Universo da obra
Universo da obra
Em meados de novembro, Fortunata estava um tanto abatida. Observando-a, Ballester dizia consigo: «Quando digo que ela devia gostar de mim, em vez de consumir a vida por aquele palerma! Que mulheres! São como os burros: quando cismam de andar à beira do precipício, é mais fácil matá-los a pauladas do que fazê-los tomar outro caminho.»
Da sala dos fundos da farmácia, onde trabalhava, viu-a passar pela rua: «Lá vai a nau. Sempre tão pontual ao encontrozinho. Dona Lupe furiosa, o pobre Rubín fora de si, e esta pomba voando para o telhado do vizinho. Como está longe de imaginar que descobri o esconderijo! Deu-me algum trabalho, mas consegui. E não é que eu pretenda denunciá-la... coisa indigna de um cavalheiro como eu. Faço-o para meu governo. Sou assim; gosto de seguir os passos da pessoa que me interessa... Com certeza, quando voltar de seus arrulhos, entrará aqui... Ah, que memória a sua, Segismundo! Já não se lembrava de que prometeu para hoje as pílulas de haxixe, que querem dar ao pobre Maxi para ver se levantam e clareiam um pouco aqueles ânimos tão obscurecidos. Vamos a elas, e que a alegria mais expansiva e a mais prazerosa ilusão da vida», disse, tirando de um armário o frasco de extrato indiano, «iluminem a cabeça de meu infeliz amigo pela ação deste precioso excitante.»
Duas ou três horas depois, Fortunata entrou na farmácia. O farmacêutico viu a consternação estampada em seu semblante. Sem dúvida ela sofria uma dor grande, enorme, horrível, dessas que só podem ser expressas pela imagem retórica de uma espada atravessando o peito.
— Minha amiga — disse Ballester —, não tema que eu a mortifique com consolos vulgares. A senhora sofre hoje, e não é coisa pequena, mas alguma tribulação muito grossa que traz aí dentro. Não, nem tente negar. Seu rosto é para mim um livro, o mais belo dos livros. Leio nele tudo o que lhe acontece. Não adiantam evasivas. Tampouco pretendo que me confie suas tristezinhas antes de se convencer de que o médico chamado a curá-las sou eu.
— Ora, Ballester — disse Fortunata, de péssimo humor. — Agora não estou para brincadeiras.
— Acredito... A senhora tem o coração como se o estivessem apertando com uma corda...
— Ai, sim... — exclamou com ímpeto a jovem, a quem pouco faltava para começar a chorar.
— E a senhora chorou, pois os olhos também o dizem.
— Sim, sim... mas deixe de bobagens e não se meta no que não lhe importa. Hoje o senhor está muito perspicaz.
— Sempre o foi D. García. Para outras pessoas a senhora terá segredos, para mim não. Sei de onde vem. Sei a rua, o número da casa e o andar... E, se me apertar, sei o que aconteceu. Desavença; que se você, que se eu; que não me ama, que sim; que puxa, que afrouxa, que vira, que torna; que você me engana, que não, que você mais; e terminamos, adeus, e lá vai a lagrimazinha.
A senhora de Rubín deixou a cabeça cair sobre o peito, mergulhando no lago negro de sua tristeza. Ballester olhava-a sem ousar dizer nada, respeitando aquela dor que, por ser tão verdadeira, não podia ser dissimulada. Por fim, Fortunata, como quem volta a si, levantou-se da cadeira e perguntou:
— As pílulas, o senhor fez?
— Aqui estão — disse, entregando-lhe a caixinha. — E, a propósito, não lhe faria mal tomar uma.
— Eu?... O meu mal não se resolve com pílulas... Fique com Deus; vou para casa.
— Console-se — disse Segismundo à porta. — A vida é assim: hoje uma dor, amanhã uma alegria. É preciso ter calma, aceitar as coisas como vêm e não prender todo o nosso ser a uma só pessoa. Quando uma vela se acaba, deve-se acender outra... Portanto, tenhamos coragem e aprendamos a desprezar... Quem não sabe desprezar não é digno dos prazeres do amor... E, por fim, minha simpática amiga, já sabe que estou às suas ordens, que tem em mim o mais rendido dos servidores para tudo o que lhe ocorrer: amigo diligente, reservadíssimo, boa pessoa... Adeus.
A jovem subiu para casa. Dona Lupe não estava, porque naqueles dias ia infalivelmente aos leilões do Monte de Piedad. Maximiliano permanecia longas horas no gabinete ou na alcova, sem sair sequer para os corredores, mergulhado numa meditação que mais parecia sonolência, em geral estendido no sofá, os olhos fixos num ponto do teto, à maneira de um penitente visionário. Não incomodava ninguém; não resistia a tomar o alimento nem os remédios, submetendo-se silenciosamente a tudo o que lhe mandavam, como se o dominante naquela fase do processo encefálico fosse a anulação da vontade, o não ser nada para chegar a ser tudo. Julgando-se sozinha em casa, Fortunata andou de um lado para outro, procurando uma ocupação que a distraísse e consolasse. Impossível. Quanto mais trabalhava, com maior energia e clareza sua mente repetia o que lhe acontecera naquela manhã.
— Vou ficar louca — disse consigo, preparando-se para pôr a roupa de molho. — Estou mais louca que o pobre Maxi, e isto acaba de me rematar.
Sem interromper a ação mecânica, o espírito da pobre mulher reproduzia fielmente aquela cena, com as palavras, os gestos e as inflexões mais insignificantes do diálogo. Em meio à reprodução, iam se colocando, como anotações lançadas ao acaso, os comentários que lhe ocorriam. O trabalho de seu cérebro era uma mistura febril e dolorosa das funções do juízo e da memória, revolvendo-se em desordem e iluminando-se mutuamente com a claridade de relâmpago que a cada instante desprendiam.
«Foi uma grande tolice contar-lhe... Há algum tempo ele está muito frio, como se quisesse romper. Cansado outra vez! Cansado; e lá por junho, sim, lembro muito bem que era junho, porque estavam colocando os postes do toldo para a procissão de Corpus Christi, disse-me que nunca mais me deixaria, que se envergonhava de me haver abandonado duas vezes, e sei lá quantas mentiras mais!... Agora procura um pretexto para se esquivar... Cristo, que cara fez quando lhe disse aquilo!... “Não seja tolo, nem confie tanto na virtude de sua mulher. O que pensa? Que ela não é como as outras? Pois saiba: sua mulher lhe faltou com aquele senhor Moreno que morreu de repente certa noite. Sua sorte foi ele ter estourado; é que os corações rebentam com a força do amor... Acredite, por Deus meu Pai, que a macaquinha do Céu também gostava dele, e eles tinham seus encontros... não sei onde, mas tinham. Tão esperto que é, e também enganam você...” Bendito Deus, que cara fez! Ah, o amor-próprio e a soberba lhe saíam aos borbotões pela boca...»
Depois ouvia claramente a vibração daquela resposta que a fizera estremecer e que ainda a iluminava, pois as palavras se repetiam sem cessar como a peça de uma caixa de música cujo cilindro, depois de tocar a última nota, volta à primeira:
«Mas o que você imaginou, que minha mulher é como você? De onde tirou essa história infame? Quem lhe meteu essas ideias na cabeça? Minha mulher é sagrada. Minha mulher não tem mancha. Eu não a mereço e, por isso mesmo, respeito-a e admiro-a ainda mais. Minha mulher, entenda bem, está muito acima de todas as calúnias. Tenho nela uma fé absoluta, cega, e nem a menor dúvida pode me importunar. É tão boa que, além de me ser fiel, tem o costume de me entregar todos os seus pensamentos para que eu os examine. Quem dera eu pudesse lhe entregar os meus! E agora, quando você me traz esses contos absurdos, vejo-me tão abaixo dela quanto é possível. Você mesma está me castigando ao dizer que minha mulher é como você ou que pode se parecer com você em alguma coisa. Castiga-me porque demonstra a diferença; comparo você com ela e, se perde na comparação, culpe a si mesma... Para concluir, se tornar a pronunciar diante de mim uma só palavra referente a minha mulher, pego meu chapéu... e você nunca mais me verá em todos os dias de sua vida.»
Comentário: «E eu, que me iludira pensando que ela não era honrada, agora não tenho outro remédio senão confessar que é! Terá Aurora visto visões? Ela o afirma de tal modo que não sei... Pode estar enganada... Pode ser que aquele cavalheiro estivesse apaixonado por ela; isso não quer dizer que ela pecasse, nem de longe...»
Outra vez, sentia retumbar no ouvido as tremendas palavras dele: «Se tornar a pronunciar diante de mim etc...» E o comentário parecia se produzir no cérebro paralelamente à repetição da filípica:
«Ah, patife, antes você não falava assim. Em junho, sim, lembro muito bem, era tudo amo você e adoro você, e como ríamos da macaquinha do Céu, embora sempre a considerássemos virtuosa. Diz que ela é sagrada?... Então por que a engana? Sagrada! Agora vem com essa. Pego meu chapéu e você nunca mais me verá... É isso que você quer há muito tempo. Está procurando um motivo e se agarra ao que eu disse. Comparo você com ela e, se perde na comparação, culpe a si mesma. Isso é me dizer que sou um traste, que não posso ser honrada ainda que queira... Como eu ardia ao ouvir isso e como ardo agora mesmo! Minha garganta aperta e meus olhos se enchem de lágrimas. Dizer isso a mim, a mim, que estou me condenando por ele...! Mas, Senhor, que culpa tenho de aquela menina bonita ser um anjo? Até a virtude serve para me bater na cabeça. Ingrato!»
Reprodução de algo que ela lhe respondera:
«Olhe, não leve tão a sério. Pode ser mentira. Que sei eu? Não pensará que fui eu quem inventou. Para ver que não gosto de farsas com você: isso que tanto o incomoda é coisa de Aurora...»
E ele:
«Se eu a pegar, arranco-lhe a língua. Essa mulher é uma víbora, invejosa, intrigante. Tome cuidado com ela.»
Comentário: «É verdade que fui muito prudente. Não se deve falar mal de ninguém sem ter certeza do que se diz. Desde aquele momento, não tornou a me olhar como sempre olha. Amacei seu amor-próprio. É como quando uma pessoa se senta sem querer sobre uma cartola: por mais que a passem depois, não há maneira de deixá-la como estava. Esta ele não me perdoa.
«Ele perdoa tudo, mas não perdoa que mexam com sua soberba. “Está zangado?” “Acha que eu não deveria estar?” “Faça de conta que não disse nada.” “Não posso; você me ofendeu; rebaixou-se a meus olhos. Como não tem senso moral, não compreende. Não calcula o valor que as pessoas tiram de si mesmas quando falam demais.” “Não me diga essas coisas.” “Elas me saem da boca. Desde que caluniou minha mulher, a veneração e o carinho que tenho por ela aumentaram, e vejo outra coisa: vejo como sou miserável ao lado dela; você é o espelho em que olho minha consciência e garanto que me vejo horrível.”»
Comentário: «Quando adota esse tom, eu bateria nele... Isso é me chamar de indecente. E sempre que vem com essas teologias é porque quer me deixar. E eu não posso viver assim, meu Deus; isso é pior que a morte.»
Reprodução:
«Já vai embora?»
«Acha que ainda é cedo?»
«Vem na segunda-feira?»
«Não posso garantir.»
«Já começa com suas manhas.»
«Você é que está ficando importuna.»
«Não quero discutir. Diga o que quiser.»
«Se rompermos, não ponha a culpa em mim, porque é você quem a tem.»
«Eu?»
«Sim, você, por vir com alguma bobagem vulgar.»
«Está bem, como quiser... Você sempre tem de ter razão... Adeus.»
«Até logo.»
Ao cabo de algum tempo, sua mente saltou de repente com uma ideia nova, expressa em meio aos sufocos do desespero como um raio que atravessa as nuvens e, por um instante, as perfura, iluminando-as com suas dobras resplandecentes:
«Mas que diabo é essa virtude que, por mais voltas que eu dê, não consigo apanhá-la e metê-la dentro de mim?»
Então percebeu que não pusera a roupa de molho. Sua tarefa ainda estava por começar, e os rolos de camisas, blusas e outras peças continuavam diante dela, mortos de rir, assim como a bacia de água. Papitos, que entrou na sala de jantar com as facas já limpas, foi o choque que a tirou de sua abstração.
No dia de San Eugenio, dona Casta propôs um lanche no Pardo, mas as mulheres da casa de Rubín não queriam nem ouvir falar de coisa alguma que se parecesse com diversão. Bem estavam elas de espírito para lanches. Foram as Samaniegas com dona Desdémona, Quevedo e outros amigos. À noite, dona Casta insistia em que todas comessem bolotas da provisão que trouxera. Estavam reunidas em casa dos Rubín. Faltava apenas Aurora, a quem Fortunata esperava com ansiedade; sempre que ouvia passos na escada, ia à porta para abri-la antes que batesse.
Por fim chegou a viúva de Fenelón, exaustíssima. As encomendas naquele mês eram consideráveis; multiplicavam-se os casamentos aristocráticos, e a pobre Aurora não conseguia dar conta. Para cumprir os compromissos e fazer as entregas a tempo, trouxera algum trabalho para fazer em casa. Ficaria acordada até as doze ou uma. A senhora de Rubín ofereceu-se para ajudá-la e, com a permissão das duas senhoras mais velhas, foram para a casa vizinha. Fortunata desejava ficar sozinha com a amiga para falar longamente sobre várias coisas.
Acenderam a luz no gabinete e, sobre uma grande mesa que ali havia, do tipo das mesas de alfaiate, Aurora tirou os apetrechos e começou a cortar e preparar. Fortunata ajudava-a a desenrolar os moldes e alinhavá-los sobre o tecido. A todo instante, Aurora arrancava do peito uma agulha enfiada ou tornava a espetá-la ali, pois o peito lhe servia de almofada de agulhas e continha também uma bateria de alfinetes. Estendendo o olhar sobre os moldes com atenção de artista, tomando ora a agulha, ora a tesoura, ora inclinada sobre a mesa, ora ereta e examinando de longe o efeito do corte, movendo a cabeça para obter em certas ocasiões a obliquidade do olhar, começou a conversar, lançando as palavras como um excedente da potência espiritual que aplicava ao trabalho mecânico.
— Hoje foi o funeral. Uma coisa estupenda, segundo Candelaria me contou! O catafalco chegava ao teto, a orquestra era magnífica e havia muitas luzes... Aí está para que serve o dinheiro desses celibatários egoístas. Estavam as senhoras Santa Cruz e Ruiz Ochoa, as Trujillas e sei lá quem mais... Como não nos vemos há muitos dias, não pude lhe contar a impressão que recebi naquela manhã. Veja: eu passava por volta das oito e meia pela plaza de Pontejos, a caminho de minha oficina, quando vi o criado inglês sair apavorado do portal... Segundo soube depois, ia procurar meu primo Moreno Rubio, que mora na calle de Bordadores. Eu disse: “O que terá acontecido?” E Samaniego saiu da loja perguntando: “O que houve?” “Como, o que houve?” Então o inglês, com um terror que não consigo descrever, disse: “Senhor morto; senhor como morto.” Pepe correu para lá, e eu atrás. No portal havia um grupo de pessoas; umas saíam, outras entravam, e todas lamentavam o acontecimento. Subi com Pepe... a porta estava aberta. Os gritos de Patrocinio Moreno eram ouvidos da escada. Ai, que momento, filha! Eu tinha um medo que não posso descrever. Aproximei-me pouco a pouco do quarto. Lá estava a santa, ainda com o manto e o missal na mão... Parecia uma imagem. E Moreno... não quero me lembrar, sentado numa cadeira junto à mesa...
— Dizem que o encontraram com a cabeça apoiada nas mãos, seco, rígido e sem sangue. Não posso lhe descrever o horror que me causou o que vi. Tinham erguido seu corpo no assento. Todo o peito da camisa estava manchado de sangue, a barba cheia de coágulos... os olhos abertos.
Aqui Aurora suspendeu o trabalho, pondo todo o espírito no que narrava.
— Não quis entrar. Voltei da porta, e não sei como cheguei à oficina, porque ia caindo pelo caminho; tamanha foi a impressão. É preciso reconhecer que aquele homem tinha de acabar mal; mas isso não impede que alguém sinta pena dele.
Tornou a dedicar toda a atenção ao trabalho.
— Passei muito mal naquele dia e, às vezes, dava-me vontade de chorar. Ele se portou muito mal comigo, muito mal... Ah, vejo que tudo se paga neste mundo.
— Pobre senhor! — exclamou Fortunata. — Também senti pena quando soube. Mas você sabe de uma coisa? Hoje ele e eu tivemos uma briga enorme porque lhe contei aquilo...
— Aquilo de...? — insinuou Aurora, tornando a suspender o trabalho e olhando para a amiga com malícia.
— Sim... Ficou tão zangado que terminamos mal. Ai, que tristeza tenho! Porque, se for calúnia, imagine que barbaridade ir contar semelhante história!
— Calúnia, não — disse a viúva de Fenelón, prestando mais atenção ao corte. — Pode ser engano. Quem diabo sabe o que se passa dentro da macaquinha? Não há dúvida de que o falecido Moreno andava louco por ela. Falta saber, por exemplo, se ela correspondia ou não.
— Você me disse que sim e que eles tinham encontros...
— Sim, mas disse apenas como suposição — replicou a astuta mulher, com certo desinteresse, como se desejasse mudar de assunto. — Você se precipitou ao lhe levar essa história. Ele deve ter ficado furioso. É preciso ter tato, minha amiga, e não ferir o amor-próprio dos homens. Já devia imaginar que ele não gostaria.
— E o que você pensa, falando agora como se estivéssemos diante de um confessor? O que pensa? Ela é, por assim dizer, um anjo ou o quê?
Aurora deixou a tesoura e espetou no peito a agulha enfiada. Depois de calcular a resposta, soltou-a desta maneira:
— Pois, falando a verdade e sem afirmar nada categoricamente, direi que a considero virtuosa. Se meu primo tivesse vivido, não sei aonde as coisas teriam chegado. Ele fazia o trovador da maneira mais infantil do mundo. Quem diria!... um homem tão experiente!... Ela... não sei... acho que ria dele... E bem o merecia, por patife. Talvez o olhasse com alguma simpatia... mas, quanto a encontros, minha amiga, parece-me que não houve. Digo, parece-me; e, se disse alguma coisa assim, foi como um talvez, e retiro o que disse.
Retornou à tarefa, deixando a outra na maior confusão.
— E, no fim das contas — disse-lhe depois —, que diferença faz para você ela ser ou não honrada? O que importa é que ele ame você mais que a ela.
— Oh, não... — exclamou Fortunata com toda a alma. — É que, se essa mulher não fosse honrada, pareceria a mim que não há honra no mundo e que cada um pode fazer o que lhe der vontade... Parece que se rompe tudo o que nos prende; não sei se estou me explicando; e então tanto faz branco quanto preto. Acredite, essa dúvida não sai de minha cabeça em momento algum; penso sempre na mesma coisa e ora me alegro que ela seja má, ora que não seja. Ah, você não sabe o que eu cismo ao longo do dia. As coisas que me acontecem não têm nome.
— Pois, para que se tranquilize de uma vez — disse a outra, sem olhar para ela —, considere-a honrada e, quando falar disso com ele, faça-o entender que acredita nisso; não aspire a que ele lhe dê seu respeito, contente-se com o amor.
— Saia daí, mulher — explodiu Fortunata, muito nervosa. — Isto está acabando... Aquele canalha está me traindo! Em quinze dias, só o vi duas vezes. Chega sempre tarde e como quem vem de má vontade. Oh, conheço muito bem suas manhas; sei-o de cor. Nada, quer tornar a me atirar na água, eu vejo, estou vendo. Hoje lhe disse claramente, e ele não respondeu nada.
— Então temos a macaquinha do Céu de parabéns.
— Ah, não... Parece-me que agora o cata-vento aponta para outro lado. Está me traindo com alguma que nem a esposa nem eu conhecemos. Falando mais claro: está deixando nós duas plantadas agá, e eu não sei o que acontece comigo, mais morta que viva... cheia de raiva, cheia de ciúmes. Não vou parar até apanhá-lo e, digo sinceramente, se o apanhar e apanhar a outra, estarei perdida. Vingarei a macaquinha do Céu e me vingarei. Não quero morrer sem esse prazer.
— Diga-me uma coisa... Desconfia de alguma mulher em particular? — perguntou a amiga, olhando-a fixamente.
— Não sei; esta noite pensei se seria Sofía, a Ferrolana, ou a Peri, ou Antonia, aquela que estava com Villalonga.
— É natural, você pensa nas que conhece. O que me dará, minha querida, se eu descobrir?
Ao dizer isso, Aurora abandonou todo o trabalho e pôs-se diante da amiga na atitude mais prestativa.
— O que lhe darei? O que quiser. Tudo o que tenho... Eu lhe agradecerei eternamente.
— Está bem; deixe comigo, pois, assim que eu apanhar a ponta do fio, chegaremos à outra extremidade. Vou dizer por quê: em minha oficina há uma mocinha, bastante graciosa, que me parece, parece-me...
— Em sua oficina...!
— Sim, mas não se precipite... Talvez não seja ela... Quero dizer que, por meio dela, apanharei a ponta do fio, e verá... vou puxando, puxando, até encontrarmos o que queremos saber. Confie em mim e não faça nada por conta própria. Prometa que não se meterá em nada. Sem essa condição, não conte comigo.
— Pois bem, prometo. Mas terá de me contar tudo o que descobrir. Digo que, se eu a apanhar... Não me importo de ir para o Presídio Modelo; juro que não me importo. Já me parece que a tenho entre as unhas...
Dona Casta entrou, abrindo a porta com a chavinha. Era tarde, e Fortunata teve de se retirar. Aurora ficou trabalhando mais um pouco e dizia consigo:
«Essas tolas são terríveis quando a raiva lhes sobe à cabeça. Mas ela se acalmará. Pois só faltava essa... Seria bonito...»
Certa tarde, dona Lupe viu a sobrinha entrar tão desolada que não pôde deixar de cair sobre ela, cheia de irritação, já incapaz de suportar que não lhe confiasse suas dores, fosse qual fosse a causa.
— Acha que são horas de chegar? E faça o favor, da próxima vez, de deixar suas agonias na rua e não aparecer diante de mim com essa cara de sexta-feira, pois já temos espetáculos tristes suficientes em casa.
O interior de Fortunata estava tão tempestuoso que ela não conseguiu se conter e explodiu com aquela ira pueril que provoca brigas de mulheres em casas de vizinhança.
— Senhora, deixe-me em paz, pois eu não me meto com a senhora nem me importa a cara que tem ou deixa de ter. Pois sim... Quer dizer que alguém não pode sequer ficar triste porque a senhora se incomoda com rostos aflitos... Começarei a dançar, se preferir.
Dona Lupe não estava acostumada a respostas daquele quilate e, no primeiro instante, ficou desconcertada. Por fim, saiu-se por este registro:
— Isso de eu me ocupar ou não não é você quem vai decidir. O quê? Já bateram os sinos da emancipação? Você está muito enganada. Pensa que vamos tolerar esse cantonalismo em que vive? Vejam só as fumaças desta louca!... Eu a porei nos eixos, eu mesma.
A outra estava tão violenta e tinha os nervos tão retesados que, ao afastar uma cadeira, derrubou-a e, ao pôr o regalo sobre a cômoda, bateu num copo de água que ali estava.
— Isso, quebre minha cadeirinha... Veja como derramou a água.
— Melhor.
— Sim?... Eu a melhorarei, eu a porei nos eixos.
— A senhora, minha senhora, ponha seu nariz nos eixos, pois a mim ninguém põe...
— Não quero me irritar nem levantar a voz — disse dona Lupe, erguendo-se —, para que aquele desgraçado não saiba.
Saiu um instante para fechar as portas e impedir que a gritaria fosse ouvida, e pouco depois voltou ao gabinete, dizendo:
— Ele adormeceu. Se quiser, faça barulho para que o pobrezinho não descanse. Você está se comportando... Silêncio!
— É a senhora quem grita... Eu entrei bem calada. Mas insiste em despertar meu gênio.
— Faça barulho, faça. Nem sequer vai deixar o pobre rapaz dormir.
— Por mim, que durma tudo o que quiser.
— E o que mais me revolta é sua teimosia — disse dona Lupe, baixando a voz — e essa insistência em governar a si mesma, sim, essa independência estúpida... Você prepara e come o próprio guisado. Por isso tem gosto de diabo. Tudo o que lhe acontece é bem-feito, muito bem-feito.
Havia tanta perturbação na alma da esposa de Rubín que a ira estava nela como presa por alfinetes, e o menor acidente, um nada, determinava a passagem da raiva à dor e da energia convulsiva à passividade mais desconsolada. Algo desabou dentro dela e, perdendo toda a firmeza, começou a chorar como uma criança cuja grande travessura é descoberta. Dona Lupe vangloriou-se muito daquela mudança de tom, que considerava obra de suas faculdades persuasivas. Fortunata deixou-se cair numa cadeira e ficou mais de um quarto de hora sem articular palavra, apertando o lenço contra o rosto.
— Pois sim, tia... é verdade que eu devia... contar à senhora... Não contei porque me parecia impróprio. Que barbaridade! Trazer para esta casa histórias de... Sou uma miserável; não devo estar aqui... Até chorar aqui pelo que choro é uma canalhice. Mas não posso evitar. Minha alma se desfaz. Preciso dizer a alguém que morro de tristeza, que não posso viver. Se não disser, estouro... A senhora acredite no que quiser... mas sou muito infeliz. Sei que mereço, que sou má, má por encomenda... mas sou muito infeliz.
— Aí está — disse dona Lupe, movendo a mão direita com dois dedos muito rígidos, num gesto inteiramente episcopal. — Aí está o que acontece por não fazer o que eu digo... Se tivesse seguido os conselhos que lhe dei neste verão, não se veria como está agora.
A outra estava tão sufocada que a tia teve de lhe trazer um copo de água.
— Acalme-se — dizia —, pois agora não vou repreendê-la, embora bem mereça. Não, não precisa me explicar o que acontece; é justo castigo de Deus. Pensa que não tenho perspicácia? Basta ver seu rosto. Tinha de acontecer, porque os maus passos sempre conduzem a maus fins... O resultado é que tudo o que digo se confirma. O pecado traz a penitência. Aquele homem torna a lhe dar o fora, acertei?
— Sim, sim... Mas que infame!...
— Ora, vocês dois estão muito bem servidos. Farinha do mesmo saco. As relações criminosas sempre acabam assim. Um se encarrega de castigar o outro, e quem castiga também encontrará sua pancada em algum lugar. Pois você está bonita... Além de traída, espancada e depois chamada para dançar.
— Mas que infame! — tornou Fortunata, olhando para a tia com os olhos cheios de lágrimas. — Não teve o atrevimento de me dizer, meio brincando, meio a sério, que eu estava envolvida com Ballester? Pretextos, teologias e nada mais. Com certeza não acredita nisso.
— Aguente, pois tem tudo muito bem merecido. E não venha pedir que eu a console... Se tivesse recorrido a tempo, não digo que não. Agora abre os olhos e se vê horrivelmente sozinha, sem família, sem marido, sem mim.
Fortunata, com o pânico de quem está se afogando, agarrou-se à saia de dona Lupe e tornou a derramar uma torrente de lágrimas.
— Não, não, não... não quero ficar sozinha, pobre de mim. Diga-me alguma coisa, ainda que seja para ter paciência, ainda que seja para eu me comportar bem agora... Sim, vou me comportar bem; agora sim, agora sim.
— Agora, sim. Ora, filha, não se levante tão cedo. Você só se lembra de Santa Bárbara quando troveja. De que me adiantaria consolá-la agora e corrigi-la se, no primeiro dia, tornasse às mesmas andanças?
— Agora não... agora não...
— Quem não a conhece que a compre... No extremo a que as coisas chegaram, parece-me que já não devo intervir nem tomar parte nesse enterro. Seria até indecoroso para mim. Pareceria... uma espécie de cumplicidade em seus crimes. Não, filha, você recorreu tarde... Estive enfiando a indulgência diante de seus olhos sem que quisesse vê-la, e agora que se afoga vem a mim...! Ai, não posso, não posso.
E, sem dizer mais, foi para a cozinha, pensando que toda severidade era pouca contra aquela mulher e que convinha aterrorizá-la para ver se enfim se submetia de maneira absoluta.
Logo anoiteceu. Os dias encurtavam, entristecendo o ânimo dos que já estavam tristes por outros motivos. Às seis e meia, a casa estava às escuras, e dona Lupe adiava o máximo possível acender as luzes. Fortunata, no quarto do marido e quase tateando, chegou ao sofá em que ele estava deitado e perguntou se tinha vontade de comer, sem obter resposta. Ouvia os suspiros do infeliz e, numa daquelas aproximações, Maxi tomou-lhe as mãos e apertou-as com afeto. Havia algo na alma de Fortunata que respondia a tal demonstração de ternura. Sentia por ele um carinho semelhante ao inspirado por uma criança doente, efusão de compaixão que protege e nada pede.
Dona Lupe trouxe a luz e, olhando para os esposos com os olhos ofuscados pelo vivo resplendor da chama de petróleo, disse, sem dúvida para animar Maxi com uma brincadeira:
— Já estão fazendo os pombinhos?... Seria melhor você comer. Quer que esta coma aqui com você?
— Sim, sim, vou comer aqui — disse prontamente a esposa. — E ele também comerá, não é, filho? Não é verdade que comerá com sua mulher? Ela cortará os pedacinhos de carne e os dará a você.
— Pois mandarei a comida — disse dona Lupe, pondo o quebra-luz no candeeiro e baixando a chama. — Hoje tenho um arroz com miúdos que é o que se deve comer.
No tempo em que ficaram sozinhos, antes que Papitos entrasse com o serviço e a sopa, Maxi dirigiu à mulher algumas frases inteiramente ligadas ao endiabrado assunto que constituía sua demência. Fortunata concordou com tudo, mostrando-se muito convencida da urgência de estabelecer como realidade social o princípio da solidariedade da substância divina. A tudo dizia que sim e, enquanto comiam, notou que o doente se animava extraordinariamente, chegando a se mostrar alegre, loquaz e a pôr singular ardor em seus projetos de apostolado. Num momento em que saiu do quarto, Fortunata perguntou à tia:
— E a senhora enfim lhe deu aquelas pílulas?
— Claro. Esta manhã, em jejum, tomou uma, e às quatro dei outra. Não foi assim que Ballester mandou...?
— Sim... Veja por que está tão desperto. Ora, esse cânhamo! Mas os disparates são os mesmos; só que agora ele não vê as coisas de modo tão negro, mas pelo lado alegre.
Voltou para junto dele e foi lhe dando os miúdos com o garfo. Ele os comia com gosto, sem parar de falar e até de rir. Seu riso plácido não parecia o de um demente.
Fortunata sentia um leve consolo na alma e dizia consigo: «Se Deus quisesse que ele ficasse bom...! Mas como Deus faria alguma coisa que eu pedisse... se sou a pior coisa que Ele pôs no mundo! Para mim, esta casa tem de acabar. Para onde me retirarei? O que será de mim? Mas, aonde quer que eu vá, gostarei de saber deste pobrezinho, o único que gostou de verdade de mim, que me perdoou duas vezes e me perdoaria a terceira... e a quarta... Acho que também me perdoaria a quinta se não tivesse essa cabeça como um campanário. E isso é culpa minha. Ai, Cristo, que remorso enorme! Levarei esse peso por toda parte e nem conseguirei respirar.»
Depois de comer, ele estava animadíssimo, como não estivera havia muito tempo, mas seus conceitos eram os mais extravagantes que se pode imaginar. Quando dona Silvia e Rufinita entraram para uma visita, dona Lupe foi com elas para a sala, e os esposos ficaram sozinhos. Maxi levantou-se e esticou o corpo inteiro, erguendo os braços. Os ossos estalaram; fez diferentes contorções que pareciam exercícios de ginástica e depois tornou a se sentar, abraçando a mulher e ficando diante dela, pois estava num banquinho junto ao sofá, numa atitude semelhante à dos amantes de teatro quando vão dizer algo muito bonito em décimas ou quintilhas.
— Minha vida — disse-lhe no tom mais doce do mundo —, mil graças pelo consolo que me deu com suas palavras.
Fortunata não sabia que palavras eram aquelas que o haviam consolado, mas tanto fazia. Fez um sinal afirmativo, e adiante.
— Porque, estando você de acordo comigo, não desejo mais nada. Minhas aspirações estão realizadas. Viva o grande princípio da libertação pelo desprendimento, pela anulação!...
— Vivaaa!...
— Assim dirão as multidões quando esta doutrina se propagar; mas isso não cabe a nós, e sim àquele que virá depois. Cumpramos você e eu a lei de morrer quando nos considerarmos chegados ao ponto exato da pureza. Matemos a besta quando sua prisioneira, a substância espiritual, estiver inteiramente desligada dela, como a castanha bem madura se desprende do ouriço.
— Pois sim, filho, nós a mataremos.
— Gosto de vê-la assim. Há alguma coisa mais bela que a morte? Morrer, acabar de sofrer, desprender-se de todas estas misérias, de tantas dores e de toda a imundície terrena! Há algo que possa se comparar a esse bem supremo?... Concebe a alma coisa mais sublime?
— E depois? — perguntou Fortunata, que, mesmo sabendo com quem falava, ouvia com muito gosto aquela maneira de considerar a morte.
— Oh, depois, sentir-se absolutamente puro, pertencente à substância divina; reconhecer-se parte dela e inteiramente unido àquele grande todo... Que felicidade imensa!
— Não sofrer...! — murmurou a mulher, inclinando a cabeça sobre o peito dele. — Não temer que nos façam esta ou aquela maldade...! Nunca mais se ver em agonias e gozar, gozar, gozar...
Sua mente deixou-se levar nas asas daquela ideia sublime, perdendo-se nos espaços invisíveis e sem limites.
— Sentir depois a irradiação do bem em si e contemplar-se naquele todo etéreo e substancial, infinitamente perfeito e saudável, belo, transparente e prazeroso...!
Aquilo já era um pouco metafísico, e Fortunata não compreendia bem. O que lhe era acessível era a primeira ideia: morrer, desprender-se das misérias deste mundo e sentir-se depois uma pessoa idêntica à pessoa viva, gozando tudo o que havia para gozar, amando e sendo amada em arroubos que nunca acabavam.
— Minha querida — disse Maxi, movendo muito a cabeça e os músculos do rosto, sinal de forte excitação nervosa —, nós dois morreremos depois de cumprir nossa missão. E, para que compreenda bem a sua, vou lhe dizer o que soube por revelação celestial.
Fortunata preparou-se para ouvir o grande disparate anunciado pelo marido e fez uma expressão muito grave e atenta.
— Pois eu sei uma coisa que você não sabe, embora talvez a pressinta, e que certamente saberá muito em breve. Talvez já tenha começado a notar algum sintoma, mas seu espírito ainda não terá mais que pressentimentos deste grande acontecimento.
Olhava-a de tal modo que ela começou a se assustar. O que seria, Deus, o que seria? Maxi ficou algum tempo em silêncio, com os olhos cravados nela como setas, e por fim disse estas palavras que a fizeram estremecer:
— Você está grávida.
A infeliz ficou petrificada por algum tempo. Tentava levar aquilo na brincadeira, tentava negar, mas não tinha coragem para nenhuma dessas determinações. Um terror imenso lhe encheu a alma ao ver que Maxi falava com expressão da mais absoluta certeza. Mas o que ainda faltava Fortunata ouvir foi isto, dito com exaltação de iluminado e com atroz recrudescimento dos movimentos nervosos da cabeça:
— Foi uma revelação. O espírito que me instrui trouxe-me esta ideia ontem à noite... Mistério belíssimo, não é? Você está grávida... E desconfia disso; melhor dizendo, sabe, estou percebendo em seu rosto. Oculta porque ignora que isso não lançará desonra alguma sobre você. O filho que leva nas entranhas é filho do Pensamento Puro, que quis se encarnar para trazer ao mundo sua salvação. Você foi escolhida para esse prodígio porque sofreu muito, amou muito, pecou muito. Sofrer, amar e pecar... aí estão os três infinitivos do verbo da existência. De você nascerá o verdadeiro Messias. Nós somos apenas precursores, está compreendendo?, apenas precursores; e, quando você der à luz, nós dois teremos cumprido nossa missão e nos libertaremos matando nossas bestas.
Fortunata pôs-se de um salto na outra extremidade do quarto. Entrara-lhe tamanho pânico que por pouco não correu para o corredor, pedindo socorro. Maxi tinha o rosto descomposto e transfigurado, e seus olhos pareciam carvões acesos. Nem percebeu que a mulher se afastara e continuou a falar como se ainda a tivesse ao lado. A infeliz, perturbada e morta de medo, encolheu-se no canto oposto e, de mãos cruzadas, olhava para o desgraçado demente, dizendo consigo:
«Como terá percebido?... Deus, que homem! Será uma farsa toda essa loucura? Será que ele finge para poder me matar sem que a Justiça o persiga?... Mas como descobriu...! Se não contei a ninguém! Se ainda não se percebe nada em mim...! Ah, este homem é muito astuto. Diz essa história de revelação para enganar as pessoas... Sem dúvida imagina, teme, ou percebeu em mim não sei o quê... Terei falado durante o sono?... Embora não; pode ter adivinhado por sua própria loucura. Não dizem que as grandes verdades são conhecidas pelas crianças e pelos loucos?... Ai, que medo me entrou! Meu Deus, livre-me desta tribulação. Este homem quer me matar e faz todas essas comédias para se vingar e me assassinar de graça...»
O iluminado foi até a mulher e a tomou pelo braço. Era tamanho o medo dela que até se sentiu mais fraca que o marido, tão débil.
— Minha bonequinha — disse ele, apertando-lhe o braço com energia nervosa e olhando-a com uma expressão em que a desgraçada via confundidos o amante e o assassino. — Nós nos libertaremos mediante uma sangria aberta assim que você cumprir sua missão. Quando será? Lá por fevereiro ou março.
«Deve ser em março», pensou Fortunata, «mas você ficou querendo... Eu me porei a salvo. Mate-se você, se quiser, pois tenho de viver para criá-lo e serei tão feliz com ele... Será o consolo de minha vida. Para isso o tenho, para isso Deus o deu a mim... Está vendo como consegui realizar minha ideia?... Meu filho é uma vida nova para mim. E então ninguém poderá se meter comigo... Oh, se eu não o sentisse aqui dentro, você e eu seríamos iguais, tão louco um quanto o outro, e então, sim, deveríamos nos matar.»
Ouvia-se no corredor o murmúrio das despedidas de dona Silvia e Rufinita. Pouco depois entrou a senhora de Jáuregui, e o sobrinho, ao vê-la, voltou para o sofá, deixando a mulher de pé no meio do quarto.
— Então? — disse dona Lupe. — Está com sono? São onze horas.
— A senhora veio perturbar nossa felicidade — replicou Maxi, sentado e agitando as pernas no ar. — Minha eleita e eu desejamos ficar sozinhos, inteiramente sozinhos. Os mistérios inefáveis que a ela e a mim...
— Mas que cambalhotas são essas? — perguntou, sem saber se devia rir ou ficar séria. — Parece um saltimbanco.
— Que a ela e a mim foram revelados... os mistérios inefáveis, digo... levam-nos a um êxtase delicioso de que as pessoas vulgares não podem participar.
— Chamar a mim de pessoa vulgar!...
— A vulgaridade consiste em estar muito apegado aos bens terrenos... isto é, em mimar a besta.
— Mas o quê? Também vai dar cambalhotas? — perguntou dona Lupe, assustada ao vê-lo apoiar as mãos no sofá e dobrar a cabeça até tocar com ela a gutapercha.
— O que eu fizer não lhe importa, mulher de pouca fé... A noite está fria e preciso aquecer as extremidades. Dentro de meu crânio acenderam um fogareiro.
— Está vendo... está vendo...? — observou Fortunata, sem se conter de dizê-lo em voz alta. — É o efeito daquelas pílulas condenadas. Acho que não devem dar mais. Veja como ele fica: o cérebro se transtorna ainda mais e ele adivinha os segredos.
— Como assim, adivinha os segredos?... Mas, menino, o que está fazendo?
Rubín sentava-se e se levantava, saltando no assento como um cavaleiro que monta à inglesa.
— Lá por março ocorrerá o grande acontecimento, a admiração do mundo — grunhia o infeliz, girando sobre si mesmo. — Será anunciado por uma estrela que aparecerá no Ocidente, e os Céus e a terra ressoarão com hinos de alegria.
— Mas o que está dizendo? Vamos, filho de minha alma, fique quieto.
— O que eu queria saber agora é onde está meu chapéu — disse ele, olhando debaixo da mesa e do sofá.
— E para que quer o chapéu?
— Quero sair, tenho de ir à rua. Mas tanto faz sair com a cabeça descoberta. Faz um calor horrível.
— Sim, vamos ao Retiro. Fortunata, pegue a vela; e você, na frente.
Agarrando-se ao braço do jovem desventurado, levaram-no para a alcova. Maxi lançou-se de um salto sobre a cama e ficou um instante com braços e pernas erguidos. Depois deixava as extremidades caírem pesadamente para tornar a levantá-las.
— Bela noite ele vai nos fazer passar! — exclamou dona Lupe, cruzando as mãos.
Fortunata, desalentada e pensativa, deixou-se cair no sofá.
— Aposto que não acertam onde estou — disse o pobre demente. — Caí do Céu sobre um telhado. O que minha mulher faz aí, que não vem em meu socorro?
— Pois sim, senhor, bela noite! — repetia dona Lupe, soltando um suspiro a cada palavra.
Tentaram deitá-lo. Não foi possível. Escapava-lhes das mãos com vivacidade de criança, que às vezes parecia agilidade de macaco. Seu riso causava espanto às duas senhoras e, por fim, já não se entendia uma só das muitas palavras que soltava atropeladamente, pronunciando-as de maneira primitiva, como crianças que começam a falar. Finalmente, o desgaste nervoso o venceu, e ele ficou quieto no sofá, com uma perna sobre a mesa, a outra numa cadeira, a cabeça debaixo de uma almofada e os braços estendidos em cruz. Uma mão batia no chão, e a outra estava enfiada sob o corpo, dando ao braço uma torção que parecia inverossímil. Elas não quiseram mudar-lhe a difícil postura, temendo que, se o tocassem, tornasse a se agitar e lhes desse outra dor de cabeça. Dona Lupe cochilava sentada numa cadeira junto à cama do casal, mas Fortunata não pregou os olhos a noite inteira.
Já amanhecia quando conseguiram deitá-lo. Quase não dava acordo de si e gemia ao se mover, como se seu corpo mesquinho e desgraçado tivesse sido moído a pauladas.
Creio que foi no dia da Imaculada Conceição que Rubín saiu do quarto com uma faca na mão, perseguindo Papitos e dizendo que a mataria. O susto da tia e de Fortunata foi enorme, e deu-lhes trabalho tirar-lhe a arma homicida, uma faca de mesa com a qual não era fácil tirar a vida de ninguém. O episódio, porém, foi terrível, e os gritos de Papitos foram ouvidos em toda a vizinhança. Ela saiu apavorada do quarto do senhorito, e ele atrás, frio e resoluto, como se fosse fazer a coisa mais natural do mundo. A criada refugiou-se entre as saias da patroa, gritando: «Ele me mata, quer me matar!»; e Fortunata correu para segurá-lo, o que não teria conseguido, apesar de sua superioridade muscular, sem a ajuda de dona Lupe. A resistência dele era puramente espasmódica e, enquanto se defendia dos quatro braços que queriam contê-lo e arrancar-lhe a faca, dizia com voz rouca:
— Corto-lhe o pescoço e a...
Depois se soube que Papitos tivera culpa, pois o irritara, contradizendo-o estupidamente. Dona Lupe suspeitou disso e, enquanto Fortunata tornava a levá-lo para o quarto, procurando acalmá-lo, a senhora tomou a menina por sua conta e, com a persuasão de três ou quatro beliscões, fez com que confessasse ser culpada pelo ocorrido.
— Veja, senhora — replicava ela, engolindo as lágrimas —, foi ele quem começou, porque eu não disse nada. Estava recolhendo a mesa, e ele saltou contra mim, dizendo para cima e para baixo... Eu não entendia e comecei a rir... Mas dispois veio com uns disparates muito grandes. Sabe, senhora, o que ele disse? Que a senhorita Fortunata ia ter um filho, e sei lá mais o quê. Não pude deixar de cair na risada, e então foi que ele garrou a faca e saiu atrás de mim. Se não dou um pulo, ele me parte ao meio.
— Está bem; vá para a cozinha e aprenda para a próxima vez. A tudo o que ele disser, por mais disparatado que seja, você responde amém, e sempre amém.
Aquele fato talvez fosse sintoma de um novo aspecto da loucura, e as duas senhoras já não cabiam em si de medo e inquietação. Não se passaram oito dias sem que o caso se repetisse. Maxi conseguiu se apoderar de uma faca e foi para cima da tia, dizendo que queria libertá-la. Graças à presença do senhor Torquemada, não foi difícil desarmá-lo; mas ninguém conseguia tirar o susto de dona Lupe, que teve de tomar uma xícara de chá de tília. A senhora, aliás, considerava-se a mais infeliz de todas as senhoras e damas da terra, pelas muitas aflições que pesavam sobre sua alma. Não era apenas o estado lastimável do mais querido de seus sobrinhos; outras coisas a mortificavam atrozmente, abatendo seu grande espírito. Entre Fortunata e ela foram trocadas certas palavras que tornavam absolutamente impossível qualquer concórdia.
— Ora — disse dona Lupe certa noite —, você está se saindo muito bem! Para quê essas reservas justamente quando a confiança era mais indicada? Como Maximiliano, que está demente, soube antes de mim, que estou em perfeito juízo? Por que esses esconderijos comigo?
Depois de uma longa pausa, Fortunata, com enorme dificuldade, decidiu responder:
— Eu não contei a ele. Ele adivinhou. Não podia contar isso a ninguém desta casa, muito menos a ele...
— Muito menos a ele! — repetiu dona Lupe, cravando na delinquente os olhos como flechas.
— Sim, porque ele nunca devia saber — prosseguiu a outra, fazendo o último esforço. — Eu pensava em contar à senhora, mas não me decidi pela vergonha que sentia. Agora que sabe, o que tenho de fazer é pedir que tenha compaixão de mim, recolher minhas roupas e partir desta casa. Agora, sim, será para sempre.
A viúva de Jáuregui tomou algum tempo para responder a palavras tão graves. Uma infinidade de ideias lhe entrou na cabeça, e ficou aturdida por longo tempo, sem saber com qual ficar. O rompimento definitivo arrancava uma tira de seu coração, com dor agudíssima, pois lhe seria impossível reter as quantias que Fortunata pusera em suas mãos. A elasticidade de sua consciência nunca chegava, em seus estiramentos, à apropriação do alheio, direta ou indiretamente. O que pertencia a outros era sagrado para ela e, embora aumentasse o próprio patrimônio quanto pudesse à custa do próximo, jamais chegava a absorver aquilo que lhe era confiado. Devolveria, portanto, o que lhe fora entregue, com os acréscimos devidos à sua boa administração. É verdade que essa devolução constituía para ela uma provação dolorosa, algo como separar-se de um filho que parte para a guerra para ser morto; pois aquele adubo, entregue à dona, logo se perderia na desordem e nos vícios.
Mas, se essa pena a estimulava a transigir mais uma vez, seu decoro, e ainda mais seu amor-próprio, revoltavam-se furiosos contra aquela infame que trazia para o lar filhos que não eram do marido. Isso não podia ser suportado sem se cobrir de desonra; dona Lupe não o toleraria, ainda que tivesse de entregar não apenas o dinheiro alheio, mas o próprio... Tanto quanto o próprio, não, convenhamos; mas assim pensava para exprimir enfaticamente sua imensa indignação.
O que diria o mundo!... O que diriam as amigas, diante das quais dona Lupe oficiava como guardiã da moralidade e dos bons princípios! É verdade que, para o mundo, a situação criada pela maternidade da senhora de Rubín seria legal, uma vez que Maxi, doente e talvez já encerrado num hospício, não poderia se declarar enganado; mas, nesse caso, a afronta seria maior porque a ela se acrescentaria a mentira. E todos considerariam dona Lupe uma encobridora e falariam horrores. Ela já parecia ouvi-los:
«Vejam aquela, tão orgulhosa e rígida, escondendo o contrabando que a outra patife introduziu em sua casa. Faz isso porque lhe convém. O pai da criança é rico e deve ter pagado bem a carga.»
A ideia de que pudessem dizer aquilo fazia brotar da testa augusta da viúva gotas de suor do tamanho de grãos-de-bico.
«Ela mesma», pensou, «não se conteve de me dizer que o pobre Maxi é tão inocente disso quanto eu. Vai cantar o mesmo para todo o mundo, pois é assim, muito linguaruda... Mas, entre duas afrontas, prefiro que tenha decidido proclamar a verdade, pois assim as pessoas não farão listas nem terão de perguntar se o filho é ou não é...»
De tudo isso se deduzia que aquela malandra trouxera uma maldição para a casa; ela era culpada da demência de Maxi. Dona Lupe bem profetizara: mulher demais para tão pouco homem. Naturalmente, o pobre rapaz tinha de morrer ou perder a cabeça. O que já se devia desejar era que a mulher desaparecesse inteiramente de vista; que entre ela e a família se abrissem abismos intransponíveis; que dona Lupe pudesse dizer aos amigos: «Essa mulher morreu para mim.»
A sombra de Jáuregui parecia vir em auxílio das decisões de sua ilustre viúva, pois pouco faltava para que esta visse o marido sair do quadro em que estava retratado, tomar vida e voz e dizer-lhe:
«Se não expulsar essa ave de sua casa, eu é que vou embora, apago-me desta tela e você nunca mais me vê. Ou ela, ou eu.»
E, quando a ave repetiu que partiria, dona Lupe não pôde deixar de lhe dizer com acrimônia:
— Mas o que está fazendo, que ainda não saiu correndo?... Francamente, espanta-me que tenha a pachorra de continuar aqui. Não haverá outra mais descarada.
Levando-a ao gabinete, falou-lhe da entrega das quantias que tinha em seu poder. Fortunata disse com muita calma e frieza que não levaria o dinheiro e que só retiraria os rendimentos.
— Como vou aplicá-lo? Fique com ele; guardo o recibo e virei a cada trimestre recolher o lucro.
Dona Lupe abriu tanto a boca que por pouco uma mosca não entrou nela. Seu primeiro impulso foi negar-se a ser administradora e procuradora de semelhante pessoa; mas aquela prova de confiança a aniquilava. Insistiu em entregar o dinheiro; a outra insistiu ainda mais em deixá-lo nas mãos que tão bem sabiam aumentá-lo, e assim ficou a questão. A dos Perus temia que entre ela e a sobrinha permanecesse aquela relação, aquele cabo telegráfico pelo qual se comunicariam a mais pura honradez e a imoralidade. Conservar o dinheiro era sustentar uma espécie de parentesco... Oh, não, aquilo parecia uma transação com a afronta. Mas, ao mesmo tempo, entregar os santos cobres à dona era o mesmo que jogá-los na rua. Os amantes os gastariam num piscar de olhos... e era uma pena que tão belo capital fosse destruído.
Discutiu-se muito a esse respeito, ambas fazendo alarde de delicadeza; mas, por fim, o dinheiro ficou em poder de dona Lupe. A soma chegava a trinta mil reales: os vinte mil dados por Feijoo e dez mil e tanto que haviam rendido desde então, aplicados por Torquemada em empréstimos a militares. Justamente nos últimos dias do ano, quando ocorreu o que agora se conta, quase toda a soma estava sem aplicação, e a senhora a guardava na cômoda, à espera de uma oportunidade que D. Francisco negociava com um senhor comandante. A soma que Fortunata possuía em ações do Banco continuava nessa mesma forma, conforme dispusera D. Evaristo. A tia de Maxi guardava o comprovante da inscrição num compartimento de seu barguenho, e ele só era retirado no fim de cada semestre para ir ao Banco receber o dividendo. Sobre essa classe de valores não houve disputa entre as duas mulheres, pois Fortunata desde logo pensou em levá-los, e a outra não gostava de conservar fundos de que não podia dispor em suas engenhosas combinações financeiras. A custódia da inscrição a incomodava e lhe dava tantos cuidados sem benefício algum que ela não lamentou vê-la sair de casa. Os trinta mil reales ficaram muito bem acomodados num canto da cômoda. Eram para dona Lupe como um filho adotivo que ela amava tanto quanto aos próprios filhos.
A fuga, pois assim deve ser chamada, de sua mulher não foi percebida por Maxi nos primeiros dias. Quando se deu conta dela, porém, manifestou uma inquietação que aumentou ainda mais o aborrecimento da pobre dona Lupe. Ela pensou seriamente em levar o infeliz sobrinho para um hospício. Causava-lhe muita pena separar-se dele, entregando-o aos cuidados de gente mercenária, mas não havia outro remédio. Para tratar do assunto e decidir o mais conveniente, chamou Juan Pablo, que naquele tempo passara de Estabelecimentos Penais para a Saúde e talvez pudesse pôr o irmão em Leganés, numa ala de pensionistas distintos, pagando meia pensão ou quem sabe sem pagar um quarto.
Enquanto isso, ao sair da casa do marido e antes de se dirigir à nova morada, Fortunata encaminhou os passos para a casa de D. Evaristo. Era ele a primeira pessoa a quem precisava consultar sobre a situação crítica em que se encontrava. Contar-lhe o ocorrido já era para ela um verdadeiro castigo por sua perversidade, pois só de pensar que o contaria sentia pavor. Como ficaria Feijoo ao saber que a chulita fizera mangas e capuzes da doutrina prática exposta com tanto ardor e carinho pelo simpático ancião quando providenciara a separação! Quanto teria sido melhor não se separar daquele homem sem igual! Ela o teria suportado em sua velhice caduca e seria feliz cuidando dele como se cuida de uma criança inocente. Ao chegar à Plaza de los Carros e avistar a calle de Don Pedro, pensou que não teria coragem de contar ao amigo suas últimas loucuras. Subiu tremendo a ampla escada, que naquele dia estava atapetada e cheia de vasos, porque na noite anterior se celebrara na legação, com grande comilança e muita festa, o aniversário do Imperador.
Foi o que dona Paca contou a Fortunata quando esta perguntou pelo patrão.
— Esta noite ele esteve muito inquieto, porque tivemos banquete e recepção no primeiro andar, e os coches não pararam de fazer barulho na rua até a madrugada. Esta casa costuma ser muito silenciosa, mas, quando há ruído, parece que o mundo desaba. Imagine o que nos importa que aquele senhor Imperador, que um raio o parta, complete não sei quantos anos! Que dor de cabeça nos deu esta noite!... Entre. Hoje o encontrará um pouco aturdido em consequência da noite ruim.
D. Evaristo já se encontrava em estado lastimável. Tinha as pernas quase inteiramente paralisadas e saía para passear num pequeno coche ou cadeira de rodas empurrada pelo criado. Ia às Vistillas tomar sol e às vezes seguia pelo Viaducto até a Plaza de Oriente. Nunca vinha ao centro da cidade e, para as relações e amizades que mantinha nas partes mais animadas de Madri, aquela existência paralítica e cheia de achaques, aquela vida circunscrita ao bairro afastado, eram como uma morte antecipada, pois do verdadeiro Feijoo, tal como o conhecemos, já não restava mais que uma sombra. Estava completamente surdo, tendo de recorrer a uma corneta acústica para captar alguns sons; sua inteligência sofria eclipses e, em certas ocasiões, a memória se perdia quase por completo, deixando-o na tristeza do instante presente, sem ontem, sem história, como se caísse de uma nuvem no meio da vida, à maneira de um bólido. Suas distrações já eram puramente infantis. Passava horas a fio brincando de bilboquê ou entretido em mexer com os muitos gatos da casa. Todas as crias da bela menina de dona Paca eram conservadas, ao menos enquanto durava a graça da infância felina. Sentado ao sol junto à varanda, em sua cadeira muito cômoda, Feijoo atirava aos graciosos amigos uma bola presa a um fio e se divertia com as lindíssimas cambalhotas e caretas dos pequenos. Outras vezes, lançava a bola ao longo do enorme aposento ou amarrava ao fio um pedaço de pano, recolhendo-o como o pescador recolhe o aparelho, para vê-los correr atrás dele.
Quando Fortunata entrou, o jogo do fio e da bola estava suspenso, pela lei da variedade, e D. Evaristo tinha o bilboquê na mão, lançando a bola e conseguindo raríssimas vezes encaixá-la no pino. Dois ou três gatinhos brancos com manchas cinzentas brincavam sobre o bom senhor. Um subia pela manta que lhe envolvia as pernas; outro estava em seu colo, sentado sobre as patas traseiras, esfregando as dianteiras com a língua e o focinho com a pata; e um terceiro subira-lhe ao ombro e dali acompanhava com viva atenção os saltos da bola do bilboquê, marcando-os com a pata no ar. O que ele queria era pôr a mão naquela bola tão bonita.
Ao ver a amiga entrar, o inválido fez um rosto muito sorridente. Já exprimia todos os sentimentos rindo. Mandou-a sentar-se ao lado e ainda quis continuar seu divertimento inocente, mas teve de suspendê-lo para apanhar a corneta. Fortunata tomou nas mãos um dos gatinhos para acariciá-lo.
— Então? — disse D. Evaristo, olhando-a de um modo que parecia demonstrar gratidão pelas carícias feitas ao bichano. — Ah, esse é o mais patife de todos... Sabe mais... e tem mais malícias! Então, vamos ver, chulita, o que há?
Fortunata não sabia como começar. Incomodava-a muito ter de dizer as coisas aos gritos e temia que os criados, a vizinhança e até o embaixador com toda a sua gente estrangeira soubessem. E como se podia contar coisa tão delicada berrando, como os vigias noturnos cantam as horas ou como os pregões das ruas? Disse algo que levou ao espírito de D. Evaristo a convicção de que sua chulita se encontrava numa situação difícil. De repente, nosso homem soltou o riso infantil e baboso, dizendo:
— Aposto que houve algum gesto impetuoso? Justamente o que mais proibi, os benditos gestos, que sempre trazem alguma desgraça.
A jovem consternada não podia garantir que suas últimas diabruras merecessem a denominação e a categoria de gestos, mas sem dúvida eram coisa muito ruim. Sobretudo, não dera a mínima atenção às sábias receitas de vida social oferecidas pelo amigo. Para fazê-lo compreender melhor que com longas explicações parte do que ocorria, tirou o certificado de ações, que levava dentro de um envelope, por sua vez embrulhado num papel.
— O que é isso, o certificado? — disse o ancião, rindo ainda mais. — Então o quê... hi, hi, hi... houve rompimento com aquele santo homem?...
E pôs a corneta no ouvido para captar a resposta.
— Completamente fora da cabeça... hospício.
— Que não come!
— Para o hospício... vão colocá-lo em Leganés...
— Ah! E dona Lupe?
— Ela e eu...
Fortunata fez um gesto muito expressivo com os dois indicadores, encostando ponta com ponta.
— Brigaram... hi, hi, hi... Que coisas! Dona Lupe é muito ardilosa...
O gatinho que subira ao ombro do senhor estava muito interessado na corneta. Sem dúvida ignorava o que era aquilo e queria sabê-lo a todo custo, pois estendia a pata como para examinar tão misterioso objeto. A curiosidade do animal interrompia a audição, que já era bastante penosa. Feijoo tomou o certificado, dizendo:
— Mas o que acontece?... Dona Lupe...? Hi, hi, hi... Ainda sustentará que eu a cortejei. Ninguém tira isso da cabeça dela. E tudo porque eu costumava parar na esquina da calle de Tintoreros, esperando a mulher de Inza, hi, hi, hi... o da loja de mantas.
Depois dessa brilhante rajada de memória, a preciosa faculdade se eclipsou por completo, e o ontem apagou-se absolutamente do espírito do bom cavalheiro. Olhava para a chulita com estupidez e certa expressão de dúvida ou surpresa. Fortunata continuava a gritar, mas ele não compreendia; o pouco que ouvia era como o ruído do vento, do qual não extraía sentido algum. Cansada de esforços inúteis, a jovem calou-se, olhando para o amigo com profundíssima tristeza. E ele, também olhando para ela, de repente tornou ao riso pueril, provocado pelas cócegas que o gatinho lhe fazia no pescoço.
— Este é um patife... não me deixa viver.
Fortunata suspirava, sem que o ancião percebesse aquela expressiva manifestação de desgosto, e por fim, compreendendo que era inútil esperar consolo e conselho daquela ruína escorada, decidiu retirar-se. Ao lhe dar um abraço carinhoso, o ancião pareceu voltar a si, recuperando a consciência, e a memória se refrescou.
— Chulita, não vá embora — disse, dando-lhe um tapinha na coxa. — Ah... aqueles tempos! Lembra-se? Que dias felizes! Pena que eu não tivesse vinte anos menos. Então, sim, teríamos sido felizes.
Ela dizia que sim com a cabeça. Depois, D. Evaristo pareceu instantaneamente assaltado por uma ideia que o inquietava. Após meditar um instante, aproveitando aquela rajada de inteligência que lhe atravessava o cérebro, pegou o envelope que continha o certificado e, devolvendo-o, disse:
— Não deixe isto aqui. Posso morrer a qualquer momento, e seu dinheiro corre o risco de se perder. É melhor guardá-lo você mesma. Não se preocupe. As ações são nominativas, e ninguém além de você pode dispor do valor delas.
E, como se a lucidez de sua inteligência não tivesse tido outro objetivo senão permitir-lhe aquela importante advertência, assim que a fez, a nuvem tornou a invadir toda a caixa do cérebro; voltou ao riso infantil e a preocupar-se mais em fazer a bola do bilboquê encaixar-se no pino do que com tudo o que pudesse dizer respeito à desgraçada amiga.
Fortunata saiu, portanto, daquela triste visita com a impressão de ter perdido para sempre aquele grande e útil amigo, o melhor homem com quem tratara na vida e certamente também o mais prático, o mais sábio e o que dava os melhores conselhos. É verdade que ela dera a esses conselhos a mesma atenção que às cantigas de Calaínos; ainda assim, reconhecia que eram excelentes e que deveria tê-los seguido ao pé da letra.
Daquele ancião caduco, que mais parecia criança, a esposa de Rubín já não podia esperar proteção nem amparo moral algum. Somente em raríssimos momentos de lucidez se revelava nele uma lembrança vaga do que fora. Chorou-o como morto, com verdadeira efusão de filha desconsolada, e aterrorizava-se com a orfandade em que ficaria justamente quando mais necessitava de uma pessoa sensata e discreta que a dirigisse. A impressão de vazio e solidão que levou daquela casa mergulhava-a em profundíssima tristeza. Na Cava Baja passou junto a um pequeno piano mecânico que tocava árias de ópera com ritmo picante e amoroso. Aquela música lhe chegava à alma. Parou por algum tempo para ouvi-la, e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. O que sentia era como se seu espírito se debruçasse sobre a borda da cisterna em que estava encerrado e dali avistasse regiões desconhecidas. A música brincava em sua pele, fazendo-a estremecer com um sentimento indefinível que só podia ser expresso pelo choro.
«Devo ser muito bruta», pensou, afastando-se, «porque gosto mais desta música dos pianinhos de rua que da peça tocada por Olimpia, que dizem ser tão boa. Quando a ouço, parece-me que batem em meus ouvidos com a mão do pilão.»
Fortunata resolvera, de acordo com a tia Segunda, hospedar-se na casa desta, que tornara a viver na Cava. Para lá se dirigiu desde a calle de Don Pedro e, antes de entrar no portal da loja de aves, o mesmo portal e o mesmo edifício em que começara a história de suas desgraças, uma vizinha lhe disse que Segunda estava na banca da praça, comendo com umas amigas. Foi até lá e viu a tia com outras duas megeras junto a uma mesinha, comendo ensopado de carneiro em pratos de Talavera. Uma jarra de vinho e um botijo de água completavam o serviço. As três damas estavam com os coques descobertos, falando ao mesmo tempo e em voz alta, com aquele desembaraço e aquela independência de maneiras que caracterizam os vendedores ambulantes, sempre expostos ao ar livre e com a voz moldada pela gritaria dos pregões.
Segunda Izquierdo era uma mulher corpulenta, de rosto muito corado e cabelos grisalhos. Parecia-se bastante com o irmão José, mas não conservara tão bem quanto ele a beleza daquela raça de gente bonita, pois as misérias, as doenças e a vida de cão dos últimos anos haviam produzido efeitos devastadores em seu rosto e corpo. Os que conviveram com Segunda em sua idade de ouro quase não a reconheciam, pois o rosto estava cheio de cicatrizes e, no pescoço e no maxilar inferior, trazia rubricas que atestavam outros tantos abscessos tratados cirurgicamente. O olho direito já não se abria tanto quanto devia por causa de uma fístula, e sua pálpebra inferior adquirira notável semelhança com um tomate, em consequência da aplicação de um punho fechado, da qual resultara uma inflamação que terminara em endurecimento. Segunda nem sequer conservava a bela dentição, pois fazia um ano que as peças começavam a emigrar, uma após outra. Seu corpo ia se parecendo com o de uma vaca posta de pé.
Assim que viu a sobrinha se aproximar, apanhou de cima da mesinha uma chave enorme, que parecia a chave de um castelo, estendeu-a e disse-lhe que subisse para casa se quisesse. As outras duas mulheres olharam para a jovem com curiosidade descarada. Fortunata conhecia uma delas, a outra não. Sentou-se por um momento num banquinho que lhe ofereceram, pois estava cansada; mas, incomodada pelas perguntas impertinentes das amigas da tia, subiu para o quarto que seria seu abrigo... até Deus saber quando. Aquele bairro e aqueles lugares lhe eram tão familiares que ela andaria de olhos fechados entre os caixotes sem tropeçar. E a casa? Nela, desde o portal até o ponto mais alto da escada de pedra, via pintada sua infância, com todos os episódios e acidentes, como se veem pintados nas igrejas os Passos da Paixão e Morte de Cristo. Cada degrau tinha sua história; e a loja de aves, o quarto no entressolo e depois o segundo andar possuíam aquele revestimento de uma camada espiritual próprio dos lugares consagrados pela religião ou pela vida.
«As voltas do mundo!», dizia, fazendo as voltas da escada e vencendo com fadiga os degraus. «Quem me diria que tornaria a parar aqui!... Agora percebo que, embora pouco, alguma coisa dos modos de senhora pegou em mim. Olho tudo isto com carinho, mas parece tão ordinário...! Aquelas duas tubaronas... que tipos! E minha tia, então?...»
O quarto que Segunda ocupava naquela casa era um dos mais altos. Ficava acima do de Estupiñá. Fortunata ainda não chegara ao segundo andar quando o viu descer e sentiu vontade de cumprimentá-lo. Ele fez uma máscara duríssima ao vê-la; apesar disso, a jovem queria lhe dizer alguma coisa. Achava-o simpático; conhecia seus apetites parlamentares e, embora por sua amizade com os Santa Cruz pudesse contá-lo entre os inimigos, via-o com bons olhos, considerando-o homem inofensivo e bondoso.
— Ainda que o senhor não queira, D. Plácido, bom dia.
O grande Rossini não se dignou a voltar para ela o perfil de papagaio e, resmungando algo que a nova inquilina não conseguiu entender, continuou escada abaixo, fazendo os degraus de pedra ressoarem com estrépito incomum.
Fortunata viu o quarto. Ai, Deus, como era ruim, sujo e feio! As portas pareciam ter um dedo de imundície, o papel estava inteiramente manchado, os pisos eram desnivelados. A cozinha causava horror. Sem dúvida, a jovem se refinara muito e adquirira hábitos de senhora, pois aquela moradia se apresentava como inferior à sua categoria, a seus costumes e gostos. Resolveu lavar as portas e até pintá-las, e limpar aquele depósito de lixo o máximo possível, sem prejuízo de procurar uma casa mais moderna, quisesse ou não Segunda viver em sua companhia. O pequeno gabinete que ocuparia tinha, assim como a sala, uma grande grade voltada para a Plaza Mayor. Ficou algum tempo planejando mentalmente a disposição de seus móveis: a cama, a cômoda, uma mesa e duas cadeiras. Tudo aquilo, aliás, teria de comprar, pois não tiraria nada da casa conjugal.
Percorrendo o quarto, pensou que, se o proprietário concordasse em fazer alguns reparos, ele não ficaria ruim. Era preciso caiar a cozinha, tapar com gesso alguns buracos e enormes rachaduras espalhados por toda parte, revestir de papel o gabinete que seria sua alcova e pintar as portas. Já pensava na dor de cabeça que daria ao administrador quando se lembrou, sua alegria caindo no poço, de que o administrador era Estupiñá.
«Com certeza, assim que eu falar em obras na casa, ele virará um tigre. Claro, tem aversão por mim; afinal, o que é senão um serviçal dos Santa Cruz? Ainda assim, penso em lhe dizer alguma coisa, pois, em último caso, basta deixarmos o quarto e acabou. E agora me lembro: esta casa era de D. Manuel Moreno-Isla, que no ano passado entregou a administração a D. Plácido. Minha tia me contou, e D. Plácido é tão tirano que não dá uma pazada de gesso ainda que o fuzilem. Falta saber de quem é agora a casa... Terá dona Guillermina herdado?...»
Ficou pensando que seu destino não lhe permitia sair daquele círculo de pessoas que a rodeara nos últimos tempos. Era como uma rede que a envolvia e, quando pensava escapar por algum lado, via-se presa outra vez.
«Não; os senhores Ruiz Ochoa devem ter herdado a casa, ou a mulher de Zalamero... E, no fim das contas, o que me importa se a propriedade é herdada por Juan ou Pedro? Eu não vou herdá-la.»
Se tivesse água em abundância, começaria imediatamente a lavar a casa inteira; mas iniciaria no dia seguinte. Viu que a grade dava para uma pequena varanda ou terraço e logo decidiu pôr ali todos os vasos de flores que coubessem. A vista do quadrilátero da praça era bonita, ampla e alegre. O jardim parecia muito bem visto de cima, com suas duas pequenas fontes e o cavalo barrigudo, do qual Fortunata via os quartos traseiros, como os de um porco cevado, e aquele Rei montado nele, com seu canudo na mão. Aproximava-se o Natal, e já estavam preparando as bancas da Noite de Natal. Distinguiu também a tia e as outras duas matronas que, ajudadas por um brutamontes, pregavam tábuas e armavam um toldo. Pouco depois, olhando para a calçada da Casa de la Panadería, conseguiu ver Juan Pablo sentado numa das bancas de engraxate, lendo um jornal enquanto lhe lustravam os sapatos. Depois o viu atravessar para a calçada em frente e seguir até o canto da pequena escada, como se fosse ao café de Gallo.
Como se disse antes, poucos dias depois do desaparecimento da mulher, Maxi começou a sentir-lhe a falta, mostrando-se desconfiado e desejando sua companhia com certo mimo impertinente que deixava dona Lupe furiosa. Ela e Juan Pablo discorreram longamente sobre o que se devia fazer, e por fim o primogênito disse que tentaria aplicar ao irmão um bom sistema terapêutico antes de recorrer ao extremo de encerrá-lo num hospício. Ainda não haviam experimentado as duchas, nem levá-lo para passear no campo, nem o brometo de sódio, que estava dando resultados tão bons contra a peri-encefalite difusa e contra a meningoencefalite etc.; e continuou soltando termos médicos por aquela boca, pois então lhe dera para ler livros dessa ciência e, com uma ideia tirada daqui e outra dali, fazia umas misturas dignas de ver.
Dito e feito. Todas as manhãs, Juan Pablo ia buscar o irmão e, ora enganando-o, ora quase à força, levava-o a San Felipe Neri e ali lhe aplicava uma ducha escocesa capaz de ressuscitar um morto. Em algumas tardes, levava-o para passear nos arredores, procurando entreter sua imaginação com ideias e relatos agradáveis, absolutamente contrários ao amontoado de disparates que o infeliz rapaz tivera ultimamente no cérebro. Depois de quinze dias daquele tratamento enérgico, melhorou visivelmente, e seu irmão e médico estava muito satisfeito. Mais de uma vez, durante o passeio, Maxi se exprimiu como a pessoa mais razoável do mundo. Nunca falava da mulher; mas, quando surgia na conversa alguma coisa que de perto ou de longe se relacionava com ela, via-se que caía em meditações sombrias e num mutismo tétrico do qual Juan Pablo, com toda a sua retórica, não conseguia tirá-lo.
Certa manhã, ao sair da ducha, quando o doente parecia reanimado pela reação, ágil e com a cabeça muito clara, parou na rua, segurou delicadamente as lapelas do sobretudo do irmão e disse:
— Mas vamos ao que interessa. Por que nem você, nem minha tia, nem ninguém quer me dizer onde está minha mulher? O que aconteceu com ela? Sejam francos e não façam mais mistérios comigo... Ela morreu e vocês não querem me contar? Temem que a notícia me altere?
Juan Pablo não soube o que responder. Vendo no rosto e nos olhos do irmão sinais de inquietação nervosa, tentou desviar a conversa. O outro, porém, aferrava-se ao assunto, repetindo as perguntas e parando a cada instante.
— Pois olhe — respondeu finalmente, fazendo um gesto familiar. — Faça de conta que morreu... porque, como eu digo... que diferença faz para você ela estar viva ou morta? Para que quer uma mulher? As mulheres só servem para dar desgostos, rapaz. Aí está por que nunca quis me casar.
— Morta! — disse Maxi, sem levantar a voz, mas com extraordinária luz nos olhos. — Morta!... Então posso tornar a me casar.
Ao dizer aquilo, insubordinou-se; não queria andar pela calçada, mas pelo leito da rua, agitando as mãos e esbarrando em alguns transeuntes.
Juan Pablo meteu-o num coche para levá-lo para casa. Informada do que acontecera, a tia apoiou a mesma ideia a respeito de Fortunata, dizendo-lhe:
— Filho, todos temos de morrer. Não se espante que a sorte tenha cabido a ela antes que a você. Se Deus quis levá-la, o que podemos fazer? Conformar-nos, mandar celebrar as missas correspondentes... e garanto que já mandei rezar mais de quatro, e nos consolar pouco a pouco, como pudermos.
Desde que aquilo ocorreu, a melhora iniciada com o novo tratamento pareceu desmentir-se. O doente não fazia desordens, mas tornou a mergulhar em profundíssimas abstrações. Sem dúvida, uma ideia nova aparecera em seu cérebro, ou alguma das antigas se reproduzira, embora já fosse considerada abandonada ou dispersa. Durante muitos dias não mencionou a mulher, até que certa noite, passeando pelas ruas com Juan Pablo, parou e disse:
— Quer me fazer acreditar que ela morreu?... Que bobagem! Nesse caso, por que não vestimos luto?
— Como está atrasado de notícias! Não sabe que agora existe uma lei proibindo o luto?
— Uma lei proibindo o luto! Pensa que vou engolir semelhante absurdo. Veja, rapaz, embora pareça transtornado, enxergo com mais clareza que todos vocês.
E não se falou mais no assunto.
Convém registrar, antes de prosseguir, que a abnegação de Juan Pablo e o interesse assíduo que demonstrava pela saúde do irmão seriam absolutamente inexplicáveis, dado o egoísmo do senhor Rubín, se não se recorresse, para encontrar a causa, a certas ideias relacionadas com a economia política ou com a ciência chamada financeira. Havia algum tempo, Juan Pablo alimentava um projeto de conversão de sua dívida flutuante, projeto vasto para cujo êxito necessitava do concurso da casa Rothschild, também conhecida como sua tia. Quanto à necessidade do empréstimo, não cabia a menor dúvida; era questão de vida ou morte. Restava conseguir que dona Lupe concordasse em fazê-lo, pois a garantia moral de uma das entidades contratantes estava longe de ser tão sólida quanto a da Inglaterra ou da França.
O primogênito de Rubín começou, portanto, por prestar à tia, naquele delicado assunto da doença de Maxi, a prestativa ajuda que se viu. Ia continuamente à casa e, em tudo o que discutia com ela, dava-lhe razão, quer se tratasse de Política, quer da Fazenda. Fez elogios entusiasmados ao senhor Torquemada; expôs calorosamente a necessidade de pôr os próprios negócios em ordem, com aquela história de ano novo, vida nova, estabelecendo em suas despesas uma organização tão escrupulosa que nem o primeiro lorde do Tesouro inglês faria mais. Quando encontrava ocasião, dava uma pequena alfinetada; mas dona Lupe tinha mais cascos que uma tartaruga e fazia-se de tola... mas tão tola que dava vontade de bater nela.
Pressionado pelo crescimento assustador de sua dívida flutuante, o filósofo empregava no cuidado de Maxi uma tenacidade e uma constância mais que fraternais. Em janeiro de 1876, conseguira domá-lo a ponto de levá-lo consigo ao escritório, mantê-lo ali ocupado em ordenar papéis ou fazer alguma anotação e, à noite, levá-lo às reuniões do café, onde o pobre rapaz ficava como se estivesse na missa, ouvindo atentamente o que se dizia sem abrir os lábios. Raramente tirava da cabeça aquele velho e maldito tema da libertação voluntária e da morte da besta carcereira; mas, certa noite em que estavam sozinhos no café, tornou a tirá-lo, como se traz do sótão um traste velho e se limpa a poeira para ver se o tempo o estragou ou os ratos o roeram.
Com grande serenidade, Juan Pablo, oficiando como mestre de filosofia, disse:
— Veja, o dogma da solidariedade da substância foi declarado fora de moda por todos os sábios da época, reunidos num concílio ecumênico que acaba de ser celebrado em... Basileia. As conclusões são tremendas. Como não lê os jornais, você não sabe. Pois foi decretado que são completos espantalhos todos os indivíduos que acreditam na libertação pelo desprendimento e em que se deve dar cabo da besta. Aos que sustentam a heresia filosófica de que virá um novo Messias, encarnando-se numa bela moça etc. etc., declara-se que são tolos de capirote, condenados a comer aparas de madeira.
— Olhe — disse Maximiliano com o tom mais grave do mundo e como quem faz uma confidência importante. — Essa história do Messias, aqui entre nós, nunca acreditei nela, nem era dogma nem coisa que o valesse. Disse aquilo porque tive um sonho e, ao acordar, parte dele ficou na minha cabeça, andando aqui dentro como um guizo. O que houve foi que, naqueles dias, entrou em mim uma ideia das mais extravagantes que se pode imaginar, uma ideia que devia ter sido criada aqui, no seio cerebral em que fermenta aquilo que chamam de ciúme. O que acha que era? Pois que minha mulher me traía e estava grávida. Está vendo que disparate?
— Ave Maria Puríssima, que barbaridade!
— Sentia dentro de mim, atrás daquela ideia, uma febre de ciúme que me abrasava. Para descobrir se aquela ideia malandra tinha fundamento, fui e o que fiz? Pois tirei da cartola aquela história do Messias que viria, dizendo-lhe que ela o carregava no ventre e que o papai era o Pensamento Puro... Enfim, com essa farsa eu pensava arrancar-lhe a confissão daquilo que se metera entre minhas sobrancelhas. O que aconteceu? Nada, porque naquela noite adoeci muito; mas depois compreendi meu desatino, vi com clareza, muita clareza, e... Deus a perdoe.
Começou a tomar o café, enquanto Juan Pablo dizia consigo, entristecido: «Como ele está mal esta noite! Deus, como está mal!» Maxi repetiu até seis vezes o Deus a perdoe e calou-se quando Leopoldo Montes e outro amigo entraram. Depois de uma hora e meia de reunião, começou a celebrar com extrema hilaridade as graças contadas por Montes. Em seguida, participou da conversa, exprimindo-se com tanta serenidade e com juízos tão acertados que todos os presentes se maravilhavam ao ouvi-lo. Juan Pablo raciocinava assim:
«Pois ele não está tão mal da cabeça quanto pensei, e o que disse antes revela antes uma inteligência agudíssima. Pela santíssima unha do diabo! Se eu conseguir curá-lo, minha querida tia, também conhecida como baronesa de Rothschild, não terá outro remédio senão abaixar a cabeça e me dar o que preciso.»
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.