Universo da obra
Universo da obra
Ao meio-dia de um belo dia de outubro, D. Manuel Moreno-Isla regressava a casa, de volta de um passeiozinho pelo Hyde Park... digo, pelo Retiro. O engano do narrador corresponde ao quid pro quo da personagem, pois Moreno, nas perturbações superficiais que então lhe agitavam o espírito, costumava confundir as impressões presentes com as lembranças. Naquele dia, contudo, o cansaço que sentia, provocando nele um trabalho mental comparativo, permitia-lhe avaliar com clareza a situação real e o cenário em que se encontrava. «Muito mal deve andar a máquina, se já estou exausto na metade da calle de Alcalá. E não fiz mais do que dar a volta no lago. Maldita neurose, ou seja lá o que for! Eu, que depois de contornar a Serpentine ia de uma vez até Cromwell Road... uma ninharia; umas dez vezes o passeio de hoje... eu, que chegava em casa disposto a andar outro tanto, agora me sinto fatigado na metade desta condenada calle de Alcalá... Talvez seja por causa desses pisos infernais, desta subida insuportável!... Esta é a capital das setecentas colinas. Ah!, aqueles brutos já estão regando, e tenho de passar para a outra calçada para que este selvagem não me aplique uma ducha com a mangueira. “Isso mesmo, bestas, encharquem tudo para haver lama e paludismo...” Pois por aqui os varredores me atiram uma nuvem de poeira em cima... “Animais, respeitem as pessoas...” Prefiro as duchas... Enfim, é esta selvageria que me deixa doente. Não se pode viver aqui... Pois vejam só; outro pobre. Não se dá um passo sem que esses bandos de mendigos nos acossam. E alguns são tão insolentes!... “Tome, tome você também.” No dia em que eu me esquecer de trazer um bolso cheio de cobres, será divertido. Aqui não há polícia, nem beneficência, nem boas maneiras, nem civilização!... Graças a Deus subi a ladeira. Parece a subida do Calvário, ainda mais com esta cruz que carrego às costas... Que belas tuberosas esta mulher vende! Vou comprar uma... “Dê-me uma tuberosa. Uma haste só... Bem, dê-me três hastes. Quanto é? Tome... Adeus.” Roubou-me. Aqui todos roubam... Devo parecer um São José, mas não importa... “Não jogo na loteria; deixe-me em paz.” Que me importa ser amanhã o último dia de venda, ou o número ser bonito ou feio?... Ocorre-me comprar um bilhete e dá-lo a Guillermina. Com certeza será premiado. É a mulher de mais sorte!... “Dê-me esse décimo, menina... Sim, é um número bonito. E por que você anda tão suja?” Que povo, valha-me Deus, que raça! Foi o que eu dizia anteontem a D. Alfonso: “Desengane-se Vossa Majestade, hão de passar séculos antes que esta nação se torne apresentável. A menos que venha o cruzamento com alguma raça do Norte, trazendo para cá mães saxônicas.” Falta pouco. Francamente, é caso de tomar um coche; mas não, aguente firme, logo chegará... Um enterro pela Puerta del Sol. Não, aqui é que não hei de morrer, para que não me levem naquelas carruagens horríveis... Batem as doze. Lá estão os desempregados vendo a bola cair. Uma bela bola eu daria a vocês. Lá vem Casa-Muñoz. Mas o que vejo? É ele? Já não pinta o cabelo. Compreendeu que é absurdo usar os cabelos brancos e as suíças pretas. Não olha para mim, não quer que eu o cumprimente. De fato, é muito ridícula a situação de um homem que pinta os cabelos no dia em que resolve renunciar à tintura, seja porque a idade o exige, seja porque se convence de que ninguém acredita no engano... Lá vai de coche a duquesa de Gravelinas... Não me viu... “Adeus, Feijoo...” Como esse homem decaiu!... Vamos, já entro na minha calle de Correos. Será que meu primo veio almoçar?... Hoje ele terá de me examinar como manda o figurino, porque me sinto muito mal... Que me ausculte direito, pois este coração parece um fole furado. Será um fenômeno puramente moral? Pode ser. Eu bem sei qual é o remédio... Mas como estão verdes as uvas, como estão verdes! As varandas, tristes como sempre. Ah!... Barbarita sai ao mirante para falar com a rata eclesiástica... “Adeus, adeus... venho do meu passeiozinho... Estou muito bem, hoje não me cansei nada...” Que mentira enorme acabo de dizer! Canso-me como nunca. Agora, escada da minha casa, seja benévola comigo. Vamos subir... Ai, que coração, maldito fole! Devagar, há tempo de chegar lá em cima. Se não chegar hoje, chegarei amanhã. Seis degraus vencidos. Meu Deus, quanto ainda falta!»
Quando chegou ao primeiro andar, a irmã esperava-o à porta.
— Cansou-se muito?
— Mais ou menos. Onde está Tom? Mande-o vir.
Moreno entrou no quarto, seguido pelo criado. Este era inglês e o acompanhava em todas as viagens. Dizia o antipatriota que os criados espanhóis eram tão desajeitados que não sabiam sequer fechar uma porta. O seu era desses que fazem do serviço uma profissão inteligente e se antecipam aos desejos mais insignificantes dos patrões para satisfazê-los. Em inglês, Moreno mandou-o pôr água num dos vasos que havia no aposento, para colocar as tuberosas; e, sem largar as flores, deixou-se cair no sofá. O cavalheiro trajava paletó escuro e calças xadrezes, cartola e as indispensáveis polainas brancas cobrindo as botas muito folgadas, com solas de um dedo de espessura.
— Meu primo veio? — perguntou a Tom, entregando-lhe as flores.
— O senhor doutor está no quarto de miss Guillermina.
— Diga-lhe que estou aqui.
A fadiga do passeio e da escada ainda não lhe passara quando viu entrar o mais simpático dos médicos, Moreno Rubio, exalando alegria como um preventivo contra as tristezas da medicina. Médico de grande saber e aplicação, alcançara muita fama e tinha uma clientela brilhantíssima.
— Hoje você vai me examinar direito... — disse-lhe o primo. — Imagine que sou um desconhecido que se apresenta em seu consultório. Nada de brincadeiras comigo, e não me esconda a verdade. Veja lá, pois desmoralizo você se não fizer assim.
— Está bem, homem, fique sossegado; vamos examiná-lo como manda o figurino — replicou o médico, sorrindo e sentando-se ao lado dele. — Cansou-se muito?
— Não está vendo? Também é vontade de fazer perguntas. Assim que almoçarmos, entrego-me a você como um cadáver da sala de dissecação.
— Pois é melhor antes — disse, tirando o estetoscópio e montando-o.
— Está bem, já pode começar — disse Moreno, tirando o paletó. — Deito-me na cama? É melhor, sim; aqui me tem como um morto, de mãos cruzadas.
— Não, estenda os braços. Assim...
O médico abriu-lhe a camisa e aplicou uma extremidade do instrumento, inclinando-se para encostar o ouvido à outra.
— Não se mexa... Agora respire fundo... dê um suspiro, mas um suspiro grande, como os dos apaixonados.
— Parece que você está caçoando. Pepe, por Deus, veja que isto é sério, muito sério. Há mais de dez noites não prego os olhos, e sua bendita digitalina não me alivia em nada.
— Cale-se e deixe-me ouvir...
— O que está percebendo?... O quê?
— Tenha paciência. Espere... Pois isto está muito ruim. Há aqui dentro uma barulheira dos diabos.
— Que espécie de ruído você ouve? A sístole é forte demais e...
— Algo assim. O impulso da corrente sanguínea...
— Sim; mas predomina um sintoma muito danado, um sintoma...
— Qual é? Diga. Como se chama?
— Amor.
— Ora! Vou chamar outro médico. Você não me serve... com essas brincadeirinhas de mau gosto. Como se uma coisa tivesse relação com a outra...!
— Como não haveria de ter! — disse Moreno Rubio, ficando sério e guardando o instrumento. — Não sei o que você imagina. Quer romper de um golpe a harmonia do mundo espiritual com o mundo físico? Já sabe; eu lhe disse mil vezes. Não preciso auscultá-lo mais. Você tem desordens na circulação que poderão tornar-se muito graves se não mudar de vida.
— Até parece que levo vida de perdido — disse, levantando-se e tornando a vestir a roupa.
— Leva vida de caprichoso, o que é pior. Convém-lhe tranquilidade absoluta, renunciar aos desejos veementes e às cismas que a insatisfação deles lhe provoca; viajar menos, sufocar todo apetite desvairado dos sentidos, renunciar a todos os excitantes nocivos. Não me refiro apenas ao café e ao chá, mas principalmente aos excitantes da imaginação e dos ideais; fugir das emoções e cortar o rabicho de toureiro, com a intenção de não o deixar crescer nunca mais; traçar uma linha em sua vida e dizer: “Nem Cristo passou da Cruz, nem eu passo daqui.” Se você tivesse trinta ou trinta e cinco anos, eu o aconselharia a se casar; mas é melhor fazer de conta que, por recente providência judicial... ou divina, desapareceram todas as mulheres do mundo: casadas, solteiras e viúvas...
— Ora, ora! Sempre a mesma história — disse Moreno-Isla, levando aquilo na brincadeira. — Mas você é médico ou confessor?
— As duas coisas — afirmou o outro com serenidade e energia. — Se não fizer o que lhe disse, Manolo, se não fizer, você morre, e logo. Portanto, já conhece minha opinião. Não volte a me consultar. Não sei mais nada. Esgotei minha ciência com você. Se houver algum colega que encontre um meio de conciliar seus hábitos e suas paixões com um funcionamento vascular ordenado e saudável, chame-o e entenda-se com ele.
O criado anunciou que o almoço estava servido.
— Vamos já — disse o enfermo, tomando o primo pelo braço. — Espere um pouco, quero consultá-lo sobre outra coisa.
Detiveram-se um instante no quarto, e D. Manuel, fazendo uma expressão muito séria, dirigiu ao primo esta pergunta:
— Vamos ver, sem brincadeira. No meu estado, seja ele bom ou ruim, no meu estado atual, preste atenção, tal como estou agora, eu poderia ter filhos?
Moreno Rubio soltou uma gargalhada.
— Homem, não digo que não. Poderia ter uma escola infantil.
— Quero dizer... mas responda a sério... quero dizer se, tal como estou, com a tubulação desarranjada...
— Claro que sim, poder, pode...
— Pergunto porque, depois disso, eu me decidiria a aceitar o que você propõe: o recolhimento, cortar o rabicho etc...
— Veja, inocente, não se preocupe em aumentar a espécie. Quanto menos seres humanos nascerem, melhor. Pelo que vale esta vida...
— Penso o mesmo... mas gostaria de ter a certeza de que... É apenas um exemplo, uma hipótese. Não pense que acho ruim seu plano de vida vegetativa. Eu o adotaria, sim senhor; mas no devido tempo.
— Primo — disse o outro, olhando-o com malícia —, se queria filhos, devia ter pensado nisso antes.
— Não, tolo, não é que eu os queira; não me fazem falta nenhuma esses moleques. Pergunto por hipótese. Basta-me ter consciência da minha aptidão... Curiosidades de doente...
— Vocês não vêm? — perguntou, aparecendo à porta, a irmã de Moreno-Isla.
— Que pressa. Já vamos. Como se alguém tivesse vontade...!
— Mas eu tenho, com os diabos — disse o médico.
À tarde, Moreno mandou buscar o coche e fez visitas até as sete. Jantou em casa dos Santa Cruz, e estes o acharam sombrio, acometido de distrações estranhas e tão indiferente a tudo que nem sequer defendia com ardor seus princípios e gostos estrangeiros quando Barbarita, para combater-lhe a melancolia, trazia à baila algum tema de divertida polêmica a esse respeito. Disse, contudo, algo que animou a conversa desmaiada daquela noite.
— Sabem qual é uma das coisas que mais me irritam na Espanha? O costume das criadas de cantar enquanto trabalham. Parecia natural que em minha casa eu me visse livre desse tormento. Pois não, senhor. Minha tia Guillermina tem uma criadinha cuja boca vale por duas bandas. Não adianta mandar que se cale. Obedece durante dez minutos e, de repente, recomeça com o senhor alcaide-mor. Diz que se esquece. Acreditem. Eu lhe quebraria a cabeça.
— E quer me fazer acreditar que no estrangeiro...! Mas, Manolo...
— Ah, não, senhora... pode ter certeza de que, se em Londres uma criada se permitisse cantar, logo a poriam de pernas para o ar na rua. É que tal disparate nem lhes ocorre.
— Acredito; são insossas a esse ponto.
— É que esta raça malandra, que desconhece o valor do tempo, também desconhece o do silêncio. A senhora não conseguirá meter na cabeça dessa gente a ideia de que a pessoa que se põe a berrar quando escrevo, quando penso ou quando durmo está me roubando. É uma falta de civilização como qualquer outra. Apoderar-se do silêncio alheio é como tirar uma moeda do bolso de alguém.
Essas coisas divertiam, e naquela noite riram delas ainda mais para animá-lo. Convidado por Juan a ir ao Teatro Real, recusou. Havia pouquíssima gente na casa: Guillermina em seu canto, D. Valeriano Ruiz Ochoa e Barbarita II. Barbarita I concebera o louco projeto de casar Moreno com essa sobrinha, que era muito graciosa, e, ao comunicar a ideia a Jacinta, esta a considerou a coisa mais insensata que poderia ocorrer a alguém.
— Mas, mamãe, minha irmã tem apenas dezoito anos, Moreno já anda perto dos cinquenta e, além disso, está doente!
— É verdade que há diferença de idade — dizia a senhora, rindo —, mas é um grande partido. Continue com esses melindres e verá como sua irmã acaba com um subtenente, um oficial da classe dos quintos ou outra loteria semelhante. Este homem é um bonachão muito rico, e aquilo de que padece não passa de tédio, mal de solteiro, o que os ingleses chamam de spleen. Case-o e verá dez anos lhe caírem das costas.
Jacinta não se convencia e, quanto à doença, sua opinião era muito diferente da da sogra. Naquela noite, tomou-o por sua conta para lhe passar uma boa descompostura. Estavam no gabinete, afastados dos dois grupos de jogadores de voltarete, formados por D. Baldomero, Ruiz Ochoa, a esposa deste, Pepe Samaniego e outros. Barbarita II e a irmã tinham Moreno diante de si, e ele, nos primeiros momentos daquela situação, dizia com seus botões: «Creio que, se a mocinha não estivesse presente, eu lhe diria alguma coisa. Esta menina me irrita com sua inocência e seu rosto bonito. Parece que Jacinta a coloca ao lado como um escudo contra mim... É uma fatalidade; nas poucas vezes em que a apanho sozinha, não avanço nada. Se lhe digo alguma delicada insinuação, faz-se de tola. Evita ficar a sós comigo e agora traz sempre a reboque o espantalho angelical da irmã para me assustar.»
— Mas como o senhor está calado... — observou Jacinta, sorrindo. — O quê? Está se sentindo pior? Mamãe diz que, se o senhor se casar, perderá dez anos. Portanto, decida-se...
A fisionomia do misantropo iluminou-se ao ouvir aquela singular receita.
— Também creio — disse. — Veja a senhora: um remédio que parece tão fácil é impossível.
— Claro; como o gênero feminino acabou... O senhor tem razão, já não existem mulheres.
— Para mim, é como se não existissem... O que lhe disse ontem? Já não se lembra. É sempre assim: qualquer coisa que eu lhe diga é como se a escrevesse na água.
— É verdade, esqueci completamente. Você se lembra, Bárbara?
— Bárbara não estava presente.
— Não importa. Tudo o que o senhor me diz, vou imediatamente contar a minha irmã.
— Sim, a senhora é muito mexeriqueira. E por que conta a sua irmã?
— Porque ela acha graça.
Moreno não pôde disfarçar a profunda tristeza que se apoderava dele.
— Mas o que o senhor tem?... Esta noite eu o acho mais atacado de spleen do que nunca.
— O senhor não nos contou ontem que deixou três noivas em Londres? — sugeriu Barbarita, que gostava de fazê-lo falar.
— Sim; mas não gosto delas — replicou Moreno com a ingenuidade de uma criança. E depois, revolvendo-se naquela tristeza contra a qual nada podia seu domínio de homem da sociedade, aplicou a si mesmo outro monólogo: «Já estou entrando no período pueril... A tolice e a incapacidade me invadem... Esta mulher, com sua frieza e sua ironia, pôs o pé sobre minha cabeça e a esmagou, como a Virgem fez com a cabeça da serpente... Já começo a ficar ridículo...»
— Por que o senhor não repete esta noite a minha irmã o que lhe disse na semana passada? — perguntou Barbarita II ao melancólico cavalheiro.
— Eu... o quê?... — respondeu, assustado, como quem desperta de um sonho. — Eu... não lhe disse nada.
— Disse, sim, na semana passada, quando fomos à Casa de Campo e o senhor começou a contar a história daquela inglesona que quis lhe dar um tiro porque o senhor disse não sei o quê num trem.
— Não me lembro — disse o misantropo, com toda a aparência de um estúpido.
— Este homem — observou Jacinta —, quando se trata de esquecer, ninguém o vence. O senhor me disse que se casaria se eu me comprometesse a procurar a noiva...
— Ah!... Pois não; retiro o que disse, recolho a proposta. Se a senhora começou os trabalhos, considere-os inúteis. Pagarei indenização, se for preciso.
— Claro que é preciso... Como se eu já não tivesse feito alguma coisa. Veja só a seriedade do senhor...!
Ambas ficaram muito sérias. Notavam em Moreno uma palidez mortal, grande abatimento e certo esquecimento, estranho nele, da atenção constante que se deve prestar às senhoras durante uma conversa. Jacinta inclinou-se um pouco para ele, abrindo o leque sobre os joelhos, e disse-lhe em tom muito carinhoso:
— Meu amigo, é preciso que o senhor se cuide e zele mais pela saúde. Esta tarde encontramos Moreno Rubio em casa de Amalia, e ele me disse que aquilo de que o senhor padece não é nada, mas que, se for descuidado e não fizer o que ele manda, passará mal. O senhor não é criança e deve compreender. Por que não dá ouvidos às pessoas que lhe querem bem e se interessam pelo senhor?
Moreno contemplava-a, extático. Alguns monossílabos saíram-lhe da boca, mas aqueles fragmentos de seu pensamento pareciam mais de aquiescência que de protesto. Jacinta continuou a falar num tom doce, terníssimo, parecendo antes mãe que amiga.
— Quanto nos alegraríamos de vê-lo bom e saudável, e como isso seria fácil com um pouco de boa vontade!... Porque o que o senhor tem são apenas ideias ruins. Foi o que seu primo me disse, e essa opinião combina muito bem com o que eu pensava. É uma pena que, tendo todos os meios de ser feliz, o senhor não seja. O que lhe falta?...
Moreno sentia o coração partir-se em pedaços. «Pois não é que pergunta o que me falta?... Falta-me tudo, absolutamente tudo. Ai, que mulher! Se continuar nesse tom, acho que vou me tornar ainda mais ridículo.»
— O que lhe falta? Nada. Se não metesse na cabeça coisas impossíveis, estaria muito bem. O que o senhor tem é mimo demais. É como as crianças.
«Claro que sou como as crianças!», pensava o infeliz cavalheiro.
— Moreno Rubio disse, e tem razão: sua saúde e sua vida estão em suas mãos. Se as perder, será porque quer. Parece mentira que um homem de sua idade não saiba se colocar às ordens da razão.
«A razão! Bela velha indecente», observou D. Manuel em pensamento.
— E sacudir as ideias ruins e moderar o espírito; não desejar o que não pode ter e levar uma vida comum, sem insistir em que todas as coisas saiam dos eixos para se acomodar a seu gosto e satisfação. O que é o spleen senão soberba? Sim, o que o senhor tem é soberba, o eu satânico. Esses inglesões imaginam que o mundo foi feito para eles... Não, meu senhor, é preciso entrar na fila e ser como os outros... Portanto, vai se cuidar, fazer o que seu primo manda e o que eu mandar?... porque também sou médica... Outra coisa: aqui na Espanha o senhor está sempre renegando e soltando impropérios. Não gosta disto; então por que vive aqui? Por que não vai para a Inglaterra?
— Já quer me expulsar... está vendo? — disse Moreno, olhando para Barbarita e esforçando-se por sorrir a fim de ocultar a perturbação. — E depois querem que eu não viaje.
— Não, não lhe convém andar sempre de um lado para outro, como um caixeiro-viajante que mostra amostras. Vá para sua Londres, fique lá quietinho, muito quietinho, e, se aparecer uma inglesa viçosa e bem-humorada, case-se, aguente-a, ainda que seja protestante... Ai, Deus, que Guillermina não me ouça; sim, case-se e verá como passam todas as melancolias, terá filhos... Comprometo-me a ser madrinha do primeiro... isto é, se o batizarem. E até mãe me comprometo a ser se o entregarem a mim... eu o aceito, mesmo sem estar cristianizado. Eu mesma o batizarei. Mas não é preciso falar disso. Contento-me em ser madrinha do primeiro Morenito que nascer, e direi a meu marido que me leve a Londres para o batizado...
Moreno levantou-se. Sentia-se muito mal, e as palavras da Delfina o excitavam extraordinariamente.
— Mas o senhor vai embora?... Passou mal? Não gosta de meus sermões?
«Se não for embora, eu me denuncio», pensava o misantropo, apertando os lábios. «Esta malandra está me assassinando.»
— Vai embora, Manolo? — perguntou D. Baldomero da outra extremidade da sala.
— Estão me expulsando, padrinho!... Sua filhinha quer me desterrar.
— Ai, que mentiroso!... É justamente o contrário.
Barbarita I aproximou-se, dizendo:
— Extravagante, tome a mocinha pelo braço e passeie um pouco daqui até meu gabinete, e de meu gabinete até aqui. Está se sentindo mal? Não passa de nervos. Distraia-se um pouco. Bárbara, vá.
Moreno deu o braço a Barbarita II, e começaram os passeios. Da conversa insubstancial dos dois, Jacinta apanhou no ar algumas frases quando o casal, naquele ir e vir de um aposento a outro, passava junto dela.
— Eu? Não... posso acreditar...
— Ai, cada coisa que lhe ocorre!... Mas como o senhor é mau...!
— Assim que eu chegar lá, vou me converter ao judaísmo.
— Jesus!...
— Que eu tenho namorado? De onde o senhor tirou isso?...
— Vou anotar para não esquecer...
— Não, eu não gosto de rapazes...
— Se esta fosse mais esperta — disse a senhora de Santa Cruz à nora —, creio que o apanhava.
Mas Jacinta era muito incrédula nesse particular e olhava tristemente para o casal quando passava. Ao se retirar, Moreno pôde falar-lhe por um instante sem testemunhas.
— Será feito o que a senhora deseja... O programa inteiro será cumprido... tudo, até no que se refere ao bebê. A senhora terá seu Morenito.
Jacinta observou em seu olhar uma expressão tão tétrica que não pôde deixar de dizer consigo: «Já está completamente transtornado.»
Moreno saiu com passo inseguro... A cabeça lhe rodava e, ao descer a escada, teve de se agarrar ao corrimão para não cair... «Quando digo que virei tolo, mas tolo rematado... Já não sei pensar. Não sei aonde diabo foi parar minha razão... Esta mulher me enfeitiçou... Nada, inteiramente imbecil.»
Na solidão da alcova, nosso homem sentiu-se mais senhor de si, tendo vencido aquela perturbação inexplicável com que saíra da casa dos Santa Cruz. Dispensou o criado depois de tirar a roupa e, envolto no roupão, estendeu-se no sofá. Naquelas horas tristes, enganava a insônia ora passeando pelo quarto, ora deitado, cochilando um sono leve e inquieto. Vinham-lhe então à memória os atos e as imagens daquele dia ou dos anteriores e, às vezes, os de datas muito remotas, sem relação alguma com sua situação presente. Naquela noite, coisa rara, mal o camareiro saiu, Moreno adormeceu profundamente no sofá, sem sonhar nada; mas despertou ao cabo de meia hora, sem poder avaliar quanto durara o torpor. Ao acordar, o sono fugiu-lhe do cérebro de tal maneira e ele se achou tão inquieto que nem sequer admitia como provável a ideia de dormir. Assim como o jogador tira as peças do xadrez e as dispõe sobre o tabuleiro de casas brancas e pretas, foi tirando suas ideias. Tinha a si próprio como adversário naquele jogo... «Avance um peão.»
«Você se saiu muito bem! Uma campanha dessas...! Há quanto tempo está na Espanha? Mais um pouco e completa um ano. E para quê? Para nada. Pobre homem! O que me pareceu fácil revelou-se não apenas difícil, mas impossível... Para maior contrariedade, diante dessa bendita e maldita mulher, transformo-me no mais insípido dos colegiais. Por quê? E me diga outra coisa, idiota: o que tem essa graciosa para que você tenha se embrutecido desse modo por ela? Outras são mais bonitas, outras têm mais talento, outras são mais elegantes; e, no entanto, ela é o número um, o número único. De gostar dela passei a enlouquecer por ela, e noto em mim o que nunca notara: uma alegria, uma tristeza... vontade de chorar, de rir e até de fazer papel de tolo diante dela. Nada, aos quarenta e oito anos me aparecem o sarampo e a idade do peru. Tampouco jamais me acontecera o que agora acontece: ficar acanhado, sentir que quero ser atrevido e não consigo. Vou lhe dizer um galanteio intencional e me sai uma banalidade. Ela me inspira um respeito que nunca conheci. Sigo-a até Biarritz, acompanho-a a Paris; e, quanto mais convivo com ela, mais preso me vejo por este maldito respeito... Eu o cortaria fora como se corta uma mão gangrenada. De onde vem tamanho respeito? O que significa? Seja o que for, digo dessa mulher o que até agora não disse de nenhuma: se fosse solteira, eu me casaria com ela...»
Agitou-se tanto que teve de se levantar e começar a andar de um lado para outro.
«Como este mundo é divertido! Eu, infeliz; ela, infeliz, porque o marido é cego e desconhece a joia que possui. Dessas duas desgraças poderíamos fazer uma felicidade, se o mundo não fosse o que é: escravidão de escravidões e inteiramente escravidão... Parece que a vejo quando lhe disse aquilo... Que risinho, que serenidade, e que resposta admirável! Deixou-me pregado à parede. Tão pregado fiquei que não voltei para outra tentativa e, quando preparo alguma coisa para lhe dizer, vamos, valente!... digo justamente o contrário. Que alguém se torne tão estúpido era coisa que não me cabia na cabeça. Ai, Deus, se eu morrer e o pensamento viver além da morte, contemplarei por toda a eternidade este rostinho gracioso, com sua expressão celestial, estes olhos serenos e sorridentes, estes cabelos escuros com fios brancos que lhe dão tanta graça... esta boca que não fala sem que minha alma doa. Pobre anjo! Sua única paixão é a maternidade: sede insatisfeita, desconsolo imenso. Sua paixão se transmite a mim e me abrasa; eu também quero ter um filho, eu também. Parece até que o estou vendo! Está aqui, nos limites da vida, olhando para mim, pedindo que eu o traga, e não falta mais que trazê-lo. Viria se ela quisesse. Tenho certeza de que viria; é uma ideia que se cravou aqui. E eu lhe digo: “Por um filho, bem se poderia sacrificar a virtude...” Ah, não ter coragem de lhe dizer isso... Mas como? Não há palavras que se prestem a dizê-lo!...»
A palpitação que sentia era tão forte que teve de se sentar. Sufocava. Na região cardíaca, ou perto dela, mais para o centro, sentia o golpe do sangue, num compasso duro e contundente. Era como se um ferreiro martelasse junto ao próprio coração, rebitando a fogo uma peça nova que acabava de ser colocada.
«Isto é horrível. Se vai romper, que rompa de uma vez. Ai de mim!... Se ela me amasse, meu coração sararia; o que tem não é doença, mas impaciência... formigamento... O que fiz para ser tão infeliz? Agora percebo que nunca me diverti. Todas as minhas aventuras foram o desejo correndo atrás do tédio. E as pessoas pensam que fui um homem feliz, que estou doente de congestão de prazeres! Estúpidos!»
Sem saber como nem por quê, certas impressões daquele dia reproduziram-se em sua mente. Entre elas, a menos fugaz foi esta: pela manhã, ao entrar no Retiro, postara-se diante dele um desses pobres asquerosos que costumam pedir esmola nos extremos da cidade e às vezes avançam até o centro. Era um homem coberto de andrajos, que andava com um pé e uma muleta; a outra perna era um membro repugnante, a coxa inchada e coberta de crostas, o pé pendente, seco, disforme e ensanguentado. Exibia aquilo para provocar compaixão. A perna era seu meio de vida, sua propriedade, seu ofício, aquilo que para os mendigos músicos é o violão ou o violino. Tais espetáculos indignavam Moreno, que, ao se ver acossado por aqueles industriais da miséria humana, fervia de raiva. Pois, quando se virava para não vê-lo, o maldito fazia uma manobra com a muleta ágil e tornava a se pôr diante dele, mostrando-lhe a perna. O entediado cavalheiro perdia a vontade de dar esmola e, por fim, deu-a para se livrar de perseguição tão aterradora. Afastou-se do pedinte, renegando: «Isto não é um país, nem uma capital, nem há aqui civilização!... Como tenho vontade de atravessar os Pireneus!»
Pois bem, naquela noite o pobre paralítico lhe apareceu com tamanha nitidez que ele quase julgava vê-lo na alcova. Houve um instante em que a alucinação de Moreno se tornou tão real que ele se ergueu e, apanhando um livro que estava na cadeira próxima, disse:
— Veja lá, se você não for embora com sua perna podre...
Depois sua cabeça tornou a cair no sofá, e ele pôs a mão sobre os olhos.
«O infeliz precisa ganhar a vida de algum modo. Não tem culpa de que não haja estabelecimentos de beneficência nesta terra maldita. Se o vir amanhã, dou-lhe um duro... Dou, sim... Que inveja minha tia Guillermina terá! Agora vamos virar para a parede e ver se durmo um pouco. Assim; fecharei os olhos. Não, será melhor abri-los e imaginar que quero despertar.
«Aquilo que se deseja nunca se consegue. Vamos, imaginemos que faço esforços para não dormir. E para que quero dormir? É melhor ficar assim, pensando nas próprias coisas. Estas linhas do papel, azuis e verdes, quebram-se a uma distância de vinte e cinco centímetros; não, de vinte. A flor cinzenta alterna com a flor azul. Bonito desenho. Como deve ter ficado a cabeça de quem o inventou!... E aqui há uma pequena mancha... Acho que, se me pusesse a olhar para a luz, dormiria mais depressa. Vamos virar outra vez.»
Olhou para a luz sobre a mesa central, grande, redonda e coberta com uma rica toalha. A lâmpada era a óleo, formada por dois grandes candeeiros de bronze unidos por uma haste. Ambas as chamas tinham quebra-luzes verdes, com um acréscimo de cetim da mesma cor, como abas que caíam por um só lado das duas circunferências. A claridade espalhava-se pela mesa, e o restante do aposento ficava numa penumbra manchada, com a pátina esverdeada de uma tapeçaria antiga. Sobre a mesa havia luvas, vários livros, dois retratos em belas molduras, um deles do gordo Arnaiz, um porta-papéis, um serviço de chá de porcelana finíssima, uma caixinha de marfim e outros objetos muito bonitos.
«Aquela luva», disse Moreno, «que se estende sobre o porta-papéis, parece exatamente um galgo correndo atrás da caça... Que silêncio solene há agora! O que se ouve sempre é a água da fonte de Pontejos e um ou outro coche que passa pela Puerta del Sol... São os notívagos que voltam para casa. Assim eu ia em meu cab ao sair do clube de Piccadilly... só que meu cab corria como uma flecha, e essas carruagens andam devagar e parecem se desfazer sobre os paralelepípedos. E como as lembranças se avivam!... Parece que estou vendo aquela mulher que me apareceu certa noite em Haymarket, ao sair daquele bar... Nunca me aconteceu outra igual!... E como se parecia com esta tola de Aurora Fenelón! Tudo passou, tudo vai ficando para trás, revolvendo-se na esteira deixada pelo navio...»
De repente, deu um salto e, levantando-se, começou a andar.
«Amanhã mesmo vou embora», disse. «Sim, vou para sempre. Eu morrer aqui, para que me levem naquelas carruagens tão espalhafatosas! Não; graças a Deus tomo uma resolução, e esta chegou bem forte. Entrou-me de repente e com tal impulso... Não vejo a hora de amanhecer para mandar Tom fazer as malas. Amanhã farei minhas compras. Ninguém pode sair da Espanha sem levar os presentinhos de leques e pandeiros... Ai, como me sinto feliz com esta ideia que me veio! Ir embora!... Isso é o que você devia ter resolvido há muito tempo. Para que está aqui, para se consumir ainda mais? Vamos, ela não poderá dizer que não lhe obedeço; seus desejos são ordens. Disse-me: “Meu amigo, vá embora”, e eu vou.
«Ela me amará quando eu partir? Pensará em mim?... Bem poderia ser... Se se convencesse de que o amor que dedica ao marido é como atirar rosas a um burro para que ele as coma, se se convencesse disso...! Mas vá alguém esperar que se convença. Não pode ser. Ama loucamente aquele macaco e morrerá amando-o. Parece-me que o despreza e o ama; há esses dualismos no coração humano. Mas eu pergunto: nunca passará por sua mente a ideia de me amar? Eu me contentaria com isso, com que a ideia tivesse passado uma vez; bem, duas vezes. Ela bem pode ter dito: “Como este Moreno é bom! Se eu fosse sua mulher, não lhe daria desgostos, e teríamos tido um menino, dois ou mais.” Quem sabe... Terá dito isso alguma vez? Não sei por que imagino que sim. Sei lá... dentro de mim esse convencimento se aninha como um germe de esperança, como uma semente que está dentro da terra e ainda não brotou, mas vive... Se eu soubesse que ela disse isso consigo mesma, ao vê-la tão religiosa eu me tornaria o homem mais católico do mundo... Para agradá-la, quantas cerimônias e missas eu financiaria! E não o faria com hipocrisia, porque, amando-a, viria a fé, a fé, sim, que foi embora não sei para onde... Acho que já amanhece. Não tenho sono, nem voltarei a ter. Amanhã vou embora, e iria esta tarde se tivesse tempo de organizar a viagem... E outra coisa.
«Irei me despedir dela? Não sei o que decidir. Se a vir, não vou. Mas por que não? Irei, sim. Ela me disse que partisse, deseja que eu parta. De longe, vou amá-la tanto quanto de perto, e talvez ela me ame. Serei para ela como um sonho, e os sonhos costumam ferir o coração mais que a realidade.»
Tornou a se deitar e entreteve-se contemplando com olhar errante as paredes do quarto. Havia ali um São José, grande quadro de família que, como pintura, valia pouco, mas que Moreno estimava muito porque estivera durante muitos anos na alcova em que ele nascera. Às impressões de sua infância associava-se aquele santo tão vistoso, reclinado sobre nuvens, com sua vara, seu menino e aquela capa amarela cujas dobras rivalizavam com o céu. A lembrança do pai avivou-se de tal modo no bom cavalheiro, naquele instante, que ele parecia vê-lo e ouvir-lhe o timbre da voz. Não conhecera a mãe, que morrera quando ele era muito pequeno. Lembrou-se também de quando a irmã e ele, aquela mesma irmã viúva que ali vivia, iam de mãos dadas à casa do avô, na Concepción Jerónima. Certa tarde, ao dobrarem a calle Imperial, perderam-se, isto é, ela se perdeu, e ele quase morreu de susto. E um dia, quando passava pela Plaza de Provincia, viu solto o burro de um carregador de água; o dono estava na taberna próxima. Manolito teve vontade de montar no animal e, assim que pensou, fez. Mas o condenado do bicho, mal sentiu o cavaleiro, disparou e, embora o menino se esforçasse para detê-lo, não conseguia... No fim, chegaram até a calle de Segovia, muito perto da ponte. E não foi que o burro tivesse parado, mas o cavaleiro caiu e abriu a cabeça. Ainda tinha a cicatriz. Por sorte, os irmãos García, fabricantes de odres que tinham sua oficina de couros abaixo do Sacramento e o viram cair, conheciam-no e, depois de recolhê-lo, levaram-no para a casa do avô. Que confusão se armou ali! D. Manuel recordava aquele incidente como se tivesse ocorrido no dia anterior; via seu avô, D. Antonio Moreno, que ainda usava peitilho de babados, gravata de sola e casaca a todas as horas do dia. Até no armazém, uma drogaria por atacado, vestia fraque. Depois veio o papai e ficou em dúvida se devia bater nele ou não... O pior foi que nunca mais se viu o burro, e a família teve de pagar por ele uma forte indenização.
— Parece que foi ontem — dizia Moreno, tocando a testa no lugar da cicatriz.
Quando o dia já clareava, ouviu ruídos na casa; logo, porém, compreendeu o que era.
«A rata eclesiástica já está de pé. Agora vai ouvir pelo menos sete missas... e tratar a Santíssima Trindade por tu. Pobrezinha, o que tirará disso?... Mas, enfim, tire ou não alguma coisa, é uma felicidade ser assim...»
Guillermina deu duas batidinhas na porta e, abrindo-a um pouco, mostrou o rosto rosado e os olhos vivos.
— Filho, quando vi a luz em sua alcova, pensei: aquele pobrezinho ainda deve estar acordado. Vejo que acertei. O que houve? Passou outra noite ruim?
— Como vê. Entre. Não dormi nada. E você?
— Eu? Amanheço do mesmo lado em que me deito. Durmo apenas quatro horas, mas de uma vez só. Não vê que chego em casa exausta? E aquilo sobre que tenho de cismar, cismo durante o dia.
— Que felicidade! Vai agora à missa?
— Sim, às suas ordens — replicou a santa; e seu semblante recém-lavado exalava tanta frescura quanto alegria.
— E tão tranquila!... porque você está muito tranquila... com suas missas pela manhã e o resto do dia aplicando cada golpe que faz tremer o mistério. Sabe de uma coisa? Tenho inveja de você... trocaria de lugar com você...
— Pois, tolo — disse, avançando para ele —, o que faço é o mais fácil. O que mais tem de fazer senão... fazê-lo?
— Sente-se um pouquinho — disse Moreno, sentando-se no sofá e batendo no assento. — Há mais santidade em praticar as obras de misericórdia, acompanhando os doentes e dando um pouco de conversa a quem passou a noite inteira acordado, do que em ouvir sete missas. Diga-me uma coisa: como vão as obras de seu asilo?
— Pois não sabe? — perguntou, sentando-se. — Bem. Graças às almas caridosas, a construção avança como um raio. Jacinta tomou aquilo com tanto ardor que hoje trabalha mais que eu e maneja a espada de pedinte com uma graça que me deixa pequenininha.
— Você tem amigas que valem qualquer coisa. Esta noite pensei em você e em suas devoções. Vai se espantar se eu disser que, desde a madrugada, entrou-me aqui um sentimento desconhecido, algo como vontade de me tornar religioso, de pensar em Deus, de me dedicar a obras piedosas...
— Manolo!... — exclamou, ficando muito séria. — Se vai começar com suas brincadeirinhas, vou embora.
— Não, não é brincadeira — replicou ele; e havia em seu rosto tal expressão de abatimento que a santa ficou como uma tola, olhando para ele.
— Mas está caçoando ou...? Manolo, em que está pensando?... O que lhe acontece?
— Há horas na vida que parecem séculos pelas mudanças que trazem. Há pouco, veja que coisa estranha, lembrei-me de um pobre que me pediu esmola esta manhã... Era um infeliz que tem uma perna disforme e repugnante, cheia de úlceras... Pediu-me esmola e eu lhe atirei uma moeda de cobre, dizendo com horror: “Saia da minha frente, seu malandro.” Pois esta noite aquele homem veio me visitar aqui... Eu o vi como estou vendo você e, primeiro, ele me inspirou repugnância; depois, compaixão; e acabei dizendo-lhe: “Quer trocar de lugar comigo?” Porque, com sua perna podre, sua muleta e sua liberdade, ele desfruta uma tranquilidade que não tenho. Sua consciência é como uma poça estagnada em que jamais cai a menor pedra. Pobre de mim! Eu trocaria com ele; trocaria minha riqueza por sua mendicância, meu coração doente por sua perna inerte e minha inquietação por sua paz. O que acha?
— Acho que Deus está tocando seu coração — disse a dama, semicerrando os olhos e pousando sobre a cabeça do triste cavalheiro a mão direita, na qual segurava o missal e o rosário. — Você não está com cara de brincadeira. Uma procissão muito grande anda aí dentro. E, se em outras ocasiões lhe dá na veneta dizer heresias e me fazer perder a paciência, não pense que o considerei mau. Você é um santo; e, se vivesse sempre conosco e não passasse a vida entre protestantes e ateus, seria outro homem.
— Mas não sabe que vou embora amanhã?
— Vai embora? É verdade? — perguntou, com vivo desconsolo. — Mau negócio. Sempre buscando a frieza, sempre fugindo do calor da família.
— Não; é aqui que não gostam de mim — declarou Moreno, sombrio.
— Que não gostamos de você? Veja só o que inventa... Tolo, não diga disparates.
— Minha vida está inteiramente truncada e quebrada. Já não há maneira de soldá-la... Acredite que, se gostassem de mim, eu ficaria aqui, seria bom e, para agradar a você e a suas amigas, me tornaria muito religioso, muito amigo de Deus e da Virgem; empregaria todo o meu dinheiro em obras de caridade, protegeria a devoção...
O espanto da santa era tão grande que ela não conseguia expressá-lo. Abriu a boca, maravilhada, como se presenciasse um milagre.
— Mas é verdade que você...? Olhe, filho, se quer que eu acredite nesse estado de espírito, precisa prová-lo...
— Como vou provar?
— Vamos ver — disse a virgem e fundadora, resoluta. — Aposto que não faz uma coisa.
— Aposto que faço.
— Aposto que não vem comigo a San Ginés.
— Aposto que vou.
Levantou-se para puxar a campainha.
— Preciso ver para crer — disse Guillermina, lançando centelhas de alegria pelos olhos. — Deixe, eu chamo Tomás. O pobre rapaz talvez ainda não tenha se levantado.
— Acho que sim... Tom!...
— Eu farei seu chá... Vamos, vá se vestindo.
Aquela saída matinal lhe agradava, pois quebrava as rotinas tediosas de sua existência.
— Claro que vou à igreja... — disse, aprontando-se com atividade febril. — E ouvirei todas as missas que quiser, e rezarei com você... Diga, Jacinta não vai a esta hora a San Ginés?
— Homem, tão cedo não. Um pouco mais tarde que eu, Bárbara costuma ir.
— Pois me alegro de sermos os primeiros, os mais madrugadores, os mais impacientes para cumprir o dever e nos santificar... Tom!
O inglês entrou e, pouco depois, quando o patrão já estava vestido, trouxe-lhe o chá. Guillermina, servindo-lhe o desjejum, dizia:
— Agasalhe-se bem, pois as manhãs estão frescas. Não vá, por começar sua vida nova, apanhar uma pneumonia.
— Melhor... Convenci-me de que viver é a maior das tolices — disse ele, descendo a escada. — Para que se vive? Para sofrer. O pobre da perna é que vive razoavelmente. Aquilo não dói. Leva a perna diante de si como se fosse uma coisa bonita que o público deseja conhecer.
— Há muita miséria — observou a dama, levando o assunto para outro lado —, e nós, que temos o que comer, nos queixamos por vício. Quanto mais sofrermos aqui, mais gozaremos lá.
O misantropo nada respondeu. Continuava muito pensativo.
— O mendigo da perna irá direto para o Céu, com sua muleta, e muitos ricos que andam por aí de carruagem passearão muito comodamente nela pelos infernos. Peço a Deus que me dê a mais asquerosa das doenças e... Ele não me dá ouvidos; sempre tão saudável. Paciência; Ele sempre nos dá o que nos convém.
Moreno tampouco respondeu. Entraram em San Ginés, e Guillermina foi diretamente à capela da Soledad quando começava a primeira missa. Durante a cerimônia, a ilustre dama, embora não desviasse a atenção do ofício, percebeu que o sobrinho estava atrás dela, cumprindo todo o ritual como qualquer devoto, ajoelhando-se e levantando-se nos momentos apropriados. Na segunda missa, porém, notou-o distraído e inquieto. Ia de um lado para outro, examinando os altares e as imagens como se estivesse num museu. Aquilo a desagradou, e sua perturbação foi tamanha que não ousou comungar naquele dia, pois seu espírito não estava absolutamente sereno e limpo. Já na quarta missa, aquele cavalheiro não apenas se distraía como perturbava a devoção dos fiéis, passando diante dos altares em que se celebrava missa sem fazer a menor genuflexão ou reverência. «Terei de mandá-lo embora», pensava a santa. «Isso não é maneira de se comportar na igreja.»
Moreno contemplava uma imagem jacente, encerrada numa luxuosa urna de vidro, quando ouviu ao lado este sussurro:
— Bela imagem, não é? É o Cristo que levamos na procissão do Santo Enterro.
Voltou-se e viu Estupiñá a seu lado, com o gorro preto de malha enterrado até as orelhas, indicando a imagem com gestos de cicerone.
— A mortalha de fina cambraia foi bordada pelas senhoras Micaelas e é presente de dona Bárbara. Escultura soberba... e é articulada, porque nós o pregamos na cruz ou o descemos conforme convém.
Como o cavalheiro nada lhe dissesse, Plácido afastou-se, rezando entre dentes. Sentou-se num banco e, desde então, sem deixar de atender às suas devoções, não tirava os olhos do senhor Moreno, incapaz de explicar sua presença na paróquia. «Era só o que me faltava ver», dizia consigo. «D. Manolo aqui... ele, que não tem religião! É que gosta de ver as boas imagens... Por aí comecei eu.»
Que descompostura a fundadora deu no sobrinho quando saíram!
— Mas, filho, você me tirou a devoção com seus passeios pela igreja. Eu sabia que se cansaria.
— Ora, tia, para o primeiro dia de aula, você não pode se queixar. Tudo é começar. Viu que ouvi uma missinha. O que queria? Que eu fosse como você? Garanto que o ensaio me satisfez. Passei um momento muito agradável, num estado de tranquilidade que me fez muito bem. Queixa-se de que eu andava pela igreja?... É que, quando alguém vai começar vida nova, gosta de se informar... Eu queria examinar bem as imagens. Acredite: se continuasse em Madri, faria amizade com todas. Gosto de vê-las tão bonitas, com suas roupas luxuosas e os olhos fixos num ponto. Parece que estão vendo chegar algo que nunca chega. As que nos olham parecem dizer alguma coisa quando olhamos para elas e que realmente nos consolarão se lhes pedirmos algo. Compreendo o misticismo; vejo-o claramente... Ai, se eu ficasse aqui...
— Por que não fica?... Que tolo! — disse a santa, desconsolada.
— Impossível!... Tenho de ir... E lá ficarei muito triste; estou vendo...
— Então fique. Quer que eu lhe dê uma ocupação? Bem precisa. Nomeio-o mestre de obras de minhas construções, administrador de minhas coletas e sacristão-mor de minha capela nova, quando estiver pronta.
Moreno desatou a rir com gosto.
— Coroinha-mor!... Eu aceitaria. Juro que aceitaria... Estou me tornando inteiramente infantil. Chefe dos coroinhas! Eu acenderia as velas, tiraria o pó das imagens e as deixaria tão bonitas; conversaria com as beatas... Você não acreditará, mas dentro de mim está nascendo algo que combina muito bem com esse ofício humilde.
— Você é um bonachão. A ociosidade, o muito que se divertiu e o spleen inglês o deixam assim. E juro que ficará ainda mais entediado se não voltar os olhos para Deus. Faça como eu, Manolo; dê um pontapé no mundo; faça-se pequeno para ser grande; abaixe-se para subir. Você já não é rapaz; já não vai se casar. Tampouco lhe convém andar sempre viajando, como uma carta com o endereço errado que percorre todas as agências postais do mundo. Mulheres, para que servem senão para a perdição? Tenha um quarto de hora de coragem e ofereça a Deus o que lhe resta de vida. Não digo que vire frade: há mil maneiras de conquistar a felicidade eterna. Ouça o que me ocorreu. Por que não dedica seu dinheiro, sua atividade e todo o seu espírito a uma obra grande e santa, não a uma obra passageira, mas dessas que permanecem para o bem da humanidade e a glória de Deus? Construa um bom edifício novo, um asilo para este ou aquele fim; por exemplo, um grande hospício em que se acolham e cuidem os pobrezinhos que perderam a razão...
— Você tem a mania dos edifícios e quer transmiti-la a mim...
— Foi a primeira coisa que me ocorreu. Parece uma ideia ruim? Um hospício-modelo, como os que deve ter visto no estrangeiro. Aqui estamos muito atrasados nisso. Você faria uma imensa obra de caridade, e Madri e a Espanha o abençoariam.
— Um hospício! — disse Moreno, sorrindo de um modo que gelou o sangue da generosa tia. — Sim, não me parece ruim. E você e eu o inauguraríamos...
Guillermina despediu-se à porta da casa para ir ao asilo, e ele subiu. Coisa mais estranha! Quase não se cansou ao enfrentar a escada. Sentia-se muito bem naquela manhã, o espírito confortado, a palpitação muito amortecida, o apetite desperto. Ao entrar em casa, pediu mais chá e, enquanto Tom o servia, disse-lhe em espanhol:
— Amanhã partimos. Faça as malas. Avise Estupiñá... Peça-lhe o favor de vir, para trazer das lojas algumas coisinhas. Não se pode ir da Espanha para a Inglaterra sem levar aos amigos alguma bugiganga com cor local.
Depois continuou a falar consigo mesmo: «É uma vertigem. Se você não levar pandeiros com figuras de touros, chulos ou outras porcarias assim, comem-no vivo. Veremos se encontro algumas aquarelas. Também preciso de mantas, laços de touros, e tentarei achar algum objeto de barro com caráter. Não há calamidade maior que ser amigo de colecionadores.» Estupiñá, que naquela temporada tratava muito com Moreno, porque este lhe confiara a administração de sua casa da Cava, apresentou-se disposto a levar-lhe todo o conteúdo das lojas de Madri para que escolhesse. Pandeiros dos mais coloridos, leques e alguns quadrinhos foram chegando sucessivamente ao longo do dia, e D. Manuel escolhia e pagava. Aquilo o entretinha agradavelmente, e ele ria ao pensar na felicidade que distribuiria entre suas amizades londrinas.
«Esta cena de picadores, com o cavalo pisando as próprias tripas, é perfeita para as Simpson, que são tão masculinizadas. Este pandeiro, com a chula tocando violão, para miss Newton. Se ela visse os originais, que desilusão! Este par, o andaluz a cavalo e a maja à janela namorando, para a sentimental e romanesca mistress Mitchell, que revira os olhos ao falar da Espanha, o país do amor, das laranjeiras e das aventuras incríveis... Ah, este D. Quixote rasgando a golpes de espada os odres de vinho, para o amigo Davidson, que chama D. Quixote de don Cuiste e se dá ares de hispanófilo... Bem, bem. Quanto aos objetos de barro, estamos mais ou menos. Estes botijos são horríveis. Toda a cerâmica espanhola moderna não vale dois quartos. Vamos ver, Plácido, você seria capaz de me arranjar uma roupa completa de toureiro?... Quero-a para um amigo que sonha vesti-la num baile a fantasia... Ficará um espantalho. Mas isso não nos importa. Conseguirá encontrá-la?»
— Claro que sim — disse Plácido, para quem nunca havia dificuldades quando se tratava de compras. — Usada ou nova?
— Homem, nova... Enfim, como a encontrar...
Estupiñá saiu como se Mercúrio lhe tivesse emprestado os borzeguins alados, e pouco depois entrou o criado, a quem o patrão também encarregara de procurar certos objetos. Tom se afeiçoara muito às touradas; não perdia uma corrida e contava entre os amigos várias eminências da arte dos chifres. Por isso Moreno o incumbira de procurar algum laço daqueles que os aficionados guardam como relíquias veneradas, de preferência com manchas de sangue, muitos pisões e sinais da trágica luta. O inglês entrou muito desconsolado, dizendo que não encontrava laços nem oferecendo por eles os olhos da cara.
— Veja, rapaz — disse o patrão —, não se aflija. Já que não se encontram laços, levaremos outra coisa. Você viu por aí, no Prado e em Recoletos, um sujeito muito feio que carrega uma cesta e nela, presos a canas, formando uma espécie de árvore enorme, há uma multidão de cata-ventos de papel dourado, prateado e de todas as cores?... Sabe, cata-ventos que giram com o vento e que as crianças compram por dois ou três pence? Pois traga uma dúzia; nós os levamos e dizemos que são os laços postos nos touros quando entram na arena, brrrr... estourando o mundo inteiro com aqueles chifres tão afiados... E eles acreditarão... Como se eu não conhecesse minha gente.
Tom ria; mas, interiormente, rejeitava aquela trapaça por dois motivos de consciência: o da retidão inglesa e o da seriedade do aficionado por touros. Com a fraude proposta pelo patrão, cometeriam duas faltas graves: enganar uma nação e ultrajar a respeitável arte da Tauromaquia, o verdadeiro sport trágico. Não sei o que se resolveu. Enquanto isso, Rossini enchia a casa de leques e pandeiros, e Moreno escolhia e pagava, entretendo-se depois em embrulhá-los em papel e pôr rótulos com os nomes dos destinatários.
Resolvera fazer pouquíssimas visitas de despedida, alegando o mau estado da saúde. Depois do almoço, desceu ao escritório e ocupou-se em liquidar e pôr em ordem sua conta pessoal. Não participava de negócio algum, e o trabalho bancário, de que tanto gostara em outros tempos, já o entediava. Naquele dia, porém, pareceu que as antigas inclinações despertavam, pois falou longamente de negócios com Ruiz Ochoa, recomendando-lhe que não deixasse de se interessar por algum leilão de barras de ouro para o Banco.
— Parece-me que este ano comprarei algum ouro... Convém que andem aqui com muito cuidado nessa história de cunhar tanta prata, porque esse metal está caindo e cairá muito mais. Pelo preço que têm aqui as libras, vale mais remeter ouro e, de minha parte, levarei todo o que puder.
Nisso entrou Ramón Villuendas, perguntando a que preço aceitavam as libras, e a conversa tornou a cair no mesmo assunto. Ele estava enviando ouro e mais ouro...
— Deem esta sobra a Guillermina — disse Moreno ao ver, na conta dos aluguéis de suas casas, um excedente com que não contava.
Entraram outras pessoas, e falou-se de coisas muito diferentes. Enquanto durou a conversa, Moreno pensava se iria ou não se despedir dos Santa Cruz. Se não fosse, talvez o padrinho se ofendesse; indo, poderiam lhe sobrevir contrariedades maiores, inclusive arrepender-se da viagem e adiá-la... Não havia outro remédio senão ir. Mas a que horas? Na hora do jantar? Hesitava e, de volta a casa, ficou pensando durante muito tempo naquele problema do horário. «Tomada uma decisão», disse consigo, «o melhor será não tornar a vê-la em carne e osso, porque em pensamento eu a vejo a todas as horas. Como me tornei infantil!... Enfim, tenho tempo para pensar até amanhã, pois hoje não irei.»
Por volta das cinco, o misantropo foi a uma loja da Plaza Mayor ver as mantas granadinas com que desejava presentear os amigos ingleses. Ficou ali um quarto de hora, e o lojista propôs mandar por Plácido o que tinha de melhor, para que escolhesse. Já era quase noite, e seria melhor que o senhor examinasse a mercadoria à luz do dia. Assim combinaram, e ele voltou para casa. Ao entrar no portal, sentiu um golpezinho no ombro. Era Jacinta, que lhe dera uma pancada com o guarda-chuva. O bom senhor ficou como se tivesse levado um tiro. Quis falar e não conseguiu. Jacinta tomou-lhe o braço e, depois de vencerem os primeiros degraus, começou o diálogo.
— Então finalmente vai embora?
— Finalmente me arranco daqui. Já era hora...
— Mas o quê, hoje o senhor se cansa muito?... Vamos devagar, mais devagar se quiser... Ah, Guillermina já me contou que hoje o senhor esteve muito santinho... Assim é que gosto das pessoas.
— Por que não foi me ver?... Eu estava tão engraçado...!
— Eu não sabia. O senhor volta amanhã?
— É verdade que vai me ver?... Como rirá de mim!
— Rir! Cada coisa que lhe ocorre! Irei tomar seu exemplo.
— Aposto que não vai.
— Aposto que vou.
— Pois me encontrará lá, fazendo concorrência a Estupiñá... A senhora verá, verá... cada dia mais.
— Cada dia! Mas o senhor não vai embora amanhã?
— É verdade, eu me esquecera... Bem, então não vou.
— Isso não; convém-lhe partir, e lá continuará seu noviciado.
— Lá não vale.
— Como não vale?
— Porque lá umas amigas protestantes que tenho me tomam por sua conta e, queira eu ou não, fazem-me renegar... A culpa será da senhora; pesará sobre sua consciência. Então, fico ou vou?
— Com tamanha responsabilidade, não me atrevo a aconselhá-lo. Faça o que lhe parecer melhor... Bem, enfim chegamos. Cansou-se muito?
— Um pouquinho... mas com a senhora estou sempre contente. Quer tornar a descer?
— Outra vez?
— Sim, para tornar a subir... Como se quisesse ir ao quarto andar.
— Eu nunca me perdoaria se o senhor me acompanhasse, cansando-se tanto.
Entraram, e Jacinta foi para o quarto da santa. Moreno dirigiu-se ao seu e deixou-se cair no sofá, empurrando o chapéu para trás. Pensava descansar um pouco e depois passar ao aposento de Guillermina. «Não, não vou; não quero vê-la mais. Para que me atormentar? Acabou. Ponhamos uma lápide em cima.» Pouco depois, ouvindo Jacinta sair, aproximou-se da porta com a intenção de vê-la. Mas não conseguiu enxergar nada. Como ainda não haviam acendido a luz da sala de entrada, apenas distinguiu um vulto, uma sombra, e pôde ouvir duas ou três palavras trocadas por Jacinta e a rata eclesiástica ao se despedirem. Esta foi então ao quarto do sobrinho e encontrou-o andando em círculos.
— Como está se sentindo, catecúmeno? — perguntou com muito carinho.
— Mais ou menos, quase bem... Espero dormir esta noite.
— Recolha-se cedo.
— É o que penso fazer... e amanhã... Ouça uma coisa: Jacinta não lhe disse que amanhã pretendo voltar a San Ginés?
— Não, não disse.
— Não lhe disse que iria me ver tão devoto?
— Não... não falamos uma palavra sobre você.
— Nem disse que subira comigo e que...?
— Não... nada.
Moreno sentiu a horrível pulsação do peito ser inundada por uma onda glacial. Naquele momento, teve de se sentar, pois as pernas lhe fraquejavam e a cabeça rodava.
— Pois, se quiser voltar amanhã, virei chamá-lo. Isto é, se passar uma boa noite.
— Iremos passar algum tempo — disse Moreno de maneira lúgubre — e dar a meu desespero uma hora de distração, como se joga carne a uma fera para que não morda.
— Se pedisse ao Senhor... mas pedisse de verdade... que curasse esses spleens, Ele curaria... Peça, filho; eu sei muito bem o que digo!
— O que você pode saber?... O que pode saber do que existe do outro lado da porta negra?
— Agora vem com essa?... Você pode ter perdido parte da fé, mas nunca se perde tudo. Essas coisas são ditas sem acreditar nelas, por fatuidade. Com todas as suas brincadeiras, basta arranhar para o crente aparecer...
— Não, tola, não acredito em nada, nada, nada — disse Moreno com ênfase, comprazendo-se em mortificá-la.
— Tudo seja por Deus... Então, para que vem comigo à igreja?
— Ora, para me distrair um pouco, para ver você, para ver Estupiñá, figuras raras da humanidade, excentricidades, tipos, como todas estas coisas que levo a Londres para os aficionados pelo característico e pela cor local.
Guillermina suspirava. Não queria se irritar.
— Para raridade, você... — disse enfim, caindo na risada. — Deviam exibi-lo nas feiras... dois reales; crianças e soldados, um real. Acredite, quem o expusesse ganharia dinheiro.
— Com um cartaz que dissesse: “Aqui se exibe o homem mais infeliz do mundo.”
— Por sua culpa, por sua culpa; é preciso acrescentar. Ser infeliz e não voltar os olhos para Deus era só o que me faltava ver. Isso mesmo, bruto, afunde-se mais na lama; torne-se mais materialista e mais gozador, para ver se a felicidade aparece... Você é soberbo, tolo... Olhe, sobrinho, vou embora, pois do contrário bato em você com sua própria bengala.
E ele estava tão absorto que nem sequer percebeu quando ela saiu.
Jantou com apetite razoável, na companhia da irmã e de Guillermina. Quando terminaram, disse a esta que dera ordem no escritório para lhe entregarem o saldo de sua conta pessoal. Com a notícia, a fundadora ficou alegre como castanholas e, incapaz de conter a felicidade, foi direto até ele e disse:
— Quanto tenho de agradecer ao meu querido ateu de minha alma! Continue, continue dando-me essas provas de seu ateísmo, e os pobres o abençoarão... Você, ateu? Nem que jurasse eu acreditaria!
Moreno sorria tristemente. Tamanho entusiasmo tomou conta da santa que ela lhe deu um beijo.
— Tome, perdido, maçom, luterano e anabatista; aí está o pagamento de sua esmola.
Ele se sentia tão propenso à emoção que, quando os lábios da santa tocaram sua testa, foi acometido por uma leve angústia e quase a deixou transparecer. Apertou-a suavemente contra o peito, dizendo:
— Uma coisa não impede a outra e, embora eu seja incrédulo, quero deixar contente minha rata eclesiástica, para o caso de trovejar. Suponhamos que exista aquilo que creio não existir... Poderia ser... Então minha querida rata começaria a roer num canto do céu para abrir um buraquinho pelo qual eu entraria...
— E todos nós entraríamos — observou a irmã de Moreno, contente, pois aquelas brincadeiras a divertiam muito.
— Pois claro que farei o buraquinho! — disse Guillermina. — Ficarei roendo e roendo por algum tempo da eternidade e, se Deus me descobrir e me der uma descompostura, direi: “Senhor, é para meu sobrinho entrar, ele que era muito ateu... de conversa, bem entendido; e me dava dinheiro para os pobres.” O Senhor ficará pensando um pouco e dirá: “Bem, então que entre sem contar nada a ninguém.”
Às dez, o misantropo estava no quarto, preparando-se para deitar.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou a irmã.
— Não. Tentarei dormir... Amanhã, a esta hora, estarei ouvindo cantar o botijo de leite. Que tédio!
— Mas, homem, que diferença isso faz? Basta não comprar se não gosta... Essa gente vive disso; deixe-a viver.
— Não me oponho a que vivam tudo o que quiserem — replicou Moreno com energia. — O que não impede que me irrite muito, mas muito mesmo, ouvir aquele pregão...
— Paciência... Há coisas piores e são suportadas.
Depois chegou Tom, e a irmã de Moreno retirou-se no mesmo instante em que Guillermina entrou com a mesma cantilena:
— Precisa de alguma coisa?... Veja se dorme, pois não será pouca a agitação que terá amanhã. Olhe, telegrafe de Paris para sabermos se vai bem...
Dava alguns passos para fora e voltava.
— Amanhã não o chamo. Você precisa descansar. Tem tempo, filho, tem tempo para bater no peito. A saúde vem primeiro.
— Esta noite, sim, vou dormir bem — anunciou D. Manuel com aquela esperança de doente que é alegria embebida em melancolia. — Ainda não estou com sono, mas sinto dentro de mim certo presságio de que dormirei.
— E eu vou rezar para que descanse. Você verá. Enquanto estiver lá, rezarei tanto por você que há de se curar sem saber de onde veio o remédio. O que menos imaginará, tolo, é que a rata eclesiástica o tomou por sua conta e está salvando-o sem que perceba. E, quando sentir alguma novidade na alma e se vir, da noite para o dia, com todas essas manchas ateias bem curadas, dirá: “Milagre, milagre!”; mas não será milagre algum, e sim que você tem proteção, como se costuma dizer. Enfim, não quero atordoá-lo, pois é tarde... Deite-se cedo e durma sete horas de uma vez.
Deu-lhe vários tapinhas nos ombros, e ele a viu sair com desconsolo. Desejaria que lhe fizesse companhia por mais algum tempo, pois suas palavras lhe faziam muito bem.
— Ouça uma coisa... Se quiser me chamar cedo, chame... Prometo que amanhã me comportarei com mais seriedade que hoje.
— Se estiver acordado, entrarei. Se não, não — disse Guillermina, voltando. — Convém-lhe mais dormir que rezar. Precisa de alguma coisa? Quer água com açúcar?
— Já está aqui. Retire-se, pois você também precisa dormir. Pobrezinha, não sei como aguenta... Que trabalho você tem!...
Ia dizer «e tudo para quê?», mas se conteve. A pessoa da tia nunca lhe fora tão agradável como naquela noite, e ele se sentiu atraído para ela por uma força irresistível. Finalmente, a santa foi embora, e pouco depois Moreno mandou o criado se retirar.
«Vou me deitar daqui a pouco», disse o cavalheiro consigo, «pois, embora creia que dormirei, ainda não tenho um pingo de sono. Vou me sentar aqui e revisar a lista de presentes, para ver se não esqueci ninguém. Ah, convém não esquecer as mantas. A irmã de Morris ficará zangada se eu não lhe levar algo de muito caráter...»
A ideia das mantas trouxe-lhe à mente, por associação, a lembrança de algo que vira naquela tarde. Ao ir à loja da Plaza Mayor à procura daquele artigo tão original, deparara com uma cega que pedia esmola. Era uma moça acompanhada por um velho violonista, e cantava jotas com tanta graça e maestria que Moreno não pôde deixar de se deter algum tempo diante dela. Era horrivelmente feia, andrajosa, malcheirosa e, quando cantava, parecia que os olhos leitosos e saltados, como os de um peixe morto, iam lhe sair das órbitas. Tinha o rosto cheio de cicatrizes de varíola. Nela só havia duas coisas bonitas: os dentes, branquíssimos, e a voz vigorosa e argentina, com vibrações de sentimento e um tom triste que enchia a alma de pungente nostalgia. «Isto, sim, tem caráter», pensava Moreno ao ouvi-la; e, durante algum tempo, ficou encantado pelas cadências graciosas, por aquele gorjeio amoroso que as celebridades do teatro não sabem imitar. A letra era tão poética quanto a música.
Moreno levara a mão ao bolso para tirar uma peseta. Parece-lhe, porém, que era muito e tirou dois pence, isto é, duas moedas pequenas, e foi embora.
Pois naquela noite a moça cega, sua feiura e seu belo canto lhe apareceram com tamanha vivacidade que ele julgava vê-la e ouvi-la. A música popular reviveu-lhe no cérebro de tal modo que a ilusão melhorava a realidade. E a jota espalhava por todo o seu ser uma tristeza infinita, mas que ao mesmo tempo era consoladora, bálsamo suavemente aplicado por uma mão celestial. «Eu devia ter lhe dado a peseta», pensou, e essa ideia lhe provocou um remorso indizível. Sua suscetibilidade nervosa era tão grande que todas as impressões recebidas eram intensíssimas, e o prazer ou a dor que delas emanavam revolviam o mais profundo de suas entranhas. Sentiu vontade de chorar... Aquela música vibrava em sua alma como se esta fosse inteiramente composta de cordas harmoniosas. Depois ergueu a cabeça e disse consigo:
«Mas estou dormindo ou acordado? Realmente devia ter lhe dado a peseta... Pobrezinha! Se amanhã tivesse tempo, iria procurá-la para dar.»
O relógio da Puerta del Sol bateu a hora. Depois, Moreno percebeu o silêncio profundíssimo que o envolvia, e a ideia da solidão sucedeu em sua mente às impressões musicais. Imaginava que não existia ninguém a seu lado, que a casa estava deserta, o bairro deserto, Madri deserta. Olhou por algum tempo para a luz e, bebendo-a com os olhos, foi assaltado por outras ideias. Eram as ideias principais, por assim dizer, as ideias inquilinas, pombas que voltavam ao pombal depois de passear um pouco pelos ares.
«Ela é quem perde...», disse consigo, com certa convicção enfática. «E no desprezo leva o castigo, pois nunca terá o consolo que deseja... Eu me consolarei com minha solidão, que é o melhor dos amigos. E quem me garante que no ano que vem, quando eu voltar, não a encontrarei em outra disposição? Vamos ver... por que não haveria de ser assim? Ela terá se convencido de que amar um marido como o seu é contrário à natureza; e seu Deus, aquele bom Senhor deitado na urna de vidro, com o lençol de cambraia finíssima, aquele mesmo Deus, amigo de Estupiñá, há de aconselhá-la a me amar. Oh, sim, no ano que vem eu volto... em abril já estarei vindo para cá. Minha tia verá se não me torno místico, e tão místico que deixarei pequeninos os daqui... Oh!... minha menina adorada bem vale uma missa. E então gastarei um milhão, dois milhões, seis milhões para construir um asilo beneficente. Para quê disse Guillermina? Ah, para loucos; sim, é do que mais se precisa... e me chamarão de Providência dos desgraçados, e espantarei o mundo com minha devoção... Teremos um, dois, muitos filhos, e serei o mais feliz dos homens... Comprarei para aquele Cristo tão cheio de hematomas uma urna de prata... e...»
Levantou-se e, depois de andar duas ou três vezes pelo quarto, tornou a se sentar junto à mesa em que estava a luz, pois sentira uma opressão muito incômoda. As pulsações, que por um instante haviam cessado, voltaram com força esmagadora, acompanhadas de uma sensação de plenitude no tórax.
«Como estou mal agora!... mas isto passará, e vou dormir. Esta noite dormirei muito bem... A opressão já está passando. Pois sim, em abril volto, e para então tenho certeza de que...»
Teve de enrijecer o corpo, pois do centro deste lhe subia pelo peito um volume imenso, uma onda, algo que lhe cortava a respiração. Estendeu o braço como quem acompanha uma palavra com o gesto; mas a palavra, talvez expressão de angústia ou pedido de socorro, não pôde sair de seus lábios. A onda crescia; ele a sentiu passar pela garganta e subir, subir sempre. Deixou de ver a luz. Pôs ambas as mãos na borda da mesa e, inclinando a cabeça, apoiou nelas a testa, soltando um gemido surdo. Assim ficou, imóvel, mudo. E naquela atitude de recolhimento e tristeza expirou aquele homem infeliz.
A vida cessou nele em consequência da ruptura e do derramamento vascular, que lhe produziram uma comoção instantânea, extinta tão depressa quanto iniciada. Desprendeu-se da humanidade; caiu da grande árvore a folha completamente seca, sustentada apenas por uma fibra imperceptível. A árvore nada sentiu em seus imensos ramos. Aqui e ali, no mesmo instante, caíam folhas e mais folhas inúteis; mas a manhã seguinte iluminaria inumeráveis brotos, frescos e novos.
Já de dia, Guillermina aproximou-se da porta e encostou o ouvido. Não percebeu ruído algum. Não havia luz.
«Dorme como um santo... Bela tolice eu faria se o acordasse.»
E afastou-se na ponta dos pés.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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