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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 17 · Fortunata e Jacinta

Parte 2 — Capítulo VI: As Micaelas vistas de dentro

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Parte 2 — Capítulo VI: As Micaelas vistas de dentro

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Quando aquelas duas madres, a vesga e a seca, a levaram para dentro, Fortunata estava muito comovida. Era a primeira sensação de medo e vergonha que se apodera do escolar quando o põem diante dos companheiros, que em breve serão seus amigos, mas que, ao vê-lo entrar, lançam-lhe olhares hostis e zombeteiros. As recolhidas que encontrou pelo caminho encaravam-na com tamanha impertinência que ela ficou muito vermelha e não sabia que expressão dar ao rosto. As madres, que já haviam visto entrar ali tantos e tão diversos rostos de pecadoras, não pareciam atribuir importância à beleza da nova interna. Eram como médicos que já não se espantam com nenhum horror patológico que veem entrar nas clínicas. Foi preciso passar um bom tempo antes que a moça se serenasse e pudesse trocar algumas palavras com as companheiras de lazareto. Mas, entre mulheres, o gelo das primeiras horas rompe-se ainda mais depressa que entre colegiais, e, palavra após palavra, foram brotando simpatias e lançando-se os alicerces de futuras amizades.

Como esperava e desejava, puseram-lhe uma touca branca; mas não havia no convento espelhos em que pudesse ver se lhe assentava bem ou mal. Depois fizeram-na vestir um traje muito simples de lã grossa e preta; tais peças, porém, só eram indispensáveis quando descia à capela e nas horas de oração, e podia tirá-las durante o trabalho, pondo então uma saia velha de seu próprio enxoval e um corpete, também de lã e muito recatado, que a casa fornecia para essas ocasiões. As recolhidas dividiam-se em duas classes: uma chamada das Filomenas, outra das Josefinas. A primeira era constituída pelas mulheres sujeitas a correção; a segunda, por meninas ali colocadas pelos pais para serem educadas e, com maior frequência, por madrastas que não as queriam a seu lado. Esses dois grupos ou famílias não se comunicavam em ocasião alguma. Está visto que Fortunata pertencia à classe das Filomenas. Observou que boa parte do tempo se dedicava a exercícios religiosos: orações pela manhã, doutrina à tarde. Soube depois que às quintas-feiras e aos domingos havia adoração do Santíssimo Sacramento, com devoções longuíssimas e entretenidas, acompanhadas de música. Nesse exercício e na missa matinal, as recolhidas, assim como as madres, entravam na igreja com um grande véu sobre a cabeça, quase do tamanho de um lençol.

Pegavam-no no aposento próximo à entrada e, ao sair, tornavam a deixá-lo ali, depois de dobrá-lo.

Acostumada a levantar-se às nove ou dez horas da manhã, custavam-lhe aqueles madrugões usados no convento. Às cinco da manhã já entrava Sor Antonia nos dormitórios, tocando uma campainha que dilacerava os ouvidos das pobres adormecidas. Madrugar era um dos melhores meios de disciplina e educação empregados pelas madres, e velar até altas horas da noite, um mau costume que combatiam com afinco, por considerá-lo igualmente nocivo à alma e ao corpo. Por isso, a monja de guarda passava revista aos dormitórios em diferentes horas da noite e, se surpreendia murmúrios de confidências, impunha castigos severíssimos.

Os trabalhos eram variados e por vezes rudes. As mestras punham especial cuidado em desbastar aquelas naturezas viciadas ou fogosas, mortificando a carne e enobrecendo o espírito pelo cansaço. As tarefas delicadas, como costura e bordado, para as quais havia oficina na casa, eram as que menos agradavam a Fortunata, que tinha pouca inclinação para primores de agulha e dedos muito desajeitados. Gostava mais que a mandassem lavar, escovar os pisos de ladrilho, limpar vidraças e executar outros serviços próprios de criadas de baixo. Em compensação, se a mantinham sentada numa cadeira fazendo marcação de roupa, aborrecia-se a valer. Também gostava muito de ser posta na cozinha às ordens da irmã cozinheira, e era de ver como esfregava sozinha toda a bateria de cobre e louça, melhor e mais depressa que duas ou três das mais diligentes.

As madres empregavam grande rigor e vigilância no que dizia respeito às relações entre as chamadas arrependidas, fossem Filomenas ou Josefinas. Eram sentinelas sagazes das amizades que se pudessem formar e dos pares criados pela simpatia. Mandavam as antigas, já conhecidas e provadas pela submissão, acompanhar as novas e suspeitas. Havia algumas a quem só se permitia falar com as companheiras no grupo principal, durante as horas de recreio.

Apesar da severidade empregada para impedir duplas íntimas ou grupos, sempre havia alguma infração dissimulada dessa regra. Era impossível evitar que, entre quarenta ou cinquenta mulheres, duas ou três entabulassem conversa, aproveitando qualquer ocasião propícia nas diversas ocupações da casa. Num sábado de manhã, Sor Natividad, a Superiora, que era precisamente a madrezinha seca que recebera Fortunata no dia da entrada, mandou-a escovar os ladrilhos da sala de visitas. Sor Natividad era biscainha e tão zelosa pelo asseio do convento que o mantinha sempre como uma tacinha de prata; ao ver um fiapo, um pouco de pó ou qualquer sujeira, perdia o juízo e punha o grito no céu, como se se tratasse de grande calamidade caída sobre o mundo, de outro pecado original ou coisa semelhante. Apóstola fanática da limpeza, tratava com agrados e mimos quem seguia sua doutrina, lançando anátemas terríveis sobre as que prevaricavam, ainda que apenas venialmente, naquela rígida moral do asseio. Certo dia armou um escândalo porque não haviam limpado... o que pensais? As cabeças douradas dos pregos que sustentavam as estampas da sala. Quanto aos quadros, era preciso tirá-los e limpá-los atrás como na frente.

— Se não tendes alma nem um grão da graça de Deus — dizia-lhes —, não vos condenareis por más, e sim por porcas.

Naquele sábado, como digo, mandou encerar e escovar o piso da sala, encarregando Fortunata e outra companheira de deixá-lo como a própria face do Sol.

Para Fortunata, esse trabalho não era apenas fácil, mas divertido. Gostava de prender ao pé direito a escova grossa e, arrastando o pano com o esquerdo, percorrer de um lado a outro o vasto aposento, com passos de dança ou patinação, a mão na cintura, exercitando numa ginástica agradável todos os músculos até suar copiosamente, ficar vermelha como um peru e sentir pelo corpo deliciosos sobressaltos de alegria. A companheira que Sor Natividad lhe deu naquela tarefa era uma Filomena em cujo rosto a neófita reparara várias vezes, julgando reconhecê-lo. Sem dúvida vira aquela cara em algum lugar, mas não lembrava onde nem quando. As duas haviam-se olhado muito, como se desejassem uma explicação, mas nunca haviam dirigido uma palavra uma à outra. O que Fortunata sabia era que aquela mulher dava muito trabalho às madres, por seu caráter alvoroçado e desigual.

Assim que a Superiora as deixou sozinhas, a outra começou a patinar e a falar ao mesmo tempo. Parando depois diante de Fortunata, disse:

— Nós nos conhecemos, não é? Chamam-me Mauricia, a Dura. Não se lembra de ter me visto em casa da Paca?

— Ah... sim!... — indicou Fortunata; e, apoiando o corpo sobre o pé direito, partiu para o outro lado, esfregando o chão com força amazônica.

Mauricia, a Dura, aparentava trinta anos ou pouco mais, e seu rosto era conhecido de quem entendesse alguma coisa de iconografia histórica, pois era o mesmo, exatamente o mesmo, de Napoleão Bonaparte antes de se tornar Primeiro Cônsul. Aquela mulher singularíssima, bela e varonil, tinha os cabelos curtos e usava-os sempre mal penteados e ainda pior presos. Quando se agitava muito no trabalho, as madeixas soltavam-se e chegavam-lhe aos ombros; então a semelhança com o precoce caudilho da Itália e do Egito era perfeita. Mauricia não inspirava simpatia a todos que a viam; mas quem a visse uma vez não a esquecia e sentia vontade de tornar a olhá-la. Exerciam fascinação indizível sobre o observador aquelas sobrancelhas retas e salientes, os olhos grandes e febris, escondidos como em tocaia sob a concavidade frontal, a pupila inquieta e ávida, os ossos muito marcados nas maçãs do rosto, a pouca carne nas faces, a mandíbula robusta, o nariz romano, a boca acentuada, terminando em flexões enérgicas, e, enfim, a expressão sonhadora e melancólica. Mas, assim que Mauricia falava, adeus ilusão. Sua voz era rouca, mais de homem que de mulher, e sua linguagem vulgaríssima revelava uma natureza desordenada, com alternativas misteriosas de depravação e afabilidade.

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Depois de se reconhecerem, calaram-se por algum tempo, trabalhando ambas com igual afinco. Um tanto fatigadas, sentaram-se no chão, e então Mauricia, arrastando-se até junto da companheira, disse-lhe:

— Naquele dia... sabe? Assim que você foi embora, Juanito Santa Cruz esteve na casa da Paca.

Fortunata olhou-a aterrada.

— Que dia? — foi tudo o que disse.

— Não se lembra? O dia em que você esteve lá, o dia em que eu a conheci... Parece boba. Eu me engalfinhei com a Visitación, que me roubou um lenço, aquela ladra sem-vergonha. Fui para cima dela e... zás!, agarrei-lhe a orelha e fiquei com o brinco na mão, rasgando o lóbulo... por pouco não trouxe metade da cara junto. Ela me mordeu o braço, olhe... ainda está aqui a marca; mas eu lhe deixei um olho selado... ainda não abriu, e arranquei-lhe uma tira de pele, zás!, desde aqui, na têmpora... até o queixo. Se não nos separam, se você não me agarra pela cintura e Paca a ela, eu a arrebento... acredite.

— Já me lembro daquela briga — disse Fortunata, olhando a companheira com medo.

— Quem me faz, me paga. Não sei se conhece Matilde, aquela sílfide loura...

— Não, não conheço.

— Pois veio me trazer umas fofocas, porque naquele tempo eu andava com o rapaz de Tellería e... Um dia agarrei-a, joguei-a no chão, fiquei passeando em cima dela quanto me deu vontade... depois peguei uma pá de braseiro e, no primeiro golpe, abri-lhe na cabeça uma casa de botão do tamanho de um duro... Levaram-na ao hospital... Dizem que, pelo buraco que fiz, dava para ver os miolos... Dei-lhe uma bela lição. Outro dia, no Modelo... veja só... uma mulher muito sirigaita e muito cheia de si me disse que eu era isto e aquilo, e com a primeira bofetada que lhe acendi ela saiu rolando pelo chão, de pernas para o ar. Tiveram de me amarrar... Mas, voltando ao que dizia. Naquele dia em que tive a zaragata com Visitación...

Ouviram a Superiora aproximar-se e depressa se levantaram, tornando a escovar. A monja olhou o chão, inclinando a cabeça como fazem os pássaros quando olham para baixo, e retirou-se. Pouco depois, as duas arrependidas retomaram a conversa.

— Você não apareceu mais por lá. Depois perguntei à Paca se o rapaz de Santa Cruz voltara, e ela respondeu: “Cale-se, filha, disseram aqui ontem à noite que ele está com plumonia...” Pobrezinho, por pouco não morreu. Ficou entre ir e não ir... Perguntei por você à Feliciana numa tarde em que fui mostrar-lhe uns xales de Manila que eu estava vendendo, e ela me disse que você ia casar com um boticário... pois é, o sobrinho de Dona Lupe, a dos Perus... Ah, menina, se essa Dona Lupe é justamente quem mais conheço! Pergunte-lhe por mim. Vendi-lhe mais joias do que tenho cabelos na cabeça. Ah, naquele tempo eu estava bem; mas de repente me transtornei e adoeci tanto do estômago que nada me passava, e tanto fazia entrar nele um bocado como uma gota d’água, parecia que me acendiam fogo por dentro. Minha irmã Severiana, que mora na calle de Mira el Río, levou-me para casa; ali deram-me umas câimbras que pensei que esticava a canela. Uma noite, vendo que aquilo não queria passar, saí desembestada e, na taverna, mandei para dentro três copos de aguardente, um atrás do outro, zás, zás, zás; saí, e bem no meio da rua caí no chão. Os moleques se juntaram em roda, depois vieram os guardas e me sopraram para a delegacia. Severiana quis levar-me outra vez para casa; mas então uma senhora que conhecemos, essa Dona Guillermina... você já deve ter ouvido falar... tomou conta de mim e me trouxe para este estabelecimento. Dona Guillermina é uma que se fez pobre de verdade, sabe?, pede esmola e está construindo ali embaixo um palacete para os órfãos. Minha irmã e eu nos criamos na casa dela. Grande casa, a dos senhores Pacheco! Gente muito rica, não pense que não, e minha mãe passava a roupa deles. Por isso Dona Guillermina tem tanta afeição por nós: sempre que me vê na miséria, socorre-me e diz que, quanto pior eu for, mais terá de me socorrer. Pois, querendo ou não, meteram-me aqui... Já me haviam metido antes, mas não fiquei mais de uma semana, porque fugi escalando o muro da horta como um gato.

Essa história, contada com tão aterradora sinceridade, impressionou muito a outra Filomena. Continuaram ambas dançando ao longo da sala, deslizando sobre o chão já polido como patinadores no gelo; e Fortunata, a quem remexia por dentro o que Mauricia dissera a seu respeito, quis esclarecer um ponto importante:

— Eu só fui duas vezes à casa da Paca, e por minha vontade não teria ido nenhuma. A necessidade, filha... Depois não voltei porque comecei a namorar o rapaz com quem vou casar.

Após uma pausa, durante a qual lhe vieram ao pensamento muitas coisas passadas, julgou oportuno dizer algo de acordo com as ideias impostas por aquela casa:

— E para que esse homem me procurava?... Para quê? Para perder-me outra vez. Uma basta.

— Os homens são muito caprichosos — disse Mauricia, em tom filosófico —, e quando têm uma mulher à disposição não lhe dão mais importância que a um traste velho; mas, se ela fala com outro, o de antes já quer aproximar-se, por causa da guloseima que o outro leva. Pois digo... se uma resolve, por exemplo, tornar-se honrada, os canalhas não admitem; e, se uma começa a rezar muito, confessar e comungar, o desejo deles se acende ainda mais, e ficam doidos por nós assim que nos convertemos pelo eclesiástico... Ora, você pensa que Juanito não vem rondar este convento desde que soube que está aqui? Parece boba. Tenha certeza, e algum dos coches que se ouvem por aí, acredite, é o dele.

— Não seja tola... não diga absurdos — replicou a outra, empalidecendo. — Não pode ser... Veja, ele caiu com pneumonia em fevereiro...

— Está bem informada.

— Soube por Feliciana, a quem contou, dias atrás, um senhor amigo de Villalonga. Pois veja: ele caiu com pneumonia em fevereiro, e nesse meio-tempo conheci o rapaz com quem ando... O outro ficou dois meses muito mal... entre ir e ficar. Por fim levantou-se e, em março, foi com a mulher para Valência.

— E daí?

— Ainda não deve ter voltado.

— Parece boba... Foi modo de dizer. E se não voltou, voltará... Quer dizer que vai cortejá-la quando chegar e souber que agora você está virando santa.

— Você é que é boba... deixe-me em paz. E, supondo que venha e me ronde... que tenho eu com isso?

Sor Natividad examinou o polimento e viu “que estava bom”. A satisfação de artista resplandecia em seu rostinho seco. Olhou para o teto, procurando descobrir alguma mancha produzida pelas moscas; mas não havia nada, e até as cabeças dos pregos na parede, limpas na véspera, brilhavam como estrelinhas de ouro. A Superiora voltava os óculos para todos os lados em busca de algo que censurar, mas nada encontrou que merecesse sua crítica estreita. Dispôs que, antes de introduzirem os móveis, os limpassem e esfregassem bem para que todo o pó ficasse do lado de fora; recomendou sobretudo que a operação fosse feita no sentido do veio da madeira. Como as duas trabalhadoras não entenderam bem o que isso significava, pegou ela mesma um pano e lhes mostrou praticamente, com a maior seriedade, qual era o seu sistema. Quando ficaram sozinhas outra vez, Mauricia disse à amiga:

— É preciso manter contente esta tia maluca, que é boa pessoa; se esfregarem os móveis no sentido do veio, fica unha e carne com você.

Mauricia tinha seus dias. As monjas consideravam-na lunática porque, se na maioria das vezes conseguiam submetê-la facilmente à obediência, fazendo-a trabalhar, de repente lhe entrava como uma loucura e ela rompia a dizer e fazer os maiores desatinos. Da primeira vez que isso aconteceu, as religiosas se alarmaram; mas, dominada a fúria sem necessidade de recorrer à força, quando se repetiam os acessos de indisciplina e insolência já não lhes davam grande importância. Era um espetáculo imponente e até divertido o que Mauricia oferecia de tempos em tempos, geralmente a cada quinze ou vinte dias, a todo o pessoal do convento. A primeira vez que Fortunata o presenciou, sentiu verdadeiro terror.

Aquela perturbação começava em Mauricia como começam as doenças, com sintomas leves, mas infalíveis, que depois se acentuam e percorrem todo o processo mórbido. O período prodrômico costumava ser uma questão com alguma recolhida por causa do chocolate do desjejum, ou porque alguém esbarrara nela ao sair e ela julgava que a outra o fizera de propósito. As madres intervinham, e Mauricia por fim se calava, permanecendo duas ou três horas taciturna, rebelde ao trato, fazendo tudo ao contrário do que lhe mandavam. Sua diligência assombrosa transformava-se em desleixo; e, quando as madres a repreendiam, nada lhes respondia cara a cara, mas, assim que voltavam as costas, soltava rosnados, mastigando entre eles palavras obscenas. A esse período seguia-se em geral uma travessura ruidosa e carnavalesca, feita de improviso para provocar o riso de algumas Filomenas e a indignação das senhoras. Mauricia aproveitava o silêncio da sala de trabalhos para lançar no meio dela um gato com uma chocolateira amarrada à cauda, ou cometer qualquer disparate mais próprio de meninos que de mulheres feitas. Sor Antonia, que era a própria bondade, olhava-a com toda a severidade possível em seu caráter angelical, e Mauricia devolvia-lhe o olhar com insolente dureza:

— Se num fui euuu... vamo, se num fui euuu... Por que fica me olhando tantooo?... Quer tirar meu retratooo?...

Naquele dia, Sor Antonia chamou a Superiora, uma biscainha muito firme. Ao entrar, esta disse:

— O inimigo já está solto outra vez?...

E decretou que Mauricia fosse encerrada no aposento que servia de prisão quando alguma recolhida se insubordinava. Então explodiu a ferocidade daquela mulher maldita.

— Me trancar!... É veeer... dade? Não me diga isso... meu bem.

— Mauricia — disse a monja com varonil firmeza, soltando uma expressão de sua terra —, deixe-se de chínchirri-máncharras e obedeça. A senhora sabe que não nos assusta com suas bravatas. Aqui não temos medo de monstro algum. Por compaixão e caridade não a pomos na rua, e a senhora bem sabe... Vamos, filha, poucas palavras e faça o que mandam.

A mandíbula de Mauricia tremia, e seus olhos adquiriram a opacidade sinistra dos olhos dos gatos quando vão atacar. As recolhidas olhavam-na com medo, e algumas monjas cercaram a Superiora para fazê-la respeitar.

— Vejam só com que vem agora a tia maluca... Me trancar! Para onde eu vou é para minha casa, vamos!... para minha casa, de onde estas indecentonas me arrancaram enganada, sim senhor, enganada, porque eu era honrada como o sol, e aqui não nos ensinam senão pentes e travessas... Ha, ha, ha!... Vejam só as senhoras virtuosas e santíssimas. Ha, ha, ha!...

Emitia esses monossílabos guturais com toda a grossura de sua grossíssima voz e com tal acento de sarcasmo infame e grosseria que teriam tirado do sério pessoas de menos paciência e fleuma que Sor Natividad e suas companheiras. Estavam tão habituadas a ser tratadas daquele modo e haviam domado feras tão espantosas que as injúrias já não lhes faziam efeito.

— Vamos — disse a Superiora, franzindo a testa. — Cale-se e desça ao pátio.

— Pois eu gosto é da santidade destas sirigaitas de igreja... Ha, ha, ha!... — gritou a infame, pondo as mãos na cintura e olhando em roda toda a assembleia de recolhidas. — Trancam-se aqui para brincar à vontade com os padrecos de babador... Ha, ha, ha!... Que pentes!... E com os que não usam babador.

Muitas recolhidas tapavam os ouvidos. Outras, com a mão suspensa sobre o bastidor, olhavam as monjas e assombravam-se com sua serenidade. Nesse instante apareceu na sala uma figura estranha. Era Sor Marcela, uma monja velha, coxa e quase anã, a mais infeliz figura de mulher que se possa imaginar. Seu rosto, que parecia de papelão, era moreno, duro, achatado, de tipo mongólico; os olhos, expressivos e afáveis como os de alguns animais da raça quadrumana. O corpo não tinha forma de mulher, e, ao andar, parecia desconjuntar-se e afundar do lado esquerdo, imprimindo no chão uma pancada seca, sem que se soubesse se vinha de um pé de pau ou do próprio toco do osso quebrado. Sua fealdade só era igualada pela impassibilidade e pelo desdém compassivo com que olhou Mauricia.

Sor Marcela trazia na mão direita uma grande chave e, apontando-a ao esterno da delinquente, estalou a língua e só disse:

— Andando.

A fera arrancou a touca com um movimento rápido, sacudiu as madeixas e saiu para o corredor, despejando pela boca insolências terríveis. A coxa indicou-lhe de novo o caminho, e Mauricia, movendo os braços como pás de moinho, começou a gritar:

— Pentes e travessas!... Querem me desonrar e me trancar como se eu fosse uma criminosaça? Patifes!... Se eu quisesse, com três bofetadas derrubava todas de pernas para o ar...

Apesar dessas ferocidades, a coxa conduzia-a com a mesma calma com que se leva um cão que late muito, mas do qual se sabe que não morderá. No meio da escada, a harpia voltou-se e, olhando com olhos inflamados para as monjas que haviam ficado no corredor, gritou estridentemente:

— Ladronas, mais que ladronas!... Grandíssimas víboras!...

Dito isso, a coxa pousava-lhe suavemente a mão nas costas, empurrando-a para a frente. No pátio teve de agarrá-la por um braço, porque Mauricia queria subir de novo.

— Elas nem lhe dão atenção, estúpida — disse-lhe. — Não é você quem fala, é o demônio que anda dentro de sua boca. Cale-se, pelo amor de Deus, e pare de atormentar.

— O demônio é você — replicou a fera, que parecia já, de tão exaltada, irresponsável pelos disparates que dizia. — Que figura, espantalho, mostrengo...

— Bote, bote mais veneno para fora — murmurava Sor Marcela com tranquilidade, abrindo a porta da prisão. — Assim o acesso passa mais depressa. Vamos, para dentro, e amanhã estará como uma luva. À noite trarei comida. Paciência, filha...

Mauricia latiu mais um pouco; mas, com todo o furor das palavras, não opunha verdadeira resistência, de modo que aquela pobre velha inválida a manejava como uma criança. Bastou que a pegasse por um braço e a metesse no cubículo para que, depois de tanta algazarra, a prisão se efetuasse sem inconveniente. Sor Marcela fechou a porta, deu duas voltas na chave e guardou-a no bolso. Seu rosto, tão semelhante a uma máscara japonesa, continuava imperturbável. Ao atravessar o pátio em direção à escada, ouviu o ha, ha, ha de Mauricia, que espiava por uma das duas lucarnas gradeadas da parte superior da porta. A monja não se deteve para ouvir as injúrias que a fera lhe dizia:

— Ei!... coxa... tartaruga, volte aqui e verá a cabeçada que lhe dou... Que figura!, caroço de cânhamo, perna e meia...

iii

O rosto napoleônico, lívido e de cabelos soltos, tornou a aparecer à grade ao cair da tarde. Sor Marcela passou repetidas vezes diante da prisão, voltando de examinar os ninhos das galinhas para ver se tinham ovos, ou de regar os amores-perfeitos e ranúnculos que cultivava num canto da horta. O pátio, pequeno e comunicado com a horta por uma grade de madeira quase sempre aberta, era muito mal calçado, de modo que o passo da coxa se tornava tão irregular que os balanços de seu corpo pareciam os de uma pequena embarcação em mar muito agitado. Sor Marcela andava frequentemente por ali, pois tinha a chave da lenheira e da carvoeira, a do cárcere e a de outro aposento onde se guardavam trastes da casa e da igreja.

Já perto da noite, como disse, Mauricia não saía da grade, a fim de falar à monja quando ela passasse. Seu tom perdera a aspereza irada da manhã, embora estivesse mais rouco e tivesse inflexões de dor e miséria, implorando caridade. A fera estava domada. Agarrada com ambas as mãos aos ferros, o rosto colado a eles, estendendo os lábios para ser mais bem ouvida, dizia com voz chorosa:

— Minha coxinha... caroço de cânhamo da minha alma, como gosto de você!... Lá vai a patinha, toda balançando; um, dois, três... Estrela do convento, venha escutar, que quero lhe dizer uma coisinha.

Àquelas expressões de ternura, misturadas de zombaria carinhosa, a monja não respondia nem com um olhar. E a outra prosseguia:

— Ai, minha tartaruguinha da alma, como está zangadinha comigo, e eu gosto tanto de você!... Sor Marcela, uma palavrinha, só uma palavrinha. Não quero que me tire daqui, porque mereço a tranca. Mas, ai, minha menina, se visse como estou passando mal! Parece que me arrancam o estômago com tenazes de fogo... É por causa da desordem desta manhã. Dá-me vontade de me enforcar nesta grade com uma corda feita de tiras do saiote. E vou fazer isso, sim, enforco-me se você não olhar para mim e não disser nada... Coxinha graciosa, anã formosa, olhe, escute: se quer que eu a ame mais que a vida e lhe obedeça como um cachorro, faça-me o favor que vou pedir; traga-me apenas uma lagriminha daquela glória divina que você tem, daquilo que o médico receitou para sua dor de barriga... Vamos, anjo, peço com toda a alma, porque esta peninha que tenho aqui não quer passar e parece que vou morrer. Vamos, querida, caroço de cânhamo dos anjos; traga-me o que peço, e que Deus lhe dê a vida celestial que você já ganhou, e mais três, e que os serafins a coroem quando entrar no Céu com sua perninha coxa...

A monja passava... tum, tum... ferindo os seixos com aquele pé duro que devia ser como a perna de uma cadeira, e não concedia à prisioneira nem resposta nem olhar. Ao anoitecer, desceu com a ceia da presa e, abrindo a porta, entrou no aposento sombrio. De início não viu Mauricia, encolhida sobre umas tábuas, os joelhos junto ao peito, as mãos cruzadas sobre os joelhos e o queixo apoiado nas mãos.

— Não vejo. Onde está? — murmurou a coxa, sentando-se sobre outra pilha de tábuas.

Mauricia respondeu com um rosnado, como o de um mastim que despertam com um pontapé. Sor Marcela pôs junto de si um prato de guisado e um pão.

— A Superiora não queria que eu lhe trouxesse senão pão e água — disse —, mas intercedi por você... Não merece. Mesmo quando me proponho não ter entranhas, não consigo. Eu a manejo a meu modo e sei que, quanto pior a tratam, mais raivosa fica... E para que veja, filha, até onde chega minha condescendência...

Acrescentou isso tirando de sob o manto um objeto. Dir-se-ia que Mauricia o farejara, pois levantou de súbito a cabeça, e seu rosto adquiriu tamanha animação e vida que parecia exatamente o daquele outro quando, apontando para as pirâmides, falou dos quarenta séculos. O cárcere estava escuro, mas a última claridade do dia entrava pela porta, e as duas mulheres ali encerradas podiam ver-se, embora mais como vultos que como pessoas. Mauricia estendeu as mãos com ânsia até tocar a garrafa, pronunciando palavras truncadas e balbuciantes para exprimir a gratidão; mas a monja afastava o objeto cobiçado.

— Ei!... Mãos quietas. Se não houver compostura, vou-me embora. Você vê que não sou tirana, que levo a caridade a um limite talvez imprudente. Mas eu digo: “Dando-lhe um pouquinho, só uma gotinha, consolo-a, e aqui não pode haver vício.” Porque sei o que é fraqueza de estômago e quanto faz sofrer. Negar e negar sempre ao preso pecador tudo o que pede não é bom. O Senhor não pode negar isto. Tenhamos misericórdia e consolemos o triste.

Dizendo isso, tirou um copinho e preparou-se para servir uma pequena porção do precioso licor, um conhaque muito bom que costumava usar contra suas rebeldes dispepsias. Lembrou-se então de que Mauricia devia primeiro comer o prato de guisado. A presa compreendeu e apressou-se a devorar a ceia, para abreviar.

— Isto que lhe dou — acrescentou a monja — é reparação dos nervos e escora do ânimo desfalecido. Não pense que o faço às escondidas da Superiora, pois ela acaba de me autorizar a dar-lhe esta guloseima, desde que seja na medida que separa a necessidade do apetite e o remédio do deleite. Sei que isto a reanima e lhe dá a alegria necessária para cumprir bem os deveres. Veja como aquilo que alguns poderiam considerar mau torna-se bom em medida razoável.

Mauricia estava tão agradecida que não achava palavras para demonstrá-lo. A coxinha despejou no copinho a quantidade de um dedo, inclinando a garrafa com pulso extraordinário para que não saísse mais do conveniente; e, ao dá-lo à presa, repetiu-lhe o sermão. Como a outra se lambia depois de beber, e como lhe soubera bem! Conhecia muito bem a tartaruguinha para se atrever a pedir mais. Sabia por experiência de casos análogos que ela nunca ultrapassava o limite imposto por sua bondade e caridade. Era boa como um anjo para conceder e firme como uma rocha para deter-se no ponto devido.

— Já sei — disse, tampando cuidadosamente a garrafa — que, com este consolo de seus nervos abatidos, estará mais disposta, e a reparação do corpo auxilia a da alma.

Com efeito, Mauricia começou a sentir-se alegre; e, com a alegria, veio-lhe viva disposição para a obediência e o trabalho, e entraram-lhe tantas vontades de tudo quanto era bom que chegou a desejar rezar, confessar-se e praticar devoções exageradas como as de Sor Marcela, que, segundo as recolhidas, usava cilício.

— Diga à Superiora, pelo amor de Deus, que estou arrependida e que me perdoe... Quando me dá aquele acesso e começo a desbocar, sou um papagaio e a língua fala sozinha. Tire-me daqui depressa, e trabalharei como nunca; se me mandarem esfregar a casa inteira, de cima a baixo, eu esfrego. Deem-me penitências pesadas e as cumprirei num abrir e fechar de olhos.

— Gosto de vê-la tão razoável — disse a madre, recolhendo o prato —, mas esta noite não sairá daqui. Medite, medite em seus pecados, reze muito e peça ao Senhor e à Santíssima Virgem que a iluminem.

Mauricia julgava-se já bastante iluminada, pois a excitação lhe acendia as ideias, comunicando-lhe certo entusiasmo; e, depois de fazer algum exercício corporal pendurando-se à grade, porque seus membros pediam alongamento, pôs-se a rezar com toda a devoção de que era capaz, lutando contra as várias distrações que levavam sua mente de um lado para outro, e enfim adormeceu sobre o duro leito de tábuas. Tiraram-na do cárcere cedo na manhã seguinte, e ela se pôs imediatamente a trabalhar na cozinha, submissa, calada e desenvolvendo atividade maravilhosa. Depois de cumprir uma pena, o que ocorria infalivelmente uma vez a cada trinta ou quarenta dias, a mulher napoleônica ficava acanhada e como envergonhada entre as companheiras, concentrando toda a atenção nas obrigações e demonstrando um zelo e uma obediência que encantavam as madres. Durante quatro ou cinco dias, desempenhava sem embaraço nem fadiga a tarefa de três mulheres. Passadas duas semanas, notavam que se ia cansando; seu trabalho já não tinha aquela correção e diligência admiráveis; começavam as omissões, os esquecimentos, os pequenos descuidos, e tudo isso aumentava até que a repetição das faltas anunciava a proximidade de outro estouro. Depois da cena violenta que descrevi, tornou a estreitar relações com Fortunata, e juntas tiveram longas conversas na cozinha enquanto descascavam batatas ou esfregavam panelas e caçarolas. Ali gozavam de certa liberdade, sem toucas e em traje de operária, como as criadas de qualquer casa.

— Tenho uma menina — disse Mauricia numa de suas confidências. — Dei-lhe o nome de Adoración. É tão bonitinha!... Está com minha irmã Severiana, porque eu, com este meu gênio, dou-lhe maus exemplos sem querer, sabe?, e o anjinho vive melhor com Severiana do que comigo. Essa Dona Jacinta, mulher de seu senhor, gosta muito da minha menina, compra-lhe roupa e anda com vontade de levá-la para si; está morrendo por ter filhos, e o Senhor não quer dá-los. Malfeito, não acha? Os filhos deviam ser para os ricos, e não para os pobres, que não podem sustentá-los.

Fortunata mostrou-se de acordo com essas ideias. Ouvira contar alguma coisa sobre o desmedido desejo daquela senhora de ter filhos; mas Mauricia disse-lhe mais, narrando também o caso do Pituso, a quem Jacinta quis recolher por julgá-lo filho do marido e da própria Fortunata. A história daquele incrível caso de delírio maternal e paixão insatisfeita produziu nela tamanho efeito que durante três dias não conseguiu afastá-la do pensamento.

iv

Do corredor alto via-se parte do Campo de Guardias, o Depósito de Águas do Lozoya, o cemitério de San Martín e o casario de Cuatro Caminos; atrás disso, os tons severos da paisagem da Moncloa e o admirável horizonte semelhante ao mar, linhas levemente onduladas, em cuja aparente inquietação parecia balançar-se, como vela de navio, a torre de Aravaca ou de Húmera. Ao pôr do sol, aquele magnífico céu ocidental acendia-se em esplêndidas chamas; depois que o astro desaparecia, apagava-se com graça infinita, fundindo-se nas palidezes da opala. As nuvens escuras, de contornos recortados, formavam figuras estranhas, acomodando-se ao pensamento ou à melancolia de quem as olhava; e, quando já era noite nas ruas e casas, permanecia naquela parte do céu uma claridade suave, cauda do dia fugitivo, que também se ia lentamente.

Essas belezas ficariam completamente ocultas aos olhos das Filomenas e Josefinas quando se concluísse a igreja em que se trabalhava sem cessar. A cada dia, a massa crescente de tijolos tapava uma linha da paisagem.

Parecia que os pedreiros, ao assentar cada fiada, não construíam, mas apagavam. De baixo para cima, o panorama desaparecia como um mundo que se afunda. Submergiram as casas do paseo de Santa Engracia, o Depósito de Águas e depois o cemitério. Quando os tijolos já roçavam a belíssima linha do horizonte, ainda sobressaíam as distantes torres de Húmera e as pontas dos ciprestes do Campo Santo. Chegou um dia em que as recolhidas se erguiam nas pontas dos pés ou davam saltos para ver alguma coisa mais e despedir-se daqueles amigos que se iam para sempre. Por fim o telhado da igreja engoliu tudo, e só se pôde ver a claridade do crepúsculo, a cauda do dia arrastada pelo céu.

Mas, se já nada se via, ainda se ouvia, pois o tiqui-tiqui da oficina dos canteiros parecia fazer parte da atmosfera que cercava o convento. Já era fenômeno familiar; aos domingos, quando cessava, a falta daquela música dava a todas as habitantes da casa a melhor noção do dia festivo. Aos domingos, desde as duas horas, começava a ouvir-se o tambor que animava o carrossel e os balanços instalados junto ao Depósito de Águas. Esse bulício e o da multidão que frequentava os merendeiros de Cuatro Caminos e Tetuán duravam até bem entrada a noite. Nos primeiros tempos, o tamboril incomodou muito algumas monjas, não só pela monotonia da batida, mas pela ideia de quanto se pecava ao som daquele instrumento mundano. Foram-se acostumando, e por fim ouviam do mesmo modo o rumor do carrossel aos domingos e o dos canteiros nos dias úteis. Em algumas tardes festivas, quando as recolhidas passeavam pela horta ou pelo pátio, a tolerância das madres chegava ao extremo de permitir-lhes dançar um pouquinho, com decência, é claro, ao som daquelas músicas populares. Quantas recordações evocadas, quantas sensações renascidas naqueles poucos compassos e voltas das pobres reclusas! Que lembrança viva das polcas dançadas com caixeiros no salão da Alhambra, à tarde, levantando muito pó do piso, as mãos suadas e chupando caramelos passados! E o pior de tudo, o que afinal as perdera, era que aqueles benditos caixeiros vinham todos com boas intenções. Justamente a boa intenção, desculpando os maus meios, era o que havia de mais negro. Porque depois não havia nem fim, nem princípio, nem nada além de vergonha e miséria.

A monja que com maior empenho defendia que as deixassem sacudir-se um pouco era Sor Marcela, que, por sua claudicação e figura, parecia incapaz de apreciar o sentimento estético da dança. Mas aquela mulher de rosto japonês achatado sabia muito do mundo e das paixões humanas, tinha o coração transbordante de tolerância e caridade e sustentava esta tese: a privação absoluta dos apetites alimentados por hábitos mais ou menos viciosos é o pior dos remédios, porque gera desespero; para curar defeitos antigos, convém permiti-los de vez em quando, com muita medida.

Um dia surpreendeu Mauricia na carvoeira fumando um cigarro, coisa realmente feia e imprópria de mulher. A coxa não se apressou a tirar-lhe o cigarro da boca, como pareceria natural. Disse apenas:

— Como você é porca! Não sei como pode gostar disso. Não fica tonta?

Mauricia ria; e, fechando com força um olho porque a fumaça entrara nele, olhou a monja com o outro e, estendendo-lhe o cigarro, disse:

— Experimente, senhora.

Coisa inaudita! Sor Marcela deu uma tragada e depois jogou fora o cigarro, fazendo gestos de nojo, cuspindo muito e compondo um rosto tão feio como o daqueles fetiches monstruosos das idolatrias malaias. Mauricia apanhou-o e continuou fumando, alternando os olhos no fechar e no olhar. Depois falaram da origem do cigarro. Ela não queria confessar, mas a madrezinha, que sabia tanto, disse-lhe:

— Os pedreiros jogaram isso da obra. Não negue. Já a vi fazendo-lhes sinais. Se a Superiora souber que anda telegrafando com os pedreiros, vai armar-lhe uma boa... e com razão. Jogue fora esse tabacão, indecente... Ai, que nojo! Deixou-me a boca perdida. Não compreendo como pode agradar esse ardor, essa ardência de mil demônios. Os homens, como se não tivessem vícios suficientes, inventam um novo a cada dia...

Mauricia jogou o cigarro fora e apagou-o com o pé.

Ao completar um mês ali, Fortunata fez outra amiga, com quem estreitou bastante as relações. Dona Manolita era senhora em toda a regra, pois era casada; ajudava as monjas nas aulas de leitura e escrita e empenhava-se particularmente em ensinar Fortunata, de onde nasceu principalmente a amizade entre as duas. As madres permitiam àquela recolhida certa largueza na observância das regras; deixavam-na a sós com uma ou duas Filomenas por longo tempo, tanto na sala de estudos como na horta; permitiam-lhe ir ao departamento das Josefinas e, como tinha quarto separado e pagava boa pensão, gozava de maior comodidade que as companheiras de reclusão.

Assim que se conheceram, Fortunata e ela não tardaram a contar uma à outra suas respectivas histórias. A que já conhecemos saiu nua e crua; Manolita, porém, enfeitou tanto a sua e procurou fazê-la tão patética que ninguém a reconheceria. Segundo seu relato, não pecara; tudo fora puro engano. Seu marido, muito bruto e culpado, sim, ele é que tinha a culpa dos enganos, ou, se preferirem, das más tentações dela, metera-a ali sem mais rodeios. Como aquela senhora ocupara posição razoável, contava com deleite coisas do mundo e de suas pompas, dos saraus a que assistia, dos muitos e bons vestidos que usava. O marido era comerciante de novidades, homem inferior a ela pelo nascimento; seu papai, vejam só, era primeiro-oficial da Diretoria da Dívida. Ao ouvir tais exaltações orgulhosas, Fortunata punha-se a imaginar que cargo tão empoleirado seria aquele do pai da amiga.

Mas o melhor foi surgir de repente na conversa uma coisa interessantíssima. Manolita conhecia os Santa Cruz. Ora essa, se seu marido, Pepe Reoyos, era íntimo, mas íntimo mesmo, de D. Baldomero! E ela, a própria Manolita, visitava muito Dona Bárbara. Daí a conversa saltou para Jacinta. Ah, Jacinta era uma mulher muito graciosa; tinha tudo, bondade, beleza, talento e virtude. Aquele danado do Juan não merecia semelhante joia, por ser muito dado a aventuras. Fora isso, era excelente rapaz e muitíssimo simpático.

— A senhora já deve saber — disse depois — que ele adoeceu de pneumonia em fevereiro deste ano. Por pouco não morreu. Nesta casa, que deve muita proteção aos senhores de Santa Cruz, expuseram o Santíssimo, e, quando ele ficou fora de perigo, Jacinta custeou funções solenes. Até o bispo auxiliar veio dizer missa para nós...

— É mesmo?... Tem graça.

— Como a senhora ouviu. O que perdeu! Jacinta é uma das senhoras que mais têm ajudado a sustentar esta casa. Já se vê, como não tem filhos... não sabe em que gastar o dinheiro. Reparou naqueles ramos grandes, lindíssimos, com flores de tecido dourado e folhas de prata?

— Sim — replicou Fortunata, que escutava com toda a alma. — Os que puseram no altar no dia de Pentecostes!

— Esses mesmos. Pois foi Jacinta quem os deu. E o manto da Virgem, aquele manto de brocado com ramagens... tão bonito!, também foi donativo dela, em ação de graças pela recuperação do marido.

Fortunata soltou uma exclamação de espanto e maravilha. Que coisa estranha! Dias antes, tivera nas mãos, para limpar algumas gotas de cera, o mesmo manto que servira para pagar, por assim dizer, a salvação do rapaz de Santa Cruz! E, no entanto, tudo era muito natural; apenas seus pensamentos se revolviam e lhe davam que pensar, não o fato em si, mas a casualidade, sim, a casualidade de ter segurado objetos relacionados, por meio de uma curva social, com ela própria, sem que ela própria o suspeitasse.

— Pois a senhora ainda não sabe o melhor — acrescentou Manolita, deleitando-se com o assombro da outra, que mais parecia terror. — O ostensório, sabe?, o ostensório em que se põe o próprio Deus, também veio de lá. Foi presente de Barbarita, que prometeu oferecê-lo a estas monjas se o filho melhorasse. Não vá pensar que é de ouro; é de prata dourada, mas muito bonito, não acha?

Fortunata tinha os pensamentos tão mergulhados no fundo que não reparou na incrível tolice de chamar bonito a um ostensório.

v

Durante muitos dias não conseguiu afastar do pensamento as coisas que Dona Manolita lhe contara, embora, diga-se entre parênteses, a mulher não acabasse de lhe ser simpática. O que mais a mergulhava em reflexões não era propriamente o fato de terem oferecido o ostensório e o manto, mas a casualidade... “Tem graça.” Se tivesse chegado ao convento alguns dias antes, teria assistido à missa solene, com bispo e tudo, celebrada em ação de graças pela recuperação do tal rapaz... Isto tinha ainda mais graça. E Fortunata, que sabia perdoar ofensas, não teria inconveniente em unir seus votos aos de todo o pessoal da casa... Isto tinha mais graça ainda.

Mas o que causou imensa perturbação em sua alma foi ver a própria Jacinta, viva, de carne e osso. Não a conhecia nem jamais vira seu retrato; de tanto pensar nela, porém, formara uma imagem que, diante da realidade, se mostrou completamente falsa. As senhoras que protegiam a casa, sustentando-a com contribuições em dinheiro ou donativos, eram admitidas a visitar o interior do convento quando quisessem; e, em certos dias solenes, fazia-se limpeza geral e punha-se a casa toda como prata, sem desfigurá-la nem esconder suas necessidades, para que as protetoras vissem bem a que espécie de coisas deviam aplicar sua generosidade. No dia de Corpus Christi, depois da missa maior, começaram as visitas, que duraram quase toda a tarde. Marquesas e duquesas, vindas em coches brasonados, e outras que não tinham título, mas muito dinheiro, desfilaram por aquelas salas e corredores, onde a direção fanática de Sor Natividad e as mãos rudes das recolhidas haviam realizado tais prodígios de limpeza que, segundo a frase vulgar, se podia comer no chão sem necessidade de toalha. Os bordados das Filomenas, os cadernos de caligrafia das Josefinas e outros primores de ambas estavam expostos numa sala, e tudo eram elogios e felicitações. As senhoras entravam e saíam, deixando no ar da casa um perfume mundano que alguns narizes de reclusas aspiravam com avidez. Nos grupos de moças, despertavam curiosidade os vestidos e chapéus daquela multidão elegante e livre, na qual havia algumas, é justo dizer, que tinham pecado muito mais, mas muitíssimo mais, que a pior das encerradas ali. Manolita não deixou de sussurrar ao ouvido da amiga essa observação picante.

No meio daquele desfile, Fortunata viu Jacinta, e Manolita, abrindo essa única exceção em sua crítica social, cuidou de chamar-lhe a atenção para a graça da senhora de Santa Cruz, a elegância e a simplicidade de seu traje e aquele ar de modéstia que conquistava todos os corações. Desde que Jacinta apareceu na extremidade do corredor, Fortunata não tirou dela os olhos, examinando com atenção ansiosa o rosto e o andar, os modos e o vestido. Misturada a outras companheiras num grupo à porta do refeitório, seguiu-a com o olhar e pôs-se à espreita junto da escada, para vê-la de perto quando descesse; por fim, aquela imagem simpática ficou vivamente impressa em sua memória.

A impressão moral recebida pela samaritana era tão complexa que ela própria não sabia o que sentia. Sem dúvida, sua natureza rude e apaixonada levou-a num primeiro momento à inveja. Aquela mulher lhe havia tomado o que era seu, aquilo que, segundo julgava, lhe pertencia por direito. Mas a esse sentimento misturava-se, numa estranha combinação, outro muito diferente e mais acentuado. Era um desejo ardentíssimo de parecer-se com Jacinta, de ser como ela, de ter seu ar, seu quê de doçura e senhorio. Entre todas as damas que viu naquele dia, nenhuma pareceu a Fortunata tão senhora como a de Santa Cruz; nenhuma trazia tão impressa no rosto e nos gestos a decência. De modo que, se naquele instante lhe propusessem transmigrar para o corpo de outra pessoa, sem hesitar e de olhos fechados teria dito que queria ser Jacinta.

Aquele ressentimento iniciado em sua alma foi-se transformando pouco a pouco em pena, porque Manolita lhe repetiu até a saciedade que Jacinta sofria desprezos e horríveis desfeitas do marido. Chegou a estabelecer como princípio geral que todos os maridos gostam mais das mulheres ocasionais que das fixas, embora haja exceções. Assim, no fim das contas e apesar do Sacramento, Jacinta era tão vítima quanto Fortunata. Quando essa ideia se interpôs entre uma e outra, o rancor da pecadora enfraqueceu, e tornou-se mais intenso o desejo de parecer-se com aquela outra vítima.

Nos dias seguintes, imaginava continuar a vê-la ou que ela surgiria por qualquer porta quando menos esperasse. Pensar tanto nela levou-a, amparada pela solidão do convento, a ter de noite sonhos em que a senhora de Santa Cruz aparecia em seu cérebro com o relevo das coisas reais. Ora sonhava que Jacinta vinha chorar-lhe as mágoas e contar-lhe as crueldades do marido; ora que as duas discutiam qual era a maior vítima; ora, enfim, que transmigravam uma na outra, tomando Jacinta o exterior de Fortunata e Fortunata o exterior de Jacinta. Esses disparates aqueciam de tal modo o cérebro da reclusa que, desperta, continuava imaginando desvarios do mesmo calibre, se não maior.

Essas cismas eram interrompidas pelas visitas de Maximiliano às quintas-feiras e aos domingos, entre as quatro e as seis da tarde. A jovem recebia com gosto a ocasião das visitas, desejava-as e esperava-as, porque Maximiliano era o único vínculo efetivo que a ligava ao mundo; e, embora o sentimento religioso conquistasse nela algum terreno, não a desligara dos interesses e afetos mundanos. Por esse lado, o bom Rubín podia ficar tranquilo, porque nem uma única vez, nos momentos de maior fervor piedoso, passou pela cabeça da pecadora a ideia de tornar-se santa a todo custo.

Via, pois, Maximiliano com prazer, e até lhe pareciam breves as horas que passava em sua companhia falando de Dona Lupe e Papitos ou fazendo cálculos honestos sobre acontecimentos futuros. É verdade que fisicamente o estimável rapaz lhe desagradava; mas também é verdade que se ia acostumando a ele, que seus defeitos já não lhe pareciam tão grandes e que a gratidão se aprofundava muito em sua alma. Se fazia exame do coração, percebia ter avançado muito pouco em matéria de amor pelo redentor; mas o apreço e a estima eram certamente maiores e, acima de tudo, crescera e se fortalecera em seu pensamento a conveniência de casar-se para ocupar lugar honroso no mundo. Às vezes perguntava a si mesma, com sinceridade, de onde e como lhe viera o fortalecimento daquela ideia; mas não encontrava resposta. Seria talvez o silêncio e a paz daquela vida que faziam nascer e desenvolver-se nela a faculdade do bom senso? Se era assim, não se dava conta do fenômeno, e tudo o que sua rudeza conseguia formular era isto:

“De tanto pensar, entrou-me inteligência, assim como entrou em Maximiliano de tanto gostar de mim; e essa inteligência é que me diz que devo casar, que serei uma tola rematada se não casar.”

O bom estudante de Farmácia julgava-se o mais feliz de todos os mortais ao ver que sua amada não rejeitava a ideia de dar por concluída a quarentena e apressar o casamento. Sem dúvida a alma dela já estava mais limpa que uma patena. O ruim era que o pateta de Nicolás, depois de a pobre moça estar cinco meses no convento, dizia não ser suficiente e que deviam esperar pelo menos um ano. Maximiliano ficava furioso; Dona Lupe, consultada sobre o assunto, deu parecer favorável à saída. Embora duas ou três vezes, levada pelo sobrinho, tivesse visitado o basilisco, não pudera averiguar se já estava bem limpa das manchas antigas; mas queria exercitar, como disse antes, sua faculdade educativa, e cada dia de demora em ter Fortunata sob sua jurisdição atrasava o grande experimento. A boa senhora desconfiava um pouco da eficácia dos institutos religiosos para endireitar gente torta. O que aprendiam ali, dizia, era a arte de dissimular seus vícios sob formas hipócritas. É no mundo, no mundo, em meio às circunstâncias, que se corrigem os defeitos, sob direção sábia. Muito santo e muito bom aplicar reconstituintes ao raquitismo; Dona Lupe, porém, opinava que de nada valiam se não fossem acompanhados de exercício ao ar livre e ginástica. Era isso o que pretendia aplicar: o mundo, a vida e, ao mesmo tempo, princípios.

vi

Fortunata não tinha relação alguma com as Josefinas. Eram todas meninas de cinco a dez ou doze anos, que viviam separadas, ocupando os aposentos da fachada. Comiam antes das outras no mesmo refeitório e desciam à horta em hora diferente das Filomenas. Durante toda a manhã recitavam em coro as lições, com um grito cadenciado e choroso que se ouvia pela casa inteira. À tarde também cantavam a doutrina. Para ir à igreja, saíam de seu departamento em procissão, duas a duas, com lenço preto na cabeça, e colocavam-se aos lados do presbitério, comandadas pelas duas monjas mestras.

Como Fortunata fazia todos os dias novas amizades entre as Filomenas, devo mencionar aqui duas delas, talvez as mais jovens, que se distinguiam pelo exagero das manifestações religiosas. Uma era quase menina, de feições finíssimas, loura e dona de voz muito bonita. Cantava no coro os estribilhos de gosto bastante duvidoso com que se celebrava a permanência do Deus Sacramentado. Chamava-se Belén e, durante o tempo passado ali, dera provas inequívocas de seu desejo de emenda. Seus pecados não deviam ser muitos, pois era muito nova; fossem, porém, quais fossem, a moça parecia disposta a não deixar na alma nem rastro deles, a julgar pela vida de cão que levava, pelas penitências atrozes que fazia e pelo frenesi com que se consagrava às tarefas piedosas. Dizia-se que fora corista de zarzuela, passando daí a vida pior, até que uma mão caridosa a tirou do lodo e a colocou naquele lugar seguro. Inseparável dela era Felisa, um pouco mais velha, também de feições finas e com aparência de senhorita, sem o ser. As duas se reuniam sempre que podiam, trabalhavam no mesmo bastidor e comiam no mesmo prato, formando par indissolúvel durante o recreio.

A origem de Felisa era muito diferente da da amiguinha. Só pertencera ao teatro indiretamente, por ter sido criada de uma atriz famosa, e também no teatro encontrara sua perdição. Dona Guillermina Pacheco levou-a às Micaelas, depois de caçá-la, pode-se dizer, nas ruas de Madri, lançando-lhe uma dupla de agentes da Ordem Pública e apoderando-se dela sem outra razão além da própria vontade. Guillermina fazia dessas, e o que fizera com Felisa fizera com muitas outras, sem dar a ninguém explicações daquele atentado contra os direitos individuais.

Para ver Felisa e Belén incomodadas, bastava falar-lhes em voltar ao mundo. Tinham escapado de boa! Ali viviam regiamente e só se lembravam do que deixaram para trás para ter pena das infelizes que ainda permaneciam entre as unhas do demônio. Tirando as monjas, não havia na casa outras mais rezadeiras. Se as deixassem, não sairiam da capela o dia inteiro. Os longos exercícios piedosos das diferentes épocas do ano, como a oitava de Corpus Christi, os sermões da Quaresma e as flores de Maria, pareciam-lhes sempre insuficientes. Belén punha com tamanho fervor suas faculdades musicais a serviço de Deus que cantava coplinhas até ficar rouca e cantaria até morrer. Ambas se confessavam com frequência e faziam ao capelão perguntas sobre dúvidas muito sutis de consciência, parecendo-se nisso com estudantes aplicados que cercam o professor à saída da aula para que lhes esclareça um ponto difícil. As monjas estavam satisfeitas com elas e, embora lhes agradasse ver tamanha piedade, por serem experientes e conhecedoras da juventude, vigiavam muito o par, cuidando para que nunca ficasse sozinho. Felisa e Belén, juntas o dia todo, separavam-se à noite, pois dormiam em aposentos diferentes. As madres empregavam zelo escrupuloso em separar nas horas de repouso aquelas que nas horas de trabalho tendiam a reunir-se, obedecendo às atrações naturais da simpatia e da afinidade.

Os laços de afeto que uniam Fortunata a Mauricia eram muito estranhos, pois a primeira sentia terror da amiga quando esta estava no acesso; irritavam-na suas audácias e, no entanto, algum poder diabólico devia ter a Dura para conquistar corações, porque Fortunata simpatizava mais com ela que com as demais e gostava extraordinariamente de sua conversa íntima. Cativavam-na, sem dúvida, sua franqueza e aquela rapidez de entendimento para encontrar razões que explicassem todas as coisas. A fisionomia de Mauricia, sua expressão de tristeza e gravidade, aquela bela palidez, aquele olhar profundo e emboscado fascinavam-na; daí vinha que a considerasse autoridade em questões amorosas e na definição da moral raríssima que ambas professavam.

Um dia puseram-nas a lavar na horta. Estavam em traje de operária, sem toucas, sentindo com prazer a ardência do sol e o frescor do ar nos pescoços robustos. Fortunata fez à amiga algumas confidências sobre a próxima saída e a pessoa com quem ia casar.

— Não me diga mais, menina... convém a você, convém. Pentes e travessas! Conheço Dona Lupe como se a tivesse parido. Quando a vir, pergunte-lhe por Mauricia, a Dura, e verá como me põe nas nuvens. Ah, quanto dinheiro lhe levei! Chamam-me a Dura, mas a ela deviam chamar a Apertada. Menina, ela é assim...

Dizendo isso, mostrava à amiga o punho fortemente cerrado.

— Mas é mulher de muita cabeça e sabe conduzir o barco. O que pensa? Tem milhões escondidos no Banco e no Monte. Digo! Aquela mulher sabe mais que Cánovas. Vi o sobrinho algumas vezes. Ouvi dizer que é tolo e não serve para nada. Melhor para você; nem encomendado, menina. Não podia pedir a Deus que lhe caísse melhor figo maduro. Pode dar atenção ao que digo, pois tenho muita lanterna... vamo, enxergo longe. Acredite porque eu digo: se seu marido for um palerma, quero dizer, se deixar você governá-lo e você vestir as calças, pode cantar aleluia, porque isso e estar na glória é a mesma coisa. Até para ser realmente honrada lhe convém.

No vivo interesse que o diálogo tinha para as duas mulheres, às vezes os quatro braços vigorosos metidos na água paravam, e as mãos avermelhadas deixavam em paz por um instante o embrulho de roupa encharcada, que chiava nas fervuras do sabão. Postas uma diante da outra, aos dois lados da tina, olhavam-se cara a cara nesses breves intervalos de descanso e depois tornavam furiosamente ao trabalho, sem que por isso lhes parasse a língua.

— Até para ser honrada — repetiu Fortunata, lançando todo o corpo sobre as mãos para torcer o rolo de tecido como se o amassasse. — Disso nem se fale, porque faça de conta... eu, depois de casar, honrada hei de ser. Não quero mais confusões.

— Sim, é o melhor para uma viver... bem à vontade — disse Mauricia. — Mas sabe-se lá como vêm as coisas... porque uma diz: “Quero isto”, depois se põe a fazê-lo e, zás!, o que devia sair peixe sai rã. Você está por cima, menina, e Deus veio visitá-la. Pode fazer o rapaz de Santa Cruz morrer de raiva, porque, assim que a vir transformada em pessoa decente, irá para você como gato à carne. Acredite porque sou eu que digo.

— Deixe disso; ele já nem se lembra do santo do meu nome.

— Parece boba. Quanto aposta que, assim que lhe derem o Sacramento, ele perde o chão?... Você não conhece o pente.

— Verá como isso não acontece.

— Quanto aposta? Sim, porque deve pensar que agora mesmo ele não anda rondando você. É como se eu o visse. E você quer me fazer acreditar que não pensa nele!... Quando uma está encerrada entre tanta coisa de religião, missa que vai, missa que vem, sermão por cima, sermão por baixo, olhando sempre para o ostensório, respirando cheiro de monjas, venha luz e balança incensário, parece que saem de dentro da gente todas as coisas más ou boas que se passaram no mundo, como formigas saem do buraco quando o sol aparece; e o que a religião faz é refrescar o entendimento e deixar o coração mais terno.

Animada por essa declaração, Fortunata decidiu revelar que, de fato, pensava alguma coisa e que em certas noites tinha sonhos extravagantes. Às vezes sonhava que passava pelos portais da calle de la Fresa e, zás!, dava de cara com ele. Outras vezes via-o saindo do Ministério da Fazenda. Nenhum desses lugares tinha significado em suas recordações. Depois sonhava que ela era a esposa e Jacinta a amante dele, umas vezes abandonada, outras não. A amante é que desejava os meninos, e a esposa era quem os tinha.

— Até que um dia... eu sentia tanta pena dela que disse: “Está bem, tome uma criança para parar de chorar.”

— Ai, que graça! — exclamou Mauricia. — É uma boa saída. O que a gente sonha tem seu quê.

— Que disparates! Como lhe digo, parecia que eu estava vendo. Eu era a senhora pela frente da Igreja, ela por trás; e o mais particular é que eu não tinha raiva dela, mas pena, porque eu paria um menino por ano e ela... nem isto. Na noite seguinte tornava a sonhar o mesmo e, de dia, a pensar nisso. Que bobagens! Que me importa que a Jacinta morra de vontade de ter um menino sem conseguir, enquanto eu?...

— Enquanto você os tem quando lhe dá vontade. Diga, tola, e não se acovarde.

— Quer dizer que já tive um e bem poderia tornar a ter.

— Claro! E a outra não vai roer pouca raiva quando vir que aquilo que ela não consegue é para você como coser e cantar... Menina, não seja tola, não se rebaixe, não tenha pena dela, porque ela não teve de você quando lhe roubou o que era seu, muito seu... Mas quem nasce pobre não é respeitada, e assim anda este mundo de fingimento. Sempre que puder dar-lhe um desgosto, dê, pela vida do santíssimo pente... Que não riam de você por ter nascido pobre. Tire-lhe o que ela lhe tirou, e adivinhe quem lhe deu.

Fortunata não respondeu. Essas palavras e outras semelhantes que Mauricia costumava dizer-lhe despertavam sempre nela estímulos de amor ou tristezas que dormitavam no mais escondido da alma. Ao ouvi-las, um relâmpago gelado percorria-lhe toda a espinha, e ela sentia que as insinuações da companheira concordavam com sentimentos que guardava muito bem, como se guardam armas perigosas.

vii

Surpreendidas por uma monja naquela saborosa conversa que as fazia afrouxar o trabalho, tiveram de calar-se. Mauricia escoou a água suja e Fortunata abriu a torneira para que a tina se enchesse com a água limpa do depósito de folha de ferro. Dir-se-ia que aquilo simbolizava a necessidade de levar pensamentos claros ao diálogo um tanto impuro das duas amigas. A tina demorava muito a encher, porque o depósito tinha pouca água. O grande disco que transmitia à bomba a força do vento estava muito preguiçoso naquele dia, movendo-se apenas de vez em quando com indolente majestade; o aparelho, depois de gemer por um instante como se trabalhasse de má vontade, ficava inativo no meio do silêncio do campo. As duas recolhidas tinham vontade de continuar conversando, mas a monja não permitiu e quis ver como enxaguavam a roupa. Depois as amigas tiveram de separar-se, porque era quinta-feira e Fortunata devia vestir-se para receber a visita dos Rubín. Mauricia ficou sozinha estendendo a roupa.

Naquela tarde, Maximiliano declarou categoricamente que, por acordo da família e com o assentimento da Superiora, no próximo mês de setembro se daria por concluída a reclusão de Fortunata, que sairia para casar. As madres não tinham queixa dela e elogiavam sua humildade e obediência. Não se distinguia, como Belén e Felisa, pelo ardente zelo religioso, o que indicava falta de vocação para a vida claustral; mas cumpria pontualmente os deveres, e isso bastava. Avançara muito na leitura e na escrita e sabia de cor a doutrina cristã; com essa luz, as Micaelas consideravam a discípula suficientemente esclarecida para guiar-se pelos caminhos retos ou tortuosos do mundo e tinham por certo que a posse daqueles princípios dava a suas alunas força incrível para enfrentar todas as dúvidas. Nisso é preciso contar com a índole, com o esqueleto espiritual, com essa forma interna e duradoura da pessoa que costuma sobrepor-se a todas as transfigurações epidérmicas produzidas pelo ensino; quanto a Fortunata, porém, nenhuma das madres, nem mesmo as que mais de perto a haviam tratado, tinha motivo para julgá-la má. Consideravam-na de pouco entendimento, muito dócil e facilmente governável. É verdade que, em tudo o que corresponde ao imenso reino das paixões, as monjas quase não exercitavam sua faculdade educativa, fosse porque não conhecessem esse reino, fosse porque temessem aproximar-se de suas fronteiras.

Deve-se dizer que, naquela tarde, quando Maximiliano falou à futura esposa sobre a saída próxima, os sentimentos dela sofreram um retrocesso. Sair, casar!... Naquele instante, seu feliz noivo pareceu-lhe mais antipático que nunca, e ela percebeu com medo que aquelas magníficas regiões da beleza da alma não haviam sido descobertas por ela na solidão e santidade das Micaelas, como Nicolás Rubín anunciara, apesar de ter rezado tanto e ouvido tantíssimos sermões. O capelão dizia no púlpito que devemos fazer tudo quanto for possível para nos salvar, ser bons e não pecar; dizia também que se deve amar a Deus acima de todas as coisas e que Deus é belíssimo em si e tal como a alma o vê. Mas a ela parecia que, por baixo disso, o coração ficava livre para o amor mundano, que entra pelos olhos ou pela simpatia e nada tem que ver com o fato de a pessoa amada se parecer ou não com os santos. Assim caía por terra toda a doutrina do padre Rubín, que entendia tanto de amor quanto de ferrar mosquitos.

Em resumo, os sentimentos da mulher por seu futuro marido não haviam mudado em nada. Contudo, quando Maximiliano lhe disse que já escolhera a casinha que ia alugar e a consultou sobre os móveis que compraria, aquela ideia ou sentimento de um lar honrado despertou no ânimo de Fortunata a dignidade da nova vida, e ela se sentiu impelida para o homem que a redimia e regenerava. Assim mostrou-se contentíssima com a saída próxima e disse mil coisas oportunas sobre os móveis, a louça e até a bateria de cozinha.

Despediram-se muito alegres, e Fortunata retirou-se com a mente entregue àquela ordem de ideias. Um lar honrado e tranquilo!... Se era o que desejara toda a vida!... Se nunca tivera inclinação para o luxo nem para a vida de aparato e perdição!... Se seu gosto fora sempre a obscuridade e a paz, e o maldito destino a levava à publicidade e à inquietação!... Se sempre sonhara ver-se cercada por um pequeno grupo de pessoas queridas e viver como Deus manda, gostando dos seus e sendo por eles amada, passando a vida sem aflições!... Se fora lançada à vida má por despeito e contra a vontade, e não gostava dela, não senhor, não gostava!... Depois de pensar muito nisso, fez exame de consciência e perguntou a si mesma o que obtivera da religião naquela casa. Se, no que dizia respeito a apaixonar-se pelas belezas da alma, avançara pouco, em outra ordem de coisas ganhava alguma coisa. Gozava de certa paz espiritual, desconhecida em épocas anteriores, paz que só Mauricia perturbava, atirando-lhe ao ouvido uma frase maligna. E não foi essa a única conquista, pois também se enraizaram nela a ideia da resignação e a convicção de que devemos tomar as coisas da vida como vêm, receber com alegria o que nos dão e não aspirar à realização plena e total de nossos desejos. Isso lhe dizia aquela mesma claridade essencial, aquela ideia branca que saía do ostensório. O ruim era que, naquelas longas horas, às vezes enfadonhas, passadas de joelhos diante do Sacramento, com o rosto envolto num grande véu à maneira de mosquiteiro, a pecadora costumava fixar-se mais no ostensório, moldura e continente da forma sagrada, que na própria forma, por causa das associações de ideias que aquela joia despertava em sua mente.

E a muito tola chegava a crer que a forma, a ideia branca, lhe dizia numa linguagem familiar semelhante à sua:

“Não olhe tanto este aro de ouro e pedras que me cerca; olhe para Mim, que sou a verdade. Dei-lhe o único bem que pode esperar. Sendo pouco, ainda é mais do que você merece. Aceite-o e não me peça impossíveis. Pensa que estamos aqui para mandar, por exemplo, alterar a lei da sociedade só porque uma marmota como você assim deseja? O homem que me pede é um senhor de muitas campainhas, e você, uma pobre moça. Acha fácil que Eu case senhoritos com criadas ou transforme moças do povo em senhoras? Que coisas lhes ocorrem, filhas! Além disso, tola, não vê que ele é casado, casado por minha religião e em meus altares? E com quem! Com um de meus anjos femininos. Pensa que basta deixar um homem viúvo para satisfazer o caprichozinho de uma mulher rodada como você? É verdade que me convém, como você disse, trazer Jacinta para cá. Mas isso não é da sua conta. E suponha que Eu a traga, suponha que ele fique viúvo. Bah! Pensa que vai casar com você? Sim, estava só esperando. Não casaria nem se você se tivesse conservado honrada, quanto mais, sua sonsa, depois de se estragar tanto! É o que Eu digo: parecem loucas rematadas, e o vício lhes secou o miolo. Pedem-me disparates que nem sei como consigo ouvir. O importante é dirigir-se a Mim com o coração limpo e a intenção reta, como lhes disse ontem o capelão, que não inventou a pólvora, mas enfim é bom homem e conhece a obrigação.

“A você, Fortunata, olhei com indulugência entre as desgarradas, porque alguma vez voltava os olhos para Mim e Eu vi em você desejos de emenda; agora, porém, filha, aparece dizendo que sim, será honrada, tão honrada quanto Eu quiser, desde que lhe dê o homem de seu gosto... Bela graça!... Mas enfim, não quero zangar-me. O dito está dito: sou infinitamente misericordioso com você, dando-lhe um bem que não merece, arranjando-lhe marido honrado que a adora, e ainda resmunga e pede mais, mais, mais... Eis por que a gente se cansa de dizer sim a tudo... Estas desgraçadas não calculam, não compreendem. A gente dispõe que entre na cabeça de tal ou qual homem a ideia de regenerá-las, e depois elas vêm pôr defeitos. Ora dizem que tem de ser bonito, ora que tem de ser Fulano, senão nada. Filhas de minha alma, não posso alterar minhas obras nem fazer mangas e capuzes com minhas próprias leis. A época não está para homens bonitos!

“Portanto, resignem-se, filhas minhas; por serem cabras, o pastor não as abandonará. Tomem exemplo das ovelhas com quem vivem; e você, Fortunata, agradeça-me sinceramente o bem imenso que lhe dou e que não merece. Deixe de melindres e de pedir requintes, porque então não lhe dou nada e você tornará a fugir para o monte. Portanto, muito cuidado...”

Quando as recolhidas, ao retirar-se, tiraram os véus, as mais próximas de Fortunata notaram que ela sorria.

viii

É coisa muito aborrecida para o historiador ver-se obrigado a mencionar tantos pormenores e circunstâncias inteiramente pueris, mais próprios a despertar o desdém que a curiosidade do leitor; pois, embora mais tarde se veja que essas ninharias têm engrenagem efetiva na máquina dos acontecimentos, nem por isso parecem dignas de figurar numa relação verídica e grave. Eis por que penso que hão de rir os que lerem agora que Sor Marcela tinha medo de ratos; e certamente de nada valerá acrescentar que o medo da coxinha era grande, espantoso, causador de incidentes desagradáveis e até de derivações trágicas. Quando ouvia, na solidão da cela, o remexer do maldito animal, já não pregava os olhos durante a noite inteira. Entrava-lhe tamanha raiva que nem sequer conseguia rezar; e a raiva, mais que contra o rato, era contra Sor Natividad, que se obstinara em não haver gatos no convento, porque o último que ali existira não partilhava de suas ideias quanto ao asseio de todos os cantos da casa.

Numa daquelas noites de agosto, o minúsculo roedor deu tanto trabalho à madrezinha que ela se levantou ao amanhecer com a firme resolução de caçá-lo e aplicar-lhe o mais terrível dos castigos exemplares. Era tão insolente que, já em pleno dia, passeava tranquilamente pela cela e olhava Sor Marcela com seus olhinhos negros e marotos.

— Você verá, você verá — disse ela, subindo com grande trabalho à cama, pois a ideia de que o rato se aproximasse de um de seus pés, ainda que fosse o de pau, causava-lhe terror. — Hoje não escapa... fique aí, que já lhe daremos jeito.

Chamou Fortunata e Mauricia e, em poucas palavras, pô-las a par da situação. As duas recolhidas, especialmente a Dura, não queriam outra coisa. Ou se apoderavam do inimigo, ou já não eram quem eram. Sor Marcela desceu à igreja, e as duas mulheres iniciaram a campanha. Não ficou traste que não removessem; para afastar do lugar a cômoda, pesadíssima, empregaram esforços viris durante cerca de um quarto de hora, sem acabar antes porque o riso lhes cortava as forças. Por fim, trabalharam tanto que, quando Sor Marcela saiu da igreja, uma monja lhe deu a feliz notícia de que o rato fora apanhado. A anã subiu à cela, e a algazarra das recolhidas anunciava-lhe pelo caminho as diabruras de Mauricia, que tinha o rato vivo na mão e assustava com ele as companheiras.

Custou algum trabalho restabelecer a ordem, fazer Mauricia matar a vítima e jogá-la fora. Sor Marcela mandou que tornassem a pôr os trastes da cela como estavam, e acabou-se a história do rato.

O dia seguinte foi um dos mais quentes daquele verão. Nos aposentos voltados para o sul era impossível permanecer, porque faltava ar respirável. Onde quer que o sol batesse, o ambiente seco, imóvel e abrasado tostava. Nem mesmo os ramos mais altos das árvores da horta se moviam, e o disco de Parson, imóvel, olhava a imensidão como uma pupila coalhada e moribunda. Das doze às três suspendia-se todo trabalho na casa, porque não havia corpo nem espírito que o suportasse.

Algumas monjas recolhiam-se à cela para dormir a sesta; outras iam à igreja, o lugar mais fresco da casa, e, sentadas nos bancos, com as costas apoiadas na parede, rezavam sonolentas ou cochilavam um pouco.

As Filomenas também caíam rendidas de cansaço. Algumas iam aos dormitórios; outras estendiam-se no chão da sala de trabalhos ou da escola. As monjas que as vigiavam permitiam aquela infração da regra porque elas próprias não resistiam; fechando docemente os olhos e embalando-se num plácido arrebatamento, conservavam nas feições, como máscara, o gesto severo da mestra, cuja obrigação é manter a disciplina.

Na sala da escola havia dois ou três grupos de mulheres sentadas nos bancos, com a cabeça e o busto apoiados sobre as mesas. Algumas roncavam estrondosamente. A monja também adormecera, a cabeça caída para trás e a boca aberta. Numa das carteiras de estudo, duas recolhidas permaneciam acordadas: uma era Belén, que lia seu livro de orações; a outra, Mauricia, a Dura, com a cabeça inclinada sobre a carteira e a testa apoiada num punho cerrado. De início, Belén julgou que rezasse, porque ouviu certo murmúrio e um silabar fugaz. Depois percebeu que Mauricia chorava.

— Que tem, mulher? — perguntou, erguendo-lhe a cabeça à força.

A pecadora nada respondeu; mas a outra pôde observar que o rosto estava tão banhado em lágrimas como se lhe tivessem despejado um balde d’água pela testa, e seus olhos ardentes e aquela enorme umidade igualavam o rosto de Mauricia ao de Madalena; ao menos assim o viu Belén. Fez-lhe tantas perguntas e mostrou-lhe tanto carinho que por fim obteve resposta da pobre mulher desolada, que parecia não ter consolo nem nunca se fartar de chorar.

— Que hei de ter, desgraçada de mim? — exclamou enfim, engolindo as lágrimas. — Hoje, sem saber por quê nem por que não, vejo-me tal como sou; sou má, má, mais que má, e vêm à beira do pensamento todos os pecados que cometi, do primeiro ao último...

— Pois, filha — argumentou Belén com aquele cantar que aprendera e que tão bem se acomodava à sua figura angelical e a seus modos insinuantes —, saiba que, ainda que seus crimes fossem tantos como as areias do mar, Deus os perdoará se você se arrepender.

Ouvir isso, dar um grande berro e soltar outra catarata de lágrimas foi para Mauricia uma coisa só.

— Não, não, não — murmurou depois, entre soluços tão fortes que parecia sufocar. — A mim Ele não pode perdoar, a mim não, porque fui muito perdida, mas muito mesmo; todo pecado que existe, menina, eu cometi... Se não, diga um, escolha o que quiser, e garanto que o tenho metido aqui...

— Que coisas diz, mulher — observou Belén, muito aflita, lembrando-se do tempo em que fora corista e representando para si, com terror, o palco da Zarzuela. — Outras também cometeram pecados feios, mas os choraram como você, e veja-as perdoadas.

Mauricia tinha um lenço na mão; com a umidade do choro e do suor, já parecia uma bola. Amassava-o na mão e passava-o pela testa angustiada.

— Mas como isso lhe deu assim... tão de repente? — disse a outra, confusa. — Ah, é que Deus toca o coração quando a gente menos espera. Chore, filha, desabafe, e não se assuste... Sabe o que vai fazer? Amanhã se confessa... Talvez tenha ficado alguma coisa por dizer e confessar, porque sempre fica algo, sem a gente saber como, e esses fundos são o que mais atormenta... então diga tudo, raspe bem... Assim fiz eu e, enquanto não fiz, não tive tranquilidade. Depois o cão de Satanás me atormentava para vingar-se, e, quando começava a missa, parecia-me que levantavam o pano; quando eu começava a cantar, vinha-me à boca aquilo de El Siglo, que diz: “Somos figurinos vivos...” Um dia por pouco não soltei... Marotices do diabo; mas não podia comigo nem com minha fé, e tanto fiz que o encerrei num punho. Agora que se atreva; aposto que não se atreve?... Chore, filha, chore quanto quiser, que Deus a iluminará e lhe dará sua graça.

Nem assim. Quanto mais consolo Belén lhe dava, mais inconsolável ficava a outra, e mais caudaloso o rio de suas lágrimas. Sor Antonia, a madre que governava ali, acordou e, para dissimular o descuido, soltou uma voz forte, sem se incomodar muito com as adormecidas e acrescentando que fazia calor horrível. Um instante depois, Belén e a monja cochicharam, sem dúvida a respeito de Mauricia, para quem olhavam. Belén tinha grande influência junto às senhoras por sua humildade e devoção e pela diligência com que ia contar-lhes tudo quanto as companheiras faziam e diziam.

Era domingo, e às quatro horas toda a comunidade entrou na igreja, onde havia exercício e sermão. As Filomenas ocuparam seu lugar atrás das monjas, umas e outras com véus sobre a cabeça. As Josefinas ficaram no aposento que servia de coro. Belén e as senhoras cantoras entoavam, enquanto durava a exposição do Santíssimo, inocentes romanças nas quais diziam ter o peito ardendo em chamas de amor e outras canduras semelhantes. A que tocava o harmônio fazia nos intervalos ritornelos muito afetados. Mas, apesar dessas profanações artísticas, a igrejinha estava muito bonita, como diria Manolita, tranquila, misteriosa e relativamente fresca, inundada pela fragrância das flores naturais.

Fortunata ficou ao lado de Mauricia. Conta a que depois foi senhora de Rubín que, numa ocasião em que olhou para a companheira, observou através de seu véu e do dela uma expressão tão particular que ficou atônita. Mauricia chorava quando entrou; passado algum tempo, porém, parecia antes rir com um riso contido e satânico. Fortunata não compreendeu o motivo e julgou que a escuridão do véu deformava a realidade do rosto da companheira. Tornou a olhar disfarçadamente, fingindo voltar-se para espantar uma mosca, e... podia ser ilusão, mas os olhos de Mauricia pareciam duas brasas. Enfim, tudo seria apreensão.

D. León Pintado subiu ao púlpito e soltou um sermonão cheio dos maneirismos que empregava em sua oratória. O que disse naquela tarde já dissera em outras, e certas frases nunca lhe saíam da boca. Trovejou, como sempre, contra os livre-pensadores, a quem chamou apóstolos do erro umas mil e quinhentas vezes. Ao sair da igreja, Fortunata lançou, como de costume, um olhar ao público que estava atrás da grade de madeira e viu Maximiliano, que não faltava nenhum domingo àquele encontro amoroso e mudo. Olhou-o com simpatia. Notava alegremente que os defeitos físicos do estimável jovem começavam a perder importância diante de seus olhos. Seriam aqueles os primeiros brotos do amor pela beleza da alma? O que mais consolava Fortunata era a esperança, cada dia mais firme, pois o capelão lhe dissera muitas vezes no confessionário, de que, quando casasse e vivesse santamente com o marido à sombra das leis divinas e humanas, haveria de amá-lo; não de qualquer modo, mas com verdadeiro calor e impulso da alma. Isso também lhe dizia a forma, a ideia branca encerrada no ostensório.

ix

Chegada a noite, e recolhidas as Josefinas ao dormitório, as madres permitiram que as Filomenas ficassem na horta até mais tarde que o regulamento, para ver se surgia algum frescor. Já eram nove horas, e a terra abrasava; o ar não se movia; as estrelas pareciam mais próximas, pelo fulgor vivíssimo com que brilhavam, e entre as grandes e médias via-se, ao que parecia, maior número das pequeninas, tantas, tantas, que eram como pó de prata espalhado sobre aquele azul intensíssimo.

A lua nova se pôs cedo, descendo ao horizonte como uma foice, rodeada de auréola esbranquiçada que anunciava mais calor para o dia seguinte.

As recolhidas formavam diferentes grupos, sentadas no chão e na escada de madeira que ligava o corredor principal à horta, e tiravam as toucas para diminuir o calor da pele. Algumas olhavam o motor de vento, que continuava imóvel. À beira do tanque situado aos pés do aparelho havia três mulheres, Fortunata, Felisa e Dona Manolita, sentadas sobre o muro de tijolo, gozando o frescor da água próxima. Aquele era o melhor lugar, mas não o diziam, porque o egoísmo lhes fazia considerar que, se todas as mulheres se apinhassem ali, o escasso frescor da água se repartiria mais e caberia menos a cada uma. No lado oposto da horta, o lugar mais afastado e feio, havia um telheiro sob o qual se viam vasos vazios ou quebrados, um monte de terra adubada que parecia café moído, dois carrinhos de mão, regadores e diversos instrumentos de jardinagem. Em outro tempo houvera ali um chiqueiro, e no chiqueiro um porco criado com as sobras; mas a Prefeitura mandara retirar o animal de Santo Antão, e o chiqueiro estava vazio.

Desde o anoitecer, Mauricia, a Dura, instalara-se ali, sozinha, sobre o monte de adubo; como era o lugar mais quente, ninguém quis acompanhá-la.

Alguma se aproximou para zombar, mas não conseguiu arrancar-lhe uma palavra. Estava sentada à mourisca, os braços caídos, a cabeça ereta, mais napoleônica que nunca, o olhar fixo diante de si, com dispersão vaga mais própria de sonhadora que de pessoa absorta em meditação. Parecia aparvalhada, ou talvez se assemelhasse àqueles penitentes do Hindustão que passam dias e dias olhando para o céu sem pestanejar, num estado intermediário entre a sonolência e o êxtase. Já era tarde quando Belén se aproximou e sentou-se ao lado dela. Olhou-a atentamente, perguntou o que fazia ali e em que pensava; por fim, Mauricia abriu os lábios de esfinge e disse palavras que fizeram correr um frio pela espinha de Belencita:

— Vi Nossa Senhora.

— Que está dizendo, mulher? Que lhe acontece? — perguntou a ex-corista, com vivíssima ansiedade.

— Vi a Virgem — repetiu Mauricia, com segurança e firmeza que deixaram a outra sem saber o que pensar.

— Tem certeza do que diz?

— Oh!... Que eu morra se não é verdade. Juro por estas cruzes — disse a iluminada com voz trêmula, beijando as próprias mãos. — Eu a vi... desceu por ali, onde está aquele abanador da nora... Descia no meio de uma luz... como lhe direi?... de uma luz que você não pode imaginar... uma luz que era, por exemplo, como puro mel...

— Como mel! — repetiu Belén, sem compreender.

— Pois... tão doce que... Depois veio andando, andando para cá, e ficou ali, bem diante de mim. Passou entre vocês, e vocês não a viam. Só eu via... Não trazia o Menino Deus nos braços. Deu mais dois ou três passinhos e tornou a parar. Olhe, vê aquela pedrinha? Pois ali... ficou me olhando... Eu não podia respirar.

— E lhe disse alguma coisa, disse alguma coisa? — perguntou Belén, toda olhos, pálida como morta.

— Nada... mas chorava olhando para mim... Caíam-lhe umas lágrimas enormes!... Não trazia o Menino Deus; parecia que o tinham tirado dela. Depois voltou-se para lá e tornou a passar entre vocês sem que a vissem, até chegar bem àquela árvore... Ali vi muitos anjinhos que subiam e desciam, correndo do tronco aos galhos e...

— E dos galhos ao tronco...

— E depois... não vi mais nada... Fiquei como cega... quer dizer, completamente cega; passei algum tempo sem ver coisa alguma, sem poder me mexer. Sentia aqui, dentro de mim, uma coisa...

— Como uma pena...

— Pena não, um gosto, um consolo...

Fortunata aproximou-se então, e ambas se calaram.

— Se estão com segredos, vou-me embora.

— Acho — disse Belén, depois de grave pausa — que você deve consultar isso com o confessor.

Mauricia levantou-se e, caminhando lentamente, retirou-se para o aposento onde dormia e guardava a roupa. As outras duas julgaram que fora deitar-se e ficaram ali comentando o estranho caso, que Belén transmitiu a Fortunata com todos os pormenores. Belén acreditava ou fingia acreditar; Fortunata, não. De súbito, porém, viram a Dura voltar e sentar-se novamente sobre o monte de adubo. Olharam-na com receio e afastaram-se.

De repente, ressoou na horta um “ah!” prolongado e alegre, como os que a multidão solta diante de fogos de artifício. Todas as recolhidas olhavam o disco, que se movera solenemente, dando duas voltas e parando outra vez.

— Ar, ar! — gritaram várias vozes.

O motor, porém, não deu depois mais de meia volta e tornou a ficar imóvel. A haste de ferro guinchou por um instante, e as que estavam junto ao tanque ouviram, no fundo da bomba, uma leve regurgitação. O cano cuspiu um salivão d’água e tudo tornou à mesma calmaria desesperadora.

Belén se pusera a conversar em voz baixa com uma monja chamada Sor Facunda, a sabichona da casa, muito lida e escrevida, bondosa e inocente ao extremo, diretora de todas as funções extraordinárias, camareira da Virgem e de todas as imagens que tinham alguma roupa para vestir, muito querida das Filomenas e ainda mais das Josefinas, e pessoa tão cândida que acreditava como no Evangelho em tudo quanto lhe diziam, sobretudo se fosse bom. Basta dizer, em elogio da sancta simplicitas dessa senhora, que nas confissões jamais tinha de que acusar-se, pois nunca pecara nem por pensamento; mas, como julgasse muito descortês não oferecer absolutamente nada diante do tribunal da penitência, revolvia o espírito à procura de alguma coisa que tivesse ao menos um cheirinho de maldade e raspava a consciência para tirar de lá coisas tão sutis e sem substância que o capelão ria por dentro da batina. Como o pobre D. León Pintado tinha de viver daquilo, ouvia-a seriamente e fingia tomar em grande consideração aqueles pecados tão superfinos que nenhum cristão os compreenderia... A monja ficava muito compungida, dizendo que não tornaria a fazer; ele, que era muito ladino, dizia que sim, que era preciso ter cuidado da próxima vez, e patati e patatá...

Assim era Sor Facunda, dama ilustre da mais alta aristocracia, que deixara riquezas e posição para entrar naquela vida, mulher pequena, não muito bonita, afável e carinhosa, muito inclinada a fazer-se querida pelas jovens. Nas horas de recreio, trazia sempre atrás de si um bando de meninas precocemente místicas, perguntadeiras, rezadeiras, cuja conduta, palavras e entusiasmos pertenciam ao que se poderia chamar a idade do peru da santidade.

É difícil averiguar o que se passou no grupo formado por Sor Facunda e suas amiguinhas. O certo é que Belén, tremendo de emoção e com o rosto ansioso, disse à monja:

— Mauricia viu a Virgem...

Pouco depois, as outras repetiam com indefinível assombro:

— Viu a Virgem!

Sor Facunda, seguida de sua escolta, aproximou-se de Mauricia e olhou-a durante bom tempo sem dizer palavra. A infeliz permanecia na mesma posição mourisca, a cabeça apoiada sobre os joelhos. Parecia chorar.

— Mauricia — disse-lhe a monja em tom lacrimoso, com aquela boa-fé que nela equivalia à graça divina —, só porque você foi muito má não vá pensar que Deus lhe nega seu perdão.

Ouviu-se um grande bramido, e a reclusa mostrou o rosto inundado de lágrimas. Disse algumas palavras ininteligíveis e ásperas, das quais Sor Facunda e companhia não extraíram sentido algum. De repente levantou-se. À claridade da lua, seu rosto tinha uma beleza grandiosa que as circunstantes não souberam apreciar. Seus olhos lançavam fulgor inspirado. Apertou o peito com ambas as mãos, numa atitude semelhante às que a escultura deu a certas imagens, e disse com acento comovente:

— Oh, minha Senhora!... Eu o trarei, eu o trarei...

Pôs-se a correr para a escada com grande presteza e logo desapareceu. Sor Facunda falou com as outras madres. Quando toda a comunidade, à voz da Superiora, se recolhia, abandonando a horta e subindo lentamente aos aposentos, a maior parte das mulheres de má vontade, porque o calor da noite convidava a permanecer ao ar livre, correu a notícia de que a visionária fora deitar-se.

Fortunata, que poucos dias antes fora transferida para o dormitório de Mauricia, viu que esta se deitara vestida e descalça. Aproximou-se e, pela respiração rouca, julgou que dormisse profundamente. O singular estado em que sua amiga se pusera dava-lhe muito que pensar, e ela esperava que passasse logo, como outros acessos semelhantes, embora de caráter diferente. Esteve muito tempo desperta, pensando naquilo e em outras coisas; por volta da meia-noite, quando no dormitório e em toda a casa reinavam o silêncio e a paz, percebeu que Mauricia se levantava. Não se atreveu, porém, a falar-lhe nem a detê-la, para não perturbar o silêncio do dormitório, iluminado por uma luz tão fraca que quase se extinguia. Mauricia atravessou o aposento sem ruído, como sombra, e foi-se. Pouco depois Fortunata sentiu sono e começou a adormecer; naquele estado incerto entre dormir e velar, julgou ver a companheira entrar outra vez no dormitório sem que seus passos fossem ouvidos. Metera-se debaixo da cama, onde tinha um baú; depois remexera entre os colchões... Fortunata já não percebeu mais nada, porque adormeceu de verdade.

Mauricia saiu ao corredor e, atravessando-o por inteiro, sentou-se no primeiro degrau da escada.

— Digo que me atrevo...

Com quem falava? Com ninguém, pois estava inteiramente só. Naquela solidão não tinha outra companhia além das altas estrelas.

— Que diz? — perguntou depois, como quem sustenta diálogo. — Fale mais alto, que com o barulho do órgão não se ouve. Ah, agora entendi... Fique tranquila, que, mesmo que me matem, eu o trarei. Já vão saber quem é Mauricia, a Dura, que não teme nem a Deus... Ha, ha, ha... Amanhã, quando vier o capelão e essas tias confeiteiras descerem à igreja, que decepção vão ter!

Soltando um risinho insolente, precipitou-se escada abaixo. Que demônios se passavam naquele cérebro? Entrou pela pequena porta que comunicava o pátio com o longo corredor interno do edifício e, uma vez ali, passou sem obstáculo ao vestíbulo, apalpando a parede porque a escuridão era completa. Ouvia-se-lhe certo ranger de dentes e algum monossílabo gutural que tanto podia ser sinal de riso como de cólera. Por fim, tateando as paredes, chegou à porta da capela e, buscando com as mãos a fechadura, começou a arranhar o ferro. A chave não estava ali...

— Pentes e travessas, onde estará a maldita chave? — murmurou com um rugido de profundíssimo despeito.

Tentou abrir pela força e pela habilidade. Nem uma nem outra valiam naquele caso. A porta do recinto sagrado estava bem fechada. A infeliz continuou soltando gemidos como os de um cão que ficou do lado de fora de casa e quer que lhe abram. Depois de meia hora de esforços inúteis, desabou no umbral da porta e, inclinando a cabeça, adormeceu. Foi um desses sonos semelhantes a morte instantânea. A cabeça bateu no canto como pedra que cai, e a postura torcida em que o corpo ficou, dobrado violentamente pela queda, dificultou-lhe a respiração, produzindo nos condutos respiratórios assobios agudíssimos, seguidos de um estertor como de líquidos ferventes.

Profundamente entorpecida, Mauricia fez o que não pudera fazer desperta e prosseguiu a ação interrompida por uma porta bem fechada. Faltou o fato real, mas não sua realidade na vontade. A fera entrou, pois, na igreja e ali pôde caminhar sem tropeço, porque a lâmpada do altar dava luz suficiente para ver o caminho. Sem hesitar, dirigiu-se ao altar-mor, dizendo pelo caminho:

— Não vou lhe fazer mal algum, meu Deusinho; vou levá-lo para sua mamãe, que está lá fora chorando por você e esperando que eu o tire daqui... Mas o quê?... não quer ir com sua mãezinha?... Olhe que ela está esperando... tão bonita, tão elegante, com aquele manto cheio de estrelas e os pés sobre o bicornio da lua... Você verá, verá como eu o tiro direitinho, bonitinho... Eu gosto muito de você; mas não me conhece?... Sou Mauricia, a Dura, sua amiguinha.

Embora andasse muito depressa, demorava a chegar ao altar, porque a capela, tão pequena, se tornara enorme. Havia pelo menos meia légua da porta ao altar... E quanto mais caminhava, mais longe, mais longe... Chegou por fim e subiu os dois, três, quatro degraus; causava-lhe tamanha estranheza ver-se naquele lugar, olhando de perto a mesa coberta por finíssimo e alvo linho, que por algum tempo não pôde dar o último passo. Entrou-lhe um riso convulsivo quando pôs a mão sobre a pedra sagrada...

— Quem me havia de dizer?... Oh, meu re... Deus de minha alma, que eu... hi, hi, hi!...

Afastou o Crucifixo diante da porta do sacrário e estendeu o braço; como não alcançasse, estendeu-o cada vez mais, até começar a doer-lhe de tantos puxões... Por fim, graças a Deus, conseguiu abrir a porta que só tocam as mãos ungidas do sacerdote. Levantando a cortininha, procurou por um instante no misterioso, santo e venerado vão... Oh, não havia nada. Procura aqui, procura ali, nada... Lembrou-se de que aquele não era o lugar do ostensório, e sim outro mais alto. Subiu ao altar, pôs os pés na pedra santa... Procura aqui, ali... Ah, por fim os dedos encontraram o pé metálico do ostensório. Mas como estava frio, tão frio que queimava! O contato do metal levou por toda a espinha de Mauricia uma corrente gelada... Hesitou. Pegaria ou não? Sim, sim, mil vezes; ainda que morresse, era preciso cumprir. Com cuidado extremo, mas grande decisão, agarrou o ostensório e desceu com ele por uma escada que antes não estava ali. Orgulho e alegria inundaram a alma da atrevida ao contemplar na própria mão a representação visível de Deus... Como brilhavam os raios de ouro em volta do vidro central, e que misteriosa e plácida majestade tinha a hóstia puríssima, guardada atrás do cristal, branca, divina e com todo o quê de pessoa, não sendo senão uma substância de pão delicado!

Com incrível arrogância, Mauricia descia, sem sentir carga alguma. Erguia o ostensório como o sacerdote o ergue para que os fiéis o adorem...

“Vejam como me atrevi”, pensava. “Não diziam que não podia ser?... Pois pôde, que pente!”

Continuava pela igreja. A hóstia puríssima, embora sem rosto, olhava como se tivesse olhos; ao chegar sob o coro, a sacrílega começou a temer aquele olhar.

— Não, não o solto, você não volta para lá... Para casa com sua mamãe!... Sim? Não é verdade que o menino não chora e quer ir com a mamãe?...

Dizendo isso, atrevia-se a aconchegar contra o peito a forma sagrada. Então percebeu que ela não tinha apenas olhos profundos, luminosos como o céu, mas também voz, uma voz que a fera ouviu ressoar-lhe ao ouvido com som lamentoso. Desaparecera toda sensação da materialidade do ostensório; restava apenas o essencial, a representação, o símbolo puro, e era isso que Mauricia apertava furiosamente contra si.

— Menina — dizia-lhe a voz —, não me tire daqui; volte a pôr-me onde estava. Não faça loucuras... Se me soltar, perdoarei seus pecados, que são tantos que não se podem contar; mas, se insistir em levar-me, será condenada. Solte-me e não tema, que eu não direi nada a D. León nem às monjas, para que não a repreendam... Mauricia, menina, que está fazendo?... Está me comendo, está me comendo?...

E nada mais... Que desvario! Por maior que seja um absurdo, sempre encontra lugar no incomensurável vazio da mente humana.

x

Bem cedo pela manhã, a Superiora e Sor Facunda encontraram-se ao sair de suas respectivas celas.

— Acredite em mim — disse Sor Facunda —, há nisso alguma coisa extraordinária. Consultarei agora mesmo D. León. O caso de Mauricia deve ser examinado detidamente.

Sor Natividad, mulher de muito entendimento e acostumada aos entusiasmos pueris da companheira, limitou-se a sorrir com bondade. Teria dito a Sor Facunda: “Como a senhora é tola, filha”; mas não disse nada e, tirando um molho de chaves, dirigiu-se ao guarda-roupa.

— Mas onde está aquela louca? — perguntou depois.

— Não aparece em parte alguma — disse Fortunata, que por ordem de Sor Marcela descera à procura da amiga. — Lá em cima não está.

Nos dormitórios das Filomenas havia grande movimento. Todas lavavam o rosto e as mãos, brigando pela água, discutindo se uma tirara a toalha da outra ou se aquela era sua bacia.

— Não, minha água é esta.

Outra tirava debaixo da cama um pedaço de pão e começava a comê-lo.

— Ai, que fome!... Com este calor, como a gente sua; não se pode viver... E agora pôr a touca!

Sor Antonia entrava, impunha silêncio e apressava-as. Ouvia-se o sino da capela. O sacristão aparecera várias vezes na grade da sacristia que dava para o vestíbulo, dizendo sucessivamente:

— D. León ainda não veio...

— D. León já chegou...

— Já está se paramentando.

Na parte alta, ouviam-se os passos de toda a comunidade que seguia para o templo a fim de assistir à primeira missa. À frente iam as Josefinas, ainda sonolentas e bocejando, empurrando-se umas às outras. Seguiam as Filomenas com certa ordem, as mais diligentes apressando as preguiçosas. Onde há muitas mulheres, necessariamente existe esse rumor de colégio, superior à mais severa disciplina. Entre zombarias e risos, ouvia-se o murmúrio:

— Mauricia... não sabem? Ontem à noite viu a própria figura da Virgem.

— Ora, deixe disso.

— Palavra... Pergunte a Belén.

— Bah, como se fôssemos tolas...

— O rosto da Virgem?... Ora... Devia ser o de Nossa Senhora da Aguardente.

Sor Facunda e as de seu grupo desciam a escada dizendo que o fato podia ser falso, mas também podia não ser; e que Mauricia ser grande pecadora nada significava, pois Deus se valera, para seus fins, de outras muitíssimo mais perversas.

D. León disse a missa, parecendo o padre Foguete pela rapidez com que despachava. Fora capelão militar, e às monjas não agradava inteiramente a diligência marcial de seu capelão. Mais tarde celebrava D. Hildebrando, padre francês dos de babador, exatamente o contrário de Pintado, pois prolongava a missa até o incrível.

Quando a comunidade saía da capela, Dona Manolita, que entrara entre as últimas, ofegante, aproximou-se da Superiora e disse-lhe que Mauricia estava na horta, sobre o monte de adubo.

— Pois é... no lixo — replicou Sor Natividad, franzindo a testa. — É o lugar dela.

As recolhidas desceram ao refeitório para tomar chocolate com uma fatia de pão. Animação mundana reinava no frugal desjejum e, embora as monjas se esforçassem por manter ordem de quartel, não conseguiam.

— Esse prato é meu. Dê-me meu guardanapo... Digo que é o meu... Ora! Ai, Santo Antônio, como está duro este pão!... Deve ser do casamento de San Isidro.

— Silêncio!

Algumas tinham apetite voraz; comeriam três porções, se lhes dessem.

Logo depois, toda aquela tropa feminina começou a distribuir-se como soldados que se incorporam a seus respectivos regimentos. Umas desciam à cozinha, outras subiam à escola e à sala de costura; outras ainda, tirando as toucas e pondo a saia de operária, dedicavam-se à limpeza da casa.

A Superiora conversava com Sor Antonia à porta de uma cela quando chegou, muito aflita, uma reclusa:

— Mandei que viesse, e ela não quer. Quis me bater. Se eu não saio correndo!... Depois pegou um monte daquela sujeira e jogou em mim. Olhe...

A recolhida mostrou às madres o ombro manchado de adubo.

— Terei de ir eu mesma... Ai, que mulher! Que trabalho nos dá! — disse a Superiora. — Onde está Sor Marcela? Que traga a chave da casinha. Hoje teremos chínchirri-máncharras... Está mais atacada que nunca. Deus nos dê paciência.

— E Sor Facunda acaba de me dizer — indicou Sor Antonia com riso franco, ficando ainda mais vesga — que Mauricia viu a Virgem!

A Superiora respondeu àquela risada com outra menos franca. Três ou quatro das Filomenas mais masculinas desceram à horta com ordem expressa de trazer a visionária.

— Pobre mulher, como se perde! — observou Sor Natividad no pequeno grupo de monjas que se ia formando. — Males dos nervos, nada mais que males dos nervos.

Ao dizê-lo, seus olhos encontraram os de Sor Facunda, que se aproximava com semblante extraordinariamente aflito.

— Mas a senhora não consultou esse caso com o senhor capelão? — perguntou-lhe.

— Sim — replicou Sor Natividad com um pouco de humor —, e o capelão disse que eu a ponha na casinha.

— Trancá-la porque chora!... — exclamou a outra, que, por timidez, não ousava contradizer a Superiora. — O caso merecia exame.

— Para prever tudo — indicou a biscainha —, avisaremos também o médico.

— E que tem o médico com isso?... Enfim, não sei. Quem manda, manda. Mas me parecia... Pode ser coisa física; e se não for? Se efetivamente Mauricia... Não digo que seja, mas tampouco me atrevo a negar. Aquele choro contínuo, que pode ser senão arrependimento? Sabe-se lá que meios escolhe o Senhor...

Retirou-se para a cela. Sor Facunda, afastando-se, e Sor Marcela, que se aproximava do grupo aos balanços e golpeando duramente o chão com o pé de madeira, quase se chocaram. O rosto da coxa, descomposto pela ira, estava mais feio que nunca; com a pressa, mal conseguia respirar, e as primeiras frases saíram-lhe da boca desfeitas pela cólera:

— Já, já sabemos... Santo Antônio!... patife... parece mentira... Ai, meu Deus, é de enlouquecer...

Falou algumas palavras em voz muito baixa à Superiora, que, ao ouvi-las, fez uma cara de meter medo.

— Eu... a senhora bem sabe... — balbuciou Sor Marcela — tinha aquilo para meu mal do estômago... conhaque superior.

— Mas aquela maldita, como...? Isto parece... Jesus me valha! Estou horrorizada. Mas quando?...

— É muito simples... compreenda. Anteontem, Santo Antônio bendito!, quando esteve em minha cela removendo os trastes para pegar o rato.

À Superiora escapou, sem que pudesse evitá-lo, um ligeiro sorriso; logo tornou a compor a cara dura. A anã correu até onde estavam as recolhidas e repetiu a Fortunata, sem conter a ira, o mesmo que dissera a Sor Natividad:

— Já se viu diabrura semelhante?... O que lhe parece? Estamos todas horrorizadas!

Fortunata nada disse e ficou muito séria. Talvez a declaração da monja não a apanhasse inteiramente de surpresa. Obedecendo-lhe, subiu ao dormitório à procura de provas do nefando crime imputado à amiga.

— Aí têm — dizia a Superiora às mais próximas — como essa perdida teve visões... Sim, o que não veria ela!... Mas não vem afinal? Juro que não torna a nos fazer outra. É preciso acertar-lhe bem as contas...

A coxinha apareceu novamente no grupo, mostrando a enorme chave da casinha; brandia-a como pistola, com ameaça homicida. Estava realmente furiosa, e a pancada de seu pé duro no chão tinha violência e sonoridade excepcionais. Nesse momento chegou Fortunata trazendo uma garrafa, que Sor Marcela lhe arrancou imediatamente.

— Vazia, inteiramente vazia! — exclamou, erguendo-a e olhando-a contra a luz. — E estava quase cheia, pois eu mal...

Depois aplicou o nariz achatado à boca da garrafa e disse com entonação lamentosa:

— Não deixou senão o cheiro... Bribonona! Eu lhe daria bebida...

Do nariz da coxa, o corpo de delito passou ao de Sor Natividad e deste a outros narizes próximos; da apreciação do cheiro resultou maior severidade nos comentários sobre o crime.

— Que nojo! Tomou uma bela carraspana... — exclamou a Superiora. — Como estará aquele corpo com todo esse líquido ardente! Nunca nos aconteceu outra... Vamos dar-lhe jeito, vamos dar-lhe jeito. Mas vem ou não vem?

Já descia, decidida a abreviar a demora do ato de justiça, quando se ouviu grande tumulto. As três mulheronas que haviam ido buscar a delinquente passavam da horta ao pátio pela portinha verde, fugindo aterrorizadas e soltando gritos de pânico. Ressoou na porta a pancada de uma forte pedrada.

— Ela nos mata, ela nos mata! — gritavam as três, levantando as saias para subir mais depressa a escada.

As madres debruçaram-se no parapeito do corredor sobre o pátio e viram aparecer Mauricia, descalça, as madeixas soltas, o olhar ardente e extraviado, enfim com todas as aparências de louca. A Superiora, mulher de gênio forte, não se conteve e gritou de cima:

— Traste... infame, se não ficar quieta, verá!

— Uma dupla, uma dupla da Ordem Pública — sugeriram várias vozes de monjas.

— Não... verão... Eu me basto e me sobro — indicou a Superiora, vangloriando-se de ser mulher para a ocasião. — Comigo ela não brinca.

Mauricia saltou para o canto fronteiro ao corredor onde estavam as madres e dali as olhou com insolência, mostrando e esticando a língua, fazendo caretas e gestos indecentíssimos.

— Mulheres, suas mulheres! — gritava.

Inclinando-se com rápido movimento, apanhou do chão pedras e pedaços de tijolo e começou a lançá-los com tanto vigor como boa pontaria. As monjas e recolhidas, que ao ouvir o alvoroço saíram em tropel para os corredores do primeiro e segundo andares, romperam em gritos. Parecia que o mundo desabava. Meu Deus, que barulho! E às exclamações de cima a fera respondia com uivos selvagens.

Umas se abaixavam, protegendo-se atrás do parapeito de alvenaria quando vinha a pedrada; outras punham a cabeça para fora por um instante e tornavam a escondê-la. Os projéteis multiplicavam-se, acompanhados pelas vozes daquela endemoninhada. Parecia uma amazona. Tinha um peito meio descoberto, o corpete do vestido em farrapos, e as madeixas curtas chicoteavam-lhe o rosto nos movimentos de fundibulária que fazia com o braço direito. Sua aparência parecia horrível às senhoras monjas; mas, em rigor de verdade, estava bela, mais arrogante, varonil e napoleônica que nunca.

Sor Marcela tentou descer valentemente, mas no terceiro degrau teve medo e voltou para cima. Seu rosto filipino ficara cor de mostarda inglesa.

— Você verá se eu desço, diabo infame! — era seu refrão; o fato é que não descia.

Por uma grade da sacristia que dava para o pátio apareceu o rosto do sacristão e, pouco depois, o de D. León Pintado. Duas monjas de turno na portaria também se debruçaram por outra janela baixa; mas bastou Mauricia vê-las para começar a mandar-lhes pedras. Nada, tiveram de retirar-se. Assustadas, quiseram pedir socorro. Nesse instante alguém chamou à porta do convento e logo entrou uma senhora em visita, que passou à sala; informando-se do que ocorria, também apareceu à janela baixa. Era Guillermina Pacheco, que fez o sinal da cruz ao ver a tragédia ali armada.

— Em nome do...! Mas você!... Mauricia!... Como se entende?... Que está fazendo?... Está louca?

A porteira e a outra monja não puderam contê-la, e Guillermina saiu ao pátio pela porta que o comunicava com o vestíbulo.

— Guillermina — gritou Sor Natividad lá de cima —, não saia... Cuidado... Veja que é uma fera... Aí está, aí está a joia que você nos trouxe... Retire-se, pelo amor de Deus; olhe que está louca e não respeita ninguém... Faça-me o favor de chamar uma dupla da Ordem Pública.

— Que dupla nem dupla? — disse Guillermina, muitíssimo incomodada. — Mauricia!... Como se entende!

Não tivera tempo de dizer mais quando uma pedrinha de rua lhe roçou o rosto. Se a atingisse em cheio, abria-lhe a cabeça.

— Jesus!... Mas não, não foi nada.

Levando a mão ao ponto dolorido, clamou:

— Infame, em mim, em mim você atirou!

— Na senhora, sim, e em todo o gênero mundano — gritou Mauricia com voz tão rouca que mal se compreendia. — Sua tia confeiteira... Vá embora daqui depressa.

As monjas, horrorizadas, erguiam as mãos ao céu; algumas choravam. Nesse momento, D. León Pintado abrira com bastante trabalho a grade da sacristia; saltou ao pátio, única maneira de comunicar-se da sacristia com o convento, e, lançando-se sobre Mauricia, segurou-lhe os dois braços.

— Solte-me, León, capelão de travessas! — rugiu a visionária.

Pintado tinha mãos de ferro, embora fosse de pouco ânimo, e, uma vez lançado ao heroísmo, não apenas dominou Mauricia como lhe aplicou duas bofetadas sonoras. A cena era repugnante. Depois do capelão saiu também seu acólito; enquanto os dois davam jeito na Dura, as monjas, vendo o inimigo subjugado, arriscaram-se a descer e acudiram a Guillermina, que com o lenço estancava o sangue do ferimento leve. Com certa tranquilidade, mais risonha que zangada, a fundadora disse às amigas:

— Vejam as coisas que acontecem!... Eu vinha pedir os tijolos e o entulho que lhes sobram, e vejam como consegui depressa o que queria... Nada, ponham-na agora mesmo na rua e que vá para os quintos dos infernos, onde deve estar.

— Agora mesmo. D. León, não a maltrate — disse a Superiora.

— Zangão!... Que uma punhalada maldosa o mate!... — bramava Mauricia, já com poucas forças e caída no chão. — Um sacerdote batendo numa... senhora!

— Tragam a roupa dela — gritou Sor Natividad. — Depressa, depressa. Parece mentira que vou vê-la sair...

Mauricia já não se defendia. Perdera a força selvagem; mas o semblante ainda exprimia ferocidade e desordem mental.

Depois viu-se que do corredor alto jogavam um par de botas e, em seguida, um xale.

— Tragam para baixo, filhas, tragam para baixo — disse a Superiora do pátio, olhando para cima e já recuperando a serenidade com que sempre dava suas ordens.

Fortunata desceu um embrulho de roupa e, recolhendo as botas, deu tudo a Mauricia, isto é, pôs-lhe tudo diante. A espantosa cena descrita impressionara desagradavelmente a jovem, que sentiu profunda compaixão da amiga. Se as monjas permitissem, talvez ela tivesse acalmado a fera.

— Tome sua roupa, suas botas — disse-lhe em voz baixa e tom pacífico. — Mas, filha, como você se pôs!... Não percebe que esteve transtornada?

— Saia daí, rameira... saia ou eu...

— Deixem-na, deixem-na — disse a Superiora. — Não lhe digam mais uma palavra. Para a rua, e acabamos.

Com grande dificuldade, Mauricia levantou-se do chão e recolheu a roupa. Ao pôr-se de pé, pareceu recuperar parte do furor.

— Está esquecendo este embrulho.

— As botas, as botas.

A fera apanhou tudo. Já saía sem dizer nada quando Guillermina a olhou severamente.

— Mas que mulher! Nem sequer sabe sair com decência.

Ia descalça, segurando as botas pelas alças.

— Calce as botas! — gritou-lhe a Superiora.

— Não estou com vontade. Adeus... São todas umas judias confeiteiras!...

— Paciência, filha, paciência... precisamos de muita paciência — disse Sor Natividad às companheiras, tapando os ouvidos.

Todas as portas lhe foram franqueadas, abrindo-as de par em par e protegendo-se atrás das folhas, como se abrem as portas do curral para que a fera saia à arena. A última a trocar algumas palavras com ela foi Fortunata, que a seguiu até o vestíbulo, movida por pena e amizade, e ainda quis arrancar-lhe alguma declaração de arrependimento. Mas a outra estava cega e surda; não percebia nada e deu à amiga tamanho empurrão que, se ela não se apoia na parede, cai redonda no chão.

Saiu triunfante, lançando a um lado e outro olhares de altivez e desprezo. Ao ver a rua, seus olhos iluminaram-se com fulgores de júbilo e ela gritou:

— Ai, minha querida rua da minha alma!

Estendeu e fechou os braços, como se quisesse apertar amorosamente neles tudo quanto seus olhos viam. Depois respirou com força e ficou olhando atônita para todos os lados, como o touro ao sair para o redondel. Em seguida, orientando-se, tomou decididamente o passeio para baixo. Era de ver aquela mulherona descalça, esfarrapada, descabelada, soltando ferocidade pelos olhos, com um embrulho debaixo do braço e as botas penduradas numa mão. As poucas pessoas que passavam olharam-na com espanto. Ao chegar junto aos Armazéns da Vila, passou por vários rapazes varredores, sentados em seus carrinhos com as vassouras nas mãos. Tomaram-na por mulher de pouca monta e puseram-se a rir diante de seu rosto napoleônico.

— Ora, que bela bebedeira você leva, olééé!...

Ela se plantou diante deles em atitude arrogantíssima, ergueu o braço que tinha livre e disse:

— Apóstolos do erro!

Rompendo ao mesmo tempo em riso estúpido, seguiu adiante. Os varredores acharam muita graça e, pondo em marcha os carrinhos à frente e as vassouras sobre eles, foram atrás de Mauricia como escolta de artilharia burlesca, fazendo barulho de mil demônios e disparando-lhe balas rasas de grosserias e injúrias.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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