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Fortunata e Jacinta

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Fortunata e Jacinta

Capítulo 19 · Fortunata e Jacinta

Parte 3 — Capítulo I: Costumes turcos

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Parte 3 — Capítulo I: Costumes turcos

---i---

Juan Pablo Rubín não podia viver sem passar metade das horas do dia, ou quase todas elas, no café. Moldada sua natureza a esse gênero de vida, teria se julgado infeliz se o trabalho ou as ocupações o obrigassem a viver de outro modo. Era um assassino implacável e reincidente do tempo, e o único gozo de sua alma consistia em ver como as horas expiravam, arquejando, e como os períodos de enfado iam caindo para não tornar a levantar-se. Ia ao café ao meio-dia, depois de almoçar, e ficava até as quatro ou cinco. Voltava depois de jantar, por volta das oito, e não se retirava antes da meia-noite ou da madrugada, conforme o caso. Como os amigos não eram tão constantes, passava alguns momentos sozinho, meditando sobre graves problemas de política, religião ou filosofia, contemplando com olhar incerto e sonolento os estuques da sanca, as pinturas enfumaçadas do teto, os fustes de ferro e as meias-canas douradas. Aquele recinto e aquela atmosfera eram-lhe tão necessários à vida, por efeito do costume, que somente ali se sentia na plenitude de suas faculdades. Até a memória lhe faltava fora do café e, como às vezes esquecesse subitamente na rua nomes ou fatos importantes, não se impacientava para recordá-los e dizia com muita tranquilidade:

— No café me lembrarei.

Com efeito, mal tomava assento no divã, a influência estimulante do local fazia-se sentir em seu organismo. Feridos o olfato e a vista, logo despertavam as faculdades espirituais, a memória se refrescava e o entendimento se desentorpecia. O café lhe proporcionava as sensações íntimas próprias do lar doméstico, e, ao entrar, todos os objetos lhe sorriam como se fossem seus. As pessoas que ali via constantemente, os garçons e o encarregado, certos fregueses fixos, apareciam-lhe estreitamente unidas a ele por laços de família. Até com a corcundinha que vendia fósforos e jornais à porta tinha certo parentesco espiritual.

Mas, embora Juan Pablo se afeiçoasse desse modo ao local, mudara de café muitas vezes no espaço de cinco anos.

Isso equivalia a mudar de moradia e, como todos os cafés de Madri se parecem, assim como as casas, Juan Pablo levava dentro de si sua domesticidade e, ao cabo de dois dias frequentando um café, já se encontrava nele como em família. As mudanças eram determinadas por certas correntes de emigração existentes na sociedade dos ociosos e das quais não se sabe a causa. Umas vezes o impulso partia de alguns amigos inconstantes, tocados pela mania da variedade; outras, a emigração era motivada por uma questão muito desagradável com aquele senhor da mesa próxima. Ora provinha de o dono do café ter-se portado como um porco, cobrando ao grupo umas taças quebradas durante a discussão sobre as verdadeiras causas da morte de Concha em Montemuru; ora, por fim, de uma deterioração progressiva e intolerável do produto, razão pela qual muitos desejavam estrear os estabelecimentos novos ou reformados. Juan Pablo não gostava de iniciar nenhuma corrente de emigração, mas quase sempre as seguia. Nessas correntes é fácil perder-se algum dos companheiros, ou por ser rebelde às mudanças, ou porque as dívidas o cativam no antigo local e ali hipotecam sua frequência; em compensação, ganha-se sempre algum novo participante, que vem refrescar as ideias e as brincadeiras.

Quem se tivesse dado ao trabalho de seguir os passos de Rubín de 1869 a 1874 tê-lo-ia visto freguês do café de San Antonio, na Corredera de San Pablo; depois, do Suizo Nuevo, e em seguida dos cafés de Platerías, del Siglo e de Levante. Vê-lo-ia, em certa ocasião, preferindo os cafés-concerto e, em outra, abominando-os; frequentando o del Gallo ou o de la Concepción Jerónima quando queria tornar-se invisível e, por fim, assentando arraiais num dos mais concorridos e ruidosos da Puerta del Sol.

Ao meio-dia era sempre um dos atrasados, porque se levantava tarde; à noite era infalivelmente o primeiro. Raras vezes, ao entrar, já encontrava ali D. Evaristo González Feijoo ou Leopoldo Montes. O grupo noturno tinha pessoal diferente do diurno, e eram poucos os que compareciam a ambos. Só Rubín era ponto fixo nos dois. A roda ocupava três mesas, e antes que os fregueses chegassem o garçom punha o serviço para todos. Juan Pablo entrava às oito, quando ainda não havia no local mais de três ou quatro pessoas, e os garçons conversavam sentados junto ao balcão. Ali, o dono ou encarregado preparava os serviços, empilhando pires de açúcar. A cada instante abria-se a porta de vidros para dar passagem a algum freguês, que entrava tirando o cachecol ou descobrindo o rosto, e logo se fechava com forte pancada, para tornar a abrir-se em seguida com estridente rangido de gonzos enferrujados. Era um estribilho opressivo... crrris... entrada do indivíduo com o charuto de estanco na boca... depois pum, e outra vez crrris...

O dono cumprimentava do balcão algum freguês que lhe passasse perto. A maioria gostava de que o café fosse servido sem demora e batia palmas se o rapaz não vinha logo. Juan Pablo entrava devagar e muito sério, como homem que vai cumprir uma obrigação sagrada. Dirigia os passos gravemente para as mesas da direita e sentava-se sempre no mesmo lugar, com exatidão matemática. O garçom o cumprimentava enquanto passava o pano na mesa, e ele, respondendo com certa dignidade, esfregava as mãos, acomodava-se bem no assento, conservando a capa sobre os ombros; depois aproximava o copo, pondo à direita, à discreta distância em que se põe o tinteiro para escrever, o pires do açúcar, e então atendia à operação de verter no copo o leite e o café, com muito cuidado para que as proporções dos dois líquidos fossem convenientes e o copo se enchesse sem transbordar. Isso era elementar. Depois tomava a colher com a mão esquerda e, com a direita, ia lançando pausadamente os torrões, dirigindo olhares indulgentes a todo o local e às pessoas que entravam. Como veterano do café, sabia tomá-lo com aquela lentidão e arte que correspondem a todo ato importante.

É impossível que a história acompanhe esse homem em todos os seus períodos de café. Mas não se pode passar em silêncio aquela etapa da Puerta del Sol, na qual Rubín tinha por companheiros e amigos D. Evaristo González Feijoo, D. Basilio Andrés de la Caña, Melchor de Relimpio e Leopoldo Montes, pessoas todas muito dadas à política e que falavam do país como de coisa própria. Tendo todos a mesma mania, cada qual cultivava uma especialidade: Leopoldo Montes trazia, dia após dia e sem falhar, notícias de crise; D. Basilio descia sempre às minúcias de pessoal; Relimpio era obsceno e malicioso em seus juízos; Rubín sobressaía por supor que tudo sabia e que se antecipava aos acontecimentos, vendo-os chegar; e, por fim, Feijoo era profundamente cético e tomava por brincadeira todas as coisas da política.

Ali brilhava esplendidamente essa fraternidade espanhola em cujo seio dão-se mãos de amigos o carlista e o republicano, o progressista de cabeça dura e o moderado implacável. Antigamente, os partidos separados em público também o estavam nas relações privadas; mas o progresso dos costumes trouxe primeiro certa suavidade às relações pessoais, e por fim a suavidade transformou-se em frouxidão. Alguns creem que passamos de um mal extremo a outro, sem nos deter no meio conveniente, e veem nessa fraternidade um relaxamento dos caracteres. O fato de todo mundo ser amigo particular de todo mundo é sintoma de que as ideias vão sendo apenas pretexto para conquistar ou defender o pão. Existe uma confabulação tácita, não tão escondida que não apareça ao primeiro arranhão nos políticos, pela qual se estabelece o turno no domínio. Por isso não há aspiração, por mais extraviada que seja, que não se considere provável; por isso existe a insegurança, única coisa constante entre nós, a ajuda maçônica que todos os partidos se prestam, do clerical ao anarquista, tanto concedendo-se uma nomeação vergonhosa em tempo de paz como outorgando-se perdões e indultos nas guerras e revoluções. Há nisso algo de seguro mútuo contra o castigo, razão pela qual os atos de força são vistos como a coisa mais natural do mundo. A moral política é como uma capa com tantos remendos que já não se sabe qual era o tecido primitivo.

Falando disso, Feijoo e Rubín atribuíam o relaxamento dos caracteres às desilusões.

— Eu — dizia Feijoo — sou progressista desenganado, e o senhor, tradicionalista arrependido. Temos algo em comum: acreditar que tudo isto é uma comédia e que se trata apenas de saber a quem cabe mamar e a quem não.

ii

D. Evaristo González Feijoo merece algo mais que uma menção neste relato. Era homem de idade, solteirão, e vivia folgadamente de suas rendas e da aposentadoria de coronel do exército. Pouco depois da guerra da África, abandonou o serviço ativo. Era o único indivíduo do grupo que não tinha dívidas nem apertos de dinheiro. Sua existência plácida e ordenada refletia-se em sua pessoa asseada, robusta e simpática. A aparência denunciava a profissão militar e o natural fidalgo; tinha bigode branco e marcial arrogância, porte repousado, olhos vivos, sorriso entre malicioso e bondoso; vestia-se com muito esmero e limpeza, e sua conversa era sumamente instrutiva, porque viajara e servira em Cuba e nas Filipinas, tivera muitas aventuras e vira muitas e muito estranhas coisas. Não se alterava quando ouvia exprimir as ideias mais exageradas e dissolventes. Tanto ao partidário da Inquisição como ao incendiário mais raivoso, Feijoo escutava com frieza benévola. Era indulgente com os entusiasmos, sem dúvida porque também os havia padecido. Quando alguém se exprimia diante dele com fé e calor, ouvia-o com a paciência compassiva com que se ouvem os loucos. Também ele fora louco; mas já recobrara a razão, e a razão em política era, segundo ele, a completa ausência de fé.

Nas rodas dos cafés há sempre duas categorias de indivíduos: uma é a dos que põem palha na conversa, trazendo notícias absurdas ou dizendo brincadeiras grosseiras sobre pessoas e coisas; outra é a dos que dão a última palavra sobre o que se debate, soltando um juízo doutoral e reduzindo ao verdadeiro valor as piadas e ditos. Onde quer que haja homens, há autoridade, e essas autoridades de café, ora definindo, ora profetizando e sempre influindo, pela sensatez aparente de seus juízos, sobre a multidão vulgar, constituem uma espécie de opinião que costuma transparecer na imprensa, ali onde não existe outra de melhor qualidade.

Muito bem. Os que exercem autoridade nos círculos ou rodas de café costumam sentar-se no divã, isto é, de costas para a parede, como se presidissem ou constituíssem tribunal. Juan Pablo e Feijoo pertenciam a essa categoria; mas o segundo nunca se sentava no divã, porque o veludo lhe dava calor, e sim numa das cadeiras de fora, tomando café num ângulo da mesa e dando as costas aos indivíduos da mesa imediata.

Em compensação, D. Basilio Andrés de la Caña, que era vulgo, sentava-se sempre no divã. Gostava de ocupar posições superiores às que merecia e recostava na moldura dos espelhos a cabeça calva e lustrosa. Usava óculos, e seu nariz pequeno podia passar por sinal ou emblema de agudeza. Semicerrava os olhos ao dar uma resposta difícil, como homem que quer concentrar bem as ideias. Sua fronte era espaçosíssima, e a fisionomia dessas que parecem revelar entendimento profundo e sintético. Tinha alguma semelhança com Cavour, de onde provinham as brincadeiras um tanto pesadas que lhe faziam. Para julgar seu talento, recorreremos a um dito de Melchor de Relimpio:

— O melhor negócio que se poderia fazer nestes tempos, sabem qual é? Abrir a cabeça de D. Basilio e tirar toda a palha que há dentro para vendê-la.

E D. Basilio, que tinha certas manhas de burro velho, tirava partido da fisionomia enganosa e daquele ar de homem conspícuo que lhe davam a calva de abóbora, a fronte abobadada, os óculos e o nariz pequeno e prismático. Mais de uma vez, os ministros diante dos quais se apresentou experimentaram os efeitos de fascinação que aquela máscara exercia sobre o vulgo e tomaram-no por uma eminência incompreendida. Crânio e sobrolho eram uma fraude frenológica. Sempre que discutia, assumia tom tão solene que muitos incautos o olhavam com respeito. Considerava o riso um ato impróprio da dignidade humana e quase o desterrara por completo do rosto, tomando por modelo uma página do Nomenclátor ou da Memória da Dívida Pública.

Duas fases tinha a vida desse homem: o jornalismo e a mania dos empregos públicos. Na imprensa, esteve sempre encarregado da parte estrangeira e das questões da Fazenda. Nem para uma coisa nem para outra era preciso, no jornalismo antigo, saber escrever. Mas la Caña levava tão a sério esses dois ramos do conhecimento humano que, quando trabalhava, parecia estar escrevendo a Crítica da razão pura. Seu salário nas redações nunca passou de trinta duros, quando lhe pagavam. Das redações passava às repartições, e das repartições às redações; de modo que, quando estava desempregado e a família perecendo, alegravam-se as Musas da política estrangeira e da ciência fiscal. Meu homem foi sempre agarrado à cauda, como diziam os amigos; isto é, muito moderado, porque eram os doutrinários que sempre lhe davam colocação. Seu primeiro emprego foi dado por Mon, e esteve na Fazenda, com certas alternativas, até o longo período da União Liberal. Essa época foi sua funesta travessia, e viveu miseravelmente da pena, perguntando todos os dias, ao concluir o artigo: “Que fará a Rússia?”, e respondendo a si mesmo com a mais deliciosa boa-fé: “Não sabemos.” Chamava sempre a Inglaterra de Gabinete de Saint-James e a França de Gabinete das Tulherias.

Durante o período revolucionário, o pobre D. Basilio passou por uma provação horrível, porque não quis vender-se nem abdicar de suas ideias. Consentiu apenas em trabalhar num jornal liberal moderado; mas... deixou muito claro ao diretor... somente para tratar das questões financeiras, com exclusão absoluta de toda ideia política. Dito e feito: la Caña soltava todos os dias um artigo enorme que ninguém lia, criticando a gestão da Fazenda; não de qualquer modo, porém, mas com números.

— Com os números não se brinca — dizia ele.

E metia a mão no orçamento, esmiuçando-o como se fosse a conta da lavadeira.

— Se essa gente não compreende — dizia no café, inflado de autoridade — que sem orçamento não há política possível, nem há país, nem coisa alguma. Estou cansado de dizer-lhes isso todos os dias. E nada; é como se falasse a este mármore. Senhores, juro-lhes que examinei uma por uma todas as cifras, e acreditem, parece mentira que semelhante pastel tenha saído das repartições da Fazenda. Mas é o que digo: esse senhor, o ministro do ramo, não sabe onde pisa, nem em sua vida viu coisa mais grossa... E eu venho demonstrando isso como três e dois são cinco! Mas nada... não querem compreender.

Depois de exprimir com um grande suspiro a pena que tinha daquele pobre país, continuava a tomar o café com indolência, mas com apetite, porque para D. Basilio era verdadeiro alimento. Tomava-o cheio até a borda, em copo, deixando transbordar quanto possível para o pires, a fim de passá-lo depois, frio, outra vez ao copo. Nos últimos anos da Revolução, D. Manuel Pez deu-lhe um empreguinho no Governo Civil, e ele o aceitou como auxílio até que viessem tempos melhores; mas estava descontente, não apenas pela mesquinhez do ordenado, como também por razões de dignidade. Os amigos que o ouviam queixar-se, comparando a pequenez da paga com a multidão de bocas que compunham sua família, consolavam-no cada qual a seu modo; mas ele dizia invariavelmente:

— E sobretudo, podem acreditar, o que mais me entristece é não estar em meu ramo.

Seu ramo era a Fazenda.

A conversa do círculo, que começava quase sempre pelo tema da guerra, passava insensivelmente ao dos empregos. Leopoldo Montes, desempregado eterno, Relimpio e outros que tinham entre os dentes algum retalho do orçamento lançavam-se com deleite faminto sobre aquele assunto picante.

— O senhor, quanto tem?

— Eu, catorze; mas me correspondem dezesseis. Fulano, que estava abaixo de mim na Ordenação de Pagamentos, já tem vinte, e eu levo dez anos com catorze.

— Pois eu — dizia D. Basilio —, quando estava em meu ramo, cheguei a vinte e quatro por meus passos contados. Com esta desordem de agora, já não se sabe onde cada um está. No dia em que voltar a meu ramo, não aceito nomeação inferior a trinta.

— Mas, como aqui fazem o que querem com os direitos adquiridos... Que país! Entrei em Penais com oito, depois me passaram à Instrução Pública com dez, em seguida fui posto para fora e, por fim, para não morrer de fome, tive de aceitar seis nas Loterias.

— Pois eu — murmurava uma voz que parecia sair de uma garrafa, voz correspondente a um rosto esquálido e cadavérico no qual estavam impressas todas as tristezas da Administração espanhola — só peço dois meses, mais dois meses de serviço ativo para poder me aposentar por Ultramar. Atravessei o oceano sete vezes, estou sem sangue, e já me corresponde retirar-me para descansar com doze. Maldita seja minha sorte!

O desempregado mais digno de comiseração é aquele que pede apenas alguns dias a mais de emprego para poder reclinar sobre o travesseiro das Classes Passivas uma fronte carregada de anos, sustos e serviços.

iii

Das oito às dez, o café ficava completamente cheio, e os hálitos, o vapor e a fumaça faziam um cozido atmosférico que indigestava os pulmões. Às nove, quando apareciam La Correspondencia e os demais jornais da noite, aumentava o bulício. A corcunda e um irmão seu, também um tanto curvado, entravam com as mãos cheias de papel e, abrindo caminho a braçadas entre as mesas do centro, iam estendendo jornais a todos os que os pediam. Pouco depois, a concorrência começava a rarear; alguns iam ao teatro, e os grupos de estudantes se dissolviam, porque há muitos que vão estudar cedo. Em todos os cafés são numerosos os fregueses que se retiram entre dez e onze. À meia-noite o local torna a animar-se com a gente que volta do teatro e tem o costume de tomar chocolate ou cear antes de ir para a cama. Depois da uma, só restam os viciados na conversa, os aderidos ao divã ou às cadeiras por uma espécie de solidificação calcária, as verdadeiras ostras do café.

Juan Pablo não se ia embora até que fechassem as portas, e, de todos os amigos, o único que a hora tão tardia o acompanhava era Melchor de Relimpio. Iam juntos para o bairro em que moravam e às vezes um deixava o outro à porta de casa, sem cessar de conversar até o momento em que vinha o vigia noturno abrir. Se a noite estava boa, costumavam dar-se mais uma hora de conversa, vagando pelas ruas.

De que falavam aqueles homens durante tantas e tantas horas? O espanhol é o ser mais falador que existe sobre a terra e, quando não tem assunto de conversa, fala de si mesmo; está claro que há de falar mal. Em nossos cafés fala-se de tudo quanto cai sob a lei da palavra humana desde o grande dia de Babel, em que Deus fez as opiniões. Ouvem-se nesses lugares vulgaridades grosseiras e também conceitos engenhosos, discretos e oportunos. Porque não vão ao café apenas os perdidos e maldizentes; vão também pessoas instruídas e de boa conduta. Há rodas de militares, de engenheiros; as de empregados e estudantes são as mais abundantes, e os provincianos de passagem enchem os vazios que aqueles deixam. Num café ouvem-se as coisas mais néscias e também as mais sublimes. Há quem tenha aprendido tudo quanto sabe de filosofia à mesa de um café, de onde se deduz que há quem, à mesma mesa, dê amena cátedra dos sistemas filosóficos. Há notabilidades da tribuna ou da imprensa que aprenderam nos cafés tudo quanto sabem. Homens de poderosa assimilação ostentam certo cabedal de conhecimentos sem ter aberto um livro, e é que se apropriaram de ideias lançadas nesses círculos noturnos pelos estudiosos que se permitem uma hora de recreio em reuniões tão amenas e fraternais. Também vão sábios aos cafés; também se ouvem ali observações eloquentes e substanciosas, exposições sintéticas de profundas doutrinas. Nem tudo é frivolidade, anedotas de rua e mentiras. O café é como uma grande feira na qual se trocam infinitos produtos do pensamento humano. É claro que predominam as quinquilharias; mas entre elas correm, às vezes sem que sejam vistas, joias de preço inestimável.

A mesa presidida por Juan Pablo Rubín era a segunda à direita de quem entrava. A imediata pertencia ao mesmo círculo de amigos; depois vinha a dos padres de tropa, assim chamada porque a ela se achegavam três ou quatro sacerdotes desses que poderíamos chamar soltos e que, durante a noite e parte do dia, levavam vida laica. A essa mesa costumava ir Nicolás Rubín, vestido de secular como os outros, servindo de transição entre aquele círculo e o próximo, onde estava seu irmão. As duas rodas vizinhas viviam em excelentes relações, e às vezes se misturavam os estimáveis sujeitos que as compunham. À mesa dos presbíteros seguiam-se duas de escritores, jornalistas e autores dramáticos. Federico Ruiz aparecia por ali com muita frequência e, como era homem tão comunicativo, metia-se na conversa dos padres, de onde resultou que estes se familiarizassem, por um lado, com a gente de pena e, por outro, com os amigos de Rubín e Feijoo. Aos escritores seguiam-se os rapazes de Caminhos, que ocupavam as três mesas do ângulo. Ali começava o que chamavam de martelo, isto é, o cruzeiro do vastíssimo local. Esse cruzeiro era como um segundo departamento do café e estava invadido por estudantes, em sua maioria galegos e leoneses, que faziam um barulho infernal.

Como tudo isso que conto se refere ao ano de 1874, é natural que no café se falasse principalmente da guerra civil. Naquele ano ocorreram acontecimentos e episódios muito notáveis, como o cerco de Bilbao, a morte de Concha e, por fim, o pronunciamento de Sagunto. Raro era o dia em que os jornais não lançavam uma edição extraordinária anunciando batalhas, desembarques de armas, movimentos de tropas, mudanças de generais e outras coisas que em geral davam ensejo a comentários intermináveis.

— Soube, Rubín? — dizia Feijoo ao tomar assento junto ao ângulo da mesa e retirar da boca do copo o pires do açúcar. — Parece que Mendiry se deslocou para Viana.

— Fique tranquilo — respondia Juan Pablo com suficiência. — Não sairão do pequeno círculo das Províncias Bascas e de Navarra. Conheço-os bem... Todos os chefes só vão para fazer seu pé-de-meia... No dia em que houver um governo disposto a comprá-los, acabou-se a guerra.

— Mas, homem!...

— Não há mais o que dizer. Patifaria aqui, patifaria ali, e tudo uma grande patifaria.

— Aqui não há senão muita fome — dizia um dos padres de tropa, levantando a voz na mesa imediata. — A guerra não acaba porque os militares estão muito à vontade no lombo da mula. Os de cá e os de lá não querem a paz. Mas que vão me dizer vocês, se eu vi aquilo? Servi no Quarto Montado, vi a guerra de perto... e ela continuará a nos atormentar enquanto uns e outros mamarem dela.

— Como está forte o senhor capelão! — disse Feijoo sorrindo.

Não disse mais, porque entrou D. Basilio e, em tom de grande mistério, exprimiu-se deste modo:

— Quando digo que há novidades...

Depois que lhe serviram o café, baixou a cabeça e, no círculo formado pelas quatro ou cinco cabeças dos amigos que se alongaram para ouvi-lo, fez a confidência:

— Digo-lhes isto sob a maior reserva.

— Mas o que é?

Mistérios!... Sagasta está desgostoso. Seu secretário particular me contou.

— Ah, eu também ouvi — indicou Relimpio. — É verdade... parece que está com dor de dentes.

— O motivo — acrescentou la Caña, radiante — não sei. Cada um pense como quiser. A única coisa que me permito dizer é que isto está muito mal... mas muito mal, e que há mar de fundo.

— Mas o senhor não sabe mais? — perguntou-lhe Feijoo de maneira premente. — Eu pensei que nos daria notícia da conferência do Duque com Elduayen... E agora sai com que Sagasta está mal-humorado... Deus nos assista... Mas a conferência, é certa ou não?

D. Basilio costumava levar na boca um palito de dentes e, tomando-o entre os dedos, mostrava-o e gesticulava com ele, como se fizesse parte do argumento.

— O que eu sei — afirmou com acento patético, oferecendo o palito à admiração dos amigos —, o que eu sei é que isto está muito mal. Digo com Lorenzana: Meditemos.

O círculo de cabeças tornou a formar-se, e nele D. Basilio lançou o hálito, como os curandeiros que sopram, antes de lançar as palavras. O tal hálito era pouco agradável ao nariz de Feijoo, por isso este se retirou discretamente.

D. Basilio ficou vacilando entre a consciência, que lhe exigia calar, e o desejo de satisfazer a curiosidade dos amigos. Por fim, violentou-se um pouco para dizer:

— Esta tarde, Romero Ortiz saiu do ministério às quatro e, ao passar de coche pela calle del Amor de Dios, viu um amigo, mandou parar, o amigo entrou, e foram...

— Mas quem era o amigo?

— Nem tudo se pode dizer... Pois bem, lá vai: era o jovem Romero. Foram... esta sim é grossa... à casa de D. Antonio Cánovas... Madera Baja, número 1.

Dito isso, la Caña ficou muito sério, saboreando o efeito que suas palavras deviam causar. Tornou a pôr o palito entre os dentes e olhava para os amigos com certa piedade.

— E daí? — disse Rubín com desabrimento. — Não vejo onde está a coisa.

— Pois, meu amigo — respondeu D. Basilio no tom de um homem superior que não quer incomodar-se —, se o senhor não quer ver onde está a coisa, que posso eu fazer?

— E que diferença faz irem ou não à casa de Cánovas?

— Nenhuma, nenhuma... a coisa não tem malícia. É coisa fraca... De que pão faço as migas, compadre? Do seu, que com o vento não se ouve.

Depois permitiu-se rir, coisa nele estranhíssima e desacostumada.

— Este D. Basilio...

— Amigo — manifestou Feijoo com sua habitual franqueza —, confesse que a notícia que nos trouxe pode ser uma tolice.

— Muito bem, meu senhor D. Evaristo, acredite no que quiser. Eu lavo as mãos.

Isso de lavar as mãos la Caña repetia muito; mas os fatos não correspondiam às palavras, como demonstrava a simples observação.

— Os senhores podem acreditar no que lhes convier — repetia o escritor da Fazenda, procurando elevar sua dignidade de noticiarista acima da zombaria dos amigos —, mas o que sustento é que antes de um mês o príncipe Alfonso estará no trono.

Riso geral. D. Basilio ficava vermelho e depois empalidecia. Seus lábios tremiam ao tocar a borda do copo.

— Aposto que não — disse Juan Pablo com raiva. — Isso, nunca. Antes disso, que voltem os cantonais. Como se fôssemos tolos na Espanha! Senhores, cabe na cabeça de vocês que venha para cá o príncipe Alfonso? E atrás dele dona Isabel. Belo futuro!... Outra vez o moderantismo. Mas eu pergunto — acrescentou com exaltação, deixando cair a capa e atirando o chapéu para trás —, eu pergunto: que gente tem o príncipe ao lado? Vamos, respondam-me.

D. Basilio não se atrevia a responder. Contentava-se em assumir ares de homem profundo, que não se resolve a soltar o enxame de ideias que lhe zumbe no cérebro.

— Respondam-me.

— Ninguém... quatro gatos — disse Montes.

— Os que não souberam defender a mãe quando a expulsamos, senhores... E agora... Se D. Basilio quiser, passaremos em revista todos os personagens do alfonsismo. Vamos, venham os ratos.

D. Basilio, por gosto, teria se metido debaixo da mesa. Não fazia senão morder o palito e rosnar como mastim que não se decide a latir nem quer tampouco calar-se.

— O alfonsismo é um crime — afirmou com a maior suficiência Leopoldo Montes, que não conhecia freios ao exprimir uma opinião.

— Mas um crime de lesa-nação — acrescentou Rubín. — Foi o que eu disse ontem à noite a Relimpio, que também vai caindo para esse lado. Nestes momentos, quando não se sabe o que sairá da guerra...! Pois quê, se D. Carlos não fosse um néscio, já não estaria em Madri?

— Mas isso prova o quê? — argumentou por fim D. Basilio, vendo uma saída favorável da confusão em que o adversário o metia. — Que tem uma coisa com a outra?... Lógica, senhores, lógica.

— Nada, homem, esse menino não vem para cá... não vem... Ponho minha cabeça.

— Mas...

— Não há “mas”... Não vem, e não dê voltas, senhor de la Caña.

— Dê-me razões.

— Não vem... O senhor se convencerá, há de ver... Dê tempo ao tempo...

— Pois dê tempo ao tempo.

— Não, homem, não. Se não o levarem a seu ramo até que venha o príncipe, o senhor vai criar uma cabeleira e tanto...

— Não se trata aqui de eu criar cabelo ou deixar de criar — manifestou D. Basilio, incomodando-se um pouco e mostrando o palito desfiado.

Mas Rubín pôs-se a falar com Feijoo, que lhe perguntava por aquele inexplicável casamento do irmão com uma mulher corrompida. D. Basilio pegou conversa com os padres de tropa e com Nicolás Rubín. Naquele círculo faziam-lhe mais caso que no seu, e ele se expandia mais à vontade. Divididas as opiniões, o capelão do Quarto Montado votava pelo príncipe; mas o padre Rubín e outros dois que ali estavam bufavam só de ouvir falar do alfonsismo. D. Basilio, inclinando-se para aquele lado, apoiado no cotovelo, revelava-lhes segredos com muitíssima reserva. Já não faltava senão dar alguns contornos à coisa. Tudo estava disposto, e o primeiríssimo a estar por dentro era Serrano.

— É o que os senhores estão ouvindo... Dê tempo ao tempo... Hão de ver... e logo, muito logo.

Depois se apoderava dissimuladamente de todos os torrões de açúcar que podia e ia para casa, despedindo-se de cada um em particular com aperto de mão e palmada nas costas.

iv

Rubín, depois de seu fracasso no campo e na corte de D. Carlos, tomara aversão aos homens do partido absolutista; mas conservava as ideias autoritárias e a opinião de que não se pode governar bem sem distribuir muita pancada. Descartava toda a parte religiosa do programa carlista, ficando apenas com a política, porque já vira na prática que os padres estragam tudo. Dizia que seu ideal era um governo de pau, que fizesse as leis e as aplicasse sem contemplações, mirando sempre a justiça, com uma tranca muito grande e sempre erguida na mão. Esse sistema autocrático abrangia mais os modos de governar que as ideias e soluções teóricas, porque entre as que Rubín professava havia algumas acentuadamente avançadas, populares e até socialistas. Um de seus temas era este:

— Convém que todo mundo coma... porque a fome e a pobreza são o que mais estorva a ação dos governos, o que aquece as revoluções, mantendo a nação na inquietação e na desordem.

Esse socialismo sem liberdade, combinado com o absolutismo sem religião, formava na cabeça daquele bom homem uma embrulhada de mil demônios.

Outro de seus temas era: Não mais patifes e pena de morte ao ladrão. Ou, mais claramente: castigo imediato e cruel a todos os que vão ao governo com o único fim de fazer negociatas. A rajada de ambição que passa pela mente de todo espanhol com maior ou menor frequência, fazendo-o dizer se eu fosse o poder, soprava em Rubín duas ou três vezes por dia, mais como sonho que como esperança; mas, nas horas de solidão, adormecia com aquela ideia e trabalhava nela, batendo-a como se bate clara de ovo para que cresça, avolume-se e forme espuma. A conclusão desse movimento mental era que “aqui o que faz falta é um homem de coragem, um sujeito de muito talento, com cada rim do tamanho da cúpula do Escorial”.

Sua prisão por suspeitas de conspiração acentuou-lhe a soberba e a melancolia sonhadora, revolvendo ao mesmo tempo ainda mais o cozido manchego de seu programa político-social. Saiu da cadeia com a cabeça mais confusa e os ânimos mais acesos. Entrou-lhe então certo afã de leitura, porque reconhecia a própria ignorância e a necessidade de compreender as ideias dos grandes homens e os acontecimentos notáveis ocorridos no mundo. Durante duas semanas leu muito, devorando obras diferentes, e, como tinha facilidade de assimilação e muita lábia, aquilo que lia pela manhã despejava à noite no café, transformado em passarinhos de papel. Passarinhos de papel eram seus conceitos; mas nem por isso deixavam de cativar D. Basilio, Leopoldo Montes e o próprio Feijoo.

Um dia despertou pensando que devia chocar alguma coisa sobre sistemas filosóficos e história das religiões. O móvel disso não era simplesmente o amor ao saber, mas um desejo maligno de possuir argumentos com que esmagar os padres da mesa próxima, que só por serem padres, embora soltos, lhe eram antipáticos, pois odiava a classe inteira desde aquela travessura que os de batina lhe fizeram no Norte.

Pouco a pouco, à medida que ia acumulando argumentos, Rubín foi deslizando ao longo do divã até chegar a presidir a mesa dos capelães. Eram três, quatro quando ia Nicolás Rubín, todos bem-humorados e muito atrevidos. Nenhum mordia a língua, qualquer que fosse o tema. O mais qualificado era um velho catarrento, andaluz, grande narrador de anedotas, de linguagem suja e, no fundo, boa pessoa. Retirava-se às onze e celebrava suas missinhas pela manhã. O segundo era padre de tropa, expulso do serviço por não sei que abusos, e o terceiro, ex-capelão de um vapor do correio, despedido porque o apanharam contrabandeando tabaco. Esses dois eram belas peças; haviam corrido muito mundo e estavam sem licença, ladrando de fome, expulsos de todas as igrejas e sem encontrar amparo em parte alguma. Tal situação lhes azedava o caráter, fazendo-os parecer piores do que eram. Jamais vestiam hábitos; mas conservavam o rosto barbeado, como para estarem disponíveis caso fossem readmitidos no ofício.

Não sei como se chamava o velho catarrento, porque todos ali o tratavam de Pater; até o garçom que o servia lhe dava esse apelido. O ex-castrense chamava-se Quevedo e era do próprio Perchel, feio como um susto, marcado de varíola, de olhar oblíquo e com cara de sequestrador, capaz de aterrorizar o infeliz que a encontrasse no meio de um caminho solitário. Aquele clérigo bebia aguardente como se fosse água, e sua fala era um ceceio com gargarejos. Contava feitos de armas e aventuras de quartel com graça rude e sinceridade grosseira que levantavam bolhas. O outro se chamava Pedernero e era do próprio Ceuta, filho de uma oficiala do Fijo, jovem e simpático, de maneiras muito mais finas que as dos colegas, vivo como um jorro de pólvora e com um bico de ouro que dava gosto ouvir. Para ele não tinham segredos a vida humana nem a juventude. Seu companheiro Quevedo costumava envolver-se em formas hipócritas; Pedernero, não. Apresentava-se sem máscara, tal como era, começando por dizer que o superior fizera muito bem em retirar-lhe as licenças.

O chamado Pater afetava certo magistério episcopal diante dos outros dois; repreendia-os quando diziam alguma barbaridade e lhes dava bons conselhos, professando o princípio de que tudo era tolerável quando tratado em tom de brincadeira. Ele, por exemplo, falava e ouvia, sobretudo ouvia, muitas coisas ruins; mas sua vida permanecia pura. Tinha o rosto redondo, branco e risonho, e, quando estava sem chapéu, parecia uma mulher de cinquenta anos, governanta de cônego. Não gostava de que armassem à mesa disputas violentas, mas de que a roda se mantivesse no terreno das fofocas saborosas e das pilhérias picantes, ainda que sujas. Pois bem; foi nesse círculo que Juan Pablo se introduziu, com sua clerofobia e seu saber pegajoso de teologia e filosofia católica.

Começou dando pontadas. Como no princípio sua conversa era frívola e de gazeta, todos riam e o Pater estava em suas glórias. Mas pouco a pouco Rubín ia tirando proposições sérias. O poder temporal do Papa foi posto por terra, sem que nenhum dos tonsurados fizesse defesa formal. O Pater e Quevedo tomavam a questão com calma, opondo aos ataques de Rubín argumentos evasivos em estilo jocossério. Pedernero levava tudo na brincadeira; mas uma noite em que Rubín trouxe, bem fresquinho e colado com saliva, o tema da pluralidade dos mundos habitados, Pedernero começou a despertar. Era doutor em Teologia e, embora houvesse muito tempo tivesse enforcado os livros, alguma coisa recordava; além disso, possuía grandes dotes de polemista. Rubín saiu um tanto contundido; mas, na retirada, defendia-se bem com sua flexibilidade e agudeza. Mais adiante levou um arsenal de argumentos contra a revelação.

— Nisto já não acreditam senão os paralelepípedos...

Todo o Antigo Testamento não passava de fraude, imitação das teogonias indiana e persa. Via-se claramente a reprodução dos mesmos mitos e símbolos. O pecado original, a expulsão do paraíso, a encarnação, a redenção eram uma série de representações poéticas e naturalistas reproduzidas através dos séculos, “tanto às margens do Eufrates como do Nilo ou do Jordão”.

“É mesmo? Pois agora vai ver”, disse consigo Pedernero, cujo amor-próprio de teólogo contrabandista ficou extraordinariamente ferido. Em dois ou três dias refrescou as leituras, refez sua erudição descomposta pelas viagens e pela vida de libertino e, bem preparado, acudiu ao torneio a que o outro o desafiava com sabedorias de terceira mão, aprendidas nos livrinhos franceses de ciência popular a trinta cêntimos o volume. Pois, amigo, certa noite o ex-capelão do vapor-correio arregaçou as mangas e deu tamanha surra em Rubín que este teve de sair com as mãos na cabeça. Era de ver Pedernero transfigurado, feito orador ardente e cheio de arrogante facúndia. O auditório se apertava, e das mesas próximas e dos veladores do centro vinha gente, amontoando-se ao redor dos valentes contendores. Rubín era agudo, ágil, guerrilheiro da discussão; o outro dominava o assunto e era firme e sóbrio de palavras, seguro na dialética.

As coisas não pararam aí. Rubín, cheio de despeito, manuseava sem cessar seus livrinhos de trinta cêntimos, procurando armas contra a Igreja. Mal as brandia, Pedernero o arrebentava. Sua argumentação era a maça de Fraga. O Pater não cabia em si de alegria e dançava no assento; Quevedo alongava o focinho e até se atrevia a dizer mu, repetindo as admiráveis razões do amigo. Os demais participantes se envalentonaram, alguns aderindo ao partido de Pedernero, outros ao de Rubín, não por convicção, mas para se divertir e aumentar a algazarra. Além dos três padres, eram fregueses daquela mesa as seguintes pessoas: um riquíssimo corretor da Bolsa que, com o Pater, levava dez anos comparecendo todas as noites ao mesmo lugar; um baixo de ópera aposentado; um funcionário de pequeno salário e o dono de uma conceituada fábrica de chocolate. Os padres e esses quatro senhores formavam o grupo mais fraternal que se possa imaginar. Levando cada qual um bocado saboroso ao festim da maledicência, passavam docemente as horas, amigos ali, distantes uns dos outros no trato da vida comum.

Rubín, vendo-se vencido, pois até o corretor da Bolsa, que era o mais livre-pensador de todos, caíra para o lado de Pedernero, procurava briga, empregando argumentos de má-fé e personalizando a disputa. O baixo de ópera julgava-se no dever de apoiar a ideia religiosa, por tê-la exprimido tantas vezes com um lençol sobre a cabeça, no respeitável papel de sumo sacerdote; e o da fábrica de chocolate atiçava os dois para ver se a coisa se azedava e não restavam senão os rabos. Ouviam-se naquela parte do café cláusulas furibundas, proposições que pareciam ditas num púlpito, e sobre o tumulto sobressaía a valente voz de Pedernero gritando:

— Eu lhe digo que nenhum Santo Padre pôde sustentar semelhante disparate. Não me aborreça. Desafio o senhor a trazer o texto, e, se não o trouxer, é prova de que o inventa.

Naquela noite a coisa ficou mal, e o tom dos contendores, assim como a atmosfera aquecida que reinou na roda, faziam temer uma cena desagradável. A catástrofe teve lugar na noite seguinte, pois, tendo Rubín permitido a si mesmo algumas insinuações desfavoráveis à reputação da Virgem Maria, Pedernero saltou do assento, trêmulo e descomposto, em estado de horrível agitação, e lançou ao adversário anátema tão furibundo que os amigos tiveram de segurá-los.

— Porque eu sou um desgraçado. Reconheço — gritava o capelão, sufocando — que sou mau sacerdote; mas diante de mim não há judeu sem-vergonha que se atreva a falar mal da Virgem. Ou o senhor engole essas infâmias ou lhe quebro a alma... agora mesmo.

Não se pode descrever o que ali aconteceu. Vozes, gritos, pontapés, capas rasgadas, copos derrubados, torrões pelo chão. Agarrando uma garrafa, Rubín apontou para o padre com tão má pontaria que ficou ferido na cabeça... o infeliz baixo de ópera. A confusão foi das mais célebres... D. Basilio puxou as abas de Rubín e por pouco não ficou com elas na mão. Todo o café se alvoroçou. O dono interveio...

Emigração. Desde o dia seguinte, Juan Pablo transferiu seus arraiais para outro café.

v

O primeiro que teve de segui-lo foi D. Evaristo González Feijoo, a quem tanto fazia este como aquele estabelecimento. Instalaram-se provisoriamente no Fornos e ali esperaram. Na segunda noite apareceu Leopoldo Montes, e na terceira D. Basilio, que os encontrou discutindo de qual café se apossariam em definitivo.

O escritor da Fazenda apressou-se a dar opinião favorável ao café de Santo Tomás, porque ali davam mais açúcar que em parte alguma. Montes replicou que não se devia olhar o caso sob o prisma exclusivo do açúcar e que o produto mais importante era o café. O da Aduana esteve a ponto de triunfar; mas o rejeitaram para não estarem sempre entre franceses, assim como se excluiu o Imperial por causa dos toureiros e outro pelas afetadas que o invadiam. Feijoo teria ficado ali; mas Rubín sentia antipatia pelos alunos das escolas preparatórias militares que iam ao Fornos nas primeiras horas. Incomodava-o também o costume de apagar parte do gás às dez da noite, quando saíam tais alunos. O local ficava meio às escuras e só tornava a ser bem iluminado à meia-noite, hora em que vinham cear os homens da Bolsa. A Rubín também aborreciam os ditosos homens da Bolsa, que não falavam senão de dinheiro.

Decidiram afinal estabelecer-se no Siglo da calle Mayor, onde encontraram bastantes pessoas conhecidas. Rubín precisava de alguns dias para aclimatar-se ao novo local. A princípio mudava frequentemente de mesa, ora porque o lugar estava exposto às correntes de ar, ora por certas vizinhanças um tanto incômodas. Numa das primeiras noites, quando os amigos ainda não haviam chegado, Rubín estava sozinho à mesa e prestava atenção a dois grupos próximos. Em ambos o diálogo era vivo e animado. No da direita diziam:

— Hoje fiz umas cinquenta arrobas a vinte e cinco reales. Mas o mercado está perdido. Os caipiras vão aprendendo muito. Hoje disseram que não trazem mais escarola se não a pusermos a dez.

No grupo da esquerda, composto por três indivíduos, Rubín ouviu o seguinte:

— Asseguro-lhe que admito a metempsicose, tal como a entendiam os egípcios e os caldeus.

Rubín compreendeu que os da direita eram fornecedores de víveres e os da esquerda, filósofos de café. No Siglo havia uma grande reunião de espíritas, à qual por aquela época comparecia Federico Ruiz. Rubín viu-o e aproximou-se da roda, tendo o gosto de discutir com os indivíduos mais entusiastas daquela seita. Juan Pablo entendia que essa história de ir correndo de mundo em mundo depois da morte era muito aceitável; mas não engolia o perispírito, nem a brincadeira de que Sócrates e Cervantes viessem conversar conosco quando nos aprouvesse. Ora, isso era para tolos. Um dos mais tresloucados da escola esforçava-se por convencer Rubín, adotando aquele tomzinho de unção e aquele trejeito de pescoço torto e olhos baixos em que cai todo propagandista de doutrina religiosa, qualquer que seja. Feijoo fingia acreditar, para lhes dar corda e ouvi-los desatinar. Federico Ruiz ia àquele círculo sempre com pressa e o tempo contado, porque a tal hora tinha de assistir a uma reunião para tratar da construção do monumento a Jovellanos; depois, a outra para ocupar-se do banquete que se daria aos pescadores das províncias que viriam ao Congresso de Piscicultura. Homem mais atarefado jamais se viu em nosso país e, como tinha tantas coisas na cabeça, para não esquecer muitas delas via-se obrigado a anotá-las a lápis nos punhos da camisa. Quando não precisava ir à Sociedade Econômica defender seu voto particular como membro da comissão informadora de reformas sociais, ia ao Fomento das Ciências dar uma conferência sobre a utilidade de elevar a estudo sério a arte da panificação. Entre uma coisa e outra, Ruiz passava algum tempo com os amigos espíritas e os animava a se organizar, estabelecer-se, alugar um local e, sobretudo, fundar um órgão na imprensa. Nada adiantariam sem órgão.

Ia também àquela rodinha Aparisi, o vereador, a quem os apóstolos já tinham meio transtornado; Pepe Samaniego, que não se deixava embair; e Dámaso Trujillo, dono da sapataria intitulada Ao ramo de açucenas, que acreditava em tudo como um bem-aventurado e, a sós em casa, fazia experiências com um banco de sapateiro. Na mesa próxima havia funcionários da Fazenda, da Governança e de Ultramar, e uma leva de desempregados. Entre eles, Rubín viu o indivíduo a quem faltavam apenas dois meses de emprego para poder pedir aposentadoria. Tinha pintada no rosto a ansiedade mais terrível; a pele era como casca de limão podre, os olhos de espectro, e, quando se aproximava da mesa dos espíritas, parecia um daqueles seres mortos havia milhares de anos que agora vêm por estes bairros, chamados pelo toque da perna de um velador. O clima de Cuba e das Filipinas o deixara só nos ossos e, como era todo ele pura carne seca, os olhos lhe brilhavam no rosto de tal modo que parecia disposto a devorar as pessoas. Um brincalhão teve a ideia de chamá-lo Ramsés II, e o apelido caiu tão em graça que Ramsés II ficou. Passando com desdém junto aos espíritas, sentava-se no círculo dos empregados, ouvindo mais que falando e permitindo-se fazer alguma observação com voz de além-túmulo, que saía de sua garganta como eco das frias cavernas de uma pirâmide egípcia.

— Dois meses, nada mais que dois meses me faltam, e tudo se transforma em promessas: hoje, amanhã, veremos, não há vaga...

Feijoo achegava-se a ele e lhe dava conversa, por pena, animando-o e procurando distraí-lo de seu tema; mas Ramsés II, cujo verdadeiro nome era Villaamil, não tinha outro consolo senão aplicar a orelha seca e amarela à conversa, para ver se ouvia algo de crise ou de próxima embrulhada que pusesse tudo de pernas para o ar. O que ele queria era que se armasse uma grande, mas muito grande, para ver se...

— Mas quem recomenda o senhor? — perguntou-lhe uma noite Juan Pablo.

— A mim, D. Claudio Moyano.

— Pois então o senhor está bem servido.

— Dizem que trazem o príncipe... — indicou Ramsés II com timidez.

— Sim; os russos vão trazê-lo... pelas vendas de Alcorcón. Está bem arranjado se espera que venha o príncipe... Aqui o que vem é a liquidação social... e depois, sabe Deus. Surgirá o homem de que se precisa, um sujeito com um porrete muito grande e com cada rim... deste tamanho.

Ramsés II baixava a cabeça. D. Basilio era seu único amigo, porque também ali punha o pano no púlpito para anunciar a vinda do príncipe...

— Naturalmente — acrescentava —, tem de vir com a estaca de que fala o amigo Juan Pablo.

Rubín sentia-se bem naquele círculo, mas certa noite aconteceu de ver, nas mesas da frente, um homem que o desconcertou por completo. Era um amigo que lhe emprestara dinheiro. A secreta antipatia inspirada pelo credor manifestava-se na alma de Rubín sob a forma de ódio recôndito, nascido talvez do sentimento de humilhação que as dívidas produzem em toda pessoa de amor-próprio muito suscetível. O tal era Cándido Samaniego, homem meio de foro, meio negociante, afável no trato, duro nos negócios. Muitas vezes renovara a Juan Pablo as notas promissórias e ultimamente o apertara com certa acrimônia. Rubín condensava seus sentimentos a respeito do prestamista nesta frase: “Pagar-lhe e depois quebrar-lhe a cabeça.” Desde que o via nas mesas da frente, sentia profundo mal-estar, dor de estômago e como que vontade de zangar-se. Ficava tão nervoso que teria atirado uma garrafa no primeiro espírita que falasse em chamar Epaminondas para consultá-lo sobre a marcha dos carlistas pelo Baztán.

E o pérfido inglês deixava-se cair por aquelas mesas, fingindo que precisava falar com o primo Pepe, mas com a intenção de aproximar-se de Juan Pablo, ver o que fazia e trocar com ele algumas palavras. O infeliz devedor engolia em seco e, pondo-lhe rosto risonho, convidava-o a tomar alguma coisa; mas o usurário agradecia e, se tinha ocasião, soltava-lhe indiretas tão suaves como esta:

— Veja que eu não posso mais. O senhor vive dizendo que na semana que vem, e francamente... lamentarei ver-me obrigado a dar um passo que...

O café tornava-se fel para Rubín, e a roda, um inferno. Era-lhe insuportável a companhia daquele homem que não podia mandar passear, imagem viva da desordem de sua vida, que lhe aparecia como o espectro de uma vítima quando ele estava mais contente. O único deleite de sua triste existência era o café. Aquele sonho plácido, Samaniego transformava-o em angustioso pesadelo. Não pôde mais e, certa noite, sem dizer nada, levantou voo para outras regiões.

vi

Nessa nova emigração, desejando estar o mais longe possível do Siglo, foi para o San Joaquín, na calle de Fuencarral, e não se deslocou mais ao norte porque não havia cafés nas altas latitudes de Madri. Mas nessa deserção já não o acompanharam nem D. Basilio Andrés de la Caña nem Montes; este porque o San Joaquín ficava onde Cristo deu as três vozes; aquele porque já se cansava da insistência com que Rubín zombava de suas profecias sobre a proximidade da Restauração. O próprio D. Evaristo Feijoo o seguiu de mau humor, dizendo-lhe com desabrimento que não gostava de cafés com piano e que o produto e a sociedade não deviam ser dos melhores naquelas alturas. Ficaram sozinhos alguns dias. Não viam por ali rostos amigos, até que certa noite apareceu no local um casal conhecido.

Eram Feliciana e Olmedo, o estudante de Farmácia amigo de Maxi. Já não viviam juntos, porque Olmedo dera uma grande reviravolta nos costumes, tornando-se aplicadíssimo às claras. Já não se escondia para estudar e fazia público alarde, com a maior desvergonha, de sua decidida inclinação a obter o grau naquele mesmo ano, chegando à audácia de escrever um trabalho muito bom sobre a dextrina e iludindo-se com a ideia de concorrer a uma cátedra. Mas encontrara seu antigo amor toda maltrapilha e a convidara a tomar café naquele estabelecimento afastado. Mais de duas horas ficaram conversando os que haviam sido amantes, e ela não parava a língua, relatando os maus-tratos que lhe dava o homem que então era seu dono. Voltaram duas noites depois à mesma mesa, e Rubín travou conversa com eles. Falaram do casamento de Maximiliano e dos incríveis acontecimentos que vieram depois, dizendo Juan Pablo que sua cunhadinha era uma bela peça.

— Mas, homem — disse Feijoo ao amigo —, por que o senhor deixou seu irmão casar?

— Falta um parafuso a meu irmão...

— Ah, quanto a bonita, isso ela é — acrescentou D. Evaristo com certo entusiasmo. — Eu a vi ontem... melhor dizendo, já a vi várias vezes.

— Onde?

— Em casa dela. É longo de contar... deixemos para outra noite.

Era sem dúvida coisa delicada para ser dita diante de testemunhas, e estas eram: Olmedo com Feliciana; o pianista cego, que nos intervalos costumava juntar-se àquela plácida roda; e uma senhora madura e fornida, fiel freguesa do café das nove às doze. Chamavam-na dona María de las Nieves, e era uma das figuras mais notáveis que Madri apresenta na variadíssima série dos tipos de café. Ia algumas vezes sozinha, outras com uma mulher de xale felpudo que parecia uma verdureira abastada. Levava uma mantilha cor de vinho, que tirava ao sentar-se, e logo se armava à sua mesa uma roda de homens composta das seguintes personagens: um porteiro do Colégio de Surdos-Mudos, um empregado do Tribunal de Contas, um velho tenente da classe de tropa, retirado do serviço, e dois indivíduos que tinham bancas de carne e frutas na plaza de San Ildefonso. Nessa sociedade, dona Nieves reinava como num salão, sendo ela quem pronunciava as frases maliciosas e faiscantes sobre o acontecimento do dia, e os outros, os que riam delas. Às vezes passava à mesa imediata, sobretudo no fim da noite, quando seus amigos, gente que precisava madrugar, começavam a abandonar o local. Formava-se então uma segunda roda. Dona Nieves, depois de bem digerido o café, tomava chocolate, e acompanhavam-na Juan Pablo, Feijoo, o pianista cego, Feliciana, Olmedo e algum outro. O próprio garçom, que chegara a familiarizar-se com aquela sociedade, também se juntava, tomando assento numa extremidade do círculo para ouvir e aplaudir. Dona Nieves era proprietária de algumas bancas do mercado e as alugava; por isso, assim como por suas muitas relações, pelos diferentes negócios em que se metia e pelos adiantamentos que fazia às vendedoras, exercia certo caciquismo na praça. Fazia-se respeitar pelos policiais, protegendo o fraco contra o forte e os infratores das Ordenações urbanas contra a tirania municipal.

Ao pianista cego o dono do café dava sete reales e a ceia. Durante o dia, dedicava-se a afinar pianos. Era casado e tinha família de oito pessoas. Tocava peças de ópera e de zarzuelas francesas como uma máquina, com execução fácil, embora incorreta, sem gosto nem sentimento. Apesar disso, em certas passagens muito naturalistas, nas quais imitava uma tempestade ou as badaladas de incêndio dadas por cada paróquia, o público o aplaudia muito, e no fim da noite pediam-lhe sempre habaneras.

A verdade é que tudo aquilo, dona Nieves e as vendedoras suas amigas, as mulheres de decência equívoca que iam ali acompanhadas de mães postiças, o garçom e suas familiaridades, o pianista e suas habaneras, aborreciam soberanamente Juan Pablo. Para cúmulo do fastio, Feijoo não era pontual e faltava muitas noites. Em compensação, Feliciana e Olmedo iam com maior frequência, levando ela uma amiguinha que acabara de sair de San Juan de Dios.

Nas últimas semanas de 1874, Rubín tornou a sentir comichão de leituras. Queria instruir-se a todo custo, labor imensa e difícil por lhe faltar base, pois seu pai, com a ideia de que o latim atrapalha o comerciante, não lhe permitira aprender senão as quatro operações e um pouco de francês. Não tinha biblioteca, e um amigo lhe fornecia livros. Foi vê-lo, escolheu os que mais lhe despertaram curiosidade pelos títulos e consagrou à leitura todo o tempo que o café e o sono deixavam livre. Adquiriu tantas ideias que sentia vivíssimas ânsias de devolvê-las por meio da propaganda. Ou pregava ou explodia. Grande pena não poder voltar à roda de Pedernero para cobri-lo de vergonha, porque já sabia o bastante para passar todos os teólogos pelo nariz.

As leituras de Rubín foram como uma descoberta. Ele já suspeitava daquilo, mas não se atrevia a exprimi-lo. O achado era negativo, isto é, descobrira que a melhor organização dos Estados é a desorganização; a melhor lei, aquela que anula todas; e o único governo sério, o que tem por missão não governar coisa alguma, deixando que as energias sociais se manifestem como bem entendem. A anarquia absoluta produz a ordem verdadeira, a ordem racional e propriamente humana. As sociedades, claro, têm suas idades como as pessoas: há sociedades que mamam, sociedades que andam de quatro, sociedades adolescentes, sociedades jovens e, por fim, as maduras e donas de si; sociedades com barba, numa palavra, e também com alguns cabelos brancos. Quanto às religiões e às práticas sociais delas derivadas, Juan Pablo ia muito longe, mas muito longe mesmo; é que o bilhete para tão longa viagem nada lhe custava. Somente na idade pueril, quando a sociedade baba e vive sob a férula do mestre, compreende-se que exista e tenha prosélitos a instituição chamada matrimônio, união perpétua dos sexos, contrariando a lei da Natureza... e em nome de quê?, vamos ver... Isso sim, acima de tudo a Natureza. Estudando bem a vida total, o entendimento se limpa das teias de aranha que nele teceram os séculos. A Natureza é a verdadeira luz das almas, o Verbo, o legítimo Messias, não o que há de vir, mas o que está sempre vindo. Ela fez a si própria e, em suas evoluções eternas, concebendo e nascendo sem cessar, é sempre filha e mãe de si mesma. Que tal? Aí têm canela fina.

Meu homem encontrava-se com força dialética e entusiasmo bastantes para pregar e espalhar pelo mundo aquelas verdades. Mas, como não tinha outro público senão a roda do café, teve de contentar-se com aquele inocente auditório. E daí? Quanto melhor não seria semear a nova doutrina em entendimentos simples e absolutamente incultos! O próprio Jesus Cristo não escolhera por discípulos uns infelizes pescadores, homens rudes que não conheciam letra alguma, e mulheres de má vida? Eis por que dona Nieves e as vendedoras suas amigas, Feliciana e a freguesa de San Juan de Dios, o garçom e o pianista foram escolhidos para que Juan Pablo semeasse neles a primeira semente daquele Evangelho ao natural. Durante muitas noites fez propaganda acalorada. Às vezes precisava irritar-se, porque lhe faziam observações estúpidas ou zombeteiras. Como se exprimia muito bem, todos o ouviam com grande atenção, e as moças do partido lançavam-lhe bons olhos. O garçom era o mais entusiasmado e dizia:

— Que lábia tem este senhor Rubín!

Passava a anarquia e até o casamento; mas, quando chegava à afirmação de que tudo é Natureza, reinava grande confusão no auditório, e dona Nieves, tomando o caso por brincadeira, pedia maior clareza.

— Mas vamos ver, D. Juan Pablo, explique-se melhor... porque essa história de que todos sejamos tudo eu não compreendo bem...

— A primeira coisa, minhas filhas — dizia com unção o expositor —, é limpar o intellectus dos erros adquiridos na infância, dos preconceitos e bordões; a primeira coisa é querer compreender. Não admito argumentos que não sejam racionais.

— E quando morremos — perguntou uma das samaritanas —, que acontece?

— Filha, quando morremos, passamos a fundir-nos no grandioso conjunto universal...

Veja esta... Pois o que você queria, continuar gozando e divertindo-se por lá?

— E Deus?

— Deus!... Francamente, não gosto, por considerações que se devem a toda grande ideia histórica, não gosto, digo, de falar mal Dele... Limito-me, pois, a negá-lo... respeitosamente.

— Outra! Que coisas lhe ocorrem! Então a missa também não é nada...

— Maria Santíssima! Com que a senhora sai agora. A missa... é um rito, um de tantos ritos.

— E tanto faz ouvi-la como não? E para que servem os funerais?

— Outro rito... Aquela que não possa ou não saiba dar à Natureza o que é da Natureza e à história o que é da história, que se cale... Não existe morte, minhas filhas: quem tem ouvidos, ouça... Esta é a verdade; morrer é cumprir uma lei de harmonia.

— Que confusão o senhor arma!

Uma das vendedoras que estavam ali tinha o seio muito volumoso. Certa vez, enquanto se confessava, disse-lhe o padre: “Seja modesta no vestir e não faça ostentação dessas naturezas...” “O quê, senhor?” “Isso, a dianteira.” Por isso, ao ouvir falar de Natureza e de pecado, julgou que se referiam àquelas partes que o recato deve cobrir e disse, escandalizada:

— Que conversas indecentes vocês puxam!

— Indecentes, não, filha.

— O que eu digo e sustento — manifestou uma das samaritanas, indo direto ao ponto — é que este D. Juan Pablo está biruta.

Louco, talvez não; mas cansado, sim, de seus inúteis esforços. Nem abrindo a marteladas um rombo naquelas cabeças de pedra conseguiria meter-lhes a luz da verdade. Deslocando-se para o velador imediato, onde o cego estava ceando, mandou ao garçom que lhe pusesse ali o chocolate. O cego voltou para ele os olhos vazios e mortos, o rosto que parecia um lampião apagado, e disse com profundíssima tristeza:

— Mas é verdade, D. Juan Pablo, o que o senhor nos conta? O senhor acredita nisso mesmo, ou quer apenas se entreter e divertir-se conosco, ignorantes? Encheu-me de dúvidas. Será verdade que, quando a gente morre, vira escarola?

Juan Pablo olhou para o cego, e congelaram-lhe nos lábios as palavras com que ia espetar-lhe de novo sua cruel filosofia. Rubín era homem de bom coração, e pareceu-lhe pouco humano aumentar as trevas daquela triste e miserável vida. Mas, ao mesmo tempo, a consciência não lhe permitia desmentir o que acabara de sustentar. A dignidade antes de tudo. Lutou algum tempo entre a piedade e o dever e, como o cego tornasse a perguntar com insistente ansiedade: “Mas é certo que, ao morrer, viramos couves?”, o apóstolo respondeu:

— Vou lhe dizer... há opiniões... Não faça caso. Se não fossem essas brincadeiras, como passaríamos o tempo?

Essas conversas filosóficas não continuaram, porque sobreveio o caso de Sagunto, e esse acontecimento absorveu a atenção geral em todos os cafés, do maior ao menor. Rubín estava furioso e sustentava que o Governo não tinha vergonha se não fuzilasse no ato... mas no ato... Martínez Campos, Jovellar e todos os demais envolvidos naquela embrulhada. Quando os amigos não queriam ouvi-lo sobre o particular, falava sozinho. Desmentia categoricamente quantas notícias chegavam ao café. Tudo era falso. Antes que o príncipe viesse, haveria uma insurreição geral, e os carlistas fariam o último esforço. Negava que D. Alfonso tivesse chegado a Marselha, que embarcasse para Barcelona no Navas de Tolosa e, vendo-o entrar em Madri, haveria de negar que estivesse entre nós. Mas certa noite, depois de longas ausências, Feijoo chegou ao café e, sentando-se os dois à parte, disse-lhe:

— Homem, vi Jacinto Villalonga; falei longamente com ele. O senhor sabe que é da situação e muito meu amigo. Naturalmente, não aceita a Direção que lhe ofereceram, porque prefere andar solto. É unha e carne com Romero Robledo. E vou ao que importa... Falei-lhe do senhor...

— De mim!

— Sim; é preciso colocar-se. O senhor não pode continuar assim.

— Veja, amigo Feijoo — disse Rubín, mastigando as palavras para sair daquele atoleiro —, eu não posso aceitar... E o decoro dos homens? Eu professei toda a vida!...

— Música, música.

— Não sou desses que falam mal de uma situação e depois vão tirar as manchas daquele que antes esfolaram.

— Música, música.

— Enfim, agradeço... mas não pode ser... Eu me sentiria ofendido, sim senhor, ofendido.

— Então — exclamou Feijoo em voz alta, abrindo os braços e tomando um tom que não se podia dizer se era de indignação ou zombaria —, então já não há patriotismo.

— Outra!... Patriotismo há, sim; mas eu...

— O senhor fará o que eu mandar, e teremos nomeação.

Rubín continuou toda a noite afetando mau humor, uma severidade sombria, o mal-estar da pessoa a quem põem um punhal no peito para que consume um ato contrário às convicções. Ao retirar-se para casa, comparava-se a Wamba e dizia consigo: “Que remédio... paciência. Tenho de ser alfonsino... à força. Que compromisso... Deus dos céus, que compromisso!...”

Fortunata e Jacinta

Sinopse

Fortunata e Jacinta: duas histórias de casadas é o grande romance de Benito Pérez Galdós sobre desejo, casamento, maternidade e classe social na Madri do século XIX.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nas quatro partes e nos 31 capítulos da obra.

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