro dia, em meio à reserva e ao silêncio carrancudo que reinavam entre os cônjuges, Maxi começou a soltar uma ou outra palavra; depois já não eram palavras, mas frases, e após as orações frias vieram as mornas. Por fim, permitiu-se algum comentário jovial. No quinto dia, sorria olhando para a mulher. No sexto, Fortunata olhava-o com atenção cortês quando ele dizia alguma coisa; no sétimo, Maxi concordava com ela em toda discussão travada à mesa; no oitavo, dava-lhe uma palmadinha no ombro; no nono, a senhora de Rubin interessava-se para que o marido se agasalhasse bem ao sair; e, no décimo, passaram cerca de um quarto de hora cochichando a sós num canto da sala. No décimo primeiro, Maxi apertou-lhe muito a mão ao entrar, e no décimo segundo Dona Lupe exclamou, como sacerdote que entoa o hosana: «Ora, vocês estão ficando melosos. Por Deus, não me deem enxaquecas. Se estão morrendo de vontade de fazer as pazes, por que tantos melindres? Faço muito bem em não me meter em nada, bendita seja eu.»
E desse modo se verificou aquela restauração, aquele restabelecimento da vida legal. Foi uma dessas coisas que acontecem sem que se possa determinar como aconteceram, fatos fatais na história de uma família, como o são seus semelhantes na história dos povos; fatos que os sábios pressentem, que os experientes vaticinam sem poder dizer em que se baseiam, e que chegam a efetivar-se sem que se saiba como, pois, embora se sinta que vêm, não se vê o mecanismo dissimulado que os traz.
Nos primeiros dias que se seguiram a esse grande acontecimento, nada ocorreu digno de ser contado. E, se alguma coisa houve, foi do lado de fora. Vamos a ela. Certa tarde, Dona Lupe e Fortunata estavam na sala, costurando argolas nas magníficas cortinas de seda com que a senhora ficara por causa de um empréstimo não pago, quando Papitos, que fora à sacada recolher a roupa posta para secar, começou a gritar: «Senhoras, venham, olhem... quanta gente!... Mataram alguém.» As duas senhoras chegaram à sacada e viram que, na parte baixa da rua, perto da esquina com a de San Carlos, havia uma grande aglomeração que engrossava a cada momento. «Tem um cadáver defunto ali no meio da gente», gritou Papitos, com metade do corpo para fora da sacada.
— Vejo um vulto estendido no chão — disse Dona Lupe. — Você está vendo alguma coisa?... Deve ser algum bêbado. Mas repare na multidão que vai se juntando. Os carros nem conseguem passar... E olhe que policiais estes. Nem para um remédio.
— Senhora, mande-me buscar o macarrão... A senhora sabe que não tem... — disse a macaquinha.
— Ora... o que você quer é bisbilhotar...
— Mande-me — repetiu a menina, dando pulinhos, meio risonha, meio suplicante.
— Pois vá — disse Dona Lupe, que naquele dia estava de bom humor. — Se não sair, vai acabar caindo da sacada. Mas volte depressinha... e tenha o cuidado de limpar muito bem os pés nos capachos da portaria, porque há muita lama... Veja como deixou o tapete quando voltou de avisar o carvoeiro.
Papitos saiu mais depressa que a vista e ficou fora uns vinte minutos. A ama viu-a entrar no prédio e foi abrir-lhe a porta...
— Esfregou bem as patas?
— Sim, senhora... olhe.
— Agora aqui outra vez... Sabe o que deve fazer sempre que sobe? Esfregar-se bem no limpa-lamas do vizinho, naquele que está ali.
— Neste? — perguntou a macaquinha, sapateando sobre o limpa-lamas do apartamento da esquerda.
— Porque cada pisão a menos que dermos no nosso é uma vantagem que ganhamos.
— Sabe, senhora, sabe?... — acrescentou Papitos, que, apesar de vir sem fôlego de tanto correr, continuava dançando sobre o capacho alheio. — Não sabe o que há ali? É uma mulher que parece estar bebida; mas muito bebida... E não adivinha quem é? A senhora Mauricia.
— Mas ouviu, mulher, ouviu? — disse Dona Lupe do corredor, voltando para a sala. — Mauricia... bêbada... aí está o que reúne tanta gente.
— Mas você a viu bem? Tem certeza de que é ela? — perguntou Fortunata, passado o primeiro momento de espanto.
— Sim, senhorita, é ela...
— Mas, filha — observou Dona Lupe, tornando a debruçar-se com solicitude —, acredite que isto me causa uma impressão... E os da Ordem Pública, que não aparecem!... Ah, sim, estão levantando-a... Que mulher!... Veja só, pôr-se nesse estado.
— Agora estão levando... Está como um corpo morto — dizia Fortunata, recordando as cenas que presenciara no convento.
— Sim, levam-na para a Casa de Socorro ou para o hospital... Mas qual!... não... Estão subindo. Quer apostar que a trazem para a botica?
— Ela está com a cabeça aberta, com perdão da parte... — afirmou Papitos, mostrando graficamente as dimensões da ferida. — E saía um mundo de sangue... que corria rua abaixo, como a água quando chove.
Quando o corpo inerte de Mauricia, a Dura, passou sob as sacadas, carregado pelos agentes da Ordem Pública e escoltado pela multidão, Fortunata afastou-se da sacada, porque lhe faltava ânimo para presenciar semelhante espetáculo. Dona Lupe e Papitos, sim, viram tudo, e esta última ainda teve a pretensão de que a ama a deixasse ir à botica para ver o curativo que faziam naquela beberrona. Mas isso já era liberdade demais e, embora a menina imaginasse diferentes pretextos para descer, não conseguiu o que queria.
Na hora da refeição, Maximiliano falou do caso, descrevendo o curativo e fazendo prognósticos pouco lisonjeiros sobre o destino da enferma.
— Você tem razão — observou a viúva. — Parece-me que ela não sai desta queda. Pobre mulher! Ter esse vício! Sinto de verdade, pois não há outra como ela para passar joias adiante.
Maxi contou então um episódio curiosíssimo e recente da história da tal Mauricia, narrado naquela mesma tarde, depois do curativo, pelo senhor de Aparisi, um dos que costumavam participar da tertúlia da botica. «Pois essa boa peça, numa das tremendas borrascas que o maldito vício lhe provoca, foi recolhida da rua pelos protestantes, que têm capela e casa nas Peñuelas. Dona Guillermina, aquela senhora que pede para os órfãos da calle de Alburquerque, soube daquilo e, mal soube, voou para lá... Vejam só. Plantou-se na casa dos protestantes para reclamar a tarasca. Tum, tum... quem é?... eu... E saiu o pastor, um a quem chamam D. Horacio, que tem os cabelos ruivos e ralos como barbas de milho; saiu também a pastora, sua mulher, uma tal Dona Malvina... boas pessoas os dois, porque ser protestante não impede ninguém de ser decente. Entre parênteses, distinguem-se pela independência no vestir. Dona Malvina faz as sobrecasacas de D. Horacio, e D. Horacio arruma os chapéus de Dona Malvina. Em suma, esses inglesões sabem das coisas: não gastam um quarto com alfaiates nem modistas. Mas voltemos ao caso. Os pastores se mantiveram firmes, e Dona Guillermina ainda mais firme. Religião diante de religião, a coisa começava a ficar feia. Os protestantes diziam que aquela mulher lhes pedira esmola e proteção; Dona Guillermina negava, acusando-os de tê-la aliciado e de terem ido buscá-la na própria casa. D. Horacio disse que não e que faria valer seus direitos luteranos diante do próprio Tribunal Supremo; a outra se irritou, e Dona Malvina tirou o livro da Constituição, ao que Guillermina replicou que não entendia de constituições nem de livros de cavalaria. Por fim, a católica recorreu ao Governador, e o Governador mandou que Mauricia saísse do poder de Pôncio Pilatos, isto é, de D. Horacio.»
— Está vendo que coisas? — observou Dona Lupe. — Aí estão as confusões que se armam por causa da religião. Meu Jáuregui bem dizia que era muito liberal, mas não gostava da liberdade de cultos.
— Pois esperem, ainda falta a melhor parte. D. Horacio, como inglês que sabe respeitar as leis, obedeceu à ordem do Governador, reservando-se o direito de sustentar sua causa nos tribunais. Mas, quando disse a Mauricia que fosse embora, ela não quis e começou a cobrir Dona Guillermina de insultos, estando esta presente, e também todas as senhoras das Juntas católicas, dizendo que eram isto e aquilo.
— Que velhaca! Ela é atroz... dão-lhe esses ataques, e não sabe o que diz.
— Dona Guillermina não se acovardou por isso, nem renunciou a levá-la. Foi devagarinho e sentou-se à porta, num frade de pedra que há ali. Todos os dias ia se instalar no mesmo lugar, como uma sentinela. O pastor e a pastora diziam-lhe que entrasse, e ela respondia que muito obrigada... Por fim, ontem as posições se inverteram, porque Mauricia se enfureceu e, avançando sobre Dona Malvina, encheu-lhe o rosto de arranhões... D. Horacio chama os agentes da Ordem Pública, e a tarasca se enfia na capela, quebra o púlpito, vira o tinteiro, despedaça todos os livros, arma uma barricada com as cadeiras e apanha a taça em que eles comungam e... profana-a da maneira mais indecente. Deu trabalho pô-la na rua... Ao sair, zás!... Dona Guillermina, que lhe lança uma corda no pescoço e a leva embora. Tudo isso foi contado por Aparisi, que soube do próprio D. Horacio e de Dona Guillermina, e porque precisou intervir como tenente-alcaide do distrito... Puseram Mauricia na casa de uma irmã que mora ali pela calle de Toledo; e percebe-se que lá também não conseguem contê-la, pelo que se viu esta tarde. Da botica levaram-na para a Casa de Socorro.
Esse relato era longo demais para os pulmões de Maximiliano, razão pela qual ele chegou ao fim fatigadíssimo. Todos ficaram pasmos com a história, e Dona Lupe compadeceu-se da Dura, lamentando que, com vício tão imundo, desperdiçasse as qualidades de inteligência para os negócios que possuía. Quanto a Fortunata, sentia-se profundamente ferida e desejava que o marido terminasse de contar aqueles episódios tristíssimos, para que a conversa recaísse sobre outro assunto. Mas não foi possível, porque até o fim da refeição só se falou de Mauricia, dos protestantes e do insano vício da embriaguez; por fim, Nicolas trouxe à baila acontecimentos ocorridos nas Micaelas, invocando o testemunho de Fortunata. Esta, muito contra a vontade, não teve outro remédio senão narrar os romanescos episódios do rato, das visões e da garrafa de conhaque; mas o fez em linhas gerais, para terminar mais depressa.
Naquela noite foram ao Variedades, que fica a dois passos da calle del Ave-María. Outra vantagem daquele bairro sobre Chamberí era poder ir à noite ver uma pecinha ou passar algum tempo em qualquer café, sem fazer caminhadas de meia légua nem usar o bonde. Fortunata não gostava de ir ao teatro nem de se apresentar em público. Sentia um medo inexplicável dos olhares das pessoas e, embora poucos ou ninguém a conhecessem, imaginava que todos a conheciam e que de cada boca saía um comentário a seu respeito. Infelizmente, assunto não faltava. Mas, quando os homens a olhavam, era para admirá-la e, se depois cochichavam, raras vezes diziam alguma coisa fundada num conhecimento verdadeiro da realidade. Outro motivo do terror que o teatro e os lugares públicos lhe inspiravam era encontrar rostos conhecidos, e esse receio a deixava como que atordoada e sobre brasas durante a função.
Em casa, achava-se muito bem. Certamente tivera na vida temporadas de maior felicidade, mas nunca de tão brando sossego. Vira dias, os menos numerosos, é verdade, em que o sol da alma brilhava lançando faíscas, seguidos de outros em que se apagava quase por completo; mas nunca vira uma corrente tão inalterável e mansa de dias mornos, iguais, de penumbra doce e reparadora. Dava-se muito bem com Dona Lupe e, com o marido, acontecia-lhe a coisa mais estranha que se pudesse imaginar. Não digamos que o amava, segundo seu conceito e definição de amar; mas tomara-lhe certo carinho de irmã por irmão. Ele não era nem podia ser o homem por quem a mulher dá a vida, encontrando prazer espiritual nesse sacrifício; era simplesmente um ser cuja conservação e bem-estar ela desejava. E, assim como se supõe e quase se entrevê uma terra distante quando se navega à aventura, ela entrevia a possibilidade de vir a amá-lo com afeto mais firme e de passar ao lado dele a vida inteira, chegando a nunca desejar outra melhor. Em vez de fugir às obrigações da casa, Fortunata procurava ampliá-las e aumentá-las, reconhecendo que o trabalho a ajudava a se manter naquele equilíbrio, sem oscilações de felicidade, mas também sem dores, com o coração adormecido e achatado, como sob a ação de um bálsamo emoliente. Lembrava-se dos dois casos que o bom Feijoo lhe apresentara e pensava se ocorreria aquilo que ela julgara mais inverossímil, isto é, se o primeiro se realizaria. Chegaria a conformar-se com tal vida e a contentar-se com aquele fruto insosso do amor, sem desejar outro mais doce e menos saudável?...
Maximiliano, em compensação, não conseguia vencer a inquietação. Não tinha motivo algum para suspeitar da mulher, cuja conduta era absolutamente correta. Dona Lupe e ele haviam combinado que Fortunata jamais sairia sozinha à rua, e isso se cumpria ao pé da letra. Mas nem com tais garantias ele acabava de se tranquilizar. Desejava ardentemente ter filhos, por dois motivos: primeiro, para lançar sobre sua cara-metade mais um laço e novas amarras; segundo, para que a maternidade desgastasse um pouco aquela beleza esplêndida que a cada dia deslumbrava mais. A desproporção entre a estatura de um e de outro, e entre o conjunto da aparência pessoal de ambos, mortificava tanto o pobre rapaz que ele fazia esforços impossíveis e às vezes ridículos para diminuir aquela falta de harmonia. Encomendava sapatos de salto alto e esmerava-se em vestir bem e cuidar de certos pormenores de que só os dândis se ocupam. Infelizmente, embora Fortunata quase não se enfeitasse, a desproporção permanecia muito visível. Mas Maxi via com alegria que a esposa pouco cuidava de realçar a beleza e olhava as modas com desdém; alegrava-se por duas razões também: porque assim os dois cônjuges se igualariam um pouco ou fariam melhor par, e porque assim os estranhos a olhariam menos.
Desde a restauração de sua legalidade doméstica, abandonara por completo as leituras filosóficas, reverdecendo-lhe na alma a dor mal curada da afronta e os ódios vingativos. Aquele ascetismo e aquele ver Deus em si haviam sido apenas obra fugaz da tristeza, ou talvez das circunstâncias, e existiam em sua mente como aquelas lições grudadas com saliva que os estudantes aprendem nos apertos do exame. Suas novas obrigações na botica chamavam-no para o lado da química e da farmácia, e dedicou-se a isso com verdadeiro ardor, desejoso de aprender. Dona Lupe dizia-lhe que inventasse algum específico, alguma papa qualquer ou velharia que, com nome estranho e novo, passasse por descoberta prodigiosa; mas ele resistia porque considerava isso indigno da ciência. Tia e sobrinho tinham discussões muito vivas a respeito... «Como se fosse crime imaginar qualquer espécie de pílulas, cápsulas ou drágeas, e pronto, dar-lhes um nome!...» «Cápsulas hipoquitropíticas vegetais... ou animais, tanto faz... do Doutor Rubin... infalíveis... contra qualquer coisa... contra a tísica... ou a cinomose dos cães... O importante é descobrir alguma coisa e colar nela uns rótulos bem berrantes com seu retrato... Você é um molenga. Se você não inventar um específico, acabarei tendo de inventá-lo eu mesma... Fortunata, diga-lhe que invente, filha, convença-o... Vocês podem ganhar rios de ouro.»
Fortunata poucas vezes via o senhor de Feijoo, que ia à casa em visita cerimoniosa e ali ficava cerca de uma hora, conversando mais com a senhora de Jáuregui que com a de Rubin. O simpático velho parecia contente; mas os achaques lhe custavam cada dia mais e, já em abril, só saía à rua acompanhado de um criado. Numa de suas visitas, falou a sós com a amiga em termos tão paternais que faltou pouco para ela chorar. Tudo ia bem, perfeitamente bem, e a chulita já devia ter se convencido do valor de suas lições e conselhos. Maxi gostava pouco da amizade de Feijoo, sem saber exatamente por quê. Mas o mais singular era que, depois de um mês daquela vida, as visitas de D. Evaristo começaram a ser menos agradáveis à própria Fortunata. Sua gratidão e seu afeto por ele continuavam os mesmos; mas ela não conseguia deixar de considerar a vinda do antigo protetor à casa uma monstruosidade. «Será verdade», pensava, «como ele me disse, que a vida humana está cheia dessas barbaridades inacreditáveis?... Que coisas existem, mas que coisas!... Um mundo que se vê e outro que fica por baixo, escondido... E o de dentro governa o de fora... pois... é claro... quem move os ponteiros do relógio não são os ponteiros, mas a máquina que não se vê.»
Ao anoitecer, entrou Dona Lupe, depois de limpar a lama das solas no capacho do vizinho. «Ouça uma coisa», disse a Fortunata, tirando a manta. «Soube esta tarde que Mauricia está morrendo. Pobre mulher! Temos de ir vê-la. Não é longe: calle de Mira el Río.» A notícia fora dada por sua amiga Casta Moreno, que a soubera por Cándido Samaniego. Dona Guillermina tirara Mauricia do hospital, transferindo-a para a casa da irmã, e ela era assistida pelo médico da Beneficência Domiciliar e da Junta de senhoras. A infeliz tarasca viciosa, com esses cuidados e as ternuras de Dona Guillermina, e mais ainda com a proximidade da morte, estava parecendo outra, curada das maldades e arrependida em toda a extensão da palavra, dizendo que queria morrer da maneira mais católica possível e pedindo perdão a todos com uns ais e uma religiosidade tão fervorosos que partiam o coração. «Digo-lhe que, se isso for verdade, será preciso alugar sacadas para vê-la morrer. Amanhã iremos até lá.»
Dona Lupe não ia ver Mauricia por pura caridade. Havia muito tempo que Guillermina a fascinava, mais pelo senhorio que pela virtude, e, já que a grande fundadora tornaria patente sua santidade, tendo por corte as damas mais empertigadas, num lugar acessível a Dona Lupe, por que esta não haveria de tentar meter a cara? Ora, ela também não era uma dama? Sobre esses pormenores falou longamente com Casta Moreno, que algumas noites ia com as duas filhas participar da tertúlia na casa dos Rubin, e a viúva de Samaniego não se cansava de elogiar Guillermina, considerando-a sobrenatural. E era sua parente, embora distante, pelos Moreno! O amor-próprio e o orgulho inflavam Dona Lupe quando ela se imaginava mandando em assuntos de beneficência elegante sob as ordens da ilustre fundadora. Isso teria um inconveniente, caso chegasse a realizar-se: seria inevitável dar algum cobres.
Na manhã seguinte, ao se vestir para sair, Dona Lupe pensou se devia pôr o casaco de veludo. Mas logo percebeu que seria um disparate. Além de o casaco se molhar, porque o dia estava chuvoso, aquele traje régio não era apropriado ao lugar, às pessoas nem à ocasião da visita. Teria tempo de se exibir com o casaco, a capota e outras peças. Recomendou a Fortunata que se vestisse com simplicidade, e ela própria se arrumou um pouco mais, de modo que sempre resultasse a distância conveniente.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
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