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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 26 · Fortunata e Jacinta

Parte 4 — Capítulo I: Na rua del Ave-María

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Parte 4 — Capítulo I: Na rua del Ave-María

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Segismundo Ballester, o licenciado em Farmácia que estava à frente da farmácia de Samaniego, tinha frequentes altercações com Maxi por causa dos erros crassos em que este incorria. Chegou ao ponto de proibi-lo de preparar sozinho qualquer medicamento delicado.

— Ora essa, homem, se o senhor começa a confundir os alcoolatos com as tinturas alcoólicas, podemos fechar as portas. Este frasco é o álcool de cocleária, e este outro, a tintura de acônito... Veja a receita e preste muita atenção... Se continuarmos assim, o melhor seria Dona Casta fechar o estabelecimento.

E, exprimindo-se desse modo, com ares e asperezas de mestre-escola, Ballester tirou das mãos do subordinado aquilo que ele segurava.

— Mas que diabos o senhor pôs aqui? — disse depois, irritado, levando a mistura ao nariz. — Ou isto é valeriana, ou já não sei de nada. Quando digo...! Hoje o senhor está muito mal. É melhor retirar-se para casa. Eu me arranjo melhor sozinho. Cuide-se; leve um derivativo... Olhe, olhe, leve também um preparado de ferro. Engula o derivativo em jejum... Depois, em cada refeição, mande para dentro uma pílula de ferro reduzido por hidrogênio, com extrato de absinto... à noite, ao deitar, mande outra... Com este calor, convém não abusar muito do ferro, sabe?, e, sobretudo, passeie e não leia tanto.

Dispensado por seu regente da obrigação de trabalhar, Rubin foi ao laboratório e, tirando debaixo da cadeira um livrão, pôs-se a ler. Profundíssima tristeza se revelava em seu rosto magro e granuloso. Caía na leitura como numa cisterna; tão abstraído estava e tão afastado de tudo o que não fosse o turbilhão de letras em que nadavam seus olhos e, com eles, seu espírito. Assumia posturas estranhas e inacreditáveis. Às vezes, as pernas cruzadas subiam por uma prateleira próxima até muito acima de onde estava a cabeça; às vezes, uma delas se metia dentro da estante baixa, entre dois garrafões de drogas. Nas dobras do corpo, os joelhos encostavam por vezes no peito, e uma das mãos servia de travesseiro para a nuca. Ora se apoiava na mesa sobre o cotovelo esquerdo, ora a axila direita montava sobre o encosto da cadeira, como se esta fosse uma muleta, ora, enfim, as pernas se estendiam sobre a mesa como se fossem braços. A cadeira, sustentada nas pernas traseiras, anunciava com estalos lastimosos a intenção de desfazer-se; e, enquanto isso, o livro mudava de posição com aqueles extravagantes escorços do corpo do leitor. Ora aparecia por cima, sustentado por uma só mão, ora agarrado pelas duas, abaixo de onde estavam os joelhos; às vezes era visto aberto, com as folhas ao vento como se quisesse voar, às vezes dobrado violentamente, correndo o risco de desmanchar-se. O que nunca variava nem diminuía era a atenção do leitor, sempre intensa e fixa através de todos os abalos da matéria muscular, como o princípio que sobrevive às revoluções.

Ballester ia e vinha, trabalhando sem cessar, e cantarolava entre dentes estribilhos de zarzuelas populares. Era um homem simpático, não muito limpo, de barba inculta, nariz muito grosso, figura negligente, terminada em cima por uma cabeleira de matagal, que devia ter muito pouco trato com os pentes, e embaixo por largas e muito usadas pantufas de veludo cotelê, que arrastava sobre os tijolos da saleta dos fundos e do laboratório.

— Mas, alma de Deus, já que o senhor não trabalha... ao menos atenda às pequenas encomendas — disse, parando diante de Rubin. — Veja, aquela mulher espera há um quarto de hora... Dez cêntimos de emplastro diaquilão. Está naquela gaveta. Vamos, mexa-se.

Rubin saía para a loja e atendia.

— Onde estão os frascos de Emulsão Scott?

— Olhe, olhe; estão quase na sua mão. Digo-lhe que é preciso cuidar dessa cabeça... Outra vez lendo! Muito bem; o senhor ainda se lembrará de mim... ler, ler, e que um raio parta o aparelho cerebroespinal... Tarari, tarari...

Continuava cantando, e o outro, plum!, tornava a mergulhar na leitura.

— E o que lê?... Vamos ver — disse Ballester, olhando o livro. — A pluralidade dos mundos habitados... Muito bem... Como se eu algum dia fosse me ocupar de saber se há pessoas em Júpiter! Quando digo que o senhor, amigo Rubin, vai acabar mal. Aqui entre nós: o que lhe importa haver ou não gente em Marte? Vão dar-lhe alguma coisa pela descoberta? Tarari... tarari. Admito de graça — acrescentou depois, pondo-se a socar no almofariz —, admito de graça que haja família nas estrelas; mais ainda, declaro que há. Muito bem, e daí? A consequência é que estariam tão lascados quanto nós.

Rubin não respondia. A certa hora deixou o livro, metendo-o num canto da estante, que fedia a fênico, entre dois potes daquele líquido; depois esfregou os olhos e esticou os braços e todo o corpo, levando pelo menos cinco minutos naquele espreguiçar que ativava a circulação de seu pouco sangue. Pegou o chapéu-coco pendurado num cabide e saiu. Não tinha de andar muito pela rua para chegar a casa. Entrou com a cabeça baixa e as sobrancelhas franzidas. A tia disse-lhe que Fortunata ainda não chegara e que esperariam por ela para comer. Maxi ocupou seu lugar à mesa, Dona Lupe recolheu-lhe o chapéu e, voltando pouco depois, sentou-se no sofá de palha; ambos esperaram algum tempo em silêncio.

— Veja só como hoje demora mais do que nunca — observou Dona Lupe; e, notando no rosto do sobrinho sinais de inquietação, apressou-se a iniciar conversa mais agradável.

— Passei o dia inteiro pensando no que conversamos ontem. Ah, se fosses outro, se tivesses ambição, logo seríamos todos ricos. O farmacêutico que não ganha dinheiro nestes tempos é porque tem vocação de pobre. Sabes bastante e, com um pouco de astúcia, outro pouco de farsa e muito anúncio, muito anúncio, negócio feito. Acredita, eu te ajudaria.

— Não pense, tia, eu também pensei nisso. Ontem ocorreu-me uma aplicação do ferro dializado a uma infinidade de medicamentos... Creio que encontraria uma fórmula nova.

— Essas coisas, filho, ou se fazem em grande ou não se fazem. Se inventares alguma coisa, que seja uma panaceia, algo que cure tudo, absolutamente tudo, e que se possa vender em líquido, pílulas, pastilhas, cápsulas, xarope, emplastro e cigarros inaladores. Mas, homem, entre tantas drogas como vocês têm, não há três ou quatro que, bem combinadas, sirvam para todos os doentes? É uma pena que, tendo a fortuna tão à mão, não a apanhem. Olha o doutor Perpiñá, da rua de Cañizares. Fez um capital enorme com aquele xarope... não me lembro bem do nome; é algo como latro-faccioso...

— O lactofosfato de cálcio aperfeiçoado — disse Maxi. — Quanto às panaceias, a moral farmacêutica não as admite.

— Que tolo!... E o que a moral tem a ver com isso? Como digo, não sairás da pobreza em toda a tua vida... Igualzinho ao pateta do Ballester: outro dia também me veio com essa cantiga. A experiência não lhes diz nada? Vejam: o pobre Samaniego não deixou capital à família porque tocava a mesma tecla. Em seu tempo, quase não se vendiam específicos em sua farmácia. Casta bufava com isso. Ela também deseja que tu e Ballester inventem alguma coisa, deem nome à casa e encham bem a gaveta do dinheiro... Mas que belo par de sonsos tem no estabelecimento...

Falando sem parar, Dona Lupe olhava para o relógio da sala de jantar, mas não exprimia a impaciência com palavras. Por fim, a campainha soou fracamente. Era Fortunata, que, quando chegava tarde, chamava com timidez e cautela, como se quisesse que até a campainha comentasse o mínimo possível seu regresso tardio ao lar. Papitos correu para abrir, e Dona Lupe foi à cozinha. Maxi falou com a mulher num tom que revelava o prazer de vê-la e queixou-se suavemente de ela não ter entrado antes. Fortunata tinha os olhos acesos, como se houvesse chorado, e não era difícil perceber que dissimulava uma grande dor. Mas Rubin não notava quanto a mulher estava de cabeça baixa e suspirando naquela noite. Havia algum tempo a faculdade de observação se eclipsava nele; vivia de si mesmo, e todas as suas ideias e sentimentos procediam da elaboração interior. O impulso objetivo era quase nulo, resultando disso uma existência inteiramente sonhadora.

De Dona Lupe, sim, nada escapava, e ela ia tomando nota de tudo. À mesa falou-se do tempo, do grande calor que se instalara, impróprio da estação, porque julho ainda não começara, embora faltassem poucos dias; dos trens de ida e volta e da grande quantidade de gente que partia para as províncias do norte. Com certa timidez, Fortunata arriscou dizer que o marido devia deixar as pílulas e decidir-se a ir a San Sebastián tomar banhos de mar. Mostrando-se muito apático, o pobre rapaz disse que dava no mesmo tomá-los em Madri com as algas marinhas do Cantábrico, ao que a mulher respondeu com energia:

— Essa história das algas é conversa, e, ainda que não fosse, o que mais importa é tomar as brisas.

Espetando o garfo no prato para apanhar os grãos-de-bico um a um, a senhora de Jáuregui dizia consigo o seguinte:

“Estou vendo aonde queres chegar... bela peça. Sei muito bem quais são as brisas que queres. Depois de te sacudires aqui, queres te sacudir lá, porque o amigo vai embora... Sim, sei por Casta. Os senhores da pracinha de Pontejos partem amanhã. Mas eu te garanto, sua velhaca, que essa não vais conseguir... San Sebastián, nada menos! Podes esperar... Eu te darei brisas...”

Veio depois Dona Casta com Olimpia propor-lhes um passeio pelo Prado. Rubin hesitava, mas a mulher recusou-se resolutamente a sair. Dona Lupe foi com as amigas, e Fortunata e Maxi ficaram sozinhos até meia-noite na sala escura, com as varandas abertas por causa do calor que reinava, falando de coisas inteiramente afastadas da realidade. Ele propunha os temas mais extravagantes, por exemplo:

— Qual de nós dois morrerá primeiro? Porque estou muito delicado; mas, com esses achaques, talvez ainda tenha pano para muitos anos. Os temperamentos delicados são os que vivem mais, e os robustos estão mais sujeitos a estourar.

Ela fazia esforços para sustentar conversa tão soporífera e desagradável. Outra proposição de Maxi:

— Olha uma coisa: se eu não fosse casado contigo, consagrar-me-ia inteiramente à vida religiosa. Não sabes como ela me seduz, como me chama... Abstrair-se, renunciar a tudo, anular por completo a vida exterior e viver apenas para dentro... este é o único bem positivo; o resto é dar voltas a uma nora da qual nunca sai uma gota de água.

Fortunata dizia sim a tudo e, aparentando ocupar-se daquilo, pensava no que lhe interessava, embalando-se na doce escuridão e na atmosfera morna da sala. Pelas varandas entrava muito enfraquecida a luz dos lampiões da rua. Essa luz reproduzia no teto do aposento o foco dos candelabros, com as sombras de sua armação, e aquela imagem fantástica, tremendo sobre a superfície branca do forro, atraía os olhos da triste jovem, que estava estendida numa poltrona com a cabeça lançada para trás. Maxi voltou a martelar:

— Não fosse por ti, eu não me importaria de morrer. Mais ainda, a ideia da morte é agradável à minha alma. A morte é a esperança de realizar em outra parte o que aqui não passou de tentativa. Se nos garantissem que nunca morreríamos, a gente logo se transformaria em besta, não te parece?

— E que dúvida há? — respondia a outra maquinalmente, deixando sua ideia esvoaçar pelo teto.

— Penso muito nisso, e me entregaria desde já à vida interior, se não fosse porque estamos atados a um carro de afetos que temos de puxar.

“Ai, meu Deus, o que me espera amanhã!”, pensou a esposa. Estava provado: sempre que à noite o marido se entregava muito à sonolência espiritual, no dia seguinte vinha-lhe a desconfiança furibunda e a mania de que todos conspiravam contra ele.

Pouco depois, Maxi disse que queria deitar-se. Fortunata acendeu a luz, e ele foi para o quarto arrastando os pés como um velho. Enquanto a mulher o despia, o pobre rapaz surpreendeu-a com estas palavras, que lhe pareceram inspiração infernal de um cérebro entregue aos demônios:

— Veremos se esta noite sonho a mesma coisa que sonhei ontem. Não te contei? Escuta. Sonhei que estava no laboratório e me entretinha distribuindo brometo de potássio em papelotes de um grama... a olho. Estava aflito e lembrava-me de ti. Fiz pelo menos cem papelotes e depois senti dentro de mim uma sede muito estranha, sede espiritual que não se aplaca em fontes de água. Fui até o frasco de cloridrato de morfina e bebi tudo. Caí no chão e, naquele torpor... Imagina... naquele torpor apareceu-me um anjo e disse: “José, não tenhas ciúmes, porque, se tua mulher está grávida, é por obra do Pensamento puro...” Vês que disparates? É porque ontem à tarde agarrei a Bíblia e li aquela passagem de...

Maxi esticou-se na cama e, fechando os olhos, caiu imediatamente num sono profundo, como se tivesse bebido todo o láudano da farmácia.

ii

Fortunata não se deitou na cama porque fazia muito calor. Lançou-se meio vestida no sofá e, de madrugada, depois de dormir alguns períodos, percebeu que o marido estava acordado. Ouvia-o suspirar e grunhir como uma pessoa sufocada pela cólera. Sentiu-o apalpar a mesa de cabeceira, procurando a caixa de fósforos. Esta caiu no chão, e Fortunata viu no chão a claridade lívida que os fósforos desprendem na escuridão. A mão de Maxi desceu procurando a caixa e por fim conseguiu apanhá-la. Fortunata viu subir o resplendor azulado, como fumaça difusa. Esse fenômeno desapareceu com o estalo do fósforo e a súbita luz que iluminou o aposento. Os olhos do jovem espalharam-se ansiosos pelo quarto e, vendo a mulher deitada, ele disse:

— Ah!... estás aí... Como representas bem o papel!

Para evitar discussões em hora tão imprópria, a esposa fingiu dormir. Mas, entreabrindo os olhos, viu-o acender a vela. Maxi vestiu as roupas necessárias para não se levantar nu e desceu cautelosamente da cama. Pegando a vela, saiu para o corredor. Fortunata percebeu-o examinando o ferrolho da porta, revistando o quarto onde ela guardava as roupas e depois a sala de jantar e a cozinha. Maxi já fizera tantas vezes a mesma coisa que a mulher se acostumara àquela extravagância. Era que o assaltava a maldita ideia de que alguém entrava ou queria entrar na casa com intenções de roubar-lhe a honra.

Quando Maxi voltou ao quarto, o dia já começava a despontar.

— Se não te apanho hoje, apanho amanhã — resmungava. — Não há nada; mas ouvi passos, ouvi cochichos; tu saíste daqui... Tornaste a entrar e estás aí fingindo dormir para me enganar... Espera... Estou de olhos bem abertos e, ainda que pareça não ver nada, vejo tudo... Vieste bater em boa porta... Não há dúvida de que um homem andava pelos corredores. Não adianta jurar que não havia ninguém. Então não tenho ouvidos?... Estou tolo?

Dizia aquilo sentado à beira da cama, a vela na mão, olhando para a mulher, que continuava fingindo dormir na esperança de que ele se acalmasse. Mas isso não era fácil e, uma vez desencadeada a mania insana, havia tormento para algum tempo. Terminando de vestir-se, começou a dar passadas largas pelo aposento, agitando as mãos e falando sozinho.

— Não, não, não... Se pensam que me enganam, estão enganados. O mais horrível é que minha tia é cúmplice... Pois entraria alguém na casa se ela não consentisse? E Papitos também é cúmplice. Deve ganhar boas gorjetas. Mas eu ainda te acerto, pequena alcoviteira. Não venham com tolices. Ontem notei muito bem marcadas no capacho da entrada as solas de umas botas de pessoa fina. Dizem que era o aguadeiro... Que aguadeiro nem que nada!... E anteontem havia neste mesmo quarto a impressão, sim, a impressão de uma pessoa que estivera aqui. Não consigo explicar; era como marcas deixadas no ar, como um cheiro, como o molde de um corpo no ambiente. Não me engano; alguém entrou aqui. Belo, belo papel estou fazendo. Meu Deus! De que adianta pôr a honra acima de todas as coisas? Vem um qualquer, pisa nela e a enche de imundície. E não basta vigiar, vigiar, vigiar. Não durmo nada e, no entanto... Mas é preciso vigiar ainda mais e não perder de vista nem por um instante minha mulher, minha tia, Papitos... Esta maldita Papitos é quem abre a porta, e eu vou arrebentá-la.

Fortunata julgou por fim conveniente fingir que despertava. O curioso era que, naquela crise, o desventurado jovem não passava das extravagâncias de linguagem às violências de ato; tudo eram queixas acerbíssimas, afã angustioso pela honra e ameaças de que faria isto e aquilo.

— Que disparates estás dizendo aí? — disse-lhe a mulher. — Por que não te deitas? Já que não dormes, deixa-me dormir.

— Parece-te que, depois do que fizeste, é possível dormir? Que consciências, valha-me Deus, que consciências estas!... Agora vais negar... Quem andava pelos corredores? Claro, o gato. O pobre bichano paga todas as culpas. E tu, por que saíste? Para brincar com o gato, não é?, justo. E eu tenho de engolir isso! O que me deixa atônito é minha tia consentir nisso, minha tia que tanto me ama. Tu, já sei que não me amas; mas minha tia...! Ora... E aquela víbora de Papitos, com cara de macaca... Que humanidade, meu Deus! O homem honrado não tem defesa contra tantos inimigos; a traição o cerca; a deslealdade o espreita. Aqueles em quem mais confia o vendem. Onde menos espera, no seio da família, salta um Judas. Na terra não há nem pode haver honra. Apenas no Céu, porque Deus é o único que não nos engana, o único que não põe uma máscara de amor para nos dar uma punhalada.

Fortunata vestiu-se às pressas. Sabia por experiência que, quanto mais o contradizia, pior era. Ficou algum tempo sentada no sofá, ouvindo-o dizer disparates e esperando que a manhã avançasse um pouco para avisar Dona Lupe. Antes de ir lavar-se, passou pelo quarto da tia, que já estava se vestindo, e disse-lhe:

— Hoje está atroz... pobrezinho!... Veja se a senhora consegue acalmá-lo.

— Vou, vou até lá... Vejo que sem mim vocês não conseguem governar-se. Se eu faltasse... nem quero pensar. Olha, põe Papitos de pé e manda-a acender o fogo... Faremos chocolate imediatamente, porque é a fraqueza que o deixa assim, e é preciso pôr lastro naquele pobre corpo. Toma as chaves, tira daquele chocolate que Ballester nos deu, chocolate com ferro dializado... Que rapaz, veja só por onde lhe dá...! Vou já.

Quando a tia entrou com o chocolate, Maxi continuava tão desvairado quanto antes.

— O que me espanta, tia, o que não consigo explicar — disse, cravando nela os olhos faiscantes —, é a senhora consentir nisso, encobrir e querer matar-me, porque fique sabendo: para mim, a honra vem antes da vida.

— Filho de minha alma — respondeu Dona Lupe, pondo o chocolate sobre a mesa —, depois falaremos disso... Eu te explicarei o que há, e tu te convencerás de que tudo é imaginação tua. Toma primeiro o chocolate, porque estás muito fraco...

O jovem deixou-se cair no sofá, inclinando-se para a mesa próxima, onde estava o desjejum, e, pegando um biscoito, molhou-o no líquido espesso. Antes de prová-lo, sua língua voltou ao mesmo assunto, embora em tom mais tranquilo.

— Não sei como a senhora pretende me convencer, quando tenho ouvidos, tenho olhos, e diante da evidência não valem...

Fez um gesto de repugnância e horror ao provar o biscoito molhado.

— Tia... Fortunata!... O que é isto? O que estão me dando?... Este chocolate tem arsênico.

— Filho, por Maria Santíssima! — exclamou Dona Lupe, consternada, no momento em que a sobrinha entrava.

— Mas as senhoras pensam que podem esconder de mim o gosto do arsênico?... — disse ele, inteiramente transtornado, os olhos extraviados. — E não são tolas; põem uma dose pequena... um centigrama, para irem me matando devagar... Aposto que foi Ballester quem lhes deu o ácido arsenioso... porque ele também está contra mim... Que inferno é este, meu Deus?...

— Ora, isto não se pode suportar. Dizer que envenenamos seu chocolate...!

— Gosto de arsênico!... Exato... mas tão exato...!

Levantou-se em atitude desesperada e voltou à agitação delirante de suas caminhadas...

— Terei de me deixar morrer de fome... É horrível... Minha casa cheia de inimigos. As pessoas que antes mais me amavam agora desejam minha morte.

— Então é arsênico...! — disse Fortunata, levando aquilo na brincadeira, na esperança de conseguir assim melhor efeito. — Para veres que és um simplório e um tolo, vou tomar eu mesma o chocolate.

E imediatamente começou a bebê-lo. O marido olhava-a atônito.

— Vejamos se estico de uma vez... Pode até ter veneno, mas está bem gostoso... Agora te convences?... Eu tomaria outra xícara. Não penses que me faria mal se isto matasse, porque assim eu partiria logo deste mundo, que não tem graça nenhuma, com as dores de cabeça que me dás e o tanto que nos fazes sofrer.

Dona Lupe, enquanto isso, trouxe o fogareiro econômico para preparar diante de Maxi outro chocolate. Ainda assim, foi necessário sustentar uma luta penosa para que ele se decidisse a prová-lo, pois insistia em que aquele também tinha gosto de arsênico...

— Embora não tanto, admito que não é tanto.

Depois, adotando um tom conciliador, disse-lhes:

— Acho que tudo isso é coisa de Papitos... porque as senhoras não sabem quanto ela é má e que rancor tem de mim.

— Ora, é de te bater — respondeu Dona Lupe. — Implicar assim com a pobre Papitos!... Olha, quando te vierem essas manias, põe em mim toda a culpa. Eu sei me defender e provar minha inocência. E agora, por que vocês dois não vão dar um passeio pelo Retiro? Até as nove não faz calor; a manhã está deliciosa.

Fortunata apoiou a proposta, mas ele não tinha vontade de sair. Continuava no sofá, com o cotovelo apoiado na mesinha e a cabeça na mão, olhando para o chão como se quisesse contar os juncos da esteirinha que havia junto ao sofá. As duas mulheres se entreolharam, comunicando pelos olhos suas más impressões.

— É isso — murmurou ele, sombrio e desconfiado. — Querem me pôr na rua, para...

— Mas, alma de Deus, ela vai contigo...

— E aonde ela quer me levar? Deus sabe... Alguma armadilha que querem me preparar. Se fosse apenas para me assassinar, vá lá; mas se é para atentar contra o santuário de minha honra...!

— Seja tudo por Deus.

— A senhora não sabe, tia, que há três meses...? A Correspondencia publicou... uma mulher levou o marido ao Retiro e, quando iam por um passeio solitário, apareceu o cúmplice... sim, o cúmplice, que estava escondido atrás de umas moitas, e ela e aquele patife agarraram o pobre marido, amarraram-no de pés e mãos e o atiraram no lago...

— Jesus, que barbaridade! De onde tiraste esses desatinos?

— A Correspondencia não publicou coisa alguma disso — disse Fortunata.

— Ora, tu deves ter sonhado.

— Eu não sonhei! — gritou ele, levantando-se como movido por uma mola. — É verdade; li na Correspondencia... e... Também me chamam de mentiroso! Eu não digo senão a verdade. As mentirosas são as senhoras... as senhoras, com essas consciências carregadas de crimes...

Dona Lupe cruzava as mãos e olhava para o Céu, invocando a justiça divina. Fortunata exprimia grande abatimento, como se sua paciência já chegasse ao ponto em que devia esgotar-se.

— Olha — disse a viúva —, vai para a farmácia, põe-te a trabalhar, e com a distração tua cabeça se desanuviará.

A senhora de Jáuregui sabia por experiência que, nos ataques fortes do sobrinho, Ballester era a única pessoa capaz de fazê-lo entrar em razão, empregando diante dele ora a zombaria descarada, ora uma autoridade seca e até cruel. As pessoas da família, a quem ele amava, eram as menos aptas a dominá-lo, pois contra elas se descarregava sua desconfiança furibunda.

— Está bem, descerei — disse Maxi, pegando o chapéu. — Tenho de ajustar contas com o senhor Ballester. De mim ele não ri mais... E, em último caso, que me diga na cara. Aposto que não se atreve. É um covarde e um traidor, que, fingindo amizade, fere pelas costas.

Tia e esposa não lhe disseram nada e foram atrás dele. Tirando do cabide do vestíbulo a bengala que usava, saiu batendo a porta com força. Desceu rapidamente e ficou algum tempo falando com a porteira. Da varanda, as duas senhoras o viram sair à rua, atravessar para a calçada em frente, olhar para a casa... Elas então se esconderam e, espiando com cautela por entre as grades, viram-no prosseguir, gesticulando e fazendo rodopios com a bengala. A todo instante parava e voltava para trás. Dava alguns passos e outra vez subia a rua. Numa dessas voltas, Ballester saiu à porta da farmácia e chamou-o com gesto imperativo:

— Aqui, depressa... Bonito, hein!... Venha para cá.

Numa atitude semelhante à de um cão que, diante do bastão do dono, abaixa as orelhas e arrasta a cauda pelo chão, Rubin entrou na farmácia, dizendo ao regente:

— Bom dia, amigo Ballester. Eu não o tinha visto. Ia tomar um pouco de ar. E o senhor, como vai?

iii

— Eu, bem... Então ia tomar ar... — respondeu Segismundo, com cara de péssimo humor. — O ar que o senhor vai tomar agora é o de pôr etiquetas nestes frascos de xarope... E cuidado para não se enganar. As etiquetas vermelhas são do xarope de casca de laranja-amarga com iodeto de potássio; as verdes, do mesmo com ferro dialisado. Se o senhor trocar as etiquetas, eu o trituro.

Maxi pôs-se a trabalhar e, coisa sobremaneira estranha, apesar da desordem de sua cabeça, não cometeu um único engano, nem mesmo quando lhe deram mais seis tipos de xarope com seus respectivos letreiros de diferentes cores. Ballester, que já tivera notícia, por um bilhetinho de Dona Lupe, do violento acesso daquela manhã, vigiava-o dissimuladamente, olhando-o de esguelha; mas, numa das idas que fez ao laboratório, Maxi abandonou bruscamente o trabalho e saiu para a rua sem chapéu. Ao voltar à loja e notar a ausência do jovem, o regente ficou muito tranquilo e não disse mais que:

— Já voou... Vai bonito.

Recebia com calma as extravagâncias do colega, e seu desejo era que uma daquelas escapadas fosse a definitiva.

— Mas não terei essa sorte — dizia —, e logo o trarão de volta para eu amansá-lo.

Maxi subiu para casa. Quando Fortunata lhe abriu a porta, não se admirou de vê-lo tão transtornado, porque aquelas aparições inesperadas já não eram novidade.

— Suponho — disse ele com os lábios trêmulos — que agora não vais negar... Talvez minha tia negue... ela é tão hipócrita...! Mas tu, não; tu és má e sincera. Quando dás o golpe mortal, confessas, não é? E agora, diante dos fatos palpáveis, evidentes, o que têm a dizer?

— Outra vez... Mas, filho... — guinchou Dona Lupe, saindo para o vestíbulo.

— A senhora, tia, vai teimar em negar agora... mas esta não nega. É claro que não vou apanhá-lo, porque deve ter saltado pela varanda; porém não podem negar que entrou... Eu o vi, eu o vi passar diante da farmácia... Na escada deixou sua marca, seu rastro, rastro e marca, senhores, que não se podem confundir com nada... mas com nada.

— Estamos bem divertidas! — disse Dona Lupe a Fortunata, que suspirava, olhando para o marido com compaixão profundíssima.

— Quem vai me pagar tudo de uma vez é aquela indecente da Papitos! — gritou ele, dando alguns passos em direção à cozinha.

— Papitos está fazendo as compras. Pobre moça!... Basta, já estamos fartas. Vê se nos deixas em paz. Vamos mandar Ballester te amarrar... Menino, menino, acabaram-se as tolices.

Dizendo isso, agarrou-o por um braço e sacudiu-o com ira materna e corretiva.

— Olha que não podemos mais te suportar... O que tens é mimo demais.

O desgraçado jovem deixou-se cair num banco que havia no vestíbulo, semelhante a um banco de igreja, e ali se transformou a máscara insana de seu rosto, passando da fúria à consternação.

— Garanta-me a senhora... então... que minha honra está... como dizem... intacta... e eu me tranquilizarei.

— Tua honra! Mas quem diabo mexeu com ela? Tudo isso é fumaça, fumaça que há dentro desta cabeça.

— Fumaça!... Ah!...

— Sim, tudo fumaça — disse Fortunata, pondo-lhe carinhosamente a mão no ombro. — Não penses, e não temerás nada. É a imaginação, nada mais que a imaginação... a louca da casa, como dizia teu irmão Nicolas.

— Sabes o que vamos fazer? — sugeriu Dona Lupe algum tempo depois, aproveitando a relativa calma que se notava no sobrinho. — Vamos lhe dar de almoçar.

A mulher agarrou-o pelo braço para levá-lo à mesa, e ele não ofereceu resistência alguma. Ambas temiam que não quisesse comer nada, alegando que a comida estava envenenada; mas, para grande surpresa delas, Maxi não manifestou desconfiança a esse respeito. Tinha pouco apetite e, para fazê-lo engolir alguma coisa, as duas precisaram competir num considerável dispêndio de palavras carinhosas. Mostraram-se tão afetuosas que Maxi comeu mais do que em outros dias, sem fazer observação alguma nem se queixar de que tudo estava mal preparado. Fizeram-lhe café, e foi a única coisa que tomou com gosto. Depois do almoço, Dona Lupe procurou animar os espíritos, conversando sobre assuntos inteiramente alheios àquela cantilena da honra; mas ele dava a entender, por meio de suspiros profundos, que a tormenta de sua alma ainda não se extinguira de todo. A força do ataque, porém, passara, e a serenidade completa não tardaria a chegar. Ao despedir-se para voltar à farmácia, levou a mulher para um canto e lhe disse:

— Promete-me que não sairás esta tarde... promete-me que nunca sairás senão comigo.

— Eu sair! Que disparates te ocorrem! Não penso nisso — respondeu ela, sorrindo. — Ficarei aqui te esperando. À noite iremos à casa de Dona Casta. Queres? Ou passear.

Enquanto ela dizia isso, Dona Lupe, espreitando-a de um canto do corredor, fixava nela um olhar astuto.

Naquela tarde, Maxi esteve na farmácia bastante mais calmo. Num momento livre, foi ao canto do laboratório onde guardava os livros e pegou um deles, dispondo-se a mergulhar na leitura. Ballester, porém, tomou uma vara, foi direto a ele e, arrancando-lhe o livro, ameaçou castigá-lo.

— Ora, deixemos de sabedorias, que é isso que nos transtorna. Vamos ver o que é isto... Homem, que bonito! Erros da teogonia egípcia e persa... Assim reza a epígrafe do capítulo... Mas, criatura, o senhor sempre há de se meter no que não lhe diz respeito? Que lhe importa que aqueles bárbaros, mortos há milhares de anos, adorassem muitos deuses?... É vontade de se intrometer na vida alheia. Tinham deuses a rodo! Muito bem, e daí? Por acaso é o senhor quem tem de sustentá-los? É o que digo: vontade de se meter onde não é chamado. Não posso ver tanta tolice — exaltava-se mais a cada frase, chegando até a cólera —; não posso ver um cristão queimar as pestanas para averiguar coisas das quais há de tirar o que o negro tirou do sermão... Vou esconder seus livros, vou queimá-los... Já vou.

Estas últimas palavras eram dirigidas a um freguês que lhe mostrava uma receita.

— Vamos, seu paspalhão — disse a Maxi —, mexa-se. Alcance-me a cânfora, o nitro doce, o pó de alcaçuz...

Preparado o remédio num abrir e fechar de olhos, Ballester tornou a pegar a vara e continuou a filípica deste modo:

— É igual à tolice em que agora deu... que vão lhe tirar a honra; que entram homens em sua casa... que por todos os lados armam ciladas à sua honra... Como estamos melodramáticos e que simplórios semos! Parece mentira que tais absurdos ocorram a quem é casado com uma mulher que é a casta Susana, sim, senhor, reafirmo: a casta Susana, uma mulher que antes se deixaria esquartejar do que olhar um homem no rosto. E, se o senhor sabe disso, para que arma essas tragédias? Ah, se eu tivesse uma fêmea assim, tão bela, tão virtuosa; se tivesse ao meu lado uma virgem como essa, eu a adoraria de joelhos, e antes me deixaria espancar do que lhe causar um desgosto. Sua honra! O senhor tem mais honra que... ora, nem sei com o que compará-la. Tem uma honra mais limpa que o sol... O que digo, o sol, se o sol tem manchas? Mais limpa que a própria limpeza. E ainda se queixa... Pois eu vou curá-lo com esta vara. Assim que falar da honra, zás!... Não há outro jeito. É o que digo: o senhor faz essas coisas porque está mimadinho demais. Tia que cuida do senhor, mulher bonita que também o mima e que o trata como a menina dos olhos... Porque é a verdade... Ora essa, se eu tivesse uma mulher assim...

Ao chegar a esse ponto da reprimenda que Segismundo lhe atirava com uma seriedade de tijolo, Rubin se tranquilizara tanto que quase estava disposto a ouvi-lo com benevolência e até jovialidade. Por fim sorriu e, depois de longo tempo, disse-lhe:

— Amigo Ballester, convido-o a ir ao Variedades esta noite. Quer?

— Como não haveria de querer? Muito bem. Pedradas dessas podem vir todos os dias, meu ilustre amigo. Iremos... bem entendido que Padilla venha esta noite ficar de plantão. Agora, meu queridíssimo colega, vamos fazer estas pílulas de protoiodeto de mercúrio. Prepare o alcaçuz e a mucilagem de goma-arábica. Receita delicada. Muito olho... Digo-lhe que não há ciência mais sublime que a Farmácia. Muito mais bonita do que averiguar se houve ou não tantas ou quantas dúzias de deuses! Vamos lá; muito cuidado com este precioso mercurial. Bonito ficará o doente a quem se destina. Não, não invejo o proveito dele. Mas, por certo, deve ter se divertido bastante neste mundo com as moças bonitas, e, se agora paga com bons açoites, também terá feito belas conquistas. Eh!... Cuidado com as doses. Não seja tão afoito. Veja que vai estragar o paciente, e a saliva que ele botar chegará até aqui... Como é bela a Farmácia! Para mim há duas artes, a Farmácia e a Música. Ambas curam a humanidade. A Música é a Farmácia da alma, e a... vice-versa, o senhor me entende. Nós, o que somos senão os compositores do corpo? O senhor é um Rossini, por exemplo; eu, um Beethoven. Numa e noutra arte, tudo é combinar, combinar. Lá se chamam notas; aqui, drogas, substâncias; lá, sonatas, oratórios e quartetos... aqui, vomitivos, diuréticos, tônicos etc. O quid está em saber atingir, com a composição, a parte sensível... O que acha destas teorias?... Quando desafinamos, o doente morre.

Pouco depois chegou o prático que só fazia serviço na farmácia à noite, e Segismundo, levando-o à parte, disse-lhe:

— Amigo Padilla, ainda hoje vou propor a Dona Casta que venhas de dia, porque esta calamidade do Rubin está com a cabeça feito um cesto, e temo que, se ficar sozinho, envenene toda a freguesia.

iv

Naquela noite, depois do jantar, todos foram à casa de Dona Casta, onde deviam se reunir para passear. Mas, pouco depois de chegarem, entrou Ballester dizendo que se levantara um ventarrão muito forte e ameaçava tempestade, de modo que, por unanimidade, decidiram não sair; acendeu-se a luz na sala, e Dona Casta disse a Olimpia que tocasse a peça para Maximiliano e Ballester ouvirem.

Olimpia era a mais nova das filhas de Samaniego e teria causado grande admiração na época em que estava na moda ser tuberculoso, ou ao menos parecê-lo. Magra, espiritual, de olhos fundos, com feições finas e expressão romântica, aquela moça teria sido uma beleza perfeita cinquenta anos antes, no tempo dos cachos em espiral e das cinturas de sílfide. Dona Casta queria que suas meninas tivessem um meio de ganhar a vida caso, por qualquer contingência, empobrecessem, e Olimpia foi levada ao Conservatório desde tenra idade. Durante sete anos bateu teclas e, depois, continuou batendo-as em casa sob a direção de um professor reputado que ia duas vezes por semana. Tratava-se de ganhar um prêmio nos exames, e para isso a moça passara três anos estudando uma bendita peça que nunca conseguia dominar. Peça pela manhã, peça à tarde e à noite. Ballester já a sabia de cor, sem perder uma nota. Olimpia não conseguira dizer toda, toda a peça, desde o adágio patético até o presto con fuoco, sem se enganar alguma vez; e, sempre que tocava diante de gente, atrapalhava-se e fazia uma salada de notas que nem Cristo entendia. Por isso Dona Casta mandava-a tocar quando havia pessoas estranhas, para que fosse perdendo o medo do público.

A decisão de não sair para passear pôs a senhorita de mau humor, porque não poderia falar com o namorado, que àquela hora estava plantado na esquina da rua de los Tres Peces, esperando que a família saísse para juntar-se a ela. Era um rapaz de mérito, que estudava o último ano de não sei qual curso e escrevia artigos de crítica, gratuitamente, em diferentes jornais. Apesar de suas notáveis qualidades, Dona Casta não o via com bons olhos, porque a crítica, francamente, como ofício para sustentar uma família, não lhe parecia dos mais lucrativos. Olimpia, porém, estava muito apaixonada; lia todos os artigos do namorado, que ele lhe levava recortados dos jornais e colados em folhas, e com essa leitura ia se ilustrando consideravelmente. Guardava todo aquele amontoado de sentenças estéticas junto com as cartas e as mechas de cabelo. Dona Casta ainda não permitia ao estimável jovem entrar em casa.

A moça tocou sua peça com não pouco esforço, ora martelando as teclas como se quisesse castigá-las por alguma falta que haviam cometido, ora acariciando-as para que soassem suavemente com a ajuda do pedal, arqueando o corpo de um lado e de outro e fazendo cara aflita ou de mau humor, conforme a passagem. Parecia que os dedos eram bocas, e que essas bocas tinham fome atrasada, de tantas notas que engoliam. Em certas escalas difíceis, algumas notas se antecipavam às predecessoras e outras ficavam para trás; mas, quando chegava um efeito fácil, a pianista dizia consigo “aqui não peco” e se indenizava das falhas cometidas antes. Durante o longo martírio das teclas, as exclamações de admiração não cessavam.

— Que dedos tem esta moça!... Eu rio de Guelbenzu... E que talento artístico, que expressão! — dizia o grande tunante de Ballester.

E Dona Casta:

— Agora vem a passagem difícil, agora... Neste trecho não há reparo a fazer... Que limpeza... que maneira de frasear!...

Dona Lupe também fazia grandes gestos, e Fortunata via-se obrigada a exprimir entusiasmo, embora não entendesse uma palavra daquela barulheira; por dentro, espantava-se de que aquilo se chamasse arte sublime e de que pessoas sérias aplaudissem uma música semelhante à de uma oficina de caldeireiro. Qualquer modinha dos realejos que passam pela rua lhe agradava e comovia mais.

Olimpia tocava com fé e emoção, presumindo que aquele espelho dos críticos a ouvia da rua. Quando terminou, estava exausta, suada, doíam-lhe todos os ossos e mal conseguia respirar. Nem sequer tinha fôlego para agradecer as flores que todos lhe lançavam. A tos que a acometeu parecia anunciar um ataque de hemoptise.

— Minha filha — disse-lhe a mãe, vendo-a ir para a varanda —, não te debruces, estás suando. Toma, põe este xalezinho.

E colocou-o nela; mas Olimpia, incapaz de refrear a vontade de sair à varanda, foi com Fortunata, e ambas ficaram contemplando a alma penada que passeava na calçada em frente.

Pouco depois entrou Aurora, a mais velha das Samaniegas, muito diferente da irmã: morena, bem-apessoada sem ser uma formosura, dessas que a uma cor anêmica juntam certa robustez flácida e o viço de carnes sem cor. Seu peito era desproporcionalmente volumoso, o pescoço curto, os quadris e a cintura bem torneados, e as costuras das mangas pareciam prestes a arrebentar por causa da gordura crescente dos braços. A cabeça era bonita, com pouco cabelo e muito bem penteado. Tinha mais entendimento que a irmã; vestia-se com aquela simplicidade elegante das mulheres estrangeiras que ganham a vida atrás do balcão de uma loja fina ou cuidando da contabilidade de um restaurante. Seu vestido era sempre de uma única cor, sem combinações, de corte severo e como que expedito, vestido de mulher jovem que sai sozinha à rua e trabalha honradamente.

Expliquemos isso. Aurora Samaniego tinha trinta anos e era viúva de um francês que viera à Espanha representando casas estrangeiras de drogaria. Pouco depois de casar, por volta de 1865, o francês foi com a mulher para Bordeaux e ali herdou dos pais um estabelecimento de roupas brancas, que melhorou à força de trabalho, lançando nele as bases de uma fortuna. Mas Bismarck e Napoleão III estragaram tudo, pois por causa desses dois personagens sobreveio a guerra de 1870, que haveria de ceifar em flor tantas esperanças. Fenelón, homem boníssimo e de inteligência comercial, tinha o defeito do chauvinisme. Empunhou as armas, incorporou-se a um corpo do exército e, aos primeiros tiros, os prussianos deixaram-no estendido.

Viúva e com pouco dinheiro, embora também sem filhos, Aurora voltou a Madri, onde as aptidões e os hábitos de trabalho que adquirira não puderam encontrar emprego, pois aqui não existiam grandes magazines, e os que havia eram servidos por aqueles grandalhões preguiçosos dos caixeiros, que usurpavam às moças o único meio decoroso de ganhar a vida. A viúva de Fenelón aprendera tudo quanto se pode saber a respeito do ramo de roupas brancas; era forte em contabilidade; tinha noções claras da ordem econômica e do regime a que deve sujeitar-se um negócio bem montado; e falava francês com perfeição. Mas todos esses méritos teriam sido inúteis até o fim do mundo se não ocorresse a Pepe Samaniego estabelecer o comércio de roupas brancas de acordo com os últimos progressos do estrangeiro e levar para ele pessoa tão inteligente e apropriada ao caso quanto sua prima. O plano era vastíssimo. Aurora ficaria à frente do departamento de enxovais de casamento e de batismo, roupas de criança e de senhora. O capital para a instalação dessa importante indústria fora fornecido por D. Manuel Moreno-Isla, que confiava na honradez e no tino de Pepe Samaniego. A loja ficaria numa casa nova na subida para Santa Cruz, bem em frente à rua de Pontejos, e suas vitrines seriam, com certeza, as mais vistosas e elegantes de Madri. Inauguração: 1º de setembro. Samaniego estava em Paris fazendo compras e, na data a que isto se refere, algumas caixas já começavam a chegar. Na loja provisória, próxima da definitiva, já havia muito trabalho. Aurora, à frente de uma graciosa plêiade de oficialas habilíssimas, preparava as peças-modelo que deviam ser apresentadas nos primeiros dias como amostras das ricas confecções da casa. De sol a sol, vivia entre ondas de cambraia com espuma de rendas riquíssimas, cortando e provando, ponto aqui, tesourada ali, governando seu bando de costureiras com tanta inteligência quanto autoridade.

À noite, quando chegava em casa exausta, a mãe gostava que estivessem ali Dona Lupe, Fortunata ou as demais amigas, para dar livre curso à sua vaidade. Assim que via a filha entrar, o rosto se lhe iluminava, e já não se falava senão do novo estabelecimento e das maravilhas nunca vistas que nele admiraria a Madri elegante. As quatro mulheres não fechavam a boca até as doze e, por isso, Ballester, naquela noite, vendo formar-se a tempestade de roupas brancas, pegou Maxi pelo braço e disse-lhe:

— Nós vamos ver uma pecinha no Variedades.

É escusado dizer que Olimpia, não participando da presunção nem do entusiasmo mercantil da mãe, continuava pousada no parapeito da varanda do gabinete, vendo passar a sombra melancólica do entediado Aristarco e atirando-lhe de cima alguma palavrinha para adoçar-lhe a espera.

— Deves estar muito cansada, senta-te — dizia Dona Casta à filha, formando a rodinha. — Como vai isso?

— Hoje estiveram testando o gás na loja nova. Será uma coisa esplêndida. Já estão chegando caixas de novidades, coisas, ai!, por exemplo, tão bonitas que em Madri nunca se viu nada igual. Aqui não sabem montar vitrines. Vocês verão, verão a nossa, com tudo o que há de mais lindo, para chamar a atenção e fazer a gente parar e entrar para comprar alguma coisa. Depois que entram, mostramos mais, fazemos ver esta e aquela coisa cara, nós as enfeitiçamos e, por fim, elas caem. Os lojistas daqui mal conhecem a arte do étalage e, quanto à arte de vender, poucos a possuem. Muitos ainda pertencem à escola de Estupina, que ralhava com quem ia comprar.

— Eu acho — disse Dona Lupe, com expressão avarenta — que Pepe Samaniego vai fazer um grande negócio. Madri está por explorar. Tudo consiste em ter tino. Oh, pois no ramo da Farmácia, meu Deus, há uma verdadeira mina. Estou lutando com Maxi para que invente, para que apareça por aí com sua pequena panaceia. Mas todos nós nos tornamos muito morais e rigoristas. Vejam por que esta nação não progride, e os estrangeiros nos exploram, levando todo o dinheiro.

Essa última frase levou a conversa de volta ao terreno primitivo, do qual se desviara um pouco com aquilo da panaceia.

— Por isso — disse Dona Casta —, um estabelecimento montado como os melhores do estrangeiro não pode deixar de fazer fortuna, pois, havendo-o aqui, as senhoras da grandeza não terão de ir a Bayonne e Biarritz comprar a última novidade.

Aurora vestia um traje de percal azul-claro, com cinto de couro e, nele, uma grande fivela. Seu atavio era todo frescor, simplicidade de operária elegante. Foi por algum tempo para dentro tomar a pequena refeição ou guloseima que a mãe sempre lhe guardava e voltou com um pratinho numa das mãos e uma colherinha na outra. Comia compota de ameixas com um pedaço de rosca.

— As senhoras aceitam?... Pois eu dizia que, nas caixas que estão agora na Alfândega de Irún, vêm uns vestidinhos de criança, de malha, que causarão sensação. O modelo chegou ontem em grande velocidade, e também veio um fichu do qual estamos fazendo imitações de qualidade inferior, com rendinha comum. Vocês verão, verão... Pois a saia de batismo, por exemplo, que estamos enfeitando com renda valenciennes, não poderá custar menos de quinhentos francos. — Aurora tinha o costume de contar sempre em francos. — É verdadeiramente encantadora. Eu a trarei aqui quando estiver pronta para vocês verem.

— Será melhor que nós mesmas vamos até lá — disse Dona Lupe —, e assim veremos e fuçaremos tudo antes de abrir ao público.

Fortunata também dizia alguma coisa, embora não muito, porque o assunto da loja não despertava nela grande interesse. Depois de raspar o pratinho de compota, Aurora voltou para dentro e trouxe umas gemas de ovo doces num papel. Como era gulosa! Ofereceu uma a Fortunata, que a aceitou, e Dona Casta dispôs-se a obsequiar os amigos com copos de água. Essa senhora punha os cinco sentidos nas bilhas para resfriar a água e se gabava de que em parte alguma ela era tão fresca e saborosa quanto em sua casa. Depois de trazer um prato com torrões de açúcar, foi servir o precioso conteúdo das bilhas, pois eram várias, e nelas graduava a temperatura, deixando-as ou não na varanda. Dona Lupe ajudava-a a trazer as águas e, enquanto isso, Aurora passou o braço pela cintura de Fortunata, e ambas saíram à varanda da sala.

Cada uma comia uma gema de chocolate e, depois, tomaram outra de coco.

Longe dos ouvidos intrometidos de Dona Lupe e Dona Casta, Aurora segredou a Fortunata:

— Foram todos embora esta tarde... O primo Manolo também vai com eles.

v

Cabe dizer aqui que Fortunata e a viúva de Fenelón haviam se tornado muito amigas. Esta demonstrava à senhora de Rubin grande simpatia e, com essa simpatia, com a doce confiança que dela emanava e, por fim, com o verdadeiro esbanjamento de indulgência que fazia em favor de suas faltas, apoderou-se pouco a pouco de todos os seus segredos. Naturalmente, essas intimidades só tinham lugar pelas costas de Dona Lupe e muito longe de Dona Casta, pois nem uma nem outra teriam consentido que tais temas fossem trazidos às honestas e decorosas conversas daquela casa.

Enlaçadas pela cintura, braço com braço, as duas mulheres ficaram algum tempo sem dizer nada, comendo as gemas e olhando para a rua. De repente, Aurora começou a rir.

— Olha o bobo do Ponce, fazendo mesuras a Olimpia. Acho que minha irmã é a única mulher que existe no mundo capaz de amar um crítico. Mereceria, como castigo, casar-se com ele. Somente, como é minha irmã, não lhe desejo essa catástrofe.

— Veja como o homem está aflito — dizia Fortunata, rindo também. — Faz sinais para que ela desça... Sim, ela vai descer agora. Podes esperar sentado... Deve querer lhe dar um daqueles artigos que escreve e nos quais conta o enredo dos dramas para que fiquemos sabendo. Ora, homem, não te aflijas, que falarás com ela outra noite. Agora não pode ser... Como esses namorados são maçantes, não é?

Passado outro instante, quando os braços já haviam soltado as cinturas e ambas limpavam os dedos em seus respectivos lenços, Aurora tornou a dizer:

— Pois é, todos partiram esta tarde, e o primo Moreno com eles. Acho que vão para Saint-Jean-de-Luz.

Fortunata virou o rosto para a varanda do gabinete, onde estava Olimpia. Depois olhou para a amiga e disse em tom muito seco:

— Vão para San Sebastián e Biarritz, e no começo de setembro irão todos para Paris.

— Meninas — disse Dona Casta, tocando-lhes os ombros. — Qual água vocês querem?... Progreso ou Lozoya?

— Para mim tanto faz — respondeu Fortunata.

— Toma Lozoya e acredita em mim — sugeriu Dona Lupe, com o copo na mão. — Por mais que esta diga, Progreso é um pouquinho salobra.

— Isso é questão de gosto... E o hábito também influi — argumentou Casta, com a suficiência e a formalidade de um provador de vinhos. — Como fui criada bebendo a água de Pontejos, que é a mesma da Merced, hoje chamada Progreso, qualquer outra me parece ter gosto de lodo.

Não insistirei no muito que se disse sobre esse tratado das águas de Madri. Enquanto as duas senhoras mais velhas tagarelavam lá dentro, Fortunata e Aurora faziam o mesmo na varanda. Deviam ser onze e meia quando ouviram a voz de Ballester. Ele e Maxi olhavam para elas da calçada em frente.

— Se vocês descerem — disse Rubin —, espero aqui.

— Olimpia! — gritou Ballester. — Viemos de assistir à peça que estreou anteontem. Como é ruim! A senhorita já tem notícias dela?

— Eu?... O que está dizendo?

— Como a senhorita se relaciona com as autoridades...

Ao dizer isso, o crítico passava junto dele.

— Escute, Olimpia... A peça é uma ferocidade; mas certos amigos do autor vão erguê-la às nuvens. Eu gostaria de vê-los para que me dissessem por que enganam o público desse modo.

— Deixe-me em paz... Como o senhor é bobo! — respondeu Olimpia, entrando.

— Vocês descem ou não? — disse Maxi; e a mulher respondeu-lhe que esperasse na farmácia, pois elas desceriam. Aurora e Fortunata riam olhando para Ponce, que subia a rua a toda velocidade, como alma levada pelo diabo.

As Rubin retiraram-se para casa, tendo ambas as senhoras a satisfação de ver Maxi tão recuperado das desordens cerebrais daquela manhã que parecia outro homem. Eram sintomas favoráveis a obediência a tudo quanto lhe mandavam e o caráter sensato e sossegado de suas respostas. Naquela noite dormiu tranquilamente, e nada ocorreu que saísse da norma habitual. Na tarde seguinte, marido e mulher combinaram dar um passeio ao cair da noite. Ela foi buscá-lo na farmácia à hora acertada e não o encontrou.

— Foi cortar o cabelo — disse-lhe Ballester, oferecendo-lhe uma cadeira. — Com as melancolias destes últimos tempos, o pobre rapaz não percebia que estava ficando parecido com os poetas cabeludos... Mandei-o tosquiar-se ainda esta tarde. Tenha uma coisa em mente: é preciso impor-se a ele, combater seu desleixo, as leituras e não permitir que fique absorto em si mesmo. Antes causar-lhe um desgosto do que deixá-lo cair em melancolias. Eu sempre lhe falo grosso e, acredite... ele ficou com medo de mim. É disso que precisa.

— Pobrezinho!... — exclamou Fortunata. — Mas veja que coisa lhe deu!... Nunca vi desvario semelhante.

Segismundo, que naquele momento tinha pouco que fazer, deixou tudo para atender cortesmente à senhora de seu amigo e agradá-la no que dele dependesse. Era homem que precisava conter-se muito para não ser galante e até atrevido com qualquer mulher diante de quem estivesse. Com Fortunata, permitira-se uma ou outra brincadeira; naquele dia foi mais longe. Levando os dedos à cabeleira rebelde para fazer deles dentes de pente, alisou-a e, arqueando o corpo, inclinou-se para a senhora, dizendo com malícia:

— A senhora anda muito triste desde ontem... Não, não negue... Pois eu não vejo o que se passa? Leio nos rostos.

— No meu, o senhor terá lido muito pouco.

— Mais do que imagina... Leio passagens terníssimas... estrofes de despedida... ais de solidão...

— Ai, que tolo!

— Oh, nada me escapa. Admito que não há motivo para a senhora estar tão patética... Mas há outra coisa... Eu gosto de remontar às origens, gosto de procurar o porquê, e, francamente, quando olho esse porquê, não posso deixar de lamentar o engano de que a senhora padece desde tempos remotos.

Fortunata olhava para ele sorrindo, pois não acreditava que devesse se zangar.

— Sim, não posso deixar de deplorar — prosseguiu o regente, enchendo-se — que a senhora seja tão constante com pessoas que não merecem... Havendo no mundo tanto coração leal, ir procurar precisamente o mais inconstante e...

— Que disparates o senhor está dizendo?

— Oh, não são disparates — respondeu o farmacêutico, dando alguns passos diante dela e procurando fazê-los com a maior elegância possível. — Perdoe meu atrevimento. Eu sou assim; sempre fui Juan Claridades, e, quando uma ideia quer sair de mim, abro-lhe a porta, porque, se a deixo dentro, estalo... Pois eu dizia... A senhora vai se zangar?

— Não, homem, por que eu haveria de me zangar? Solte-a, solte-a.

— Pois eu dizia... — Ballester adotava uma atitude que lhe parecia aristocrática. — Dizia que a senhora devia amar era a mim... Já vê que não mordo a língua.

— Ai, que graça! Gosto do senhor por ser tão acanhado.

— Pão, pão; vinho, vinho. Amando-me, verá o que é um coração apaixonado, constante e tropical. Mas devo adverti-la de uma coisa...

— O quê?

— Que, se decidir amar-me... a senhora não vai decidir, mas, se decidir, tenha cuidado para não me dizer de repente... porque morrerei de prazer... Seria como uma descarga elétrica.

— Fique tranquilo... Sim, vou lhe contando pouco a pouco... preparando-o, como quando se dão más notícias...

— Não tanto, não tanto...

— Como o senhor é mau... Aqui, entre tantos remédios, não há nada que lhe cure a cabeça?

— Pois, se houvesse, minha amiga, se houvesse...! Muitos pensam que a pior cabeça desta casa é a do pobre Maxi, quando a minha é um viveiro de pássaros. Verdade é que duas palavras de quem eu sei me tornariam a pessoa mais sensata e feliz da terra...

Vendo então Rubin entrar, deu outro rumo à conversa.

— Aqui eu dizia à sua cara-metade que vou lhe dar umas pílulas... Meu Deus, que pílulas!

— Para ela?

— Não, homem, para o senhor.

— E de que são?

— Ora essa, já quer saber de que são. Caramba, quando alguém inventa uma coisa nova, deve guardar o segredo. É um específico.

— Este Segismundo está tresloucado — disse Fortunata. — Vamos embora.

— Eu não tomo pílulas sem conhecer a composição — declarou Maxi com a maior boa-fé.

— Esses homens felizes são muito impertinentes. Querem descobrir tudo... E agora vai passear com sua rolinha! Como somos melosos... semos! E depois o menino se queixa!... — puxou-lhe uma orelha. — Queixa-se por vício... o filho mimado da Providência... Adeus, divirtam-se.

Saiu para despedir-se deles à porta da farmácia, empertigou-se muito e, esticando-se quanto podia sobre a base de suas pantufas, acompanhou-os com os olhos até desaparecerem no alto da rua.

vi

Iam passando os cansativos dias do verão, que em Madri é a estação das tristezas, porque o sono e o apetite escasseiam, a sociedade diminui, e os que ficam aqui parecem comer o pão do exílio. Na família de Rubin nada ocorria de particular, pois Maxi não piorava, embora todas as manhãs tivesse sua excitação correspondente, mais ou menos aparatosa; mas, enquanto não chegasse a um grau de furor como o daquela célebre manhã do arsênico, as duas mulheres podiam suportá-lo com paciência. À noite, as depressões se manifestavam levemente e às vezes nem eram percebidas. Ballester conseguira, combinando persuasão e severidade, afastá-lo por completo de qualquer leitura favorável à concentração do espírito.

Entre Fortunata e Dona Lupe nem tudo era concórdia, como já se pode ter compreendido, pois a senhora de Jáuregui, observadora sagaz, percebera que, desde o começo de junho, a sobrinha andava por maus caminhos. Todas as pessoas ligadas à família de Rubin conheciam a história da mulher de Maxi e o papel dramático que nela desempenhava o senhorito Santa Cruz. Algumas talvez soubessem daquela terceira saída da aventureira ao campo de sua louca ilusão; mas ninguém se atrevera a levar a história à dos Perus. Esta, entretanto, sabia de tudo por obra do puro cálculo e de suas faculdades olfativas. Certa vez, lançou-se a armar o grande escândalo.

“Para que ela não pense”, dizia consigo, “que engulo suas mentiras e fico aqui fazendo papel de pateta.”

Fortunata, porém, lembrando-se imediatamente das lições de seu amigo Feijoo, traçou a linha divisória que ele lhe recomendara e veio a dizer, em substância:

— Daqui para lá, senhora, a senhora governa; daqui para cá, estão minhas coisas, e nelas a senhora não tem de se meter.

A orgulhosa viúva do alabardeiro não se deu por vencida e voltou à carga duas ou três vezes desta forma:

— Se o pobre Maxi estivesse bom, ele te poria nos eixos como compete a todo homem que se estima; mas não está, e sou eu quem tem de tomar a seu cargo o decoro da família. Já me perguntei mil vezes: “Explodo ou não explodo?” Na situação daquele pobrezinho, minha explosão seria a morte dele. Por isso me contenho e engulo todo o veneno. Estás vendo? Minha cabeça vai se enchendo de cabelos brancos desde que vejo essas ignomínias sem poder remediá-las...

Fortunata virou o rosto para esconder as lágrimas. Essa cena ocorria no gabinete, enquanto as duas costuravam seus vestidos de verão.

— Depois do que aconteceu em novembro do ano passado — prosseguiu a viúva, com uma serenidade assustadora —, depois de tua emenda verdadeira ou falsa; depois que foste perdoada, e por meu voto não terias sido; depois que lançamos terra sobre o crime horrível, parece-me que eras obrigada a te comportar de outra maneira. Não venhas agora com lagrimazinhas que hão de parecer hipócritas. Porque eu digo uma coisa. Escuta-me com atenção.

Dona Lupe deixou a costura e preparou-se para falar, como os oradores profissionais.

— Eu me ponho no caso de uma mulher que sente uma paixão antiga, com raízes muito profundas e que não podem ser arrancadas. Há casos, e, na verdade, isso merece ser examinado com vagar. Pois, se tivesses vindo a mim e me dissesses: “Tia, isto está acontecendo comigo. Perseguem-me; não sei se conseguirei me defender; sou fraca; ajude-me...” Oh, a situação seria muito diferente. Porque eu te teria dirigido, teria te dado força, consolo... Mas não; deu-te na cabeça agir por conta própria e fazer e acontecer, como uma mocinha sem juízo... Isso é um disparate: aí tens, aí tens o motivo de todas as tuas desgraças, não contar para nada com as pessoas que devem te guiar. Resultado: quando vieres pedir socorro, já será tarde, e essas pessoas te dirão: “Agora te arranja, afunda-te, cobre-te de vergonha e vai para os diabos.”

Pronunciada essa eloquente filípica, a senhora continuou por um bom tempo soltando bufos, e Fortunata não erguia os olhos da costura. Refletia sobre a estranheza daqueles conceitos da viúva, que parecia disposta a certas soluções indulgentes, desde que fosse consultada e tida como infalível dispensadora de proteção e sancionadora das ações.

“Esta mulher quer ser o Papa”, pensava, “e, contanto que a façam Papa, concorda com tudo. Mas, no que depender de mim...”

Fortunata sentia repugnância pela moral despótica de Dona Lupe, na qual entrevia mais soberba que retidão, ou uma retidão jesuiticamente adaptada à soberba. Isso não se ajustava às ideias absolutas da jovem criminosa. Para seus atos, ela queria a absolvição completa ou a condenação completa. Inferno ou Céu, e nada mais. Tinha sua ideia e não precisava para nada de conselhos nem da proteção de ninguém. Arranjava-se muito melhor sozinha e, qualquer que fosse sua cruz, não lhe fazia falta um Cireneu. Suas ações eram decisivas, retilíneas; lançava-se a elas como projétil saído do canhão.

Tendo Dona Lupe sabido, naqueles segredos que trocava com a amiga Casta, que os Santa Cruz haviam partido para veranear, tomou essa circunstância como pretexto para impingir à sobrinha outro discurso, embora em tom menos catilinário que os anteriores.

Aquela senhora era essencialmente governamental e edificava sempre todos os seus planos e raciocínios sobre a base sólida dos fatos consumados.

— Olha por onde poderíamos chegar a nos entender — disse-lhe uma tarde, quando tornou a apanhá-la a jeito para o caso. — Soube que a pessoa que te traz desnorteada já não está em Madri. Que melhor ocasião queres para empreender a reforma de teu estado interior, que está como uma casa em ruínas? Estou disposta a te ajudar em tudo quanto puder. Não deveria fazê-lo; mas tenho caridade e compreendo as fraquezas humanas. Outra tomaria o caminho mais curto; eu acho que, em coisas tão delicadas, deve-se proceder com certo equilíbrio. Terias de começar por me pôr a par dos antecedentes, por me confiar até os menores detalhes, entende bem, até os menores detalhes; por me deixar informada do que pensas, do que sentes, das tentações que te vêm pela manhã, à tarde e à noite; enfim, terias de declarar todos, todos os sintomas dessa maldita doença e dar-me tua palavra de fazer quanto eu te mandasse.

A viúva falava, portanto, como se trouxesse no bolso as receitas para todos os casos patológicos da alma.

Mais para cumprir obrigação que por gosto, Fortunata teve a condescendência de dizer alguma coisa, reservando, como era natural, o mais delicado. Dona Lupe entusiasmou-se tanto com aquela amostra de submissão que fez alarde de suas faculdades profissionais e terminou assim:

— Garanto-te que, se me obedeceres, tirarei isso de tua cabeça e serás o que não és: um modelo de mulher casada. Desde já me comprometo a que não tornes a cair, mesmo que te armem outra vez o laço. Ora, aquele cavalheirinho! É caso de chamar a polícia. Deixa-te conduzir; põe a causa em minhas mãos, deixa comigo... e verás. Queres apostar que um dia me planto na casa de Dona Bárbara e canto-lhe tudo bem claro? Tu não sabes quem sou, não me conheces. E foste tão tola que não quiseste te valer de mim...! Mereces muito bem o que te acontece. Pois agora, queiras ou não, tomo parte no assunto... Hás de acabar me adorando como se adora uma mãe.

Ao terminar, Dona Lupe estava radiante. Quase se aventurou a fazer à sobrinha uma carícia maternal; tamanhos eram seu júbilo e satisfação. Um pensamento lhe escapava a cada instante da cabeça, mas ela o reservava na folha mais escondida de sua gramática parda. Nem a sombra desse pensamento deixava Fortunata entrever.

Guardava-o para si e deleitava-se com ele a sós.

“Terá ele lhe dado dinheiro?”

Sempre que fazia essa pergunta, respondia afirmativamente.

“Deve ter lhe dado alguma coisa, talvez grandes quantias. Mas onde diabo as guarda? Por que não me entrega para que eu as aplique?... Estou vendo: tem vergonha de pôr em minhas mãos dinheiro adquirido por tais meios. Essa delicadeza a honra... Não é outra coisa; tem vergonha de me dizer. Mas, no fim, isso aparecerá.”

Certa tarde em que o casal saíra para passear, a grande capitalista, incapaz de refrear por mais tempo sua curiosidade, mandou Papitos cumprir um recado para ficar sozinha e, com admirável determinação, revistou a cômoda e o baú de Fortunata. Valendo-se do sem-fim de chaves que possuía, abriu todas as gavetas e remexeu-as cuidadosamente, esmerando-se em deixar as coisas, depois de bem examinadas, na mesma disposição de antes. Esse procedimento jesuítico ela praticava sempre que metia suas mãos perscrutadoras onde não deviam estar. Procura aqui, procura ali, e nada. As notas se escondem com tanta facilidade que não há maneira de encontrá-las. Dona Lupe, porém, tinha faro tão fino para descobrir dinheiro que estava certa de achar as notas, caso existissem.

“Será que as tem costuradas na roupa?”, pensou. “Pode ser. Essa sonsa parece não saber nada, mas sabe tanto...!”

Na cômoda não havia coisa alguma que se parecesse com dinheiro, nem cartas. Viu algumas joias e bugigangas que lhe pareceram lembranças ou penhores de amores; mas, quanto a cobres, nem o cheiro.

— É muito estranho — resmungava a viúva, revistando o baú depois do exame minucioso que fizera na cômoda. — E não se compreende, sendo ele tão rico e ela uma pobre...!

O baú, que só continha roupas velhas, também não deu coisa alguma de si.

— Pois deve haver algo... — rosnou a senhora. — Deve haver algo. Em algum lugar está o esconderijo. Ou há dinheiro, ou dinheiro não existe no mundo.

Cansada de seu inútil escrutínio e guardando as chaves, que formavam um cacho apertado, digno do arsenal de uma quadrilha de ladrões, Dona Lupe sentou-se para meditar; pondo uma das mãos sobre o peito de algodão e acariciando-o, coçou com os dedos da outra a testa, ali onde começa o cabelo, como quem estimula o nascimento de uma ideia, e disse:

— Pois, se de fato ele não lhe deu nada, é preciso reconhecer que esse homem é o maior dos indecentes.

vii

O calor apertava, e as cenas que descrevi se repetiam, reproduzindo-se com aquele maneirismo que a vida humana costuma adquirir em certos períodos, como artista fatigado que descuida da renovação da forma. Os passeios noturnos para tomar o bonde do bairro; as excursões a algum teatro de verão; as tertúlias na casa de Samaniego ou de Rubin; as mesuras do crítico na rua; a figura romântica de Olimpia pendurada na varanda como uma amostra ou insígnia que dissesse “aqui se ama com finura”; as extravagâncias de Ballester; os espasmos de Maxi, tudo continuava se repetindo de dia em dia com regularidade de programa.

Em agosto ocorreu algo que não estava no programa, e foi do seguinte modo. Certa manhã, Torquemada foi ver Dona Lupe para tratar de negócios. Com seu traje de verão, o bom D. Francisco tinha aspecto semelhante ao dos militares que vinham de Cuba, pois, além do terninho azul, enfiara na cabeça um chapéu de palha de abas largas. Sua camisa de listras vermelhas parecia a bandeira dos Estados Unidos; e, para acentuar ainda mais sua aparência americana, trazia uma joia na gravata e uma corrente de relógio interminável, que dava muitas voltas de uma parte a outra do peito. As calças eram tão curtas que, quando se sentava, via-se metade da perna. Ali cabia bem dizer que o defunto era menor. Tudo aquilo parecia roupa herdada, ou chegada às suas mãos por penhora judicial, ou tomada de algum filibusteiro. Durante as visitas, o chapéu lhe servia de leque, com a vantagem de que as pessoas ao redor participavam da ventilação produzida por aquela peça tropical tão bem manejada.

Já levavam algum tempo em interessante conferência quando soou a campainha e, pouco depois, Maxi entrou no gabinete, onde estavam sua tia e D. Francisco. Fortunata passava roupa. Assim que viu o marido chegar, foi saber o que desejava, pois alguma coisa fora do comum devia haver. Àquela hora, dez da manhã, o pobre rapaz jamais voltava para casa. Lançando um lenço sobre os ombros, porque o calor do ferro a obrigava a estar com pouca roupa, passou ao gabinete. Tanto ela quanto a tia ficaram pasmas ao ver no semblante do jovem uma alegria inusitada. Os olhos lhe brilhavam, e até na maneira de cumprimentar D. Francisco perceberam algo estranho, que as encheu de alarme.

— Olá, D. Paco; eu vou bem, e o senhor?... Dona Silvia e Rufinita continuam tomando os banhos do Manzanares?

Aquela linguagem tão familiar era o que havia de mais contrário ao temperamento e à timidez de Maxi.

— O que te traz aqui a esta hora? — perguntou-lhe a tia, dissimulando a surpresa.

Fortunata examinava-o atentamente, sentada longe do grupo principal, numa cadeira próxima à porta da alcova de Dona Lupe. Ele não se sentou e, depois daquele cumprimento tão desembaraçado que dirigira ao usurário, pôs-se de costas para a varanda, as mãos nos bolsos, olhando para todos como quem espera receber felicitações.

— Nada — disse —, é que estou de parabéns.

— O quê? Ganhaste na loteria?

— Não é isso... Para que quero eu loterias? Nem preciso... É muito mais que isso, porque encontrei o que procurava. Já lhe disse que estava pensando, que só me faltava uma fórmula para completar...

— A combinação!... Então encontraste a panaceia? — exclamou a tia, incrédula.

— Não é mau nome, se a senhora quiser chamá-la assim — disse o pobre rapaz, exaltando-se mais a cada palavra. — De pan, que significa tudo... e akos, que é o mesmo que dizer remédio. Que cura e purifica tudo, enfim...

— Graças a Deus fazes alguma coisa útil! — declarou Dona Lupe, desconfiada, observando os olhares de Maxi, cujo brilho de júbilo era inteiramente febril.

— Passei toda a noite passada pensando, muito inquieto, com os miolos em brasa, porque ao plano, ou melhor, ao sistema, não faltava senão uma fórmula para ficar completo... A maldita fórmula...! Por fim, agora, há pouco, ela me ocorreu; dei um salto de alegria. Ballester, que não entende isso nem entenderá nunca, zangou-se comigo e não queria me dar papel e tinta para escrever a fórmula e deixá-la registrada... Temo que ela me escape, que saia de minha cabeça... Minha memória é uma gaiola aberta, e os pássaros... puf...

Dona Lupe e Fortunata se entreolharam com tristeza.

— Está bem — disse a tia, vendo que uma nuvem lhe caía em cima. — Acalma-te, escreverás a fórmula, farás tua panaceia, ela terá grande êxito e ganharemos muito dinheiro.

— Ah!... — exclamou ele com a expressão de quem considera um trabalho esmagador. — Não pense a senhora... Para expor o sistema completo com clareza suficiente para que todos o compreendam, será preciso queimar as pestanas... e como! Terei de passar noites inteiras em claro. Não importa; quando isto começar a circular, vocês verão; adquirirei reputação e glória tão grandes, mas tão grandes que...

— Adeus, meu dinheiro — murmurou Dona Lupe, e Fortunata disse consigo algo semelhante.

— O problema que faltava resolver — disse Maxi, aproximando-se da tia e estalando os dedos — era o da emanação das almas. De onde emana a alma? É parte da substância divina, que se encarna com a vida e se desencarna com a morte para voltar à sua origem?... Ou é uma criação acidental feita por Deus, subsistindo sempre de modo impessoal? Aqui estava o busílis.

Dona Lupe soltou um grande suspiro, olhando para D. Francisco, que piscava os olhos de maneira entre zombeteira e compassiva.

— Filho, por Deus! — disse Fortunata, aproximando-se. — Não fiques pensando nessas coisas que dão dor de cabeça... Sim, está muito bem; mas tudo o que é preciso descobrir sobre isso já foi descoberto... Não esquentes a cabeça.

— Minha querida — disse ele, afastando-a com doçura e adotando um tom enfático —, se nesta via-crúcis de trabalhos e perseguições que me espera; se no caminho doloroso e glorioso deste apostolado tu não quiseres me acompanhar, sentirei por ti mais que por mim; mas, no fim, virás. Como não, se és pecadora, e é para os pecadores, para sua redenção e salvação, que eu penso o que penso e proponho o que proponho?

Fortunata voltou para a cadeira afastada onde estivera antes, e Dona Lupe, depois de levar as mãos à cabeça, fez um gesto de resignação cristã. Faltava-lhe pouco para cair no choro. Nesse ponto, Torquemada julgou oportuno intervir, na esperança de que suas discretas razões endireitassem o torto intellectus do desventurado jovem.

— Veja, amigo Maximiliano, creio que tudo o que devemos saber sobre isso já nos ensinaram. E o que não ensinaram, é melhor não sabermos... porque o excesso de investigação acaba tirando a fé da pessoa. Esta vida não passa de um viver mediano: assim a encontramos e assim temos de deixá-la; e, por mais que olhemos para o Céu, o maná não há de cair... “Ganharás o pão com o suor de tua testa”, disse quem disse, e não há mais nada. Que proveito o senhor tira de ficar matutando se a alma é isto ou aquilo? Se, no fim, todos temos de morrer... Tenhamos a consciência tranquila; não façamos coisas más, e deixe a bola rolar... e não temamos o materialismo da morte; afinal, pó somos e...

— Basta, não prossiga — disse Maxi, carrancudo, cortando-lhe o discurso. — Se o senhor é materialista, nunca nos entenderemos.

— Não, o que digo é que a alma recebe a paga que merece e, como o corpo não passa de uma espécie de casca, quando esta apodrece, não me assusta o materialismo de a pessoa virar pó.

— Sim... compreendido — disse o outro, ainda mais exaltado e acentuando o desagrado que sentia. — O senhor é da escola de meu irmão Juan Pablo: força e matéria. Ainda discutiremos isso. Eu exporei minha doutrina; que Juan Pablo exponha a dele, e veremos quem leva atrás de si a senhora humanidade.

Dizendo isso, girou sobre um calcanhar e saiu rapidamente, indo para seu quarto. A mulher foi atrás dele, muito aflita. Maxi sentou-se à mesinha onde tinha alguns livros e material de escrever. Apoiando a mão no ombro dele, a esposa olhou os garranchos que ele traçava com mão febril num papel.

— Eis aqui fixados os pontos capitais — balbuciava ele enquanto escrevia. — Solidariedade da substância espiritual. A encarnação é um estado penitenciário ou de prova. A morte é a libertação, o indulto, isto é, a vida verdadeira. Procuremos obtê-la depressa...

— Homem, descansa agora um pouco — disse-lhe a esposa, tentando tirar-lhe a pena da mão. — Já trabalhaste bastante hoje com esses cálculos tão difíceis... Amanhã continuarás... Não, não penses que me parece mal; eu te ajudarei a pensar... conversaremos sobre isso. Eu também raciocino.

Ao contrário do que esperava, Maxi não se irritou. Seu semblante tinha expressão seráfica; seus modos eram suaves, e ele mais parecia um antigo iluminado, cuja demência se elaborasse na solidão do claustro, que o insensato destes tempos, educado para o manicômio nos apetites febris da sociedade atual.

— Tu também raciocinas — disse-lhe com doçura. — Eu sei, tu pensas porque sentes; tu me compreendes porque amas. Pecaste, padeceste; pecar e padecer são dois aspectos de uma mesma coisa; por conseguinte, tens o sentimento da libertação... Usando uma parábola, os grilhões da vida te esfolam os pulsos.

Fortunata não entendeu patavina daquela cantilena, mas, para não contrariá-lo, respondia que sim.

— Quanto a padecer, não ficará por falta, porque toda a minha vida foi puro suplício... Mas agora não te ocupes mais disso.

Dona Lupe espiava pela abertura da porta entreaberta.

— Tu me ajudarás — prosseguiu Maxi, com lampejos de inspiração religiosa nos olhos abrasados —, tu me ajudarás a propagar esta grande doutrina, resultado de tantas reflexões e que não teria chegado a ser completamente minha sem o auxílio do Céu. O grande mistério da revelação renovou-se em mim. O que sei, sei porque me disse aquele que tudo sabe.

Percebendo então que a tia o observava, estendeu a mão para chamá-la e disse:

— Tia, entre... Aqui não falamos em segredo. A senhora também estará comigo na imensa... na imensa e dolorosa propaganda... Aliás, não consigo explicar, não sei como as senhoras deixam entrar aqui aquele materialista...

— D. Francisco!... Filho, que mal ele pode te fazer?

— Muito, tia, muito, porque todos os membros dessa seita infame não podem me ver nem pintado, e, se esse homem continuar entrando nesta casa com tanta confiança, poderá tentar desacreditar meu sistema, roubando antes minha honra.

E olhava para Fortunata como se procurasse no rosto dela a confirmação ou o apoio do que dizia. Ela compreendeu.

— Ele tem razão, tia... Que esse materialista não entre mais aqui.

— Pois não entrará, filho, não entrará... Ora. Eu lhe direi que vá com seu materialismo para os infernos.

— Estás te sentindo bem? Queres tomar alguma coisa? — perguntou-lhe a mulher com carinho.

— Sinto-me tão bem como nunca me senti, acreditem — disse ele, demonstrando no tom e no semblante a placidez da alma. — Desde que encontrei a fórmula tão procurada, parece-me que sou outro... Antes minha vida era um martírio; agora não troco de lugar com ninguém. Nada me dói, sinto-me bem e, para cúmulo da felicidade, não tenho vontade de comer nem de dormir...

— Pois é preciso que tomes alguma coisa.

— Não preciso... acreditem. Verão como não preciso. Se sou outro, se já não tenho carne nem a quero para coisa alguma. Só tenho o esqueleto, e ele basta para carregar a alma.

Os olhos de Fortunata se umedeceram. Pouco depois, quando saiu por um instante, encontrou Dona Lupe choramingando.

— Ele está perdido — disse-lhe a senhora de Jáuregui —, inteiramente perdido... Isto já não tem conserto.

viii

Naquela tarde, as duas pobres mulheres passaram momentos muito ruins. Ele ficou como que letárgico no sofá da alcova, ou, mais propriamente, em êxtase, pois tinha os olhos abertos e não parecia dar-se conta de nada do que acontecia ao redor. Fortunata pegou a costura e sentou-se ao lado dele, esperando para ver no que aquilo daria. Dona Lupe entrava e saía, soltando suspiros e fazendo beicinho de choro. Quando chegou a hora de comer, Maxi despertou um pouco, resistindo a tomar alimento. Elas não tinham vontade de provar bocado e insistiam para que ele o fizesse, empregando os mais estranhos meios de persuasão. Por fim, Dona Lupe obteve resultado com este argumento:

— Não sei como vais aguentar essa vida de trabalhos sem comer alguma coisa. Dizem que Cristo jejuava, mas não que ficasse dias e dias sem provar bocado. Ao contrário, sua instituição fundamental, a Eucaristia, ele a estabeleceu durante uma ceia...

Com isso, Maxi concordou em tomar um prato de sopa e um pouco de vinho; mas não conseguiram fazê-lo passar daí. Depois parecia mais exaltado. Tomando as mãos da mulher, disse-lhe:

— Eu não sou senão o precursor desta doutrina; o verdadeiro Messias dela virá depois, virá logo; já está a caminho. Aquele que tudo sabe me disse.

Fortunata não entendia palavra.

Dona Lupe mandou recado a Ballester, que foi vê-lo depois do anoitecer. O farmacêutico não sabia dominar seu gênio vivo e zombeteiro nem se mostrar tão habilidoso quanto o caso exigia e, embora Fortunata lhe puxasse as abas da sobrecasaca para que adotasse um tom mais conciliador, o maldito não conseguia se conter:

— Ora, veja o que ele inventa agora... Mas, homem de Deus, que lhe importa se a alma vem daqui ou dali? O que o senhor põe no bolso com isso? Acha que lhe darão alguma coisa pela descoberta? Anteontem o senhor me deu uma tremenda dor de cabeça com aquilo da coisa em si... Pois suponhamos que seja a coisa em não. Digo que isto é música pura: a coisa em si bemol. Ah, como a criatura é tolinha e metediça! Porque meter o nariz na eternidade deve ser coisa que aborrece muito a Deus. Ninguém gosta que fiquem espiando de perto e vendo o que faz ou deixa de fazer. Por isso Deus castiga todos os aduladores e intrometidos que lhe seguem os passos e contam suas rugas, tornando-os tolos. Portanto, tire o senhor a conclusão. Parece mentira que um homem que poderia ser o mais feliz do mundo, casado com esta pérola do Oriente e sobrinho desta tia, que é outra pérola, fique quebrando a cabeça com coisas que não lhe dizem respeito. Se ninguém há de lhe agradecer!... Enfim, se estas senhoras me autorizarem, eu o curo com extrato de freixo administrado em vergastadas, uso externo, pela manhã e à tarde.

Maxi olhava para ele com desdém e, vendo que suas zombarias não produziam o efeito costumeiro, o outro ficou mais sério e tomou outro rumo. Ao sair, acompanhado até a porta pelas duas senhoras, disse-lhes:

— Vou lhe dar hatchisschina, ou extrato de cânhamo indiano, que é maravilhoso para combater o abatimento do espírito, causa das ideias lúgubres e da mania religiosa. Efeito imediato. Vocês verão... Se for dado a um anacoreta, ele começa logo a dançar.

Como a nova fase do transtorno de Maxi era pacífica, tia e esposa ficaram na expectativa. À noite, ele não saía da cama e, embora fosse verdade que falava sozinho, fazia-o em voz baixa, no tom dos meninos que decoram a lição. Apesar disso, Fortunata ficava tão nervosa que não conseguia pregar os olhos a noite inteira, dormindo alguns períodos durante o dia. O enfermo já não ia à farmácia nem demonstrava vontade de ir a parte alguma, parecendo cair em profunda apatia e reconcentrar toda a existência no fervilhar silencioso e recôndito de suas próprias ideias. Fora das caminhadas que dava na sala de jantar ou na alcova, não fazia exercício algum e, depois da falta de apetite dos primeiros dias, veio-lhe uma fome voraz, que as duas mulheres consideraram bom sintoma. Ao fim de uma semana, manifestou vontade de sair; mas uma e outra procuraram dissuadi-lo. Estava tranquilo e, quando falava de algo diferente daquelas manias sobre a emanação da alma e a doutrina que iria pregar, exprimia-se com juízo e até graça. Pouco a pouco, os momentos de desvario tornavam-se menos frequentes, e ele passava longas horas completamente lúcido, tratando de qualquer assunto com discreta naturalidade. Fortunata fazia-o ajudá-la a estender a roupa ou a dobar meadas, e ele se prestava a tudo com submissão; Dona Lupe costumava encarregá-lo de acertar alguma conta, e com isso ele se entretinha, e ninguém o teria por danificado na parte mais delicada da máquina humana. No começo de setembro, tendo chegado a passar três dias sem mencionar em absoluto aquele galimatias da alma, as duas senhoras estavam muito alegres, confiantes em que o acesso logo passaria. Voltaram os passeios noturnos e, por fim, permitiram que saísse sozinho; ele retomou seus trabalhos na farmácia, cuidadosamente vigiado por Ballester.

Fortunata tinha, além disso, outros motivos de profundíssima tristeza. Aquele não lhe escrevera uma única carta, faltando à sua promessa solene. Ingrato! O que lhe custava escrever duas linhas dizendo, por exemplo: Estou bem e sempre te amo? Mas nada, nem sequer isso... Revelava essas tristezas à única confidente, Aurora, nos momentos de conversa saborosa que as senhoras mais velhas lhes permitiam. A inauguração da loja de Samaniego, realizada por volta de 15 de setembro, deixara a viúva de Fenelón muito ocupada naqueles dias. Poucas vezes se vira num comércio de Madri tanto movimento ou sinais mais claros de que conquistara o favor e a atenção do público. As novidades de gosto requintado, trazidas de Paris por Pepe Samaniego, atraíam muita gente, e as senhoras se apinhavam e caíam como moscas no mel. Os empregados não tinham mãos suficientes para mostrar os artigos, e Aurora estava exausta de trabalho, porque as encomendas de trousseaux e enxovais se sucediam sem interrupção. Dona Casta não ficava tranquila no dia em que não ia meter o nariz na loja e na oficina, para depois contar a Dona Lupe as encomendas que havia e o que estava sendo feito para a Casa Real e outras casas que, sem serem reais, tinham muito dinheiro. Fortunata ia pouco, por iniciativa própria e também por conselho de Aurora, pois não convinha que a vissem ali as Santa Cruz, que frequentavam muito a oficina e a loja.

Aos domingos, as duas amigas passavam juntas toda a tarde na casa de uma ou de outra, comendo doces e contando coisinhas, sentadas à varanda, vendo as idas e vindas do crítico da rua de los Tres Peces à de la Magdalena. Talvez lhe faltasse critério, mas pernas, isso ele tinha...

Num dos últimos domingos de setembro, a Fenelón levou à outra uma notícia importante:

— Eles chegam amanhã. Hoje Candelaria esteve limpando a casa toda.

O que Fortunata sentiu foi uma combinação de tristeza e alegria que não a deixava falar. Porque, embora desejasse que ele voltasse, ao mesmo tempo tinha pressentimentos de nova desgraça. Veja só, não lhe escrevera nem uma única linha, nenhuma sequer...! Aurora concordava que era uma grande patifaria. Depois que fizeram os comentários próprios do caso, a Fenelón disse à comparsa algo mais, que foi ouvido com extraordinária curiosidade e atenção:

— Acreditas que uma coisa me entrou na cabeça?... Não deve ser nada; mas bem poderia ser. Ontem Dona Guillermina esteve na loja. Pepe lhe prometera uma quantia para sua obra, caso a inauguração fosse bem, e nada... ela se plantou ali para cobrar... Pois, falando da família, disse que o primo Moreno também chega amanhã com eles. Foi com eles e com eles volta. Sei que passaram o verão em Biarritz e depois foram todos a Paris... O que te parece? O primo Manolo só vem à Espanha, por exemplo, no inverno; nunca veio em setembro. E esse grudar-se à família Santa Cruz, ele, que gosta de andar sempre sozinho! Não deve ser nada; mas há tantas coisas que parecem impossíveis e depois acontecem! Antes de partirem, pareceu-me, por certas coisas que vi e ouvi, que o bom homem gostava demais de Jacinta. Será que há alguma coisa...! O que te parece?

Fortunata estava absorta e como aparvalhada. Parecia-lhe incrível o que a amiga contava.

— Porque essa perseguição é muito estranha! Sempre com eles... um homem que não faz ninho em parte alguma...! Não sei, não sei. Haverá alguma coisa?... O que te parece?

— Pois... — disse a senhora de Rubin, pensando muito —, parece-me que não.

— Pois, se houver alguma coisa, não me escapará, porque estou ali, como quem diz, em minha guarita de vigilância. Da janela de meu entressolo, vejo as varandas envidraçadas da casa dos Santa Cruz e as de Moreno. Se houver telégrafos, conta que apanho o jogo deles... O que te parece... Haverá...?

— Parece-me que não — tornou a dizer Fortunata, pensando cada vez mais.

ix

A notícia do regresso dos Santa Cruz, que lhe foi comunicada por Casta, avivou na viúva de Jáuregui o desejo de empreender sua campanha reparadora em favor da sobrinha. Apanhou-a bem a jeito naquele dia e lhe impingiu outra peroração:

— Agora ou nunca. O inimigo às portas. Estou às tuas ordens, caso queiras conselhos ou um plano de defesa completo.

Dito isso, procurou meter-lhe os dedos na boca para sair da dúvida sobre se ela recebera ou não alguma quantia avultada das mãos do amante.

Fortunata não afastava os olhos da roupa que remendava.

— Compreendo — expôs a senhora em tom parlamentar — que tenhas acanhamento para me confessar certas coisas e, de minha parte, sou franca contigo: não te considero pior do que és; não acho, como outras pessoas poderiam achar, que tua fraqueza seja interesseira, que ames esse homem por ele ser rico e que não o amarias se fosse pobre. Não, não te faço essa injustiça... para que vejas. Tenho certeza de que, arrastada como és, louca e sem um pingo de juízo, tuas faltas nascem do amor, não do interesse; e os mesmos disparates que fazes por um homem poderoso, que te dá grandes quantias, farias se ele fosse um pobre-diabo e tivesses de comprar para ele um maço de cigarros.

— O que a senhora está dizendo aí sobre grandes quantias? — perguntou Fortunata, olhando-a com surpresa e quase começando a rir.

— Não, não se trata de me dizeres a cifra exata. Guarda-a para ti... faz o favor... pois certas coisas é melhor ficarem por dentro. Não vás pensar que pretendo que me entregues esses capitais para eu aplicá-los... Não, saberás muito bem te administrar...

— Mas o que a senhora está dizendo... senhora?...

— Não, eu não digo nada. Acredita, me repugnaria administrar esses fundos.

— Mas que fundos, nem que...? A senhora está sonhando.

— Ora... ainda vais querer que eu engula essa pedra de moinho maior que esta casa. Ainda vais querer me fazer acreditar que ele não te dá...!

— A mim!

— Não me faças de tão tola...

— Não sei de onde a senhora tirou... Para que saiba de uma vez: não tenho nada. Ele me daria se me visse necessitada. Já me ofereceu... mas eu não quis aceitar.

Dona Lupe estava prestes a soltar-lhe outra saraivada.

“Bela paspalhona me saíste, grandíssima idiota. Nem para te perder sabes servir.”

Mas conteve-se e engoliu a ira, desabafando-a depois em agitado solilóquio:

“Nunca vi outra igual. Não tem vergonha nem senso comum. Que canalha e, ao mesmo tempo, que besta! Se houvesse um Inferno para os tolos, era para lá que devias ir de cabeça.”

Maximiliano voltava lentamente à vida regular, o que não quer dizer que aquela ideia lhe tivesse saído da cabeça. Transformara-se e, assim como nas crises hepáticas há derramamentos de bile, naquela crise mental parecia ter ocorrido um derramamento de sentimentos. Já não era apenas pacífico, mas terníssimo, e seus afetos haviam se refinado como o licor que passa pelo alambique. As fórmulas de carinho que usava com a tia e a mulher eram extraordinariamente suaves e até enjoativas; afligia-se quando causava algum incômodo e, agradecendo muito os cuidados que lhe dispensavam, evitava-os quanto podia. Começava nele certa tendência a impor-se privações e sofrimentos, e a mortificação, que antes o revoltava por mais leve que fosse, agora lhe agradava. Se, durante a conversa ou naquelas polêmicas que mantinha com a família às horas das refeições, escapava-lhe uma palavra mais alta que outra, logo sentia remorsos de tê-la pronunciado e, se não a retirava, pedindo perdão, era porque a timidez lhe punha freio.

Um dia, porque Papitos não lhe limpara as botas, precisou dizer-lhe:

— Ora, esta menina... Tu vais ver!

E, ao sair de casa, sentiu tamanha tristeza por ter se exprimido com impaciência e ardor que faltou pouco para derramar uma lágrima.

“Quando perderei este hábito vicioso de ultrajar os humildes!... Que diferença faz as botas estarem ou não engraxadas? Quem deve ter brilho é a alma, não o calçado. Parece mentira que nós, humanos, demos tanto valor a essas ninharias. Fui injusto com a pobre menina! Criatura inocente e angelical! Sou um animal... Mas quem, abaixo das estrelas, entende e pratica a justiça? Aquele que é tido por justo comete setenta e duas barbaridades por dia. Dá trabalho livrar-se desta sarna moral herdada, com a qual se nasce e se vive até chegar a hora da libertação.”

— O que o senhor traz aí entre as sobrancelhas? Pego a vara? — disse-lhe Ballester, com aquela dureza que era, segundo ele, o tratamento mais eficaz. — Porque hoje me parece que chegamos muito evangelísticos. Cuidado. O senhor já sabe como eu procedo.

— Bata em mim. Não me importa — respondeu Maxi, deixando o chapéu no cabide. — Eu mereço, como merece toda pessoa que se zanga porque não lhe limparam as botas. Que humanidade tão imbecil! Amigo Segismundo, como é bela a morte!

— Se tornar a me dizer que a morte é bela — respondeu o outro, pegando a vara e brandindo-a comicamente —, encho seu corpo de galos. Dizer que é bonita aquela tarasca, aquele espantalho, mais feia que a fome! Olhe-a ali, olhe-a ali, com aquela cara que dá nojo... olhe-a, e, se disser que é bonita, eu o pulverizo.

Apontava para um emblema pintado no teto da farmácia, no qual estavam decorativamente combinados a serpente de Esculápio, a ampulheta do Tempo, um alambique, uma retorta, o busto de Hipócrates e uma caveira.

— Se quiser contemplar toda a graça do mundo, olhe para mim — disse Ballester, que, deixando a vara, deu uma volta, segurando as abas da sobrecasaca. — Estou bonito, sim ou não?

Ballester exibia naquele dia pantufas novas, estreava um traje de lanilha dos mais baratos e fora ao cabeleireiro, onde, depois de lhe cardarem a cabeleira, haviam-na enrolado com tenazes.

— Ora, o senhor está elegante — disse Maxi, pondo-se a pesar umas doses para pílulas.

— Pois amanhã estarei ainda mais. Amanhã minha irmãzinha se casa com Federico Ruiz, um rapaz de muito talento. O senhor o conhece? Os jornais, que falam constantemente dele, põem sempre antes de seu nome algum epíteto muito saboroso. Agora o chamam o distinto pensador. Aposto que não chamam o senhor assim, apesar de tudo quanto pensa. Porque o senhor não pensa com juízo, e ele, sim.

À noite estavam na farmácia, além de Ballester, os dois práticos Padilla e Rubin. Quando o célebre crítico apareceu na calçada em frente, Segismundo foi acometido daquela ira cômica que lhe produzia a visão de personagem de tão indubitável importância na república das letras.

— Esse cavalheirinho está atravessado na boca de meu estômago — dizia —, sobretudo desde que elogiou aquela peça tão ruim, estreada neste inverno, dizendo que nela se propunha o problema, e sei lá o quê. Vocês verão: é aquele dramazinho moral em que se recomendam o casamento e os bons costumes; pelo que se vê ali, todos nós, solteiros, somos uns patifes; e, porque um jovem volta tarde para casa e gasta alguns duros em aventuras amorosas, chamam-no de monstro e o pai o amaldiçoa... Há uma cena em que todos desmaiam, porque aparece um sujeito muito mau, que vem a ser um homem dedicado à ciência, e este declara, com a maior desfaçatez, que não acredita em Deus, ainda que o fuzilem. Resultado: quando vi a peça representada, pensei que engoliria todos os eméticos de minha farmácia. A moral da obra é que sem religião não há felicidade, e por isso este anjo de Deus, que é o alcaloide da cafonice, a ergue às nuvens.

Caiu a noite, e Ponce se aproximou para telegrafar com a amada. Da varanda descia uma corda, à qual o jovem atava um papel.

— Está mandando o último artigo — disse o regente aos amigos, espreitando à porta da farmácia. — Agora a corda desce com um doce... Como ontem à noite, igualzinho a ontem. Vocês verão, verão a brincadeira que preparei para ele.

Com nervosa rapidez, foi aos fundos da farmácia e tirou da gaveta um objeto do tamanho de uma gema doce, branco e de aparência açucarada. Padilla desmanchava-se de rir, e Maxi observava com atenção simpática.

— Mas é preciso que vocês me ajudem. Tu, Padilla, que o conheces, sais, finges encontrá-lo por acaso, falas de literatura dramática, entreténs o sujeito um pouco, fazendo-o virar o rosto para lá; e, enquanto isso, eu, com muitíssima dissimulação, escorrego encostado à parede no momento em que o barbante desce com o doce. Tiro a gema, entendem?... e ponho esta. Fiz ontem à noite. É estricnina, na dose que se dá aos cães, com o sabor bem neutralizado pelo alcaçuz e revestida de açúcar. Ele come e estoura como um traque.

Padilla partia-se de rir, e Maxi levava aquilo na brincadeira.

— Homem, matá-lo, não — disse Padilla. — Se tivesses feito de jalapa, escamônia ou coisa semelhante...

— Não, rapaz; o que quero é que ele estoure... Irei para o presídio... estou perdido. E daí? Não o perdoo... Ultrajar os homens de ciência e os solteiros!

Levando a brincadeira até o fim, Ballester teimava que a gema estava envenenada; mas, como o outro recusasse cumplicidade naquele homicídio, o exaltado farmacêutico cedeu, dizendo que a bolinha era de açúcar com óleo de cróton, o derivativo drástico por excelência. Maxi, que o ajudara a fazê-la, sorria. Como nesses ditos e contraditos se passou bastante tempo, quando Ballester quis executar a pilhéria, o fio já descera com uma gema de coco, e o crítico a estava comendo. O outro consolou-se pensando que em outra noite consumaria sua trágica vingança.

— Ele ainda vai comê-la... — disse, guardando a bola. — Por meu nome ser Segismundo, ele ainda vai engoli-la, e então direi como meu homônimo: “Por Deus, que bem poderia ter sido!”

x

Naquela noite, quando Maxi subiu para jantar, encontrou a mulher um pouco doente. Doía-lhe a cabeça, e ela sentia náuseas. Dona Lupe, que a observava sempre, via em seu mal um pretexto para esconder da família as tristezas que a consumiam.

“O que tens”, pensava, “é a ânsia de atender ao chamado. Estás lutando contigo mesma. Queres ir e não te decides.”

Algo disso devia haver, pois Fortunata se meteu na alcova, recusando-se a tomar alimento. Maximiliano não insistia para que comesse, pois interpretava aquela atitude da mulher como inclinação às privações, início do aniquilamento ou apetite de morte e libertação. Dona Lupe, fatigada de lutar com tanta insensatez de uma e outra parte, retirou-se, deixando-os sozinhos e dizendo:

— Façam o que quiserem. Arranjem-se como lhes agradar. Estou exausta.

Jantou sozinha e mandava-lhes algum prato por Papitos, que voltava quase intacto. Depois entrou por um instante na alcova para perguntar como estavam e foi descansar.

— Não posso mais suportar esta vida de cão — dizia. — Deus tenha compaixão de mim.

Fortunata teria desejado que o marido adormecesse e a deixasse em paz. Mas ele não parecia disposto a lhe fazer esse favor. Apresentava-se bastante loquaz naquela noite, o que a desagradou muito, pois poucas vezes sentira menos vontade de conversar. Pouco depois de se deitar, percebeu que o marido, sentado diante da mesa onde estava a luz, tirava do bolso um pacote, depois outro, objetos embrulhados em papéis, e os punha diante de si, como um homem que se prepara para trabalhar. O leve ruído estridente que o papel produz ao ser desdobrado, som ampliado pelo silêncio da noite, incomodava Fortunata, atraindo sua atenção. A primeira coisa que Maxi fez foi tirar de um embrulho de tamanho regular uma multidão de pacotinhos muito bem dobrados, como os que em Farmácia se chamam papelotes, forma em que se dividem e vendem as doses de medicamentos em pó. Depois, porém, a jovem o viu desembrulhar outro pacote de formato comprido e... Ai, meu Deus, era uma faca!... Ele ficou contemplando-a por algum tempo de um lado e de outro e aproximava a ponta do dedo da lâmina para experimentar se estava bem afiada. A esposa sentiu suor frio por todo o corpo... Não conseguiu se conter e, como quem desperta um adormecido para livrá-lo dos falsos horrores de angustioso pesadelo, disse-lhe:

— Maxi, filho, o que estás fazendo?

Ele olhou-a com grande tranquilidade.

— Pensei que estivesses dormindo. Não tens sono? Pois conversaremos sobre coisas agradáveis.

— Como quiseres. Mas é melhor te deitares e deixares as coisas agradáveis para amanhã.

— Não... com certeza vais gostar do que tenho para te dizer. Espera um pouco.

Recolheu todos os pacotes e a faca e, passando para a cadeira junto à cama, pôs tudo sobre a mesa de cabeceira.

— Ahá... Agora verás — disse, sorrindo carinhosamente, como quem se dispõe a dar à pessoa amada a surpresa de um presentinho. — Isto, como vês, é um punhal.

Fortunata estremeceu como se a lâmina fria lhe tocasse a carne e começou a bater os dentes.

— Comprei-o hoje na loja de espadas da rua de Cañizares. Aqui diz: Toledo, 1873. É bonito, não é? Há dias venho pensando em qual é a melhor maneira de fazer à alma o grande favor de mandá-la para o outro mundo. O que te parece? Não decido nada sem teu conselho; e aquilo que preferires, eu também preferirei.

A infeliz mulher estava tão apavorada que mal conseguia falar.

— Guarda isso, por Deus... Olha que me dá muito medo.

— Medo! — exclamou ele com assombro e desconsolo. — Pois eu pensei ter conseguido infundir em ti minha ideia e que ela já te fosse familiar. Medo da morte, isto é, medo da liberdade e amor ao calabouço! Agora me vens com essa? Se a primeira coisa, já te disse mil vezes, é olhar a morte como o fim dos padecimentos, como os infelizes que lutam contra as ondas, agarrados a um pedaço de madeira, olham para a praia.

— Não, não tenho medo — disse ela, desejando tranquilizá-lo, porque percebeu que ele se exaltava. — É que... essas coisas é melhor deixar para o dia. Agora, vamos dormir.

— Dormir!... Aí tens outra tolice. Dormir, e o que se ganha dormindo? Embrutecer, esquecer-se do principal, que é o desprendimento e a evasão. Minha querida, ou estás comigo ou estás contra mim; decide depressa. Estás disposta a pegar a chave da porta e fugir comigo? Sim? Pois a primeira coisa é não ter horror à morte, que é a porta, estar sempre olhando para ela e preparar-se para sair por ela quando chegar a hora feliz da libertação.

Fortunata cobriu-se bem, porque sentira ainda mais frio. Ai, que medo tão grande!

— O momento da libertação é aquele em que a pessoa se considera suficientemente purificada para enfrentar a passagem de um mundo a outro e dar esse passo por si mesma. As religiões dominantes proíbem o suicídio. Como são tolas! A minha o ordena. É o sacramento, é a aliança suprema com a divindade... Pois bem; as pessoas que, por meio da anulação social e cultivando a vida interior, chegam a se purificar compreendem por seu próprio sentido quando chega o momento de partir. A libertação não deveria chamar-se suicídio. A melhor expressão é esta: matar a besta carcereira. Chega um momento em que a alma já não pode suportar a escravidão e precisa se soltar. Como? Olha.

Fortunata tremia, pensando se deveria se levantar para chamar Dona Lupe.

— Isto é um punhal... bem afiado... É preciso ter em conta que a besta se defende, por mais abatida que esteja. A carne é carne e, enquanto tem vida, faz o favor de doer. Por isso convém que a libertação se dê com a menor dor possível, porque a própria alma, com toda a sua fortaleza, se acovarda, sente pena da besta carcereira e intercede por ela. Presta bem atenção e, se não gostas da arma branca, dize-me com franqueza. Preferes arma de fogo? Os tiros podem falhar, e então a alma se impacienta; às vezes a bala não toma a direção conveniente e a besta fica meio morta, com metade do corpo morto e metade vivo. Por isso trago aqui os meios tóxicos, que são silenciosos e seguros.

Começou a mostrar aqueles papelotes tão bem-feitos e dobrados, nos quais escrevera com letra claríssima o nome de cada droga. Fortunata olhava-os com terror indizível e tapava o nariz e a boca, temendo que, ao respirar aqueles ingredientes, pudesse envenenar-se.

— Vai tomando conhecimento. Esta substância que vês aqui, branca e em cristalzinhos, é estricnina... Morte certa e tetânica, que produz muita angústia, por isso não a recomendo. A atropina é esta, e esta, a cicutina. Vês? Pós brancos. A cicutina tem uma vantagem: foi com ela que o senhor Sócrates se libertou, o que a torna venerável. Ambos são venenos virosos, isto é, a pessoa adormece e termina durante o sono. Mas pergunto a mim mesmo: nas trevas do sono, os coices da besta não produzirão martírios horríveis? O que te parece? Preferiremos a digitalina, que mata por asfixia? Ou nos decidiremos pelos mercuriais? Olha-os aqui: o iodeto de mercúrio, vermelho; o cianeto de mercúrio, branco. Também tenho um preparado de fósforo, que mata por envenenamento do sangue. Mas o bom está aqui, olha; o verdadeiro olho de boticário, a bênção de Deus. Isto, sim, mata, e depressa. Vês este pó cinzento? É a gelsemina, maravilha da intoxicação. A besta estremece só de vê-la, porque sabe que com isto não há brincadeira. Morte instantânea.

— Basta, basta — disse Fortunata, que já não conseguia resistir. — Se não guardares tudo isso, levanto-me e vou embora.

Ele olhou-a com um semblante em que se pintavam um desconsolo sinistro e um assombro compassivo. Aquele olhar aumentou-lhe o medo e, compreendendo que era forçoso dissimulá-lo, acariciando a mania para evitar qualquer barbaridade, disse-lhe:

— Tudo está muito bem... eu compreendo... Claro, é preciso matar a besta. Mas, se queres que eu te ame, será com a condição de não me trazeres venenos aqui...

— Ah, está bem... Se preferes armas de fogo... Mas, nesse caso, é preciso treinar. Tu precisas morrer primeiro, depois eu... E se meu tiro falhar, eu ficar vivo, chegar gente e me segurarem...?

— Não, filho, não; cada um pega uma pistola, e um aponta para o outro como nos duelos... Dá-se o sinal, pum!, e verás como ficam as duas bestas.

Maximiliano meditava.

— Tua solução não me parece muito praticável.

— Sim, homem, sim, digo que sim. Faz-me o favor de pegar todos esses pós e jogá-los pela janela para o pátio. Não, será melhor embrulhá-los num pacote e me dar; eu os guardarei. Prometo guardá-los. Mas o quê, desconfias de mim?... Obrigada, homem.

De fato desconfiava, porque, quando ela estendeu as mãos para pegar os papelotes, ele acudiu a defendê-los como se defende uma propriedade sagrada.

— Espera, espera; deixa isto aqui. Eu guardarei...

— Está bem, põe no gavetão da mesa de cabeceira, e também a faquinha. Prometo não tocar em nada.

— Juras?

— Juro... Até parece que já te enganei alguma vez. Que coisas tens!... Mas hás de te deitar...

— Não tenho sono, graças a Deus. Quando durmo um pouco, sonho que sou homem, isto é, que a besta me amarra, me açoita e faz comigo o que bem entende... Infame carcereiro!

Impaciente, Fortunata lançou-se às decisões que os casos graves exigem. Saltou da cama como estava e, quase à força, misturando carinho com autoridade, como se faz com crianças, obrigou-o a deitar-se. Tirou-lhe a roupa, pegou-o nos braços e, depois de metê-lo na cama, abraçou-o, prendendo-o e embalando-o até que adormecesse. Dizia-lhe mil disparates referentes à libertação, à beleza da morte e à bondade de matar a besta carcereira.

— A cada besta chega seu São Martinho — repetia, com outras frases que teriam sido humorísticas se as circunstâncias não as tornassem lúgubres.

Ela dormiu muito pouco. Ao amanhecer, vendo-o em profundo letargo, levantou-se cautelosamente e lançou mão do punhal e dos papelotes. Escondeu o primeiro e esvaziou todo o conteúdo dos segundos sobre um jornal, misturando tudo num cartucho para levar a Ballester. Com a ajuda de Dona Lupe, que se horrorizava ouvindo o relato do que acontecera na noite anterior, puseram em cada papelzinho uma quantidade proporcional de sal ou açúcar moído e, dobrando-os bem como estavam, tornaram a colocá-los na mesa de cabeceira. A primeira coisa que ele fez ao despertar foi verificar se lhe haviam tirado o tesouro e, estranhando não encontrar o punhal, a mulher lhe disse:

— O punhal, guardei eu... É lindíssimo. Fica tranquilo, não o perderei. Tens ou não confiança em mim? Quanto a esses pós, encarrega-te tu de guardá-los e, se chegar a hora, homem, não serei eu quem fará cara feia, porque, pensando bem, para que serve esta vida?... Estamos bem arranjadas; sempre sofrendo, sempre sofrendo! Espera que espera, e cada dia uma desilusão... Garanto-te que viver é uma brincadeira de mau gosto.

— Dá-me um abraço — disse-lhe Maxi, lançando-se sobre ela meio vestido. — É assim que te quero. Tu sofreste, tu pecaste... logo és minha.

E, como naquele momento a tia entrasse trazendo-lhe o chocolate, ele foi até ela, de ceroulas, com a intenção de abraçá-la, dizendo:

— A senhora também sofreu, a senhora também pecou, querida tia.

— Pecar, eu!...

— E a senhora é dos meus.

— Tudo o que quiseres, contanto que tomes agora este chocolatinho.

— Vou tomar, vou tomar, embora não tenha apetite. Dê cá... Só para cumprir o dever.

— Dizes bem; uma coisa é enamorar-se da morte, outra é cumprir nossas obrigações enquanto não chega o momento — disse Dona Lupe com naturalidade. — Quanto a mim, posso te dizer que estou farta da vida, mas fartíssima, e, se ainda não tomei uma decisão, é porque uma pessoa tem tanto que fazer que não lhe sobra tempo nem para pensar no que lhe convém. Mas vamos acertar isso, filho, e podes contar comigo para dar uma cabeçada na besta quando ela menos esperar. Já não consigo suportá-la.

Tia e esposa, dissimulando a tristeza, contemplavam-no enquanto tomava o chocolate, admiradas de que o bebesse com gosto. Quem tinha vontade era a besta, não ele.

xi

Por volta das dez, Fortunata saiu para levar a Ballester o pacote de substâncias venenosas.

— Aí está o que seu amigo preparava para nós — disse-lhe com aspereza. — Que belo cuidado o senhor tem! Veja o que ele levou para casa...

Ballester examinava as terríveis drogas... Depois ficou muito sério.

— A culpa é daquele tolo do Padillita. Não sei como permitiu que ele mexesse nisto. Fique tranquila, hoje darei uma boa descompostura nele. O melhor será que seu marido não trabalhe mais aqui; qualquer dia nos mete numa complicação... Mas sente-se...

Ao lhe oferecer uma cadeira, Ballester parecia ter especial cuidado em mostrar as botas novas, resplandecentes; em fazer Fortunata admirar sua sobrecasaca e a cabeleira frisada a ferro, que exalava forte cheiro de heliotrópio. Ela reparou em tudo e o demonstrou com um sorriso malicioso.

— A senhora está rindo de como fiquei bonitão hoje, não é? Acostumada a me ver feito um cavador... Pois vou lhe dizer: hoje minha irmã se casa com aquele a quem chamam o distinto pensador, Federico Ruiz. Vou ao casamento e esta noite lhe trarei os doces.

Fortunata voltou ao assunto:

— É preciso tomar uma decisão. Os remédios que o senhor lhe dá não fazem efeito algum. Hoje minha tia e eu conversamos. Antes de levá-lo a um manicômio, é preciso experimentar outro medicamento. O senhor não se decide a dar aquilo que disse?... Não lembro como se chama... aquilo que soa como um espirro...

— Ah, o hatchiss... vamos prepará-lo. A senhora manda nesta casa... é a dona, e manda em mim; e, se me pedir uma cataplasma feita com picadinho de meu coração, eu a preparo imediatamente.

— O senhor já começa com suas brincadeiras?

— E agora é minha vez de lhe pedir um favor...

— Diga.

— Esta noite trago os doces do casamento. Mando uma parte para o segundo andar e deixo outra aqui para os amigos que vierem. A senhora irá lá para cima, à casa de Dona Casta, ou virá aqui?

— Subiremos... Se passearmos, talvez entremos aqui. Depende de como ele estiver.

— Está bem; esta noite meu amigo, o crítico, virá. Padilla o convidará a entrar e lhe oferecerá doces. Quero que ele coma um que tenho aqui preparado para ele... A senhora não sabe quanto o odeio.

Fortunata, que estava com a cabeça aquecida por ideias de envenenamento, assustou-se.

— Mas que diabo o senhor vai dar àquele infeliz? Ele é um bom rapaz.

— Nada, não se assuste... É apenas um derivativo... A graça consiste em Dona Casta depois convidá-lo a subir e ele subir...

— Não seja bruto. É um rapaz muito bom! Disseram-me que sustenta a mãe...

— Sustenta a mãe! Pois ela estará muito bem servida. E com que ele a sustenta? Com os artigos?

— Pagam-lhe dois duros por cada um. Veja só. E ele faz quatro toda semana.

— Belo negócio, belo negócio... Mas, enfim, ainda que sustente a mãe, a avó e toda a família e seja um excelente rapaz, quero lhe pregar esta brincadeira inocente. A senhora fará o favor que lhe peço?

— Qual?

— Não lhe peço que me dê um beijo, porque, se pedisse esse pedaço da glória, a senhora não me daria e, se desse, teriam de me pôr imediatamente nas mãos do amigo Ezquerdo... Minhas aspirações limitam-se hoje, querida amiga, a que a senhora, se estiver aqui quando entrar esse menino ilustrado, lhe ofereça a gema que preparei. Se for a senhora quem der, ele não desconfiará... Além disso, a senhora dirá a Dona Casta ou a Aurora que o convidem a subir para ouvir a peça...

— Saia daqui... Não me meto nessas intrigas. Pobre rapaz! Fico do lado dele. Como o senhor é mau!

— Mais má é a senhora... Em paga de sua infâmia, vou lhe dar uma boa notícia.

— Notícias para mim?...

— E tão boa que terá para a senhora sabor melhor que os doces que mandarei esta noite... Ai, uma coisa me consola, minha amiga: se a senhora é ingrata comigo, também é com outros. Mal de muitos...!

— O que está dizendo?

— Ora, alguém bem passeia pela sua rua... E a menina sem aparecer em parte alguma. O menino quase quebrava o pescoço olhando para as varandas, e a senhora o atormentando com sua ausência. Pobre senhor!... A tarde inteira subindo e descendo a rua...

Fortunata empalideceu e, com a maior seriedade do mundo, deixou-se perguntar:

— Quem... e quando?...

— Não se faça de tola... Pois ontem à tarde, quando se retirou, estava com uma cara de mau humor... Nunca ninguém recebeu um chá de cadeira daqueles. Eu olhava para ele e dizia comigo: “Bem feito... Aguenta, seu trouxa... Somos todos iguais.” Quer que lhe dê um conselho? Trate-o com rédea curta. Que suspire, que passeie, que tire as medidas da rua. Toda a amargura não há de ficar para mim... Quer outro conselho? À senhora convém um coração como este que tenho aqui guardadinho, virgem, acredite, virgem. Aceite-o e deixe de amar ingratos...

Fortunata ficara tão inquieta que já não ouvia as amorosas confidências do farmacêutico. «Adeus, adeus», disse, levantando-se. «Tenho de voltar para casa.»

— Vamos ver... E, se ele voltar esta tarde, o que lhe digo?

— Deixe-se disso... — indicou ela, correndo para a porta, e o outro atrás.

— O que lhe digo?... Porque, embora nunca tenha falado com ele, falarei, se a senhora mandar. Digo-lhe que não apareça mais por aqui?... Ai, que mulher! Lá vai como uma flecha. Está tocada, tão tocada quanto o marido... Tudo por não se apaixonar por um homem digno, como, por exemplo... este seu criado. Ah, Segismundo, paciência. Imita os pescadores de anzol; espera, espera, que no fim ela morderá a isca.

Dona Lupe, quando a sobrinha entrou bastante ofegante por ter subido a escada depressa demais, admirou-se de vê-la tão alegre. «Deus sabe», disse consigo; «Deus sabe por que os tempos estarão tão divertidos... Provavelmente esta saidinha, sob o pretexto de levar os pós a Ballester, foi para vê-lo... Ele lhe diria que passaria a tal hora... E como ela vem corada! Sem dúvida houve esfregação de focinhos no portal.»

Maxi continuava tranquilo. Parecia mais um convalescente que um enfermo. Estava muito fraco e não desejava outra coisa senão sentar-se junto às vidraças da sacada do gabinete, contemplando os transeuntes com olhar incerto. Isso não agradava nem um pouco a Fortunata, porque... «se o outro resolver passar também esta tarde e Maxi o vir, vai ficar muito agitado». Por esse motivo, ela esteve inquietíssima e, a todo instante, assomava à sacada e tornava a entrar, procurando fazer com que o marido se sentasse em outro lugar. Mas o outro não resolveu passar naquela tarde. O que fez foi mandar um recadinho à amiga, tirando-a do purgatório de incerteza e tristeza em que se encontrava. Servia de Celestina para essas comunicações a tia de Fortunata, Segunda Izquierdo, que, em maio último, se apresentara a ela miserável e chorosa, pedindo-lhe uma esmola. Desde então ia ali todas as semanas, e a sobrinha a socorria, ora com dinheiro, ora com sobras de comida ou alguma peça de roupa.

Santa Cruz também a amparava, e ela se valia de sua mendicância para introduzir na morada de Rubin as mensagens de amor; e fazia-o com tal astúcia que a sagaz Dona Lupe não desconfiava de nada. Pois naquela tarde, depois de muito tempo entrando ali de mãos vazias, pôs nas mãos de Fortunata um bilhetinho. Enfim, oh, felicidade inacreditável!... Quando pôde, a feliz mulher leu o papelzinho, no qual lhe marcavam hora e lugar para o dia seguinte.

À noite foram todos à casa de Dona Casta, que tomou Maxi a seu cargo, prodigalizando-lhe mil cuidados, oferecendo-lhe guloseimas e procurando refrescar-lhe o cérebro com uma plácida dissertação sobre as águas de Madri e sobre as propriedades que distinguem as da Acubilla, do Abroñigal e da Fuente de la Reina das de Lozoya.

A viúva de Fenelón chegou à hora de costume, e pouco depois subiu o moço da farmácia com a bandeja de doces enviada por Ballester. Não tardaram a aparecer o senhor e a senhora do terceiro andar à direita. Ele, por uma dessas ironias tão comuns na vida, era o homem mais grave, seco e desagradável do mundo, parteiro de profissão, e chamava-se D. Francisco de Quevedo (irmão do capelão militar Quevedo, que conhecemos na tertúlia do café, junto com o Pater e Pedernero). Sua mulher rivalizava em elegância com uma boia das que ficam ancoradas no mar para que nelas se amarrem os barcos. Seu andar era difícil, lento e pesado e, quando se sentava, não havia meio de se levantar sem ajuda. O rosto redondo lembrava um lampião de prefeitura ou de Casa de Socorro, porque era vermelho e parecia ter uma luz por dentro; tamanho era o seu brilho. Pois Ballester chamava essa monstruosidade de Dona Desdêmona, por ser ou ter sido Quevedo muito ciumento, e com esse apelido a designarei, embora seu verdadeiro nome fosse Dona Petra. O casal não tinha filhos, e, enquanto D. Francisco passava a vida trazendo à luz os filhos dos outros, sua esposa chocava e criava pássaros, para o que tinha muito boa mão. A casa estava cheia de gaiolas, e nelas se reproduziam diversas famílias e espécies de aves canoras. E, para cúmulo dos contrastes, a mulher do parteiro era engraçadíssima e contava as coisas com muito sabor. Em compensação, D. Francisco de Quevedo não tinha mais graça do que poderia ter um jacaré.

xii

Aurora e Fortunata, depois de cumprirem por algum tempo as obrigações da visita, rindo das graças de Dona Desdêmona, foram para a sacada. A viúva tinha de contar à amiga algo de grande importância e começou imediatamente o segredo. «Já não me resta dúvida. A coisa é certa. Sabes que o primo Moreno não sai da loja? Vai para lá de manhã e não tira os olhos do portal dos Santa Cruz, espreitando quem entra ou sai. O grande tolo, como disfarça mal! Parece mentira que um homem da idade dele perca assim a cabeça... porque já anda perto dos cinquenta; um homem doente... porque os médicos dirão o que quiserem, mas qualquer dia ele faz crac... E que prova maior de seu embrutecimento do que estar aqui?... Por que não vai para o estrangeiro como nos outros anos? Belo pássaro ele me saiu. Vê só; um homem, por exemplo, que poderia ter feito a felicidade de qualquer moça honrada, agora se vê sem amor, sem família própria, sozinho, triste... Ah, eu o conheço bem: é um dissoluto, um imoral, um corrompido. Só gosta de mulheres casadas. Ele mesmo me disse... disse a mim.»

— Mas tu...?

— Espera, vou te contar — disse Aurora com cautela, certificando-se de que nenhum curioso se afastava da roda para espioná-las. — Pois esse primo Moreno, embora parente distante, e ainda mais distante por ser rico e nós pobres, visitava-nos de vez em quando... há uns treze ou catorze anos. Mamãe o tinha em grande consideração e, quando ele ia lá em casa, recebia-o pouco menos que sob um pálio. Durante algum tempo, mamãe alimentou a ilusão, que bobagem!, de me casar com ele. Eu tinha dezoito anos, ele trinta e tantos. Estás entendendo?

Fortunata escutava com toda a alma.

«Queres que eu fale com franqueza? Pois eu não o achava desagradável; mas ele nunca me disse nada... Tinha boa aparência e uns ares de cavalheiro como poucos... Mamãe e papai feitos dois tolos com aquela esperança... que inocentes! Esse homem é muito finório. Casar-se comigo! Sim, estava mesmo à minha espera. De repente, passava meses e meses sem aparecer por ali. Eu me lembrava dele e das vezes em que ia lá em casa; quando o víamos entrar, todos ficávamos aparvalhados, e parecia que a Divina Majestade entrava por aquela porta... Pois, como te digo, deixou de aparecer. Naquele tempo conheci Fenelón; tornou-se meu namorado e me pediu em casamento. Mamãe ainda tinha ilusões; papai já se curara delas. Casamo-nos... Pois acreditarás que, um mês depois do casamento, o primo vem a Madri e começa a me cortejar com toda a finura?»

Fortunata parecia ouvir a leitura do relato mais romanesco do mundo, tamanho era o interesse e o assombro que demonstrava.

«Pois vais ver. Fenelón era um santo; desses que julgam o mundo inteiro por si mesmos e não veem o mal nem que o pendurem na ponta do nariz. Não percebia a perseguição, e eu passando as penas do inferno. Ai, filha, que perigo tão grande! Sempre que eu saía, zás!, encontrava-o. Não sei... parecia que me farejava como os cães farejam a caça. Numa tarde de chuva, ele me apanhou e quase à força me meteu em sua carruagem. Fiquei a dois dedos do abismo, quase a um dedo e meio; mas não, não caí. Meu Deus, que homem! É um absurdo.»

— Mas tu o amavas? — perguntou a senhora de Rubin, que com a ideia do amor resolvia todos os problemas.

— Eu... vou te dizer... acontecia comigo uma coisa particular. Tremia sempre que nos encontrávamos... tinha medo dele e... cá entre nós, gostava dele. Mas é como eu digo: por que não se casou comigo?

— Claro.

— Eu o teria amado muito e não lhe teria faltado por nada deste mundo. Mas esses homens, como são maus, mas como são maus! Pois vais ver. Vou para Bordeaux com meu marido, passam-se meses e meses, chega o verão e vamos passar uma curta temporada em Royan, uma estância de banhos de mar. Pois, filha, eu estava certa tarde no cais vendo desembarcarem os passageiros que vinham no vaporzinho de Bordeaux, quando dou de cara com o primo Moreno. Fiquei... ai!, nem te conto.

— E teu marido estava contigo?

— Não; aí é que está. Fenelón tinha ido a Paris fazer compras. Moreno estava em Paris, viu-o... e, muito caladinho, foi para Royan, sabendo que me apanharia sozinha e desprevenida. Desprevenida é bem a palavra, porque daquela vez, filha, não consegui escapar como no episódio da carruagem... Ai, conto-te essas coisas porque sei que és discreta e não me trairás. Se mamãe soubesse...! Enfim, o grande tunante divertiu-se quanto quis e depois sumiu na fumaça. Chegou o ano de 70, e aqueles infames prussianos mataram o pobre Fenelón. Foi uma dor... ah! Tudo por ser valente, por teimar em sair numa missão de reconhecimento! Era um homem tão patriota que, para salvar sua querida França, teria dado cem vidas, se as tivesse... Mas voltemos ao outro, àquele solteirão depravado... Quando fiquei viúva, disse comigo: “Pois agora, se ele gosta mesmo de mim...” Que nada! Encontrei-o em Madri no ano seguinte, e foi como se nada tivesse acontecido. Acreditarás que me disse alguma coisa de amor? Acreditarás que se lembrou de cumprir as promessas que me fizera? Deus nos dê melhor cumprimento. Filha, nunca vi frieza igual. Garanto-te que me dá vontade, por exemplo, de lhe cravar um punhal... É verdade que me ofereceu tudo o que eu quisesse para me estabelecer... mas não quis aceitar nada daquelas mãos. Monstro! Quando deu ao primo Pepe o dinheiro para a grande loja, impôs a condição de que me colocassem à frente da seção de trabalhos de agulha... Mas não lhe agradeço, palavra de honra, não lhe agradeço...

— Teu primo só gosta de mulheres casadas.

— Belo patife! — disse Fortunata, movendo a cabeça como quem compreende tarde o que deveria ter compreendido antes.

— Esses solteirões vagabundos e ricos são assim... São viciados, depravados, mimados; e, como se acostumaram a fazer sempre a própria vontade, querem que o meio-dia tenha catorze horas. Aí o tens agora, entediado, doente; não sabe o que fazer de si mesmo; quer aconchego de família e não o encontra em parte alguma. Bem feito; fico contente. Que pague. E, para maior desgraça, agora se encanta por Jacinta. O que acende o amor nele é a resistência; as que têm fama de honradas o entusiasmam, e as que, além da fama, são de fato honradas o enlouquecem. Com Jacinta, deve ter travado uma guerra tremenda, sim, tremenda; mas, no fim, ela se rendeu, não tenhas dúvida. Eu fui Metz, que caiu cedo demais; ela é Belfort, que se defende, mas no fim também cai... Ah, os sinais são mortais. O primo vai à casa deles todos os dias e fica à espreita quando ela sai, para fingir um encontro casual... Algumas tardes não aparece na loja. Terão encontros marcados? Eis minha ideia. Juro-te que hei de descobrir. É impossível que eu não descubra. Ainda que tivesse de perder meu emprego, ainda que ficasse sem camisa para vestir... Que infâmia! E vejam a outra, a sonsa, com seu rosto de Menino Jesus e sua fama de virtude. Sim; santidade de meia-pataca, vejam só a qualidade. Garanto-te que o dia em que isso estourar e houver a grande tragédia será o dia mais feliz da minha vida. Pois o que pensa esse homem? Que se pode enganar, enganar e enganar para sempre, e zombar dos pobres maridos? Pois agora caiu outro; só que desta vez não deu com meu Fenelón, que era um santo e não suspeitava de ninguém, salvo dos prussianos. Desta vez deu com um homem de têmpera, teu amigo, que não se conformará com essa desonra, não é verdade? Garanto-te que o tal priminho vai ver o fogo chegar aos cabelos, com toda a sua doença do coração e seu estrangeirismo.

Fortunata não disse uma palavra. Aquela revelação a deixara tão aturdida como se tivesse recebido um golpe forte na cabeça.

Jacinta... Jesus!... o modelinho, o anjo, a queridinha de Deus... O que diria Guillermina, a bispa, empenhada em converter as pessoas e em ver quem peca e quem não peca?... O que diria?... Ha, ha, ha... Já não havia virtude! Já não havia outra lei além do amor!... Agora ela podia erguer a fronte! Já não lhe apresentariam exemplo algum que a confundisse e esmagasse. Deus as fizera todas iguais... para poder perdoá-las todas.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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