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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 24 · Fortunata e Jacinta

Parte 3 — Capítulo VI: Naturalismo espiritual

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Parte 3 — Capítulo VI: Naturalismo espiritual

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Ao entrarem na calle de Mira el Río, encontraram Severiana, a quem Dona Lupe vira algumas vezes. Ela levava um copo com remédio, coberto por um papel ao estilo das boticas antigas. Dona Lupe interrogou-a e, ao saber que iam ver sua irmã, Severiana fez de bom grado o papel de introdutora, guiando-as pelo saguão sujo, pela escada menos suja e tortuosa, até chegarem ao corredor. Já se sabe que a moradia de Severiana era uma das melhores daquele falanstério e que, por seu espaço e arranjo, bem podia passar por luxuosa em semelhante vizinhança. Vivia em companhia dela uma tal Dona Fuensanta, viúva de um comandante, e a casa correspondia a essa situação comanditária, pois constava de duas salinhas inteiramente iguais, cada uma com janela para a rua. Entre a porta e a primeira sala havia um corredor, no qual se viam a tina de lavar e a entrada da cozinha, cuja grade dava para o corredor externo. Dois cômodos interiores completavam o apartamento. Quando Guillermina, compreendendo o fim próximo de Mauricia, induziu Severiana a tirá-la do hospital pela terceira vez e levá-la para casa, a senhora viúva do comandante cedeu seu quarto para tão benéfico fim, transferindo os móveis para o quarto de outra vizinha. Mauricia foi, portanto, instalada na segunda das duas salinhas. Severiana tinha a cama na alcova interior, e a primeira sala destinava-se a receber visitas, como declaravam o luxo relativo da cômoda, as cadeiras de Vitoria novinhas em folha, o sofá do mesmo material, a mesa com cobertura de oleado, o quadrinho dos dois corações amantes, o da Numancia num mar de musgo, os retratos de militares cunhados de Severiana, a esteira de esparto nova e sem nenhum buraco, de trançados vermelhos e amarelos e, enfim, as grandes estampas recentemente adquiridas no Rastro por uma pechincha. Eram excelentes gravuras já fora de moda, o papel velho e manchado de umidade, as molduras de mogno, e representavam temas que nada tinham de espanhol, por sinal: as batalhas de Napoleão I, reproduzidas dos outrora célebres quadros de Horace Vernet e do barão Gros. Quem não viu Napoleão em Eylau e em Jena, Bonaparte em Arcole, a Apoteose de Austerlitz e a Despedida de Fontainebleau?

Dona Lupe e Fortunata entraram, precedidas por Severiana, no aposento da enferma, que estava sentada na cama. Haviam-lhe cortado os cabelos dias antes para poder tratar a ferida da cabeça; seu perfil romano acentuara-se; o nariz estava mais fino, a mandíbula inferior sobressaía mais, e a extenuação lhe aumentava os olhos. As curvas graciosas da boca estavam mais marcadas, e a comissura dos lábios, que parecia obra de um punção agudo, dava-lhe certo aspecto de grandeza caída ou de humilhação sublimemente resignada. As olheiras arroxeadas tomavam-lhe metade do rosto; o arco superciliar projetava-se como uma viseira; os olhos, belos e ardentes, permaneciam lá dentro e, cercados por aquela pele roxa, reluziam mais, como se espreitassem o acaso que ia passar. As sobrancelhas negras formavam uma única linha reta. A testa era espaçosa, com um tufo de cabelos negros... Enfim, a Dura completava aquela história exposta nas paredes: era Napoleão em Santa Helena.

Quando Dona Lupe e Fortunata a cumprimentaram, ela ficou olhando para as duas durante algum tempo, como se demorasse a reconhecê-las. Depois chamou-as pelo nome. Que voz! A voz de Mauricia sempre fora rouca, mas já descera ao registro mais grave da escala. «Meu Deus!», disse Fortunata consigo, ouvindo-a depois de observá-la, «parece um homem...!» Dona Lupe, enquanto isso, sentando-se numa das cadeiras de palha, pronunciava as frases de consolo próprias da ocasião, acrescentando: «Isto é para você aprender... e tomar juízo. Veja se, quando sair desta, isso lhe serve de escarmento.»

Mauricia voltou-se para Fortunata, que se sentara junto à cabeceira; olhou-a muito, sem dizer nada; depois cravou os olhos no teto, resmungando: «Sim... fui muito má, muito remá...» E, tornando a voltar-se para a amiga, dirigiu-lhe estas palavras:

— Escuta, arrepende-te... mas com tempo, com tempo. Não deixes para a última hora, porque... isso não vale. Tu também não és trigo limpo, e no dia em que fizeres uma faxina na consciência, vais precisar de muita água e sabão, muita vassoura e muito esfregão...

Disse-o com tão boa-fé, que Fortunata não podia ofender-se. Dona Lupe achou a admoestação muito impertinente e descortês, pois a que propósito vinha falar dos pecados alheios, tendo tantos próprios de que cuidar? Verdade que sua sobrinha por afinidade não fora um modelo; mas já se havia emendado, e não era preciso voltar ao passado.

— Já sabemos que te tratam muito bem — disse, para mudar de assunto.

— Graças à mãe dos pobres — declarou Severiana, que estava de pé arrumando a cama —, não lhe falta nada. Que senhora aquela!

— Uma santa! — exclamou Dona Lupe no tom mais encomiástico. — Não lhe dê outro nome, porque é esse o que lhe assenta bem...

— Mas esta encasquetou que não quer comer — disse a irmã, olhando-a —, e sem comer só vivem os camaleões.

— Mas jejuas mesmo, de verdade?...

— Para fazê-la engolir o caldo, temos de dá-lo com Jerez... e, de manhã, para que engula uma torradinha, é preciso dar-lhe um dedinho da horchata de cepa, e à noite outro dedinho...

— Mas vocês lhe dão mesmo... essa perdição? — perguntou Dona Lupe, alarmadíssima.

— O médico mandou. Diz que é remédio. Parece aquela história de é ao contrário que te digo.

— Que coisas!... E tu não comerias — propôs-lhe Fortunata — uma coxinha de galinha, uma rodela de pescada, um croquetezinho?

Só de ouvir falar em comida, Mauricia piorava. Tremiam-lhe muito as mãos, e de quando em quando tinha uma espécie de acesso de asfixia, respirando com grande dificuldade e queixando-se de um calor irresistível. Estando presentes a de Jáuregui e a sobrinha, a Dura ficou algum tempo como quem deseja romper a tossir e não consegue. As três mulheres olhavam para ela penalizadas, lamentando não saberem como lhe aliviar aquela sufocação...

— Bebe um pouco de água — disse-lhe Fortunata, erguendo-se.

Mas aquilo passou, e a infeliz tornou a falar, cortando muito as frases e tomando fôlego a cada palavra.

— Ontem trouxeram a menina... como está bonita e toda uma senhorita!...

— Mas não a tens contigo? — perguntou a senhora de Rubin.

— Não, senhora. Está no colégio... — respondeu Severiana —, interna no colégio de senhoritas de Dona Visitación.

— Sim... é melhor que esteja... lá... desapartada de mim. Ontem... que pena!... não me reconheceu... Tanto tempo sem me ver!... tinha medo de mim... pobrezinha da minha alma!... medo, assim como se diz... Como se a mãe dela fosse o bicho-papão...

Nisso ouviram passos, e todas olharam para a porta. Era Dona Guillermina, que entrou, como sempre, muito apressada, as faces acesas, com o seu perpétuo xale escuro, os sapatões, a saia de merino. Dona Lupe e Fortunata levantaram-se, e a fundadora cumprimentou-as com aquela graça e amabilidade que eram iguais para o rei e para o último dos mendigos. Dona Lupe pensou que ela não a reconheceria, pois só haviam conversado uma vez na cerimônia do Asilo; mas reconheceu-a, sim, e até a chamou pelo nome, porque Guillermina era como os grandes capitães, que têm memória felicíssima para nomes e fisionomias, e o soldado com quem falam uma vez nunca mais lhes sai da lembrança.

— Minha sobrinha — disse a viúva, apresentando-a.

Guillermina olhou para ela sorrindo.

— Seu rosto não me é desconhecido... vi-a nas Micaelas... Felicidades.

Em seguida dirigiu-se a Mauricia, apoiando ambas as mãos na cama.

— E então, como te encontras hoje? Comerias alguma coisa?... Nada, esse aguaceiro há de passar logo. Amanhã receberás a Deus. Como vai essa consciência? Vamos dar-lhe uma boa limpeza. É o que mais te convém. Eu queria tomar conta de ti e fazer-te confessar, porque, dizendo tu mesma ao Senhor que bela peça és, o Senhor te concederia a sua graça... Portanto, prepara-te. O padre Nones volta esta tarde. Disse-me que te confessaste bem. Tenho para mim que ainda terás alguma borra para pôr para fora, não é?

Mauricia sorria, acanhada e confusa. Com a cabeça, disse que sim.

— Pois é preciso tirar de dentro esses sedimentos endurecidos, porque o demônio se agarra a qualquer coisa — disse a santa, acariciando-lhe o queixo. — Portanto, já sabes... amanhã teremos aqui uma grande festa... Que te parece? Vem visitar-te aquele que fez os Céus e a Terra... Tu acharás que não o mereces... Pois, ainda que não o mereças, ele vem, e lá saberá por quê.

A vivacidade, a graça e o fervor com que Guillermina dizia essas coisas impressionaram as quatro mulheres que a ouviam. Severiana deixou cair duas lágrimas enormes. Fortunata sentia na alma tamanha admiração por aquela mulher, que lhe teria beijado a orla do vestido.

“Depois dizem que já não há gente boa no mundo”, pensava. “E esta?... Veja só mandar tudo às favas, casa, parentes, fortuna, amor, e sacrificar a juventude para passar a vida inteira entre misérias...!”

Assustava-se ao medir em pensamento a distância que havia entre ela e a ilustre senhora; distância infinita, sem dúvida, e que de modo algum poderia encurtar-se, pois, ainda que a gente santa pecasse, e ela fizesse muitas obras de caridade, as duas almas jamais chegariam a ver-se próximas.

A fundadora, com aquela atividade vivaz que punha em tudo, ditou a Severiana algumas providências para a cerimônia que se preparava.

— Aqui colocarás a mesinha que está na outra sala, e faremos o altar. Mandarei um crucifixo, e arranjaremos flores... É preciso pôr roupa limpa na cama e enfeitar todo o quarto o melhor que se puder...

Depois passou para a sala, seguida por Dona Lupe, que queria meter a colher a todo custo:

— Teremos enorme prazer em vir amanhã. Tenho muita estima por Mauricia, que, não fosse o maldito vício, seria uma boa mulher, trabalhadora, fiel... E diga-me uma coisa: à noite será preciso velá-la. Eu não teria inconveniente em ficar alguma noite; e, se não, minha sobrinha...

— Deus lhe pague... Aceita-se, aceita-se. Combine com Severiana. A comandanta e eu ficamos ontem à noite. São necessárias duas pessoas, porque, quando lhe vêm as convulsões, custa Deus e o mundo segurá-la.

— De fato — manifestou Dona Lupe com adulação —, os exemplos que a senhora dá fazem com que todas nós sejamos melhores do que seríamos se a senhora não existisse.

A flor estava bem concebida; mas Guillermina pôs-se a rir, agradecendo-a, porém sem querer aceitá-la.

— Exemplos, eu! Quem me dera. Bem me faria que alguém mos desse. Ai, minha filha! Estou é para ser ensinada, não para ensinar.

— O que mais a senhora havia de dizer? Nem sequer gosta que lhe façam a conta de quanto vale... Pois bem, amiga, não seja tão boa e nós baixaremos a estimativa.

— Ora, deixe disso, deixe disso... A senhora diz isso para disfarçar. Sabe Deus quantas misericórdias a senhora terá feito neste mundo, muito quietinha, talvez com esta mesma Mauricia...! E agora quer pendurá-las todas em mim.

— Eu!... Jesus! Não digo que também não tenha algumas boas obras na minha continha do céu; mas comparar-me com a senhora...! Cale-se, pelo amor de Deus, senhora.

— Enfim, não vamos brigar para ver quem peca menos... parece-lhe? — disse a fundadora, unindo a cortesia à modéstia e permitindo-se aquela característica piscadela de olhos, um tanto maliciosa. — Meu lema é este: “Faça cada um o que puder e souber, e Deus verá.”

— É exatamente o que penso... — Portanto, a senhora me desculpará... tenho muito que fazer. Até amanhã; não falte...

Nesse meio-tempo, a senhora de Rubin ficara a sós com a enferma, porque Severiana fora à cozinha. Arrumou-lhe os travesseiros, e depois as duas ficaram olhando uma para a outra. Fortunata pensava na inexplicável simpatia que aquela mulher sempre lhe inspirara, apesar de ser tão louca e tão má. Seria tal simpatia um parentesco na perversidade? Ela exercia sobre Fortunata uma atração afetuosa, e, quando lhe dizia alguma coisa lisonjeira ao coração, a jovem sentia-a retumbar em sua mente como se fosse uma verdade pronunciada por lábios sobrenaturais. Mil vezes analisara aquele poder fascinador da amiga, sem jamais conseguir descobrir-lhe o sentido. Coisas do espírito, que só Deus entende!

Mauricia parecia melancólica e sossegada.

— Que senhora aquela! — exclamou Fortunata. — Será que nasceu de mãe, como nós?

— Aposto que não — respondeu a Dura. — Que mulher!... No dia em que quis tirar-me da mão daqueles indignos protestantes, deu-me o ataque e eu a insultei... Como fui má!... (Ia soltar um palavrão; mas conteve-se, porque lhe estava absolutamente proibido pronunciar palavras feias, sendo isso para ela um grande martírio, devido à pouca variedade de termos de sua linguagem habitual.)... E ela, como se lhe dissessem menina bonita... Nunca viste outra igual. Mia só, trazer-me para cá e cuidar de mim como cuida!... Ai...! Nem sei como falar... Mia só isto que faz comigo!... É prima-irmã do Nazareno; ninguém me tira isso da cabeça... Imagina o que nós somos comparadas com ela... nós, que fomos umas belas peças...! Nem arrependidas prestamos para lhe descalçar o sapato. E espera só que venha a outra... aquela também é da pele de Cristo...

— Quem? — A amiguinha, a que protege minha menina...

Fortunata viu subitamente diante de si uma névoa escura que vinha sobre ela... O coração deu-lhe um salto...

— Jacinta — disse —; como assim, ela também vem aqui?

— Esteve ontem... Ela mesma trouxe minha menina. Olha, acredita porque sou eu que te digo: quando entrou, paicia que entrava uma luz no quarto.

Fortunata sentia vontade de sair correndo.

— Mas ainda tens raiva dela?... Ai, como és má! Perdoa-lhe, que ela bem o merece. Tirou-te o teu homem; mas não teve culpa. Que rôinha!... ai, escapou. Palavra feia, volta para dentro; não, fica lá fora... Pois, menina, não sejas boba... achas que, no melhor dia, o teu D. Juan não volta a querer-te?... Estou vendo. Quando a gente vai morrer, vê as coisas claras, clarinhas; a morte ilumina a gente, e eu te digo que o teu senhor voltará para ti.

É lei, filha, é lei, e não pode falhar... E, se me apertas, digo-te que Jacinta não dá a mínima. Vai ver que não gosta nada dele... Essas casadas ricas, como vivem com tantíssimo regalo, não amam os maridos... amam outros. Não digo por ela, Deus me ouça, embora Deus saiba o que fará, o que não impede que seja principalmente um anjo e distribua muita caridade.

Fortunata não dizia nada. A enferma inclinou-se para ela e, tomando ares evangélicos, no tom que poderia empregar um pastor de almas, admoestou-a assim:

— Arrepende-te, menina, e não deixes para depois. Vai-te arrependendo de tudo, menos de amar quem te sai de dentro de ti, porque isso não é, por assim dizer, pecado. Não roubar, não embebedar-se, não dizer mentiras; mas, no amar, avante, avante!, e caia quem cair. Sempre que fizeres assim, ninguém te tira o teu bocadinho de céu.

A amiga ia responder-lhe alguma coisa; mas não pôde, porque Dona Lupe entrou, apressando-a para irem embora. Era um pouco tarde, e ainda tinham de ir a outra parte antes de voltar para casa. Despediram-se com a promessa de voltar no dia seguinte e saíram. Pela rua, falavam de Guillermina, de quem a senhora de Jáuregui disse:

— É uma mulher que eletriza; quando a gente convive com ela, sem querer também fica um pouco santa... Mauricia me devia cinquenta e três reales. Eu, de qualquer modo, já lhos havia perdoado; mas agora, acredita, alegrar-me-ia que me devesse pelo menos duzentos, para perdoar-lhos também.

ii

Duas horas antes da marcada para Mauricia receber a Deus, a fundadora já estava lá.

— Mas, Severiana, em que estás pensando? — foi a primeira coisa que disse ao entrar pelo corredor. — Tira daqui esta gamela. Belo enfeite! Roupa suja e água de sabão...

— Senhorita, eu já ia tirar... Entre. As vizinhas me disseram que as duas gravuras de Napoleão que ficam ao lado do altar devem ser tiradas, porque ele era muito protestante, maçônico e...

— Deixa-te de tolices... E como está hoje essa pássara? Então, filha?

Naquele dia estava bastante abatida, as mãos ainda mais trêmulas, respirando lentamente, embora sem grande fadiga, com uma tendência invencível a permanecer muda e quieta, os olhos vagando pelo teto ou pela parede em frente, como se acompanhassem o voo de uma mosca.

A dama informou-se minuciosamente de como ela passara a noite, de quem ficara para velá-la, do que dissera o médico na visita da manhã. A tudo Severiana respondeu: o doutor havia mandado dar-lhe dose dupla de noz-cômica, continuar com as colheradas à noite, os papelotes durante o dia e, nas horas certas, o Jerez ou Pajarete. Guillermina, sem deixar de ouvir aquilo, começava a pôr a atenção em outra coisa. Em frente à janela, formando ângulo reto com a cama, haviam colocado a mesa que devia servir de altar, e sobre ela estava de joelhos Juan Antonio, marido de Severiana, pregando na parede todos os pregos que julgava necessários para suspender a decoração projetada.

— Não pregue mais, pelo amor de Deus... Parece que vai derrubar a casa... E esse barulho há de incomodá-la... Mas o que vocês vão pôr aí?

A comandanta entrou com alguns pedaços de damasco vermelho e amarelo, que haviam sido cortinas quarenta anos antes, passando depois por diferentes usos. Com aquele tecido forrariam a parede, formando a bandeira espanhola, e no centro colocariam uma gravura do Cristo do Gran Poder, pertencente à porteira.

— Não me parece mal — disse Guillermina, tirando os óculos do estojo e colocando-os. — Vamos ver, Juan Antonio, se o senhor se sai bem. E flores, não temos?

— De pano... a senhora vai ver — respondeu Severiana, levando-a ao quarto e mostrando-lhe um monte de flores de papel dourado, tule e talco espalhadas sobre a cama. Havia ali também fitas de charutos e aquelas rosas com folhas prateadas que servem para enfeitar os apitos de San Isidro.

— Isto é muito feio — opinou a santa —, mas não há flores naturais, ou ao menos folhagem?

— Sim, senhora... O vizinho do número 6, que é não sei o quê da Câmara, prometeu trazer ramos de pinheiro e azinheira. Juan Antonio vai pôr isso por cima, fazendo festões...

— Procurem algum vaso bonito de bonibus, minha filha; nada lhes ocorre — disse Guillermina, voltando à sala —, e nos ramos verdes amarrem flores de pano, que fica muito bonito. Vamos, Juan Antonio, chega de pregos; as cortinas já estão bem seguras. Agora pendure a Virgem das Angústias debaixo do Senhor, e dos lados...

A comandanta entrou trazendo um quadro enorme que representava Pio IX abençoando as tropas espanholas em Gaeta. Para fazer par, Juan Antonio propôs colocar do outro lado a Numancia. Guillermina hesitou em dar seu consentimento; mas, afinal... um risinho e uma piscadela resolveram a dúvida.

— Ponham o barquinho, ponham; tudo o que é do mar pertence a Deus.

Saiu depois para o corredor e, notando que a escada ainda não fora varrida, chamou a porteira.

— Mas em que a senhora está pensando? Não lhe disseram que hoje o Senhor vem a esta casa? E esse vestíbulo está de dar nojo! Pegue a vassoura, mulher. Senão, pego eu. Ora, acha que não faço o que digo?

A porteira viu que Dona Guillermina tirava o manto...

— Não, senhorita, não seja tão impetuosa. Vamos varrer... mas a senhora verá quanto demora essa canalha para sujar tudo de novo.

— Pois a senhora torna a varrer.

A dama desceu ao pátio, onde entrara um cego tocando violão e alguns garotos brincavam de tourada.

— Ei, meninos, hoje precisamos ter muita compostura. E cuidado para não me jogarem lixo no vestíbulo nem na escada. Essas tábuas e esses juncos que espalharam pelo pátio, tratem de recolhê-los e devolvê-los ao dono.

Os garotos ouviram aquilo sem chiar. No fundo do pátio instalara-se um cadeireiro que fazia assentos de junco e tinha montes deles encostados à parede, uns tingidos de vermelho e postos a secar, outros sem tingir, cortados e empilhados. Os moleques da vizinhança eram inimigos jurados daquele artesão e, muito sorrateiramente, roubavam-lhe os juncos para suas brincadeiras e diabruras. Ao ver a santa parlamentar com eles, ele saiu de sua tendinha e, encarando o bando infantil, disse-lhes:

— Já estão vendo, marotos, o que a senhorita vos diz. Que vos fiquem quietos, que vos fiquem calados, porque, senão, vos levará todos para a cadeia.

— O mestre Curtis tem razão — disse a fundadora, fazendo a cara mais severa que pôde. — Vão para a cadeia amarrados cotovelo com cotovelo, se hoje não se comportarem como devem, hoje que vem honrar esta casa o...

Interrompeu-a um sacerdote idoso que entrou e foi direto a ela. Era o padre Nones.

— Bom dia, mestra. Já está a postos, oficiando de capitã-general.

— Tenho de cuidar de tudo. Se eu não tratasse de ensinar bons modos a esta gente, o senhor chegaria depois com o Santíssimo e teria de entrar pisando lama e toda sorte de imundície.

— E que importa? — observou Nones, rindo.

— Claro que não importa; mas por que não havemos de ter limpeza e decoro diante do Senhor, nem que seja por estima de nós mesmos? Limpa-se a casa quando vêm o vice-prefeito e o médico da Câmara com suas bengalas de borlas, e vai-se deixá-la suja quando vem o... Mas cale-se, homem, pelo amor de Deus — dizia isso ao cego do violão, que, tomando conhecimento da presença da senhora, quis que ela tomasse conhecimento da sua e aproximava-se tanto que por fim parecia querer enfiar-lhe nos olhos o braço do instrumento. Ao mesmo tempo tocava e cantava até esgoelar-se...

— Cale-se... pelo amor de Deus... O senhor nos deixa surdos — disse a santa, tirando a bolsa. — Tome, e vá cantar na rua. Hoje não quero fandangos aqui. Entendeu?

O obstinado cego foi embora, e a fundadora continuou falando com o padre Nones:

— Suba para ver se a reconcilia comigo e lhe dá a última repassada. Parece-me que ela não está muito bem disposta. Acho-a pior da doença do corpo; e, quanto à alma, cada vez a entendo menos. Que ideias tão estranhas! Suba, suba. Ver-nos-emos daqui a pouco. Já não saio desta casa até tudo terminar.

Nones subiu, e a dama, depois de recomendar ao cadeireiro e a outros vizinhos que varressem a frente das respectivas portas, ia subir também; mas dois sujeitos que desciam barraram-lhe o caminho. Um deles era D. José Ido del Sagrario, a quem as testemunhas de suas façanhas românticas no princípio desta história não reconheceriam, tão bem-vestido e limpo ele estava agora. Visto de costas, parecia outra pessoa; mas, de frente, o desengonço do corpo, a magreza nodosa do rosto e o desenvolvimento cada vez maior do pomo de adão declaravam-no idêntico a si mesmo. Quem o acompanhava era um pobre músico, morador do segundo pátio e do mesmo cubículo onde antes fizera ninho Izquierdo. O que primeiro se notava nele era o enorme cachecol que lhe envolvia o pescoço, subindo em voltas até acima das orelhas e descendo até o peito. Usava boné com galão, e, do cachecol para baixo, toda a roupa era do mais puro verão, além de adelgaçada pelo uso. Tremia de frio e, com o braço direito, apertava os aros de bronze de um trombone, apontando para a frente a boca amassada do instrumento, como se quisesse bocejar com ela em vez de fazê-lo com a própria.

— Este amigo — disse Ido, em tom de apresentação —, este meu amigo... um italiano, senhora... chama-se senhor Leopardi, um artista desafortunado. Pois ele me disse que, se a senhora quiser, naturalmente, ficará na escada quando o Santíssimo passar e tocará a marcha real...

O outro infeliz murmurou alguma coisa, com marcado sotaque estrangeiro, levando a mão trêmula ao boné.

— Mas que coisas ocorrem a este homem! Ave-Maria Puríssima! — exclamou Guillermina com benevolência. — Deixe-se de marchas reais... Não, não tire o boné; vai resfriar-se. Senhores, aqui, e durante a cerimônia, quanto menos música, melhor.

Ido e Leopardi olharam um para o outro, desconcertados. Não escapou à observação da senhora o estado miserável das roupas do pobre artista, e ela lhe disse que fosse para o quarto, tocasse ali o trombone quanto quisesse e, por fim, que...

— Vou ver se encontro por aí umas calças.

Subiu ao primeiro andar e, de porta em porta, exortava os grupos de mulheres que ali penteavam os cabelos.

— Ao meio-dia... não quero ver aqui essas rodinhas, estamos entendidas? E varram-me muito bem todo o corredor. Quem tiver velas, que as ponha para fora; quem tiver flores ou vasos bonitos, que os leve para lá... E todos esses trapos que vejo pendurados aqui estão sobrando agora.

— Servem estes ramos de caracóis? — perguntou a mulher do guarda de consumos, mostrando-os na porta de casa.

— Claro que servem. Leva-os. E tu, Rita, prende essa cabeleira, mulher, que pareces uma atriz. É preciso que estejam todas muito decentes.

A mulher do guarda-noturno preparava-se para acender o lampião do marido e pendurá-lo, pelo chuço, na grade da cozinha. Outra perguntava se servia o lampião a querosene. Nas meninas que deviam sair ao vestíbulo com velas puseram-se os xales de Manila chamados de cintura; aquela que tinha botas novas calçava-as; a que não tinha saía como estava, com as alpargatas cheias de buracos.

— Não se quer luxo, mas decência — repetia Guillermina, que comunicava sua atividade febril a todos os moradores e moradoras da casa.

Quando voltava ao quarto de Severiana, encontrou o padre Nones saindo.

— Endireitei-lhe as ideias, mestra; agora está bem preparada — disse-lhe o clérigo, que, por sua grande estatura, precisava curvar-se para falar com ela. — Vou à igreja. Dentro de três quartos de hora estaremos aqui.

A fundadora entrou na casa e viu o altar, que estava muito bonito. Juan Antonio pregara as flores de pano na borda dos panos de damasco, formando uma espécie de moldura. O conjunto ficara bonito e muito simpático, e assim o declarou a senhora, examinando-o com os óculos. Depois cobriram a mesa com uma colcha muito formosa que a comandanta, mulher de grande habilidade, fizera para rifar. Era de quadrados de malha, combinados com outros quadrados de pelúcia carmesim. Por cima puseram uma toalha de altar trazida da paróquia, que tinha uma bela renda. Trouxeram depois os ramos de pinheiro e, para acomodá-los, foi preciso improvisar vasos com barrilinhos de azeitonas e de conservas em vinagre, que Juan Antonio cobriu e decorou com pedaços de papel pintado. Era empapelador e, em sua arte, com paciência e grude, fazia maravilhas. Colocaram-se os ramos de caracóis, caixinhas de doces e estampas; e, por fim, os retratos dos dois sargentos, irmãos de Juan Antonio, com suas calças vermelhas, pintadas muito ao vivo, e os botões amarelos, apareciam entre os ramos de pinheiro como soldados emboscados, espreitando o inimigo.

Pouco depois apareceu Estupina, de capa verde, trazendo sob as dobras uma coisa muito volumosa, que guardava com respeito. Era o crucifixo de bronze de Guillermina, bela escultura de considerável peso, que Plácido não quis entregar a ninguém senão à própria dona. Ela saiu ao corredor, recebeu das mãos de Rossini a imagem sagrada e, tirando-lhe o lenço de seda que a envolvia, entrou com ela na sala, parecendo-se muito, naquele momento, com uma verdadeira santa escapada do Ano Cristão para receber culto no pitoresco altar, que simbolizava a ingênua simplicidade e a firmeza das crenças do povo. Pôs o Cristo no lugar, alegrando-se muito com a admiração que o bronze provocava nos circunstantes, e depois saiu para dar ordens a Estupina.

— Vá à paróquia acompanhar o Santíssimo e diga que tragam depressa as velas que serão distribuídas aqui.

A essa altura já haviam entrado Fortunata e a tia, ambas de preto, muito decentes, e, enquanto a senhora de Jáuregui metia sua colher na roda de Guillermina, a outra passou para ver Mauricia. Encontrou-a como que aturdida, sem saber o que lhe acontecia. Às perguntas que lhe fez, respondia com a máxima concisão, porque o medo de dizer alguma palavra feia lhe refreava os lábios. Estava reduzida a usar apenas a terça parte dos vocábulos que costumava empregar, e ainda não se livrara dos escrúpulos, suspeitando que mesmo as palavras mais comuns tivessem algum eco infernal. O que Fortunata lhe ouviu claramente foi isto:

— Ai, que alegria salvar-se!...

Mas, no mesmo instante, Mauricia franziu o cenho. Entrara-lhe a suspeita de que a palavra alegria fosse má. Comunicou esses temores à amiga, que a tranquilizou sorrindo e por fim lhe disse que, sendo limpa a sua intenção, não importava que lhe escapasse da boca, sem querer, algum termo sujo. A enferma acreditou; mas continuava insegura e como que sob a pressão de um grande medo. Num momento em que apanhou Fortunata sozinha, disse-lhe, trêmula:

— Arrepende-te de tudo, menina, mas de tudo... Somos muito más... tu não sabes bem como somos más.

iii

A hora aproximava-se, e no pátio soava o rumor de emoção teatral que acompanha as grandes solenidades. O povo ocupava o lugar infalível que a curiosidade lhe reserva. Não cabia mais ninguém no vestíbulo, e todos os garotos do bairro haviam marcado encontro ali, como se acreditassem que, sem eles, a cerimônia não poderia ter brilho algum. Guillermina percorria todo o trajeto, desde a porta do quarto de Severiana até a da rua, dando ordens, inspecionando o público e mandando que ficassem na última fila as individualidades de ambos os sexos que não tinham boa aparência. Viera da paróquia um homem com ares de sacristão, e estava distribuindo a carga de velas que trouxera.

Na parte do corredor por onde passaria o Viático, mandou colocar as meninas que exibiam xales de cintura e, como não tivessem velas, ordenou que lhes dessem algumas. A comandanta aproximou-se dela, como um ajudante de ordens em parada, para informar que na rua, diante do próprio vestíbulo, se instalara um maldito pianinho, tocando jotas, polcas e a canção de Lola; que aquilo era uma irreverência e não podia ser tolerado. Ao que a santa respondeu que não deviam ocupar-se do que se passava do lado de fora; mas, observando logo que o instrumento profano incomodava muito e atrapalhava a edificação dos vizinhos, pelo apetite que alguns sentiam de pôr-se a dançar, desceu ao vestíbulo e falou com o agente da Ordem Pública que ali estava. Todos os membros desse corpo que conheciam Guillermina obedeciam-lhe como ao próprio governador. Resultado: o piano teve de sair em disparada, e seus arpejos e trinados ouviam-se depois perdidos e embaralhados, como se alguém estivesse varrendo suas notas rua de Toledo abaixo.

Chegou o momento belo e solene. Ouvia-se de cima o rumor popular; depois, no seio daquele silêncio que caiu subitamente sobre a casa como uma nuvem, a campainha vibrante marcou a passagem do cortejo do Sacramento. O altar era uma brasa de ouro com tanta luz, que esta se refletia no talco das flores. A janela fora entreaberta, e todos esperavam de joelhos. O tilim soava cada vez mais perto; sentia-se que subia a escada entre um tropel de passos; depois chegava à porta; vibrava mais forte no corredor, entre o murmurinho dos latins que o acólito vinha recitando. Apareceu enfim o padre Nones, tão alto que parecia chegar ao teto, um pouco curvado, a cabeça branca como o velo do Cordeiro Pascal, levando aconchegado o porta-hóstias entre as dobras da capa branca. Ajoelhou-se diante do altar e ali ficou rezando um pouco. Mauricia estava naquele instante branca, diáfana, e seus olhos semicerrados, como sem vida, fitavam o sacerdote e o que ele trazia nas mãos. Guillermina pôs-se ao lado dela e aproximou o rosto do seu. Quando o sacerdote se achegava, a santa sussurrou ao ouvido da enferma, como um segredo de anjos, estas palavras:

— Abre a boca.

O padre disse: “Corpus Domini Nostri etc.”, e tudo ficou em silêncio, e as pálpebras de Mauricia baixaram, projetando sobre as olheiras a sombra de seus longos cílios.

Pouco depois saiu o cortejo, precedido pela campainha, entre a rua formada por mulheres ajoelhadas, com velas ou sem elas. Sentiu-se que descia, que saía e se afastava pela rua. Quando já não se ouvia mais o tilim, Guillermina, cessando de rezar, aproximou o rosto do de Mauricia e começou a beijá-la. Todas as demais, choramingando, felicitavam-na com ruidosos gestos de entusiasmo, e por fim a própria santa teve de mandar que cessassem aquelas manifestações de regozijo, porque a enferma se comovia muito e poderia sofrer alguma recaída perigosa. Mas, por efeito da excitação, Mauricia não sentia dor nem incômodo algum; estava como sob a ação de um fortíssimo anestésico, desses que produzem efeitos infalíveis, embora passageiros. Desde os doze anos, quando a levaram a comungar pela primeira vez, não se vira em outra como aquela, e com a impressão recebida seu pensamento recuava até a infância, chegando a adormecer por breves momentos na ilusão de que era menina inocente e pura e de que, como então, ignorava o que eram pecados graves.

Guillermina também mandou esvaziar o quarto e apagar as luzes. Entre a grande quantidade de gente que entrara, viam-se duas mulheres muito bem-vestidas à moda das chulas, com xale cor de café com leite, avental azul, saia de tartã, lenços de cores gritantes na cabeça, o penteado rematado em quiquiriqui com pente de bolas, e calçados do mais perfeito feitio e ajuste. Pareciam desejosas de falar com Mauricia, mas não se atreviam a avançar até a cama. Terminada a cerimônia, Guillermina não tirava os olhos delas, e por fim resolveu pedir-lhes explicações.

— Minhas senhoras — disse-lhes —, o que as traz por aqui? Se vieram por devoção, muito bem. Mas, se vieram para bisbilhotar, lamento ter de dizer-lhes que tomem a porta e que aqui não fazem falta alguma.

As duas saíram muito vexadas, lançando pela boca, escada abaixo, palavras absolutamente contrárias aos latins que poucos momentos antes se tinham ouvido no mesmo lugar. Todas as que presenciaram a indireta que a senhora lhes atirou celebraram-na muito, e Dona Lupe disse-lhe, ao passar para a sala:

— Que bela maneira de despachar as pessoas a senhora tem, minha amiga. Isso é que se chama caráter.

— Uma delas — disse Severiana — é Pepa, a Lagarta... mulher de história, sabe?... aquela que dizem ter matado o marido com uma agulha de costurar seirões... muito amiga de Mauricia, a quem deve quinhentos reales... E não há jeito de arrancar-lhe o dinheiro... Mas as senhoras acham que ela não tem dinheiro? Quem me dera... Gasta como uma marquesa, e no mês passado custeou, em San Cayetano, uma novena à Virgem das Angústias que era de se ver...

— Novena? — Sim, para que sarasse o Clavelero, um chulito muito bonitinho que ela tem, o qual levou uma chifrada na praça de Leganés... o chifre entrou-lhe por salva seja a parte... Pois o Clavelero sarou. E isso...? Veja, senhora, que coisas faz a Virgem!

— Ela lá saberá o que lhe convém, tola.

Pouco depois Guillermina retirou-se. A casa voltou a assumir seu aspecto habitual. A comandanta e Dona Lupe estavam na sala falando da rifa da maravilhosa colcha que decorara o altar. Fortunata e Severiana acompanhavam Mauricia, que caía lentamente em torpor, pois não dormira nada na noite anterior. Dona Fuensanta, desejosa de mostrar à senhora de Jáuregui suas habilidades, convidou-a a passar à casa vizinha. É preciso dizer de passagem que Dona Lupe estava um tanto desiludida, pois acreditara que Guillermina ia sempre às suas visitas de caridade com um regimento de senhoras.

— Mas onde estão essas damas distintas de que falam os jornais? Pelo que vejo, aqui não vem outra dama senão eu.

Vendo Fortunata que Mauricia adormecia profundamente, saiu para a sala. Não havia ninguém. Aproximou-se da janela, olhando a rua por entre os vidros, e ali ficou longo tempo, com a atenção errante e o pensamento adormecido, quando um rumor no corredor a tirou de sua abstração. Ao voltar-se, ficou atônita ao ver Jacinta, que, detida à porta, esticava a cabeça para saber quem estava ali. Trazia pela mão uma menina vestida à moda, mas com simplicidade e sem sombra de afetação elegante. Avançou na direção de Fortunata, interrogando-a com aquele sorriso angelical que, visto uma vez, não se podia esquecer. A senhora de Rubin sentiu grande perturbação, mistura incrível de timidez e temor diante da superioridade, e ficou muito vermelha, depois cor de cera. Jacinta deve ter-lhe perguntado alguma coisa; sem dúvida, a outra não soube responder. A senhora de Santa Cruz aproximou-se da porta que comunicava com o outro aposento. Então Fortunata, que ficara atrás, disse:

— Adormeceu.

Voltando-se para ela, Jacinta lançou-lhe outra vez aquele olhar e aquele sorriso que a assassinavam.

— Nesse caso, esperaremos um pouco — indicou em voz quase imperceptível, sentando-se numa das cadeiras de palha.

Fortunata não sabia o que fazer. Não teve coragem de ir embora e sentou-se no sofá. Quase no mesmo instante, a Delfina sentiu vacilar o assento, porque a cadeira estava inválida, e passou para o sofá. As duas ficaram juntas, tocando saia com saia. Fortunata, para não olhar a rival, olhava a menina, que Jacinta mantinha em pé diante de si, segurando-a pelas mãos. A senhora de Rubin observou o vestidinho azul de Adoración, suas botas, todo o seu decente atavio, e, naquela inspeção bisbilhoteira, seus olhos e os de Jacinta encontraram-se algumas vezes.

“Oh, se soubesses ao lado de quem estás!”, pensava Fortunata, e então seu temor se desvanecia um pouco para deixar renascer a ira. “Se eu te dissesse agora quem sou, talvez sofresses mais do que eu sofro.”

Adoración queria dizer alguma coisa, mas Jacinta tapava-lhe a boca e, olhando para a senhora de Rubin, sorria com aquela ingenuidade que revela desejo de entabular conversa. A outra compreendeu, dizendo consigo:

“Não, eu é que não vou puxar conversa contigo.”

A menina, aquele testemunho vivo da bondade da Delfina, não podia deixar de despertar em Fortunata um pensamento diferente dos anteriores. Mas seus ódios renovados procuravam envenenar a admiração:

“Oh, sim, senhora”, pensava. “Já sabemos que a senhora tem um sem-fim de perfeições. Para que alardear tanto...? Falta pouco para os cegos cantarem pelas ruas. Se estivéssemos como a senhora, entre pessoas decentes, bem casadinhas com o homem de quem gostamos e com todas as necessidades satisfeitas, seríamos iguais. Sim, senhora; eu seria o que a senhora é, se estivesse onde a senhora está... Ora, o mérito não é coisa do outro mundo, nem há motivo para tanto toque de caixa. E, se não, venha a senhora para o meu lugar, para o lugar em que fiquei desde que aquele me enganou, e então veríamos as perfeições que esta macaquinha exibia.”

E os olhares da senhora de Santa Cruz voltaram a flechá-la. Eram um comentário que ela acrescentava com os olhos à tolice ou gracinha infantil que Adoración acabava de lhe dizer. Sem saber como, aquela nova flechada trouxe à mente de Fortunata um pensamento que de certo modo se encadeava à visão da menina. Lembrou-se de que Jacinta quisera recolher outro menino, acreditando-o filho de seu marido...

“E meu...! Acreditando-o meu filho!”

Da altura dessa ideia, precipitou-se num verdadeiro abismo de confusões e contradições... Teria ela feito o mesmo?

“Vamos, não... sim... não, e outra vez sim...”

E se o Pituso não tivesse sido uma falsificação de Izquierdo; se naquele instante, em vez de olhar ali para a filha de Mauricia, visse o seu pobre Juanín...! Sentiu vontade tão forte de pôr-se a chorar que, para conter-se, evocou sua coragem, tocando o registro dos agravos, certa de que eles a tirariam do labirinto em que se encontrava.

“Porque tu me tiraste o que era meu... e, se Deus fizesse justiça, agora mesmo te porias onde eu estou, e eu onde tu estás, grandíssima ladra...”

Não prosseguiu, porque Jacinta, não podendo mais resistir ao desejo de entabular conversa, olhou-a outra vez e fez-lhe esta perguntinha:

— Como foi a Comunhão? E Mauricia, como está?...

Eis a criatura novamente perturbada, sem saber o que lhe acontecia.

— Muito bem... mas muito bem... Mauricia contente...

Fortunata agradeceu muito que naquele momento a porta do quarto se abrisse suavemente e aparecesse a cabeça de Severiana. Adoración correu para ela.

— Quietinha — disse-lhe a tia, entrando devagarinho. — Não faça barulho, que sua mãe está dormindo. Faz tempo que não apanha um sono tão longo. Ai, senhorita, o que a senhora perdeu! Foi tudo tão bonito que dava gosto.

Enquanto a Delfina e Severiana conversavam, Fortunata, que continuava sentada, examinou com curiosidade a esposa de aquele, detendo-se no vestido, no casaco, no chapéu... Não lhe parecia apropriado vir de chapéu; mas, de resto, não havia nada a criticar. O casaco era perfeito. A senhora de Rubin decidiu encomendar um exatamente igual para si. E a saia, que elegância! Onde se encontraria aquele tecido? Certamente era de Paris.

Ouviu-se a voz rouca de Mauricia. A irmã entrou correndo, e Jacinta olhava pela abertura da porta entreaberta. Quando Severiana voltou à sala, a senhorita disse:

— Eu não entro. Entre a senhora com a pequena. Eu fico aqui.

Apesar de suas faculdades estarem perturbadas, Fortunata soube apreciar o verdadeiro sentido daquela resistência de Jacinta a apresentar-se com a menina. Era um sentimento de modéstia e delicadeza. Queria furtar-se às manifestações de gratidão da pobre enferma e poupar-lhe o constrangimento de sua desairada situação de mãe.

“Será por isso que não quer entrar?”, perguntou-se, olhando-a de costas. “Que afetações! Quando digo que essas perfeições me irritam... Que criaturas tão perfeitinhas Deus nos fez! Pois eu entro, sim.”

Severiana aproximou-se da cama, levando a menina pela mão.

— Olha, olha o que te trago... De qual visita gostas mais? Desta ou da que esteve antes?

Mauricia lançou os braços em torno da filha e deu-lhe muitos beijos. Um pouco assustada, a pequena também beijou a mãe, sem efusão de carinho, como as crianças obedientes beijam qualquer pessoa quando a professora manda.

— Ai, como fui má! — exclamou a enferma, também sem efusão, como quem cumpre uma formalidade. — Menina da minha alma, fazes bem em gostar mais da senhorita do que de mim, porque fui mais má que uma desgraçada, ai...!

A palavra atravessou-se-lhe, e ela fez como se cuspisse alguma coisa. Depois revolveu para todos os lados os olhos ansiosos, dizendo:

— Severiana, ou tu, ou qualquer uma, se quisessem dar-me...!

Dona Lupe e a comandanta também haviam entrado.

— Então, Mauricia? Hoje é um dia feliz para ti. Recebes a Deus e vês tua menina. Oh, como está bonita!

Mas a Dura tinha todo o ser dominado pela ardentíssima ansiedade física que experimentava, e seus olhos de águia fixaram-se em Severiana, que vertia num copo um pouco do conteúdo de uma garrafa. O licor brilhava com reflexos de topázio engastado em ouro.

“Como olhas para ele, velhaca!”, pensou a cética e observadora Dona Lupe. “Essa é a Eucaristia de que gostas, o Pajarete...”

E, vendo-a beber, dizia a muito maliciosa consigo:

“Isso, saboreia bem e lambe os beiços. Não fazias assim quando recebias a Deus...”

Depois do trago, Mauricia pareceu ressuscitar, e seu rosto resplandecia de animação e contentamento. Então, sim, demonstrou que no fundo de seu ser existiam instintos e sentimentos maternais; então, sim, abraçou e beijou com terníssima efusão a filha que carregara nas entranhas... E excitou-se tanto que, temendo que lhe desse uma síncope, tiraram-lhe a menina dos braços.

— Sim, que te levem, que te tirem de perto de mim... Não mereço ter-te... Tens medo de mim, querida... Quando fores travessa, não te dirão “lá vem o bicho-papão”, mas “lá vem tua mãe”. Ai, que tristeza!... Mas estou conformada. Dizem que tenho de me salvar... Ai, que alegria! E minha filha está melhor na terra com a senhorita do que comigo no Céu... E nada mais.

Adoración rompeu a chorar, aflita e assustada ao mesmo tempo. Resultado: tiveram de levá-la embora, porque aquele espetáculo não podia prolongar-se. Mauricia continuava mandando beijos ao ar e dizendo coisas que enterneciam as demais...

“Sim, sim”, pensou Dona Lupe, que também estava comovida. “Quanto amas tua filha!... Tu a beberias!”

Fortunata não esperou o fim da cena. Sentia dentro de si tamanha perturbação que uma de duas: ou desatava a chorar, ou estourava. Refugiou-se no quarto interior e, atirando-se sobre um baú, pôs-se a chorar. Os sentimentos que soltavam aquela torrente de lágrimas não eram unicamente os produzidos pela situação do momento; eram coisa antiga e profunda, sedimentada em sua alma, sua desgraça tradicional, o despeito combinado com um vago desejo de ser boa, “sem conseguir... Veja só, isto é daquelas coisas que se dizem, mas não se acreditam”.

Já derramara muitas lágrimas quando ouviu o ruído da carruagem de Jacinta partindo, e então saiu para a sala. Dona Lupe despedia-se da comandanta, oferecendo-se para comprar dez bilhetes da rifa da colcha, e fazia um sinal à sobrinha, indicando que era hora de se retirarem. Lançaram um olhar e deram um aperto de mão à enferma, e saíram. Quando iam pela rua, Dona Lupe, que compreendeu quanto o encontro com a senhora de Santa Cruz impressionara a sobrinha, tentou duas ou três vezes aludir ao assunto; mas a prudência e um sentimento de delicadeza retiveram-lhe a língua tagarela.

iv

No vestíbulo de casa separaram-se; Dona Lupe subiu, e Fortunata foi à farmácia, onde Maxi estava sozinho, preparando um emplastro. Sua mulher contou-lhe o que vira naquele dia, recordando com feliz memória todos os pormenores. A visita de Jacinta foi discretamente omitida. Ao farmacêutico agradava que sua cara-metade andasse naquelas lides de beneficência, visse bons exemplos e se familiarizasse com aqueles quadros profundamente humanos da miséria e da morte, pois sem dúvida seriam mais proveitosos ao seu espírito do que saraus, algazarras e diversões.

À hora do jantar falou-se do mesmo, e Dona Lupe exaltava a solenidade comovedora do ato daquele dia. Discutiu-se se deveriam voltar à noite à rua Mira el Río ou ir ao Variedades ver uma peça; mas, como Fortunata demonstrasse grande repugnância pelas funções teatrais, prevaleceu a primeira opção, e Maxi, muito satisfeito com aquela aplicação às obras piedosas, prometeu acompanhá-las e ir buscá-las às onze.

— E, se não houver esta noite quem fique velando, fico eu — disse a viúva, que não sossegaria enquanto não desse a Guillermina prova palpável de humildade e abnegação.

O sobrinho e a mulher opuseram-se, dizendo o primeiro que tudo o que é bom é bom, mas não em excesso. A senhora de Jáuregui dizia com deliciosa modéstia:

— Eu não faço isso à procura de elogio; não há nisso o menor sinal de mérito... Suporto perfeitamente uma noite em claro, e até duas ou três. De modo que...

Seriam nove horas quando os três entraram pelo vestíbulo da casa de corredores, e não foi pequeno o seu espanto ao verem no pátio o clarão de uma fogueira e uma multidão de tochas, cujas chamas móveis e avermelhadas davam à cena aspecto temível e fantástico. O que era aquilo? Os moleques da vizinhança haviam ateado fogo a um monte de palha que havia no meio do pátio e depois roubado ao mestre Curtis todas as tábuas que conseguiram; acendendo-as por uma ponta, começaram a brincar de Viático. A brincadeira consistia em formar de dois em dois, levando os juncos à guisa de velas, e em marchar lentamente, recitando latins, ao som da campainha que um deles imitava e da marcha real de cornetas que todos tocavam. A diversão estava em romper inesperadamente as fileiras e saltar por cima da fogueira. Aquele que levava o cibório, muito bem agasalhado com uma anágua amarrada ao pescoço, dava os saltos mais ousados que se poderiam imaginar, e até cambalhotas, empregando toda a sua arte em recuperar a atitude reverente no momento exato de voltar à vertical. Enfim, semelhante cena dava uma ideia daquela parte do Inferno onde devem divertir-se os garotos do Demônio. Maximiliano e a mulher detiveram-se algum tempo para olhar aquilo; mas Dona Lupe dirigiu à tropa infantil olhares e expressões de desprezo, dizendo que a culpa era dos pais que consentiam em tal sacrilégio.

Subiram, e, quando Fortunata passou ao quarto de Mauricia, que estava sozinha, Maxi retirou-se, dizendo que voltaria às onze. Naquela noite a enferma estava sumamente inquieta, e o pouco que dizia não era modelo de clareza. O medo de pronunciar palavras ruins parecia ter-se desvanecido, porque expeliu dos lábios algumas que queimavam. A memória não devia estar muito firme, pois, quando a amiga lhe disse:

— Sossega e lembra-te do que houve esta manhã.

Ela respondeu:

— O que houve esta manhã...! O que foi?...

E, olhando o teto com olhos extraviados, parecia entregar-se ao doloroso trabalho de recordar, caçando ideias como se fossem moscas. Mais presente do que a administração do Sacramento tinha a cena com a filha; ai, que cena!...

— Não viste a Jacinta? — perguntou a Fortunata, virando-se de lado e pousando-lhe a mão no ombro. — Falou contigo?... Tu és uma sonsa e não tens gênio... Se me acontecesse o que te aconteceu com essa pasteleira; se uma macaca gulosa me tirasse o meu homem e depois se pusesse diante de mim, ai!, por alguma razão me chamam Mauricia, a Dura. Se a vejo na minha frente, digo, e ela me vem com palavras superfiroliquíticas... agarro-a pelo coque e assim, assim, dou-lhe quatro voltas até torcer-lhe o pescoço...

Unindo a ação à palavra, Mauricia fazia contorções violentas, descobria-se, rangia os dentes... Não podendo contê-la, Fortunata chamou Severiana:

— Ai, venha! Está dizendo mil disparates... pelo amor de Deus, veja se consegue dominá-la... Dê-lhe alguma coisa para que se acalme, aguardente...

— Ninguém pode comigo! — gritou a infeliz em frenesi, os olhos saltados, debatendo-se contra os quatro braços que queriam segurá-la. — Sou Mauricia, a Dura, a que abriu uma janela no casco daquela ladra que me roubava os lenços, a que arrancou o coque de Pepa, a que arranhou a cara de Dona Malvina, a protestanta... Solta-me, sua pasteleira ordinária, ou com uma mordida arranco metade da tua cara. Pessoa decente, tu!... tu, que deixas um soldado para pegar outro... tu, que já tens o coração como a Puerta de Alcalá, de tanta gente que entrou por ele... Ha, ha, ha... Loba, mais que loba, sua porca, judia, com mais baba que um cachorro sarnento... cara de escarradeira, saco velho, alqueire de pentes... vais ver a surra que te dou... assim, assim, e arranco-te o nariz, cuspo-te nos olhos e ponho para fora todas as tuas tripas...

Por fim, já não eram vozes humanas que saíam de seus lábios cheios de espuma, mas rugidos de fera presa e acuada. Não conseguindo libertar os braços dos vigorosos que a continham, seus dedos agarravam com raiva epiléptica tudo o que encontravam e queriam desfazer e rasgar o lençol e a colcha. O mugido fatigoso foi-se acalmando pouco a pouco, as contorções tornaram-se menos violentas e, por fim, ela caiu num colapso profundíssimo. A sedação foi instantânea e parecia a própria morte.

A senhora de Rubin estava aterrada. Severiana disse-lhe:

— Já teve esta noite três ataques desses, e anteontem teve seis. Se o médico viesse, acalmava-a dando-lhe aquelas picadinhas que chamam de jeções... sabe?, uma gotinha de morfina.

Sem dúvida, pela frequência dos acessos, Severiana via-os com relativa calma, como aqueles que se acostumam aos prodígios da dor humana nas clínicas. Pouco depois de Mauricia se tranquilizar, ela se dedicou a preparar a lamparina que devia arder a noite inteira: um copo com água, azeite e uma paviezinha por cima.

Durante meia hora a megera ficou como adormecida, pronunciando em sonhos retalhos de palavras e fragmentos de frases grosseiras, como retumbam ao longe os últimos ecos da tempestade que passou. Depois despertou e disse à amiga, com voz serena:

— Estás aqui?... Que alegria me dá ver-te! De todas as pessoas que vejo aqui, a de quem mais gosto és tu. Quero-te mais que à minha irmã. A primeiríssima coisa que pedirei ao Senhor quando ele me meter no Céu é que te faça feliz, dando-te o que é muito re-teu, o que te tiraram... Sua Divina Majestade pode consertar isso, se quiser...

Fortunata não sabia o que responder àqueles disparates.

— Porque tu sofreste... pobrezinha! Boas patifarias te fizeram nesta vida. A pobre sempre por baixo, e as ricas pisando-lhe a cara. Mas espera, que o Senhor há de consertar-te a vida, fazendo justiça e dando-te o que te tiraram. Eu sei, sonhei agora, quando adormeci pensando que morria e entrava no Céu escoltada por uma porção de anjinhos... tão bonitinhos...! Acredita, porque sou eu que te digo... E eu mesmíssima hei de dizer à Virgem e ao Verbo e à Graça que te façam feliz e se lembrem das amarguras que passaste.

Calou-se por um instante e, depois dos dois ou três suspiros que Fortunata soltou do peito, a enferma tornou a falar deste modo:

— Viste Jacinta?... porque foi ela quem trouxe minha menina. Aquela mulher é um serafim... Agora, quando pensei que estava no Céu, vi-a em cima de uma nuvem com um véu branco... Estava ali, metida no meio daquelas grandes rodas de anjos. Será que vai morrer? Sentirei por minha menina. Mas Deus sabe mais do que nós, não é?, e o que ele faz, bem sabe por que faz... Mas diz-me, ela falou contigo? Soltaste-lhe alguma tolice? Terias feito mal. Porque ela não tem culpa. Perdoa-lhe, menina, perdoa-lhe; que a primeira coisa para se salvar é perdoar de um lado e de outro. Olha para mim, que só faço o que o padre Nones manda, e perdoei Pepa, Matilde, que quis envenenar-me, Dona Malvina, a protestanta, e todo o gênero mundano... ai...! Para, boca, que já ias soltá-la... Pois sim, perdoar; acredita, porque sou eu que te digo. Vês como estou tranquila? Pois calcula que tu também ficarás, e Deus te dará o que é teu; disso não há dúvida... porque é de lei. E pela santidade que tenho dentro de mim, digo-te que, se o marido da senhorita quiser voltar para ti e tu o receberes, não pecas, não pecas...

Fortunata julgou prudente mandá-la calar-se, pois aquele conceito se harmonizava mal com a santidade que a amiga ostentava.

— Parece-me — disse-lhe — que, se o padre Nones te ouve dizer isso, vai repreender-te... porque, já vês... quem manda, manda, e está determinado que as coisas não sejam assim.

— Que vontade de rir de ti! E o que sabes tu? Estou arrependida de todo o mal que fiz; perdoei todo mundo. Que mais querem? Isto que te conto é, por assim dizer, uma ideia. A gente não pode ter uma ideia?... Quando eu morrer, veremos, acredita... o Santíssimo me dirá que tenho razão...

Calou-se, fatigada, e Fortunata impôs-lhe silêncio. De repente produziu-se um brusco abalo em seu espírito e, tomando a mão da querida amiga e apertando-a muito, disse-lhe com expressão de terror:

— O que achas, eu me salvarei?

— E que dúvida há? — respondeu a outra, tranquilizando-a. — Dizem que, mesmo que os pecados da gente sejam tantos como as areias do mar... imagina a quantidade de areia que haverá no mar inteirinho...

— Oh!... se haverá areia no mar inteirinho e em todos os seus areais! — repetiu Mauricia com voz patética.

— Pois, ainda que os pecados sejam mais numerosos do que os grãos de areia, Deus os perdoa quando a gente se arrepende de verdade.

— E tu achas que uma ideia, suponhamos, também é pecado?

— Depende. Mas tu não tens ideias ruins. Fica tranquila.

— Deus te ouça... Parte-me a alma ver-te penando... com um homem a quem não amas... que martírio! Menina querida, morre e vem comigo. Verás como nós duas vamos ficar bem lá. Porque te quero tanto...! Dá-me um abraço, filha, e morre comigo.

— Não digas muito isso — balbuciou Fortunata, comovidíssima, acariciando a amiga. — Bem pode ser que eu morra logo. Para o que faço neste mundo... não sei... talvez fosse melhor... Ai, como sou desgraçada!

— Ai...! Bendita seja tua alma! A primeiríssima coisa que peço ao Senhor, juro por estas cruzes, é que tu morras.

As duas puseram-se a chorar. Enquanto isso, Dona Lupe sustentava uma garbosa disputa com Severiana.

— Já disse, e não há mais o que falar. Fico esta noite para que a senhora descanse um pouco.

— Senhora, não consinto. Há vizinhas que querem ficar.

— Vizinhas!... Bela assistência terá a enferma com as vizinhas. São tão ineptas e tão descuidadas... A senhora verá como trocam os remédios e lhe dão um pelo outro.

— Oh, não, senhora, não consinto que se incomode.

— Repito que fico, ora essa! Não há nisso mérito algum, nem sacrifício. Não me custa trabalho nenhum passar a noite em claro. E, além disso, minha filha, é preciso fazer alguma coisa pelo próximo. Velaremos, pois, e não me fale em gratidão, que é ridículo fazer tanto espalhafato por uma coisa que não vale três cominhos.

A viúva de Jáuregui não fazia grande sacrifício, e sua determinação fora calculada com habilidade, pois, como uma das vizinhas lhe dissera que Guillermina pensava passar o chapéu no dia seguinte para acudir às necessidades urgentes de alguns moradores da casa, Dona Lupe pensou desta maneira:

“Ficando para velar, cumpro meu dever; e essa história do chapéu não é comigo, porque amanhã o dia inteiro não apareço por aqui, nem a meia légua de distância.”

Severiana explicou minuciosamente à senhora tudo o que havia por fazer, advertindo-a de que a chamasse se ocorresse algo extraordinário. Outra vizinha também ficaria, na qualidade de ajudante. À meia-noite, Fortunata retirou-se para casa com o marido, que fora buscá-la. Agarradinhos pelo braço, percorreram o trajeto, mais tortuoso do que longo, que os separava de sua residência, falando de alcoolismo e de beneficência domiciliar e pondo muito em dúvida que Dona Lupe resistisse a noite inteira sem adormecer, pois era pessoa que, depois das dez, já fazia reverências com a cabeça, mesmo quando se encontrava em visita.

Na manhã seguinte, a esposa decidiu ir saber como fora a noite toledana de Dona Lupe, e Maximiliano não se opôs. Cumpridas as sábias ordens que dera a diretora da casa, Fortunata saiu com Papitos e, depois de encaminhá-la às compras, indicando-lhe algumas coisas que devia trazer, separou-se dela na pracinha de Lavapiés para dirigir-se à rua Mira el Río. Encontrou a tia no quarto da comandanta, num estado verdadeiramente aflitivo, com olheiras, a cabeça pesada e um humor pouco disposto a brincadeiras.

— Muito bem, valentona!... — disse-lhe Fortunata. — E como se comportou a enferma?

— Nem me fales, filha; nunca passei noite mais miserável em minha vida. Não me deixou nem sequer cochilar por dez minutos. A maldita parecia fazê-lo de propósito, por vingança de todas as vezes que a obriguei a andar direito quando me levava xales a crédito... Imagina: num puro delírio até Deus amanhecer. Eu juraria que toda a aguardente que bebeu na vida lhe subiu à cabeça esta noite. Ora se erguia, ora se revolvia, punha as pernas enormes para fora da cama e agitava os braços como pás de moinho... E depois aqueles gritos e aqueles berros...! Já conheces o dicionário que ela usa... E de repente ficava como um gato à espreita, os olhos feitos brasas, falando baixinho, baixinho, e apontando para a mesa onde estão o altar e a lamparina, dizia: “Olhem para ele, olhem; ali está.” Ai, como eu sentia medo...! Preferia ouvi-la gritar... Acredita que me arrepiava quando a via apontar para a luz e para o altarzinho.

Dona Lupe começou a tomar o chocolate que Dona Fuensanta lhe trouxera e, em seguida, continuou o relato, imitando a voz e a atitude da delirante.

— E ela se punha assim: “Ali está, olhem... o senhor de Sor Natividad... A velhaca o mantém preso... Velhaca, mais que loba...” Sabes quem é o senhor... dito com ironia, de Sor Natividad? Pois é a custódia, filha, o Santíssimo... E continuava: “Agora vou até lá, agarro-te, tiro-te daí e jogo-te no poço...” No poço! Já viste? Jogar a custódia no poço! Olha só se não terá ideias más... Depois diz que vai se salvar. Só se aquela se salvar... Severiana me disse que, quando delira forte, sempre sai com isso, que vai tirar a custódia do Sacrário e guardá-la no baú, ou sei lá o quê. E então soltava um riso que me punha os cabelos em pé e dizia muito baixinho: “Como estás bonito com tua cara branca, com tua cara de hóstia dentro do círculo de pedras preciosas!... Oh, como estás bonito! Não penses que te roubo as pedras... Não as quero para nada... Gosto de ti... Eu te comeria! Não me digas que não te agarre, porque te agarro, ainda que morra e me jogues no inferno... Sor Natividad te trai; fica sabendo; trai-te com o padre Pintado...” Enfim, filha, era um horror. Suprimo as flores que ia entremeando, porque minha boca arderia.

Dona Lupe fez esforços para atrair para o paladar, com a língua e os estalos dos lábios, o que restava no fundo da xícara e, depois de consegui-lo, concluiu assim:

— Com esses disparates sacrílegos passei a noite inteira em sobressalto, horrorizada, com o estômago embrulhado e desejando que o dia chegasse.

— Eu imaginava — disse Fortunata, e depois lhe deu conta do que havia providenciado e do que mandara Papitos comprar.

— Ai! Parece-me que passei um ano fora de casa. Ocorreu-me que vocês não saberiam se virar e que a macaquinha se declararia independente, fazendo o que lhe desse na telha. Agora, para casa, que é mãe. Já cumprimos nosso dever. Claro que isto não é santidade extraordinária nem caso de heroísmo; mas alguma coisa é alguma coisa...

Viram então Guillermina passar em direção ao quarto de Severiana, e Dona Lupe correu para receber de sua augusta boca os louvores que merecia.

— Oh, como a senhora é boa! — disse-lhe a santa, apertando-lhe as mãos. — Ficar aqui cuidando desta pobre...! Não, não diga que isto não vale nada. Vale, e muito. Deixar as comodidades de sua casa para velar à cabeceira de uma infeliz...! Pois o que eu sei é que nem todas fazem isso... Deus lhe pagará. Isto é mais digno de agradecimento do que os donativos de outras... que ficam muito quentinhas em suas camas... porque esta é a verdadeira caridade que sai do coração... Enfim, vejo que sua modéstia se ofende, minha amiga, e não quero fazê-la corar. Obrigada, obrigada.

Dona Lupe estava muito satisfeita; mas, suspeitando que a fundadora ia tirar o temido chapéu, despediu-se depressa.

— Amiga de minha alma, a obrigação me chama à minha choupana...

— Sim, sim — disse-lhe Guillermina. — A obrigação antes de tudo. Até mais tarde.

E, levando Fortunata à parte no corredor, a tia disse-lhe:

— Tu ficarás aqui mais um pouco; se houver coleta, nós não ficaremos mal. Dizes a ela que anote um duro por ti e outro por mim. É suficiente. Ela bem deve saber que não somos potentadas. Não gosto dessas coletas; mas sei cumprir em todas as circunstâncias e não fazer figura feia. Um duro por ti e outro por mim; não esqueças. Não digas se podemos ou não podemos dar mais. Solta isso secamente, sem te apequenares nem te engrandeceres; ela, mesmo que lhe deem um oitavo, agradece sempre com a mesma boquinha de merengue. Vamos... Nem acredito que vou tornar a ver minhas quatro paredes...

v

Quando Fortunata, depois de algum tempo de conversa com a comandanta, entrou na outra casa, viu coisas que a deixaram pasma. Guillermina, tendo deixado a mantilha e o livro de missa sobre o sofá, desempenhava junto de Mauricia as obrigações mais penosas da arte de cuidar de enfermos, acometendo com atividade maquinal as tarefas mais repugnantes, como pessoa que tem a obrigação e o costume de fazê-las. Severiana esforçava-se por impedi-la; mas Guillermina não cedia.

— Deixa-me... isto não me custa trabalho nenhum... Vai ver o que Juan Antonio quer, porque está gritando há algum tempo.

A pobre artesã desejava ter três ou quatro corpos para dar conta de tudo.

— Homem, tenha consideração. Como quer que eu deixe a senhora em...?

Ao ver aquela azáfama e quão pouca gente havia para tantos afazeres diferentes, a senhora de Rubin ofereceu-se de bom grado para ajudar. O que Guillermina fazia era de assustar qualquer um. Fortunata não se julgava com coragem para tanto. E, no entanto, ao ver a insigne dama aristocrática humilhar-se daquele modo, envergonhou-se de não ter coragem para imitá-la e, tirando forças da fraqueza, ofereceu sua ajuda. Como filha do povo, não queria ser menos do que a senhora da grandeza naqueles baixíssimos misteres...

— Ora, saia daqui, pelo amor de Deus, minha filha... — respondeu a santa. — Era só o que faltava; não consinto... de modo algum. Quer ajudar-nos? Pois, se tem tão boa vontade, varra a sala, porque o médico está para chegar.

Mal Fortunata pegara a vassoura, Severiana entrou e, quisesse ela ou não, tirou-lha das mãos.

— Era só o que faltava... senhorita. A senhora vai ficar imunda...

— Pelo amor de Deus, deixe-me ajudá-la. Quer que eu prepare o almoço de seu marido?

— Que coisas a senhora diz...!

— Que graça!... Acha que eu não sei?... A tortilhazinha na marmita, e o pão aberto com a sardinha dentro. Se em minha vida fiz mais almoços de operário do que tenho cabelos na cabeça...

— Acendemos o fogo na casa da vizinha. Dona Fuensanta está lá; mas vai sair para as compras e, se a senhora fizesse o favor...

Fortunata não precisou ouvir mais e foi à outra casa, onde encontrou a comandanta muito atarefada, porque não era um almoço, mas três os que tinha de preparar: o de Juan Antonio e o de outros dois operários, cujas respectivas mulheres já haviam ido para a fábrica, deixando-lhe aquela incumbência.

— Vá às compras — disse-lhe —, que das tortilhas cuido eu...

Dona Fuensanta agradeceu muito e, pondo seu xalezinho vermelho, permanecendo com o vestido de casa de tartã e os grossos chinelos de ourelo, pegou a cesta e o porta-moedas e foi pedir ordens a Severiana, que estava na sala dentro de uma nuvem de poeira.

— Traga-me um joelho de porco como o do outro dia, para pôr no sal... um quarto de libra de macarrão agulhinha... Toucinho há em casa... Ah, não esqueça as cenouras nem o quarto de galinha... Se comprar miolos de carneiro para a senhora, compre outros para mim... Escute, escute; se vir uma boa língua, traga-a já limpa, e salgaremos para nós duas...

A viúva do comandante saiu, mancando escada abaixo, e pouco depois partiram Juan Antonio e os outros dois operários com os saquinhos de comida na mão. A senhora de Rubin desempenhara sua tarefa com tanta rapidez quanto acerto e, enquanto lavava as mãos, deixou-se levar pelo pensamento errante a uma ordem de ideias que não era nova para ela.

“É disto que gosto, ser operária, mulher de um trabalhador honrado que me ame... Não dês voltas, menina; povo nasceste e povo serás a vida inteira. A cabra puxa para o monte, e o senhorio se descola de ti, acredita, se descola...”

Quando passou para dizer a Severiana que tudo estava pronto, esta concluíra a limpeza da sala. Como havia ali muito mau cheiro, trouxeram uma pá de brasas e, lançando-lhes um punhado de alfazema, passearam-na pela casa inteira, desde o corredor até a cozinha. Depois da defumação, Fortunata entrou para ver Mauricia, que encontrou muito mal, num estado de abatimento e prostração bastante visíveis. O médico, que chegou então, examinou-a detidamente, observando inchação nas pernas e no ventre. A paralisia agitante crescia de maneira aterradora. Antes de partir, o doutor falou com Guillermina na sala, dizendo-lhe que aquilo não podia deixar de acabar mal e que, no máximo dos máximos, ela duraria dois dias... Fortunata aproximava-se para inteirar-se daquilo quando viu entrar inesperadamente uma pessoa cuja aparição lhe causou o efeito de uma descarga elétrica.

“Jesus, aquela macaquinha outra vez...! Vou-me embora.”

Jacinta e Guillermina conversaram um momento com o médico, que se despediu logo.

— Entrarei um pouco para vê-la — disse a Delfina à amiga, sentando-se no sofá. — A senhora vai ficar aqui muito tempo?

— Tenho de passar ao outro corredor para ver o sapateiro... Pobre homem, não quis ir para o hospital. Nunca vi um caso semelhante de hidropisia. A barriga daquele infeliz estava ontem à noite como um tonel... Já fizeram nele três punções; mas a de ontem teve tão má fortuna que não lhe tiraram mais de meio litro, e dizem que ele tem naquele corpo a bagatela de catorze litros... Que humanidade, meu Deus!

Fortunata passou ao outro aposento e pouco depois voltou, dizendo que Mauricia dormia profundamente. A fundadora fez então uma observação humorística. Dirigindo-se às duas, disse-lhes:

— Estão ouvindo esse trombone tocar a marcha real?

Com efeito, ouvia-se muito clara, embora distante, a marcha real tocada com verdadeiro frenesi por Leopardi, que, na repetição, lhe punha um luxo escandaloso de mordentes e apojaturas.

— Pois esse pobre homem — acrescentou a santa, contendo o riso —, desde que sabe que estou aqui, põe-se a tocar como um desesperado. É a maneira de me lembrar que prometi vesti-lo, porque o desventurado está melhor de pulmões do que de roupa. Olha — propôs a Jacinta, segurando-lhe um braço —, assim que fores hoje para casa, hás de ver se teu marido tem algumas calças que já não lhe sirvam... Talvez não tenha, porque já fizemos tantas revistas em seu guarda-roupa!

— Não sei, não sei — disse a senhora de Santa Cruz, procurando recordar —; parece-me...

— Se não tiver — manifestou prontamente a senhora de Rubin —, eu trarei umas do meu...

— Deus lhe pagará... porque verdadeiramente corta o coração ver aquele pobre homem, neste tempo, com umas calças de linho, dessas que os soldados trazem de Cuba...

Guillermina saiu para ir ao depósito de madeiras da Ronda, e Jacinta acompanhou-a até o corredor. Fortunata sentou-se no sofá, crendo que as duas partiam. Mas a senhora de Santa Cruz, depois de falar com a amiga sobre várias coisas, disse-lhe:

— Espero-a aqui. Leve minha carruagem, e depois ela me buscará e iremos juntas.

Entrou imediatamente, sentando-se também no sofá.

Pôr-se ao lado dela! Não perceber no rosto que as duas não podiam estar juntas em parte alguma!...

Era o que pensava a mulher de Maxi, que sentiu desejo de fugir e depois vergonha e medo de fazê-lo. Se a outra lhe falasse, não teria outro remédio senão responder.

“Pois, se eu lhe dissesse quem sou, faria com que tremesse. Veríamos então qual das duas tremia mais.”

Jacinta olhou-a. Já no dia anterior aquela beleza tão expressiva despertara sua curiosidade. E, quando seus olhos se encontravam com o raio daqueles olhos negros, sentia uma impressão pouco agradável, à maneira desses pressentimentos inseguros que não são como o contato de um objeto, mas como a sensação do ar que o objeto produz ao passar rapidamente.

— Segundo disse o médico — indicou a Delfina, decidida a puxar conversa —, a pobre Mauricia não sairá desta.

— Não sairá, a pobre — opinou Fortunata, um tanto acanhada, porque a assaltava a ideia de que sua linguagem talvez não fosse suficientemente fina.

— Se continuar assim, trarei a menina esta tarde, para que a veja... De todo modo, devo trazê-la, não lhe parece?

— Sim, traga-a.

Jacinta sabia que aquela desconhecida não era solteira, porque oferecera umas calças do marido. Fez-lhe, pois, a pergunta que ingenuamente sempre lhe saía dos lábios quando se encontrava diante de uma mulher casada:

— A senhora tem filhos?

— Não, senhora — respondeu a senhora de Rubin com certa secura.

— Eu também não. Mas gosto tanto de crianças que tenho verdadeira mania por elas, e parece-me que os filhos dos outros deveriam ser meus... e, acredite, não teria escrúpulo de consciência em roubar um, se pudesse...

— Pois eu também, se pudesse... — declarou Fortunata, que não queria ficar abaixo da rival naquela questão da mania materna.

— Mas a senhora perdeu algum, ou nunca os teve?

— Tive um, sim, senhora... fará quatro anos...

— E em quatro anos não teve mais que um? Há quanto tempo é casada? Perdoe minha indiscrição.

— Eu?... — murmurou a outra, vacilando. — Cinco anos. Casei-me antes da senhora...

— Antes de mim! — Sim, senhora... pois, como eu dizia, tive um menino e ele morreu, sim, senhora, e, se estivesse vivo, digo-lhe que...

Como a dama notasse nos olhos da interlocutora uma lucidez e uma mobilidade singularíssimas, suspeitou que aquela mulher talvez sofresse de alienação mental. Seu tom e seu olhar eram muito estranhos, impróprios do lugar e da conversa tranquila que ambas mantinham.

“É preciso deixar esta mulher em paz”, pensou Jacinta. “Vou me calar.”

Ficaram algum tempo em silêncio, olhando para o chão. Jacinta não pensava em nada importante; Fortunata, sim, e toda a sua história passou-lhe pela mente como envolta numa nuvem de fogo. Vieram-lhe à boca palavras duras para increpar aquela macaquinha do Céu que lhe tirara o que era seu. Não era isso uma grande injustiça? Os agravos revolviam-se em seu peito, saindo-lhe aos lábios naquela forma descomedida e grosseira das filhas do povo quando se põem a brigar.

“Eu a agarro e a...!”, dizia consigo, cravando as unhas nos próprios braços. “É um anjo? Pois que seja... É uma santa? E que me importa?...”

Mas dos lábios para fora, nada...

“Como sou covarde! Com uma palavra faço-a cair redonda, e ela terá tanto medo de mim que perderá a vontade de voltar a fazer-me perguntinhas...”

Nisso, a macaquinha do Céu, impaciente porque Guillermina não vinha, saiu por um instante ao corredor. Ao ver-se sozinha, a outra julgou sentir mais coragem para fazer um escândalo... Toda a rudeza, toda a paixão jubilosa de mulher do povo, ardente, sincera, sem educação, fervia-lhe na alma, e uma sugestão incrível a impelia a mostrar-se tal como realmente era, sem disfarce hipócrita.

“E se ela não voltar!...”, disse consigo, olhando o corredor.

Ao dizer isso, seu espírito voltava-se sobre si mesmo, penetrando-se do sentido lógico das coisas...

“Ela é uma mulher de mérito, e eu fui uma perdida... Mas tenho razão, e, perdida ou não, a justiça está do meu lado... porque ela seria eu, se estivesse no meu lugar...”

Nisso viu que a macaquinha voltava... Vê-la e perder a razão foi uma coisa só. Não podia dar-se conta do que lhe aconteceu. Obedecia a um impulso superior à própria vontade quando se lançou sobre ela com a rapidez e o salto de um cão de presa. Encontraram-se, chocando-se no meio do corredor estreito. A criatura cravou-lhe os dedos nos braços, e Jacinta olhou-a aterrada, como quem está diante de uma fera... Então viu um sorriso de ironia brutal nos lábios da desconhecida e ouviu uma voz assassina que lhe disse claramente:

— Sou Fortunata.

Jacinta ficou sem fala... depois soltou um “ai!” agudíssimo, como quem recebe a picada de uma víbora. Enquanto isso, Fortunata movia a cabeça afirmativamente, com dureza insolente, repetindo:

— Sou... sou... sou a...

Mas estava tão sufocada que não articulou as últimas palavras. A Delfina baixou os olhos e, dando um puxão, soltou-se. Quis dizer alguma coisa, não pôde. A outra afastou-se, lançando chamas pelos olhos e arfando pelo peito, e, andando para trás, continuou a dizer, sem que as palavras chegassem a articular-se:

— Eu te agarro e te reviro... porque, se eu estivesse onde tu estás, seria...

Aqui recobrou o fôlego e pôde dizer:

— Melhor do que tu, melhor do que tu...!

A senhora de Santa Cruz recobrou a serenidade e, entrando na sala, tornou a sentar-se no sofá. Sua atitude revelava tanta dignidade quanto inocência. Era a agredida e não só podia serenar-se mais depressa, como responder à ofensa com soberano desdém e até com o próprio perdão. A outra sentiu, ao contrário, um terrível abatimento. Ai, sua ação descomposta e brutal caiu-lhe na alma como se a casa tivesse desabado sobre ela! Não teve ânimo para entrar também; tremeu ao pensar no que Severiana diria se soubesse; e Dona Guillermina?... Refugiou-se no quarto da comandanta, onde deixara o véu e o manguito. A covardia que sentiu impelia-a a correr para a rua. Fugir, sim, e não tornar a pôr os pés naquela casa nem em parte alguma onde pudesse ter encontros semelhantes... Saiu sem fazer ruído, deslizando, e, ao passar diante da porta, olhou e viu-a lá dentro, na extremidade do longo corredor, que parecia uma luneta. Via-a de perfil, a mão na face, muito pensativa, e Jacinta não a via. Desceu e saiu à rua, lembrando-se de uma das principais recomendações que Feijoo lhe fizera: “Nunca perder a compostura.” Pois naquele dia a perdera de maneira bonita...

“Mas, na verdade”, raciocinou, procurando acalmar-se. “O que lhe fiz? Nada... Apenas lhe disse quem sou, para que me conheça...”

Coisa estranha! Deu-lhe vontade de esperar para vê-la sair. Pôs-se de sentinela na rua del Bastero, e cinco minutos depois viu a fundadora entrar na casa.

“Devem subir pela rua de Toledo”, pensou. “De lá eu as verei sem que me vejam.”

Seguiu para a rua de Toledo, ficando à espreita na calçada em frente, junto à porta de uma taberna. Ao cabo de um quarto de hora, a berlinda apareceu pela esquina com as duas damas.

“Falam de mim, e ela está contando como se deu o encontro... imita-me, reproduzindo o movimento que fiz quando a agarrei pelos braços... O que dirão, meu Deus, o que dirão? Parece que as ouço... Que sou uma desordeira e deveriam mandar-me para a prisão.”

vi

Quando subia a escada de casa, começava a formar-se na consciência da jovem uma reprovação clara do que fizera.

“...Teria sido muito melhor”, pensou, detendo o passo e levando um minuto de um degrau ao outro, “dizer-lhe aquilo de eu sou Fortunata com calma, observando bem a cara que ela fazia ao ouvir, e depois ficar muito tranquila, esperando para ver por onde sairia, ou atirar-lhe três ou quatro pedrinhas, dizendo que eu também sou honrada, é claro, e que o marido dela é um tunante... para ver como reagia.”

Ao entrar em casa, encontrou Dona Lupe muito irritada com Papitos, sobre cuja inocente cabeça descarregava o mau humor produzido pela noite em claro. Tudo o que se fizera em sua ausência lhe parecia mal, chegando a dizer que nem sequer para uma obra de caridade podia sair de casa, pois, assim que virava as costas, era uma desordem completa. Fortunata compreendeu que ela também queria implicar consigo; mas, não tendo vontade de brigar, deixava seus resmungos sem resposta.

— Veja que asneira mandar trazer esta carne da perna e esta fraldinha que não servem nem para o gato. Tens a cabeça cheia de vento. Nada, assim que me descuido, já não acertas uma.

Fortunata começava a sentir-se mal. Tinha calafrios, dor de cabeça e vontade de bocejar a todo instante. Dona Lupe percebeu-lhe no rosto o mal-estar e perguntou com grande interesse:

— Tens enjoos, tonturas...?

— Não sei o que tenho; mas deitaria de bom grado.

Ao ir para a cozinha, Dona Lupe pensava que aqueles sintomas talvez anunciassem a provável reprodução do tipo de Rubin na espécie humana; mas a outra sabia muito bem que não era nada disso e, sem mais explicações, deitou-se, bem envolta numa manta, no sofá de seu quarto. Depois que o frio amainou, sentiu sonolência, que a levou a um delírio tranquilo, reproduzindo-lhe na mente a cena da manhã com várias adições importantes. Eram essas adições coisas que, pela pressa, não pudera dizer, mas deveria ter dito, ou eram simplesmente desvarios do cérebro inflamado pela febre?...

“Esta senhora talvez pense que não há no mundo outras mulheres honradas além dela!... Tire isso da cabeça. Veja só o modelo!... Veio bater em boa porta...! Sabe, menina, que, se eu meter isso na cabeça, enfio-lhe honra e virtudes pelo focinho até a senhora não querer mais? Porque isso é questão de dizer: ‘Vamos!’... Sim, e, se me enfezo, ninguém me enfrenta. Pois o que a senhora acha, que me custaria trabalho cuidar de enfermos e fazer-me de muito católica? Se for preciso, no melhor dia ponho-me a cuidar, limpar e virar os enfermos mais apodrecidos, visto uma saia pobre e recolho crianças sem pai nem mãe, porque sou capaz disso e de muito mais... Ora, macaquinha do Céu! Vamos... não venha para cá vendendo mérito... E anjo sou eu! Pois, para que saiba, também eu, se tiver vontade de ser anjo, serei, e mais do que a senhora, muito mais. Todas nós temos nosso anjo dentro do corpo...”

Depois disso, tornou a ver as coisas com clareza e, deixando os olhos vagarem pelo aposento solitário e em penumbra, pensava no mesmo, mas apreciando melhor a realidade. Naquela meditação, o que se destacava, depois de mil voltas, era o vivo desejo de ser não apenas igual, mas superior à outra. O difícil era saber como.

“Porque a primeira coisa que preciso fazer é amar meu marido e comportar-me bem para que se esqueçam das maldades que fiz...”

O pensamento, percorrendo todas as faces do tema, ia das coisas mais sutis às mais triviais.

“Tenho de mandar fazer uma saia inteiramente igual à que ela usava... igualzinha, com aquelas pregas; e se eu encontrasse tecido igual... A verdade é que a macaquinha tem um ar de senhorio e de... de... de quê? De majestade, sim... Ora, isso é ideia, apenas ideia de quem olha para ela, porque, com essa história de que é anjo... Seria preciso saber se é mesmo, porque as aparências enganam...”

Dona Lupe tirou-a dessas cogitações, entrando com passos de gato e dizendo-lhe que era preciso tomar alguma coisa. Fortunata recusou-se a comer e disse que a única coisa que apetecia era uma laranja para chupar.

— Desejos, já? — murmurou a tia, sorrindo, e mandou Papitos buscar a laranja.

Enquanto a chupava, fazendo-lhe um furinho e apertando-a como as crianças apertam o seio, outra rajada daquele furor que determinara o ato da manhã passou pelo cérebro da senhora de Rubin:

“Teu marido é meu e tenho de tirá-lo de ti... Vaidosa... carola... eu ainda te direi se és anjo ou o que és... Teu marido é meu; roubaste-o de mim... como se pode roubar um lenço. Deus é testemunha, e, se não, pergunta-lhe... Solta-o agora mesmo, ou verás, verás quem sou...”

Adormeceu, deixando a laranja cair no chão. Despertou ao sentir sobre a testa a mão do amante esposo, que subira para almoçar e, informado de que ela estava indisposta, assustara-se muito. Dona Lupe quis fazê-lo conceber esperanças de sucessão; mas ele, movendo a cabeça com expressão cética e desconsolada, entrou no quarto e apalpou a testa da mulher.

— Filha de minha vida, o que tens?

Ao ouvir aquela ternura e ver diante de si a figura de Maxi, Fortunata sentiu forte abalo interior. Como uma neurose constitutiva dessas que se manifestam de repente, quando menos se espera, assim surgiu na alma da jovem, de golpe e à maneira de uma explosão de pólvora, a aversão que o marido lhe inspirara outrora. A primeira coisa que pensou foi como rebrotara tão subitamente a infame planta do ódio que julgava seca e morta, ou ao menos moribunda. Olhava para ele, e, quanto mais olhava, pior... Virou-se para o outro lado, respondendo com secura:

— Nada.

— Sabes o que diz a tia?... Escuta...

A opinião da tia aumentava a antipatia da sobrinha e o vivo desejo de perder o marido de vista. Fechando os olhos, invocou Deus e a Virgem, de quem esperava auxílio para curar-se daquela insana aversão; mas nem assim...

“Não consigo vê-lo; iria até o fim do mundo para não vê-lo...! E eu pensava que estava começando a gostar dele! Belo carinho Deus nos dê! Nem sei no que Feijoo estava pensando... Tolo ele, e eu mais tola ainda por lhe dar ouvidos.”

Maxi, ao tomar-lhe o pulso, despejou pela boca uma fieira de frases médicas, concluindo por dizer:

— Subirei esta noite um antiespasmódico, xarope de flor de laranjeira com brometo e talvez, talvez umas pilulazinhas de sulfato de quinina. Há febre, embora pouca. Princípio de um forte resfriado. Tu te resfriaste naquela maldita casa de corredores... ou te intoxicou algum braseiro.

Fortunata pensou que, de fato, se intoxicara, mas não com um braseiro. Cedendo aos rogos do marido e de Dona Lupe, deitou-se, e no começo da noite estava mais tranquila, desperta, sem apetite algum, ouvindo com desagrado o ruído dos pratos e colheres que vinha da sala de jantar à hora da ceia. Nicolas falava pelos cotovelos.

— É melhor não tomares nada, se não tens vontade — disse-lhe Maxi, que entrou mastigando a sobremesa e com um figo seco na mão. — Por via das dúvidas, não descerei esta noite à farmácia e ficarei contigo.

Esse era o pior dos remédios, pois a jovem gostava de ficar sozinha, entretida com os próprios pensamentos. Esforçou-se para adormecer; o marido amarrou-lhe com força um lenço na cabeça e depois se pôs junto à cama. Após um breve sono, ela viu a figura descarnada de Maxi passeando pelo quarto. Ora olhava para ele, ora para sua sombra correndo pela parede, longa, angulosa, dobrando-se nos cantos.

“Ah!... Jacinta, eu queria ver-te casada com este... Então riria, passaria três anos seguidos rindo.”

Maximiliano despia-se para deitar. Ao tirar o colete, os ombros saíam das cavas como asas grandes de uma ave magra que não tem o que comer. Depois as calças expeliram aquelas pernas como bastões retirados das bainhas. Todas as articulações funcionavam com dificuldade, como se estivessem enferrujadas, e o cabelo tornara-se tão ralo que sua cabeça apresentava uma dessas calvas sem dignidade que se veem em jovens de pouco e mau sangue. Ao meter-se na cama e esticar os ossos, soltava um ah! que não se sabia se era de dor ou de prazer. Fortunata, fingindo dormir, virou-se para o outro lado e, à meia-noite, dormia de verdade.

De madrugada abriu os olhos. O quarto estava em completa escuridão. Ouviu a respiração do marido, às vezes áspera, às vezes sibilante e com diferentes sons de flauta, como se o ar encontrasse naquele peito obstruções gelatinosas e linguetas metálicas. Fortunata ergueu-se, cedendo a um movimento interior cujo impulso inicial se determinara enquanto dormia. O que pensava então era mais que extravagante. O disparate que lhe ocorrera, porque disparate era, e dos grandes, foi que devia sair da cama muito quietinha, procurar às apalpadelas suas roupas, vestir-se... ir até o cabide, pegar o vestido de casa e vesti-lo. O xale, onde estava? Não conseguia lembrar; mas o procuraria, também às apalpadelas; e, uma vez encontrado, sairia do quarto, pegaria a chavinha pendurada num prego no vestíbulo e, avante!... para a rua! A ideia da evasão esteve algum tempo flamejando sobre seus miolos como uma chama de álcool, sem que ela pudesse entender como semelhante ideia se acendera. No bolso do vestido de casa tinha meio duro, uma peseta e algumas moedas, o troco do duro que dera a Papitos para que lhe trouxesse... não lembrava o quê. Pois aquele dinheiro lhe bastava. Para que mais? E para onde iria? Para uma pensão. Não... para a casa de D. Evaristo... Não, porque D. Evaristo a repreenderia. Essa ideia de que seu padrinho a repreenderia foi o golpe que lhe clareou o entendimento, porque a ideia da fuga era um rastro do sonho.

“Estou acordada ou dormindo?”, perguntava-se, reconhecendo o desatino; e ficou algum tempo sentada na cama, com a mão na face. O lenço se desatara de sua cabeça e, desfeito o penteado, as mechas espessas caíam-lhe sobre os ombros.

“Que marido este!”, pensava, recolhendo os cabelos. “Nem amarrar um lenço sabe!”

Depois julgou ver olhos que, naquela profunda escuridão, a fitavam.

“Devo estar sonhando ainda. O que estás olhando? O que dizes? Que sou bonita? Claro que sou. Mais do que tua mulher.”

E tornou a deitar-se. Maximiliano, ao revolver-se, deu-lhe uma pancada com uma omoplata.

“Ai, fez-me ver estrelas”, disse Fortunata consigo, encolhendo-se mais do seu lado.

— Estás dormindo, vidinha? — murmurou o outro, despertando e chupando depois os beiços como se tivesse uma pastilha na boca.

Mas, sem ouvir resposta, tornou a adormecer.

vii

No dia seguinte Fortunata sentia-se melhor; mas ainda estava na cama quando o marido, depois de dar uma volta pela farmácia, subiu para vê-la.

— Então? — disse-lhe, inclinando-se sobre ela e beijando-a na testa. — Podes te levantar. O dia está bom. Ai, eu tenho menos saúde do que tu e não me queixo tanto. Sinto tamanha fraqueza que às vezes me custa mover um dedo. Doem-me todos os ossos, e em certos momentos sinto a cabeça como se estivesse vazia, sem miolos... Mas não dói, e isso é mau sinal, porque as enxaquecas são um esteio da vida. Não sei o que acontece comigo. Às vezes me distraio, entra-me uma espécie de esquecimento, fico parvo sem saber onde estou nem o que faço... E quando perco a memória e me foge aquilo que mais sei?... Tu estarás boa amanhã; mas eu não sei onde vou parar com essas coisas. Ballester diz que eu tome muito ferro, mas muito ferro, e que isso é falta de glóbulos no sangue, e assim deve ser... Esta máquina minha nunca foi muito famosa, e agora está que não vale dois vinténs...

Fortunata olhava para ele e sentia profunda compaixão. Talvez essa compaixão refrescasse o carinho fraternal que começara a murchar. Mas não tinha muita certeza disso e, quando o viu sair, pensava que, se aquela planta raquítica do carinho se estiolasse, ela devia fazer esforços colossais para impedi-lo.

Pouco depois, estando no gabinete sentada junto à varanda, por onde entrava o sol, ouviu nos corredores ruídos de vozes que a princípio não se podia saber se eram de alegria ou de ira. Mas nem teve tempo de assustar-se, porque viu Nicolas entrar fazendo grandes gestos de júbilo, o rosto aceso, os olhos faiscantes, e, chegando à cunhada, deu-lhe um forte abraço:

— Todos me deem os parabéns... Já... enfim... Não foi favor, mas justiça. Contudo, estou muito agradecido às pessoas que...

— Graças a Deus! Já temos Periquito feito frade — disse Dona Lupe, que, depois de receber o apertão no corredor, entrava atrás dele, radiante de felicidade porque se livrava daquela boca voraz. — E onde?

— Em Orihuela, tia — respondeu o clérigo, esfregando as mãos. — Catedral ruim; mas veremos se se consegue uma permuta.

— Que meus olhos te vejam cônego; depois disso, ser papa é como tê-lo na mão.

— Como me alegro! — disse Fortunata por dizer alguma coisa, e olhou a rua através dos vidros, temendo que lhe lessem no rosto os pensamentos que o canonicato do cunhado lhe sugeria.

“Que coisa é o mundo!”, pensava. “D. Evaristo tinha razão. Há duas sociedades: a que se vê e a que fica escondida. Não fosse a minha maldade, quando este tolo de capirote, ordinário e fedorento, teria virado cônego? E ele tão satisfeito!”

— Vou amanhã mesmo receber a colação... Mas antes convido todo mundo. Juan Pablo ainda não sabe. Que se roa!...

Ontem apostava comigo que não me dariam. Esse Villalonga é uma grande pessoa, e Feijoo, o que se chama um cavalheiro, e o ministro também... Sabem quem me deu a notícia? Leopoldo Montes, que agora está na Graça e Justiça. Corri para lá, e, quando o chefe do pessoal das catedrais me disse que a coisa era certa, pensei que ia desmaiar. A nomeação estava ali e não a haviam mandado por não saberem meu endereço... Repito: convido todo mundo... para o que quiserem... e convido as Torquemada, Ballester... Dona Casta e suas simpáticas filhas...

— Pare, filho, pare — disse Dona Lupe, irritando-se —, porque, para essas convidadas, não vai bastar o salário de um ano; e, se pensas que vou arcar com o abacaxi das despesas, estás enganado...

Nicolas acalmou-se logo, assumindo o tom que convém a um sacerdote e com o qual sabia muito bem corrigir a descompostura que a ira ou o contentamento lhe produziam.

— Nada, estou satisfeito e, embora creia merecê-lo por meus estudos e pelos serviços que prestei no confessionário, não hei de sentir orgulho; e desde já digo: vou me dar bem com meus companheiros de cabido... esta é a questão. Gosto da paz e da concórdia entre príncipes cristãos. Uma vida descansada, minha missinha de manhã bem cedo, meu corozinho de manhã e à tarde, meu altar-mor quando me tocar, meu passeiozinho à tarde, e venham as penas.

Quando estavam almoçando, Fortunata não conseguia afastar de si este comentário:

“Se foi um bem teres me tornado decente, estúpido, já te paguei e não te devo nada.”

— Tenho de ir ao Monte — disse-lhe mais tarde Dona Lupe —, porque hoje começam os leilões. Fica de olho em Papitos, que nestes dias anda muito atrevida. Tu a estragas com tuas benevolências. Dá uma volta pela cozinha e não tires os olhos dela. Manda-a pôr o bacalhau de molho, ou põe tu mesma. E, quando eu voltar, quero toda a roupa lavada.

Fortunata ficou sozinha com a menina; mas não pôde vigiá-la, porque durante toda a tarde entraram visitas. Primeiro foi Dona Casta Moreno, viúva de Samaniego, com as filhas, duas jovens muito bem-educadas, ou que assim se julgavam. A mãe pertencia à família dos Moreno, que no primeiro terço do século se dividira em dois grandes ramos, os Moreno ricos e os Moreno pobres; mas, tendo nascido no primeiro desses ramos, veio terminar no segundo. Casou-se com Samaniego, homem de bem e muito versado em Farmácia, mas que não soube enriquecer. Pelos Trujillos, Dona Casta tinha parentesco remoto com Barbarita; mas, embora fossem muito amigas na infância, quase já não se tratavam, porque a fortuna e as vicissitudes da vida as haviam afastado consideravelmente uma da outra. Suas relações eram intermitentes. Às vezes se viam e se cumprimentavam; às vezes não. Acontecia-lhes o mesmo que a muitas pessoas que conviveram na infância e depois passam anos e mais anos sem se ver. Quando se encontram, hesitam se devem falar ou não, e por fim não falam, porque nenhuma se decide a ser a primeira.

Mais próximo e claro era o parentesco de Casta com Moreno-Isla, o qual, apesar de ser Moreno rico, mantinha certa comunicação familiar com aquela Moreno pobre, visitando-a às vezes. Tratavam-se por tu por resquício da infância; mas suas relações eram frias, o absolutamente necessário para salvar o princípio da linhagem. O ramo dos Moreno-Isla estabelecia ainda uma ligação remota entre Dona Casta e Guillermina Pacheco; mas esse parentesco já era daqueles que nem galgo alcança. Guillermina e a viúva de Samaniego jamais se haviam tratado.

Dona Casta vangloriava-se de ter educado muito bem as duas filhas. A mais velha, Aurora, uma bonita mulher, viúva de um francês, era muito disposta para o trabalho. Vivera algum tempo na França, dirigindo um grande estabelecimento de roupas brancas, e tinha hábitos independentes e muito tino comercial. A segunda, Olimpia, frequentara o Conservatório durante sete anos seguidos e obtivera muitos prêmios de piano. A mãe queria que fosse uma professora consumada e, para demonstrá-lo nos exames e obter boa nota, fazia-a estudar uma peça com a qual mortificava a vizinhança dia e noite, durante meses e até anos. Essa menina contava nos dedos das mãos a série de seus namorados; mas, quanto a casar, ainda não tinham tocado no assunto.

Fortunata simpatizava muito com Aurora e muito pouco com a mãe e com Olimpia. Temia que zombassem dela por sua falta de educação e a tivessem em pouca conta, conhecedoras de seu passado. Reconhecendo que as três lhe eram muito superiores pela criação e pelo uso acertado de palavras finas, às vezes ficava no escuro sobre o que diziam e apenas assentia com movimentos de cabeça. Era sempre da opinião delas, pois, ainda que pensasse de maneira diferente, não se atrevia a exprimir o desacordo. Naquela tarde, por causa de seu estado de espírito, a senhora de Rubin estava mais constrangida que nunca e desejava que partissem. Mas, infelizmente, Dona Casta nunca estivera mais faladeira. Lamentava muito não encontrar Lupe, pois desejava comunicar-lhe notícias da maior transcendência. Aurora ia assumir a direção de um estabelecimento de roupas brancas, montado ao estilo dos melhores de Paris e Londres. Que tal?

A mulher de Maxi esforçava-se por dissimular o tédio que aquilo lhe causava e respondia às hipérboles de Dona Casta com exclamações de espanto e assentimento.

— Minha filha — acrescentou a viúva de Samaniego — ficará encarregada da direção dos trousseaux, enxovais de batizado e demais artigos elegantes, e terá salário e participação nos lucros. O dono desse grande estabelecimento, que tanto chamará a atenção, é Pepe Samaniego, a quem meu primo D. Manuel Moreno-Isla forneceu o dinheiro para montá-lo, o homem mais bondoso e generoso do mundo, e com um capital... que capital! E veja, é solteiro... e passa a vida em Londres, entediando-se... É o que digo: poderia ter feito feliz uma jovem, das muitas que há na família... Sempre que vem me visitar, despejo-lhe um speech, como ele diz, e ele ri, ri...

“Mas que me importam todas essas coisas!”, pensava Fortunata, que já não podia sustentar por mais tempo o papel nem sabia de onde tirar os monossílabos e sorrisos.

Por fim, Deus misericordioso quis que as Samaniego fossem embora; mas não haviam passado dez minutos quando entrou D. Evaristo, acompanhado pelo criado, que o sustentava pelo braço direito, e Fortunata conduziu-o até a sala, onde o ancião se sentou pesadamente numa das poltronas.

— Dona Lupe...?

— Não há ninguém — disse ela, o que significava: estou sozinha, o senhor pode falar com liberdade.

— Ah, sozinha... E então...? Disseram-me que estavas... que a senhora estava um pouco doente...

Depois de lhe dizer que sua indisposição não fora nada, a chulita sentou-se junto dele, decidida a contar-lhe a verdadeira doença de que sofria, puramente moral e com os mais graves sintomas. Pensava perguntar ao sábio amigo e mestre por que toda aquela desordem se manifestara em consequência das breves palavras que trocara com Jacinta. Que relação tinha aquela mulher com sua conduta e seus sentimentos? Sobre isso, aquele sagaz conhecedor do coração humano e do mundo lhe diria alguma coisa substanciosa, porque ela quebrava a cabeça e não conseguia descobrir por que a macaquinha lhe transtornava o espírito. Se era anjo, por que a fazia má? Por que era para ela o que o demônio é para as criaturas, tentando-as e inspirando-lhes o mal? Logo, não era anjo. Outro ponto obscuro queria consultar-lhe: sentia desejos vivíssimos de parecer-se com aquela mulher e de ser, se não melhor, igual a ela. Logo, Jacinta não era demônio.

O difícil era explicar isso de maneira que o amigo Feijoo entendesse, porque, como já se sabe, ela não tinha muita habilidade para encontrar as palavras que, na linguagem corrente, exprimem coisas espirituais e intrincadas.

viii

O pior do caso foi que a consulta ainda não começara quando entrou Dona Lupe, que convidou o senhor Feijoo a tomar chocolate. O bom cavalheiro não se fez de rogado, e a própria viúva de Jáuregui serviu-o. Enquanto ele tomava, falaram das visitas que tia e sobrinha faziam à rua Mira el Río.

— Eu — declarava Dona Lupe — reconheço que não tenho coragem nem estômago para praticar a caridade nesse grau. Admiro muito a amiga Guillermina; mas não consigo imitá-la.

Feijoo expôs sobre aquele tema da filantropia algumas considerações muito sensatas e despediu-se, dando a cada uma das senhoras um forte aperto de mão.

Naquela noite Fortunata notou no marido algo que a deixou inquieta. Durante o jantar ele não dissera palavra; tinha o rosto afogueado, estava muito agitado e a todo instante soltava suspiros profundíssimos. Quando subiu para deitar-se, já não tinha o rosto aceso, mas cor de chumbo.

— Tens enxaqueca? — perguntou-lhe a mulher, vendo-o desabar numa cadeira e apoiar a cabeça nas mãos.

Maxi respondeu que não, que a cabeça não lhe doía nada, e que o que o aterrorizava era sentir o crânio vazio, desocupado, como uma casa com anúncio de aluguel.

— Há pouco — disse com amargo desânimo — perdi a memória de tal modo... que... não sabia como tu te chamavas. Vinha subindo a escada e entrou-me tamanha raiva que perguntei em voz alta: “Mas como é o nome dela, como é o nome dela?...” Lembrei-me ao entrar em casa. Hoje estava preparando um remédio para um doente dos olhos e, em vez do sulfato de atropina, pus o de eserina, que é a indicação contrária. Se Ballester não percebe... que atrocidade!, deixo o doente cego... Não posso trabalhar. Esta cabeça se transtornou. Imagina que às vezes...

Dizendo isso, fitava-a intensamente, e Fortunata não sabia dissimular bem o terror que aqueles olhos lhe causavam.

— Imagina que às vezes me sinto tão estúpido, mas tão estúpido, que penso ter por cabeça um pedaço de granito. Não salta daqui uma ideia, ainda que eu bata com um martelo. E em outros momentos parece que me torno o homem mais ajuizado do mundo, e ocorrem-me umas coisas...! São tão sublimes que não consigo exprimi-las; a língua me treme, eu a mordo e cuspo sangue... Depois fico como quem sai de um desmaio.

— Deita-te e descansa — propôs a mulher, compadecida e assustada. — Isso não passa de cansaço de tanto pensar.

Maximiliano começou a despir-se, detendo-se a todo instante.

— Assim que movo um braço — dizia com terror —, as palpitações aumentam de tal maneira que não consigo respirar. Ballester diz que é nervoso, uma hipercinesia do coração, produzida pela dispepsia... gases... Mas eu digo que não, que não, que isto é mais grave. É a aorta... Tenho um aneurisma, e no melhor dia, paf... arrebenta...

— Não sejas hipocondríaco... Se não lesses esses livrões de Medicina, não te ocorreriam tais disparates — opinou ela, tirando-lhe as calças.

Ele ficou com as pernas rígidas, de ceroulas, esperando que a mulher também lhe tirasse as botas.

— Deus te pague, filha de minha vida. Ajuda-me, que teu pobre marido bem precisa. Estou em belo estado, Deus é testemunha.

Fortunata tomou-o galhardamente nos braços e meteu-o na cama. Ela ainda tinha mais força. Ambos riram; mas, depois do riso, Maximiliano soltou um suspiro, dizendo com a maior tristeza do mundo:

— Que força tens!... E eu, como sou fraco! E a isto chamam sexo forte! Belo sexo o meu!

— Dorme e não penses em tolices — indicou ela, que, movida de piedade, julgou oportuno e caridoso fazer-lhe alguns afagos.

— Não fosse por ti — disse ele, como um menino mimado —, eu não me importaria que a vida acabasse... O mundo não vale nada senão pelo amor. É a única coisa efetiva e real; o resto é figurado.

Ela também se deitou e ficou conversando com ele até que o sono chegasse. Pobre rapaz! A compaixão que Fortunata sentia apagava-lhe no espírito a aversão ou, pelo menos, escondia-a numa dobra, sem permitir que se manifestasse. E a compaixão fazia brotar em sua vontade aqueles desejos de virtude sublime que às vezes surgiam como flor de um minuto, criada pela emulação. A emulação, ou a mania imitativa, era o que determinava a ideia de que, se o marido ficasse muito doente, muito doente, ela seria a maravilha do mundo pelo cuidado em assisti-lo e tratá-lo. Mas, para que o triunfo fosse completo, era preciso que Maxi contraísse uma doença asquerosa, repugnante e pestilenta, dessas que afugentam até os parentes mais chegados. Ela, então, daria provas de ser tão anjo quanto qualquer outra e teria alma, paciência, coragem e estômago para tudo.

“E então essa veria se aqui há perfeições ou não, e que cada uma é cada uma... O ruim seria ela não ver, porque aqui não há de vir...”

Maximiliano distraiu-a daquela meditação, soltando gemidos profundos. Sua mulher já conhecia aquilo e sabia o remédio, que era virá-lo suavemente para o outro lado...

— Que sonho! — murmurou Maxi, meio desperto. — Sonhava que tinhas ido embora... e eu te agarrava por um pé, e tu puxavas, e eu puxava mais, e de tanto puxar a bolsa do aneurisma se rompia, e o quarto inteiro se enchia de sangue, o quarto inteiro, até o teto...

Ela o embalou para que adormecesse e também adormeceu. Levantou-se cedo porque tinha de trabalhar. Depois das nove, quando entrou no quarto para ver se o marido precisava de alguma coisa, ele estava se vestindo, numa disposição de ânimo muito diferente da que tivera na noite anterior. Não só parecia recuperado da fraqueza, como estava inquieto, ágil, como se acabasse de tomar um estimulante muito enérgico. Assim que a mulher entrou, foi direto a ela, abotoando o colarinho da camisa, e disse-lhe num tom áspero:

— Escuta... eu estava desejando que viesses para dizer que essas visitas do senhor Feijoo me aborrecem. Ontem à noite eu ia dizer-te e esqueci... Agora já sabes... Sei que ontem à tarde ele esteve aqui outra vez e deram-lhe chocolate com mojicón. Meu irmão Juan me contou; passava pela rua quando ele saía, e conversaram.

Fortunata estava pasma com aquela explosão, e ainda mais com o tom. De manhã, Maximiliano costumava estar um pouco rabugento e displicente, mas nunca como naquele dia. Voltando-se para o espelho a fim de pôr a gravata, continuou:

— Parece que fazem as coisas de propósito para me incomodar, para me fazer roer de raiva... E não és apenas tu... minha tia também. Sem dúvida decidiram fazer-me perder a saúde.

No espelho, Fortunata pôde ver o rosto pálido e contraído de Maxi, cuja suscetibilidade nervosa se manifestava num movimento vibratório da cabeça, que parecia querer arrancar-se por si mesma do tronco. Ela desculpou-se como pôde; mas ele, em vez de acalmar-se, continuou queixando-se de que o mortificavam de propósito, de que se haviam proposto acabar com ele. A esposa calava-se, suspeitando que o marido não estava com a cabeça boa e que seria pior contradizê-lo. Desde então pôde observar que, pela manhã, a mesma excitação se repetia em Maxi, assim como a teimosia de que todas as pessoas da família conspiravam contra ele para atormentá-lo. Às vezes tomava por motivo alguma falha percebida na roupa, botão caído, casa de botão rasgada ou coisa semelhante. Outras, era porque lhe davam um chocolate muito ruim para fazê-lo estourar... queriam envenená-lo...!, ou porque deixavam varandas e portas abertas para que entrasse uma corrente de ar e o rachasse ao meio. Essas manias iam de mal a pior, deixando Dona Lupe de humor acerbíssimo e fazendo-a pressagiar alguma desgraça. Chegou o dia em que Maxi se exprimia com uma violência muito contrária a seu caráter pacífico e, quando não o contradiziam, respondia a si mesmo, lançando por conta própria lenha na fogueira da ira; por fim, saía resmungando, fechava a porta com golpe formidável e descia a escada de quatro em quatro degraus.

À noite, o lobo transformava-se em cordeiro. Dir-se-ia que a forte excitação nervosa da manhã se gastava com os atos e movimentos da pessoa ao longo do dia e que ela chegava à noite no estado contrário, exausta como quem trabalhou muito. Fortunata já se acostumara àquele estica e afrouxa, e nenhuma das extravagâncias do marido a apanhava de surpresa. De manhã, o melhor era não lhe dar atenção, aparentando submissão às exigências; à noite, não havia outro remédio senão agradá-lo e mimá-lo um pouco, pois fazer diferente seria cruel.

Diversas vezes, nas intimidades com sua cara-metade, Maximiliano exprimira aquelas tristezas tão comuns nos casamentos sem filhos. Fortunata não gostava do assunto, mas não tinha outro remédio senão aceitá-lo. Certa noite acolheu-o com verdadeiro entusiasmo, porque levava até ele uma ideia felicíssima que tivera naquele dia.

— Olha — disse ao esposo —, se Deus não quer dar-nos uma criatura, ele saberá por que faz isso. Mas podemos adotar uma, procurar um órfãozinho e trazê-lo para casa. Eu gostaria muito, e ele nos distrairia a ambos. Por que eu, embora pobre, não haveria de fazer o que fazem as senhoras ricas que não têm filhos? Um casamento sem pequenino é muito sem graça.

A Maximiliano a ideia pareceu boa; mas Dona Lupe, embora não a contradissesse abertamente, não pareceu entusiasmar-se. As crianças sujam a casa, revolvem e desarrumam tudo, e dão enormes desgostos com suas doenças e travessuras. Embora expusesse essas ideias com muita discrição, Fortunata entristeceu-se, porque desde a noite anterior lhe entrara na cabeça aquele projeto de recolher uma criança órfã e, tendo-se afeiçoado a ele, custava-lhe muito abandoná-lo. Mania de imitação!

ix

Dois dias depois da tarde do choque com Jacinta, Dona Lupe convidou-a a voltar a visitar Mauricia. O que diria Dona Guillermina se elas não voltassem? Fortunata recusou-se, não sei com que pretexto, a ir até lá, e Dona Lupe foi sozinha. Era dia de San Isidro, e não havia vendas no Monte de Piedad. Por volta das dez, voltou muito comovida e, entrando no gabinete onde a sobrinha costurava, disse-lhe:

— Filha, reza um padre-nosso pela pobre Mauricia.

— Morreu! — exclamou Fortunata, sentindo um forte abalo na alma.

— Sim, às dez e meia. Parecia que estava esperando que eu chegasse para morrer... pobrezinha! Venho horrorizada. Se eu soubesse, não teria aparecido por lá. Esses quadros não são para mim. Quando cheguei, ela estava em perfeito juízo. Perguntou por ti com tanto interesse...! Disse que te queria mais do que a ninguém e que, assim que entrasse no Céu, pediria ao Senhor que te fizesse feliz. Eu, francamente, ao ouvir isso, vi que estava no fim, e Severiana me disse que ontem à noite pensaram duas ou três vezes que ela morreria nos braços delas. Teve agonias tão fortes que a respiração lhe acabava... Notei também que sua voz parecia sair do fundo de um cântaro muito profundo e soava como se viesse de longe... Tinha o rosto muito afogueado e os olhos encovados, mas muito brilhantes. Guillermina estava sentada à cabeceira e a todo instante a abraçava e beijava, dizendo-lhe que pensasse em Deus, que sofreu tanto para nos salvar... De repente ela se descompôs, filha; mas de que maneira...! Ficou roxa, começou a agitar as mãos e a soltar pela boca umas flores, umas couves...! Era um horror. Nisso chegou o padre Nones, a quem Guillermina mandara chamar para auxiliá-la; mas tudo inútil. Nem a pobre enferma podia ouvir o que lhe diziam, nem sua cabeça estava para coisas de religião. A santa teve uma ideia feliz. Deu-lhe para beber uma taça de Jerez cheia até as bordas. Mauricia cerrava os dentes; mas por fim o cheirinho deve ter-lhe entrado pelo nariz, porque abriu a bocarra e virou tudo de um trago. Como a infeliz lambia os beiços! Acalmou-se e, pum!, deixou a cabeça cair no travesseiro. Então Guillermina, pondo-lhe uma cruz entre as mãos, perguntava se acreditava em Deus, se se recomendava a Deus e à Santíssima Virgem, e a tais e quais santos do Céu, e ela respondia que sim, movendo a cabeça... O padre Nones estava de joelhos, rezando sem parar. Acenderam uma vela, e garanto-te que o cheiro da cera, as rezas e aquele espetáculo me reviraram o estômago e puseram meus nervos como cordas de violão. Eu não queria olhar; mas a curiosidade... é o que ela tem... fazia-me olhar. Os olhos de Mauricia haviam afundado até quase irem parar na nuca, e o nariz, aquele nariz tão bonito, afinou-se como uma faca. Guillermina, elevando a voz, dizia-lhe que se abraçasse à cruz, que Deus a perdoava, que ela a invejava por ir direitinha para a glória, e muitas outras coisas que faziam a gente chorar. A cabeça de Mauricia foi ficando quieta, quieta... Depois a vimos mover os lábios e pôr para fora a ponta da língua, como se quisesse lamber os beiços... Deixou ouvir uma voz que parecia vir, por um tubo, do porão da casa. Parece-me que disse: mais, mais... Outras pessoas que estavam ali garantem que disse: . Como quem diz: “Já vejo a glória e os anjos.” Tolice; não disse senão mais... isto é, mais Jerez. Guillermina e Severiana aproximaram-lhe um espelho do rosto e o mantiveram ali por algum tempo... Depois todos começaram a falar em voz alta. Mauricia já estava no outro mundo; ficara de uma cor violeta puxando para o azul. Dez minutos depois, sua fisionomia estava tão mudada que, se a visses, não a reconhecerias.

— Mas Guillermina... Que mulher aquela! — prosseguiu a senhora de Jáuregui, depois de uma pausa triste, revirando os olhos. — Acreditas que a amortalhou com as próprias mãos? Não faria mais se fosse sua filha. Ela a lavou... ela a vestiu... ela lhe pôs o hábito... e tão tranquila. Eu teria querido ajudar; mas, francamente, não sirvo para essas coisas. Parece-me natural oferecer-me. Bem sabia que a santa não cederia a ninguém o comando daquela operação: tomou isso por ofício. Mas ofereci-me, ofereci-me. É preciso cuidar de tudo e ficar sempre em bom lugar. E acredita que o pouco que fiz tem mérito, porque para mim qualquer ninharia desse gênero é um sacrifício, ao passo que para aquela senhora não é, por estar muito acostumada a lidar com enfermos e defuntos, como as irmãs de caridade. Devias vê-la. E sempre com aquele rostinho tão corado e aquele passo ligeiro e vivo. Quando terminou, nós duas tivemos uma longa conversa na salinha; falamos de Mauricia, da muita miséria que há nesta Madri e de que, graças às boas almas “como a senhora”, disse-me ela, muitos males eram remediados. “E a sobrinha, não veio? — perguntou-me. — Outro dia prometeu-me umas calças do marido.”

— Ah, sim — lembrou Fortunata. — Não pense que esqueci. Já as separei. São para um homem que toca corneta, trombone ou sei lá o quê. Mandaremos para Severiana.

— Eu me encarrego disso — respondeu Dona Lupe, dando a entender que pensava voltar lá.

— Não, eu as levarei, bem embrulhadinhas num lenço — disse a sobrinha, a quem subitamente deu vontade de ir à casa mortuária. — Levaremos cada uma nosso duro, caso peçam para o enterro.

— Não é uma má ideia. Mas é a Guillermina que devemos dá-los, porque ela sabe agradecer. Ah! Esquecia-me de dizer-te outra coisa. Convidou-me para visitar seu asilo; melhor dizendo, convidou a nós duas. Iremos. Nesse dia estrearei meu casaco novo, e tu, a saia que pretendes mandar fazer. Será preciso pôr alguma coisa na caixa de esmolas; mas não importa. Outras coletas me irritam; das caixas de esmolas não tenho medo.

Papitos entrou, e a patroa mandou-a preparar uma xícara de chá, porque estava com o estômago embrulhado. A senhora não tirara o manto nem as luvas; mas, quando, conversando, começou a aliviar a carga que trazia no espírito, pensou em mudar de roupa. Na mão tinha um embrulho. Eram algumas coisinhas que comprara de passagem para mimar Maxi. Ballester recomendara que lhe dessem carne crua; mas, como ele se recusava a comê-la, Dona Lupe teve a ideia de dar-lhe miúdos, corações de aves, e suprimir para ele o cozido e os farináceos. Para a sobremesa trouxe abrunhos de Portugal.

Fortunata não prestava atenção a nada disso, porque tinha o pensamento inteiramente ocupado com a ideia de visitar o asilo de Dona Guillermina. De lá tiraria o órfãozinho que queria adotar. Pois então... se ainda estivesse no estabelecimento aquele mesmo menino que seu tio Pepe Izquierdo quis vender a Jacinta, que ocasião, Cristo!, que golpe! Que vissem, sim, que vissem como ela também...

Mas logo haveria de acontecer algo que desbaratou por completo o plano de adotar um órfãozinho. No dia seguinte, resistindo à insistência de Maxi, que queria levá-las a San Isidro, foram, como combinado, à rua Mira el Río. Fortunata temia aquela visita por diferentes motivos, e não era o menor deles a dor que lhe causaria ver os restos de Mauricia. Temerosa e sobressaltada, ficou na salinha, onde estava Dona Fuensanta com um lenço negro sobre os ombros. Severiana entrava e saía. Seus olhos revelavam que chorara, e ela também tinha um xale preto sobre os ombros. Por uma fresta da porta que ligava a primeira sala à câmara mortuária, Fortunata viu os pés da Dura no caixão e não teve coragem de aproximar-se para ver mais. Sentia dor e terror e não conseguia esquecer as últimas palavras que a infeliz amiga lhe dissera: “A primeiríssima coisa que pedirei ao Senhor é que tu também morras, e ficaremos juntas no Céu.” Embora se julgasse desgraçada, a senhora de Rubin agarrava-se mentalmente à vida. O que Mauricia dissera era um disparate. Cada um morre quando chega sua hora, e nada mais. Dona Lupe, que entrou para ver a morta, ficou tão comovida que não conseguiu permanecer ali.

— Minha filha — disse à sobrinha, falando em segredo —, não consigo ver essas coisas fúnebres. Acho que vou passar mal. A morte me aterroriza, e não é que eu seja impressionável. Não me assusta doença alguma, salvo o mal de miserere. É o que temo... Enfim, vou daqui para o Monte. Preciso de ar. Fica tu por decoro; lá dentro está a santa. Toma meu duro, caso haja a costumeira subscriçãozinha. Assim que levarem o corpo, volta para casa. Adeus.

Quando a senhora de Jáuregui partiu, deixando a sobrinha sozinha, esta mudou de lugar para não ver os pés de Mauricia, calçados com bonitas botas de cano claro; pés preciosíssimos que já não dariam um único passo. Dona Fuensanta saiu e lhe disse algumas palavras. Pouco depois, abriu-se a porta da câmara mortuária, e Fortunata teve um estremecimento nervoso, acreditando a princípio que era a própria Mauricia que aparecia... Mas não, era Guillermina. Desde que deu o primeiro passo na sala, seus olhos se fixaram na jovem, que tornou a sentir medo. A santa caminhava diretamente para ela, olhando-a como nunca a olhara.

Tocando-lhe suavemente um braço, disse:

— Preciso falar com a senhora.

— Comigo!...

— Sim, com a senhora — e, ao dizer isso, tocou-a novamente. A impressão daquele contato corria-lhe braço acima até chegar ao coração.

— Duas palavrinhas — acrescentou a santa; depois corrigiu-se: — Serão algumas mais.

Fortunata percebia certa severidade naquele rosto; ia dizer alguma coisa, mas a outra não lhe deu tempo e, tomando-lhe o braço como se toma o dos homens, disse:

— Venha por aqui. Está com pressa?

— Não, senhora...

— Eu ainda não havia partido porque esperava para ver se a senhora vinha. Ontem à noite também a esperei, e a senhora não quis vir.

Conduziu-a à casa vizinha, onde Dona Fuensanta morava, e entraram numa salinha bastante desordenada, na qual havia mais baús do que cadeiras, além de duas cômodas. Guillermina fechou a porta e, convidando Fortunata a ocupar uma cadeira, sentou-se ela própria num cofre.

x

Fortunata não sabia o que dizer, que expressão assumir nem para onde olhar; tanto a assustavam e intimidavam a respeitável dama e a suposição do grave assunto que seria tratado naquela conferência. Guillermina, que não gostava de perder tempo, abordou imediatamente a questão desta maneira:

— Tenho uma amiga a quem quero muito... quero-a tanto que daria a vida por ela; e essa amiga tem um marido que... Numa palavra, minha amiga sofreu horrivelmente com certas... tolices do esposo... que também é uma excelente pessoa... entendamo-nos, e eu gosto muito dele... Mas, enfim, os homens...

A senhora de Rubin olhava para os trastes que obstruíam o quarto. Sem dúvida procurava algum móvel debaixo do qual pudesse esconder-se.

— Vamos ao caso — prosseguiu a outra, estalando os lábios. — Sou muito franca em todas as minhas coisas; não gosto de comédias. Comprometi-me a falar com a senhora. Primeiro combinamos recorrer à senhora de Jáuregui; mas depois achei melhor atacá-la diretamente e apelar para sua consciência, porque me parecia que, batendo àquela porta, alguém me responderia de dentro. Não acredito que exista ninguém mau, mau de verdade. Já tive tantas surpresas!... Tantas vezes me aconteceu ver uma pessoa com fama de perversa sair de repente com um ato dos mais cristãos, que já não me surpreendo ao ver o bem saltar de onde menos se espera. Que a senhora teve seus extravios, todo mundo sabe. Para que dizer o contrário?

— Claro!... — murmurou Fortunata, sem compreender o verdadeiro sentido das palavras.

— Eu não tinha o prazer de conhecê-la... Confesso que fiquei pasma quando minha amiguinha me disse ontem quem era a senhora. Eu não tinha nem a mais remota suspeita... Isto parece comédia! Encontrarem-se aqui, num ato de caridade, duas pessoas tão... não se ofenda se digo tão opostas por seus antecedentes, por seu modo de ser...! E não quero rebaixar ninguém. Muito pelo contrário: parece-me, não sei por quê... isto é coisa de pressentimento, adivinhação, palpite... parece-me que a senhora, se for bem sacudida, assim como alguns, quando recebem pauladas, soltam bolotas, se for bem sacudida, digo, há de deixar cair alguma flor.

Fortunata disse que sim com a cabeça, e o laço que sentia no pescoço começou a afrouxar.

— Por isso apelo para sua consciência e peço que me declare, com a mão no coração, se nesta temporada, nestes dias, a senhora mantém algum trato com o esposo de minha amiga... Porque esta é a ideia que lhe entrou agora na cabeça. Vamos, diga-me se...

— Eu! — exclamou Fortunata, que quase perdeu o medo com o impulso da verdade que queria sair. — Eu... agora? A senhora está sonhando? Faz um século que nem sequer o vejo...!

— De verdade? — perguntou a santa, semicerrando os olhos. Aquele modo de olhar extraía a verdade como com tenazes; e, com efeito, a pecadora sentia que aquele olhar a penetrava até o mais profundo, agarrando tudo o que encontrava.

— Mas a senhora não acredita?... Duvida? — acrescentou; e, esquecendo os bons modos, ia fazer uma cruz com os dedos e beijá-los, jurando por esta.

O desejo de ser acreditada resplandecia de tal modo em seus olhos que Guillermina não pôde deixar de ver a consciência assomada neles. Mas, como dissimulava aquilo, permanecendo fria e observadora, a outra se impacientava e se inflamava, já sem saber o que dizer para convencê-la.

— Por que quer que eu jure?... Ora, duvidar disso!... Nem vê-lo, nem sequer saber dele...

— Não diga mais — manifestou Guillermina com certa solenidade. — Basta-me. Acredito. Se a senhora me tivesse dito o contrário, eu lhe pediria que fizesse todo o possível para devolver àquela pobrezinha a tranquilidade, isso mesmo. Mas, se não há nada, guardo por enquanto meu pedido; permito-me apenas fazê-lo de modo condicional, que lhe parece?, olhando para o futuro e para o caso de que aquilo que agora não acontece venha a acontecer amanhã ou depois.

A senhora de Rubin olhava para o chão. Tinha o lenço metido no punho e este encostado ao queixo.

— Mas agora — acrescentou a santa mulher — ocorre-me fazer outra perguntinha... Tenha muita paciência; bela enxaqueca lhe caiu em cima. Vamos ver: se já não há absolutamente nada entre a senhora e o marido de minha amiga, se tudo passou, por que guardamos rancor de uma pessoa que não nos faz mal algum?... Por que outro dia, ali naquele corredor, a senhora a tratou de maneira tão descomposta e lhe disse... não sei o quê? Francamente, minha filha, isso nos pareceu muito estranho, porque a senhora é casada e vive em paz com o marido, ao menos é o que parece. Se aquelas diabruras acabaram, a que vinha maltratar, com palavras e até com atos, a pobre Jacinta, quando o que cabia era pedir-lhe perdão?

— Isso foi porque... — murmurou Fortunata, fazendo do lenço uma bola perfeita —, isso foi... pois foi porque...

E não havia meio de passar dali. As lágrimas assomaram-lhe aos olhos, e o nó da garganta tornou a apertar-se de maneira horrível. Em toda a vida, em tempo algum, a infeliz se vira em situação semelhante. A pessoa que alguns chamavam familiar e carinhosamente de rata eclesiástica inspirava-lhe mais respeito que um confessor, mais que um bispo, mais que o papa. E a rata semicerrava ainda mais os olhos e, em sua bondade, quis abrir caminho à confissão.

— É que a senhora, estou vendo, conserva ressentimentos e talvez pretensões que são grande pecado; é que a senhora não está curada de sua doença da alma; é que a senhora, embora não mantenha agora relações com aquele sujeito, está disposta a retomá-las. Falemos com clareza.

Fortunata não respondeu.

— Acertei? Pus o dedo na parte mais sensível da ferida? Franqueza, minha senhora; isto não sairá daqui. Tomo essas liberdades porque sei que a senhora não há de irritar-se. Bem sei que abuso e me torno insuportável e maçante; mas aguente-me por um momento, não há outro remédio... Vamos, diga...

Ela também não disse nada. Por fim, desfazendo o lenço e exprimindo-se aos tropeços, quis escapar pela tangente desta maneira:

— Naquele dia... quando eu disse àquela senhora... aquilo... depois me arrependi.

— E por que não lhe pediu perdão?

— Digo que me arrependi muito.

— Estamos de acordo... muito bem... mas responda claramente: por que não lhe apresentou desculpas?

— Porque fui embora para casa.

— Está bem. E, se a visse agora?

Silêncio completo. Guillermina não teve paciência para esperar mais a resposta e, exaltando-se, exprimiu o seguinte:

— Mas a senhora não sabe que aquela senhora é esposa legítima... esposa legítima daquele cavalheiro? Não sabe que Deus os casou e que sua união é sagrada? Não sabe que é pecado, e pecado horrível, desejar o homem alheio, e que a esposa ofendida tem direito de lhe dizer poucas e boas, enquanto a senhora, com nada menos que dois adultérios na consciência, a ofende só de olhar para ela? Vamos ver, o que a senhora chegou a imaginar? Que estamos entre selvagens, que cada um pode fazer o que bem entende e que não há lei, religião nem coisa alguma? Estaríamos em belo estado com essas ideiazinhas, sim, senhora... Não estranhe que eu me irrite um pouco, e desculpe-me.

Fortunata estava como se lhe tivessem despejado sobre o crânio uma cesta de pedras. Cada palavra de Guillermina foi como um seixo.

Naquele momento, segurando o lenço pelas duas pontas, fazia com ele uma corda. Não se pode saber se foram espontaneidade aturdida ou reflexão deliberada estas palavras suas:

— É que sou muito má; a senhora não sabe como sou má.

— Sim, sim; já vejo que não somos uma perfeição — indicou a santa, endireitando-se no assento como para olhá-la de mais longe. — Quando há arrependimento, o Senhor perdoa. Mas a senhora, pelo que vejo, tem uma desenvoltura para encarar essas coisas da moral...!, desenvoltura que não invejo. A senhora é casada: já que a consciência não lhe dói de um lado, como não lhe arde do outro?

— Casei-me sem saber o que fazia.

— Que anjinho!... Sem saber o que fazia! Então casar é ato insignificante e maquinal, como beber um gole de água? Alguém pode casar-se sem saber que está casando?... Minha filha, guarde esse argumento para quando falar com tolas, porque comigo não vale.

— Casaram-me — acrescentou Fortunata, tornando a fazer uma bola com o lenço —, casaram-me sem que eu possa dizer como. Pensei que me convinha e que poderia amar meu marido.

— Ah, que graça!... Como é engraçadinha a criatura! — exclamou a fundadora com amável ironia e vivacidade. — Essas... fartas de pecados são muito divertidas quando se fazem de inocentes. Pensou que poderia amá-lo! E o que fez para consegui-lo?... Ah! O que a senhora queria, digamos claramente, era casar-se para ter um nome, independência e poder correr livremente por aí. Quer ainda mais claro? Pois o que desejava era uma bandeira para exercer a pirataria com aparência de legalidade. Desgraçado homem aquele que ficou com a senhora! Verdadeiramente ganhou na loteria. E diga-me: afinal, esse carinho que a senhora queria ter não saltou por parte alguma?

— Não, senhora — respondeu Fortunata, rompendo a chorar. — Mas, se a senhora falar comigo dessa maneira, não poderei continuar; terei de retirar-me.

A santa deslocou-se sobre o cofre que lhe servia de assento, aproximando-se da cadeira em que a outra estava.

— Vamos, não chore — disse-lhe com bondade, pousando-lhe a mão no ombro. — Não se ofenda pelo que eu disse. Já lhe recomendei que tivesse paciência comigo. É preciso tomar-me ou deixar-me. Quando me ponho a arrancar pecados, ninguém me aguenta... Pois é claro, eles doem; mas depois a pessoa sente alívio. E até agora a senhora não me disse nada em sua defesa.

— Mas que culpa tenho de não amar meu marido? — manifestou a pecadora da maneira sufocada e intermitente que o choro lhe permitia. — Não posso remediar. Não me casei pelo que a senhora diz, mas porque estava enganada, porque via as coisas de modo diferente do que são. Não amo meu marido, nem o amarei nunca, ainda que todos os santos da Corte celestial me ordenem. Por isso digo que sou muito má, muito má.

Guillermina soltou um grande suspiro. Diante daquele terrível antagonismo entre o coração e as leis divinas e humanas, problema insolúvel, sua grande piedade inspirou-lhe uma ideia sublime.

— Bem sei que é difícil mandar no coração. Mas isso mesmo lhe dá motivo para deixar de ser má, como diz, e adquirir méritos imensos. Mas, minha filha, no que andou pensando para que isso não lhe ocorresse? Cumprir certos deveres, quando o amor não facilita o cumprimento, é a maior beleza da alma. Fazer isso bastaria para que todas as suas culpas fossem lavadas. Qual é a maior das virtudes? A abnegação, a renúncia à felicidade. O que mais purifica a criatura? O sacrifício. Pois não lhe digo mais nada. Abra esses olhos, pelo amor de Deus; abra esse coração de par em par. Encha-se de paciência, cumpra todos os seus deveres, conforme-se, sacrifique-se, e Deus a terá como sua, mas muito sua. Faça isso, mas de verdade, de modo que se veja, que se apalpe, e no dia em que a senhora for como lhe proponho, eu... eu...

Ao dizer eu, Guillermina punha a mão no peito e dava aos olhos a expressão mais bela.

— Eu, eu... nesse dia, irei confessar-me com a senhora como a senhora se confessa agora comigo.

Isso deixou Fortunata tão desconcertada que suas lágrimas secaram de repente. Olhava com verdadeiro espanto para a rata eclesiástica.

— Não se admire nem arregale esses olhos — prosseguiu ela. — Não tive ocasião de jogar pela varanda, para a rua, uma felicidade, uma ilusão, coisa alguma. Não tive luta. Entrei neste terreno em que estou como se passa de um aposento para outro. Não houve sacrifício, ou foi tão insignificante que não merece ser mencionado. Ria de mim, se quiser; mas saiba que, quando vejo alguém que tem a possibilidade de sacrificar alguma coisa, de arrancar de si algo que dói, sinto inveja... Sim, invejo os maus, porque invejo a ocasião, que me falta, de romper e lançar fora um mundo, e olho para eles e digo: “Insensatos, tendes nas mãos a faculdade do sacrifício e não a aproveitais...”

Essa ideia, apesar de tão elevada, foi muito inteligível para Fortunata. Guillermina aproximou-se dela e, passando-lhe o braço pelos ombros, apertou-a suavemente contra si. Nunca, em tempo algum, nem no confessionário, a criatura sentira o coração com tanta vontade de transbordar, lançando para fora tudo o que existia nele. Só o olhar da virgem e fundadora parecia extrair-lhe a representação ideal que aquela infeliz tinha no espírito de suas próprias ações e sentimentos, como todos nós temos, representação que se aclara ou escurece conforme os casos e que, naquele momento, resplandecia como um foco de luz.

xi

A porta abriu-se e entrou Severiana chorando aos gritos. Chegara o momento de levarem o corpo de Mauricia, e aquele ato tristíssimo se anunciava nos gemidos e soluços de todas as mulheres que estavam na casa mortuária. Quando Guillermina e Fortunata saíram, o caixão já era descido nos ombros de dois homenzarrões para ser colocado no humilde carro que esperava na rua. A curiosidade e o desejo de dar o último adeus à amiga empurraram Fortunata para a escada... Chegou a ver as fitas amarelas sobre o tecido negro, na curva da escada; mas foi apenas um segundo. Depois se debruçou na varanda e viu como puseram o caixão no carro e como este partiu, sem outro acompanhamento que um triste fiacre, no qual iam Juan Antonio e dois vizinhos. Sentiu tamanha vontade de chorar que não se lembrava de ter chorado tanto, em tão pouco tempo.

E não era apenas a dor de ver desaparecer para sempre uma pessoa por quem sentia amor, afeição, um apego incrível; era também a necessidade de aliviar o coração por dores antigas que, sem dúvida, ainda não haviam sido devidamente choradas.

O carro logo desapareceu, e de Mauricia não restou senão uma lembrança ainda fresca, mas que secaria rapidamente. Dez minutos depois de o corpo sair, Severiana entrou com os olhos inchados e abriu todas as portas, janelas e varandas para arejar a casa. A comandanta começava a preparar os utensílios de limpeza e a retirar os móveis para varrer à vontade.

— Pobre Mauricia! — disse Fortunata a Guillermina, enxugando o pranto às pressas, pois não lhe parecia bem ser ela quem mais chorava. — Veja, senhora, acontecia-me uma coisa estranha com aquela mulher. Sabendo que era muito má, eu gostava dela... ela me era simpática, não podia evitar. E, quando me contava as barbaridades que fez na vida, eu não sei... alegrava-me de ouvi-la... e, quando me aconselhava coisas más, parecia-me, cá comigo, que não eram tão más e que ela tinha razão em aconselhá-las. Como a senhora explica isso?

— Eu?... Que eu lhe explique?... — respondeu a fundadora com certo aturdimento. — Há no coração mistérios muito grandes e, no que diz respeito à simpatia, mistérios dos mistérios... Pobre mulher! E, se a senhora a tivesse visto, como era bonita quando moça. Criou-se na casa de meus pais. Que pena de menina! Seu perfil elegante, o olhar, a expressão, eram coisa rara. Depois se perdeu, e o rosto tornou-se duro e masculino, a voz rouca. Dizem que era o retrato vivo de Bonaparte, e de fato...

Guillermina olhou as gravuras napoleônicas, e Fortunata também, reconhecendo a semelhança. Depois a santa se despediu de Severiana, dizendo-lhe que voltaria no dia seguinte. Recomendou-lhe paciência e, tomando o braço da senhora de Rubin, partiu com ela. Severiana e a comandanta acompanharam-nas até o vestíbulo.

— Temos muito o que conversar — disse-lhe Guillermina na rua —, mas muito. O de hoje não passou de tocar de leve no assunto. Não me satisfez em nada. E a senhora terá mais um pouco de paciência para me aguentar? Porque, se ainda não ficou farta de mim, vou pedir que me conceda outra audiência. Será tão boa a ponto de querer ter comigo mais algum tempo de conversa?

— Todo o tempo que a senhora quiser — respondeu a senhora de Rubin, encantada com a indulgência e a cortesia da ilustre dama.

— Muito bem; combinaremos quando e como. Vai para casa? Pois iremos juntas, porque preciso ir à rua de Zurita dar uma reprimenda em meu ferreiro, e não lhe fará mal algum acompanhar-me um pouco. Resolvo depressa e deixarei a senhora à porta de casa.

Aceita com enorme agrado a proposta, caminharam juntas pelo caminho tortuoso e irregular que separa a vertente da Arganzuela do barranco de Lavapiés. Falavam de coisas que nada tinham de espirituais, de como tudo estava ficando caro... A carne sem osso, quem diria!, a uma peseta; o leite, a dez quartos; o pão de pontas, a dezesseis; e nem se falasse das casas: um quarto que antes custava oito reales já não se encontrava por catorze. Chegaram enfim à rua de Zurita e entraram numa ferraria grande e negra, com o chão coberto de carvão, toda cheia de fumaça e ruído. O dono do estabelecimento avançou para receber a senhora, com o avental de couro enegrecido, o rosto suado e tisnado, e, tirando o barrete, apresentou-lhe desculpas por não haver entregado os pregos bellotes.

— Mas e os tirantes, que são o que mais falta faz? — disse a dama, irritando-se. — Homem de Deus, o senhor vai se condenar por tantas mentiras que conta. Não me prometeu que estariam prontos ontem? Que palavra é essa? Ora, nem Jó teria paciência para aguentá-lo. Os carpinteiros da armação estão parados por causa dessa santa pachorra. Não admira que o senhor esteja tão gordo, senhor Pepe... E ponha o barrete, porque está suado e pode resfriar-se.

O ferreiro desculpava-se com voz balbuciante e por fim jurou entregar os tirantes na quinta-feira, sim, na quinta-feira, com toda a certeza... Tivera uma encomenda muito urgente... mas logo começaria os tirantes da senhora e os teria, os teria por cima da cabeça de Cristo no dia marcado. A fundadora tornou a pregar-lhe um sermão, pois não se contentava com promessas, e despediu-se dizendo que, se não estivessem prontos na quinta-feira, ele podia ficar com eles. O senhor Pepe saiu fazendo reverências até o meio da rua, e as duas senhoras subiram devagar em direção à rua del Ave-María.

— Muito bem — disse Guillermina —, antes de nos separarmos, combinaremos alguma coisa. Quer ir à minha casa? Sabe onde moro?

Fortunata disse que sim. Santa Cruz lhe dissera várias vezes que a rata eclesiástica morava na casa vizinha à sua e que ela e Barbarita comunicavam-se pelas galerias envidraçadas. Para marcar o dia, precisou pensar, porque não queria contar a Dona Lupe sobre aquela visita, temerosa de que ela metesse a colher, e concluiu que era preciso escolher um dia em que a dos Perus fosse ao Monte de Piedad.

— Sexta-feira... parece-lhe bem?, das dez às onze da manhã.

— Perfeitamente... Adeus, filha, cuide-se.

Já estavam diante da porta da casa.

— Fico esperando. Não me dê um bolo.

— Qual nada!... Era só o que faltava.

Fortunata ficou algum tempo à porta, olhando-a subir a rua, e depois entrou devagar, pensativa. Durante todo o resto do dia não conseguiu tirá-la da cabeça. Que mulher extraordinária! Sentia-a dentro de si, como se a tivesse engolido, como se a tivesse recebido em comunhão. Os olhares e a voz da santa agarravam-se a seu interior como substâncias perfeitamente assimiladas. E à noite, quando Maxi adormeceu e ela se revirava na cama sem conseguir pegar no sono, veio-lhe à imaginação uma ideia que a fez estremecer. Via Guillermina com tanta clareza como se a tivesse diante de si; mas o estranho não era isso, e sim que também a achava parecida com Napoleão, como Mauricia, a Dura. E a voz?... A voz era inteiramente igual à da amiga falecida. Como podia ser, sendo as duas pessoas tão diferentes? Fosse como fosse, a simpatia misteriosa que Mauricia lhe inspirara passava agora para Guillermina. Como, então, podiam confundir-se aquela que se distinguira por suas vergonhosas maldades e a santa senhora que era admiração do mundo?

“Não sei como é isto”, raciocinava Fortunata, “mas não há dúvida de que se parecem. E a fala das duas soa igual para mim... Senhor, o que será isto!”

Quebrava a cabeça no torniquete da insônia para descobrir o sentido de tal fenômeno e chegou a imaginar que dos restos frios de Mauricia saía voando uma borboletinha, a qual se metia dentro da rata eclesiástica e a transformava... Coisa mais estranha! O mal extremo fundindo-se assim e revivendo no bem mais puro!... Mas não poderia ser que Mauricia, arrependida, bem confessada e absolvida, se tivesse transformado, ao morrer, numa criatura sã e pura, tão pura quanto a própria santa fundadora... ou mais, ou mais?

“Que confusão, meu Deus! E não haver ninguém que explique essas coisas à gente...”

Depois causava-lhe pavor a visão imaginária dos pés de Mauricia... Na escuridão, sulcada por faixas luminosas, via as botas elegantes e pequenas da morta... Os pés moviam-se, o corpo levantava-se, dava alguns passos, ia até ela e dizia:

— Fortunata, querida amiga de minha alma, não me reconheces? Ai...! Não morri, menina, estou no mundo, acredita porque sou eu que te digo. Sou Guillermina, Dona Guillermina, a rata eclesiástica. Olha bem para mim, olha meu rosto, meus pés... minhas mãos, o xale negro... Estou louca com este asilo pasteleiro, e não faço senão pedir, pedir, pedir ao Verbo e à Verba. Senhor Pepe, vai fazer esses tirantes ou não?... Que se transformassem em pentes!

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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