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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 29 · Fortunata e Jacinta

Parte 4 — Capítulo IV: Vida nova

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Parte 4 — Capítulo IV: Vida nova

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No dia 4 de janeiro, Fortunata ouviu uma campainhada e saiu para abrir, olhando antes pela pequena abertura da porta, coberta por uma chapa de ferro com furos, em estilo primitivo. Era Estupiñá, que fitava aqueles buraquinhos da maneira mais autoritária. A jovem abriu, e o grande Plácido, com gesto displicente, as sobrancelhas um tanto franzidas, exibindo numa das mãos a bengala cujo castão era uma cabeça de papagaio, presente trazido de Sevilha pelos senhoritos Santa Cruz, estendeu-lhe com a outra um papel que tinha um selo.

— O recibo do mês — disse no tom de um déspota asiático que dita uma sentença de morte.

— Entre, D. Plácido — respondeu ela, sorrindo com graça. — Preciso falar com o senhor.

— Não entro. Venham os cobres. Não estou com vontade de conversa.

Aquele homem dizer que não tinha vontade de conversa era como o mar dizer que não tinha água! Mas nele a obstinação podia mais que o leviano apetite.

— Jesus, que mau humor este homem adquiriu! Eu vou lhe dar o dinheiro. O senhor não terá inquilinas melhores que nós.

— Sim... Boas dores de cabeça Segunda me deu. Não... Não entro; não seja importuna.

— Quero que veja como está a casa, para se convencer de que aqui não podem viver cristãos.

— Então mudem-se.

— Mas, homem, como o senhor ficou tirânico! Nunca vi senhorio pior... Mas nem sequer vai caiar minha cozinha, que parece uma carvoaria? E há cada buraco!... Não posso viver em tanta sujeira. Sabe o que digo? Se não quiser fazer as obras, eu mesma as farei por minha conta... ora!

— Isso é outra coisa. Desde que seja sob minha fiscalização e...

— Entre, entre e verá...

Por fim, Plácido dignou-se a avançar pelo corredor. Foi à cozinha, lançou um olhar para a alcova interna, que estava cheia de rachaduras...

— Não se podem fazer obras cada vez que um inquilino pede, pois seria uma história sem fim. Amanhã, se der na veneta, as senhoras se mudam, e quem alugar o quarto, vendo a cal fresca, pede mais obras. Não podemos. No mês passado gastei mais de vinte mil reales em reparos. Portanto, despache-me, pois tenho pressa.

— Mas o senhor virou foguete? Sente-se um momento. Diga-me uma coisa...

— Não tenho coisas para dizer. Vou embora...

— Ai, que pólvora de homem! Veja que assim viverá pouco.

— Melhor. Já vivi bastante.

— Sente-se. Em seguida lhe dou o dinheiro. Mas diga-me uma coisa que quero saber. De quem é agora esta casa?

— Isso não lhe importa. Pensa que estou aqui para perder tempo? A casa é de sua patroa. Repito que não estou com vontade de conversa. A senhora quer comprar o imóvel? Vamos, ao que interessa... Já sabe que sou homem de poucas palavras.

— De poucas? Ora... Imagine se fosse de muitas! O senhor, no dia em que nasceu, falava por sete. Diga-me... de quem é a casa?

— De sua patroa. Portanto... Já falamos bastante... e, finalmente: o imóvel é magnífico; está avaliado em trinta e cinco mil duros. Só o sílex dos alicerces e o granito da escada valem uma fortuna. E as paredes? Outro dia, ao abrir um vão, os pedreiros não conseguiam enfiar a picareta. Nada, as ferramentas simplesmente se quebram neste tijolo recozido, que parece diamante... Pois, para concluir... não estou com vontade de conversa. Quando se abriu o testamento do senhor D. Manuel Moreno-Isla, que Deus o tenha, testamento feito três anos atrás, descobriu-se que ele deixava esta casa e o terreno da calle de Relatores a dona Guillermina Pacheco, sua tia... A senhora hipotecou os dois imóveis para terminar o asilo, e por isso a senhora verá que ele avança como um raio. Terminarão este ano... Portanto...

Estendeu a mão e, com a outra, mostrava a bengala como se fosse um bastão de autoridade.

— Dona Guillermina é minha senhoria! — disse Fortunata, pensativa, entregando-lhe o dinheiro. — Pois pedirei a ela que faça as obras. É minha amiga.

— Como há de ser sua amiga... como há de ser! — replicou Estupiñá com sarcasmo. — E, se quiser vê-la furiosa, fale-lhe de obras que não sejam as do asilo. Adeus; passe bem... Ah, eu me esquecia: cuidado com os vasos na janela. Se eu vir água escorrendo, despejo a senhora; pode ter certeza de que despejo... Maria Santíssima, quantas plantas a senhora tem aqui! É um jardim... Parece-me peso demais... Que vista bonita! Este foi um ano ruim para as bancas de Natal. Os pobres vendedores estão furiosos. Claro... com tanta água... E hoje me parece que teremos neve. Em toda a minha vida não vi inverno tão frio. Sabe que morreu o surdo, o da banca de carnes? Ontem à noite... de repente. Anteontem eu o vi tão bom e tão saudável e... que vida esta!... Enfim, vou ver se tiro alguma coisa dos moradores do segundo andar, à esquerda. Devem-me cinco meses. Ai, que gente! Se a senhora me deixasse, eu já teria posto os trastes deles na rua; mas minha patroa é assim, não quer despejos. “Por Deus, Plácido, não os expulse... os pobrezinhos pagarão; é que não podem.” “Mas, senhora, se me dessem o que gastam em aguardente e o que deixam na confeitaria de Botín...” Em resumo, com senhorias como a minha, esses patifes de inquilinos fazem o que querem.

Aquele homem falou tanto que Fortunata, depois de ter lhe pedido para entrar, teve de expulsá-lo com bons modos:

— Mas, D. Plácido, veja que vai ficar tarde para o senhor...

— Ah, sim... A culpa é sua, que é a pessoa mais faladeira... Adeus, adeus...

Fortunata nunca saía à rua. Preparava a própria comida, e Segunda, que tinha uma banca na praça, trazia-lhe as compras.

Nos dias que se seguiram à primeira visita do administrador da casa, a mulher não conseguiu afastar do pensamento aquela que por tão breve espaço de tempo fora sua amiga. «Quem diria a ela e quem diria a mim que eu viveria em sua casa! Que voltas o mundo dá! Naqueles dias, nem me passava pela cabeça vir para cá, nem esta casa era dela. E, quando D. Plácido lhe contar que sou sua inquilina, o que dirá? Ficará furiosa e desejará me pôr na rua? Talvez não, talvez não...»

Quando essa ideia, ou outra semelhante, lhe refrescava a lembrança da inaudita cena e da discussão no gabinete da santa, a pobre mulher sentia a consciência se agitar e não conseguia acalmá-la nem argumentando consigo que a outra a provocara. «Fiquei cega, não soube o que fiz. Digo sinceramente que, se tivesse ocasião, pediria a dona Guillermina que me perdoasse.»

A solidão em que vivia, favorecendo nela aquela ressurreição mental do passado, inspirava-lhe juízos muito claros sobre seus atos e sentimentos. Via então tudo atravessado pela luz da razão, à distância que permite avaliar bem o tamanho e a forma dos objetos, assim como a paz do claustro permite aos fugitivos do mundo enxergar os erros e maldades que cometeram nele.

«E a Jacinta, eu pediria perdão?», perguntava-se, sem encontrar resposta. Ora lhe ocorria que sim, ora que não. A Delfina a ofendera e ultrajara quando ela não fazia mais que contar à santa suas penas e o conflito em que se encontrava. Por fim, à força de meditar no assunto, amassando as ideias com a tristeza destilada por sua alma, a resposta afirmativa começou a prevalecer. É verdade que devia lhe pedir perdão pela intenção que tivera de arranhar-lhe o rosto, que barbaridade!, e pelas palavras que deixara escapar. Mas, para que essa ideia triunfasse por completo, faltava esclarecer o seguinte ponto:

Jacinta traíra o marido com o senhor Moreno?

Porque, se traíra, uma valia tanto quanto a outra, e Juana era tão boa quanto Petra. A senhora de Rubín nunca conseguiu chegar, em suas cismas, a uma solução definitiva naquele ponto obscuríssimo. Ora afirmava a culpa da macaquinha do Padre Eterno, ora a negava.

«Eu daria qualquer coisa», exclamava, invocando o Céu, «para saber essa verdade que agora só Deus e ela conhecem, pois o terceiro que sabia morreu. O confessor de Jacinta também deve saber, se ela o confessou. Mas ninguém mais, ninguém mais. Pois não sei o que daria para sair desta dúvida. Esta curiosidade queima meu sangue... É pouca a diferença de uma coisa para outra? Se ela pecou, tudo muda para mim, e não me rebaixo a lhe pedir perdão; mas, se não traiu... ai, a bendita macaquinha me tem debaixo do pé como São Miguel tem o diabo.»

Daí passava a outro elo de ideias:

«E agora estamos as duas da mesma cor. Ele não quer nenhuma de nós. Estamos bonitas... Ambas poderíamos nos consolar... porque, em meu terreno, também sou virtuosa; isto é, não o traí com ninguém. E, se ela compreender isso, bem poderia vir até mim, e nós duas procuraríamos a vadia que agora o entretém e a deixaríamos num estado em que ninguém conseguiria apanhá-la... Vamos ver, por que Jacinta e eu, agora que estamos iguais, não haveríamos de nos tratar? Digam o que disserem, refinei-me um pouco. Quando tomo cuidado, digo pouquíssimos disparates. Desde que não me suba a mostarda ao nariz, não solto palavra feia alguma. As senhoras Micaelas me desbastaram, e meu marido e dona Lupe passaram a pedra-pomes, dando-me algum brilho. Por que não haveríamos de conviver, esquecendo as brincadeiras que dissemos uma à outra?... Isso no caso de ela ser honrada, pois, se não for, não me rebaixo. Cada uma tem sua espécie de honra.»

Sem perceber, passava a outro elo:

«Mas ela não vai querer... Tem muito orgulho e atrevimento, ainda mais agora que a inveja a consumirá. Ah, que não venha me falar de seus direitos... Que direitos nem que bobagens? Isto que tenho aqui dentro de mim não é fumaça, não. Como estou contente!... No dia em que ela souber, ficará com tanta raiva que morrerá de despeito. Dirá que é a esposa legítima... Fumaça! Tudo se reduz a alguns latins que o padre recitou e à cerimônia, que não vale nada... Isto que tenho, minha senhora, é mais que latim; aguente... Os padres e os advogados, que uma peste ruim os leve!, dirão que isto não vale... Eu digo que vale; é minha ideia. Quando a natureza fala, os homens têm de calar a boca.»

E sua convicção era tão profunda que dela tirava forças para suportar aquela vida solitária e tristíssima.

ii

Certa manhã, ao se levantar, viu que durante a noite caíra uma grande nevasca. O espetáculo oferecido pela praça era precioso: os telhados inteiramente brancos; todas as linhas horizontais da arquitetura e os ferros das varandas delineados por linhas puríssimas de neve; as árvores ostentando flocos que pareciam de algodão; e o rei Felipe III com pelica de arminho e gorro de dormir. Depois de se arrumar, tornou a olhar para a praça, entretida em ver como se desfazia o encanto mágico da neve; como se abriam sulcos na brancura dos telhados; como os pinheiros sacudiam a vestimenta incomum; como, enfim, no corpo do Rei e no do cavalo, os flocos se derretiam e a umidade escorria pelo bronze. O chão, tão puro e alvo pela manhã, já era ao meio-dia uma poça lamacenta na qual chapinhavam varredores e funcionários municipais das mangueiras, dissolvendo a neve com jatos de água e misturando-a à lama para lançar tudo no esgoto. Era divertido aquele espetáculo, sobretudo quando os elegantes esguichos das mangueiras estalavam e os rapazes se lançavam ao trabalho, armados de enormes vassouras.

Fortunata olhava aquilo quando, de repente... ai, meu Deus!, viu o marido; era ele, Maximiliano, entrando na praça pelo arco do 7 de Julio. Teve de recuar, saltando às pressas, porque o jato de água lhe cortou o caminho. Instintivamente, a jovem afastou-se da janela; mas depois tornou a se debruçar, dizendo consigo:

«Daqui ele não pode me ver... A última coisa que imagina é estar tão perto de mim... Vamos, dê a volta... Entrou sob os pórticos. Sem dúvida vai ao café de Gallo se encontrar com o irmão, a outra cabeça de campanário. Mas como o deixam sair sozinho? Terá ficado bom? Estará melhor? Pobre rapaz!...»

E não tornou a se lembrar dele até a noite, quando estava deitada, sozinha em casa, pois a tia ainda não entrara.

«É uma barbaridade deixarem-no sair sozinho à rua. No primeiro dia, faz alguma loucura e causa um desgosto... Agora que o vi solto, vou ficar com medo e começar a imaginar se um dia ele não entrará aqui... A sorte é que não saberá onde estou; cuido muito para que não saiba. Mas quem pode ter certeza de segredo algum nestes tempos? De repente, algum brincalhão lhe conta, e já teremos dor de cabeça por muito tempo... E se lhe der para vir me matar!... Isso será bonito. Mas teria de me apanhar muito desprevenida, porque eu o desfaço com duas pancadas... Mas e se ele entrar, esconder-se, ficar à espreita e, pum!, me der um tiro?... Não; preciso ter muito cuidado. Nem para Cristo abro a porta. E vou dizer a minha tia que preciso contratar uma criada. Uma mocinha comportada e esperta, assim como Papitos, viria muito bem. Sozinha o dia inteiro nesta gaiola!... Ah, graças a Deus; já ouço a chave de minha tia entrando. Será ela ou alguém que lhe roubou a chave e vem me matar?... Tia, tia, é a senhora?»

— Sou eu. O que lhe ocorre?...

— Nada; agora estou tranquila. É que tenho muito medo de ficar sozinha e parece que entram ladrões, assassinos e sei lá mais o quê...

Em noite alguma conciliava o sono antes de o relógio da Casa de la Panadería bater as doze. Ouvia claramente algumas badaladas; depois o som se apagava, afastando-se, como se balançasse na atmosfera, para tornar em seguida e se espatifar nos vidros da janela. Naquele estado incerto do crepúsculo cerebral, Fortunata imaginava que o vento vinha à praça brincar com a hora. Quando o relógio começava a anunciá-la, o vento a tomava nos braços e a levava para longe, muito longe... Depois tornava para cá, descrevendo uma onda imensa, e retumbava, plam!, tão forte como se o metal sonoro estivesse dentro da casa. O vento passava com a hora nos braços sobre a Plaza Mayor e ia até o Palácio, e ainda mais além, como se mostrasse a hora por toda a cidade e dissesse a seus habitantes: «Aqui estão as doze, tão bonitas.» E depois tornava para cá, plam!... ai!, era a última. Então o vento ia embora, resmungando.

Em outras noites, a jovem se entretinha imaginando que a hora da Puerta del Sol e a hora da Panadería se engalfinhavam. Começava esta, e a outra respondia. As badaladas se confundiam de tal maneira que nem a própria noite que inventara aquela hora conseguiria reconhecê-la. As doze daqui e as doze dali eram uma discussão, uma algazarra de sinos. «Ora, também se ouve a Merced... Tanta hora, tanta hora, e ninguém sabe se são doze ou o quê...»

Para ter companhia e serviço, tomou como criada uma menina, filha de uma das vendedoras amigas de Segunda. Chamava-se Encarnación e parecia muito ajuizada. A patroa lhe explicou as regras no primeiro dia, dizendo:

— Veja, se algum homem que você não conhece, por exemplo um senhorito magro, de cor ruim, assim um pouco agitado, lhe perguntar na rua se moro aqui, diga que não. Nunca abra a porta para pessoa alguma que não seja da casa. Batem, você olha e vem me dizer: “Senhorita, é um homem ou uma mulher com estas e estas características.” Portanto, preste muita atenção no que mando. Sua tia deve ter lhe feito a mesma recomendação. Se não nos obedecer, sabe o que fazemos? Pois pegamos você e mandamos para a cadeia. E não pense que vão tirá-la: ficará lá pelo menos, pelo menos, três anos e meio.

A menina cumpria aquelas ordens ao pé da letra. Num domingo, bateram.

— Senhorita, há ali um homem de barba comprida, muito parecido com um senhor... e tem a voz assim, respeitosa.

Fortunata olhou pelos furos da chapa. Era Ballester.

— Diga-lhe que entre.

Alegrava-se de vê-lo para saber o que acontecia na família e para que lhe contasse por que diabo Maxi andava solto pelas ruas.

De tão contente, o bom farmacêutico estava perturbado. Vinha vestido com a melhor roupa, penteado no barbeiro, com uma risca muito bem traçada da testa à nuca e as mechas negras escorrendo gordura perfumada, botas novas e cartola muito lustrosa.

— Como eu desejava vê-la...! Não me atrevia a vir... Mas dona Lupe insistiu tanto para que viesse que, enfim... Não, não, não tema que Maximiliano descubra onde a senhora está. Há muito cuidado para que não saiba de nada. E isso que agora, se a senhora o visse, recuperou a razão; parece muito ajuizado; fala de tudo com bom senso e não faz disparate algum.

Fortunata estava um tanto constrangida, pois, apesar da convicção de que fazia alarde a respeito de certas legitimidades, sentia vergonha de já não poder disfarçar seu estado diante de um amigo da família Rubín. Corou muito quando Segismundo lhe disse:

— Dona Lupe mandou um recadinho para a senhora. Encarregou-me de perguntar se quer que avise D. Francisco de Quevedo... É homem que conhece sua obrigação, muito cuidadoso e habilidoso...

— Não sei, veremos... vou pensar... ainda... — balbuciou ela, muito acanhada, baixando os olhos.

— Como, ainda? Dona Lupe me disse que será em março. Estamos em 20 de fevereiro. Não, não seja descuidada... de repente, pode ser surpreendida... Essas coisas precisam ser preparadas com antecedência.

Adotando uma atitude galante, acrescentou:

— Porque me interesso vivamente pela senhora em todas as circunstâncias, em absolutamente todas. Sou o mesmo Segismundo de sempre e, quando precisar de um amigo leal e discreto, lembre-se de mim...

E, elevando o tom quase até o patético, soltou de repente:

— Não retiro nada do que lhe disse em outras ocasiões.

Como ela fingisse não se interessar por aquela mudança da conversa, Ballester retomou o tom fraternal:

— Vou me permitir falar com Quevedo. Devemos estar prevenidos... Direi que venha examiná-la... É pessoa de confiança, e ele já sabe que não deve contar nada ao amigo Rubín.

O que deixava Fortunata muito surpresa e maravilhada era o interesse que a viúva de Jáuregui, segundo lhe dissera o regente, demonstrava por ela.

— Não sei o que é, minha amiga, mas a ministra, de alguns dias para cá, já me perguntou umas seis vezes se eu tinha visto a senhora... “Eu não vou”, disse-me, “mas é preciso cuidar um pouco dela e não abandoná-la como a um cão.” Foi por isso que me decidi a vir, e agora me alegro, pois vejo que a senhora me recebeu e que continuaremos bons amigos. Combinado, então, que Quevedo virá. Sim, preparemo-nos, pois essas coisas às vezes correm bem, às vezes mal. Nada lhe faltará. Ora essa! É preciso enfrentar as situações e... Oh, que cabeça a minha! Pois eu me esquecia do melhor — disse, enfiando a mão no bolso. — A ministra me deu este pacotinho de dinheiro para a senhora. Por fora está escrita a quantia: mil duzentos e cinquenta e dois reales. Deve ser o que lhe cabe dos rendimentos de algum dinheiro. Para concluir: sempre que precisar de alguma coisa, seja de que natureza for, pense um pouco e diga: “A quem recorrerei? Pois àquele doido do Segismundo.” Basta me mandar um recadinho... Embora eu trate de vir em algum domingo ou nas horas livres, porque agora, como estou sozinho com Padilla, tenho pouquíssimo tempo. Se pudesse, viria de manhã e à tarde todos os dias, contando com sua permissão. Mas, neste mundo malandro, chega-se até onde se pode, e quem, impulsionado pelo querer, vai além do poder, cai e se espatifa.

Repetiu seus oferecimentos e foi embora, deixando em Fortunata a impressão de que não estava tão sozinha quanto imaginava e de que aquele Segismundo era, em meio a suas tolices e extravagâncias, um coração generoso e leal. A infeliz jovem estranhava muito que Aurora não tivesse ido visitá-la e lamentou ter esquecido, durante a visita do regente, de lhe perguntar pelas Samaniegas. Mas perguntaria quando ele voltasse.

Com a mudança de vida e domicílio, a senhora de Rubín retomou algumas relações familiares que estavam completamente rompidas, destacando-se entre elas a de José Izquierdo, que começou indo jantar com a irmã e a sobrinha em algumas noites e acabou, conforme seu temperamento parasitário, ficando ali todo o tempo livre. Fortunata encontrou o tio moralmente transfigurado, com uma paz espiritual que nunca vira nele, falante, curado da louca ambição e daquele negro pessimismo que o fazia renegar da sorte a cada instante. O bom Platão, encontrando enfim o descanso de sua vida vagabunda, sentara-se numa pedra do caminho, à sombra de frondosa árvore carregada de frutos, valha a figura, sem que ninguém lhe disputasse o direito de se fartar deles.

Não existia então em Madri modelo melhor, e os pintores o disputavam. Izquierdo via-se assediado, solicitado; recebia bilhetes e recados a toda hora, e o desconsolava não ter três ou quatro corpos para servir com eles à arte. Não havia no mundo ofício que mais lhe conviesse, pois aquilo não era trabalhar, que diabo!, era ser retratado, e quem trabalhava era o pintor, pondo nele os cinco sentidos e olhando-o como se olha uma namorada. Naqueles dias de fevereiro de 1876, quando começava a falar com a irmã e a sobrinha sobre as muitas obras que tinha entre mãos, não terminava. Num estúdio fazia o Padre Eterno no momento de criar a luz; em outro, o rei D. Jaime a cavalo, entrando em Valência. Ali, Nabucodonosor andando de quatro; aqui, um homem nu que chamam Eneias, com o pai às costas.

— Mas o melhor que estamos pintando agora... e está saindo muito fino... é aquela passagem de Hernán Cortés quando manda atear fogo às malditas naus...

Nosso homem ganhava tudo de que precisava e era feliz; compensava a sujeição do dia com as longas expansões de conversa e copos que se permitia à noite em algum café, convidando os amigos. Prestava serviços à sobrinha, executando todos os encargos compatíveis com suas tarefas artísticas. Ela costumava mandá-lo com alguma mensagem à casa da costureira ou recorria a ele para recados e compras. Mais de uma vez, mandou-o à grande loja de Samaniego comprar tecido ou rendas para o enxoval que preparava; mas sempre recomendava que não a revelasse ali, pois, já que Aurora não fora visitá-la, o que propriamente era falta de educação e, falando claro, uma sujeira, ela tampouco queria aparentar que solicitava sua amizade. E, se a Samaniega tinha razões para se afastar, ela também tinha razões para não se rebaixar.

«Em refinamento ela pode me vencer; em orgulho, não.»

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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