Universo da obra
Universo da obra
Pouco depois de deitar-se, Jacinta percebeu que o marido dormia profundamente. Observava-o, desperta, lançando um olhar obstinado de uma cama à outra. Pensou que ele falava durante o sono... mas não; era simplesmente um gemido sem articulação que costumava soltar quando dormia, talvez por causa de alguma postura ruim. Os pensamentos políticos nascidos das conversas daquela noite logo fugiram da mente de Jacinta. Que lhe importava haver República ou Monarquia, ou que dom Amadeo partisse ou ficasse? Importava-lhe muito mais a conduta daquele ingrato que dormia tão tranquilo a seu lado. Porque ela não tinha dúvida de que Juan andava um tanto distraído, e seus pais não podiam perceber isso pela simples razão de que nunca o viam tão de perto quanto a mulher. O pérfido guardava tão bem as aparências que nada fazia nem dizia em família que não revelasse conduta regular e corretíssima. Tratava a esposa com tamanho carinho que... ora, qualquer pessoa o tomaria por apaixonado. Somente ali, daquela porta para dentro, descobriam-se as travessuras; somente ela, baseando-se em dados negativos, podia destruir a auréola que o público e a família punham no glorioso Delfim. Sua mamãe dizia que ele era o marido-modelo. Belo tratante! E a esposa não podia contestar à sogra quando ela vinha com aquelas histórias... Com que cara lhe diria: «Pois não existe modelo nenhum, não, senhora, não existe modelo algum, e, se digo isso, é porque sei muito bem o que digo».
Pensando nisso, Jacinta passou parte daquela noite atando os fios, como ela dizia, para ver se dos fatos isolados conseguia extrair alguma afirmação. A verdade é que esses fatos não lançavam grande luz sobre aquilo que se queria demonstrar. Em tal dia e a tal hora, Juan saíra bruscamente, depois de ficar algum tempo muito pensativo, mas muito pensativo. Em tal dia e a tal hora, Juan recebera uma carta que o pusera de mau humor. Por mais que ela procurasse, não conseguira encontrá-la. Em tal dia e a tal hora, quando ela e Barbarita caminhavam pela Calle de Preciados, encontraram Juan, que vinha depressa e muito abstraído. Ao vê-las, ficou um pouco desconcertado; mas sabia dominar-se com rapidez. Nenhum desses dados provava coisa alguma; não havia dúvida, porém: o marido a estava enganando.
De vez em quando, tais cismas cessavam, porque Juan sabia arranjar-se de modo que a mulher não chegasse a acumular motivos suficientes para ficar descontente. Como a ferida sobre a qual se põe bálsamo fresco, a tristeza de Jacinta se acalmava. Mas os dias e as noites, sem que ela soubesse como, lentamente a levavam de volta à mesma situação dolorosa. E era muito singular; estava tão tranquila, sem pensar em semelhante coisa, e, por qualquer incidente, por uma palavra sem importância ou uma referência trivial, a ideia a assaltava como uma flecha lançada de longe por mão desconhecida e vinha cravar-se-lhe no cérebro. Jacinta era observadora, prudente e sagaz. Os gestos mais insignificantes do marido, as inflexões da voz, tudo ela observava com dissimulação, sorrindo quando estava mais atenta, escondendo a vigilância sob mil dengos, como os naturalistas escondem e disfarçam a lente com que examinam o trabalho das abelhas. Sabia fazer perguntas capciosas, verdadeiras armadilhas cobertas de folhagem. Mas o outro era bom para se deixar apanhar!
E para tudo o engenhoso culpado tinha palavras bonitas:
— A lua de mel perpétua é um contrassenso, é... até ridícula. O entusiasmo é um estado infantil, impróprio de pessoas normais. O marido pensa em seus negócios, a mulher nas coisas da casa, e um e outro tratam-se mais como amigos do que como amantes. Até os pombos, minha filha, até os pombos, quando passam de certa idade, fazem carinhos assim... de maneira sensata.
Jacinta ria disso, mas não aceitava tais arranjos. O mais engraçado era que ele se dava ares de homem ocupado. Belo patife! Se não tinha absolutamente nada que fazer além de passear e divertir-se... O pai trabalhara por toda a vida como um negro para garantir a feliz ociosidade do príncipe da casa... Enfim, fosse o que fosse, Jacinta propunha-se a nunca abandonar a atitude de humildade e discrição. Acreditava firmemente que Juan jamais daria escândalos e, não havendo escândalo, as coisas continuariam passando assim. Não existe vida sem seu pequeno verme, um parasita interior que a rói e vive à custa dela, e Jacinta tinha dois: os afastamentos do marido e o desconsolo de não ser mãe. Suportaria ambas as dores com paciência, contanto que nada mais grave surgisse.
Por respeito a si mesma, nunca falara disso com ninguém, nem com o próprio Delfim. Uma noite, porém, ele estava tão comunicativo, tão brincalhão, tão tratante, que a boca de Jacinta se encheu de sinceridade e, palavra após palavra, ela soltou tudo o que pensava:
— Você está me enganando, e não é de agora, é de muito tempo. Talvez pense que sou tola... O tolo é você.
A primeira resposta de Santa Cruz foi cair na risada. A mulher tapava-lhe a boca para que não fizesse barulho. Depois o grande tratante começou a elaborar suas explicações, revestindo-as de formas sedutoras. Mas como pareceram ocas a Jacinta, que, na dialética do coração, era mais mestra que ele por saber amar de verdade! Então foi a vez dela rir e reduzir a migalhas argumentos tão leves... O sono, um sono doce e comum aos dois, apanhou-os, e ambos adormeceram felizes... E vejam só o que são as coisas: Juan se emendou, ou ao menos pareceu emendar-se.
Santa Cruz possuía em altíssimo grau as artimanhas do artista da vida, que sabe dispor as coisas da melhor maneira possível para sistematizar e refinar suas felicidades. Tirava partido de tudo, distribuindo os prazeres e ajustando-os a essas misteriosas marés do apetite humano que, quando se acentuam, significam uma organização viciosa. No fundo da natureza humana há também, como na superfície social, uma sucessão de modas, períodos em que é de rigor mudar de apetites. Juan tinha suas temporadas. Em épocas periódicas e quase fixas, fartava-se de suas correrias, e então a esposa, tão graciosa e carinhosa, iludia-o como se fosse a mulher de outro. Assim, aquilo que é muito antigo e conhecido transforma-se em novidade. Um texto desprezado por ser sabido demais volta a interessar quando a memória começa a perdê-lo e a curiosidade é estimulada. Ajudava nisso o terníssimo amor que Jacinta lhe dedicava, pois ali, sim, não havia farsa, interesse vil nem cálculo. Era, portanto, para o Delfim uma felicidade verdadeira e quase nova voltar ao porto depois de mil tempestades. Parecia restaurar-se com um carinho tão puro, tão leal e tão seu, pois ninguém no mundo podia disputá-lo.
Em honra da verdade, deve-se dizer que Santa Cruz amava a mulher. Nem mesmo nos dias em que a maré da infidelidade estava mais viva deixou de haver para Jacinta um lugar de preferência naquele coração cheio de recantos e ruelas. A variedade de inclinações e caprichos tampouco excluía um sentimento imutável por sua companheira perante a lei e a religião. Conhecendo perfeitamente seu valor moral, admirava nela as virtudes que ele não tinha e que, segundo seu critério, também não lhe faziam muita falta. Por essa última razão, não incorria na humildade de declarar-se indigno de semelhante joia, pois seu amor-próprio seguia sempre à frente de tudo, e ele se julgava merecedor de todos os bens que desfrutava ou pudesse desfrutar neste mundo. Vicioso e discreto, sibarita e homem de talento, aspirando à erudição de todos os prazeres e dotado de gosto suficiente para espiritualizar as coisas materiais, não podia contentar-se em saborear a beleza comprada ou conquistada, a graça, o encanto, a extravagância; queria saborear também a virtude, não precisamente vencida, pois então deixa de ser virtude, mas a pura, que em sua própria pureza tinha para ele seu sabor picante.
Pelo que foi dito, já se terá compreendido que o Delfim era um homem inteiramente desocupado. Quando ele se casou, dom Baldomero propôs que pegasse alguns milhares e negociasse com eles, fosse jogando na Bolsa, fosse em qualquer outra especulação. O jovem aceitou, mas a experiência não o satisfez, e renunciou por completo a meter-se em negócios que trazem muitas incertezas e noites sem dormir. Dom Baldomero não conseguira livrar-se daquela preocupação tão espanhola de que os pais trabalhem para os filhos descansarem e gozarem. Aquele bom senhor deleitava-se com a ociosidade do filho como um artesão se deleita com a própria obra e tanto mais a admira quanto mais doloridas e fatigadas ficam as mãos com que a fez.
Convém dizer também que o jovem não era esbanjador. Gastava, sim, mas com pulso e medida, e seus prazeres deixavam de sê-lo quando começavam a exigir alguma dissipação. Era nesses casos que a virtude lhe mostrava seu rosto sereno e sedutor. Tinha certo respeito inato pelo bolso e, se podia comprar uma coisa por duas pesetas, certamente não era ele quem dava três. Em todas as ocasiões, desprender-se de uma quantia elevada sempre lhe custava algum esforço, ao contrário dos generosos que, quando dão, parecem livrar-se de uma carga. E, como conhecia tão bem o valor da moeda, sabia empregá-la na aquisição de seus prazeres de maneira prudente e quase mercantil. Ninguém sabia como ele extrair o sumo de uma cédula de cinco ou vinte duros. Da quantia com que qualquer mão-aberta obtinha um prazer, Juanito Santa Cruz sempre extraía dois.
Como financista habilidoso, sabia passar por generoso quando a ocasião exigia. Jamais fez loucuras e, se alguma vez seus apetites o levaram a certas ladeiras, soube agarrar-se a tempo para evitar o escorregão. Uma das mais puras satisfações dos senhores Santa Cruz era saber com certeza absoluta que o filho não tinha dívidas ocultas, como a maioria dos filhos de família nestes tempos depravados.
Dom Baldomero teria gostado um pouco que o Delfim desse a conhecer seus talentos excepcionais na política. Oh, se ele se lançasse, certamente se destacaria. Barbarita, porém, o desanimava.
— A política, a política! Não estamos vendo o que ela é? Uma comédia. Tudo se transforma em falatório e em não fazer coisa alguma de útil...
O que fazia dom Baldomero II cismar um pouco era o filho não possuir a firmeza de ideias que ele próprio tinha, pois em 73 pensava o mesmo que pensara em 45, isto é, que deve haver muita liberdade e muito cacete, que a liberdade combina muito bem com a religião e que convém perseguir e castigar todos os que entram na política para fazer tramoias.
Porque Juan era a própria inconsequência. Nos tempos de Prim, mostrou-se entusiasmado com a candidatura do duque de Montpensier.
— É o homem que convém, convençam-se, um homem que conhece de cor as contas de casa, um modelo de pai de família.
Veio dom Amadeo, e o Delfim tornou-se tão republicano que dava medo ouvi-lo.
— A Monarquia é impossível; é preciso convencer-se disso. Dizem que o país não está preparado para a República; então que o preparem. É como pretender que um homem saiba nadar sem decidir-se a entrar na água. Não há outro remédio senão engolir alguns tragos amargos... A desgraça ensina... e, se não, vejam a França, aquela prosperidade, aquela inteligência, aquele patriotismo... aquela maneira de pagar os cinco bilhões...
Pois bem, chegou o 11 de fevereiro e, a princípio, pareceu a Juan que tudo corria às mil maravilhas.
— É admirável. A Europa está atônita. Digam o que quiserem, o povo espanhol tem grande senso.
Dois meses depois, porém, as ideias pessimistas já haviam conquistado inteiramente seu espírito.
— Isto é uma patifaria, isto é uma vergonha. Cada país tem o Governo que merece, e aqui só pode governar um homem que esteja sempre com um porrete na mão.
Por gradações lentas, Juanito chegou a defender calorosamente a ideia alfonsina.
— Pelo amor de Deus, meu filho — dizia dom Baldomero com inocência —, isso não pode acontecer.
E trazia à baila os «jamais» de Prim. Barbarita punha-se do lado do príncipe desterrado e, como o sentimento participa tanto do destino dos povos, todas as mulheres apoiavam o príncipe e o defendiam com argumentos tirados do coração. Jacinta deixava muito para trás as mais entusiasmadas por dom Alfonso.
— É uma criança!...
E não apresentava outra razão.
O herdeiro dos Santa Cruz considerava-se uma grande pessoa. Estava satisfeito como se houvesse criado a si mesmo e visto que era bom.
— Porque eu — dizia, esforçando-se para conciliar a verdade com a modéstia — não sou dos piores exemplares da humanidade. Reconheço que existem seres superiores a mim, por exemplo, minha mulher; mas quantos existem inferiores, quantos!
Seus atrativos físicos eram realmente grandes, e ele próprio o declarava em seus solilóquios íntimos:
— Como sou bonito! Minha mulher tem razão quando diz que não existe outro mais encantador. A pobrezinha me ama com delírio... e eu a ela do mesmo modo, como é justo. Tenho ótima figura, visto-me bem e, em maneiras e trato, parece-me... que somos alguma coisa.
Na casa não havia outra opinião além da dele; era o oráculo da família e cativava a todos não apenas pelo muito que o amavam e mimavam, mas pelo sortilégio da imaginação, pela bendita lábia e por seu modo de insinuar-se. A mais subjugada era Jacinta, que não se atreveria a sustentar diante da família que o branco é branco se o querido esposo afirmasse que é preto. Amava-o com verdadeira paixão, e nessa paixão não tinham pouca participação a boa figura dele e seus brilhos intelectuais. Quanto às perfeições morais que toda a família atribuía a Juan, Jacinta tinha suas dúvidas. Ora se tinha. Mas, vendo-se sozinha naquele terreno de incerteza, enchia-se de tristeza e dizia:
— Será que estou me queixando por vício? Será que sou, como dizem, a mais feliz das mulheres e ainda não percebi?
Com tais considerações, açoitava e mortificava a própria inquietação para aplacá-la, como os penitentes castigam a carne para submetê-la à obediência do espírito. Aquilo com que não se conformava era não ter crianças.
— Porque tudo pode ser suportado — dizia —, menos isso. Se eu tivesse um menino, me ocuparia muito com ele e não pensaria em certas coisas.
De tanto cismar nisso, sua mente padecia alucinações e delírios. Em algumas noites, no primeiro período do sono, sentia sobre o seio um contato quente e uma boca que o sugava. As lambidas despertavam-na sobressaltada e, com a tristíssima impressão de que tudo aquilo era mentira, ela soltava um «ai!», e o marido dizia da outra cama:
— O que foi, nenê?... Pesadelo?
— Sim, meu filho, um sonho muito ruim.
Mas ela não queria dizer a verdade, por temor de que Juan a tomasse por motivo de riso.
Os corredores da grande casa pareciam-lhe lúgubres apenas porque neles não ressoava o estrépito dos pezinhos infantis. Os quartos sem uso destinados às crianças, quando elas viessem, infundiam-lhe tamanha tristeza que, nos dias em que se sentia muito tocada pela mania, não passava por eles. Quando, à noite, via dom Baldomero entrar da rua, tão bondoso e jovial, sempre com seu rosto festivo, vestido de finíssimo pano preto, tão limpo e rosado, não podia deixar de pensar nos netos que aquele senhor devia ter para haver lógica no mundo e dizia consigo:
— Que avô estas crianças estão perdendo!
Certa noite, foi ao Teatro Real de muito má vontade. Passara todo o dia e a noite anterior na casa de Candelaria, cuja filha menor estava doente. Mal-humorada e sonolenta, desejava que a ópera terminasse logo; infelizmente, porém, a obra, por ser de Wagner, era muito longa, música excelente segundo Juan e todas as pessoas de gosto, mas que não lhe fazia graça alguma. Ela não a compreendia, ora. Para Jacinta não havia música além da italiana, e quanto mais clara e mais parecida com realejo, melhor. Pôs o mostruário na primeira fila e instalou-se na última cadeira, ao fundo. As três mocinhas, Barbarita II, Isabel e Andrea, estavam felicíssimas, sentindo-se atingidas pelas flechas de rapazes do paraíso e dos camarotes de assento. Também das poltronas vinha uma ou outra boa mirada de binóculo. Dona Bárbara não estava. Ao chegar o quarto ato, Jacinta sentiu tédio. Olhava muito para o camarote do marido e não o via. Onde estaria? Pensando nisso, fez uma reverência de respeito ao grande Wagner, inclinando suavemente a graciosa cabeça sobre o peito. A última coisa que ouviu foi um trecho descritivo em que a orquestra produzia um rumor semelhante ao das pequenas trombetas com que os mosquitos divertem o homem nas noites de verão. Embalada por essa música, a dama caiu num sono profundíssimo, um desses sonhos intensos e breves em que o cérebro finge a realidade com relevo e teatralidade admiráveis. A impressão deixada por esses letargos costuma ser mais profunda que a que nos fica de muitos fenômenos externos apreciados pelos sentidos.
Jacinta encontrava-se num lugar que era sua casa e não era sua casa... Tudo estava revestido de cetim branco com flores que, no dia anterior, ela e Barbarita haviam visto na casa Sobrino... Estava sentada num pufe, e um menino belíssimo subia-lhe pelos joelhos, primeiro agarrando-lhe o rosto, depois metendo a mão em seu peito.
— Tire, tire... isso é cocô... que nojo!... coisa feia, é para o gato...
O menino, porém, não se dava por vencido. Vestia apenas uma camisa de finíssima holanda, e suas carnes delicadas deslizavam sobre a seda do robe da mamãe. Era um robe azul-gendarme que, semanas antes, ela dera à irmã Candelaria.
— Não, não, isso não... tire... cocô...
E ele sempre insistindo, maçante, encantador. Queria desabotoar o robe e meter a mão. Depois começou a dar cabeçadas contra o seio. Vendo que nada conseguia, ficou sério, tão extraordinariamente sério que parecia um homem. Olhava-a com os grandes olhos vivos e úmidos, exprimindo neles e na boca todo o desconsolo que cabe na humanidade. Adão, expulso do paraíso, não olharia de outra maneira para o bem que perdia. Jacinta queria rir, mas não conseguia, porque o pequeno lhe cravava na alma o olhar inflamado. Passava muito tempo assim, o menino-homem olhando a mãe e derretendo lentamente a firmeza dela com o raio dos olhos. Jacinta sentia alguma coisa desprender-se em suas entranhas. Sem saber o que fazia, soltou um botão... Depois outro. O rosto do menino, porém, não perdia a seriedade. A mãe se alarmava e... fora o terceiro botão... Nada, o rosto e o olhar do nenê sempre severos, com uma gravidade bela que ia ficando terrível... O quarto botão, o quinto, todos os botões saíram das casas, fazendo o tecido gemer. Ela perdeu a conta dos botões que soltava. Foram cem, talvez mil... Nem assim... O rosto ia adquirindo imobilidade suspeita. Por fim, Jacinta meteu a mão no seio, tirou aquilo que o menino desejava e olhou para ele, certa de que se alegraria ao ver coisa tão rica e bonita... Nada; então tomou-lhe a cabeça, puxou-a para si e, quisesse ele ou não, meteu-lhe na boca... A boca, porém, era insensível, e os lábios não se moviam. O rosto inteiro parecia o de uma estátua. O contato que Jacinta sentiu em parte tão delicada da pele era o roçar arrepiante do gesso, o atrito de uma superfície áspera e empoeirada. O estremecimento provocado por aquele contato deixou-a atônita por algum tempo; depois abriu os olhos e percebeu que as irmãs estavam ali; viu os cortinados pintados da boca de cena, o público apertado nas laterais do paraíso. Demorou um pouco para entender onde estava e que disparates sonhara, e levou a mão ao peito num movimento de pudor e medo. Ouviu a orquestra, que continuava imitando os mosquitos, e, ao olhar para o camarote do marido, viu Federico Ruiz, o grande melômano, com a cabeça inclinada para trás e a boca entreaberta, ouvindo e saboreando com fruição imensa a música deliciosa dos violinos com surdina. Parecia que lhe caía dentro da boca um fio do mais fino e doce açúcar clarificado que se pudesse imaginar. O homem estava em puro êxtase. A dama viu outros melômanos furiosos no camarote; o quarto ato, porém, já terminara e Juan não aparecia.
Se tudo quanto acontece às pessoas superiores merecesse uma efeméride, é possível que, numa folha de calendário americano correspondente a dezembro de 73, se encontrasse este parágrafo: «Dia tal: forte resfriado de Juanito Santa Cruz. A impossibilidade de sair de casa deixa-o com um humor de duzentos mil diabos». Estava sentado junto à lareira, envolto da cintura para baixo numa manta que parecia pele de tigre, gorro enfiado até as orelhas, um jornal na mão e, na cadeira ao lado, três, quatro, muitos jornais. Jacinta zombava de sua escravidão forçada e ele, encontrando distração naquelas brincadeiras, fingiu bater nela, agarrou-a pelo braço, apertou-lhe o queixo com os dedos, sacudiu-lhe a cabeça, depois lhe deu bofetadas, terríveis bofetadas, e em seguida muitos socos em diferentes partes do corpo e grandes espetadas ou estocadas com o indicador muito esticado. Depois de costurá-la bem a punhaladas, cortou-lhe a cabeça, serrando-lhe o pescoço, e, como se tamanha crueldade ainda não bastasse, crivou-a de cócegas cruéis e desumanas, acompanhando os golpes com estas palavras ferozes:
— Como minha nenê ficou brincalhona!... Vou ensinar minha palhacinha a fazer gracinhas e vou dar-lhe uma bela surra para que perca a vontade de...
Jacinta desmontava de tanto rir, e o Delfim, falando com um pouco de seriedade, prosseguiu:
— Você sabe muito bem que não sou dado a andar na rua... Não pode se queixar. Conheço maridos que, quando põem o pé para fora, passam três dias seguidos sem aparecer em casa. Esses poderiam me tomar por modelo.
— Mariazinha, dê-se importância — replicou Jacinta, enxugando as lágrimas que o riso e as cócegas lhe haviam feito derramar. — Sei que existem outros piores, mas não ponho a mão no fogo para afirmar que você seja o número um.
Juan moveu a cabeça em sinal de ameaça. Jacinta afastou-se de seu alcance, caso as bárbaras cócegas recomeçassem.
— É que você exige demais — disse o marido, lamentando que a mulher não o considerasse o mais perfeito dos seres criados.
Jacinta fez um beicinho gracioso, franzindo as sobrancelhas e os lábios, o que queria dizer: «Não quero entrar em discussões com você, porque acabaria levando a pior». E era verdade, pois o Delfim fazia os malabarismos do raciocínio com muita habilidade.
— Muito bem — indicou ela. — Deixemos as tolices. O que você quer almoçar?
— Era justamente isso que eu vinha saber — disse dona Bárbara, aparecendo à porta. — Você almoçará o que quiser; mas informo, para seu governo, que trouxe umas calhandras deliciosas. Divindades, como diz Estupiñá.
— Tragam o que quiserem, que estou com mais fome que professor de escola.
Quando as duas damas saíram, Santa Cruz pensou um pouco na mulher, formulando mentalmente um panegírico. Que anjo! Ele ainda não terminara de cometer uma falta e ela já estava perdoando. Nos dias que precederam o resfriado, meu homem encontrava-se numa daquelas etapas ou marés de sua natureza inconstante que, afastando-o das aventuras, aproximavam-no da esposa. As pessoas mais habituadas à vida ilegal sentem às vezes vivo desejo de pôr-se sob a lei por algum tempo. A lei as tenta como pode tentar o capricho. Quando Juan se encontrava nessa situação, chegava até a desejar permanecer nela; mais ainda, chegava a acreditar que permaneceria. E a Delfina estava contente.
— Ganhei-o outra vez — pensava. — Se esta fase boa durasse!... Se eu pudesse conquistá-lo de uma vez por todas e derrotar em toda a linha as cantonais...!
Dom Baldomero entrou para ver o filho antes de passar à sala de jantar.
— O que é isso, rapaz? É o que digo: você não se agasalha. Que coisas têm você e Villalonga! Parar para conversar às dez da noite na esquina do Ministerio de la Gobernación, que é outra ponta do diamante! Eu vi você. Vinha com Cantero da Junta do Banco. Por sinal, estamos desnorteados. Não se sabe onde esta anarquia vai parar. As ações a cento e trinta e oito!... Entre, Aparisi... É Aparisi, que vem almoçar conosco.
O vereador entrou e cumprimentou os dois Santa Cruz.
— Que jornais você leu? — perguntou o papai, pondo os pincenês, que só usava para ler. — Pegue La Época e me dê El Imparcial... Muito bem, muito bem vai isto. Pobre Espanha! As ações a cento e trinta e oito... o consolidado a treze.
— Que treze?... Isso é o que o senhor gostaria — observou o eterno vereador. — Ontem à noite ofereciam a onze no Bolsín, e ninguém queria. Isto é o dilúvio.
E, acentuando de maneira notabilíssima aquela expressão de quem sente cheiro de coisa muito ruim, acrescentou que previra tudo quanto estava acontecendo e que os acontecimentos não divergiam nem um pouquinho daquilo que ele vinha profetizando dia após dia. Sem dar muita atenção ao amigo, dom Baldomero leu em voz alta a notícia ou refrão de todos os dias:
— «O bando tal entrou em tal aldeia, queimou o arquivo municipal, abasteceu-se e tornou a sair... A coluna tal perseguia ativamente o chefe tal e, depois de abastecer-se...»
— Muito bem — disse, sem terminar a leitura —, vamos nos abastecer também. O marquês não vem. Já não o esperamos mais.
Nesse momento entrou Blas, criado de Juan, com a mesinha já posta, na qual o enfermo almoçaria. Pouco depois apareceu Jacinta trazendo pratos. Depois de cumprimentá-la, Aparisi disse:
— Guillermina mandou-lhe um recado... Hoje não haverá odisseia filantrópica na paróquia do percevejo, porque ela anda procurando tijolo duro para os alicerces. Já terminou toda a escavação do prédio... e por pouco dinheiro. Algumas carroças trabalham por empreitada, outras de graça, aquele ajuda meio dia, o outro vai por duas horas, e o resultado é que o metro cúbico não lhe custa nem cinco reales. Não sei o que aquela mulher tem. Quando vai examinar as obras, parece que até as mulas das carroças a conhecem e puxam com mais força para agradá-la... Francamente, eu, que sempre pensei que o tal prédio não fosse factível, começo a perceber...
— Milagre, milagre — sugeriu dom Baldomero, a caminho da sala de jantar.
— E você? — perguntou Juan à esposa quando ficaram sozinhos. — Vai almoçar aqui ou lá?
— Quer que eu fique aqui? Almoçarei nos dois lugares. Sua mamãe diz que estou mimando você demais.
— Pegue, gulosa — disse ele, estendendo-lhe no garfo um pedaço de omelete.
Depois de comê-lo, a Delfina correu à sala de jantar. Pouco depois voltou rindo.
— Reservei para você este peito de calhandra. Pegue, abra a boquinha, nenê.
O nenê pegou o garfo e, depois de comer o peito, tornou a rir.
— Como o ambiente está alegre!
— É que o marquês chegou e, desde que se sentou à mesa, ele e Aparisi começaram a trocar tiros.
— O que disseram?
— Aparisi afirmou que a Monarquia não era factível, depois disparou um ipso facto e outras coisas muito finas.
Juan soltou uma gargalhada.
— O marquês deve estar furioso.
— Come em silêncio, meditando uma vingança. Contarei o que acontecer. Quer pescada, quer bife?
— Traga o que quiser, contanto que volte logo.
E não demorou a regressar, trazendo um prato de peixe.
— Meu filho, ele o matou.
— Quem?
— O marquês matou Aparisi... deixou-o estendido no chão.
— Conte, conte.
— Pois, de primeira, disparou contra o inimigo um delirium tremens à queima-roupa e depois, sem lhe dar tempo para respirar, um mane tegel fare. O outro ficou como que atordoado pelo golpe. Veremos com o que responde.
— Que maravilha! Tomaremos café juntos — disse Santa Cruz. — Volte logo para cá. Como está coradinha!
— É de tanto rir.
— Quando digo que você está me agradando...
— Volto num instante... Vou ver o que acontece por lá. Aparisi está indignado com Castelar e diz que aquilo que acontece a Salmerón é culpa de não ter seguido seus conselhos...
— Os conselhos de Aparisi!
— Sim, e o que deixa o marquês com o coração na mão é que a massa operária se levante.
Jacinta voltou à sala de jantar, e a última história que trouxe foi esta:
— Rapaz, se você estivesse lá morreria de rir. Pobre Muñoz! O outro se refez e está soltando cada preciosidade... Imagine. Agora está contando que viu um projétil dos que os carlistas disparam e o fuzil Berdan... Não diz buracos, diz orifícios. Tudo se transforma em orifícios, e o marquês já não sabe o que fazer...
Não pôde continuar, porque Muñoz entrou, fumando um grande charuto, para cumprimentar o enfermo.
— Olá, Juanín... Estamos exclaustrados?... E o que é?... Coriza? Isso é bom, e, quando a mucosa precisa eliminar, que elimine... Enfim, eu me...
Ia dizer «vou embora»; ao ver Aparisi entrar, porém, como acreditaram Jacinta e o marido, disse:
— Eu me ausento.
Por volta das três, marido e mulher estavam sozinhos no escritório, ele na poltrona lendo jornais, ela arrumando o aposento, que estava um pouco desordenado. Barbarita saíra para fazer compras. O criado anunciou um homem que queria falar com o jovem senhor.
— Você sabe que ele não recebe — disse a senhora e, tomando das mãos de Blas um cartão que ele trazia, leu: José Ido del Sagrario, corretor de publicações nacionais e estrangeiras.
— Que entre, que entre imediatamente — ordenou Santa Cruz, saltando na poltrona. — É o louco mais divertido que você pode imaginar. Verá como vamos rir... Quando nos cansarmos de ouvi-lo, mandamos embora. Que tipo extraordinário...! Vi-o há alguns dias na casa de Pez, e ele nos fez morrer de rir.
Pouco depois entrou no escritório um homem muito magro, de rosto doentio e todo cheio de lóbulos e carúnculas, cabelos avermelhados e muito eriçados, como cerdas de escovão, roupa pré-histórica e muito gasta, gravata vermelha e desfiada, as botas mortas de tanto rir. Numa das mãos trazia o chapéu, um claque do ano em que essa peça foi inventada, sem dúvida o primogênito de todos os claques, e na outra um maço de pastas-prospectos para fazer assinaturas de livros de luxo, tão manuseadas que a sujeira não permitia ver os dourados da encadernação. Aquela figura de miséria vestida de pessoa decente impressionou dolorosamente a compassiva Jacinta, que teve ainda mais pena quando o viu cumprimentar com urbanidade e sem acanhamento, como homem muito habituado ao trato social.
— Olá, senhor Ido... Que prazer vê-lo! — disse Santa Cruz com seriedade fingida. — Sente-se e diga-me o que o traz aqui.
— Com licença... O senhor quer Mulheres célebres?
Jacinta e o marido se entreolharam.
— Ou Mulheres da Bíblia — prosseguiu Ido, mostrando as pastas. — Como o senhor Santa Cruz me disse outro dia, na casa do senhor Pez, que desejava conhecer as publicações das casas de Barcelona que tenho a honra de representar... Ou quer Cortesãs célebres, Perseguições religiosas, Filhos do Trabalho, Grandes invenções, Deuses do Paganismo...?
— Basta, basta, não cite mais obras nem me mostre outras pastas. Já lhe disse que não gosto de livros por assinatura. As entregas se perdem e é de enlouquecer... Prefiro comprar alguma obra completa. Mas não tenha pressa. O senhor deve estar cansado de correr tanto por aí. Quer tomar uma dose?
— Muitíssimo obrigado. Nunca bebo.
— Não? Pois, outro dia, quando nos encontramos na casa de Joaquín, ele dizia que o senhor estava um pouco alto... isto é, um pouco alegre...
— Perdoe-me, senhor Santa Cruz — replicou Ido, envergonhado. — Eu não me embriago; nunca me embriaguei. Às vezes, sem saber como nem por quê, entra em mim certa excitação, e fico assim, nervoso e como que soltando faíscas... fico elétrico. Estão vendo?... já estou. Observe, senhor dom Juan, veja como se move minha pálpebra esquerda e este músculo da mandíbula do mesmo lado. Está vendo?... a função já começou. Francamente, assim não se pode viver. Os médicos dizem que eu coma carne. Como carne e fico pior. Pronto, já estou como uma mola de relógio... Com sua licença, retiro-me...
— Homem, não, descanse. Isso vai passar. Quer um copo de água?
Jacinta lamentou que ele não o deixasse partir, pois a ideia de aquele homem cair ali com um ataque inspirava-lhe repugnância e medo. Como Juan insistia no copo de água, disse à mulher em voz baixa:
— O que este infeliz tem é fome.
— Vejamos, senhor Ido — indicou a dama —, o senhor comeria uma costeletinha?
Dom José respondeu tacitamente, com a expressão de profunda incredulidade. Seu olhar parecia cada vez mais estranho, e mais acentuado o tremor da pálpebra e da face.
— Perdoe-me, senhora... Como minha cabeça foge, não consigo compreender coisa alguma. A senhora disse se eu comeria uma...
— Uma costeletinha.
— Minha cabeça não consegue avaliar bem... Sofro de esquecimento de nomes e coisas. A que a senhora chama costeleta? — acrescentou, levando a mão às cerdas eriçadas, por onde a memória lhe escapava e a eletricidade entrava. — Por acaso aquilo que a senhora chama... não sei como... é um pedaço de carne com um rabinho de osso?
— Exatamente. Chamarei alguém para trazê-la.
— Não se incomode, senhora. Eu chamarei.
— Que lhe tragam duas — disse o senhorzinho, saboreando a ideia de ver um faminto comer.
Jacinta saiu e, enquanto esteve fora, Ido falou de sua má sorte.
— Neste país, senhor dom Juanito, as letras não recebem proteção. Eu, que fui professor de ensino primário, eu, que escrevi obras de literatura amena, preciso correr com publicações para levar um pedaço de pão a meus filhos... Todos me dizem: se eu houvesse nascido na França, já teria um hotel...
— Isso é indubitável. O senhor não vê que aqui ninguém lê e os poucos que leem não têm dinheiro?...
— Naturalmente — dizia Ido a cada instante, lançando olhares ansiosos ao redor para ver se a costeleta aparecia.
Jacinta entrou com um prato na mão. Atrás dela veio Blas com a mesma mesinha em que o senhorzinho almoçara, talher, guardanapo, pãozinho, copo e garrafa de vinho. Ido olhou aquelas coisas com espanto faminto, mal disfarçado pela cortesia, e foi acometido por um riso nervoso, sinal de que se aproximava da plenitude daquele estado que chamava elétrico. A Delfina tornou a sentar-se ao lado do marido e olhava, entre assustada e compassiva, para o desgraçado dom José. Ele deixou no chão as pastas e o claque, que nunca fechava, e caiu sobre as costeletas como um tigre... Entre as mastigações saíam-lhe da boca palavras e frases desordenadas:
— Agradecidíssimo... Francamente, seria falta de educação recusar... Não é que eu tenha apetite, naturalmente... Almocei muito bem... mas como recusar? Agradecidíssimo...
— Observo uma coisa, querido dom José — disse Santa Cruz.
— O quê?
— O senhor não mastiga o que come.
— Oh! Interessa-lhe que eu mastigue?
— A mim, não.
— É que não tenho molares... Como como os perus. Naturalmente... assim me faz melhor.
— E não bebe?
— Meio copinho, nada mais... O vinho não me faz bem; mas muito agradecido, muito agradecido...
E, à medida que comia, a pálpebra e o músculo dançavam mais, parecendo já inteiramente declarados em greve. Notavam-se nos braços e no corpo estremecimentos muito bruscos, como se lhe estivessem fazendo cócegas.
— Este homem que você está vendo — disse Santa Cruz — tem uma das mulheres mais bonitas de Madri.
Fez a Jacinta um sinal que queria dizer: «Espere, agora vem a parte boa».
— É verdade?
— Sim. Ele não a merece. Você vê que é feio de propósito.
— Minha mulher... Nicanora... — murmurou Ido surdamente, já no último bocado —, a Vênus de Médici... carnes de cetim...
— Como estou desejando conhecer essa célebre beleza!... — afirmou Juan.
Dom José não deixara nada no prato além do osso. Depois soltou um suspiro profundíssimo e, levando a mão ao peito, deixou escapar com voz rouca estas palavras:
— Beleza exterior, nada mais... sepulcro caiado... coração cheio de víboras.
Seu olhar infundiu tamanho terror em Jacinta que ela fez sinais ao marido para que o deixasse sair. O outro, porém, querendo divertir-se por algum tempo, atiçou a demência daquele pobre homem para fazê-la explodir.
— Venha cá, querido dom José. O que tem a dizer de sua esposa, se ela é uma santa?
— Uma santa, uma santa! — repetiu Ido, com o queixo colado ao peito e lançando ao Delfim um olhar que, em outro rosto, teria sido feroz. — Muito bem, meu senhor. E em que se baseia para afirmar isso sem provas?
— A voz pública diz.
— Pois a voz pública se engana — gritou Ido, alongando o pescoço e gesticulando com energia. — A voz pública não sabe de nada.
— Mas acalme-se, pobre homem — atreveu-se Jacinta a dizer. — A nós não importa que sua mulher seja isto ou aquilo.
— Não importa! — replicou Ido, com entonação trágica de ator mambembe. — Sei que essas coisas não importam a ninguém além de mim, o esposo ultrajado, o homem que sabe pôr a honra acima de todas as coisas.
— Claro que importa principalmente a ele — disse Santa Cruz, atiçando-o ainda mais. — E este senhor Ido tem um gênio muito manso.
— E, para que a senhora — acrescentou o desgraçado, olhando para Jacinta de modo a fazê-la estremecer — possa avaliar a justa indignação de um homem de honra, saiba que minha esposa é... adúuultera!
Pronunciou essa palavra com um urro espantoso, levantando-se do assento e estendendo os dois braços como costumam fazer os baixos de ópera quando lançam uma maldição. Jacinta levou as mãos à cabeça. Já não conseguia suportar aquele espetáculo desagradável. Chamou o criado para que acompanhasse o infeliz corretor de obras literárias. Juan, porém, querendo divertir-se mais, procurava acalmá-lo.
— Sente-se, senhor dom José, e não se excite tanto. É preciso suportar essas coisas com paciência.
— Com paciência, com paciência! — exclamou Ido, que, em seu estado elétrico, sempre repetia a última frase que lhe diziam, como se a mastigasse, apesar de não ter molares.
— Sim, homem; não há outro remédio senão ir engolindo esses tragos. Amargam um pouco; mas, por fim, o homem, como disse o outro, vai se fazendo.
— Vai se fazendo! E a honra, senhor Santa Cruz?...
E tornou a fincar o queixo no peito, olhando com os olhos meio escondidos no crânio e fechando-os de repente, como os touros que baixam a cabeça para investir. As carúnculas do pescoço ficaram tão injetadas que quase eclipsavam o vermelho da gravata. Parecia um peru quando a excitação da briga com outro peru o transforma em animal feroz.
— A honra — declarou Juan. — Ora, a honra é um sentimento convencional...
Ido aproximou-se passo a passo de Santa Cruz e tocou-lhe o ombro com muita suavidade, cravando nele os olhos de peru assustado. Depois de uma longa pausa, durante a qual Jacinta se colou ao marido como para defendê-lo de uma agressão, o infeliz disse isto, começando muito baixo, como se segredasse, e elevando gradualmente a voz até terminar de maneira estentórea:
— E se o senhor descobrir que sua mulher, a Vênus de Médici, a das carnes de cetim, a do pescoço de cisne, a dos olhos como estrelas... se o senhor descobrir que essa divindade, a quem ama com frenesi, essa dama que foi tão pura; se descobrir, repito, que ela falta a seus deveres e comparece a encontros misteriosos com um duque, com um grande de Espanha, sim, senhor, com o próprio duque de Tal?
— Homem, isso é muito grave, mas muito grave — afirmou Juan, ficando mais sério que um juiz. — Tem certeza do que diz?
— Se tenho certeza!... Eu vi, eu vi.
Pronunciou isso com a voz oprimida, como quem está prestes a romper em lágrimas.
— E o senhor, dom José de minha alma — disse Santa Cruz, fingindo-se não apenas sério, mas consternado —, o que faz que não exige satisfação do duque?
— Duelos... duelinho comigo! — replicou Ido com sarcasmo. — Isso é para os tolos. Essas coisas resolvem-se de outro modo.
E tornou a começar baixinho, para concluir aos gritos:
— Farei justiça, juro ao senhor... Espero apanhá-los in fraganti outra vez, in fraganti, senhor dom Juan. Então aparecerão os dois cadáveres atravessados por uma única espada... Esta é a vingança, esta é a lei... por uma única espada... E ficarei muito tranquilo, como se nada houvesse acontecido. E poderei sair por aí mostrando minhas mãos manchadas com o sangue dos adúlteros e gritar: «Aprendam comigo, maridos, a defender a própria honra. Vejam estas mãos justiceiras, vejam e beijem-nas...» E todos virão... todos, sem exceção, beijar minhas mãos. E haverá um beija-mão, porque são tantos, tantíssimos...
Ao chegar a esse grau de seu lastimável acesso, o infeliz Ido já não tinha freio. Gesticulava no meio do aposento, ia de um lado para outro, parava diante dos esposos sem mostrar respeito algum, dava voltas rápidas sobre um calcanhar e tinha todo o aspecto de um homem inteiramente irresponsável pelo que dizia e fazia. O criado estava à porta rindo, à espera de que os patrões lhe mandassem pôr aquele espantalho na rua. Por fim, Juan fez um sinal a Blas e disse em voz baixa à mulher:
— Dê-lhe dois duros.
O pobre dom José deixou-se conduzir até a porta sem dizer palavra nem despedir-se. Blas pôs-lhe na cabeça o primogênito de todos os claques, numa mão as pastas imundas, na outra os dois duros que a senhora lhe deu para o caso; a porta se fechou, e ouviu-se o passo pesado e inseguro do homem elétrico descendo a escada.
— Isto não me diverte — opinou Jacinta. — Dá-me medo. Pobre homem! A miséria, a falta de comida devem tê-lo deixado assim.
— É o ser mais inofensivo que você pode imaginar. Sempre que vai à casa de Joaquín, nós o espicaçamos para que fale da adúuultera. Sua loucura é imaginar que a mulher o engana com um grande de Espanha. Fora disso, é razoável e muito veraz em tudo o que diz. De onde virá isso, meu Deus? Daquilo que você disse, da falta de comida. Este homem também foi autor de romances e, de escrever tanto adultério comendo apenas feijão, o cérebro amoleceu.
E não se falou mais do louco. À noite, Guillermina foi à casa, e Jacinta, que conservara o cartão imundo com o endereço de Ido, entregou-o à amiga para que o socorresse em suas excursões. De fato, a família do corretor de publicações, na Calle de Mira el Río, número 12, merecia que alguém se interessasse por ela. Guillermina conhecia a casa e tinha ali muitos assistidos. Depois de visitá-la, fez à amiguinha um retrato muito patético da miséria que reinava na toca dos Ido. A esposa era uma infeliz, mártir do trabalho e da inanição, humilde, estragadíssima, feia de propósito e malvestida. Ele ganhava pouco, quase nada. A família vivia do que ganhavam o filho mais velho, tipógrafo, e a filha, mocinha de boa aparência que aprendia a profissão de cabeleireira.
Certa manhã, dois dias depois da visita de Ido, Blas avisou que o homem dos cabelos eriçados estava na sala de entrada. Queria falar com a senhora. Vinha muito pacífico. Jacinta foi até lá e, antes de chegar, já abria o porta-moedas.
— Senhora — disse Ido, ao pegar o que lhe davam —, estou agradecidíssimo por suas bondades; mas, ai!, a senhora não sabe que estou nu... quero dizer, esta roupa que uso está se desfazendo sobre minhas carnes... E, naturalmente, se a senhora tivesse umas calças usadas do senhor dom Juan...
— Ah, sim... procurarei. Volte depois.
— Porque a senhora dona Guillermina, que é tão boa, socorreu-nos com vales de carne e pão e deu a Nicanora uma manta, que nos veio como bênção de Deus, pois na cama nos agasalhávamos pondo sobre os lençóis toda a minha roupa e a dela...
— Não se preocupe, senhor del Sagrario; vou procurar alguma peça em bom estado. O senhor tem a mesma altura de meu marido.
— E com muita honra... Agradecidíssimo, senhora; mas acredite, digo com a mão no coração: roupas infantis me seriam mais úteis que roupas de homem, porque não me importa estar nu, contanto que meus meninos estejam vestidos. Tenho apenas uma camisa, que Nicanora, naturalmente, lava em certas e determinadas noites enquanto durmo, para eu vestir pela manhã... mas não me importa. Que meus filhos andem agasalhados, e que uma pneumonia me parta ao meio.
— Eu não tenho filhos — disse a dama com tanta tristeza quanto o outro dissera «não tenho camisa».
Jacinta admirava o quanto o corretor de publicações estava razoável. Não percebeu nele indício algum das extravagâncias anteriores.
— A senhora não tem filhos... Que pena! — exclamou Ido. — Deus não sabe o que faz... E eu pergunto: se a senhora não tem crianças, para quem são as crianças? É o que digo... esse senhor Deus será tão sábio quanto quiserem, mas certas coisas eu não lhe perdoo.
Isso pareceu tão sensato à Delfina que ela julgou ter diante de si o primeiro filósofo do mundo e lhe deu mais esmola.
— Eu não tenho filhos — repetiu —, mas agora me lembro. Minhas irmãs têm...
— Mil e mil quatrilhões de agradecimentos, senhora. Algumas roupas de agasalho, como as que dona Guillermina distribuiu outro dia aos filhos de meus vizinhos, não nos fariam mal.
— Dona Guillermina distribuiu aos vizinhos e ao senhor, nada?... Ah, não se preocupe; vou dar-lhe uma boa repreensão.
Encorajado por essa prova de benevolência, Ido começou a tomar confiança. Avançou alguns passos para dentro da sala de entrada e, baixando a voz, disse à senhora:
— Dona Guillermina distribuiu capuzinhos de lã, meias e outras coisas, mas não nos coube nada. O melhor foi para os filhos de dona Joaquina e para o Pitusín, aquele menino... a senhora não sabe?, aquele pequenino que meu vizinho Pepe Izquierdo tem consigo... homem de bem, tão desgraçado quanto eu... Não quero tirar do Pitusín a preferência. Compreendo que o melhor deve cair para ele, porque é da família.
— O que está dizendo, homem? De quem está falando? — indicou Jacinta, suspeitando que Ido se eletrizava. E, de fato, julgou notar sintomas de tremor na pálpebra.
— O Pitusín — prosseguiu Ido, tomando mais confiança e baixando ainda mais a voz — é um nenê de três anos, muito gracioso, por sinal, filho de uma tal Fortunata, mulher má, senhora, muito má... Eu a vi uma vez, uma única vez. Bonitona, mas muito louca. Meu vizinho me contou tudo... Pois, como eu dizia, o pobre Pitusín é muito encantador... mais esperto que Cachucha e mais malvado...! Traz toda a vizinhança de cabeça para baixo. Gosto dele como de meus filhos. O senhor Pepe o recolheu não sei onde, porque a mãe queria jogá-lo fora...
Jacinta estava atordoadíssima, como se houvesse recebido forte golpe na cabeça. Ouvia as palavras de Ido sem conseguir fazer perguntas terminantes. Fortunata, o Pitusín!... Não seria aquilo nova extravagância daquele cérebro romanesco?
— Mas vejamos... — disse por fim a senhora, começando a serenar-se. — Tudo isso que o senhor me conta é verdade ou loucura sua?... Porque me disseram que escreveu romances e, de escrevê-los comendo mal, perdeu o juízo.
— Juro à senhora que aquilo que lhe disse é o Santíssimo Evangelho — replicou Ido, pondo a mão sobre o peito. — José Izquierdo é pessoa séria. Não sei se a senhora o conhece. Teve uma ourivesaria na Concepción Jerónima, grande estabelecimento... especialidade em presentes para amas... Não sei se foi ali que nasceu o Pitusín; aquilo que sei é que, naturalmente, ele é filho de seu esposo, o senhor dom Juanito Santa Cruz.
— O senhor está louco — exclamou a dama num arranco de ira e despeito. — É um mentiroso... Vá embora.
Empurrou-o para a porta, olhando para todos os lados, para ver se havia na sala de entrada ou nos corredores alguém que pudesse ouvir aqueles disparates. Não havia ninguém. Dom José desfez-se em reverências, mas não se perturbou por ser chamado de louco.
— Se a senhora não acredita — limitou-se a dizer —, pode informar-se na vizinhança...
Jacinta então o reteve. Queria que falasse mais.
— O senhor diz que esse José Izquierdo... Mas não quero saber de nada. Vá embora.
Ido já havia atravessado o vão da porta, e Jacinta a fechou de golpe no momento em que ele abria a boca para acrescentar talvez algum pormenor interessante às revelações. A dama teve intenção de chamá-lo. Imaginava que, através da madeira, como se ela fosse vidro, via a pálpebra trêmula de Ido e seu rosto de peru, que já lhe era odioso como o de um animal nocivo.
— Não, não abro... — pensou. — É uma serpente... Que homem! Finge-se de louco para terem pena e lhe darem dinheiro.
Quando o ouviu descer a escada, tornou a sentir desejo de explicações. Naquele mesmo instante, Barbarita e Estupiñá subiam carregados de pacotes de compras. Jacinta os viu pelo postigo e fugiu apavorada para o interior da casa, temendo que lhe percebessem no rosto o abalo que aquele homem condenado produzira em sua alma.
Como passou aquele dia a pobrezinha! Não entendia o que lhe diziam, não via nem ouvia nada. Era uma cegueira e surdez moral, quase física. A serpente que se enrolara dentro dela, do peito ao cérebro, comia-lhe todos os pensamentos e todas as sensações e quase lhe impedia a vida exterior. Queria chorar; mas o que diria a família ao vê-la transformada num mar de lágrimas? Seria preciso explicar o motivo... Não lhe faltavam as reações fortes e passageiras de toda dor e, quando aquela maré de consolo vinha, sentia breve alívio. Se tudo era mentira, se aquele homem estava louco!... Era autor de romances grosseiros e, já não podendo escrevê-los para o público, tentava levar à vida real os produtos de sua imaginação tuberculosa. Sim, sim, sim: não podia ser outra coisa, tuberculose da fantasia. Somente nos romances ruins aparecem esses filhos-surpresa que surgem quando fazem falta para complicar o enredo. Mas, se a revelação podia ser uma lorota, também podia não ser, e eis terminada a reação de alívio. A serpente então, em vez de desenrolar-se, apertava ainda mais seus anéis duros.
Naquele dia, o demônio quis assim, Juan estava muito pior do resfriado. Era o enfermo mais impertinente e dengoso que se pudesse imaginar. Exigia que a mulher não se afastasse dele e, percebendo nela tristeza incomum, dizia irritado:
— Mas o que você tem, o que está acontecendo, minha filha? Ora, isso é ótimo... Estou aqui feito uma pasta, entediado e passando as de Caim, e você vem agora com essa cara de juiz. Ria, pelo amor de Deus.
E Jacinta era tão boa que, por fim, fazia esforço para parecer contente. O Delfim não tinha paciência para suportar os incômodos de um simples resfriado e desesperava-se quando vinha uma daquelas ladainhas de espirros que nunca terminam. Empenhava-se em desobstruir a cabeça daquela pesada congestão, assoando o nariz com estrépito e cólera.
— Tenha paciência, meu filho — dizia a mãe. — Se fosse uma doença grave, o que faria?
— Daria um tiro em mim, mamãe. Não consigo suportar isto. Quanto mais assoo o nariz, mais pesada fica minha cabeça. Estou farto de beber águas. Diabo de águas! Não quero mais beberagens. Meu estômago está como uma lagoa. E me dizem que tenha paciência! Qualquer dia destes eu vou ter paciência. Amanhã saio para a rua.
— Falta nós deixarmos.
— Ao menos riam, contem alguma coisa, distraiam-me. Jacinta, sente-se ao meu lado. Olhe para mim.
— Já estou olhando. Você está muito bonitinho com o lenço enrolado na cabeça, o nariz vermelho, os olhos como tomates...
— Zombe, é melhor. Gosto disso... Bem que eu lhe daria meu resfriado. Não, não quero mais balas. Com suas balas, você deixou meu corpo parecendo uma confeitaria. Mamãe...
— O quê?
— Estarei bom amanhã? Pelo amor de Deus, tenham compaixão de mim, tornem esta vida suportável. Estou num cavalete de tortura. Suar me irrita. Se me descubro, tusso; se me cubro, derreto... Mamãe, Jacinta, distraiam-me; tragam Estupiñá para eu rir um pouco com ele.
Quando tornou a ficar sozinha com o marido, Jacinta voltou aos pensamentos. Olhou para ele por trás da poltrona em que estava sentado.
— Ah, como você me enganou!...
Porque começava a acreditar que o louco, por mais rematadamente louco que fosse, dissera verdades. As adivinhações inequívocas do coração humano diziam-lhe que a desagradável história do Pitusín era verdadeira. Há coisas que forçosamente são verdadeiras, sobretudo quando são ruins. De repente, uma raiva acometeu a pobre esposa... Era como a cólera das pombas quando começam a brigar. Vendo muito perto a cabeça do marido, sentiu desejo de puxar os cabelos que saíam entre as voltas do lenço de seda.
— Que raiva tenho! — pensou Jacinta, apertando os belíssimos dentes. — Ele me escondeu coisa tão grave... Ter um filho e abandoná-lo assim!...
Ficou cega; viu tudo preto. Parecia que entraria em convulsões. Aquele Pitusín desconhecido e misterioso, aquela criatura feita por seu marido sem ser, como devia, feita também por ela, era a verdadeira serpente que se enrolava em seu interior...
— Mas que culpa tem a pobre criança?... — pensou depois, transformada pela piedade. — Este patife, este aqui...!
Olhava para a cabeça, e que vontade sentia de arrancar-lhe uma mecha de cabelos, de dar-lhe um cascudo!... Quem disse um?... Dois, três, quatro cascudos muito fortes, para que aprendesse a não enganar as pessoas.
— Mas, mulher, o que você está fazendo aí atrás de mim? — murmurou ele sem virar a cabeça. — É o que digo, hoje você parece apatetada. Venha cá, minha filha.
— O que você quer?
— Menina de minha vida, faça-me um favorzinho.
Com aquelas ternuras, passou à Delfina todo o furor dos cascudos. Afrouxou os dentes e deu a volta para ficar diante dele.
— Faça-me o favorzinho de pôr outra manta em mim. Acho que esfriei um pouco.
Jacinta foi buscar a manta. Pelo caminho dizia:
— Em Sevilla ele me contou que fizera diligências para socorrê-la. Quis vê-la e não conseguiu. Mamãe morreu, passou algum tempo; não soube mais dela... Como Deus é meu pai, hei de saber o que existe de verdade nisso e se... — sufocava ao chegar a essa parte do pensamento — se é verdade que os filhos que não nascem de mim nascem de outra...
Ao pôr-lhe a manta, disse:
— Agasalhe-se bem, infame.
E Juanito não deixou de perceber a seriedade com que ela falava. Pouco depois, tornou ao tom dengoso:
— Jacintinha, menina de meu coração, anjo de minha vida, chegue aqui. Você já não dá atenção ao sem-vergonha de seu maridinho.
— Fico contente que se conheça. O que quer?
— Que me ame e me mime muito. Eu sou assim. Reconheço que não há quem me suporte. Olhe, traga água com açúcar... morninha, sabe? Estou com sede.
Ao lhe dar a água, Jacinta tocou-lhe a testa e as mãos.
— Acha que estou com febre?
— De frango assado. Você não tem outra coisa além de impertinência. É pior que as crianças.
— Veja, filhinha, cordeirinha; quando chegar La Correspondencia, leia para mim. Quero saber como Salmerón está se saindo. Depois leia La Época. Como você é boa! Olho para você e me parece mentira que eu tenha como esposa um serafim assim. E ninguém pode me tirar esta sorte grande... O que seria de mim sem você... enfermo, prostrado...!
— Que doença! Sim, no que depender de suas queixas, não ficará faltando nada...
Dona Bárbara entrou dizendo com autoridade:
— Para a cama, menino, para a cama. Já está de noite e você vai esfriar nessa poltrona.
— Está bem, mamãe; vou para a cama. Eu não reclamo, não faço outra coisa senão obedecer a minhas tiranas... Sou uma flor de malva. Blas, Blas... mas onde esse homem maldito se meteu?
Maria Santíssima, como lutaram para deitá-lo. A sorte delas era levar aquilo na brincadeira.
— Jacinta, ponha um lenço de seda em minha garganta... Menina, não aperte tanto, está me sufocando... Tire, tire, você não sabe. Mamãe, ponha você o lenço... Não, tirem-no; nenhuma das duas sabe enrolar um lenço. Mas que gente inútil!
Passou um instante.
— Mamãe, La Correspondencia chegou?
— Não, meu filho. Não se descubra. Enfie esses braços. Jacinta, cubra os braços dele.
— Está bem, está bem, os braços já estão enfiados. Enfio mais? Isso mesmo, vocês insistem em me sufocar. Puseram um baú-mundo em cima de mim. Jacinta, tire peso, que isso está me esmagando... Mas, menina, não tanto; suba um pouquinho mais o edredom... meu pescoço está gelado. Mamãe... é o que digo, fazem tudo de má vontade. Assim nunca fico bom. E agora vão jantar. Vou ficar sozinho com Blas?
— Não, tolo, Jacinta vai jantar aqui com você.
Enquanto a mulher comia, não deixou de importuná-la nem por um instante:
— Você não come, está sem apetite; está acontecendo alguma coisa; você esconde alguma coisa... A mim não engana. Francamente, ninguém fica tranquilo... sempre pensando se você vai adoecer. É preciso comer; faça um esforço... Não está comendo para me irritar?... Venha cá, tolinha, ponha a cabecinha aqui. Não estou zangado, amo você mais que minha vida; para vê-la contente, eu assinaria agora um contrato de resfriado vitalício... Dê-me um pedacinho dessa maçã camuesa... Como está boa! Deixe-me chupar seu dedo...
Iam chegando os amigos da casa que costumavam aparecer em algumas noites.
— Mamãe, pelas chagas e por todos os cravos de Cristo, não traga Aparisi aqui... Agora deu-lhe para tudo ser óbvio... óbvio para cima, óbvio para baixo. Se o trouxer, eu o expulso com caixas destemperadas.
— Ora, não diga tolices. Talvez entre para cumprimentá-lo, mas sairá logo. Quem entrou agora?... Ah, parece-me que é Guillermina.
— Também não quero vê-la. Vai me aborrecer com seu prédio. Que bela maluquice! Essa mulher está louca. Ontem à noite me deu uma tremenda dor de cabeça com a história de ter conseguido a madeira de seis por trinta e oito reales e as vigas de um pé e um quarto a dezesseis reales o pé. Armou um bate-bate de pés que deixou minha cabeça pisoteada. Não a deixem entrar. Não me importa saber quanto custam o tijolo malcozido e os caibros... Mamãe, fique de sentinela, e aqui só entra Estupiñá. Que venha Placidinho, para me contar suas glórias, quando ia ao portillo de Gilimón fazer contrabando e à abóbada de San Ginés abrir as carnes com o açoite... Que venha para eu lhe dizer: «Lourinho, dê a pata».
— Mas que impertinente! Você sabe que o pobre Plácido se deita entre nove e dez. Precisa estar de pé às cinco da manhã. Ele vai acordar o sacristão de San Ginés, que tem sono muito pesado.
— E porque o sacristão de San Ginés é dorminhoco, eu é que tenho de sofrer? Que Estupiñá entre e me faça companhia. É a única pessoa que me diverte.
— Meu filho, pelo amor de Deus, enfie esses braços.
— Pois bem, se Rossini não vier, não enfio e tiro o corpo inteiro para fora.
E Plácido entrava e contava-lhe mil coisas divertidas, que lamento não poder reproduzir aqui. Não satisfeito com isso, Juan queria divertir-se à custa dele e, recordando uma passagem da vida de Estupiñá que lhe haviam contado, dizia:
— Vamos, Plácido, conte aquele episódio em que se ajoelhou diante do vigia, acreditando que fosse o Viático...
Ao ouvir isso, o bondoso e tagarela ancião desconcertava-se. Respondia com dificuldade, balbuciando negativas e «quem lhe contou essa lorota?». De repente, Juan saltava com isto:
— Mas diga, Plácido, você nunca teve namorada?
— Ora, ora, este Juanito — dizia Estupiñá, levantando-se para ir embora —, está hoje com vontade de comédia.
Barbarita, que tanto estimava seu bom amigo, estava, como se costuma dizer, pronta para acudir diante dessas brincadeiras que tanto o incomodavam.
— Meu filho, não fique tão maçante... deixe Plácido ir embora. Você, como dorme até as onze da manhã, não se lembra de quem precisa madrugar.
Enquanto isso, Jacinta saíra por algum tempo da alcova. No salão viu várias pessoas, Casa-Muñoz, Ramón Villuendas, dom Valeriano Ruiz-Ochoa e mais alguém, falando de política com tal expressão de terror que mais pareciam conspiradores. No gabinete de Barbarita, no canto de costume, encontrou Guillermina fazendo tricô com fio cru. Durante o breve período em que ficaram sozinhas, inteirou-a do plano que tinha para a manhã seguinte. Iriam juntas à Calle de Mira el Río, porque Jacinta tinha interesse particular em socorrer a família daquele paspalhão que fazia assinaturas.
— Depois lhe conto; precisamos conversar longamente.
As duas cochicharam por um bom quarto de hora, até verem Barbarita aparecer.
— Minha filha, pelo amor de Deus, vá para lá. Faz tempo que está chamando você. Não se afaste dele. É preciso tratá-lo como criança.
— Mas, mulher, você vai embora e me deixa assim... Que alma você tem! — gritou o Delfim quando viu a esposa entrar. — Que bela maneira de cuidar de alguém. Nada... exatamente como a um cachorro.
— Filho de minha alma, eu o deixei com Plácido e sua mamãe... Perdoe-me, já estou aqui.
Jacinta parecia alegre, Deus saberia por quê... Inclinou-se sobre o leito e começou a mimar o marido como poderia mimar uma criança de três anos.
— Ai, como este nenê ficou manhoso!... Vou lhe dar palmadas... Tome, esta por sua mamãe, esta por seu papai e esta grande... por sua parenta...
— Gostosa!
— Você não me ama nada.
— Ora, aduladora... quem não me ama nada é você.
— Nada, pela graça de Deus.
— Quanto me ama?
— Assim tanto.
— É pouco.
— Pois daqui até a Cibeles... não, até o Céu... Está satisfeito?
— Xi.
Jacinta ficou séria.
— Arrume este travesseiro para mim.
— Assim?
— Não, mais alto.
— Está bem?
— Não, mais baixinho... Magnífico. Agora coce aqui, na omoplata.
— Aqui?
— Mais embaixo... mais em cima... aí... forte... Ai, menina de minha vida, você é a glória eterna!... Que felicidade a minha possuir você!...
— Quando está doente é que me diz essas coisas... Você ainda vai me pagar todas de uma vez.
— Sim, sou um patife... Bata em mim.
— Tome, tome.
— Coma-me...
— Sim, eu como e arranco um pedaço...
— Ai! Ai! Não tanto, caramba. Se alguém nos visse!...
— Pensaria que ficamos inteiramente tolos — observou Jacinta, rindo com certa melancolia.
— Essas bobagens não são para ninguém ver...
— Feche os olhos. Durma, a... rorró...
— Isso mesmo, você quer que eu durma para sair correndo e dar corda àquela maníaca da Guillermina. Você é responsável por ela ficar inteiramente louca, porque alimenta essa ideia do prédio... Já está desejando que eu feche os olhos para ir embora. Você gosta mais de conversa do que de ficar comigo. Sabe o que lhe digo? Se eu dormir, você precisa ficar aqui de sentinela, cuidando para que eu não me descubra.
— Está bem, homem, está bem; ficarei.
Ele caiu num torpor; mas logo abriu os olhos, e a primeira coisa que viu foram os de Jacinta, fixos nele com atenção amorosa. Quando adormeceu de verdade, a sentinela abandonou seu posto para correr para junto de Guillermina, com quem tinha pendente uma conferência interessantíssima.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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