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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 30 · Fortunata e Jacinta

Parte 4 — Capítulo V: A razão da desrazão

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Parte 4 — Capítulo V: A razão da desrazão

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A melhora de Maximiliano continuava, e disso a tia e o irmão concluíram que a separação conjugal fora um grande benefício, pois, sem dúvida, a presença e a companhia da mulher eram o que o tirava dos eixos. Durante todo aquele inverno, prosseguiu o tratamento das duchas circular e escocesa e do brometo de sódio. No princípio, quando Juan Pablo não o levava para passear, a própria tia o fazia, tendo ocasião de notar como seus juízos estavam bem ordenados. Observaram, contudo, que no cérebro do jovem se escondia um pensamento relativo ao paradeiro da esposa e temiam que esse pensamento, embora contido em pequenas proporções pelo renascimento harmônico da vida cerebral, ganhasse no primeiro dia força expansiva suficiente para tornar a desarranjar toda a máquina. Mas esses temores não se confirmaram. Em dezembro e janeiro, a melhora foi tão notória que dona Lupe estava espantada e contentíssima. Em fevereiro, já lhe permitiram sair sozinho, pois não se metia com ninguém e sua timidez e docilidade haviam se acentuado consideravelmente. Era como um retorno à idade em que cursou os primeiros anos da carreira, e até parecia que nele se renovavam as ideias daqueles dias distantes e, com elas, o acanhamento no trato, a sobriedade de palavras e a falta de iniciativa.

Sua vida era muito metódica; não lhe permitiam ler coisa alguma, nem ele tentava, e sempre que ia à rua dona Lupe fixava a hora em que devia voltar. Nem uma única vez deixou de entrar à hora determinada. Para que aqueles dias se parecessem ainda mais com os de outrora, o único prazer do jovem era andar pelas ruas sem rumo fixo, ao acaso, observando e pensando. Havia uma diferença entre a deambulação passada e a presente. Aquela era noturna e tinha algo de sonambulismo ou de ideação enfermiça; esta era diurna e, devido às boas condições do ambiente solar em que ocorria, resultava mais saudável e mais de acordo com a higiene cerebrospinal. Naquela, a mente trabalhava na ilusão, fabricando mundos vãos com a espuma desprendida pelas ideias bem batidas; nesta, trabalhava na razão, entretendo-se em exercícios de lógica, estabelecendo princípios e obtendo consequências com admirável facilidade. Enfim, no curso seguido pelo processo cerebral, sobreveio-lhe o furor da lógica, e assim se diz porque, quando pensava alguma coisa, empenhava-se de maneira verdadeiramente maníaca em que fosse pensada nos termos usuais da mais rigorosa dialética. Rechaçava da mente com tenaz repugnância tudo o que não fosse obra da razão e do cálculo, sem desmentir esse procedimento nem nas coisas mais insignificantes.

Não é preciso dizer que, pouco depois de sentir em si aquele tique do raciocínio, aplicou-o ao obscuro problema lógico da ausência da mulher.

«Que está viva não admite dúvida; esse é um princípio incontestável que nem sequer se discute. Agora esclareçamos se está em Madri ou fora de Madri. Se tivesse ido para outro lugar, minha tia receberia alguma carta dela. Ora, o carteiro de fora nunca vem a nossa casa, e, quando vem, traz alguma carta das irmãs de meu tio Jáuregui; logo... Mas proponhamos a hipótese de que ela dirige as cartas a outra pessoa para que eu não saiba. É inverossímil, mas proponhamos. Nesse caso, quem seria essa pessoa? Com todo o rigor da lógica, não pode ser dona Casta, porque a senhora de Samaniego não gosta de desempenhar semelhantes papéis. Com todo o rigor da lógica, tem de ser Torquemada. Mas Torquemada, anteontem, entrou no gabinete de minha tia e eu, do corredor, ouvi-o perguntar claramente se ela tivera notícias da senhorita... Logo, não é Torquemada. Logo, não sendo Torquemada, não há intermediário para as cartas; e não havendo intermediário, não pode haver correspondência; logo, ela está em Madri.»

Ficou muito satisfeito e, depois de parar algum tempo diante de uma vitrine de gravuras, retomou o fio:

«Poderia pôr-se em dúvida que haja comunicação entre ela e minha tia e, no caso de não haver, o problema de sua residência continuaria escuro como boca de lobo; mas sustento que há comunicação. Se não, o que significa o papelzinho de anotações que surpreendi outro dia sobre a cômoda de minha tia e no qual, passando os olhos descuidadamente, distingui esta linha: Correspondem a F. 1.252 reales? F. quer dizer ela. Logo, há comunicação entre minha tia e ela; e, como essa comunicação não é postal, resulta claro como a luz do dia que reside em Madri.»

Passava longos períodos naquele exercício da razão. Às vezes dizia consigo:

«Rejeitemos tudo o que é fantástico. Não admitamos nada que não se apoie na lógica. De que vive? Viverá honradamente? Não arrisquemos juízo temerário algum. Pode viver honradamente e pode viver mal. Eu chegarei a descobrir a verdade inteira sem perguntar uma palavra a ninguém. Pois todos se calam diante de mim, e eu me calo diante de todos. Vejo, ouço e penso. Assim saberei tudo o que desejo. Como é bela a verdade, ou melhor, estas bordas do manto da verdade que conseguimos enxergar na terra, pois o corpo do manto e o da própria verdade não são visíveis destes bairros!... Meu Deus, espanta-me como estou lúcido. As pessoas olham para mim com pena, como para um doente; mas eu me deleito interiormente com a saúde de meus juízos. Feliz aquele que pensa bem, pois ele está em grande estado.»

Entrou no café do Siglo, onde esperava encontrar o irmão; mas Leopoldo Montes contou-lhe que, tendo Villalonga aceitado a Diretoria de Beneficência e Saúde, encarregara Juan Pablo de um trabalho delicadíssimo e muito aborrecido: pôr em ordem umas contas de lazaretos; e mantinha-o no escritório de sol a sol. Ali lhe levavam o café. Não fazia mal a Juan Pablo que o diretor lhe confiasse trabalhos extraordinários, pois isso significava confiança, e depois da confiança viria uma promoção. Falaram de empregos e política, e Maximiliano disse coisas muito boas.

Refugio, amante de Juan Pablo, estava muito malvestida naquele inverno e não ia ao café do Siglo, mas ao de Gallo, porque ficava perto, já que o casal morava na Concepción Jerónima, e também porque a sociedade modesta que frequentava aquele estabelecimento permitia apresentar-se ali com roupas caseiras ou usando xale e lenço na cabeça. Juntavam-se a Refugio algumas pessoas com quem mantinha amizade fácil e adventícia, dessas contraídas pela vizinhança da casa ou da mesa do café. Eram um porteiro da Academia de la Historia com a esposa e um cobrador municipal das bancas do mercado com a sua, ou o que ela fosse. Esse casal costumava ir aos domingos acompanhado de toda a família, a saber: uma avó que fora vítima do 2 de Maio e sete menores.

O café compunha-se de duas alas separadas por grossa parede e comunicadas por um arco de alvenaria; mas, apesar daquela raridade de construção, que lhe dava alguma semelhança com uma loja maçônica, o local não tinha aspecto lúgubre. Na segunda sala, onde Refugio se instalava, havia sempre animação familiar e confiante e, como o espaço era muito reduzido, toda a freguesia acabava formando uma só roda de conversa. Nela imperava Refugio como num salão elegante em que fosse estrela da moda. Dava-se muitos ares, assumindo maneiras de senhora, fazendo alarde de se exprimir com agudeza e de dizer graças que os demais tinham a obrigação de achar divertidas. Punha-se sempre num ângulo que, pela disposição do local, tinha honras de presidência. Quando Maxi ia, a cunhada fazia-o sentar-se ao lado, mimava-o e lhe dava muita atenção, com sentimentos compassivos e de proteção familiar, permitindo-se também tratá-lo por você e dar-lhe conselhos de higiene. Ele se deixava querer e quase não participava da reunião, salvo pelos silogismos que fazia mentalmente sobre tudo o que ali se conversava.

Certa noite, o pobre rapaz tomava o café, muito calado, na mesma mesa de Refugio, quando reparou em dois homens sentados na mesa próxima, um dos quais não lhe era desconhecido. Pensando e pensando, finalmente acertou. Era Pepe Izquierdo, tio de sua mulher, que só vira uma vez, quando passeava com Fortunata pelas Rondas e ela os apresentara. Como em Gallo havia tanta confiança, logo os integrantes de uma mesa e da outra começaram a conversar. Primeiro falaram de política, depois de que a guerra terminaria à força de dinheiro; e, como a política e as guerras são as fibras com que se tece a História, falou-se da Revolução Francesa, época funesta em que, segundo o cobrador municipal, haviam sido guilhotinadas muitas almas.

Ouvir falar de História sem dar seu palpite era impossível para Izquierdo; pois, desde que se tornara modelo, sabia que Nabucodonosor fora um Rei que comia erva, que D. Jaime entrara em Valência a cavalo e que Hernán Cortés era um individo muito corajoso que se entretinha incendiando navios. Os disparates ditos por aquele homem a respeito do Pronunciamento da França fizeram todos rir muito, particularmente o porteiro da Academia de la Historia, que lançava ao grupo olhares desdenhosos, sem querer arriscar uma opinião, o que equivaleria a atirar pérolas aos porcos. Mas o companheiro de Platão, pessoa inteiramente desconhecida de Maxi, devia ser um dos indivíduos mais eruditos jamais vistos naquele estabelecimento e, quando começou a falar, conquistou a atenção do auditório. Tinha o rosto granuloso e o pescoço semelhante ao de um peru, com um pomo de adão muito grande, cabelos de escovilhão, e exprimia-se em termos muito diferentes da linguagem tagarela do amigo:

— Cortaram a cabeça do rei Luis XVI e da rainha dona María Antonieta, naturalmente, porque não queriam dar liberdade ao povo. Por isso houve, naturalmente, aquele grande pronunciamento, e mudaram tudo, até os nomes dos meses, meus senhores, e até aboliram a vara de medir e puseram o metro, e a religião também foi abolida, celebrando-se as missas, naturalmente, à deusa Razão.

Tamanha sabedoria impressionou Maxi, que logo começou a conversar com Ido del Sagrario, pois não era outro o douto amigo de Izquierdo, e ficaram comentando os acontecimentos trágicos de 93.

— Porque, veja o senhor, quando o povo se desmanda, os cidadãos ficam indefesos, e francamente, naturalmente, a liberdade é boa; mas viver vem primeiro. O que acontece? Todos pedem ordem. Por conseguinte, aparece o ditador, um homem que traz uma clava muito grande e, quando a clava começa a funcionar, todos a abençoam. Ou há lógica ou não há lógica. Veio, portanto, Napoleón Bonaparte e começou a pôr aquela gente nos eixos. E fez muito bem, e eu o aplaudo, sim senhor, eu o aplaudo.

— E eu também — disse Maxi com a maior boa-fé, observando que aquele homem raciocinava discretamente.

— Isso quer dizer que sou partidário da tirania?... — prosseguiu Ido. — Não, senhor. Gosto da liberdade, mas respeitando... respeitando Juan, Pedro e Diego... e que cada um pense como quiser, mas sem se desmandar, sem se desmandar, olhando sempre para a lei. Muitos pensam que ser liberal consiste em gritar, insultar os padres, não trabalhar, pedir abolições e dizer que morram as autoridades. Não, senhor. O que se deduz disso? Quando há liberdade mal compreendida e muitas abolições, os ricos se assustam, vão para o estrangeiro, e não se vê uma peseta em parte alguma. Sem o dinheiro circular, o mercado vai mal, não se vende nada, e o trabalhador que tanto gritava, dando vivas à Constituição, não tem o que comer. Em resumo, digo sempre: “Lógica, liberais”, e ninguém me tira daí.

«Este homem tem muito talento», pensava Rubín, apoiando com movimentos de cabeça a afirmação daquele indivíduo.

E, quando, ao se despedir, Ido lhe deu o nome e acrescentou que era professor primário nas escolas católicas, Maximiliano concluiu que a humildade do emprego não estava em harmonia com o saber e a destreza dialética demonstrados por aquele homem.

Na tarde do dia seguinte, Maxi foi ao Gallo e, das pessoas conhecidas, só estavam ali o cobrador municipal e José Izquierdo. Este deixara na cadeira ao lado um embrulho. O jovem olhou-o disfarçadamente e viu que era algo como roupa ou calçado, coberto por um lenço. O embrulho estava tão malfeito que, ao moverem a cadeira, apareceu uma bota elegante, de cano cor de café. Ao vê-la, Rubín sentiu como se uma gota fria lhe caísse no coração.

«Aquela bota é dela... ai, é dela!... Reconheço-a como reconheço as minhas. Ele não a leva para consertar porque está quase nova. Leva-a de modelo para fazerem outro par. Ela é muito vaidosa em questões de calçados. Gosta de ter sempre três ou quatro pares em bom estado. E por que não os leva ela mesma? Porque não sai. Logo, está doente... Doente de quê?»

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Platão despediu-se do amigo e apanhou o embrulho, dizendo que precisava ir à calle del Arenal.

«Exatamente», raciocinou Maxi, sem pronunciar uma palavra. «Lá fica o sapateiro dela. Arenal, 22... Aquilo que ainda me falta saber eu poderia descobrir seguindo esse bárbaro. Mas não... Com a lógica, e somente com a lógica, descobrirei. Para que quero esta grande lucidez que tenho agora? Com minha cabeça, governo-me sozinho.»

Depois, quando entraram Ido, Refugio e outras pessoas, mostrou-se muito comunicativo, discorrendo admiravelmente sobre tudo o que foi tratado: a insurreição de Cuba, o aumento do preço da carne, o que se deve fazer para escolher um número bonito na loteria, a frequência com que as pessoas se atiravam do Viaduto da calle de Segovia, o novo bonde que seria instalado e outras ninharias.

Num dos primeiros dias de março, quando se dirigia ao café, Maxi viu Izquierdo sob os pórticos da Casa de la Panadería e, justamente quando ia cumprimentá-lo, passou e parou o cobrador municipal. Este e José trocaram algumas palavras.

— Já vou ao café — disse o modelo, mostrando ao amigo vários pacotes, que ele olhava com curiosidade. — Subo para largar isto: varas de fita... sabão... diabos, tâmaras. Estou carregado como um santíssimo burro.

Maximiliano seguiu para o café e, observando que Platão tomava a direção da calle de Ciudad Rodrigo, consultou o relógio.

«Tâmaras!... Quantas comprei para ela! Os doces a perdem. Ela é louca por eles...», pensou o raciocinador, entrando no estabelecimento sem ver nada do que havia ali. «Come tâmaras... logo, não está doente; tâmaras são muito indigestas. E, já que as come, a causa de não sair não é doença... Logo, é outra coisa...»

E, ao ver Izquierdo entrar, tornou a olhar o relógio.

«Levou doze minutos. Logo, a casa fica perto... Doze minutos: ponhamos quatro para subir a escada, dois para descer... E o homem está cansado; a escada deve ser alta... A casa fica perto. Vamos descobri-la pela lógica. Nada de perguntas, pois não me diriam; nem de seguir este animal, porque isso não teria mérito. Cálculo, cálculo puro...»

Izquierdo e o cobrador municipal ofereceram-lhe umas doses, mas ele não quis aceitar porque o aguardente lhe repugnava. Ouviu-lhes a conversa sem aparentar fazê-lo, embora ela não contivesse nada de interessante para ele, pois tratou de saber se a Prefeitura suprimiria tantas e tantas mulas do setor de jardins e passeios para distribuir a cevada entre os vereadores. Depois, o arrecadador trouxe à baila não sei que assunto de família, queixando-se das contínuas doenças da esposa, e Izquierdo aproveitou para dizer algumas barbaridades sobre as vantagens de não ter família para sustentar.

Nóis, os viúvos, vivemos como queremos — disse, voltando-se para Maxi e dando-lhe uma palmada no ombro.

O pobre rapaz fingiu aprovar a ideia, sorrindo, e consigo deu algumas voltas na manivela da lógica:

«Encarregaram você de não revelar nada; disseram-lhe que tivesse cuidado com o que fala diante de mim, dromedário, e você, como todos, insiste em meter na minha cabeça a ideia de que sou viúvo. Não conta que minha cabeça é um prodígio de clareza e raciocínio. Veio ao lugar certo. Verá como destruo seus sofismas e mentiras. Verá o que pode o cálculo de um cérebro cheio de luz... Quer dizer que sou viúvo! O mesmo que minha tia, que ontem me disse: “Desde que enviuvou, você parece outro...” Convém-me fazê-los pensar que engoli tudo. Com minha lógica, arranjo-me admiravelmente e rio do mundo. Como é bonita a lógica, mas como é bonita! E que beleza ter a cabeça como tenho agora, livre de toda apreciação fantasmagórica, atenta aos fatos, apenas aos fatos, para fundar neles um raciocínio sólido!... Mas vamos para casa, pois minha tia me espera.»

Três dias depois, ao entrar na farmácia, percebeu que Ballester e Quevedo conversavam e que, ao vê-lo chegar, calaram-se subitamente. Como adquirira facilidade para avaliar os fatos, aquele se revelou claramente. Segismundo e o parteiro tratavam de algo que não queriam que Maximiliano ouvisse.

Para disfarçar, perguntaram-lhe pela saúde, e pouco depois Quevedo disse ao farmacêutico em tom muito misterioso:

— O senhor preparou a cravagem do centeio? Basta isso por enquanto.

— Então, passeamos muito, jovem? — acrescentou em voz alta, voltando para Maxi o rosto de jacaré, no qual o sorriso era como uma expressão de ferocidade. — Vamos bem, vamos bem. Finalmente o senhor poderá retornar às ocupações habituais. Eu bem dizia que, assim que ficasse livre... por aquela história de morto o cão, acaba-se a raiva.

Rubín respondeu afirmativamente e com amabilidade. Depois observou que Ballester tirava de uma gaveta um pequeno pacote de medicamento e o entregava ao senhor Quevedo, dizendo:

— Leve-o; eu mesmo o pulverizei com o maior cuidado. O antiespasmódico eu levarei.

O parteiro pegou o pacote e foi embora.

Pouco depois entrou dona Desdémona, perguntando pelo marido, e o jovem pôde observar que Ballester lhe fez sinais, chamando sua atenção para a presença de Maxi, pois a senhora começara dizendo:

— Ele foi outra vez à Cava?

Aquilo foi contornado, e dona Desdémona convidou-o a acompanhá-la para casa, o que ele fez de ótima vontade, levando-a pelo braço escada acima. Conversaram por longo tempo, e a senhora de Quevedo lhe mostrou as gaiolas de pássaros: canárias criando filhotes, um pintassilgo que tirava água do poço e comia extraindo o alpiste de uma caixa, além de outras curiosidades ornitológicas que enchiam a casa. Na hora do jantar, Quevedo entrou muito fatigado, dizendo:

— Ainda não há nada...

E, como viu ali o sobrinho de dona Lupe, não disse mais.

Quando Maximiliano se retirou, ia desenvolvendo na mente a mais prodigiosa cadeia de raciocínios que se vira naquelas cismas.

«Está vendo como se confirmou? Aquilo que fulminou em minha cabeça como um clarão sinistro do delírio agora clareia como luz zenital que ilumina todas as coisas. Ora, estou até virando poeta. Mas deixemos a poesia; a inspiração poética é um estado doentio. Lógica, lógica e nada além de lógica. Como é que aquilo descoberto hoje por procedimentos lógicos, fundados em dados e indícios reais, existiu antes em minha mente como os rastros deixados pelo sonho ou como as ideias extravagantes de um delírio alcoólico? Porque isto não é novo para mim. Eu o pensei, concebi-o envolto em impressões disparatadas e confundido com ideias inteiramente absurdas. Mistérios do cérebro, desordens da ideação! É que a inspiração poética sempre precede a verdade e, antes de a verdade aparecer, trazida pela lógica saudável, é revelada pela poesia, estado mórbido... Enfim, eu adivinhei e agora sei. O calor se transforma em força. A poesia se converte em razão. Como vejo tudo claramente agora! Ela vive na Cava, na Cava, talvez na mesma casa onde viveu antes. Esconde-se para que ninguém a veja. O acontecimento se aproxima. Quevedo a atende. Para ela são a cravagem do centeio e o antiespasmódico. Ah, como rio desses imbecis que pensam me enganar!... Enganar a mim, que estou agora mais lúcido que a própria lucidez! Meu Deus, que talento tenho! Que maneira de raciocinar!... Estou espantado comigo mesmo e sinto pena de minha tia, de Ballester, de todos os que representam diante de mim esta comédia! “Ainda não há nada”, foi o que Quevedo disse ao voltar da Cava. Suposição equivocada, falsos sintomas. Logo, a coisa está próxima. Estamos em março. Muito bem, só me falta descobrir a casa. Se eu me deixasse levar pela inspiração, afirmaria que é aquela mesma casa, a dos degraus de pedra. Mas não; procedamos com estrita lógica e não afirmemos nada que não esteja fundado num dado real.»

No dia seguinte, esteve com o irmão no café do Siglo e depois no de Gallo com Refugio. Era 19 de março, e os que se chamavam José pagavam bebida para toda a roda. Ido del Sagrario recusava as doses, e seu amigo Izquierdo, que bebia aguardente como se fosse água, zombava da sobriedade do professor de instrução primária, que assegurou ter comido pesado e não estar muito bem do estômago. Pouco a pouco, o bom Ido foi se afastando da massa de gente que formava a reunião, retirando-se de cadeira em cadeira, até Maxi vê-lo na mesa mais distante, ensimesmado, com os cotovelos sobre o mármore e a cabeça nas mãos. Foi até ele, movido por compaixão, e perguntou o que tinha.

— Meu amigo — disse Ido com voz cavernosa, mostrando o rosto descomposto —, está vendo como minha pálpebra direita treme? Pois é sinal de que estou ficando doente... mas o senhor não imagina como fico mal.

— Ora, D. José, isso não passa de apreensão — disse, tentando levá-lo para o grupo principal.

— Deixe-me... Riem de mim porque deliro muito... Fazia tempo que isto não me atacava, mas vejo que está vindo, vejo que está vindo... Já, já está entrando, e não posso evitar. Terei de me afastar para que não zombem de mim. Porque fico perdido... Fico como se bebesse muito aguardente, e o senhor vê que não provo... não provo, acredite, cavalheiro. O senhor é o único que não rirá de mim; compreende minha desgraça e sente pena.

— D. José... tire essas coisas da cabeça — disse o outro, oficiando como homem sensato e razoável.

— Ah!... então tire do campo de minha vida os fatos... — respondeu, tocando-lhe amigavelmente o braço. — Porque somos escravos das ações alheias, e as nossas não são a norma de nossa vida. Assim é o mundo. De nada adianta o senhor ser honrado se a maldade dos outros o obriga a cometer uma barbaridade.

— Isso está muito bem raciocinado.

— Oh, a desgraça torna sábios os tolos... Não, não somos donos de nossa vida. Estamos engrenados numa máquina e andamos conforme nos leva a roda ao lado. O homem que comete a loucura de se casar fica engrenado, engrenado, entende?, e deixa de ser dono de seu movimento.

— Entendo, sim...

— Então não me acuse se ouvir que cometi um crime — disse-lhe ao ouvido —, porque nós que temos a desgraça de ser maridos de uma adúltera... Nós que temos essa desgraça não podemos responder por aquele mandamento que diz: não matar. Acho que é o quinto.

— Sim, é o quinto — disse Maxi, sentindo uma corrente fria passar-lhe pela espinha.

— E aqui onde me vê... — disse Ido, recostando-se e sempre falando muito baixo —, hoje eu mato...

Embora dito em voz muito baixa, Izquierdo ouviu e, caindo na risada, lançou esta saraivada:

— Não é que este judeu Dio diz que hoje mata alguém!... Em que praça, camaradinha?

As gargalhadas faziam o café retumbar, e Rubín aproximou-se do grupo principal, dizendo com a maior serenidade do mundo, num tom de benevolência e compaixão:

— Senhores, não zombem deste pobre senhor, que não tem a cabeça boa. Um transtorno mental é o maior dos males, e não é cristão levar essas coisas na brincadeira. Deem-lhe um pouco de água com aguardente.

Ofereceram-lhe, mas Ido não quis beber. Enterrava a cabeça entre os braços cruzados sobre o mármore, e o dono do estabelecimento, olhando-o com ironia, dizia:

— Aqui ninguém dorme bebedeira. Vá dormir na rua.

Maxi tentou fazê-lo levantar a cabeça.

— D. José, seria bom o senhor tomar duchas e também umas pilulazinhas de brometo de sódio. Quer que eu as prepare? É o tratamento mais eficaz contra isso... Pergunte a mim, que durante uma temporada estive como o senhor... muitíssimo pior. Eu inventava religiões; queria que todo o gênero humano se matasse; esperava o Messias... Pois aqui me tem, saudável e em perfeito estado.

E, voltando-se para o grupo principal:

— Nada, é preciso deixá-lo. Isso passará. Pobrezinho, sinto muita pena.

De repente, D. José levantou-se e saiu disparado, entre o riso e a chacota de todo o grupo. Maxi quis ir atrás dele, mas Refugio puxou-lhe as abas do paletó e o fez sentar ao lado:

— Deixe-o, o que você tem com isso?

E surgiu um tumulto com a entrada de outros Pepes; o dono do café, que também tinha algo de José, distribuiu charutos e rum com marasquino. Alguns insistiram em que Maximiliano bebesse, mas nem ele queria, nem Refugio teria permitido, sempre atenta em cuidar de sua preciosa saúde. O excelente rapaz limitava-se a rir com a maior boa-fé de todas as graças ditas ali, até das mais grosseiras e vulgares, embora sem participar muito da alegria ruidosa daquela gente.

iii

Rubín jantou serenamente com a tia naquela noite, contando-lhe parte do que vira e ouvira no café. A grande senhora respondeu exprimindo o desejo de que ele não voltasse àquele estabelecimento, por ficar muito longe e porque ali sempre encontraria uma sociedade inculta e ordinária. O jovem pareceu concordar e garantiu que não tornaria. Depois foi com a tia à casa de Samaniego e, durante a reunião, permaneceu afastado dela, trabalhando e polindo sua ideia.

«É na casa dos degraus de pedra... Depois de fazer aquele brinde estúpido, Izquierdo falou em subir de quatro até a casa da irmã e descer rolando pelos degraus de pedra... Já sei, portanto, onde ela está. Agora é preciso agir com sigilo e decisão. Chegou a hora de castigar. A honra exige. Não sou assassino, sou juiz. Aquele desgraçado dizia: “Estamos engrenados na máquina, e a roda ao lado é que nos faz mover. Seus dentes empurram os meus, e eu ando.”»

— Por que suspira, filho? — perguntou a tia, observando-o cismado e suspirante.

Ele respondeu evasivamente, e pouco depois se retiraram, não sem que dona Desdémona convidasse o jovem a passar a manhã seguinte em sua casa. Mostrar-lhe-ia todos os pássaros e lhe daria almoço. Aceita a gentileza, Maxi apresentou-se na casa de Quevedo desde as nove, hora em que aquela senhora se encontrava na plenitude de suas funções, limpando gaiolas, examinando ninhos e ovos e mantendo conversas muito carinhosas com este ou aquele pássaro. A obesidade não a impedia de ser ágil e diligentíssima naquela tarefa. Usava um roupão cor de ocre vermelho e, como sua figura era quase esférica, não parecia uma pessoa caminhando, mas um enorme queijo bola rolando pelos quartos e corredores. Não tardou em associar o rapaz às operações, ensinando-lhe a distribuir alpiste para toda a família. Com alguns, dona Desdémona mantinha conversas maternais.

— O que está dizendo, pequenino da casa?... minha glória... Vamos ver, o menino está com muita fome?... Ai, que bico este filho abre para mim!

E os trinados ensurdeciam a casa. Com verdadeiro afinco, Maximiliano continuava a tornear na cabeça as ideias da noite anterior.

«Vou matá-la e depois me matarei, porque nesses casos é preciso pôr o processo nas mãos de Deus. A justiça humana não sabe julgá-lo.»

— Como esta pássara é má! — dizia dona Desdémona. — O senhor não imagina como é má. Já matou três maridos... e não liga para os filhos. Se não fosse o macho, que, apesar das aparências, é uma pessoa muito decente, os pobrezinhos morreriam de fome.

— É preciso perdoá-la — replicou Maxi com humor —, porque não sabe o que faz... E, se fôssemos condená-la, quem lhe atiraria a primeira pedra?

— Vamos agora aos periquitos, que já estão agitados.

«A lógica exige sua morte», pensava Rubín, pendurando cuidadosamente uma gaiola em que havia muitos ninhos. «Se continuasse viva, a lei da razão não se cumpriria.»

A renovação do alpiste e da água provocava naqueles infelizes e graciosos seres aprisionados uma alegria insensata; e, pondo-se todos a piar e cantar ao mesmo tempo, era impossível que as pessoas entre eles se entendessem. Dona Desdémona falava por gestos. Maxi parecia contente e teria recomeçado todas as operações por puro entretenimento. Quando chegou a hora do almoço, já estava com muito bom apetite, e o parteiro e a esposa foram muito amáveis com ele, dizendo que agradeceriam se viesse todos os dias, caso tivesse prazer nisso. Quevedo já não era ciumento e, desde que a esposa arredondara-se até fazer concorrência aos queijos da Flandres, o bom senhor curara-se de suas melancolias e não tornara a fazer o papel de Otelo. No entanto, não teria permitido a ninguém além do pobre Rubín entrar livremente na casa, porque, na verdade, não o considerava capaz de comprometer a honra de lar algum em que penetrasse.

Dona Lupe entrou muito contente, dizendo:

— Então, como se comportou o galã?

— Admiravelmente, senhora. É muito amável... — replicou dona Desdémona e, levando-a à parte, acrescentou: — Ele está bom e saudável... Se a senhora visse como está contente e tranquilo!... Nada, parece a pessoa mais ajuizada do mundo.

— Creio — disse a senhora de Jáuregui — que, se não está curado, falta pouco. E quanto àquilo?

— Quevedo voltou esta manhã. Ainda nada... Esperando a qualquer momento... Ela, com muito medo.

Conversaram mais um pouco, mas isso não vem ao caso. Dona Lupe levou o sobrinho ao Monte de Piedad e, como naquele dia as vendas eram de pouquíssimo interesse, voltaram cedo para casa, depois de comprar morangos e aspargos numa banca da calle de Atocha. À tarde, a senhora encarregou o sobrinho de fazer umas contas um tanto complicadas, e ele as resolveu com rapidez e exatidão, sem errar nem um cêntimo. Como a tia se maravilhasse com aquela precisão aritmética, o jovem caiu na risada e disse:

— Mas o que a senhora imaginou? Tenho a cabeça como nunca tive. Estou tão lúcido que me sobra lucidez para distribuir a muitos que passam por lúcidos.

Fazia muitíssimo tempo que dona Lupe não via o rapaz tão desperto, com tamanha paz de espírito e o ânimo tão disposto à alegria, todos sinais de reparação indubitável.

— Não duvido que esteja bem... É verdade que muitos gostariam... Fico infinitamente feliz de vê-lo assim e peço a Deus que o conserve.

— Acredite que continuarei igual. Reconheço em minha cabeça uma força que nunca tive. Raciocino admiravelmente e vou lhe provar agora mesmo. A senhora ficará espantada ao ver que, se vocês representaram uma boa comédia para mim, eu representei outra melhor para vocês. Os enganadores são os enganados.

Dona Lupe começou a se alarmar.

— Pois verá — continuou ele, à mesa em que fizera as contas e ainda com o papel nas mãos. — Minha família, Ballester e todas as pessoas que conheço fora de casa bordavam admiravelmente seus papéis; e eu, calado... fazendo-me de tolo, enquanto descobria a verdade apenas com a força do cálculo.

Dona Lupe ficou tão paralisada que não sabia o que dizer.

— E veja como provo que minha cabeça dá hoje uma vantagem enorme às mais bem organizadas, inclusive a sua. Sem dizer palavra a ninguém, sem perguntar a criatura viva alguma e fundando-me apenas em algum indício pescado aqui e ali, estabelecendo fatos e deduzindo consequências, descobri a verdade... tudo com a lógica pura, tia, com a lógica seca. Preste atenção e se espante.

A ilustre viúva estava, de fato, tão espantada quanto quem vê um boi voar.

— Pois, pela seguinte ordem, fui descobrindo estes fatos: Fortunata não morreu; está em Madri; mora perto da Plaza Mayor; mora na Cava de San Miguel, na casa dos degraus de pedra; está prestes a dar à luz há um mês; e D. Francisco de Quevedo a atende.

Dona Lupe não se atreveu a negar, tão esmagadoras eram as verdades manifestadas pelo sobrinho.

— Veja... Você não deve se ocupar disso... Admito que ela está viva, mas não sei onde. E, quanto à gravidez, é erro seu e dessa maldita lógica. Ora, que conclusão! Que o diabo carregue sua lógica.

— Se a senhora insiste, querida tia, em representar comédias, acreditarei que foi a senhora quem perdeu o juízo. Afirmo o que disse e tenho a evidência de que é verdade. Minha lógica não me engana nem pode enganar. Com franqueza: a senhora percebe em mim alguma coisa que remotamente se pareça com falta de juízo?

Dona Lupe não soube responder.

— Eu disse algum disparate?... A senhora se atreve a sustentar que disse? Pois tomemos um coche e vamos à Cava... Ah, a senhora não quer. Logo, eu disse a verdade, e quem agora falta com ela, sem dúvida com muito boa intenção, é minha senhora tia. Quem é o lúcido aqui e quem não é?

— Pois repito que essa história do estado interessante é bobagem — disse a viúva, cheia de confusão. — Alguém quis lhe pregar uma peça, aliás de muito mau gosto.

— Juro à senhora que não falei desse assunto com ninguém, absolutamente ninguém. O conhecimento adquirido é obra do cálculo puro. E agora, se alguém ainda duvida de que sou a lucidez ambulante, darei a todos sua última prova. Como? Não tornando a falar de semelhante assunto. Acabou. Sigamos a vida habitual... Aqui não aconteceu nada, tia; faça de conta que não conversamos. A senhora não disse que tinha outra conta para organizar? Traga; estou pronto, com uma cabeça que é aço para os números, pois estes são a pura essência da lógica.

E pôs-se a trabalhar nas operações aritméticas com tanta serenidade e um equilíbrio tão perfeito que dona Lupe saiu do aposento fazendo o sinal da cruz e dizendo que, se os quatro Evangelistas lhe houvessem contado o que acabara de ouvir, ela não acreditaria. Mas, embora aquilo que o sobrinho relatara fosse um prodígio de capacidade intelectual, a senhora não estava inteiramente tranquila a respeito do estado daquela cabeça. Entraram-lhe alarmes como as dos piores dias passados, e ficou de humor suscetível, sem conseguir decidir se aquilo da lógica era uma crise favorável ou se, ao contrário, traria novas complicações.

Juan Pablo não foi muito feliz ao escolher aquele dia para apresentar a dona Lupe a proposta de empréstimo, pois encontrou a capitalista entregue a todos os demônios. Era o homem de menos sorte que existia, porque nunca acertava o ponto da boa ocasião; grande pena, pois o discurso preparado para convencer a senhora era admirável, e uma rocha amoleceria ao ouvi-lo. A tia não o deixou passar do exórdio, negando-se absolutamente a contratar qualquer espécie de empréstimo, nem mesmo nas condições mais usurárias. Em resumo, Juan Pablo saiu da casa renegando da própria estrela, da tia e de todo o gênero humano, revolvendo na mente propósitos de vingança e projetos de suicídio, pois o infeliz estava como o náufrago que esperneia em meio às ondas e já não podia mais, já não podia mais. Afogava-se.

iv

Na noite daquele dia funesto, que julgou dever marcar com a pedra mais negra de seu triste caminho, Juan Pablo sustentou no café do Siglo as teorias mais dissolventes. Para grande espanto de D. Basilio Andrés de la Caña, que voltara à reunião, lançou-se contra a propriedade individual, levando aquele sujeito e outros semelhantes a acreditar que se empanturrara de leituras proudhonianas. Não vira um único livro, nem pela capa, e extraía toda a engenhosa argumentação da raiva que sentia contra dona Lupe, rancor satânico suficiente para inspirar epopeias.

Como o grande princípio da propriedade individual não tinha, naquela luta desigual, outro defensor senão D. Basilio, ficou maltratado. À última hora, a mesa de mármore em torno da qual os rostos dos combatentes formavam animado círculo estava cheia de cadáveres, misturados às colherinhas, aos copos que ainda guardavam borras de café e leite, à cinza dos charutos, aos jornais e aos pires de metal branco, nos quais a mão laboriosa de D. Basilio não deixara mais que pó de açúcar. Aqueles cadáveres, horrivelmente destroçados, eram a propriedade, todas as formas possíveis de propriedade, o Estado, a Igreja e quantas instituições derivam desses dois princípios: o Matrimônio, o Exército, o Crédito Público etc. Para admiração de todos, Juan Pablo lançou-se à defesa do amor livre, das relações absolutamente espontâneas entre os sexos, e colocou o poder familiar sobre a cabeça da mãe. Desfez o Papa, e a tiara ficou pisoteada debaixo da mesa junto aos pedaços de jornal, aos escarros e ao palito desfiado de D. Basilio, que, no fim, na confusão da derrota, lançara longe de si aquele marcador de seus argumentos. Também jazia no chão a coroa real, triturada pelas solas das botas, e o cetro de toda autoridade sofria o mesmo destino. As ponteiras das bengalas, golpeando furiosamente o assoalho sujo, rematavam as vítimas que caíam expirantes da mesa. Parecia que Juan Pablo as esmagava com os cotovelos depois de crivá-las com a dialética e, quando pegava um lápis e traçava números com mão febril sobre o mármore para provar que não devia haver orçamento, parecia um Fouquier-Tinville assinando sentenças de morte e mandando carne à guilhotina.

E que menos poderia fazer o desgraçado Rubín senão descarregar contra a ordem social e os poderes históricos a horrível angústia que lhe enchia a alma? Estava perdido, e a cruel negativa da tia o pusera no caso de escolher entre a desonra e o suicídio. Antes de ir ao café, tivera uma discussão violenta com Refugio porque ela pretendia que fosse com ela ao Gallo, e o desgosto com a amante, a quem tinha carinho, revolveu-lhe ainda mais a bílis. Os amigos não conseguiam contê-lo; estava furioso; pouco faltava para que insultasse os que o contradiziam, e seu talento paradoxal se excitava até um grau de inspiração que o fazia parecer propagandista da seita dos tremedores. Quem melhor lhe respondia, por incrível que pareça, era Maxi, que ficou no café mais tempo que de costume, retido pelo interesse da polêmica. O jovem Rubín defendia os princípios fundamentais de toda sociedade com ardor e serena convicção que espantavam quantos o ouviam. Não se alterava como o outro; argumentava friamente, e seus nervos, absolutamente pacíficos, deixavam a razão desenvolver-se com liberdade e folga.

A sorte de Rubín mais velho foi que o mais novo partiu às dez, pois dona Lupe lhe prescrevera que não chegasse tarde em casa, e por nada no mundo ele desobedeceria àquela pragmática. Retornara à docilidade dos tempos que poderiam ser chamados de antediluvianos, ou anteriores à catástrofe de seu casamento. Deixando que o irmão se arranjasse como pudesse com os demais tratadistas de direito público, abandonou o café com a intenção de ir direto para casa. Atravessou a Plaza Mayor, da calle de Felipe III à de la Sal, e naquele ângulo não pôde deixar de parar por algum tempo, olhando para as fachadas do lado ocidental do quadrilátero. Mas aquela suspensão de seu movimento logo foi vencida pela ânsia de lógica que o dominava, e ele disse consigo:

«Não; vou para casa, e já bateram as dez... Logo, não devo me deter.»

Seguiu pela calle de Postas e Vicario Viejo e, antes de desembocar na subida para Santa Cruz, viu Aurora passar, saindo da loja de Samaniego para ir para casa. «Como vai tarde hoje!», pensou, seguindo atrás dela pela rua acima, em direção à plazuela de Santa Cruz, não para segui-la, mas porque ela caminhava diante dele sem vê-lo. A viúva de Fenelón andava depressa, sem olhar para lado algum, e levava na mão um pacote, talvez algum trabalho para fazer em casa no dia seguinte, que era domingo, e Domingo de Ramos, ainda por cima.

Como ela caminhava mais rápido, a distância que os separava logo aumentou. Em vez de continuar pela calle de Atocha para tomar a de Cañizares, como parecia natural, pois esse era o itinerário usado por Maxi, a jovem entrou no escuro beco del Salvador. Na sombra do Ministério de Ultramar, um homem esperava por ela e a deteve por um instante; apertaram as mãos e seguiram juntos.

«Ora, ora», disse Maxi consigo, à espreita. «Temos namoro?»

Ao vê-los avançar pelo beco, uma ideia, ou antes suspeita, acendeu nele vivíssima curiosidade. Seguindo-os a certa distância, logo se certificou daquilo que antes fora presunção, e a certeza produziu em sua alma violentíssimo abalo.

«É ele, aquele infame... Ele a espera; vão juntos... e tomam o caminho mais solitário... Logo, são amantes... Enganar uma pobre mulher... um homem casado!...»

O rancor de outros tempos determinou-se nele com poderosa força, aquele rancor concentrado e sutil que era como um vírus venenoso, ora manifesto, ora latente, e que, ao se derramar por todo o seu ser, produzia tantos e tão diferentes fenômenos cerebrais. Ao mesmo tempo, transbordava na alma do desgraçado jovem um sentimento quixotesco da justiça, não tal como a estimam as leis e os homens, mas como se oferece a nosso espírito, diretamente emanada da essência divina.

«A sociedade tolera e até aplaude isto... Logo, é uma sociedade sem vergonha. E que defesa existe contra isso? Nas leis, nenhuma. Ai, meu Deus, se eu tivesse aqui um revólver, agora mesmo, agora mesmo, sem hesitar um instante, daria nele um tiro pelas costas e lhe partiria o coração! Não merece ser morto pela frente. Traidor, miserável, ladrão de honras! E essa tola que se deixa enganar!... Mas ela não merece a morte, e sim as galés, sim senhor, as galés...»

No dia seguinte ao lastimável incidente ocorrido perto de Cuatro Caminos, Maxi não estava mais excitado nem mais rancoroso do que naquela noite. No tempo transcorrido desde a noite funesta de novembro, vira o ofensor apenas raríssimas vezes, sempre de longe; nunca o tivera assim, tão ao alcance...

«Ai, por que não trago um revólver?... Agora mesmo o deixaria estendido. Se passasse por uma loja de armas, compraria um... Mas não tenho dinheiro. Minha tia só me dá os dois reales para o café. Deus, que desespero! Se me infunde a ideia da justiça, ideia lógica, perfeitamente lógica, por que não me dá os meios de torná-la efetiva?... Vê-lo expirar, revolvendo-se no próprio sangue; não sentir pena alguma... Que eu não veja isso, Deus!... Que o mundo inteiro não veja... porque o mundo inteiro se alegraria!...»

Depois de percorrer a calle de Barrionuevo e a Plaza del Progreso, o casal tomou a calle de San Pedro Mártir, procurando o caminho menos frequentado.

«Vão entrar pela calle de la Cabeza», disse Maxi. «Por ali não passa alma viva a esta hora. Ah, patife, ladrão de honras, assassino... A justiça cairá sobre você algum dia; se não hoje, amanhã. O que lamento é que não seja por minha mão.»

Seguia-os sem perdê-los de vista, a boa distância...

«As contusões que recebi naquela noite doem como se acabasse de recebê-las... Devasso, covarde, que se enfurece contra os fracos de corpo, contra os doentes que não conseguem se sustentar... A você se responde com uma bala... plaf! E deixa-se você estendido... E eu ficaria tão tranquilo se pudesse lhe dar o que merece... mas tão tranquilo e satisfeito como fica aquele que praticou um bem muito grande, muito grande...»

Ao chegar à calle del Ave María, Rubín passou para a calçada dos números ímpares e ficou à espreita na esquina da calle de San Simón, na sombra. Pararam: Aurora parecia dizer ao galã que não a acompanhasse mais. Era uma indicação prudente, e ele se despediu apertando-lhe a mão. Maxi o viu subir em direção à calle de la Magdalena e sentiu vontade de gritar e se lançar sobre ele:

«Ladrão de minha honra e de todas as honras... agora vai pagar tudo de uma vez.»

Parecia-lhe que as unhas se afiavam, transformando-se em garras de tigre. Por um triz, Maxi não saltou sobre a presa. A lógica o salvou.

«Sou muito mais fraco, e ele me destroçará... Um revólver, um rifle é do que preciso.»

Quando os amantes desapareceram de vista, Rubín entrou em casa. O mais singular foi que a ideia de sua mulher se apagou de sua mente durante aquele acontecimento, ou talvez ele personificasse em Aurora a totalidade das deslealdades e traições femininas. Sozinho no quarto, foi assaltado por uma dúvida horrível.

«Mas isto que agora não me deixa dormir», dizia consigo, revolvendo-se na cama, «é verdade ou sonhei? Sei que entrei, sei que caí na cama, sei que dormi e agora me encontro com esta impressão pavorosa no cérebro. É verdade que os vi, o infame e ela, ou sonhei? Que tive um torpor breve e profundo é indubitável... Pois já começo a acreditar que foi sonho... Sim, foi sonho... Aurora é honrada. Vejam só as coisas que uma pessoa sonha... Mas não, Deus, eu vi, ainda estou vendo e tenho as duas figuras estampadas aqui!... Isto é para ficar louco... e seria uma pena, agora que estou tão lúcido!...»

Durante todo o dia seguinte, teve a mesma confusão na mente. Vira ou sonhara? Na Quarta-Feira Santa, a tia mandou-o levar um recado à casa de Samaniego e, depois de ficar ali por longo tempo ouvindo tocar a peça, percebeu que dona Casta falava muito animadamente com Aurora.

— Ora, filha, hoje você nos deixou muito mal. Três horas esperando!... Por que precisa ir hoje à oficina se hoje não se trabalha?... O mesmo que no Domingo de Ramos... A tarde inteira na oficina, e depois Pepe vem e me diz que você nem apareceu por lá e que aquele não é o caminho. Onde esteve? Na casa das Reoyos! E o que fazia durante tantas horas na casa das Reoyos? Eu tenho de descobrir...

Aurora defendia-se com engenho e obstinação, como quem sabe ser maior de idade e poder, quando quiser, mandar às favas a autoridade materna; mas não chegou a fazê-lo. Maxi, fingindo pôr todos os cinco sentidos na peça tocada por Olimpia, não perdia uma sílaba daquela discussão doméstica. Felizmente, a questão ocorreu quando a moça tinha entre os dedos o andante cantabile molto espressivo; se coincidisse com o allegro agitato, nem Deus apanharia uma palavra do que mãe e filha disseram. Durante o presto con fuoco, Maxi dizia consigo:

«Parece mentira que eu tenha duvidado por um instante de que aquilo era a pura realidade... E acreditei ser sonho!... que imbecil!... Um dado tomado da existência positiva eliminou todas as dúvidas. Agora a lógica não me basta; preciso ver algo mais... e verei. Que lição para minha mulher! Oh, meu Deus, agora outra dúvida horrível me assalta. Se eu a matar, não há lição. O ensinamento é mais cristão que a morte, talvez mais cruel e certamente mais lógico... Que ela viva para sofrer e, sofrendo, aprender... Mas devo matá-lo... a ele, sim!»

Ao ouvir o fim estrondoso da peça, teve uma espécie de torpor de meio minuto e voltou dele assaltado por esta ideia que o sacudia:

«Não, matar não. A maldade dele é necessária para esse grande castigo exemplar. A vida é o que dói e o que ensina... A morte para os bons... para os perversos, lógica, lógica.»

Mal terminara a música, dona Casta entrou para lhe dizer:

— Maxi, a senhora Quevedo me chamou pela janela do pátio para pedir que o mande subir por um momento. Precisa mandar um recado a Lupe.

O pobre rapaz subiu, e dona Desdémona o fez esperar um pouco, pois ajudava o marido a se despir. Ele acabava de entrar, muito fatigado; haviam-no chamado ao meio-dia e até aquela hora não pudera voltar para casa.

— Meu querido — disse a dama esférica a Rubín, tocando-lhe amigavelmente o ombro —, faça o favor de dizer a Lupe que a pássara má pôs um filhote no mundo esta manhã... um pintinho lindíssimo... com toda a felicidade...

Maxi coçou uma orelha e, trazendo da alma aos lábios um sorriso estranho cujo significado a senhora Quevedo não conseguiu compreender, disse com voz de criança mimada:

— A pássara má... mostre-a para mim... e o filhote... mostre-o também.

— Não, não, agora não — replicou dona Desdémona, empurrando-o para a porta. — Amanhã os verá... Vá agora contar isso à sua tia.

v

O interesse com que dona Lupe esperava notícias da ave agourenta e de
se o pinto vingara bem ou mal não poderá ser compreendido sem se levarem
em conta as grandes ideias que naqueles dias começavam a despontar na
cachola da insigne senhora. Seu excelso entendimento sugeria-lhe
resoluções para todos os casos e meios de harmonizar os fatos com os
princípios, na medida do possível. Tinha por lema que devemos partir
sempre da realidade das coisas e sacrificar o melhor ao bom, e o bom ao
possível. Aprendera isso na experiência dos negócios, que se aplica com
êxito aos assuntos morais, do mesmo modo que o exercício da matemática
e a agilidade mental que ela proporciona facilitam o estudo da
filosofia.

Pois, pensando na sobrinha, chegou a estabelecer certas bases que
discutiu consigo mesma, dando-as por fim como indestrutíveis, a saber:
que aquilo não tinha remédio, que a desonra era inevitável, embora não
recaísse sobre dona Lupe, pois era sabido por todos que ela jamais
estimulara nem favorecera os desvarios de Fortunata. Até os cães da rua
sabiam disso. Por conseguinte, a senhora bem podia ficar tranquila
quanto a esse particular. Segundo ponto: Fortunata seria tão má quanto
se quisesse supor; mas pertencera à família, e a pessoa mais importante
desta não podia deixar de lançar um olhar à jovem transviada para se
inteirar de seus passos e procurar impedir que ela lançasse ignomínias
ainda maiores sobre o ilustre sobrenome Rubín. Apresentava-se um grave
problema, cuja solução não estava ao alcance das inteligências vulgares.
Aquele pequenino que ia apresentar-se ao mundo era, pela lei da
natureza, sucessor dos Santa Cruz, único herdeiro direto de uma família
poderosa e abastada. É verdade que, pela lei escrita, o tal bebê era um
Rubín; mas a força do sangue e as circunstâncias haviam de sobrepor-se
às ficções da lei; e, se o senhorito de Santa Cruz não se apressasse a
proceder como pai de fato, procurando um meio de transmitir a seu
herdeiro parte do opulento bem-estar de que desfrutava, seria preciso
dar-lhe o título de monstro.

“Oh! Se me tivesse acontecido o que acontece a essa paspalhona”, dizia
consigo, “como é que o outro não me haveria de fixar uma pensão de
alimentos?

Tenho um belo gênio para essas coisas... Ah! Pois se ela me desse
ouvidos e se deixasse conduzir... Agora mesmo, eu lhe garanto que
ninguém lhe tiraria seus dois ou três mil duros de pensão... A primeira
coisa que eu faria seria plantar-me em casa de dona Bárbara e dizer-lhe
umas boas verdades... E farei isso, farei, ainda que aquela simplória
não me autorize. Não consigo evitar: a iniciativa me alvoroça o espírito
inteiro, e eu rebento se não lhe der vazão... E dá-me pena o que vai
nascer, porque é uma dor que viva pobre, vindo de quem vem. Pois amanhã
ou depois (suponhamos que seja menino), quando crescer e for preciso
livrá-lo do serviço militar, que fará aquela infeliz? Não, isto não
pode ficar assim... pobre criaturinha! É preciso fazer alguma coisa, e
veja-se como uma pessoa se torna caridosa quando menos espera... Não,
eu é que não me calo; vou ver dona Bárbara e, com esta lábia que tenho e
o jeito com que ponho os pingos nos is, hei de fazê-la compreender o
absurdo de seu neto estar em situação pior que a de um enjeitado...
porque de que vai viver? As ações do Banco serão comidas por mãe e
filho em dois anos, e com os juros dos trinta mil reales não terão nem
para a sopa. Quanto ao dinheiro de Maxi, não verão um vintém; por isso
respondo, porque seria o cúmulo da afronta e da estupidez... Nada, nada;
eu faço o maior escândalo, caso esse senhorito não lhe fixe a pensão no
prazo de um mês. E como faço... Visto meu casaco de veludo, minha
capota, minhas luvas e vamos!... Agora me ocorre que devo começar por
dar uma investida em minha amiga Guillermina, que compreenderá a
justiça do caso... Sim, magnífica ideia! Guillermina falará com a outra
e... Agora, agora há de compreender aquela tresloucada a diferença que
existe entre agir por conta própria e ter-me por conselheira e
diretora. Apostamos que ela, se o outro não lhe der um vintém, ficará
com sua santa pachorra, sem se atrever a nada, engolindo fel e morrendo
de fome? Mas eu, quando faço o bem, faço-o contra ventos e marés e
enfio-o pelas ventas das pessoas teimosas e inúteis que não sabem fazer
nada por si mesmas.”

Essas ideias, que fermentaram no cérebro daquela grande diplomata e
ministra durante todo o mês de março, determinaram os recadinhos que
mandou a Fortunata por intermédio de Ballester, bem como o encargo dado
a Quevedo de assisti-la quando chegasse a ocasião, não hesitando em
dizer ao feio e hábil professor de obstetrícia que seus honorários não
ficariam sem pagamento. Maxi desconcertou-a um pouco no dia em que se
mostrou conhecedor do segredo, pois a senhora, para fazer todos aqueles
projetos benéficos em favor do rebento de Santa Cruz, _partia do
princípio_ de que o sobrinho ignorava absolutamente a verdade. Alegrava-se
muitíssimo ao vê-lo tão sereno; mas tirava-a do sério pensar que ele se
tornasse razoável a ponto de compadecer-se da mulher e destinar-lhe
alguma pequena renda para que ela não pedisse esmolas nem se
prostituísse. Não: o outro, aquele que quebrara as vidraças, é que tinha
de pagá-las.

Nesse ponto estavam suas cogitações quando Maxi lhe trouxe a notícia
que lhe dera dona Desdêmona. A primeira coisa em que dona Lupe fixou
sua inteligente atenção foi o rosto do jovem ao transmitir o recado, e
ficou pasma com a impassibilidade dele, apesar de demonstrar que
penetrava o sentido exato da alegoria empregada pela senhora de
Quevedo. Depois de repetir textualmente o recado, acrescentou:

— Foi esta manhã. Dom Francisco acabava de chegar e estava indo deitar-se.

Dona Lupe não se refazia do espanto. “Ora essa, ele recebe tudo com
calma. Melhor assim. E isto é juízo ou o quê? Deve ser o que chamam de
filosofia... Deus nos tenha pela mão, se depois lhe der pela filosofia
contrária.”

— A senhora pensa em ir vê-la? — perguntou-lhe depois o rapaz, com a
maior naturalidade.

— Eu?... Mas que coisas você diz... Vejo que é inútil representar
comédias diante de você. Com esse talento enorme que anda revelando,
nada lhe escapa... Eu, vê-la! Só por curiosidade quis saber o que sei...
Daqui em diante, é como se ela não existisse. Você não pensa o mesmo?

— Exatamente o mesmo... Veja como estou frio e sereno.

— Assim é que eu gosto. Isto se chama ser filósofo em toda a extensão
da palavra e elevar-se acima das misérias humanas — disse a viúva, com
emoção verdadeira ou fingida. — Não volte sequer a lembrar-se da santa
do nome dela...

— E ainda que eu me lembrasse, tia, ainda que me lembrasse...

— Para quê?... Você não há de vê-la.

— E ainda que eu a visse, tia, ainda que eu a visse...

Dona Lupe inquietou-se um pouco ao ouvir essa frase, dita com certo tom
de tenacidade maníaca. Maximiliano, porém, apressou-se a tranquilizá-la
com outro argumento:

— Mas a senhora não percebe como estou ajuizado? Nunca me vi assim,
nem nos meus melhores tempos... Quem dera a todos...

A senhora aproveitou a deixa dessas últimas palavras para mudar de
conversa:

— Você tem razão. Sabe que seu irmão Juan Pablo me parece não estar
bem da cabeça? Hoje veio outra vez dar-me enxaqueca... Pois diz que ou
lhe faço o empréstimo ou ele dá um tiro em si mesmo. Como se fosse se
matar! É o egoísmo em pessoa. É preciso ter atrevimento. Pedir-me
dinheiro um homem de quem, quando deve, não há meio de arrancar um real,
e que se zanga quando alguém reclama o que é seu! Diz que vão fazê-lo
secretário de um governo de província e sei lá mais o quê... Você
acredita? O nível dos funcionários caiu muito; mas não tanto...

Naquele segundo ataque desesperado que Juan Pablo lançou contra a tia,
o pobre homem saiu da casa mais morto que vivo. A tia já não era
simplesmente uma mulher má; era um monstro, uma fúria, um dragão
mitológico. Aquele tiro com que ele ameaçava a si próprio, quanto melhor
seria empregá-lo nela! “Mas esse tiro, dou ou não dou em mim?... Não
tenho outro remédio senão dá-lo”, arrazoava, entrando pela rua de la
Magdalena. “Não vejo solução em parte alguma. Sim, quanto ao tiro, eu o
darei; e como darei... O pior é que não tenho revólver... Estou
começando a achar que, afinal de contas, não darei tiro nenhum em mim.
Uma pessoa é tão indolente que não toma uma decisão... Já vou vendo que
uma coisa é dizer de boa-fé que vai se matar, e outra coisa é fazê-lo...
Mas, enfim, mantenho-me em meus treze e, no fim, terei de dar o tiro;
não haverá outro remédio.”

vi

Passou a Quinta e a Sexta-feira Santas com um humor dos diabos. No
sábado, pouco depois de entrar na repartição, Villalonga chamou-o a seu
gabinete. Rubín dirigiu-se para lá palpitante de emoção. “Meu Deus!”,
dizia consigo; “será para me dar a secretaria? Que influência, se não
for para isso, que influência; já não aguento mais! Assim que sair do
gabinete do chefe, estouro os miolos, tão certo como Deus existe. O
inconveniente é que não tenho revólver... Atirarei-me da sacada... Não,
isso não; ficaria feito uma omelete!... Vamos, meu coraçãozinho anuncia
uma secretaria... Coragem, rapaz, que hoje a sorte vai sorrir para
você.”

O diretor era homem muito expedito e, sem convidá-lo a sentar-se,
disse-lhe:

— Meu amigo Rubín, o senhor é esperto e me convém...

Rubín viu o rosto do diretor como o do Padre Eterno que os pintores
colocam entre nuvens esmaltadas de anjinhos.

— O senhor me convém, e eu vou encaminhá-lo na carreira.

— Muito obrigado, senhor dom Jacinto. Já sabe que estou às suas ordens.

— Pois vou lhe dar uma grande surpresa. Preciso de um homem; e, como
entendo que o senhor saberá sair-se bem no delicadíssimo cargo que penso
em lhe dar...

— A secretaria de...

— Não, meu amigo; é mais. Quando encontro uma pessoa que me agrada e
que tem serventia, digo apanho, e fico com ela para que me sirva.
Juro-lhe que o senhor me convém, camarada. Lá vai a bomba. O senhor
vai ser governador de uma província de terceira classe.

Rubín não conseguiu dizer nada. Pensou que o teto do gabinete e todo o
Ministério da Governança lhe caíam em cima.

— Pois sim, governador de minha província. Quero ver como o senhor
põe aquilo em ordem. Não terá de se entender com ninguém além de mim. O
ministro me dá carta branca.

— Senhor diretor — balbuciou Rubín —, disponha de mim.

— Pois o senhor será incluído na lista que amanhã vai à assinatura do
rei. Depois conversaremos, e eu lhe contarei como estão as coisas por
lá. Creio que nos sairemos bem.

Depois fumaram um charuto e falaram um pouco sobre a situação da
província, tocando o assunto pela rama. Começou a entrar gente no
gabinete, e Rubín retirou-se para iniciar os preparativos. O homem não
sabia o que lhe acontecia; julgava estar sonhando... beliscava-se para
ver se estava acordado, andou por algum tempo pelas ruas como um
insensato... ria sozinho... deu-lhe vontade de comprar um revólver para
disparar tiros para o alto... Ah! O que devia fazer era meter duas
balas no corpo de dona Lupe... sim, por má, por avarenta... Mas não,
não; perdoar a todos... A vida é bela, e governar um pedaço do país é o
maior dos deleites. Aos agentes da Ordem Pública ou da Guarda Civil que
encontrava, já os olhava como subordinados, e por pouco não lhes
mandava prender a tia e Torquemada.

No café, naquela noite, deu-se a grande cena.

A princípio não disse nada, esperando lançar de chofre a surpresa; mas
os amigos perceberam que não era o mesmo homem. Dava às palavras uma
entoação de autoridade, media-as muito, tomava o café com mais vagar que
de costume e, a todo momento, soltava uma frasezinha protetora.

— Mas, meu amigo Montes, não há por que se afligir... veremos, veremos
se podemos encaixá-lo em algum lugar... Dom Basilio tem de me dar uns
dados de que preciso sobre a arrecadação da província de X... Escute,
Relimpio, não tenha pressa em apresentar o relatório, porque esta
a situação vai durar. Cánovas ainda tem muito tempo pela frente. É homem
que sabe orientar a nau.

E, como se levantasse um dos mais graves debates políticos, Rubín tomou
o partido dos que defendiam a tese mais razoável, conciliadora e
moderada.

— Mas os senhores pensam o quê? Que uma sociedade pode viver sempre
sonhando com convulsões? Sejamos práticos, senhores, sejamos práticos,
e não confundamos os bandos de politiqueiros com o verdadeiro país.

Nisso chegou La Correspondencia, e, às primeiras olhadelas conspícuas
que o bom dom Basilio lançou sobre suas colunas, deu com a lista de
governadores e, soltando um berro de surpresa, esfregou os olhos,
julgando ter lido mal. Mas, convencido de que não era engano, soltou
outra exclamação ainda mais forte; todos ficaram sabendo no mesmo
instante, e Juan Pablo foi alvo de aclamações e felicitações, umas
sinceras, outras com seu tanto de inveja bem dissimulada.

— Há tempos o amigo Villalonga insistia nisso. Hoje apertou tanto que
eu não pude lhe dizer que não.

— Mas como guardou segredo!

De todos os lados da câmara... quero dizer, do café, veio gente
felicitar o governador; e o garçom, a quem Juan Pablo devia cinco meses
de consumo e mais alguns quebrados, ficou mais contente do que se lhe
tivesse saído a loteria. Até o dono do estabelecimento foi apertar a
mão do freguês, perguntando-lhe se poderia arranjar um posto nas
repartições da província para um sobrinho seu, que tinha muito boa
caligrafia.

— Não lhe digo que sim nem que não, dom José. Veremos. Tenho uma
infinidade de compromissos... Mas o senhor sabe que farei o impossível
para servi-lo... O senhor é quem manda.

O homem compensou, com os prazeres daquela noite, os sofrimentos e as
tristezas de tantos meses. Toda a gente que estava por perto olhava-o
com certa expressão de assombro e respeito, como se olha para quem é,
foi ou será alguma coisa no mundo. Em todos os assuntos tratados
naquela noite no círculo, Rubín fez gala das ideias mais sensatas. Era
preciso moralizar a administração provincial, banir os abusos; sobretudo
na extirpação dos abusos insistiu muito. Seu plano de conduta era
político em alto grau... contemporizar, contemporizar enquanto fosse
possível, esgotar até o fim o espírito conciliador; e, quando estivesse
coberto de razão, erguer o cacete e quebrar o espinhaço de quem quer que
saísse da linha... Muito respeito pelas instituições em que repousa a
ordem social. Quando o corruptor materialismo se vai alastrando, é
preciso estimular a fé e dar apoio às consciências honradas. Quanto à
sua província, que se cuidassem os revolucionários profissionais que
fossem lá pregar certas ideias. Ele tinha um belo gênio... Enfim, o
povo espanhol era mal-educado, e cumpria impedir que quatro patifes
enganassem os inocentes... A maioria era boa; mas havia muitos tolos,
muitos ingênuos, e o governo devia zelar pelos tolos para que não fossem
enganados... Quanto à moralidade administrativa, nem havia o que dizer.
Ele não tolerava nem toleraria certas coisas. Já dissera a Villalonga
que aceitava sob a condição de que não lhe pusesse obstáculos à
perseguição e ao extermínio dos patifes...

— Muitos dos que agora mandam e desmandam hei de levar de braço dado
até a cadeia do distrito... Eu sou assim; é pegar ou largar.

Dom Basilio era dos que sinceramente se alegravam com o golpe de sorte
que Juan Pablo tivera. Aquele cargo não era de seu ramo e, portanto,
não lhe causava inveja. Se se tratasse da direção econômica de uma
província, dom Basilio teria sentido tristeza pelo bem alheio. Mas que
ninguém o tirasse de seus números... Por falar nisso, o ministro lhe
encarregara um trabalho que o trazia atribulado... _projeto de
regulamento para a cobrança do subsídio industrial_... “Sempre me caem
estas prendas. Acontece na secretaria que ninguém conhece os
antecedentes desta ou daquela questão... ‘Ah! O Cana deve saber.’ Pedem
no Congresso uma nota sobre o estado em que se acha a codificação da
Fazenda. Que embrulhada! Ninguém sabe uma palavra... ‘Ah!... vejamos...
o Cana.’ E o Cana os tira do aperto. O ministro quer inteirar-se dos
trabalhos realizados para o estabelecimento do Registro Fiscal, que é
o grande meio de descobrir a riqueza oculta... Pois a casa inteira fica
em alvoroço; procura aqui, procura ali. Até que alguém se lembra de
dizer... ‘Isso, o Cana...’; e de fato, pois foi o Cana quem fez os
primeiros estudos do Registro Fiscal.” Em suma: se, por desgraça, dom
Basilio viesse a faltar no Ministério da Fazenda, este desabaria de uma
vez, como edifício a que faltasse o alicerce.

Leopoldo Montes aspirava a que Rubín o levasse como secretário; mas isso
não era fácil.

— Rapaz, falarei com Villalonga. Creio que vão me dar o secretário já
escolhido... Veremos se consigo encaixá-lo como inspetor de polícia.

Outros frequentadores da roda sentiam inveja e, embora felicitassem e
adulassem o favorecido, faziam ao mesmo tempo prognósticos sobre as
dificuldades que ele haveria de enfrentar no governo de sua ínsula. O
certo, porém, é que a lisonja e a inveja, a cobiça ambiciosa, a
curiosidade e o gosto pelas novidades aumentaram consideravelmente o
número dos frequentadores da tertúlia no intervalo entre a nomeação e a
partida de Rubín para seu destino. Teve muito que fazer naqueles dias
para pôr os assuntos em ordem e prover-se de roupas. Não deixaram também
de molestá-lo e embaraçá-lo certas dissensões domésticas, pois Refugio,
que já se dava ares de governadora e se despedira das amigas oferecendo
proteção a todo o gênero humano, ficou gelada quando seu senhor lhe
disse que não poderia levá-la... Beiços, choros, invectivas, queixas,
gritos...

— Mas, filha de minha alma, compreenda as coisas; não seja assim. Não
percebe que não posso apresentar-me em minha capital de província com
uma mulher que não é minha mulher? Que diria a alta sociedade, e também
a pequena sociedade, e a burguesia!... Eu me desmoralizaria, menina, e
não poderíamos continuar lá. Isso não pode ser. Seria bonito se um
governador, cuja missão é zelar pela moral pública, desse semelhante
exemplo! O encarregado de fazer respeitar todas as leis, infringindo as
mais elementares!... Bela situação teria a sociedade, se o
representante do Estado pregasse na prática o concubinato! Como se
vivêssemos entre selvagens... Convença-se de que não pode ser. Você
fica aqui, e eu lhe mandarei o que for precisando... Mas lá não ponha
os pés... porque, se o fizer, seu queridinho se verá na obrigação de
agarrá-la... você sabe que tenho muito caráter... de agarrá-la e
mandá-la de volta para cá, de posto em posto, escoltada pela Guarda
Civil.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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