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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 16 · Fortunata e Jacinta

Parte 2 — Capítulo V: As Micaelas vistas de fora

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Parte 2 — Capítulo V: As Micaelas vistas de fora

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Há em Madri três conventos destinados à correção de mulheres. Dois deles ficam na cidade antiga; o terceiro, na expansão do Norte, zona predileta dos novos institutos religiosos e das comunidades expulsas do centro pela incautação revolucionária de suas casas históricas. Nessa faixa setentrional, são tantos os edifícios religiosos que quase se torna difícil contá-los. Há-os para monjas reclusas, e para religiosas que vivem em comunicação com o mundo e em luta rude com a miséria humana, nessas ordens modernas derivadas da de São Vicente de Paulo, cuja mortificação consiste em recolher velhos, assistir enfermos ou educar crianças. Como por encanto, vimos erguer-se naquela zona grandes massas de tijolos, de duvidoso valor arquitetônico, que demonstram quão eficaz ainda é a propaganda religiosa e que resultados tão práticos se obtêm da poupança espiritual, isto é, da esmola, quando cultivada por boa mão. As Irmãzinhas dos Pobres, as Servas de Maria e outras, muito estimadas em Madri pelos auxílios efetivos que prestam à vizinhança, levantaram ali suas casas com a rapidez das obras por empreitada. De institutos para clérigos só há um, enorme, vulgar e triste como um falanstério. As Salesas Reales, expulsas do convento que Dona Bárbara lhes construíra, também têm novo domicílio; e outras monjas históricas, as que recolheram e guardaram os ossos de D. Pedro, o Cruel, acampam lá nas alturas do bairro de Salamanca.

A planície de Chamberí, desde los Pozos e Santa Bárbara até além de Cuatro Caminos, é o sítio preferido das novas ordens. Ali vimos levantar-se o asilo de Guillermina Pacheco, essa mulher constante e extraordinária, e ali também a casa das Micaelas. Esses edifícios têm certo caráter de improviso e, em todos eles, combinando a economia com a pressa, empregou-se o tijolo aparente, com alguns ares mudéjares e enxertos de gótico à francesa. Nas frágeis moldagens de gesso que as decoram por dentro, as igrejas afetam o estilo adamado, com pretensões à elegância da basílica de Lourdes. Há nelas, pois, uma impressão de asseio e arranjo que agrada aos olhos, aliada a uma maneira arquitetônica deplorável. A importação dos novos estilos de piedade, como o do Sagrado Coração, e essas manadas de padres de babador expulsos da França trouxeram-nos uma coisa boa, o asseio dos lugares destinados ao culto, e outra má, a perversão do gosto na decoração religiosa. Verdade é que Madri quase não dispunha de elementos de defesa contra tal invasão, porque as igrejas desta vila, além de muito sujas, são verdadeiros aleijões como arte. De modo que não podemos cantar muito de galo. O barroquismo sem graça de nossas paróquias, os guarda-ventos cobertos de imundície, as capelas revestidas de horríveis estuques empoeirados e tudo o mais que constitui a vulgaridade indecorosa dos templos madrilenos nada tem que lançar em rosto às afetações dessa novíssima monumentalidade, também armada em gessos quebradiços, com profusão de ouro e pinturas a têmpera, mas que ao menos exala cheiro de limpeza e possui o decoro dos lugares onde se exerce muito a santidade da vassoura, da água e do sabão.

O casarão a que chamamos as Micaelas ficava mais acima do de Guillermina, onde a rarefação das construções aumenta a tal ponto que o terreno baldio é muito mais extenso que o edificado. Por alguns vãos do casario avistam-se horizontes de estepe, luminosos; muros de cemitérios coroados de ciprestes; chaminés esbeltas de fábricas, semelhantes a palmeiras sem ramos; grandes extensões de terreno mal semeado, que servem de pasto às burras de leite e às cabras. As casas são baixas, como as dos povoados, e há algumas com corredor e quartos numerados, cujas portas se veem pela parede divisória. O edifício das Micaelas fora uma casa particular, à qual se acrescentou uma ala interna, contornando dois lados da horta em forma de meio claustro; e naquele tempo construía-se, no lado oposto, a igreja, ampla e no estilo da moda, de tijolo sem reboco, moldado à maneira mudéjar, com remates de cantaria de Novelda lavrada em ogivas construtivas. Como a igreja ainda estava pela metade, o culto celebrava-se na capela provisória, uma grande nave baixa à esquerda da porta.

Na adaptação dessa nave para convertê-la em templo interino manifestavam-se a boa vontade, o esmero e a inocência artística das excelentes senhoras que compunham a comunidade. As paredes eram estucadas como as de nossas alcovas, pois esse gênero de decoração é barato em Madri e extremamente favorável à limpeza. Ao fundo ficava o altar, branco e dourado, já se sabe, num estilo tão visto e tão determinado que parecia saído dos figurinos. À direita e à esquerda, em grandes cromos berrantes, os dois Sagrados Corações; acima deles abriam-se duas janelas muito estreitas, terminadas no alto em corte ogival, com vidros brancos, vermelhos e azuis combinados em losangos, como se usa nas escadas das casas modernas.

Perto da porta havia uma grade de madeira que separava o público das monjas nos dias em que o público entrava, isto é, às quintas-feiras e aos domingos. Para dentro da grade, o chão era coberto de oleado, e dos dois lados do que bem poderíamos chamar nave havia duas fileiras de cadeiras com genuflexório. À direita da nave, duas portas não muito grandes: uma conduzia à sacristia; a outra, ao aposento que servia de coro. Dali vinham os sons flautados de um harmônio tocado candidamente nos acordes da tônica e da dominante, com as modulações mais elementares; dali vinham também os acentos exaltados das duas ou três monjas cantoras. A música era digna da arquitetura e soava a zarzuela sentimental ou a canção das que se distribuem como brinde às assinantes dos jornais de moda. A isto se reduziu o grandioso canto eclesiástico, por abandono daqueles que governam tais coisas e pela largueza com que se vêm permitindo novidades no severo culto católico.

A pecadora foi levada às Micaelas poucos dias depois da Páscoa da Ressurreição. Naquele dia, desde que despertou, Maxi sentiu uma obstrução na boca do estômago, tão forte como se tivesse um pau atravessado entre o peito e as costas. Incômodo semelhante sentia nos dias de exame, mas nunca com tanta intensidade. Fortunata parecia contente e desejava que a hora chegasse depressa, para abreviar a expectativa e a perplexidade em que se encontravam os dois amantes, sem saber o que dizer um ao outro. A ela, pelo menos, nada ocorria; e embora muitas coisas passassem pela cabeça dele, tinha certa aversão inata ao teatral e não gostava de usar palavras grandiosas em ocasiões dessa espécie. Para dizer a verdade, Maxi inspirava naquele dia à noiva um sentimento de carinho doce e sereno, com seu pouquinho de pena. Ele procurava dar à conversa tom familiar, falando do tempo ou recomendando à moça que tomasse cuidado para não esquecer alguma peça importante de roupa. Nicolás, que estava presente, tampouco permitiria denguices amorosos nem beijação, e ajudava a recolher e agrupar todas as coisas que deviam levar, acrescentando observações práticas como esta:

— A senhora já sabe que nem perfumes, nem joias, nem enfeites de espécie alguma entram naquela casa. Toda a bagagem mundana fica à porta.

Quando veio o carregador que devia levar o baú, Fortunata já estava pronta, vestida com a maior simplicidade. Maximiliano consultou várias vezes o relógio sem chegar a ver que horas eram. Nicolás, mais sereno, olhou o seu e disse que já era tarde. Desceram os três e caminharam devagar, sem falar, até a calle de Hortaleza, onde tomaram um coche de praça. O jovem acomodou-se com não pouco trabalho no assento dianteiro, porque as saias de sua futura esposa e a batina do clérigo dificultavam de modo indizível a entrada e a saída; e, se o trajeto fosse mais longo, teria sido muito grande o martírio daquelas seis pernas que não sabiam onde se pôr. A neófita olhava pela janela, com a atenção vaga e indiferentemente atraída pelas pessoas que passavam. Dir-se-ia que olhava para fora a fim de não olhar para dentro; Maximiliano devorava-a com os olhos, enquanto o presbítero tentava em vão animar a conversa com algumas pilhérias de pouquíssima graça.

Chegaram afinal ao convento. À porta havia duas ou três mendigas velhas que pediram esmola, e Maximiliano apressou-se em dá-la. Sentia a boca extraordinariamente amarga, e sua voz fina saía da garganta com interrupções e síncopes, como a de um asmático. A perturbação obrigava-o a refugiar-se nos assuntos banais:

— Como são importunos estes pobres!... Parece que há missa, pois se ouve a campainha da elevação... A casa é bonita e alegre, sim senhor, alegre.

Entraram numa sala à direita, do lado oposto à capela. Ali as monjas recebiam visitas, e também as recolhidas a quem se permitia ver a família às quintas-feiras à tarde, durante hora e meia, na companhia de duas madres. Adornada com simplicidade quase pobre, a sala não tinha senão algumas estampas de santos e um enorme quadro a óleo de São José, que parecia feito pela mesma mão que pintara o Jáuregui da casa de Dona Lupe. O piso era de ladrilhos, bem lavado e esfregado, sem outra defesa contra o frio além de duas esteirinhas de junco diante dos dois bancos que ocupavam as paredes principais. Esses bancos, as cadeiras e um canapé de pernas curvas eram peças desencontradas, e bem se percebia que todo aquele pobre mobiliário provinha de donativos ou esmolas desta e daquela casa. Não tiveram de esperar nem cinco minutos, pois logo entraram duas madres que já estavam avisadas, e quase pisando-lhes os calcanhares apareceu o senhor capelão, um homenzarrão muito bonachão, que ria de tudo. Chamava-se D. León Pintado, e a pessoa em nada correspondia ao nome. Nicolás Rubín e aquele grandalhão jovial abraçaram-se e cumprimentaram-se por tu. Uma das duas monjas era jovem, coradinha, de boca graciosa e olhos que seriam lindíssimos se não padecessem de estrabismo. A outra era seca, madura, de óculos, e deixava bem claro que possuía na casa mais autoridade que a companheira. Às palavras que disseram, impregnadas dessa cortesia adocicada que marca o estilo e o timbre das religiosas modernas, a neófita ia responder alguma coisa apropriada; mas intimidou-se, e de seus lábios só pôde sair um ru-ru que as outras não entenderam. A sessão foi breve. Sem dúvida as madres Micaelas não gostavam de perder tempo.

— Despeça-se — disse-lhe a seca, tomando-a por um braço.

Fortunata apertou a mão de Maxi e a de Nicolás, sem distinguir entre os dois, e deixou-se conduzir. Rubinius vulgaris deu um passo, deixando sozinhos os dois padres que conversavam segurando reciprocamente as borlas de suas capas, e viu desaparecer sua amada, seu ídolo, sua ilusão, por aquela porta pintada de branco que comunicava a sala com o restante da morada religiosa. Era uma porta como qualquer outra; mas, quando tornou a fechar-se, pareceu ao rapaz enamorado uma coisa diferente de tudo quanto existe no vastíssimo reino das portas.

ii

Pôs-se a caminho de Madri pela estrada poeirenta do antigo Campo de Guardias e, voltando a olhar o relógio por um movimento maquinal, nem assim percebeu que horas eram. Não notou que seu irmão e D. León Pintado, entretidos numa conversa interessante e parando a cada dez palavras, haviam ficado para trás. Falavam do concurso para a canonicaria doutoral de Sigüenza e das brigas que nele ocorreram. O capelão, candidato derrotado, cobria de injúrias o bispo da diocese e todo o cabido. Maximiliano, sem reparar nas paradas, continuou andando até dar consigo em casa. Dona Lupe abriu-lhe a porta e fez-lhe várias perguntas:

— E então, como foi? Ela ia contente?

Tais interrogações revelavam tanto interesse quanto curiosidade, e o jovem, animado pela benevolência que observava na tia, conversou com ela, chegando a mostrar-lhe alguns dos espinhos afiados que lhe arranhavam o coração. Tinha um vago pressentimento de nunca mais voltar a ver Fortunata, não porque ela morresse, mas porque, encerrada no convento e contagiada pela piedade das monjas, podia entusiasmar-se excessivamente pelas coisas divinas e apaixonar-se pela vida espiritual a ponto de já não querer marido de carne e osso, e sim Jesus Cristo, o esposo que faz palpitar as monjas de verdadeira santidade. Expressou isso irreverentemente, por meias palavras; mas Dona Lupe extraiu toda a substância dos conceitos.

— Isso bem poderia acontecer — disse-lhe, com uma convicção que perturbou ainda mais Maximiliano —, e não seria o primeiro caso de mulheres más... quero dizer, levianas... que se convertem num abrir e fechar de olhos e se viram de tal modo pelo avesso que depois não resta outro remédio senão canonizá-las.

O redentor sentiu frio no coração. Fortunata canonizada! A ideia, justamente por ser tão absurda, atormentou-o toda a manhã.

— Francamente — disse enfim, depois de muitas meditações —, canonizar, tanto assim não; mas bem poderia dar-lhe para o misticismo, não querer sair e deixar-me in albis.

Em suma, semelhante ideia o aterrava. Nesse caso, não lhe restaria outro remédio senão tornar-se também um santinho, dedicar-se à Igreja e fazer-se padre... Jesus, que disparate! Padre! E para quê? De volta em volta, sua mente chegou a um turbilhão doloroso em que já não teve outro recurso senão afogar as ideias, para livrar-se do tormento que elas lhe causavam. Tentou estudar... Impossível. Ocorreu-lhe escrever a Fortunata, recomendando-lhe que não desse atenção ao que as monjas dissessem sobre a vida espiritual, a graça e o amor místico... Outro disparate. Por fim foi-se acalmando, e a razão começou a clarear por trás daquelas névoas.

Já deviam ser onze horas quando, de seu quarto, ouviu grande altercação entre Dona Lupe e Papitos. O motivo daquela contenda doméstica foi ter ocorrido a Nicolás Rubín a trágica ideia de convidar para almoçar seu amigo, o padre Pintado; e o pior não foi a ideia, mas a pressa em executá-la com aquela desenvoltura clerical que possuía em tão alto grau, introduzindo o camarada em casa sem cuidar minimamente de saber se havia ou não provisões suficientes para duas bocas de tal natureza.

Dona Lupe, ao ver e ouvir aquilo, não pôde dizer nada, porque o outro clérigo estava diante dela; mas tinha o sangue fervendo. Seu orgulho não lhe permitia desacreditar a casa, servindo-lhes uma gamela de comida ordinária para que se fartassem; e, enfrentando despeitada o conflito, dizia consigo coisas que teriam feito saltar toda a cúria eclesiástica:

“Não sei o que imagina este Heliogábalo... Pensa que minha casa é a Posada del Peine. Depois de me comer um braço, traz o comparsa para me comer o outro. E, pelo aspecto, deve ter bom dente e um estômago como as galerias do Depósito de Águas... Ai, meu Deus, como são egoístas estes padres! O que eu devia fazer era apresentar-lhe a continha, e então... ah, então sim não tornaria a aparecer com convidados, porque é Alexandre em punho e só gosta de mostrar grandeza com o dinheiro alheio.”

O vulcão que rugia no peito da senhora de Jáuregui só podia lançar sua lava sobre Papitos, que para isso mesmo existia. A macaquinha começara o dia fazendo as coisas direito; mas a patroa repreendeu-a tão sem razão que... diabo de menina!, acabou fazendo tudo ao contrário. Se lhe mandavam tirar água de uma panela, punha mais. Em vez de picar cebola, socava alho; mandaram-na à loja buscar uma lata de sardinhas e ela trouxe quatro libras de bacalhau da Escócia; quebrou uma tigela e fez tantos disparates que Dona Lupe por pouco não lhe esmagou o crânio com a mão do almofariz.

— A culpa é minha, grandíssima besta, por teimar em domar alimárias e fazer delas gente... Hoje mesmo você volta para sua casa, para o barraco do monturo de Cuatro Caminos onde vivia, entre porcos e galinhas, que é a sociedade que lhe convém...

E por aí continuava a ladainha. Pobre Papitos! Suspirava, e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Chegara a tal ponto de atordoamento que não acertava uma.

Enquanto isso, os dois padres estavam na sala, fumando cigarros, os chapéus clericais sobre as cadeiras, ambos grosseiramente escarranchados nas duas poltronas principais, falando sem cessar do mesmo assunto, o concurso de Sigüenza. A culpa de tudo era do deão, um traste que queria a canonicaria a todo custo para o sobrinho. Bons cães, tio e sobrinho! O rapaz fizera discursos racionalistas e, quando a Gloriosa triunfou, dera vivas a Topete e a Prim numa reunião de democratas. Dona Lupe entrou afinal, fazendo violentíssimas contorções com os músculos do rosto para conseguir oferecer-lhes um sorriso ao dizer que já podiam passar... que teriam de perdoar muitas faltas e que fariam penitência.

Enquanto se sentavam, olhou com terror para o amigo do sobrinho, que parecia um boi posto sobre duas pernas, e pensou que, se o apetite correspondesse ao volume, tudo quanto havia na mesa não bastaria para encher aquele estômago imenso. Felizmente Maxi estava tão sem fome que mal provou um bocado; Dona Lupe declarou-se também inapetente, e assim o problema foi-se resolvendo sem conflito a lamentar. O padre Pintado, apesar de tão corpulento, não era homem de comer muito e animou a reunião contando outra vez... o concurso de Sigüenza. Dona Lupe, por cortesia, afirmava que fora uma barbaridade não lhe terem dado a canonicaria.

A ira da senhora de Jáuregui não se acalmou com o feliz resultado do almoço, e ela continuou malhando a pobre Papitos. Esta, que também tinha seu gênio, fervia por dentro, cheia de despeito e desejo de vingança.

“Olhem só a tia bruxa”, dizia consigo, engolindo as lágrimas, “com um peito a menos! Antes tivesse vergonha de pôr aquele peito de pano para fazer o povo acreditar que possui dois de verdade, como todas possuem e como eu vou possuir algum dia...”

À tarde, quando a senhora saiu, recomendando-lhe que limpasse a roupa, ocorreu à macaquinha tirar da patroa uma vingança terrível, dessas que deixam lembrança eterna. Pendurou na varanda o corpete do vestido ao qual estava presa a coisa falsa com que Dona Lupe enganava o público. A malícia de Papitos imaginava que, exposto na varanda o testemunho da falta de sua senhora, os transeuntes o veriam e ririam muito. Mas as coisas não se passaram assim, porque ninguém reparou no peito postiço, semelhante a uma bexiga cheia de manteiga; por fim, a menina apressou-se em retirá-lo, raciocinando com bom senso que, se Dona Lupe, ao entrar, visse pendurado na varanda aquele acusador de seu defeito, transformar-se-ia numa fera e seria capaz de cortar à criada as duas coisas verdadeiras que ela esperava possuir.

iii

Na manhã seguinte, Maximiliano dirigiu seus passos ao convento, não para entrar, pois isso era impossível, mas para ver aquelas paredes atrás das quais respirava a pessoa amada. A manhã estava deliciosa, o céu limpíssimo, as árvores do paseo de Santa Engracia começavam a lançar folhas. O jovem parou diante das Micaelas, contemplando a obra da nova igreja, que já atingia metade das ogivas da nave principal. Afastando-se para além da calçada fronteira e subindo a uns montes de terra endurecida, via-se, acima da igreja em construção, um longo corredor do convento, e ainda se podiam distinguir as cabeças das monjas ou recolhidas que por ele transitavam. Mas, como a obra avançava depressa, cada dia se via menos. Nos dias seguintes, Maxi observou que cada fiada de tijolos ia tapando discretamente aquela interessante parte da intimidade monástica, como roupa estendida para velar carnes descobertas. Chegou um dia em que só se alcançavam a ver as bases das vigas que sustentavam o teto do corredor; por fim, a massa da construção cobriu tudo, deixando de fora apenas as chaminés, e mesmo para avistá-las era preciso tomar a linha de visão de muito longe.

Ao norte havia um terreno mal semeado de cevada. Para aquele descampado, onde se erguia um poste com letreiro anunciando terrenos à venda, davam os muros da horta do convento, muito altos. Por cima deles apareciam as copas de duas ou três sóforas e de uma castanheira-da-índia. Mas o que mais se via e mais cativava a atenção do desconsolado rapaz era um motor de vento, sistema Parson, para mover a nora, instalado em altíssimo aparelho, acima dos telhados do convento e das casas próximas. O disco imenso, semelhante a uma sombrinha japonesa a que se tivesse tirado a convexidade, girava sobre o eixo devagar ou depressa, conforme a força do ar. A primeira vez que Maxi o observou, o disco movia-se com majestosa lentidão e era tão belo de ver, com sua couraça de tabuinhas brancas e vermelhas semelhante a plumagem, que o jovem manteve nele os olhos tristes durante um bom quarto de hora. Ao sul, a horta confinava com a parede divisória de uma fábrica de tintas de impressão; a leste, com o telheiro pertencente à oficina de cantaria vizinha, onde se trabalhava muito. Assim como os olhos de Maximiliano contemplavam com inexplicável simpatia o disco da nora, seus ouvidos estavam presos, por assim dizer, à música contínua e sempre igual dos canteiros, que talhavam com os cinzéis o duro granito. Dir-se-ia que gravavam em lápides imortais a legenda que o coração de um poeta inconsolável lhes ditava letra por letra. Por trás daquela tocata reinava o augusto silêncio do campo, como a imensidão do céu atrás de um grupo de estrelas.

Ele passeava também por aqueles ermos, sem perder de vista o convento; ia e vinha pelas veredas que o trânsito abre nos terrenos, matando a erva, e por vezes sentava-se ao sol quando este não ardia muito. Montes de esterco e palha quebravam ao longe a uniformidade do chão; aqui e ali, muros de tijolo cor de poeira, letreiros industriais sobre faixas de gesso, casas que tentavam cercar-se de um jardinzinho sem conseguir; mais adiante, olarias e guaritas cor de chumbo dos fiscais de consumo; e em tudo quanto a vista alcançava, um sentimento profundíssimo de solidão expectante. Só o perturbava algum cão esperto desses que, fugindo da estricnina municipal, passeiam por ali sem tirar os olhos do chão. Às vezes, o jovem voltava à estrada e deixava-se ir bom trecho para o norte; mas não tinha vontade de ver gente e saía dela, metendo-se novamente pelos campos até divisar as arcadas do aqueduto do Lozoya. A vista da serra distante suspendia-lhe a atenção e o encantava por um instante com aquelas pinceladas de azul intensíssimo e seus toques de neve; mas logo tornava os olhos para o sul, buscando os andaimes e a massa das Micaelas, que se confundia com as casas mais afastadas de Chamberí.

Todas as manhãs, antes de ir à aula, Rubín fazia essa excursão ao campo de suas ilusões. Era como ir à missa para o devoto, ou visitar o cemitério onde jazem os restos da pessoa querida. Assim que passava pela igreja de Chamberí, via o disco da nora e já não tirava dele os olhos até chegar perto. Quando o motor girava com rapidez, o enamorado, sem saber por quê e obedecendo a um impulso do sangue, apressava o passo. Não sabia explicar por que relação oculta entre as coisas a velocidade da máquina lhe dizia: “Depressa, venha, há novidades.” Mas chegava e não havia novidade alguma, salvo que naquele dia o vento soprava com mais força. Da muralha da horta ouvia-se o rumor suave do giro do disco, semelhante ao das pipas, e percebia-se o ranger do mecanismo que transmite a energia do vento à haste da bomba... Em outros dias, via-o imóvel, adormecido nos braços do ar. Sem saber por quê, o jovem parava; depois continuava andando devagar. Teria lançado ao vento o maior sopro possível de seus pulmões para pôr a máquina em movimento. Era uma tolice, mas não podia evitá-la. O motor parado parecia-lhe sinal de desventura.

O que mais atormentava Maximiliano, porém, era a impressão diferente que trazia todas as quintas-feiras da visita à futura esposa. Ia sempre acompanhado por Nicolás e, como as duas monjas também não se afastavam da recolhida, não havia meio de falar com confiança. Na primeira quinta-feira encontrou Fortunata muito contente; na segunda, estava pálida e um tanto triste. Como quase não sorria, faltava-lhe aquele traço feiticeiro da contração dos lábios que enlouquecia o amante. A conversa girou em torno dos assuntos da casa, que Fortunata elogiou muito, gabando os progressos que fazia na leitura e na escrita e vangloriando-se do carinho que as senhoras haviam tomado por ela. Numa das quintas-feiras seguintes, falou do quanto lhe agradara a festa de Pentecostes, a principal do ano na comunidade; depois a conversa recaiu sobre temas de igreja e culto, e a neófita expressou-se com bastante fervor. Maximiliano tornou a sentir-se atormentado pela ideia de que sua querida se converteria em mística e se apaixonaria perdidamente por um rival tão temível como Jesus Cristo. Ocorriam-lhe extravagâncias como aproveitar os poucos momentos de distração das madres para cochichar com a amada e dizer-lhe que não acreditasse naquilo de Pentecostes, mera figura alegórica, porque nunca existiram, nem podiam existir, tais línguas de fogo, nem Cristo que o fundasse; e acrescentar, se pudesse, que a vida contemplativa é a mais estéril que se pode imaginar, até como preparação para a imortalidade, pois são as lutas do mundo e os deveres sociais bem cumpridos que mais purificam e enobrecem as almas. É desnecessário acrescentar que guardou para si essas doutrinas escandalosas, porque era difícil exprimi-las diante das madres.

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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