Universo da obra
Universo da obra
Passavam-se os meses, passavam-se os anos, e naquela casa feliz tudo era paz e harmonia. Nunca se conheceu em Madri família mais unida que a dos Santa Cruz, composta de dois casais; tampouco é possível imaginar compatibilidade de caracteres como a que existia entre Barbarita e Jacinta. Vi muitas vezes juntas a sogra e a nora e, por Deus, nelas pouco se manifestava a diferença de idades. Aos cinquenta e três anos, Barbarita conservava um frescor maravilhoso, a cintura perfeita e a dentadura surpreendente. É verdade que tinha os cabelos quase inteiramente brancos, mais parecendo empoados conforme o estilo Pompadour do que embranquecidos pela idade. Aquilo que mais a tornava jovem, porém, era a afabilidade constante, aquele sorriso gracioso e benevolente que iluminava seu rosto.
Na verdade, aquelas quatro pessoas não tinham motivo para queixar-se do destino. Há indivíduos e famílias aos quais Deus nada deve e que, no entanto, pedem e tornam a pedir.
É que existe na natureza humana um vício de mendicância; disso não há dúvida. Sirvam de exemplo os Santa Cruz, que desfrutavam de saúde perfeita, eram ricos, estimados por todos e amavam-se profundamente. O que lhes faltava? Ao que parece, nada. Pois um dos quatro mendigava. Quando um conjunto de circunstâncias favoráveis põe nas mãos do homem grande quantidade de bens, privando-o de um só, a fatalidade de nossa natureza, ou o princípio de descontentamento existente no barro de que somos feitos, impele-o a desejar precisamente aquilo, o pouquinho que não lhe foi concedido. Saúde, amor, riqueza, paz e outras vantagens não satisfaziam a alma de Jacinta; após um ano de casamento, mais ainda depois de dois, desejava ardentemente aquilo que não tinha. Pobre moça! Tinha tudo, menos filhos.
Aquela tristeza, que no princípio fora um insignificante desassossego, simples impaciência, logo se transformou em dolorosa ideia de vazio. Segundo Barbarita, era pouco cristão desesperar-se pela falta de descendência. Deus, que lhes dera tantos bens, privara-os daquele. Não havia outro remédio senão resignar-se, louvando a mão daquele que demonstra igualmente sua onipotência dando e tirando.
Assim consolava a nora, que mais lhe parecia filha; no íntimo, porém, desejava tanto quanto Jacinta a chegada de um menino que perpetuasse a linhagem e alegrasse a todos. Calava esse desejo ardente para não aumentar a tristeza da outra, mas observava com ansiedade tudo quanto pudesse ser sintoma de esperança de descendência. Mas qual o quê! Passava um ano, dois, e nada; nem sequer aquelas vagas suposições que fazem palpitar o coração das mulheres que sonham com a maternidade e às vezes as levam a dizer e fazer muitas tolices.
— Não tenha pressa, minha filha — dizia Barbarita à sobrinha. — Você é muito jovem. Não se aflija por causa dos filhos; ainda os terá, ficará carregada de família e se aborrecerá como sua mãe se aborreceu, e pedirá a Deus que não lhe dê mais nenhum. Sabe de uma coisa? Estamos melhor assim. As crianças revolvem tudo e só trazem desgostos. Sarampo, difteria... E nem lhe falo das amas!... que calamidade!... Depois você vira uma escrava... Se comem, se têm indigestão, se caem e racham a cabeça. Depois vêm as inclinações que demonstram. Se nascem de má índole... se não estudam... sei lá!...
Jacinta não se convencia. Queria canários de alcova a todo custo, ainda que nascessem raquíticos e feios; ainda que depois fossem travessos, doentes e irresponsáveis; ainda que, já homens, a matassem de desgosto. Suas duas irmãs mais velhas pariam todos os anos, como a mãe. E ela, nada, nem esperanças. Para aumentar o contrassenso, Candelaria, casada com um pobre, tivera dois de uma só vez. E ela, que era rica, não tinha nem sequer meio!... Deus sem dúvida já estava gagá.
Passemos agora a outro assunto. Os Santa Cruz, como família respeitabilíssima e rica, tinham excelentes relações e amigos em todas as esferas, da mais alta à mais baixa. É curioso observar como nossa época, infeliz sob outros aspectos, nos apresenta uma ditosa confusão de todas as classes, melhor dizendo, a concórdia e reconciliação de todas elas. Nisso nosso país leva vantagem sobre outros, nos quais os graves processos históricos da igualdade ainda aguardam sentença. Aqui o problema foi resolvido de modo simples e pacífico, graças ao temperamento democrático dos espanhóis e à pouca veemência dos preconceitos nobiliárquicos. Um grande defeito nacional, a mania dos empregos públicos, também teve sua parte nessa grande conquista. As repartições foram o tronco em que os ramos históricos foram enxertados, e delas saíram amigos o nobre falido e o plebeu ensoberbecido por um título universitário; e, de amigos, logo passaram a parentes. Essa confusão é um bem e, graças a ela, não nos aterroriza o contágio da guerra social, pois já temos na massa do sangue um socialismo atenuado e inofensivo. Insensivelmente, com a ajuda da burocracia, da pobreza e da educação acadêmica recebida por todos os espanhóis, todas as classes foram-se compenetrando, e seus membros introduzem-se de uma na outra, tecendo uma rede espessa que amarra e solidifica a massa nacional. O nascimento nada significa entre nós, e tudo quanto se diz sobre pergaminhos é conversa. Não há outras diferenças além das essenciais, fundadas na boa ou má educação, em ser tolo ou sensato, nas desigualdades do espírito, eternas como os atributos do próprio espírito. A outra determinação positiva das classes, o dinheiro, funda-se em princípios econômicos tão imutáveis quanto as leis físicas, e pretender impedi-la equivale a tentar beber o mar.
As amizades e parentescos das famílias Santa Cruz e Arnaiz podem servir de exemplo daquela feliz mistura das classes sociais; mas quem é o valente que se atreve a fazer a estatística dos ramos de árvore tão extensa e labiríntica, que mais parece uma trepadeira cujos brotos se cruzam, sobem, descem e se perdem nos vãos de uma folhagem densíssima? Tal empresa só pode ser tentada com a ajuda de Estupiñá, que conhece nos mínimos detalhes a história de todas as famílias comerciais de Madri e todos os enlaces realizados em meio século. O gordo Arnaiz também se delicia falando de linhagens e procurando parentescos, descobrindo origens humildes de fortunas orgulhosas e insistindo na desigualdade de certos casamentos, aos quais, a bem da verdade, se deve a formação do terreno democrático sobre o qual se assenta a sociedade espanhola. De uma conversa entre Arnaiz e Estupiñá saíram as notícias seguintes:
Já sabemos que a mãe de dom Baldomero Santa Cruz e a de Gumersindo e Barbarita Arnaiz eram parentes e descendiam do Trujillo extremenho e fabricante de albardas. A atual casa bancária Trujillo y Fernández, de respeitabilidade e solidez impecáveis, procede do mesmo tronco. Barbarita é, portanto, parente do chefe daquela casa, embora o parentesco seja um tanto distante. O primeiro conde de Trujillo é casado com uma das filhas do famoso negociante Casarredonda, que fez fortuna colossal vendendo fardos de Coruñas e Viveros para vestir a tropa e a Milícia Nacional. Outra das filhas do marquês de Casarredonda era duquesa de Gravelinas. Temos aqui, perfeitamente engatadas, a aristocracia antiga e o comércio moderno.
Existe, porém, em Cádiz uma antiga e opulenta família comercial que serviu como nenhuma outra para enredar ainda mais a meada social. As filhas do famoso Bonilla, importador de lenços e depois banqueiro e exportador de vinhos, casaram-se: uma com Sánchez Botín, proprietário, de quem descenderam a generala Minio, a marquesa de Tellería e Alejandro Sánchez Botín; outra com um dos Morenos de Madri, cofundador dos Cinco Gremios e do Banco de San Fernando; e a terceira com o duque de Trastamara, de quem descendeu Pepito Trastamara. O único filho homem de Bonilla casou-se com uma Trujillo.
Passemos agora aos Morenos, procedentes do vale de Mena, uma das famílias mais extensas e que apresentam maiores desigualdades e contrastes em seus infinitos e dispersos membros. Arnaiz e Estupiñá discutem, sem chegar a acordo, se o tronco dos Morenos esteve numa drogaria ou numa casa de peles. Reina aí certa obscuridade, que não se dissipará enquanto não aparecer um desses investigadores fanáticos, capazes de contar a Noé quantos cabelos tinha na cabeça e o número de esses que traçou quando pegou a primeira bebedeira de que a História tem notícia. O que se sabe é que um Moreno casou-se com uma Isla-Bonilla no começo do século, vindo daí a casa de câmbio que, de 19 a 35, esteve na subida de Santa Cruz, junto à igreja, e depois na Plazuela de Pontejos. Pela mesma época encontramos um Moreno na Magistratura, outro na Armada, outro no Exército e outro na Igreja. A casa bancária já não se chamava Moreno em 1870, e sim Ruiz-Ochoa y Compañía, embora um de seus principais sócios fosse dom Manuel Moreno-Isla. Temos diferentes estirpes do tronco remotíssimo dos Morenos. Há os Moreno-Isla, os Moreno-Vallejo e os Moreno-Rubio, isto é, os Morenos ricos e os Morenos pobres, já tão distantes uns dos outros que muitos nem se tratam nem se consideram parentes. Castita Moreno, aquela amiga vaidosa de Barbarita na escola da Calle Imperial, nascera entre os Morenos ricos e foi parar, com as voltas da vida, entre os Morenos pobres. Casou-se com um farmacêutico da interminável família dos Samaniegos, que também ocupam seu lugar aqui. Uma jovem pertencente aos Morenos ricos casou-se com um Pacheco, aristocrata filho segundo, irmão do duque de Gravelinas, e dessa união nasceu Guillermina Pacheco, que conheceremos depois. Vejam agora como um ramo dos Morenos se mete entre a folhagem dos Gravelinas, onde também já se prende o galho dos Trujillos, que por sua vez vinha entrelaçado aos Arnaiz de Madri e aos Bonilla de Cádiz, formando um emaranhado cujos fios não é possível acompanhar com os olhos.
E há mais. Dom Pascual Muñoz, dono de uma conceituadíssima loja de ferragens na Calle de Tintoreros, progressista de imenso prestígio nos bairros do Sul, verdadeira potência eleitoral e política em Madri, casou-se com uma Moreno de não sei qual ramo, aparentada com Mendizábal e com Bonilla, de Cádiz. Seu filho, que depois se tornou marquês de Casa-Muñoz, casou-se com a filha de Albert, aquele que dava a cara nos contratos de tecidos e linhos com o Governo. Eulalia Moreno, também filha de dom Pascual e irmã do atual marquês, uniu-se a dom Cayetano Villuendas, rico proprietário de casas, progressista dos antigos. Deixemos essas pontas soltas para retomá-las mais adiante.
Os Samaniegos, oriundos, como os Morenos, também da região de Mena, são uma multidão sem fim. Já sabemos que a segunda filha de Gumersindo Arnaiz, irmã de Jacinta, casou-se com Pepe Samaniego, filho de um droguista arruinado da Concepción Jerónima... Há muitos Samaniegos no pequeno comércio e, lendo o instrutivo livro das placas de lojas, encontra-se a Farmacia de Samaniego na Calle del Ave María, cujo dono era o marido de Castita Moreno, e a Carnicería de Samaniego na Calle de las Maldonadas. Sem placa, há um Samaniego agiota e meio escrivão, outro cobrador do Banco, outro que tem uma loja de sedas na Calle de Botoneras e, por fim, vários que são caixeiros em diferentes lojas. O Samaniego agente da Bolsa é primo desses.
A filha mais velha de Gumersindo Arnaiz casou-se com Ramón Villuendas, já viúvo e com dois filhos, célebre cambista da Calle de Toledo, a casa de Madri que mais trabalha no negócio de moedas. Um irmão dele casou-se com a filha da viúva de Aparisi, dona da camisaria na qual Pepe Samaniego fora caixeiro. O tio de ambos, dom Cayetano Villuendas, progressista exaltado e riquíssimo proprietário de imóveis, era esposo de Eulalia Muñoz, e sua grande fortuna procedia do negócio de curtumes numa época anterior à de Céspedes. A ponta que pouco antes ficara pendente está agora amarrada.
Apresentam-se agora alguns ramos que parecem soltos, mas não estão. Quem, porém, poderá descobrir sua ligação misteriosa com os brotos revolvidos e cruzados dessa trepadeira colossal? Quem poderá investigar se Dámaso Trujillo, que abriu na Plaza Mayor a sapataria Al Ramo de Azucenas, pertence à legítima linhagem dos Trujillos antes mencionados? Qual será o investigador que se lançará a esclarecer se o dono de El Buen Gusto, uma lojinha de mantas da Calle de la Encomienda, é parente indubitável dos Villuendas ricos? Há quem diga que Pepe Moreno Vallejo, o cordoeiro da Concepción Jerónima, é primo-irmão de dom Manuel Moreno-Isla, um dos Morenos que amarram cachorros com linguiça; e diz-se que um Arnaiz, empregado de salário baixo, é parente de Barbarita. Há um Muñoz y Aparisi, vendedor de tripas nas imediações do Rastro, que se supõe primo em segundo grau do marquês de Casa-Muñoz e de sua irmã, a viúva de Aparisi; e, por fim, é preciso registrar que certo Trujillo, jesuíta, reclama lugar em nossa trepadeira, e também é preciso concedê-lo ao Ilustríssimo Bispo de Plasencia, frei Luis Moreno-Isla y Bonilla. Igualmente traz em sua árvore o nome de Trujillo a mulher de Zalamero, subsecretário de Gobernación; seu primeiro sobrenome, porém, é Ruiz Ochoa, e ela é filha da distinta pessoa que hoje dirige o banco de Moreno.
Barbarita não convivia com todos os indivíduos que aparecem nessa complicada trepadeira. Evitava muitos por estarem alto demais; mal distinguia outros por estarem muito embaixo. Suas amizades verdadeiras, assim como os parentescos reconhecidos, não eram numerosas, embora abrangessem um círculo muito extenso, no qual se misturavam todas as hierarquias. Num mesmo dia, ao sair para passear ou fazer compras, trocava cumprimentos mais ou menos afetuosos com a senhora de Ruiz Ochoa, com a generala Minio, com Adela Trujillo, com um Villuendas rico, com um Villuendas pobre, com o peixeiro parente de Samaniego, com a duquesa de Gravelinas, com um Moreno Vallejo magistrado, com um Moreno Rubio médico, com um Moreno Jáuregui chapeleiro, com um Aparisi cônego, com vários caixeiros, com gente tão diversa, enfim, que outra pessoa de menor tino teria trocado os nomes e os tratamentos.
Nem a mente mais segura é capaz de acompanhar, em seu labiríntico enredo, as direções dos brotos dessa árvore colossal de linhagens madrilenas. Os fios se cruzam, perdem-se e reaparecem onde menos se espera. Depois de mil voltas para cima e outras tantas para baixo, juntam-se, separam-se e, de sua emenda ou bifurcação, nascem novos enlaces, novas meadas e novos emaranhados. É curioso ver como se tocam os extremos da imensa ramagem; por exemplo, quando Pepito Trastamara, que leva o nome dos bastardos de dom Alfonso XI, vai pedir dinheiro a Cándido Samaniego, agiota usurário, membro da Sociedade Protetora de Senhorzinhos Necessitados.
Os Santa Cruz moravam em casa própria na Calle de Pontejos, de frente para a pracinha do mesmo nome, imóvel comprado ao falecido Aparisi, um dos sócios da Companhia das Filipinas. Os proprietários ocupavam o andar nobre, que era imenso, com doze sacadas para a rua e grande comodidade interna. Barbarita não o trocaria por nenhum dos hotéis modernos, onde tudo se reduz a escadas e que, além disso, ficam abertos aos quatro ventos. Ali tinha quartos em número mais que suficiente, todos num só andar, do salão à cozinha. Tampouco trocaria o bairro, aquele rim de Madri em que nascera, por nenhum dos conjuntos de casas novíssimas que tinham fama de mais ventilados e alegres. Por mais que dissessem, o bairro de Salamanca era campo... A boa senhora era tão apegada ao solo de seu bairro natal que, para ela, não morava em Madri quem não ouvisse pelas manhãs o ruído côncavo das cubas dos aguadeiros na fonte de Pontejos; quem não sentisse, de manhã e à tarde, a balbúrdia armada pelas carruagens do correio; quem não recebesse a toda hora o hálito lojista da Calle de Postas e não escutasse, no Natal, os golpes de zambombas e pandeiros na Plazuela de Santa Cruz; quem não ouvisse as badaladas do relógio da Casa de Correos tão claras como se estivessem dentro de casa; quem não visse passar os cobradores do Banco carregados de dinheiro e os carteiros saírem em procissão. Barbarita acostumara-se aos ruídos da vizinhança como se fossem amigos e não conseguia viver sem eles.
A casa era tão grande que os dois casais viviam nela com folga e ainda sobrava espaço. Tinham um salão um tanto antiquado, com três sacadas. À esquerda vinha o gabinete de Barbarita, depois outro aposento, em seguida a alcova. À direita do salão ficava o escritório de Juanito, assim chamado não porque ele tivesse ali alguma coisa a despachar, mas porque havia uma mesa com tinteiro e duas belas estantes de livros. Era um quarto muito bem-arrumado e confortável. O pequeno gabinete de Jacinta, contíguo a esse cômodo, era a peça mais bonita e elegante da casa e a única revestida de tecido; todas as outras tinham papel de parede de arte duvidosa, com predomínio de cinzentos e cor de rolinha com ouro. Viam-se ali algumas aquarelas muito bonitas, compradas por Juanito, e duas ou três pinturas leves a óleo, tudo selecionado e de assinaturas razoáveis, porque Santa Cruz tinha bom gosto dentro do gosto vigente. Os móveis eram de cetim ou de veludo e seda combinados conforme a moda, sendo digno de nota que aquilo que ali se via não chamava a atenção nem pela originalidade nem pela rotina. Vinha depois a alcova do jovem casal, que se distinguia principalmente da paterna porque nesta havia leito comum, e os jovens tinham camas separadas. As duas camas de jacarandá eram muito elegantes, com baldaquinos de seda azul. A dos pais parecia um andaime de mogno, com cabeceira em forma de morrião e colunas como as de um sacrário de Quinta-Feira Santa. A alcova dos pombinhos comunicava-se com os quartos de serviço e era seguida por dois aposentos grandes que Jacinta destinava aos filhos... quando Deus os concedesse. Estavam mobiliados com as sobras dos cômodos que eram renovados, e seu aspecto era extremamente heterogêneo. A arrumação definitiva daqueles quartos vagos, porém, existia completa na imaginação de Jacinta, que já previra até os últimos detalhes de tudo quanto seria posto ali quando chegasse a ocasião.
A sala de jantar era interna, com três janelas para o pátio, uma grande mesa e aparadores de nogueira cheios de finíssima louça da China, as conhecidas cadeiras de couro cravejado e, nas paredes, papel imitando carvalho, ripas também cravejadas e naturezas-mortas a óleo, não ruins, com a invariável fatia de melancia, o coelho morto e umas postas de pescada que, de tão bem pintadas, pareciam cheirar mal. O escritório de dom Baldomero também era interno.
Os Santa Cruz tinham assinatura de um landau. Eram vistos nos passeios, mas sua carruagem era dessas que não chamam a atenção. Juan costumava ter, por temporadas, um faetonte ou um tílburi, que conduzia muito bem, e também tinha cavalo de sela; a comichão da variedade, porém, picava-o tanto que, pouco depois de montar um cavalo, já começava a encontrar defeitos e queria vendê-lo para comprar outro. Os dois casais viviam bem, mas sem ostentar, sempre evitando destacar-se e que os jornais os chamassem de anfitriões. Comiam bem; em casa havia pouquíssima etiqueta e certo patriarcalismo, pois às vezes sentavam-se à mesa pessoas de classe humilde e outras muito respeitáveis que haviam empobrecido. Não tinham cozinheiro desses de gorro branco, mas uma cozinheira antiga muito habilidosa, capaz de medir seus talentos com qualquer chefe; ajudavam-na duas auxiliares, que mais pareciam aprendizes.
No primeiro dia de cada mês, Barbarita recebia do marido mil duros. Dom Baldomero desfrutava de uma renda de vinte e cinco mil pesos, parte proveniente dos aluguéis de suas casas, parte de ações do Banco de España, e o restante da participação que conservava em seu antigo armazém. Dava ainda ao filho dois mil duros a cada semestre para as despesas particulares e, em diferentes ocasiões, oferecera-lhe um pequeno capital para que empreendesse negócios por conta própria; mas o rapaz vivia bem em sua indolência dourada e não queria dores de cabeça. O restante da renda era capitalizado por dom Baldomero, ora adquirindo mais ações a cada ano, ora juntando dinheiro para comprar outra casa. Dos mil duros que a senhora recebia todo mês, dava ao Delfim dois ou três mil reales, e ele, com isso e com o que recebia do papai, vivia como no paraíso; os dezessete mil reales restantes destinavam-se às despesas diárias da casa e às de ambas as damas, que se entendiam muito bem na distribuição, sem que jamais houvesse entre elas o menor ressentimento por um duro a mais ou a menos. As duas cuidavam do governo doméstico, mas particularmente a sogra, que mostrava certas tendências ao despotismo esclarecido. A nora tinha o delicado talento de respeitar isso e, quando via alguma disposição sua ser revogada pela autocrata, mostrava-se de acordo. Barbarita era administradora-geral da casa por dentro, e o próprio marido, depois de lhe entregar religiosamente o dinheiro, não precisava pensar em nada doméstico, salvo nas viagens de verão. A senhora pagava tudo, desde o aluguel da carruagem até a peseta de El Imparcial, sem precisar manter contas de distribuição tão complicada nem anotar cifra alguma. Seu tino aritmético era tão admirável que nem uma única vez ultrapassou a linha incerta que os ricos atravessam com tanta facilidade; chegava o fim do mês e sempre havia um superávit, com o qual ajudava certas empresas de caridade de que se falará mais adiante. Jacinta gastava sempre muito menos do que a sogra lhe dava para miudezas; não gostava de estrear roupas com frequência nem de enriquecer costureiras. Os hábitos de economia adquiridos na infância estavam tão arraigados que, embora nunca lhe faltasse dinheiro, levava uma costureira para casa a fim de fazer pequenos trabalhos de roupa e ajustes de vestidos que outras senhoras menos ricas costumavam encomendar fora. E, para sua felicidade, não precisava esquentar a cabeça pensando no emprego das sobras, pois ali estava sua irmã Candelaria, pobre e cada vez mais carregada de família. As irmãzinhas solteiras também recebiam dela presentes frequentes, ora os chapeuzinhos da moda, ora o fichu ou a manteleta, e até vestidos completos recém-chegados de Paris.
A assinatura de um turno de camarote no andar nobre do Teatro Real foi ideia de dom Baldomero, que não tinha a menor vontade de ouvir óperas, mas queria que Barbarita fosse para contar-lhe, ao se deitarem ou depois de já estarem deitados, tudo quanto vira no Régio Coliseu. Aconteceu que o Real tampouco atraía muito Barbarita, mas ela aceitou alegremente para que Jacinta fosse. Esta, por sua vez, não sentia na verdade grande vontade de ir ao teatro, mas ficou muito contente por poder levar ao Real suas irmãzinhas solteiras, pois, se não fosse assim, as pobrezinhas nunca o conheceriam. Juan, grande apreciador de música, tinha assinatura diária, com seis amigos, de um camarote alto junto ao proscênio.
As senhoras Santa Cruz não chamavam a atenção no teatro e, se algum olhar caía sobre o camarote, era para as mocinhas dispostas na primeira fila com simetria de vitrine. Barbarita costumava sentar-se na frente para passar os binóculos ao redor e poder contar a Baldomero alguma coisa além das decorações e do enredo da ópera. As duas irmãs casadas, Candelaria e Benigna, iam de vez em quando, Jacinta quase sempre, mas se divertia muito pouco. Aquela mulher mimada por Deus, que a pusera cercada de ternura e prosperidade no lugar mais saudável, bonito e tranquilo deste vale de lágrimas, costumava dizer em tom queixoso que não sentia gosto por nada. Invejada por todos, invejava qualquer mulher pobre e descalça que passasse pela rua com um bebê de peito nos braços, embrulhado em trapos. Seus olhos seguiam a infância sob qualquer forma em que se apresentasse, fossem os meninos ricos, vestidos de marinheiro e conduzidos pela governanta inglesa, fossem os pequenos pobres, envoltos em baeta amarela, sujos, com caspa na cabeça e um pedaço de pão lambido na mão. Não aspirava a ter apenas um, mas queria ver-se cercada de uma série inteira, desde o tratante de cinco anos, falador e travesso, até o bebê de meses que não faz senão rir como um tolo, engolir leite e fechar os punhos. Seu desconsolo manifestava-se a cada instante, ora quando encontrava um bando a caminho da escola, com as lousas ao ombro e o embrulho de livros cheio de sujeira, ora quando lhe saía ao encontro algum mendigo precoce coberto de farrapos, mostrando, para despertar compaixão, as carnes desabrigadas e os pés descalços, cheios de frieiras. Quando via os alunos da Escuela Pía, com uniforme agaloado e luvas, tão limpos e bem-arrumados que pareciam pequenos cavalheiros, devorava-os com os olhos. As meninas vestidas de rosa ou azul-celeste que brincavam de roda no Prado e pareciam flores vivas caídas das árvores; as pobrezinhas que envolviam a cabeça num xale furado; os que davam os primeiros passinhos à porta de uma loja, agarrados à parede; os que mamavam no seio das mães olhando pelo canto dos olhos para quem se aproximava a fim de observá-los; os pequenos moleques que faziam travessuras nas ruas ou num terreno vazio, atirando pedras uns nos outros e rasgando as roupas para desespero das mães; as meninas que no Carnaval se vestiam de valentonas e requebravam-se com a mão fincada na cintura; as que pediam para a Cruz de Maio; os mais crescidinhos, que já usavam bengala e ganhavam prêmios nos colégios, e os que nas sessões teatrais da tarde soltavam um grito na cena mais interessante, distraindo os atores e enfurecendo o público... todos, em uma palavra, interessavam-na igualmente.
E de tal modo o anseio da maternidade ia assenhoreando-se de sua alma que logo começou a embotar-se nela a faculdade de apreciar as vantagens de que desfrutava. Estas se tornaram invisíveis para ela, como é invisível para todos os seres o meio fundamental de nossa vida, a atmosfera. Mas o que fazia Deus, que não mandava ao menos uma das infinitas crianças que tinha por lá? Em que pensava Sua Divina Majestade? E Candelaria, que mal tinha com que viver, uma por ano!... E que ainda viessem dizer que há equidade no Céu... Sim, não está nada má a justiça lá de cima... sim... já estamos vendo... De tanto pensar nisso, às vezes parecia uma monomaníaca e precisava recorrer ao bom senso para não deixar transparecer o desatino de seu espírito, que quase chegava ao ridículo. E ocorriam-lhe coisas tão estranhas...! Sua dor tinha as intermitências mais extraordinárias e, depois de longos períodos de calma, apresentava-se impetuosa e aguda, como mal crônico sempre à espreita para atacar quando menos se espera. Às vezes, uma palavra insignificante ouvida na rua ou em casa, ou a visão de qualquer objeto, acendia-lhe de súbito na mente a chama daquele tema, provocando opressões no peito e sobressalto inexplicável.
Distraía-se cuidando e mimando os filhos das irmãs, a quem amava profundamente; mas sempre havia entre ela e os sobrinhos uma distância que não conseguia preencher. Não eram seus, não os tivera, não os sentia ligados a si por um fio misterioso. Aqueles que estavam verdadeiramente ligados a ela só existiam em seu pensamento, e precisava acendê-lo e avivá-lo como uma forja para fabricar as verdadeiras alegrias da maternidade. Certa noite saiu da casa de Candelaria para voltar à sua pouco antes da hora do jantar. Ela e a irmã haviam-se desentendido por uma tolice, porque Jacinta mimava demais Pepito, menino de três anos, primogênito de Samaniego. Comprava-lhe brinquedos caros, punha-lhe nas mãos, para que as quebrasse, as figuras de porcelana da sala e permitia que comesse mil guloseimas.
— Ah, se você fosse mãe de verdade, não faria isso...
— Pois, se não sou, melhor... O que lhe importa?
— A mim, nada. Desculpe, minha filha, que gênio!
— Não estou zangada...
— Ora, como você está mimada!
Essas e outras tolices não tinham consequências e, quinze minutos depois, as duas caíam na risada e ficavam em paz. Naquela noite, porém, ao retirar-se, a Delfina sentia vontade de chorar. Nunca o desejo de ter filhos se manifestara em sua alma de modo tão imperioso. A irmã a humilhara, a irmã se irritava porque ela amava tanto o sobrinho. E aquilo o que era senão ciúme?... Pois, quando tivesse um menino, não permitiria que ninguém sequer olhasse para ele... Percorreu o espaço entre a Calle de las Hileras e a Calle de Pontejos extraordinariamente agitada, sem ver ninguém. Chovia um pouco, e nem se lembrou de abrir o guarda-chuva. O gás das vitrines já estava aceso, mas Jacinta, que costumava parar para ver as novidades, não se deteve em parte alguma. Ao chegar à esquina da Plazuela de Pontejos e quando ia atravessar a rua para entrar na entrada de seu prédio, que ficava em frente, ouviu alguma coisa que a fez parar. Um frio cortante percorreu-lhe o corpo inteiro; ficou imóvel, o ouvido atento a um rumor que parecia vir do chão, do meio das próprias pedras da rua. Era um gemido, uma voz da natureza animal pedindo auxílio e defesa contra o abandono e a morte. E o lamento era tão penetrante, tão afiado e agudo que, mais que a voz de um ser vivo, parecia o som da corda mais fina de um violino tocada levemente na região mais alta da escala. Soava assim: miiiii... Jacinta olhava para o chão, pois aquele queixume vinha sem dúvida das profundezas da terra. Sentia-o penetrar em suas entranhas desconsoladas, atravessando-lhe o coração como uma agulha.
Procurou aqui, procurou ali e, por fim, viu junto à calçada, do lado da praça, uma dessas fendas abertas no meio-fio, chamadas bocas de lobo na linguagem municipal, que servem para dar entrada na rede de esgoto à água das ruas. Dali, sim, dali vinham aqueles lamentos que transtornavam a alma da Delfina, provocando-lhe dor e efusão de piedade incomparáveis. Tudo quanto nela existia de presunção materna, toda a ternura que os êxtases de mãe sonhadora haviam acumulado em sua alma transformaram-se em força ativa para responder ao miiiii subterrâneo com outro miiiii dito a seu modo.
A quem pediria socorro?
— Deogracias! — gritou, chamando o porteiro.
Felizmente, o porteiro estava na esquina da Calle de la Paz conversando com um condutor da carruagem do correio e ouviu imediatamente a voz de sua senhora. Em quatro passadas pôs-se ao lado dela.
— Deogracias... isso... esse som aí... olhe o que é... — disse a senhora, trêmula e pálida.
O porteiro prestou atenção; depois se pôs de quatro, olhando para a patroa com ar de esperteza e jovialidade.
— Pois... isto... Ah, são uns gatinhos que jogaram no esgoto.
— Gatinhos!... tem certeza?... mas certeza de que são gatinhos?
— Sim, senhora; devem ser da gata da livraria em frente, que pariu ontem à noite e não consegue criar todos...
Jacinta inclinou-se para ouvir melhor. O miiiii já soava tão profundo que mal se percebia.
— Tire-os daí — disse a dama com voz de autoridade indiscutível.
Deogracias tornou a pôr-se de quatro, arregaçou a manga e enfiou o braço pela abertura. Jacinta não podia notar em seu rosto a expressão de incredulidade, quase de zombaria. Chovia mais, e a água começava a entrar pela boca de lobo, escorrendo para dentro com um ruído de frigideira que quase já não permitia ouvir o tênue miiiii. A Delfina, contudo, continuava a ouvi-lo com toda a clareza. O porteiro levantou para o alto, como quem invoca o Céu, sua cara estúpida, e disse sorrindo:
— Senhora, não dá. Estão muito fundos... mas muito fundos.
— E não se pode levantar esta pedra? — perguntou ela, pisando-a com força.
— Esta pedra? — repetiu Deogracias, pondo-se de pé e olhando para a patroa como se olha para alguém de cuja razão se duvida. — Poder, pode... avisando o Ayuntamiento... O senhor Aparisi, vice-prefeito, é vizinho da casa... Mas...
Ambos aguçaram os ouvidos.
— Já não se ouve nada — observou Deogracias, com ar ainda mais estúpido. — Afogaram-se...
O bruto não sabia a punhalada que dava na patroa com aquelas palavras. Jacinta, contudo, acreditava ouvir o gemido nas profundezas. Aquilo, porém, não podia continuar. Começou a perceber a imensa desproporção existente entre a grandeza de sua piedade e a pequenez do objeto ao qual a consagrava. A chuva apertou, e a boca de lobo já engolia uma onda grossa que fazia gargarejos e ânsias ao chocar-se contra as paredes daquela garganta... Jacinta saiu correndo para casa e subiu. Seus nervos ficaram tão agitados e o coração tão oprimido que os sogros e o marido a julgaram doente; e durante toda a noite sofreu o incômodo indizível de ouvir constantemente o miiiii da boca de lobo. Na verdade, aquilo era uma tolice, talvez uma desordem nervosa; mas não conseguia evitá-lo. Ah! Se a sogra soubesse por Deogracias do ocorrido na rua, quanto zombaria! Jacinta envergonhava-se de antemão e corava apenas ao imaginar Barbarita entrando e dizendo-lhe com seu estilo travesso:
— Mas, minha filha, é verdade que você mandou Deogracias meter-se nos esgotos para salvar umas crianças abandonadas?...
Somente ao marido, sob palavra de segredo, contou o episódio dos gatinhos. Jacinta não conseguia esconder nada dele e tinha prazer especial em confiar-lhe até as mais vãs tolices que lhe passavam pela cabeça a respeito daquele tema da maternidade. Juan, que tinha talento, era indulgente com esses desvarios do afeto desocupado ou da maternidade sem filho. Ela se aventurava a contar-lhe tudo quanto lhe acontecia e dizia na intimidade e solidão conjugais muitas coisas que, à luz do dia, não ousaria pronunciar, porque ali vinham perfeitamente a propósito, porque ali se diziam sem esforço, como se saíssem sozinhas, porque, enfim, os comentários sobre a descendência tinham como base a renovação das probabilidades dela.
Barbarita fazia mal, muito mal, ao zombar da mania da filha. Como se ela própria não tivesse também a sua, e que mania! É verdade que levava sobre Jacinta a grande vantagem de poder satisfazê-la e dar realidade ao pensamento. Era uma viciada que se fartava dos prazeres desejados, enquanto a nora padecia horrivelmente por nunca possuir aquilo que ansiava. A satisfação do desejo deixava uma tão amalucada quanto a privação deixava a outra.
Barbarita tinha a loucura das compras. Cultivava a arte pela arte, isto é, a compra pela compra. Adquiria pelo simples prazer de adquirir e, para ela, não havia gosto maior que fazer uma excursão pelas lojas e entrar depois em casa carregada de coisas que, embora não fossem inúteis, tampouco eram absolutamente necessárias. Nunca ultrapassava, porém, o limite traçado por seus recursos, e nisso estava precisamente sua arte magistral de compradora rica.
Aquele vício tinha suas depravações, pois a senhora Santa Cruz não ia apenas às lojas de luxo, mas também aos mercados e percorria de ponta a ponta as bancas da Plazuela de San Miguel, as lojas de aves da Calle de la Caza e os postos de vitela fina da Costanilla de Santiago. Dona Barbarita era tão conhecida naquela zona que as feirantes disputavam-na e armavam grandes confusões entre si pela preferência de freguesa tão ilustre.
Tanto nos mercados quanto nas lojas, ela tinha um auxiliar inestimável, um batedor que encarava aquelas coisas como se nelas estivesse a salvação de sua alma. Era Plácido Estupiñá. Como morava na Cava de San Miguel, desde que se levantava, à primeira luz do dia, lançava um olhar de águia sobre as bancas da praça. Descia quando o pessoal ainda tomava a primeira bebida do dia nas tabernas e nos cafés ambulantes e passava os olhos pelos postos, inteirando-se do aspecto do mercado e das cotações. Depois, bem embrulhado na capa, ia a San Ginés, aonde às vezes chegava antes de o sacristão abrir a porta. Conversava um pouco com as beatas que lhe haviam tomado a dianteira, alguma das quais levava a chocolateira e o fogareiro e preparava o desjejum no próprio pórtico da igreja. Assim que ela se abria, todos se metiam lá dentro com tanta pressa como se fossem apanhar lugar numa sessão lotada, e começavam as missas. Barbarita só chegava pela terceira ou quarta e, assim que a via entrar, Estupiñá se aproximava devagarinho, deslizando de banco em banco como uma sombra, e punha-se ao lado dela. A senhora rezava em voz baixa, movendo os lábios. Plácido tinha muitas coisas a lhe dizer e entrecortava a oração para desembuchá-las.
— A de dom Germán vai começar na Capilla de los Dolores... Hoje a casa Martínez recebe congro; mostraram-me os despachos de Laredo... cheia de graça; o Senhor é convosco... não há couve-flor, porque os arrieiros de Villaviciosa não chegaram, por estarem perdidas as estradas... Com estas malditas águas!... e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus...
Às vezes passava algum tempo sem que nenhum dos dois soltasse um pio, ela numa extremidade do banco, ele a certa distância, atrás, ora ajoelhados, ora sentados. Estupiñá se entediava de vez em quando, embora não o declarasse, e gostava quando alguma beata atrasada ou beato pegajoso lhe perguntava sobre a missa:
— Ainda dá tempo de pegar esta?
Estupiñá respondia sim ou não da maneira mais cortês, acrescentando sempre, no caso negativo, alguma coisa que consolasse o interlocutor:
— Mas fique tranquilo; a do padre Quesada vai começar em seguida, e ele é um raio para despachar...
O que desejava era ver se nascia conversa.
Depois de um longo silêncio consagrado às devoções, Barbarita voltava-se para ele, dizendo com altivez imprópria daquele lugar santo:
— Ora, seu amigo, o Surdo, pregou-nos uma bela peça.
— Por quê, senhora?
— Porque eu lhe disse que encomendasse meio filé-mignon, e sabe o que ele mandou? Um pedaço enorme de fraldinha ou de patinho e um naco de paleta cheio de pelancas e tendões... Belo modo de tratar os fregueses. Nunca mais se compra nada dele. A culpa é sua... Aí está o que são seus protegidos...
Dito isso, Barbarita continuava rezando e Plácido começava a lançar mentalmente pragas contra o Surdo, um açougueiro a quem ele... Não protegia; apenas recomendara. Mas ainda cantaria algumas verdades muito claras ao tal Surdo. Outras famílias às quais o recomendara haviam-se queixado de que lhes dera tampa de chocalho, isto é, pescoço, a pior carne, em vez de verdadeira alcatra. Nestes tempos tão desmoralizados, não se pode recomendar ninguém. Em outras manhãs, vinha com esta ladainha:
— Como está hoje o mercado da caça! Que perdizes, senhora! Divindades, verdadeiras divindades.
— Chega de perdiz. Hoje precisamos ver se Pantaleón tem bons cabritos. Também gostaria de uma boa língua de vaca, bem grossa, e verificar se há vitela fina.
— Há uma tão fina, senhora, que parece tal e qual pescada.
— Pois bem, mande-me um bom filé-mignon e costeletas com rim. Você já sabe; não apareça com aquelas costeletas magras do outro dia. Comigo não se brinca.
— Fique tranquila... A senhora terá convidados amanhã?
— Terei; e de peixes, o que há?
— Deixei apalavrado o salmão, caso venha amanhã... O que temos hoje é uma infestação de lagostas.
Terminadas as missas, seguiam pela Calle Mayor em busca de emoções puras e inocentes, alcançadas com a prestatividade amável de um e o dinheiro abundante da outra. Nem sempre se ocupavam de coisas de comer. Muitas vezes Estupiñá levava notícias como esta:
— Senhora, senhora, não deixe de ver os cretones que os rapazes de Sobrino receberam... Que maravilha!
Barbarita interrompia um Pai-Nosso para dizer, ainda com a expressão religiosa no rosto:
— Com ramagens? Sim, e com toques de ouro. É isso que está na moda agora.
E no pórtico, onde Plácido já a esperava, dizia:
— Vamos à casa dos rapazes de Sobrino.
Eles mostravam a Barbarita, além dos cretones, uns cetins de algodão floridos que eram a grande novidade do dia; e à viciada faltava tempo para comprar um vestido para a nora, que costumava passá-lo a alguma das irmãs.
Outra mensagem:
— Senhora, senhora, esta missa já não dá mais para pegar; mas logo vai começar a do sobrinho do pároco, que é outro padre Fuguilla pela rapidez com que despacha. Pla já recebeu aqueles queijinhos... não me lembro como se chamam.
— Agora e na hora de nossa morte... sim, sei... Se forem como aquelas rosquinhas inglesas que você me fez comprar outro dia e que cheiravam a velhas... Pareciam do casamento de San Isidro.
Apesar da repreensão, ao saírem iam à casa de Pla com a intenção de não comprar mais que duas libras de passas de Corinto para fazer um bolo inglês, e a senhora ia-se enredando, enredando, até deixar na loja cerca de oitocentos ou novecentos reales. Enquanto Estupiñá admirava, do lado de dentro do balcão, as grandes novidades daquele Museu Universal de Comestíveis, dando sua opinião pericial sobre tudo, ora provando um biscoito de amêndoa e coco que parecia tal e qual maçapão de Toledo, ora apreciando pelo cheiro a superioridade do chá ou das especiarias, a dama chamava para si um dos caixeiros, que era um Samaniego, e... adeus, meu dinheiro. A cada instante Barbarita dizia «chega» e, depois da coleção de purês para sopas, vinham as pérolas do Nizán, o glúten da estrela, os molhos ingleses, o caldo de carne de tartaruga-marinha, a dúzia de garrafas de Saint-Émilion de que Juanito tanto gostava, o vidro de champignons extra que agradavam a dom Baldomero, a lata de anchovas, as trufas e outras miudezas. Da bolsa de Barbarita, sempre bem abastecida, saía o valor e, se havia algum quebrado na soma, ela tomava a liberdade de suprimi-lo por pagamento à vista.
— Vamos, rapazes, mandem tudo imediatamente lá para casa — dizia Estupiñá com despotismo ao despedir-se, apontando as compras.
— Ora, fiquem com Deus — dizia dona Barbarita, levantando-se da cadeira no momento em que o proprietário aparecia pela porta dos fundos da loja e cumprimentava a freguesa com mil amabilidades, tirando o gorro de seda.
— Vamos levando, meu filho... Ah, que roubalheira a desta casa!... Nunca mais entro aqui... Adeus, adeus.
— Até amanhã, senhora. A seus pés... Lembranças a dom Baldomero... Plácido, que Deus o guarde.
— Mestre... que haja saúde.
Certos artigos eram sempre comprados por atacado e, se possível, diretamente da origem. Barbarita tinha na medula dos ossos a fibra de comerciante e deleitava-se em conseguir a mercadoria por bom preço. Mas como teriam ficado distantes da realidade essas tentativas sem a ajuda do espelho dos corretores, Estupiñá, o Grande! Quanto aquele santo homem andava para encontrar ovos frescos em grande quantidade...! Todos os vendedores de aves da Cava o tratavam com grande deferência, e ele se dava não pouca importância, dizendo-lhes:
— Ou temos seriedade ou não temos seriedade. Examinemos o artigo, e depois discutiremos... calma, homem, calma.
E começava o exame de cada ovo contra a luz, o sopesar e os mil comentários sobre sua idade provável. Se algum daqueles sujeitos o enganasse, já podia encomendar-se a Deus, pois Estupiñá chegava como uma fera, ameaçando-o com o vice-prefeito, com a inspeção municipal e até com a forca.
Para o vinho, Plácido entendia-se com os comerciantes da Cava Baja, que iam fazer suas compras em Arganda, Tarancón ou la Sagra, e combinava com um medidor que lhe tomasse uma partida de tantos ou quantos tonéis e a remetesse por intermédio de um carroceiro já conhecido. Tinha de ser mercadoria de confiança, tal e qual vinho puro. O chocolate era uma das coisas em que Plácido empregava mais atividade e zelo, pois, assim que Barbarita lhe dava ordens, o homem já não tinha sossego. Comprava o cacau superior, o açúcar e a canela na casa de Gallo e mandava levar tudo aos ombros de um carregador, sem perdê-lo de vista, até a casa daquele que fazia a moagem. Os Santa Cruz não transigiam com chocolates industriais, e o que tomavam precisava ser feito à mão. Enquanto o chocolateiro trabalhava, Estupiñá transformava-se numa mosca, quero dizer, passava o dia inteiro rondando a tarefa para ver se era feita com toda a consciência, pois nessas coisas é preciso ter os olhos bem abertos.
Havia dias de compras grandes e outros de miudezas, mas nunca houve dia sem compras. Na falta de coisa maior, a viciada jamais entrava em casa sem o par de luvas, o alfinete de segurança, os pós para limpar metais, o pacote de grampos ou qualquer bugiganga dos bazares de tudo a um real. Levava presentes sem fim para o filho, gravatas que ele não usava, abotoaduras que nunca punha. Jacinta recebia com alegria aquilo que a sogra levava para ela e ia transmitindo às irmãs solteiras e casadas, exceto certas coisas cujo repasse não lhe permitiam. Dona Santa Cruz tinha verdadeira paixão pela roupa branca e pela roupa de mesa. Da loja do irmão trazia peças inteiras de holanda finíssima, batistas e madapolanes. Dom Baldomero II e dom Juan I tinham roupa para um século.
A própria Barbarita abastecia ambos de cigarros. O primeiro fumava charutos, o segundo, cigarros de papel. Estupiñá encarregava-se de trazer esses perigosos artigos da casa de um intermediário que os vendia às escondidas e, quando atravessava as ruas de Madri com as caixas sob a capa verde, seu coração palpitava de alegria ao considerar a peça que pregava na Fazenda pública e recordar os belos tempos da juventude. Nos liberais anos de 71 e 72, porém, a situação já era outra... A polícia fiscal não fazia tanta questão de minúcias. O temerário contrabandista, contudo, teria desejado um mau encontro para provar ao mundo inteiro que era homem capaz de arruinar a Renda se se empenhasse nisso. Barbarita examinava as caixas e as marcas, regateava-as, cheirava o tabaco, escolhia aquilo que lhe parecia melhor e pagava muito bem. Dom Baldomero sempre tinha um sortimento tão variado quanto excelente, e o bom senhor conservava, entre certos hábitos tenazes do antigo caixeiro, o de reservar os melhores charutos para os domingos.
Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.
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