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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 21 · Fortunata e Jacinta

Parte 3 — Capítulo III: A revolução vencida

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Parte 3 — Capítulo III: A revolução vencida

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Quem soubesse ou pudesse afastar a vistosa ramagem de ideias mais ou menos contrafeitas e de palavras reluzentes que o senhorito de Santa Cruz pôs diante dos olhos da mulher naquela noite encontraria a seca nudez de seu pensamento e de seu desejo, os quais não eram outra coisa senão um profundíssimo fastio de Fortunata e a vontade de perdê-la de vista o mais depressa possível. Por que se deseja o que não se tem e se despreza o que se tem? Quando ela saiu do convento com coroa de honrada para casar-se; quando levava misturados no peito os lírios da purificação religiosa e as flores de laranjeira das bodas, parecia ao Delfim digna e brilhante façanha arrancá-la daquela vida. Fê-lo com êxito superior às esperanças, mas sua conquista lhe impunha a obrigação de sustentar indefinidamente a vítima, e isso, passado certo tempo, ia se tornando enfadonho, insosso e caro. Sem variedade, ele era homem perdido; estava em sua natureza e não podia remediar. Era preciso mudar de forma de Governo de tempos em tempos e, quando estava em república, a monarquia lhe parecia tão sedutora!... Ao sair de casa naquela tarde, ia pensando nisso. Sua mulher começava a agradar-lhe mais, muito mais que aquela situação revolucionária que implantara, pisoteando os direitos de dois casamentos.

“Quem duvida”, continuava pensando, “de que é prudente evitar o escândalo? Não posso parecer-me com este, aquele e o outro, que vivem na anarquia, apontados por todo mundo. Há outra razão: ela está se tornando antipática para mim, como da outra vez. A pobrezinha não aprende, não avança um só passo na arte de agradar; não tem instintos de sedução, desconhece as manhas felinas que encantam. Nasceu para fazer a felicidade de um estimável pedreiro e não vê nada além do próprio nariz bonito. Pois não lhe deu agora para fazer-me camisas? Ficariam belas!... Fala com sinceridade, mas sem graça nem esprit. Como é diferente de Sofía la Ferrolana, que, quando Pepito Trastamara a trouxe da primeira viagem a Paris, era uma verdadeira Dubarry espanholizada! Para todas as artes são necessárias faculdades de assimilação, e essa grandalhona sonsa que me caiu em sorte é sempre igual a si mesma. Basta dizer que há dias lhe deu para passar toda a tarde rezando... e para quê?... para pedir filhos a Deus...

“Só ao Demônio ocorre semelhante coisa!... Enfim, já não posso mais, e hoje mesmo acaba esta irregularidade. Abaixo a república!”

Pensando desse modo, chegara à casa da amante e, no momento de pôr a mão no puxador, um fato estranho cortou bruscamente o fio de suas ideias. Antes que chamasse, abriu-se a porta, dando passagem a um senhor de idade, de muito boa aparência, que saiu cumprimentando Santa Cruz com cortês inclinação de cabeça. A própria Fortunata abrira-lhe a porta e o despedia.

Juan entrou. A saída daquele senhor produziu-lhe num instante dois sentimentos diferentes, que se sucederam com brevidade. O primeiro foi certo enojo; o segundo, satisfação por o acaso lhe proporcionar bom apoio para o rompimento que desejava... “Parece-me que conheço esse senhor tão distinto. Já o vi, já o vi em alguma parte”, pensava, entrando em direção à sala. “Será que temos intriga?... Ficaria bonito. Mas é melhor assim.”

E em voz alta e de mau modo perguntou a Fortunata:

— Quem é esse velho?

— Pensei que você o conhecesse. D. Evaristo Feijoo, coronel ou não sei quê da milícia... É grande amigo de Juan Pablo.

— E quem é Juan Pablo? Veja só os conhecimentos que quer pendurar em mim!...

— Meu cunhado.

— E quando conheci seu cunhado, ou que me importa?... Estamos bem. E que vinha fazer aqui esse senhor... Feijoo, disse? Parece-me que é amigo de Villalonga.

— Veio me visitar, e esta é a terceira vez... É um senhor muito bom e muito fino. O que pensa, que vem me fazer a corte? Como é bobinho! Mas, em resumo, se acha que não devo recebê-lo, não receberei mais. E aqui paz...

— Não, não; receba-o quanto quiser — disse ele, variando de tática com a rapidez do gênio. — Se, como diz, é pessoa séria, poderia ser conveniente cultivar sua amizade.

Fortunata não compreendeu bem, e ele se envalentonou com o silêncio dela.

— Porque, filha minha, devo dizer-lhe que não podemos continuar assim.

Pensava o grande velhaco que o melhor era cortar pela raiz, propondo a questão desde o primeiro momento com limpeza e clareza.

A saleta em que estava tinha esse luxo improvisado que substitui o verdadeiro ali onde o concubinato elegante ainda vive em condições de timidez e mais como ensaio. Havia móveis forrados de seda e belas cortinas; mas os primeiros eram feiosos, de amaranto combinado com verde-limão; as cortinas estavam tortas, os sanefões mal colocados, o tapete não combinava; e as jardineiras de bazar, com begônias de pano, cambaleavam. O relógio do console nunca soubera o que era dar a hora. Era dourado, com figuras parecidas com pastores, fazendo conjunto com candelabros encerrados em redomas de vidro. Havia pequenas estampas compradas em mercados de ocasião, com molduras de cruzetas, e outras mil porcarias com pretensões de luxo e riqueza, tudo anterior à transformação do gosto verificada nos últimos dez anos. Santa Cruz olhava aquela sala com certo orgulho, vendo nela como que testemunho de sua largueza; mas ao mesmo tempo costumava ridicularizar Fortunata por seu mau gosto. Certamente, para vestir-se, ela tinha instintos de elegância; mas em móveis e decoração de casa errava grosseiramente. Em suma, podia ter todas as qualidades que quisesse; o que não tinha era chic.

Sentado no sofá e com o chapéu posto, Juan contemplou naquele dia tudo quanto havia ali, deleitando-se com a ideia de que o olhava pela última vez. Fortunata estava de pé diante dele e depois se sentou num tamborete, fixando os olhos no amante, como à espera de alguma coisa muito grave que esperava ouvi-lo dizer.

“Se essa paspalhona”, pensou Santa Cruz olhando-a também, “visse com que graça Sofía la Ferrolana se senta num pufe, teria muito que aprender. Esta, nem a pauladas aprenderá jamais aquelas branduras de gata, aqueles arqueamentos de corpo aderente e sutil que acaricia o assento. Ah, que animais Deus nos fez!...”

E em voz alta:

— Diga-me, por que não vestiu a bata de seda, como mandei?

— Que coisas você tem!... Não quero estragá-la.

— Isso mesmo — disse o outro, rindo sem delicadeza —, guarde-a para os dias de festa. É assim que gosto da gente, bem-arrumadinha... E quando venho aqui, veste a batinha de lã, que uns dias fede a canela e outros a petróleo...

— Mentira — respondeu Fortunata, cheirando o próprio vestido. — Está bem limpa. Por que diz o que não é?

— Não, dentro de casa você segue o princípio do já enganei. Isso; fique bem ordinária e tão afetada quanto puder.

— Ora, que graça!... Hoje não vesti a bata de seda porque passei toda a manhã na cozinha.

— Fazendo o quê?

— Escabeche de besugo.

— Muito bem; gosto disso. Formiguinha para quando vierem os maus tempos — disse o Delfim com benévola ironia. — Pois, filha, hoje tenho de falar-lhe com clareza. Amo-a demais para andar com mistérios. Você é razoável, compreende as coisas e compreenderá que tenho razão no que vou dizer.

Essa linguagem desconcertou Fortunata, porque lhe recordava a usada da outra vez para dispensá-la. Mas ele julgou oportuno mostrar-se carinhoso e fez com que se sentasse a seu lado para passar-lhe a mão no rosto e fazer-lhe algumas lisonjas dessas que se empregam com as crianças quando se quer fazê-las tomar remédio.

— Venha cá e não se assuste. Não quero senão seu bem. Não dirá que não fiz por você tudo quanto estava em minhas mãos. Por mim, você sabe, continuaríamos da mesma maneira; mas minha mulher soube... ontem à noite tivemos uma briga espantosa, mas espantosa mesmo, menina; não pode imaginar como ficou. Desmaiou; tivemos de chamar o médico. O pior foi que meus pais também souberam do motivo e... um grito por aqui, outro por ali; meu pai furioso... entre todos queriam me devorar.

Fortunata estava tão absorta e aterrada que não podia pronunciar palavra alguma.

— Já lhe disse que suporto tudo, menos dar um desgosto a meus pais. Assim, ontem à noite enfrentei a mim mesmo e disse: “Ainda que eu morra de tristeza, isto tem de acabar.” Sei que me custará uma doença. O golpe será duro. Não se arranca fibra tão sensível sem que doa muito. Mas é preciso, e para esses casos servem os caracteres...

Enquanto ela começava a choramingar, Juan dizia consigo: “Agora vem a lagrimazinha. É infalível. Preparemo-nos.”

— Tonta, não chore, não se aflija — acrescentou, beijando-a. — Veja que eu estou com a alma por um fio, e, se a vir fraquejar, sou homem perdido.

Procurava mostrar-se a dois dedos de romper em pranto e punha rosto muito triste.

— Não pense... — balbuciou ela entre soluços. — Eu já via você chegando. Há dias está tramando isso... Muito bem, acabamos.

— Não, eu a amarei sempre, nena negra. Só que não posso mais visitá-la. Alguma vez... não digo que não... Mas assim, com este modo de viver... impossível. Madri, que parece grande, é muito pequena; é uma aldeia. Aqui tudo se torna público e, afinal, não há outro remédio senão baixar a cabeça. Sou casado, você também; estamos pisoteando todas as leis divinas e humanas. Se houvesse muitos como nós, logo a sociedade seria pior que um presídio, um verdadeiro inferno solto. Nunca pensou nisso?

O que Fortunata pensara era que o amor salva todas as irregularidades, ou melhor, que o amor torna tudo regular, que retifica as leis, revogando as que se lhe opõem. Dissera-o várias vezes ao amante, exprimindo-se de modo rude; mas naquele transe parecia-lhe ridículo voltar àquela ideia, verdadeira ou falsa, do amor, porque em seu bom instinto compreendia que toda aquela folhagem de leis divinas, princípios, consciência e o mais servia para ocultar o vazio deixado pelo amor fugitivo. Mas ela jamais o seguiria ao terreno da controvérsia, porque não sabia mover-se entre tanta palavra fina.

— Meu coração já me dizia — exclamava, apertando o lenço contra os olhos.

— Não se pode fugir aos princípios — prosseguiu ele. — As conveniências sociais, minha nena, são mais fortes que nós, e não se pode rir delas por muito tempo, porque de repente vem a paulada e é preciso baixar a cabeça. Eu queria que você se compenetrasse bem disso... Nunca lhe disse nada; mas às vezes, aqui mesmo, senti minha consciência tão alvoroçada que...

Fortunata olhou-o de modo que o fez calar... “Agora, depois de tudo!”, queria dizer aquele olhar. “Depois de cometermos todos os crimes, saímos agora com escrúpulos... E eu pago a falta dos dois...”

— Bem merecido tenho — declarou num arranco de dor combinado com raiva —, porque ambos fomos maus; mas eu fui pior que você... deixo todas pequeninas... Deus, o que eu fiz! Portar-me como me portei com aquela família! Você me dizia que não era nada quando eu ficava triste... pensando no que fizera, sim, e ria... ria.

— Sim... mas...

— Repito que ria... mas como!, às gargalhadas, chamando-me simplória e sei lá o quê... Muito bem, muito bem; já falamos bastante... Você vai, pois muito santo e muito bom. Sentirei; calcule se sentirei... mas irei me consolando. Não há mal que dure cem anos. Ar, ar!

Enxugava rapidamente as lágrimas, fingindo uma força que não tinha.

— Vamos nos separar como amigos — disse Santa Cruz, tomando-lhe uma mão, que ela retirou prontamente —, e vou embora dando-lhe um bom conselho.

— Qual? — perguntou ela, mais irada que dolorida.

— Que se una... que procure unir-se outra vez a seu marido.

— Eu!... — exclamou a senhora de Rubín com indizível terror. — Depois de...!

— Você se acalmará, filha. O tempo! Sabe os milagres que esse senhor faz? Você mesma disse: não há mal que dure cem anos, e quando se tocam de perto os grandes inconvenientes de viver longe da lei, não há outro remédio senão voltar a ela. Agora lhe parece impossível; mas voltará. É o natural, é o fácil, o fácil... Costumamos dizer: “Tal coisa nunca chega.” E, no entanto, chega, e mal nos surpreende pela suavidade com que veio.

A jovem levantou-se como disparada e meteu-se no gabinete. Estava como louca. Juan seguiu-a, temendo que lhe sobreviesse um acesso de desespero. Encontraram-se ambos à porta da alcova. Ele entrava, ela saía.

— Sabe o que lhe digo?... — gritou Fortunata com a voz rouca de despeito e dor. — Que já está sobrando aqui.

— Mas não se irrite...

— Fora, fora! — gritava ela, empurrando-o com rude energia.

Santa Cruz reconheceu aquela força quase superior à sua e não tinha grande empenho em opor-se. Por formalidade, fingiu que os braços tentavam dominar os da amante. Ela pôde mais e fechou violentamente a porta da alcova. O Delfim bateu nos vidros, dizendo:

— Não há motivo para tamanho barulho... Nena, nena negra, abra... Tenha calma e não se sufoque... Ora, você é sempre assim...

Mas de dentro da alcova não vinha resposta alguma, nem sequer uma voz. Juan aplicou o ouvido, julgando ouvir soluços... gemidos abafados. Logo compreendeu que não podia desejar ocasião melhor para plantar-se rapidamente na rua e dar por terminado o aborrecido trâmite do rompimento.

“Mas ainda me falta a última parte”, pensou, levando a mão à carteira. “Não posso abandoná-la assim...” Depois de meditar um pouco, tornou a guardar a carteira e disse consigo: “Melhor será ir embora... Mandarei isso numa carta... Adeus. Jacinta não poderá dizer que...”

Saiu na ponta dos pés, como se sai da casa em que há um enfermo grave.

ii

No restante daquele dia funesto, nem é preciso dizer que a pobre senhora de Rubín se entregou às maiores extravagâncias, pois sem dúvida merecem esse nome atos como recusar-se a comer, passar três horas seguidas chorando de soluçar e fungar, acender a luz quando ainda era dia claro, apagá-la depois que anoiteceu pelo gosto de ficar no escuro, e dizer em voz alta mil disparates, como se estivesse delirando. A criada tentou acalmá-la, mas os consolos verbais apenas a irritavam mais. Por volta das nove, a aflita ergueu-se resolutamente do sofá em que se havia atirado e, às apalpadelas, porque o gabinete estava escuríssimo, procurou o xale.

— Eles vão ver, eles vão ver — murmurava em sua agitação epiléptica.

Também às apalpadelas buscou as botas e calçou-as. Lenço na cabeça, xale bem apertado sobre os ombros, e rua... Saiu com rapidez e determinação, como quem sabe aonde vai e obedece a um desses formidáveis impulsos em linha reta que conduzem a toda ação decisiva. Nem deu tempo para que Dorotea a detivesse, pois, quando esta a viu, Fortunata já abria a porta e saía como uma flecha.

Eram nove horas da noite. Fortunata atravessou a passos ligeiros a calle de Hortaleza e a Red de San Luis. Não devia estar tão transtornada assim, pois, em vez de tomar pela calle de la Montera, onde a multidão dificultava a passagem, procurou a calle de la Salud e desceu por ela, calculando que por esse caminho ganharia dez minutos. Da calle del Carmen passou à de Preciados, sem perder por um instante o instinto do caminho mais transitável. Atravessou a Puerta del Sol diante da casa de Cordero, e já a temos subindo pela calle de Correos em direção à plazuela de Pontejos. Aproximava-se do destino e, à medida que via mais perto o objetivo da viagem, parecia esgotar-se a corda epiléptica que a impelia naquela marcha febril. Avistou o portal da casa dos Santa Cruz, e seus olhos penetraram receosos naquela cavidade larga, de paredes estucadas, iluminada por bicos de gás. Vê-lo e estacar, com certo frio na alma, sentindo o choque interior de toda velocidade bruscamente refreada, foi uma coisa só.

Ver o portal foi para a infeliz como, para o pássaro que voa cego e disparado, chocar-se violentamente contra um muro. Os que agem sob o domínio de impulsos cerebrais irresistíveis e mecânicos, semelhantes aos instintos ligados à conservação, avançam muito bem enquanto não veem o fim senão na falsa imagem que dele lhes oferece o desejo; mas, quando a realidade desse fim se apresenta diante deles, oferecendo-se como ação submetida às leis gerais, não há velocidade que não sofra seu recuo. Qual era o intento de Fortunata, e o que ia fazer ali? Coisinha de nada!... Simplesmente entrar na casa sem pedir licença a ninguém, bater, irromper sem cerimônia, dando gritos e atropelando todos os que encontrasse, chegar até Jacinta, agarrá-la pelo coque e... Isto de agarrá-la pelo coque não se definira bem em sua vontade; mas com certeza lhe diria mil coisas amargas e violentas. Assim pensara quando lhe veio o desatino de sair de casa e correr até a plazuela de Pontejos. E, ao descer pela calle de la Salud, ia pensando:

“Não há de ficar nada, nada, dentro de mim. É ela quem me faz desgraçada, roubando-me meu marido... Porque ele é meu marido: eu tive um filho dele, e ela não... Vamos ver, quem tem mais direito? Entranhas por entranhas, quais valem mais?”

Esses enormes disparates, nascidos da perturbação que reinava em seu cérebro, persistiam enquanto ela permanecia parada e atônita diante do portal dos Santa Cruz.

“Pois não sei por que não entro e faço o escândalo que devo fazer...”

Mas continha-a certo respeito que não sabia explicar. Afastou-se e, da calçada em frente, olhou para a casa, dizendo consigo:

“Deve haver luz no gabinete de Jacinta, onde estarão reunidos.”

Não viu, porém, coisa alguma. Tudo fechado; tudo às escuras...

“Talvez tenham saído...! Não; estão aí zombando de mim, rindo da trapaça que me fizeram... Todos são bons: tais filhos, tais pais!”

Tornou a sentir o desejo insensato de entrar na casa e deu três ou quatro passos em sua direção; mas recuou pela segunda vez.

“Vamos ver quem sai.”

Era um velho que parou no portal e ficou de conversa com Deogracias. A jovem reconheceu Estupiñá, que fora seu vizinho quando ela morava na Cava, onde tiveram princípio suas intermináveis desgraças. Plácido envolveu-se na capa e tomou o rumo da calle del Vicario Viejo. Fortunata acompanhou-o com os olhos até vê-lo desaparecer e, pouco depois, voltou à espreita. Quem saía agora? Um cavalheiro de botinas brancas que parecia estrangeiro. Passou junto dela, olhou-a e quase se deteve um instante para vê-la melhor; depois seguiu caminho. Outras pessoas saíam ou entravam. Embora se condensasse no pensamento de Fortunata a impossibilidade de entrar, ela continuava ali plantada, sem saber por quê. Não conseguia partir, embora fosse compreendendo que a ideia que a levara àquele lugar era uma loucura, dessas que se cometem em sonhos. Um dos muitos delírios que se sucederam em sua mente foi imaginar que este ou aquele homem que vira sair era amante de Jacinta.

“Porque não me venham dizer que ela é virtuosa... Belas mentiras espalha a gente. Não se pode acreditar em nada. Virtuosa? Tem graça... Nenhuma dessas casadas ricas é nem pode ser virtuosa. Só nós, mulheres do povo, temos virtude quando não nos enganam. Eu, por exemplo... eu, para dar um exemplo.”

Veio-lhe um riso convulsivo.

“E de que está rindo, sua paspalhona? — disse a si mesma. — Você é mais honrada que o sol, porque não quis nem quer senão um homem. Mas estas... estas?... Ha, ha, ha! A cada trimestre, homem novo, e ainda se dizem virtuosas. Por quê? Porque não dão escândalo, e umas encobrem tudo das outras. Ah, senhora Dona Jacinta, guarde seus méritos para quem acreditar neles; a senhora cairá... tem de cair, se é que já não caiu.”

De repente, viu um coche aproximar-se do portal. Trazia gente ou vinha buscá-la? Vinha buscar, porque ninguém desceu; o lacaio entrou na casa e Deogracias pôs-se a conversar com o cocheiro.

“Vão sair — disse a infeliz, sentindo de novo os impulsos ardentes que a haviam arrancado de casa. — Agora é que não me escapam... Atiro-me sobre elas e afronto as duas... tal sogra, tal nora... belas peças as duas!... Como demoram! Minha cabeça está em brasa e parece que me transformo inteira em unhas...”

As senhoras saíram. Fortunata viu primeiro uma de cabelos brancos, depois Jacinta, depois uma mocinha que devia ser irmã dela...; viu veludo, peles brancas, sedas, joias, tudo rapidamente e como por magia. As três entraram no coche, e o lacaio fechou a portinhola. Mas que coisa! Bastou ver as três damas para que Fortunata fosse tomada de um medo terrível. E ela, que pensava cravar-lhes as pontas dos dedos como ganchos de aço! O que sentiu foi antes terror, como o causado por um perigo súbito e horrendo; e tão impotente ficou sua vontade diante daquele pânico que começou a correr e afastou-se às pressas, sem sequer atrever-se a olhar para trás. Ouviu o ruído do coche descendo a rua e ainda o viu passar diante dela numa curva tão rápida que por pouco não a atropelou.

— Eh!... — gritou o cocheiro.

A senhora de Rubín soltou um grito e saltou para trás... Que susto, mas que susto, Senhor!... Continuou em direção à Puerta del Sol, dando-se conta daquele medo intensíssimo que sentira e perguntando a si mesma se nele havia também alguma vergonha. Não lhe era fácil discernir se seu espanto se parecia ao do cristão exaltado que vê o demônio ou ao deste quando lhe apresentam uma cruz.

Deixando-se levar pelos próprios passos, encontrou-se, sem saber como, no centro da Puerta del Sol. Inconscientemente sentou-se na borda da fonte e ficou olhando a espuma da água. Um agente da Ordem Pública fitou-a com ar desconfiado; ela, porém, não fez caso e permaneceu ali por longo tempo, vendo bondes e coches passarem em volta como se estivesse no eixo de um carrossel. O frio e a impressão de umidade obrigaram-na a sair dali; afastou-se, envolvendo-se bem no xale e cobrindo a boca. Quase não se lhe viam senão os olhos, e, como eram tão bonitos, muitos homens se aproximavam e pediam licença para acompanhá-la, dirigindo-lhe mil pilhérias. Lembrou-se então de outros tempos infelizes, e a ideia de ter de voltar a eles causou-lhe dor vivíssima, limpando-lhe a cabeça das quimeras que nela se haviam instalado. O sentimento da realidade recuperava pouco a pouco seu domínio. Mas a realidade lhe era odiosa, e Fortunata procurava conservar-se naquele estado delirante. Um dos indivíduos que a seguiram atreveu-se a detê-la formalmente, chamando-a pelo nome.

— Mas como vai escondidinha!... Fortunata.

Ela parou diante daquele que falara. Tentando lembrar quem poderia ser, ficou por um instante como parva, olhando para a pessoa à sua frente.

“Eu conheço este rosto — disse consigo. — Ah, é D. Evaristo.”

— Minha filha, como vai distraída...

— Vou para casa.

— Por aqui! — exclamou Feijoo, espantado. — Pois o caminho que a senhora está tomando leva ao Teatro Real.

— É que... — respondeu ela, olhando as casas — eu me enganei... Não sei o que está acontecendo comigo...

— Vamos por aqui; eu a acompanho — disse D. Evaristo com bondade. — Capellanes, Rompelanzas, Olivo, Ballesta, San Onofre, Hortaleza, Arco.

— Esse é o caminho; mas não duvide do que lhe digo...

— O quê, minha filha?

— Que sou honrada, que sempre fui.

Feijoo olhou para a amiga. Francamente, aqueles olhos tão bonitos sempre lhe haviam agradado muitíssimo; mas não lhe agradava nem um pouco a exaltação que neles notava naquela noite.

A abandonada tornou a cobrir a boca com o xale, e seu acompanhante não disse nada. Mas, como ela parasse de novo para repetir aquela afirmação sobre a honra, Feijoo, homem muito franco, não pôde deixar de dizer:

— Amiguinha, a senhora não está bem. Quero dizer, aconteceu-lhe alguma coisa muito grave. Confesse-a a mim, que sou amigo leal, e lhe darei bons conselhos.

— Mas o senhor duvida — disse Fortunata, apoiando-se na parede — de que eu tenha sido sempre...?

— Honrada? Como hei de duvidar disso, minha filha? Só faltava essa. O que duvido é que a senhora esteja com boa saúde. Está cansada, e creio que devemos tomar um coche... Eh, cocheiro!...

A senhora de Rubín deixou-se conduzir e entrou maquinalmente no coche de praça. Outras vezes fizera o mesmo com um qualquer encontrado na rua.

Feijoo falou-lhe dentro do coche com carinho paternal; ela, porém, não respondia de modo inteiramente coerente. De repente, fitou-o na escuridão do veículo e disse:

— E você, quem é?... Aonde me leva? Por quem me tomou? Não sabe que sou honrada?

— Ai, meu Deus! — murmurou o bom D. Evaristo com profundo desgosto. — Essa cabeça não está bem, nem pela metade...

Por fim chegaram, e os dois subiram. A criada abriu-lhes a porta.

— Agora — disse o simpático coronel reformado —, cama. Quer que eu lhe mande um médico?

Sem responder, Fortunata entrou na alcova. Feijoo seguiu-a, aflitíssimo ao vê-la em estado tão lastimável. Depois, ele e a criada cochicharam.

— Rompimento... Aquele patife lhe deu o fora outra vez — dizia D. Evaristo. — Se for apenas isso, o baque passará.

Despediu-se até o dia seguinte, e a aflita deitou-se, dizendo à criada enquanto esta a ajudava a despir-se:

— Sou honrada e sempre fui. O quê?... Você duvida?

— Eu... não, senhorita; como haveria de duvidar? — respondeu a criada, virando o rosto para disfarçar um sorriso.

A infeliz senhora de Rubín adormeceu depressa; mas meia hora depois já estava desperta e muito excitada. Dorotea, que permanecera ao lado dela, ouviu-a cantar em voz baixa, com as mãos cruzadas, as cantigas místicas das Micaelas.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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